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UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio de Mesquita Filho"
FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO - Campus Universitário de Bauru
Capítulo III - A Recepção do Discurso
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
Sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Cecília Meireles (Romance LIII ou das palavras aéreas)
1. Atualização da Leitura

Ao criticar a história recente da Literatura, Hans Robert Jauss, da Escola de Constança, na Alemanha, afirma que nem a Teoria Literária Marxista (a qual procurava demonstrar o sentido da literatura como retrato da realidade social), nem a escola formalista (que compreendia a literatura como uma sucessão de sistemas estético-formais sem relação com o processo geral da história) reconhece o verdadeiro papel do leitor. Jauss propõem então, que a história da literatura deve levar em conta as instâncias de recepção do texto. Segundo ele uma obra é lida porque é compreendida, portanto tem sentido para uma época, para um grupo social. Superando a clássica separação entre história da literatura e estética, Jauss entende a permanência de uma obra através do tempo em função da atuação do público sobre essa obra e não em função dela mesma, por valores eternos e imutáveis contidos na obra. A estética da recepção, assim colocada, concebe o texto como objeto histórico.

A proposta de Jauss é especialmente interessante porque o fator público desempenhava um papel extremamente limitado nas duas teorias que vigoravam até o séc. XIX. A escola marxista trata o leitor do mesmo modo como trata o autor, procurando reconhecê-lo em sua classe social. A escola formalista utiliza a noção de leitor apenas como sujeito da recepção, cabendo-lhe desvendar o texto através do enfrentamento, o que exigiria conhecimentos de filologia.

Criticando as duas escolas por não entenderem o verdadeiro papel do receptor, Jauss34 cita Walther Bulst para dizer que "texto algum jamais foi escrito para ser lido e interpretado filologicamente por filólogos" e ele mesmo acrescenta, referindo-se à escola marxista: "... ou historicamente por historiadores", uma vez que "a escola marxista iguala a experiência espontânea do leitor ao interesse científico do materialismo histórico, que deseja desvendar na obra literária as relações entre a superestrutura e a base.... Ambos os métodos, o formalista e o marxista, ignoram o leitor em seu papel genuíno, imprescindível tanto para o conhecimento estético quanto para o histórico: o papel do destinatário a quem primordialmente, a obra literária visa"...

A implicação estética reside no fato de já a recepção primária de uma obra pelo leitor encenar uma avaliação de seu valor estético, pela comparação com outras obras já lidas. A implicação histórica manifesta-se na possibilidade de, numa cadeia de recepções, a compreensão dos primeiros leitores ter continuidade e enriquecer-se de geração em geração, decidindo, assim, o próprio significado histórico de uma obra e tornando visível sua qualidade estética" (Op. cit., P. 23)

Prosseguindo no exame da teoria estética da recepção veremos porque algumas obras têm sucesso fugaz e outras resistem através do tempo, com sucessivas e intermináveis reedições em todas as línguas. Para Jauss pertencem à esfera da arte culinária ou ligeira aquelas obras que não exigem do receptor qualquer mudança em seu horizonte de expectativa (resultante do seu conhecimento acumulado), bastando-lhe aceitar os modismos ou experiências corriqueiras lançados ao gosto dominante no momento do aparecimento dessa obra. Por outro lado, segundo Jauss, há obras que, no momento de sua publicação, não podem ser relacionadas a nenhum público específico, mas rompem tão completamente o horizonte conhecido de expectativas literárias que seu público somente começa a formar-se aos poucos. Esta é uma obra-prima, de sentido eterno, porque nela conhecemos e reconhecemos as coisas e nós mesmos.

Na "Teoria da Literatura"35 o professor Victor Manuel estabelece o grau zero de recepção para aquelas obras que apresentam um texto progressivamente negligenciado e esquecido pelos leitores e que, por isso mesmo, perde a energia de interação na escrita e na leitura de outros textos, volvendo-se gradual e inexoravelmente num texto morto ou, pelo menos, num texto letárgico e estéril no devir do sistema literário, embora possa emergir fugazmente de tal letargia mediante leituras inscritas no âmbito da história, da erudição e da "arqueologia" literárias.

