UNESP
- UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio
de Mesquita Filho"
FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO
- Campus Universitário de Bauru
Capítulo
III - A Recepção do Discurso
Ai,
palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
Sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Cecília Meireles (Romance LIII ou das palavras
aéreas)
1.
Atualização da Leitura
Ao criticar a história recente da Literatura,
Hans Robert Jauss, da Escola de Constança,
na Alemanha, afirma que nem a Teoria Literária
Marxista (a qual procurava demonstrar o sentido
da literatura como retrato da realidade social),
nem a escola formalista (que compreendia a literatura
como uma sucessão de sistemas estético-formais
sem relação com o processo geral da
história) reconhece o verdadeiro papel do
leitor. Jauss propõem então, que a
história da literatura deve levar em conta
as instâncias de recepção do
texto. Segundo ele uma obra é lida porque
é compreendida, portanto tem sentido para
uma época, para um grupo social. Superando
a clássica separação entre
história da literatura e estética,
Jauss entende a permanência de uma obra através
do tempo em função da atuação
do público sobre essa obra e não em
função dela mesma, por valores eternos
e imutáveis contidos na obra. A estética
da recepção, assim colocada, concebe
o texto como objeto histórico.
A proposta de
Jauss é especialmente interessante porque
o fator público desempenhava um papel extremamente
limitado nas duas teorias que vigoravam até
o séc. XIX. A escola marxista trata o leitor
do mesmo modo como trata o autor, procurando reconhecê-lo
em sua classe social. A escola formalista utiliza
a noção de leitor apenas como sujeito
da recepção, cabendo-lhe desvendar
o texto através do enfrentamento, o que
exigiria conhecimentos de filologia.
Criticando as
duas escolas por não entenderem o verdadeiro
papel do receptor, Jauss34 cita Walther Bulst
para dizer que "texto algum jamais foi escrito
para ser lido e interpretado filologicamente por
filólogos" e ele mesmo acrescenta,
referindo-se à escola marxista: "...
ou historicamente por historiadores", uma
vez que "a escola marxista iguala a experiência
espontânea do leitor ao interesse científico
do materialismo histórico, que deseja desvendar
na obra literária as relações
entre a superestrutura e a base.... Ambos os métodos,
o formalista e o marxista, ignoram o leitor em
seu papel genuíno, imprescindível
tanto para o conhecimento estético quanto
para o histórico: o papel do destinatário
a quem primordialmente, a obra literária
visa"...
A
implicação estética reside
no fato de já a recepção
primária de uma obra pelo leitor encenar
uma avaliação de seu valor estético,
pela comparação com outras obras
já lidas. A implicação histórica
manifesta-se na possibilidade de, numa cadeia
de recepções, a compreensão
dos primeiros leitores ter continuidade e enriquecer-se
de geração em geração,
decidindo, assim, o próprio significado
histórico de uma obra e tornando visível
sua qualidade estética" (Op. cit.,
P. 23)
Prosseguindo
no exame da teoria estética da recepção
veremos porque algumas obras têm sucesso
fugaz e outras resistem através do tempo,
com sucessivas e intermináveis reedições
em todas as línguas. Para Jauss pertencem
à esfera da arte culinária ou ligeira
aquelas obras que não exigem do receptor
qualquer mudança em seu horizonte de expectativa
(resultante do seu conhecimento acumulado), bastando-lhe
aceitar os modismos ou experiências corriqueiras
lançados ao gosto dominante no momento
do aparecimento dessa obra. Por outro lado, segundo
Jauss, há obras que, no momento de sua
publicação, não podem ser
relacionadas a nenhum público específico,
mas rompem tão completamente o horizonte
conhecido de expectativas literárias que
seu público somente começa a formar-se
aos poucos. Esta é uma obra-prima, de sentido
eterno, porque nela conhecemos e reconhecemos
as coisas e nós mesmos.
