UNESP -
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio
de Mesquita Filho"
FACULDADE
DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO
- Campus
Universitário de Bauru
Anexo
I - O
Sermão em Vieira
Naturalmente os tempos mudaram
e o sermão ou
homilia não tem mais o estilo gongórico
do barroco. Nem sempre se destina a ser peça
oratória como uma catilinária patética.
A linguagem moderna é mais dialógica,
mais referencial, mais próxima do grande público,
porque a Igreja fala para todos, não só para
a elite.
Também na arte literária os estilos
mudaram. Nem por isso se pode ignorar os clássicos
que deixaram uma obra eterna como o bronze. No dizer
de Cícero "o homem passa como o som do
cimbalo, mas sua obra é eterna como o bronze".
Se o assunto é o discurso religioso, não
se pode ignorar a arte do Padre Antonio Vieira que,
no "Sermão da Sexagésima",
transmite ensinamentos sempre atuais sobre a arte
de pregar.
Vieira está na capela real, em Portugal. É 1655.
Tempo de Quaresma. Prega para a corte. Seu tema é:
a palavra de Deus ("Semen est verbun Dei" Lc
8). O que faz um missionário brasileiro (embora
tenha saido criança de Portugal) pregando
no coração da coroa Portuguesa?
Logo no início do sermão Vieira trata
de situar-se e de situar os padres da corte lembrando
que todos são pregadores da palavra, mas uns
saem para as missões, vão pregar longe,
outros preferem pregar na Pátria. E fulmina: "Ah
dia do juizo! Ah pregadores! os de cá, achar-vos-ei
com mais paço, os de lá, com mais passos:
Exiit seminare".
Vieira está falando sobre a parábola
do semeador, descrita em Lucas, capítulo 8: "Ecce
exiit qui seminat, seminare". Segundo ele o
Evangelho diz que o semeador saiu, mas não
diz que retornou. Cristo definiu de modo semelhante
a vocação do pregador: "Não
olhe para trás quando pegar no arado".
Depois Vieira entra no texto
da parábola,
lembrando que "quando Cristo mandou pregar os
apóstolos pelo mundo, disse-lhes desta maneira:
Euntes in mundum universum, praedicate omni creaturae:
Ide e pregai a toda criatura". Ele mesmo indaga
se os animais também não são
criaturas. Se toda a natureza não é criatura: "Pois
hão de pregar os apóstolos às
pedras? Hão de pregar aos troncos? Hão
de pregar aos animais? Sim: diz São Gregório,
depois de Santo Agostinho. Porque como os apóstolos
iam pregar a todas as nações do mundo,
muitas delas bárbaras e incultas, haviam de
achar homens degenerados em todas as espécies
de criaturas; haviam de achar homens brutos; haviam
de achar homens troncos; haviam de achar homens pedras".
Em seguida descreve as agruras de
um missionário
em terra longínqua e inóspita como
o Brasil ("... houve missionários afogados,
porque uns se afogaram na boca do grande rio Amazonas:
houve missionários comidos, porque a outros
comeram os bárbaros na ilha dos Aroãs:
houve missionários mirrados, porque tais tornaram
os da jornada dos Tocantins, mirrados da fome e da
doença, onde tal houve, que andando vinte
e dois dias perdidos nas brenhas, matou somente a
sede com o orvalho que lambia das folhas".
Vieira não está apenas pregando para
a corte. Está mostrando o trabalho dos Jesuitas
na catequese e na colonização do Brasil,
certamente esperando apoio e colaboração
da coroa portuguesa.
Apressa-se em justificar o desabafo
afirmando que não se queixa, que tudo faz pela glória
de Deus: "Para os semeadores, isto são
glórias: mirrados sim, mas por amor de Vós
mirrados: afogados sim, mas por amor de Vós
afogados: comidos sim, mas por amor de Vós
comidos: pisados e perseguidos sim, mas por amor
de Vós pisados e perseguidos".