Essa "letargia" do texto também é considerada na Tese de Livre Docência da professora-doutora Nelyse Apparecida Melro Salzedas (1983)36:

"O texto escrito não deve permanecer inerte, preso aos sinais gráficos e às linhas pelas quais eles deslizam; deve libertar-se, movimentar-se, falar, enfim viver. E é pelo leitor, pela sua intuição e acuidade crítica que ele respira, se levanta e diz. Leitor e texto se completam, se consubstanciam a partir do momento em que aquele é também um demiurgo. O ludismo de referencialidades e de conotações infinitas possibilita a ‘poiesis’ e a demiurgia".

Quando um texto ou um conjunto de textos atravessa séculos, milênios, e se mantém atual - vivo, interessante - é necessário que passe por atualizações filológicas para manter bom nível de recepção. A este respeito, diz o professor Victor Manuel:

"O fluir do tempo histórico, provocando transformações, ruptura e depredações no âmbito dos sistemas semióticos, origina

poderosasfontes de ruído que perturbam e reduzem a legibilidade dos textos.Em relações aos textos literários nessas condições, cabe à filologia reconstruir os códigos que os emissores utilizaram na sua produção e que regulam, por conseguinte, a sua estruturação, de modo a preservar a dimensão histórica da semiose literária e a evitar a ocorrência de duas situações extremas: o bloqueamento da comunicação por ilegibilidade ou legibilidade muito escassa do texto e a dissolução anarquizante do processo comunicativo derivada de leituras arbitrariamente impostas pelos receptores às estruturas textuais". (Op. cit., P.316)

Adaptado ao código lingüístico do receptor, o texto será entendido e assimilado na exata medida em que seu horizonte de produção puder se sobrepor ao horizonte do leitor. O grau de interpenetração desses horizontes varia, naturalmente, caso a caso. O leitor mais preparado sobre determinado assunto entenderá melhor e com mais segurança o texto que lhe é apresentado. O autor mais contextualizado com a realidade histórica que o cerca produzirá um texto mais assimilável pelo leitor. A explicação do professor Victor poderia ser representada, graficamente, do seguinte modo para esclarecer a interseção que ocorre no ato de leitura entre texto e leitor:


1 - Horizonte do texto

2 - Horizonte do leitor

A - Área de Interseção

Aos estudantes, Platão & Fiorin (1995)37 ensinam que "a percepção das relações intertextuais, das referências de um texto a outro, depende do repertório do leitor, do seu acervo de conhecimentos literários e de outras manifestações culturais... Quanto mais se lê, mais se amplia a competência para apreender o diálogo que os textos travam entre si por meio de referências, citações e alusões."

Discutindo a argumentação, Platão & Fiorin afirmam que "Quando se lê um texto nota-se que, em princípio quem o produziu está interessado em convencer o leitor de alguma coisas. Todo texto tem, por trás de si, um produtor que procura persuadir o seu leitor (ou leitores), usando para tanto vários recursos de natureza lógica e lingüística". (Op. cit., P. 173)

Já vimos, ao longo desta dissertação sobre o discurso religioso, que a Bíblia é a principal fonte para todos aqueles que lidam com a esfera do sagrado no âmbito do cristianismo, especificamente do catolicismo.

Como literatura, a Bíblia é o livro mais antigo e mais editado em todas as línguas, no mundo inteiro. Como "verdade revelada", aos olhos da fé, a Bíblia é referência de vida para milhões de pessoas, até acima de denominações religiosas.

Aplicando aos livros sagrados as observações da Teoria da Recepção (Jauss) ou da Teoria Literária (Victor Manuel) veremos que a Bíblia é uma obra eterna porque continua despertando renovado interesse de seus leitores.