Na
"Teoria da Literatura"35 o professor
Victor Manuel estabelece o grau zero de recepção
para aquelas obras que apresentam um texto progressivamente
negligenciado e esquecido pelos leitores e que,
por isso mesmo, perde a energia de interação
na escrita e na leitura de outros textos, volvendo-se
gradual e inexoravelmente num texto morto ou,
pelo menos, num texto letárgico e estéril
no devir do sistema literário, embora possa
emergir fugazmente de tal letargia mediante leituras
inscritas no âmbito da história,
da erudição e da "arqueologia"
literárias.
Essa
"letargia" do texto também é
considerada na Tese de Livre Docência da
professora-doutora Nelyse Apparecida Melro Salzedas
(1983)36:
"O
texto escrito não deve permanecer inerte,
preso aos sinais gráficos e às linhas
pelas quais eles deslizam; deve libertar-se, movimentar-se,
falar, enfim viver. E é pelo leitor, pela
sua intuição e acuidade crítica
que ele respira, se levanta e diz. Leitor e texto
se completam, se consubstanciam a partir do momento
em que aquele é também um demiurgo.
O ludismo de referencialidades e de conotações
infinitas possibilita a ‘poiesis’
e a demiurgia".
Quando
um texto ou um conjunto de textos atravessa séculos,
milênios, e se mantém atual - vivo,
interessante - é necessário que
passe por atualizações filológicas
para manter bom nível de recepção.
A este respeito, diz o professor Victor Manuel:
"O
fluir do tempo histórico, provocando transformações,
ruptura e depredações no âmbito
dos sistemas semióticos, origina
poderosasfontes
de ruído que perturbam e reduzem a legibilidade
dos textos.Em relações aos textos
literários nessas condições,
cabe à filologia reconstruir os códigos
que os emissores utilizaram na sua produção
e que regulam, por conseguinte, a sua estruturação,
de modo a preservar a dimensão histórica
da semiose literária e a evitar a ocorrência
de duas situações extremas: o bloqueamento
da comunicação por ilegibilidade
ou legibilidade muito escassa do texto e a dissolução
anarquizante do processo comunicativo derivada
de leituras arbitrariamente impostas pelos receptores
às estruturas textuais". (Op. cit.,
P.316)
Adaptado
ao código lingüístico do receptor,
o texto será entendido e assimilado na
exata medida em que seu horizonte de produção
puder se sobrepor ao horizonte do leitor. O grau
de interpenetração desses horizontes
varia, naturalmente, caso a caso. O leitor mais
preparado sobre determinado assunto entenderá
melhor e com mais segurança o texto que
lhe é apresentado. O autor mais contextualizado
com a realidade histórica que o cerca produzirá
um texto mais assimilável pelo leitor.
A explicação do professor Victor
poderia ser representada, graficamente, do seguinte
modo para esclarecer a interseção
que ocorre no ato de leitura entre texto e leitor:
1
- Horizonte do texto
2 - Horizonte
do leitor
A - Área
de Interseção
Aos
estudantes, Platão & Fiorin (1995)37
ensinam que "a percepção das
relações intertextuais, das referências
de um texto a outro, depende do repertório
do leitor, do seu acervo de conhecimentos literários
e de outras manifestações culturais...
Quanto mais se lê, mais se amplia a competência
para apreender o diálogo que os textos
travam entre si por meio de referências,
citações e alusões."
Discutindo
a argumentação, Platão &
Fiorin afirmam que "Quando se lê um
texto nota-se que, em princípio quem o
produziu está interessado em convencer
o leitor de alguma coisas. Todo texto tem, por
trás de si, um produtor que procura persuadir
o seu leitor (ou leitores), usando para tanto
vários recursos de natureza lógica
e lingüística". (Op. cit., P.
173)
Já
vimos, ao longo desta dissertação
sobre o discurso religioso, que a Bíblia
é a principal fonte para todos aqueles
que lidam com a esfera do sagrado no âmbito
do cristianismo, especificamente do catolicismo.
Como
literatura, a Bíblia é o livro mais
antigo e mais editado em todas as línguas,
no mundo inteiro. Como "verdade revelada",
aos olhos da fé, a Bíblia é
referência de vida para milhões de
pessoas, até acima de denominações
religiosas.