É de se imaginar o efeito retórico
dessa reiteração de categorias semânticas
sobre o auditório solene e circunspecto. Pregando
na Quaresma, tempo de penitência e de conversão
para a Igreja, Vieira busca sensibilizar a corte
para as injustiças que geram pobreza na colônia: "...será bem
que o mundo morra de fome? Não será bem,
nem Deus quer que seja, nem há de ser".
Feito o "intróito" do sermão
com clara motivação política,
Vieira retoma o plano espiritual ao interpretar a
parábola:
"O trigo que semeou o pregador Evangélico,
diz Cristo, que é a palavra de Deus. Os
espinhos, as pedras, o caminho, e a terra boa,
em que o trigo caiu, são os diversos corações
dos homens. Os espinhos são os corações
embaraçados com cuidados, com riquezas,
com delícias; e nestes afoga-se a palavra
de Deus. As pedras são os corações
duros e obstinados; e nestes seca-se a palavra
de Deus, e se nasce, não cria raízes.
Os caminhos são os corações
inquietos e perturbados com a passagem e tropel
das coisas do mundo, umas que vão, outras
que vêm, outras que atravessam, e todas
passam; e nestes é pisada a palavra de
Deus, porque ou a desatendem, ou a desprezam.
Finalmente, a terra boa são os corações
bons, ou os homens de bom coração,
e nestes prende e frutifica a palavra divina,
com tanta fecundidade e abundância, que
se colhe cento por um: Et fructum fecit centuplum."
Posto que a palavra de Deus é semente e que
tantos a anunciam há tanto tempo por todo o
mundo, porque ela dá tão pouco fruto?
- indaga Vieira:
"Assim como Deus não é hoje
menos Onipotente assim a sua palavra não é hoje
menos poderosa do que dantes era... porque não
vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus? Esta
tão grande e tão importante dúvida
será a matéria do sermão.
Quero começar pregando-me a mim. A mim
será, e também a vós; a
mim para aprender a pregar, a vós para
que aprendais a ouvir."
Aqui
começa a parte didática do sermão
sobre a arte de pregar. Em resumo, Vieira diz:
A
persuação pode ser fraca ou deficiente
por três motivos
1) Por causa do pregador
2) Por causa do ouvinte
3) Por causa de Deus
Assim, para converter
as almas através do
sermão:
1) Há de concorrer
o pregador com a doutrina, persuadindo
2) Há de concorrer
o ouvinte com o entendimento, percebendo;
3) Há de concorrer Deus com a graça,
alumiando.
Também para alguém se ver no espelho é necessário:
1) olhos
2) espelho
3) luz
Se tem espelho e é cego, uma pessoa não
se pode ver por falta de olhos;
Se tem espelho e
olhos, e é de noite, não
se pode ver por falta de luz;
Que é a conversão senão
entrar dentro de si e ver-se a si mesmo? - indaga.
Então, temos
este esquema
Homem conhecimento olho
Pregador doutrina espelho
Deus
Graça
luz
De
quem é a
falha para haver pouco fruto?
De
Deus não pode ser porque é profissão
de Fé definida no concílio tridentino
e no Evangelho. Por outro lado, se Deus dá o
sol e a chuva aos bons e aos maus [ terrenos para
a semente germinar] ; aos maus que se quiserem fazer
bons, como a negará? "Qui solem suum
oriri facit super bonos, er malos, et pluit super
justos, et injustos".
Então a falha é do pregador ou do
ouvinte: "Os ouvintes, ou são maus ou
são bons; se são bons, faz nêles
grande fruto a palavra de Deus; se são maus,
ainda que não faça neles fruto, faz
efeito."
Afinal
as sementes que cairam entre os espinhos ou nas
pedras não deram fruto, mas nasceram:
"Os piores ouvintes que há na Igreja
de Deus são as pedras e os espinhos. E por
que? os espinhos por agudos, as pedras por duras,
ouvintes de entendimentos agudos, e ouvintes de vontades
endurecidas, são os piores que há...mas é tanta
a força da palavra divina que apesar da agudeza
nasce nos espinhos, e apesar da dureza nasce nas
pedras."
Então a culpa pelo pouco fruto é do
pregador:
"No pregador podemos considerar cinco circunstâncias:
1)
A Pessoa que é
2)
A Ciência
que tem
3)
A Matéria
que trata
4) O Estilo que segue
5)
A Voz com que fala".