Tratando-se, porém, de um conjunto de texto tão antigo e tão específico em sua finalidade de unir os filhos de Deus pela palavra, a recepção da Bíblia carece de ajuda especializada. Já não se aceita a narrativa bíblica ao pé da letra e sem debates como ocorreu até o fim da Idade Média. Com o Renascimento dos sécs. XV e XVI (que pregava o retorno aos clássicos gregos) e o Iluminismo do séc. XVIII ( que cultuava a deusa-Razão) sobretudo com os avanços tecnológicos dos séc. XIX e XX que permitiram à ciência estudar importantes documentos bíblicos como os descobertos em uma caverna próximo ao mar Morto em 1950, além de poder analisar comparativamente fatos históricos, objetos e relatos dos tempos bíblicos, o entendimento da Bíblia ganhou novo alcance.

O homem de nossos tempos procura uma resposta para a sua vida no estudo da Bíblia e nos rituais religiosos, porém com mais espírito crítico, com uma visão de mundo ampliada pelo conhecimento. É natural que o pregador da palavra bíblica deve se aprofundar tanto no estudo do contexto histórico de cada livro sagrado, como na observação da realidade atual, de modo a transpor o discurso milenar para a realidade coeva.

A isto se chama atualizar a leitura, como veremos a seguir.

1. Atualização da leitura

Deve o comunicador optar pela visão tradicionalista da religião, mais de acordo com o Antigo Testamento, ou deve reler, com o próprio Cristo, o discurso da Toráh? Deve aludir a Cristo como Filho de Davi, o Messias enviado pelo Deus dos Exércitos, o Guerreiro Exterminador de Canaã, que vinga a maldade dos pais nos filhos até à quinta geração ou deve pregar Jesus crucificado, amigo dos pobres e excluídos, censor dos poderosos deste mundo, anátema dos Doutores da Lei por ele classificados de "sepulcros caiados"?

Quem vai comunicar, como quem sai para semear a palavra - a exemplo do que ensina Vieira no Sermão da Sexagésima ("Ecce exiit qui seminat, seminare") - deve estar preparado para estes e outros embates da consciência, onde preponderará a oposição entre pares de opostos como temporal/espiritual, corpo/alma, estado/Igreja, política/religião. O comunicador deve ter em mente aquilo que o povo quer, não para mudar a essência do discurso religioso ou muito menos os dogmas da Igreja, mas para falar a linguagem do povo hoje. O próprio Cristo se nos apresenta como o maior de todos os mestres na hora de se comunicar, pois não recorria aos púlpitos majestosos, nem a grandes pompas. Falava com o povo ao seu redor, com as sandalhas empoeiradas e o corpo suado, falava com histórias simples (parábolas) que o povo reconhecia com facilidade por serem representações de sua vida diária. Jesus usava muitas expressões e palavras normalmente empregadas no quotidiano das famílias, suas metáforas são todas de fácil reconhecimento. Com freqüência cita o sal como símbolo do espírito profético que deve animar os cristãos (porque era o sal que impedia, naquela época, a deterioração de muitos alimentos) ou da palavra de Deus que deve mudar a vida das pessoas como o sal que dá sabor aos alimentos; ora compara o reino de Deus a um grão de mostarda; ora a uma medida de fermento que a dona de casa usa para fazer crescer a massa do pão; ora critica os doutores da lei que obrigam o povo a pagar impostos sobre o cominho e a hortelã enquanto trazem o coração cheio de ódio, de corrupção, de vaidades, de prepotência e de todo pecado.

Se Cristo ensinou a comunicar assim, porque o comunicador de hoje não usaria representações do mundo atual para adaptar e ampliar a recepção de seu discurso?

O que significa falar a fala do povo hoje? Paradoxo, que seja em nosso tempo cibernético, certamente significará retomar a vida e a obra de Francisco de Assis nos sécs. XI e XII, em plena Idade Média.

A Bíblia está na raiz da conversão do jovem Francisco que abandona uma vida rica para ser "um pobre de Cristo", iniciando assim uma "pregação de vida" (e não só de palavras) para "reconstruir" a Igreja que, naquela época, estava afastada de Deus porque tinha se distanciado dos pequenos e vivia com e como os poderosos. Nessa época os mosteiros eram cidadelas isoladas, onde os padres tinham suas posses e até mesmo escravos. Adotando a pobreza como lema de vida, vivendo radicalmente o Evangelho, embora sem fazer distinção entre o Antigo e Novo Testamento, Francisco pregou para todo mundo, até para o Papa e para os cardeais; pôs o dedo na ferida da Igreja, interpelou, mas sem criar animosidade, conflitos, cisões e excomunhões... Ele falou mais com o exemplo de sua Ordem da Penitência do que com palavras e confrontos. Mas só depois do encontro com o leproso é que iniciou seu processo de conversão. Depois de mudar de vida, depois de se deixar persuadir e impregnar radicalmente pelo Evangelho é que ele começou a pregar aos outros." (1993)38

Cena de "Francisco, Arauto de Deus"
de Roberto Rosselini. Foto: David Seymor

Nos meios eletrônicos (no cinema, na televisão,
no rádio, no computador) a Igreja tem diante de si todo um
espaço para a sua mensagem. Mas cada veículo exige um
tratamento adequado da mensagem para que ela possa ser recebida
e assimilada pelo "auditório universal" descrito por Perelman

São Francisco diz que foi Deus mesmo quem lhe revelou que ele devia viver segundo o Santo Evangelho que diz "se você quer ser perfeito, vá, venda tudo o que tem, dê o dinheiro aos pobres"(Mt 19,21) ou "não levem nada pelo caminho" (Lc 9,3) e ainda "se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo" (Lc 9,3). Para Francisco Deus nos fala o tempo todo através dos acontecimentos, das pessoas e da natureza. O cântico ao Irmão Sol tem este sentido de louvor e da "imersão da criatura em Deus":

"Louvado sejas, meu senhor,
por todas as tuas criaturas
que no céu formaste
Por nossa irmã e mãe terra...
pela irmã água, a qual é
muito útil e preciosa e casta.
Louvai e bendizei a meu senhor
e rendei-lhe graças
Por nossa irmã e mãe terra,
que vos alimenta e governa
e produz variados frutos
e coloridas flores e ervas.
Louvado sejas, meu senhor,
pelo irmão Sol,
pela irmã Lua e as estrelas
Louvado sejas, meu senhor,
por todas as tuas criaturas
Louvado sejas, meu senhor,
por aqueles que perdoam pelo teu amor."

Para Strabeli "O Cântico do Irmão Sol expressa primeiramente mais uma experiência íntima, espiritual, do que uma cosmologia. Essa experiência é a fraternidade entre os homens e os elementos cósmicos, é experiência da reconciliação do homem consigo mesmo e sua abertura ao ser que é plenitude". (Op. cit., P.19)

O maior mal que o homem pode cometer é desrespeitar seu semelhante, é não amar. "O desamor corrói a criação, desequilibra, mata o próprio homem... provoca a guerra que é divisão, e não homogeneidade, como na criação", diz o teólogo franciscano. (Op. cit., P. 20) Segundo ele, na hermenêutica de São Francisco o texto é lido no seu contexto. Assim o Antigo Testamento é visto como promessa e figura do Novo. Cristo está presente no A. T. como promessa de salvação, a antiga aliança é figura da Nova. A Lei estava "grávida de Cristo", vai dizer Santo Agostinho. São Francisco cita sempre os dois testamentos, de forma global e íntegra, pois os dois testamentos são inseparáveis." (Op. cit., P. 36)

Para São Francisco a Escritura não é um livro para ser conhecido. É uma mensagem para ser vivida. Como toda a Escritura converge para Jesus Cristo, Francisco faz uma leitura essencialmente cristológica da Bíblia e diz: "Não necessito de mais nada: conheço Cristo pobre e crucificado".