Podemos
acrescentar mais duas circunstâncias
ao modelo de Vieira:
6) Com quem fala
7)
O que quer alcançar
Para
persuadir, convencer, transformar, o pregador tem
que apresentar
coerência entre o que diz
e o que pratica:
"O pregar que é falar, faz-se com a
boca; o pregar, que é semear, faz-se com a
mão. Para falar ao vento, bastam palavras;
para falar ao coração, são necessárias
obras".
Mesmo
Deus não ficou só nas palavras quando
fez promessas a Abraão. Deu efetivamente a terra
prometida ao povo que efetivamente foi tirado do cativeiro.
Efetivamente enviou seu próprio Filho ao mundo:
"Na união da palavra de Deus com a maior
obra de Deus, consistiu a eficácia da salvação
do mundo".
Por que?
"O Filho de Deus enquanto Deus, é palavra
de Deus, não é obra de Deus: Genitum,
non factum. O Filho de Deus enquanto Deus e Homem, é palavra
e obra de Deus juntamente: verbum caro factum est.
De maneira que até de sua palavra desacompanhada
de obra, não fiou Deus a conversão
dos homens".
O
sermão dá pouco resultado quando
o auditório ouve uma coisa e vê outra:
"Sabem padres pregadores, por que fazem pouco
abalo os nossos sermões? Por que não
pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos.
Por que convertia o Batista tantos pecadores? Porque
assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos,
os seus exemplos pregavam aos olhos".
João Batista pregava a penitência mas
vivia no deserto alimentando-se de gafanhotos; condenava
a vaidade, mas vestia-se com peles de camelo; pregava
o retiro e fugia das cortes: "Ecce Homo: eis
aqui o homem que deixou as côrtes e as cidades
e vive num deserto e numa cova. Se os ouvintes ouvem
uma coisa e vêem outra, como hão de
se converter?"
A
falha de comunicação estaria no
estilo do pregador?
"Um estilo tão dificultoso, um
estilo tão afetado, um estilo encontrado
a toda arte e a toda natureza?... O estilo há de
ser muito fácil e muito natural... Por
isso Cristo compara o pregar ao semear, porque
o semear é uma arte que tem mais de natureza
que de arte... O pregar há de ser como
quem semeia, e não como quem ladrilha,
ou azuleja... O estilo pode ser muito claro e
muito alto, tão claro que o entendam os
que não sabem, e tão alto que tenham
muito que entender nele os que sabem".
O
sermão também precisa ter unidade
para persuadir. Não se deve tratar muitos
assuntos ao mesmo tempo:
"Quem levanta muita caça e não
segue nenhuma, não é muito que se recolha
com as mãos vazias".
"Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre
o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara
milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara
cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma
confusão verde. O Batista convertia muitos
na Judéia, mas quantas matérias tomava?
Uma só matéria: Parate viam Domini;
preparação para o reino de Cristo."
Há de tomar o pregador uma só matéria,
há de defini-la para que se conheça,
há de dividi-la para que distinga, há de
prová-la com a Ecritura, há de declará-la
com a razão, há de confirmá-la
com o exemplo, há de amplificá-la com
as causas, com os efeitos, com as circunstâncias,
com as conveniências que se hão de seguir,
com os inconvenientes que se devem evitar, há de
responder às dúvidas, há de
satisfazer às dificuldades, há de impugnar
e refutar com toda a força da eloquência
os argumentos contrários, e depois disto há de
colher, há de apertar, há de concluir,
há de persuadir, há de acabar.Isto é sermão,
isto é pregar, e o que não é isto, é falar
de mais alto. Não nego nem quero dizer que
o sermão não haja de ter variedade
de discursos, mas esses hão de nascer todos
da mesma matéria, e continuar e acabar nela.
Cada
um deve pregar o seu sermão, não
o alheio.
O
sermão deve sair da cabeça, não
da boca: "O que sai só da boca, pára
nos ouvidos; o que nasce do juizo penetra e convence
o entendimento."