Assim a encarnação de Jesus tem, na Cristologia de São Francisco, segundo Strabeli, a finalidade de revelar o profundo amor de Deus pelo homem: Jesus se encarna não para redimir o homem, mas para manifestar visivelmente o Pai. Sua morte foi conseqüência desse gesto de amor.

Com a encarnação, Deus divinizou o homem e com isso se fez nosso irmão e companheiro. ("Emanuel = Deus conosco"- Mt 1,23). A encarnação é, para São Francisco, a irrupção de Deus na História; Deus se insere em nossa história para nos ensinar a sermos fraternos e livres. (Op. cit., P. 41)

O que fez Jesus senão pregar o amor, o perdão, a fraternidade subvertendo o sistema egoísta então vigente? Por isto foi crucificado.

São Francisco, o poeta idealizador da vida simples, foi o inventor do presépio que montou pela primeira vez numa gruta de Grecio no Natal de 1223. Sua mensagem, politicamente correta a favor dos excluídos, do amor entre todos os homens e em defesa da ecologia, chega forte e atual aos nossos dias, neste fim de milênio, 800 anos após a sua morte 04/10/1226, como uma ponte que interliga o modo de vida simples ("eles tinham tudo em comum") dos apóstolos e dos primeiros discípulos aos agitados dias de hoje, passando sobre a Idade Média e nos religando com a vida simples, humilde e pobre do Filho de Deus.

O egoísmo denunciado por Jesus há dois mil anos e novamente denunciado por Francisco, há 800 anos, teria acabado? Pelo contrário, antes de Francisco, já no séc. IX, o feudalismo surgido da desintegração do império romano, com a invasão dos bárbaros, já submetia os camponeses à servidão do Senhor Feudal. No séc. XIV, com a prática da usura e do comércio, muitos burgueses e banqueiros acumularam capitais e passaram a investir na produção com operários assalariados. No séc. XVI surge o mercado mundial, com os descobrimentos marítimos e inicia-se outro ciclo igualmente injusto do ponto de vista sócio-econômico: o capitalismo, movido unicamente pelo lucro, resultando em graves injustiças sociais pela má distribuição da renda.

Nos séc. XVIII e XIX, com a ampliação do mercado de trabalho, do volume de dinheiro e do mercado de consumo, surge a Revolução Industrial ampliando a produção das manufaturas, especialmente na Inglaterra.

No final do século acentuou-se a tendência à concentração da renda acumulada através de cartéis, trustes e monopólios, resultando na formação de gigantescas empresas multinacionais.

Com o fracasso da tentativa socialista de inspiração atéia - como ateu era o positivismo capitalista nascido do Iluminismo - de melhorar as condições sociais do homem através da distribuição justa dos bens produzidos, o capitalismo ampliou seus tentáculos mundiais transformando enormes regiões do globo em mercados integrados conforme os interesses macro-econômicos das mega-empresas, passando por cima dos interesses e das culturas regionais (ou nacionais), agora sob a bandeira do chamado Neo-Liberalismo.

Pode existir Amor, Fraternidade, Perdão, Paz onde impera a concorrência desenfreada desde os níveis individuais (disputa entre as pessoas por vagas de emprego, posições sociais etc.) até os níveis internacionais ou, já não entre as nações ricas e pobres, mas entre os mercados onde somas inimagináveis de trilhões de dólares podem migrar de uma região para outra do globo bastando apertar uma tecla de computador e levando a miséria, o desemprego e a fome para milhões de pessoas do país de onde o capital saiu para ser investido em local mais vantajoso, com mão de obra mais barata, com menos impostos, onde dê mais lucros?

Essa corrida louca pelo dinheiro e pelo poder não está levando os homens ao desespero? Eles teriam para onde apelar senão para o próprio Senhor Deus dos Desgraçados de que falou Castro Alves contra o tráfico dos navios negreiros? Não é o espaço do sagrado o lugar para este homem inseguro, humilhado, revoltado e desesperançado do fim do milênio ter, finalmente, o seu encontro com Deus não no sentido de "separar a alma do corpo", na expressão do historiador Eric Hobsbawn, crítico severo deste século de guerras e chacinas com seus 300 milhões de seres humanos vitimados pelas máquinas de morte do capitalismo e do comunismo, mas no sentido de ter, realmente, uma experiência com Deus?

Não é missão do comunicador católico estar sensível para o modo como esse público espera receber o discurso religioso? Esse discurso de esperança não haveria de ser como um lenitivo para as feridas da alma?

Mas qual deve ser a mensagem? Trata-se da mensagem escatológica que persuade pelo medo da punição ou da mensagem do perdão e da fraternidade ensinada por Cristo e por Francisco?

Como mudar e melhorar o mundo sem converter as estruturas materialistas que trafegam longe de Deus para matar seus filhos?

Na América Latina o discurso esboçado para reagir às injustiças sociais que contextuam a realidade humana, hoje como há mil anos, é a teologia da libertação.

Embora desagradando a setores tradicionalistas da Igreja - setores para os quais talvez fosse preciso voltar a pregar o evangelho radical como fez Francisco para o papa Inocêncio III e os cardeais - a TL é uma visão especialmente humana sobre as condições de vida dos povos latino-americanos que tanto já sofreram pela depredação praticada pelos países mais ricos desde os descobrimentos marítimos.

A conclusão é que o mecanismo da competição é perverso porque embora a ideologia das classes dominantes propale que todos são iguais - ficando implícito que só não se enriquece quem não quer ou não é abençoado por Deus - na verdade todos sabemos que não é assim nem entre os indivíduos, nem entre as nações, nem entre as etnias. A realidade mostra um empobrecimento crescente dos mais pobres e um enriquecimento desenfreado dos mais ricos. Isto porque a lógica da acumulação não respeita barreiras éticas, morais, religiosas ou quaisquer outras. A globalização apenas maximiza esse potencial mortífero do capitalismo neo-liberal.

Visto isto, não é difícil explicar a corrida do homem em busca de alguma força sobrenatural situada acima dessa lógica maquiavélica do mercado. Essa busca quase desesperada por milagres, aparições, curas milagrosas, promessas, procissões, penitências que beiram o fanatismo, culto popular a expressões regionais como padre Cícero ou Frei Damião, devocionismos etc. quando não a própria evasão do catolicismo na direção dos cultos afro-brasileiros ou pentecostais em busca de "sensações mais fortes" quanto à "experiência com Deus" é sintoma deste final dos tempos como no milenarismo do séc. X.

Buscam-se hoje, desesperadamente, um Deus-presente, um Deus-tocável, um Deus forte, como pediam os Hebreus no Antigo Testamento ou os Judeus no tempo da dominação Romana.

O homem quer se livrar de algozes tão cruéis hoje como eram o cativeiro do Egito, o cativeiro de Babilônia ou a dominação romana. Os fantasmas que povoam a alma humana no final do milênio são a fome (quase 1 milhão de desnutridos no mundo), a pobreza (1 bilhão de pobres), a criança abandonada (13 milhões morrem por ano antes dos 5 anos), a falta de postos de trabalho (120 milhões estão desempregados) a miséria (60% da América Latina) a falta de assistência médica e tantos outros fantasmas que apavoram o ser humano, num mundo onde "o homem é lobo do homem", segundo Hobbes.

Campo de refugiados civis no Sudão: Crianças subnutridas esperam por distribuição de alimentos

Pobreza absoluta castiga 1,3 bilhão

Miséria Globalizada: Relatório da ONU mostra que 22,8% da população mundial sobrevivem com menos de um dólar por dia

Cerca de 1,3 bilhão de pessoas vivem com menos de um dólar por dia, apesar do crescimento da riqueza mundial, afirma estudo do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) divulgado ontem em Genebra, por ocasião do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza.

O número de pobres cresce cerca de 25 milhões por ano, e aproximadamente um quarto da população mundial vive na pobreza, segundo o PNUD. Esse cálculo de pobreza é baseado em definição do Banco Mundial e da ONU sobre pobreza absoluta: as pessoas que vivem com até US$ 370 por ano.