Estaria a falha dos pregadores na voz?
"Antigamente
pregavam bradando, hoje pregam conversando."
Quando
estava no corte de Pilatos Cristo tinha a seu favor
a sua razão, e tinha contra si os
brados da multidão. "A razão não
valeu para o livrar, os brados bastaram para o por
na cruz. E como os brados no mundo podem tanto, bem é que
bradem alguma vez os pregadores, bem é que
gritem".
Em
muitas ocasiões, porém, "o
praticar familiarmente, e o falar mais ao ouvido
que aos ouvidos, não só concilia maior
atenção, mas naturalmente e sem força
se insinua, entra, penetra e se mete na alma".
Afinal,
Moisés tinha voz fraca, mesmo assim
convencia e persuadia.
Os
sermões dão pouco fruto, na verdade,
porque não se prega a palavra de Deus:
"As palavras de Deus pregadas no sentido que
Deus as disse, são palavras de Deus; mas pregadas
no sentido que nós queremos, não são
palavras de Deus, antes podem ser palavras do demônio."
No
caso da tentação de Cristo por
exemplo: "Todas as Escrituras são palavras
de Deus; pois se Cristo toma a escritura para se
defender do diabo, como toma o diabo a Escritura
para tentar a Cristo? A razão é porque
Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro
sentido, e o diabo tomava as palavras da Escritura
em sentido alheio e torcido".
"Enfim, para que os pregadores saibam como
hão de pregar; e os ouvintes, a quem hão
de ouvir, acabo com um exemplo do nosso reino, e
quase dos nossos tempos. Pregavam em Coimbra dois
famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus
escritos. Não os nomeio, porque os hei de
desigualar.
Altercou-se
entre alguns doutores da Universidade, qual
dos dois fôsse maior
pregador, e como não há juizo sem
inclinação, uns dizem este; outros,
aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha
maior autoridade, concluiu desta maneira: "entre
dois sujeitos tão grandes não me
atrevo a interpor juízo; só direi
uma diferença, que sempre experimento.
Quando ouço um, saio do sermão
muito contente do pregador; quando ouço
outro, saio muito descontente de mim". Com
isto tenho acabado. Algum dia vos enganastes
tanto comigo, que saíeis do sermão
muito contentes do pregador; agora quisera eu
desenganar-vos tanto, que saireis muito descontentes
de vós. Semeadores do Evangelho, eis aqui
o que devemos pretender nos nossos sermões,
não que os homens saiam contentes de nós,
senão que saiam muito descontentes de
si; que lhes pareçam mal os seus costumes,
as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições,
e enfim, todos os seus pecados. Contanto que
se descontentem de si, descontentem-se embora
de nós. Si hominibus placerem, Christi
servus non essem, dizia o maior de todos os pregadores,
São Paulo. Se eu contentara aos homens,
não seria servo de Deus. Oh contentemos
a Deus, e acabemos de não fazer caso dos
homens! Advirtamos que nesta mesma igreja há tribunas
mais altas que as que vemos: Spectaculum facti
sumus Deo, angelis, et hominibus. Acima das tribunas
dos reis, estão as tribunas dos anjos,
esta a tribuna e o tribunal de Deus, que nos
ouve, e nos há de julgar. Que conta há de
dar a Deus um pregador no dia do juizo? O ouvinte
dirá: não mo disseram; mas o pregador?
Vae mihi quia tacui. Ai de mim que não
disse o que covinha: Não seja mais assim
por amor de Deus, e de nós. Estamos às
portas da Quaresma, que é o tempo em que
principalmente se semeia a palavra Deus na Igreja,
e em que ela se arma contra os vícios.
Preguemos, e armemo-nos todos contra os pecados,
contra as soberbas, contra os ódios,
contra as ambições, contra as
invejas, contra as cobiças, contra as
sensualidades.
Veja o céu que ainda tem na terra quem
se põe da sua parte. Saiba o inferno
que ainda há na terra quem lhe faça
guerra com a palavra de Deus; e saiba a mesma
terra, que ainda está em estado de reverdecer,
e dar muito fruto: Et fecit fructum centuplum."