Dados das Nações Unidas sugerem que, a cada minuto, o mundo ganha mais 47 pobres.

A agência da ONU afirma que 840 milhões de pessoas, entre elas 160 milhões de crianças, estão subnutridas. Cerca de 1 bilhão de pessoas são analfabetas e um número ainda maior não tem acesso a água potável.

"Se o número de ricos dobrou em 50 anos, o de pobres triplicou", afirma o PNUD.

Em 1947, o planeta tinha uma população de cerca de 2,3 bilhões de pessoas, e o número de pobres (400 milhões) correspondia a 17,4% da população. Em 1997, 1,3 bilhão de pobres correspondem a 22,8% da população mundial (cerca de 5,7 bilhões).

O diretor do programa, James Gustave Speth, estima que um investimento anual de 1% da renda mundial, durante 20 anos, melhoraria a vida de várias centenas de milhões de pessoas.

"Proporcionar acesso universal a serviços de saúde, água potável, educação e planejamento familiar só demandaria um custo anual adicional de US$ 40 bilhões", explicou Speth.

Outros US$ 40 bilhões seriam necessários para que as famílias mais desfavorecidas deixassem o estado de pobreza, segundo Speth.

O montante final, de US$ 80 bilhões, "não chega a 0,5% da renda mundial anual, o que torna a eliminação da pobreza uma proposta razoável", diz Speth.

"O fato de termos agora condições de superar a pobreza nos obriga moralmente a fazê-lo sem demora. A riqueza mundial (que corresponderia à soma dos PIBs nacionais) é da ordem de US$ 25 trilhões e não pára de aumentar", afirmou o coordenador do PNUD.

As desigualdades entre os países, assim como dentro deles, alcançam proporções sem precedentes, acrescentou. A parcela da receita mundial que cabe a 20% dos indivíduos mais pobres da humanidade é de apenas 1,1%.

A parte do comércio mundial dos 50 países menos desenvolvidos, onde vivem 10% da população mundial, caiu pela metade em 20 anos, ficando em 0,3%.

Nos países da Europa Oriental e da ex-URSS, as pessoas vivendo na pobreza passaram de 4 milhões em 1987 para 120 milhões na atualidade, o que representa um quarto da população da região, diz o PNUD.

Entretanto, lembra o estudo, se realizaram enormes progressos em meio século: a riqueza mundial cresceu sete vezes, e mais de 75% da população têm agora acesso aos serviços essenciais.

Desde 1960, a mortalidade infantil nos países em desenvolvimento caiu mais de 50%. A incidência da subnutrição teve queda de 30%.

Em 20 anos, a China e outros 14 países, que representam 1,6 bilhão de pessoas, diminuíram em 50% a parcela da população vivendo abaixo do nível de pobreza.

* Matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo na última

sexta-feira, 17 de outubro de 1997.

É um cenário que preocupa e leva à reflexão.

Não constituimos uma natureza inerte, formada por objetos dos quais temos apenas que tomar posse como queria o racionalismo de Descartes, confundindo homem e natureza apenas como meios de acumular capital. Somos pessoas, somos sujeitos, com vida e sentimento.

Não basta a frieza marmórea e cruel do "penso, logo existo", é preciso o calor fraterno do "sinto, logo existo".

Bonhoffer dizia que "ser para os outros é a única experiência da transcendência".

No contexto de nossos dias não há espaço para a divisão entre as religiões se é nelas que está a esperança de uma intermediação entre o homem e Deus. Continuar brigando e se dividindo é trair a confiança do povo e os ensinamentos do próprio Cristo.

Francisco Catão e Magno Vilela encerram assim sua destacada obra sobre "O Monopólio do Sagrado" (Op. cit., P. 359):

"As religiões são chamadas a se entender como religiões e a colaborar na busca da verdade, na luta pela justiça na prática da solidariedade, por cima de todas as distinções confessionais, culturais, étnicas ou quaisquer outras que se possa imaginar. Devem colaborar até mesmo na oração, numa busca de Deus no fundo do coração, para que homens e mulheres de todas as nações, raças e latitudes, aprendam a viver em paz, fraternalmente, como filhos de Deus".

O Papa João Paulo II deu exemplo dessa tolerância ecumênica ao aludir, na visita ao Rio, à importância das presenças indígena e africana em nossa cultura, sendo muito mais lógico, hoje, aceitar as expressões do rito afro-brasileiro, até mesmo admitindo representações nas liturgias católicas mais solenes - como ocorre na Bahia - que condenar esses irmãos ao fogo eterno, como se não pertencesse a Deus, e não a nós, esse julgamento. Hoje é cada vez mais frequente usar ritmos e alegorias mundanas, como o próprio samba, para enriquecer e dar nova dimensão à liturgia católica. Se no passado o cristianismo - e até antes, na época dos patriarcas - usou e transformou mitos pagãos para transmitir o discurso religioso, a fé num Deus único e verdadeiro, porque não incorporar os símbolos de nosso tempo, as imagens de nossa época - tão ricas, expressivas e variadas - para ampliar o alcance e o poder de persuasão do discurso religioso? Porque não tratar as celebrações com todos os recursos que a coreografia, a cultura popular e a participação ativa da assembléia proporciona?

Ainda olhando para este século, Roger Garaudy (Op. cit., P. 150) afirma que "um homem alienado por um trabalho robotizado, pelos "divertimentos" padronizados, pela tetanização do espetáculo, televisado ou não, das artes do não-sentido e das falsas vidas, este homem alienado, castrado de suas dimensões, da opção crítica e do projeto, do amor, do poder de criar, de inventar o futuro, este homem exposto ao fetichismo tecnocrático, à idolatria do mercado, ao ópio do não-sentido, só consegue ter uma concepção alienada da fé, seja para negá-la, seja para transformá-la em devoção beata".

Se o pregador da palavra atualizada, hoje, tem dúvidas, deve meditar sobre este conceito de Roger Garaudy: "Não basta substituir Constantino39 por Che Guevara. Não basta dizer que Deus é libertador. "Deus" é um apelo à minha própria superação. Não tem sentido dizer a um acorrentado "Deus o liberta", se não faço nada para romper essas correntes. Não tem sentido dizer "Deus te ama", se nada é feito por aquele que pretende dar seu testemunho, para mudar aquela situação".

Para achar o fio do discurso que interessa a nossos tempos, para levar a mensagem que o público espera receber, devemos refletir ainda com Garaudy: "O Deus de que precisamos hoje não é o das teologias da dominação, que não cessam de reinar desde Constantino. O Deus de que precisamos, em um mundo onde o monoteísmo do mercado opõe um punhado de ricos a uma multidão de famintos, é o Deus que revelou Jesus: Um Deus cuja transcendência não se exprime através do poder, como o Zeus soberano dos gregos ou o Deus dos exércitos dos judeus, mas onde o divino se revela através do mais fraco e do mais pobre". (Op. cit., P. 44)

O pregador iniciante talvez pensará duas vezes antes de afrontar as estruturas como Francisco de Assis que se deixou impregnar das palavras do Cristo:

"Mostrar-vos-ei a quem deveis temer: Temei aquele que tem o poder de lançar todos no inferno. Não se vendem dois pardais por duas moedas? E, no entanto, nem um só deles passa despercebido diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois vós tendes mais valor do que numerosos pardais" (Lc 12, 5-7).

Como a Igreja opera o seu discurso hoje? Como ela contextualiza a palavra sagrada inculturando o discurso nas diferentes realidades culturais, econômicas e sociais?

Para responder a estas indagações, pesquisaremos a seguir o "fio condutor" em quatro textos extraídos do Livro do Êxodo, do Evangelho de S. Mateus, da Encíclica Centesimus Anus e da Campanha da Fraternidade - 1996.

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