Aplicando
aos livros sagrados as observações
da Teoria da Recepção (Jauss) ou
da Teoria Literária (Victor Manuel) veremos
que a Bíblia é uma obra eterna porque
continua despertando renovado interesse de seus
leitores.
Tratando-se,
porém, de um conjunto de texto tão
antigo e tão específico em sua finalidade
de unir os filhos de Deus pela palavra, a recepção
da Bíblia carece de ajuda especializada.
Já não se aceita a narrativa bíblica
ao pé da letra e sem debates como ocorreu
até o fim da Idade Média. Com o
Renascimento dos sécs. XV e XVI (que pregava
o retorno aos clássicos gregos) e o Iluminismo
do séc. XVIII ( que cultuava a deusa-Razão)
sobretudo com os avanços tecnológicos
dos séc. XIX e XX que permitiram à
ciência estudar importantes documentos bíblicos
como os descobertos em uma caverna próximo
ao mar Morto em 1950, além de poder analisar
comparativamente fatos históricos, objetos
e relatos dos tempos bíblicos, o entendimento
da Bíblia ganhou novo alcance.
O
homem de nossos tempos procura uma resposta para
a sua vida no estudo da Bíblia e nos rituais
religiosos, porém com mais espírito
crítico, com uma visão de mundo
ampliada pelo conhecimento. É natural que
o pregador da palavra bíblica deve se aprofundar
tanto no estudo do contexto histórico de
cada livro sagrado, como na observação
da realidade atual, de modo a transpor o discurso
milenar para a realidade coeva.
A
isto se chama atualizar a leitura, como veremos
a seguir.
1.
Atualização da leitura
Deve
o comunicador optar pela visão tradicionalista
da religião, mais de acordo com o Antigo
Testamento, ou deve reler, com o próprio
Cristo, o discurso da Toráh? Deve aludir
a Cristo como Filho de Davi, o Messias enviado
pelo Deus dos Exércitos, o Guerreiro Exterminador
de Canaã, que vinga a maldade dos pais
nos filhos até à quinta geração
ou deve pregar Jesus crucificado, amigo dos pobres
e excluídos, censor dos poderosos deste
mundo, anátema dos Doutores da Lei por
ele classificados de "sepulcros caiados"?
Quem
vai comunicar, como quem sai para semear a palavra
- a exemplo do que ensina Vieira no Sermão
da Sexagésima ("Ecce exiit qui seminat,
seminare") - deve estar preparado para estes
e outros embates da consciência, onde preponderará
a oposição entre pares de opostos
como temporal/espiritual, corpo/alma, estado/Igreja,
política/religião. O comunicador
deve ter em mente aquilo que o povo quer, não
para mudar a essência do discurso religioso
ou muito menos os dogmas da Igreja, mas para falar
a linguagem do povo hoje. O próprio Cristo
se nos apresenta como o maior de todos os mestres
na hora de se comunicar, pois não recorria
aos púlpitos majestosos, nem a grandes
pompas. Falava com o povo ao seu redor, com as
sandalhas empoeiradas e o corpo suado, falava
com histórias simples (parábolas)
que o povo reconhecia com facilidade por serem
representações de sua vida diária.
Jesus usava muitas expressões e palavras
normalmente empregadas no quotidiano das famílias,
suas metáforas são todas de fácil
reconhecimento. Com freqüência cita
o sal como símbolo do espírito profético
que deve animar os cristãos (porque era
o sal que impedia, naquela época, a deterioração
de muitos alimentos) ou da palavra de Deus que
deve mudar a vida das pessoas como o sal que dá
sabor aos alimentos; ora compara o reino de Deus
a um grão de mostarda; ora a uma medida
de fermento que a dona de casa usa para fazer
crescer a massa do pão; ora critica os
doutores da lei que obrigam o povo a pagar impostos
sobre o cominho e a hortelã enquanto trazem
o coração cheio de ódio,
de corrupção, de vaidades, de prepotência
e de todo pecado.
Se
Cristo ensinou a comunicar assim, porque o comunicador
de hoje não usaria representações
do mundo atual para adaptar e ampliar a recepção
de seu discurso?
O
que significa falar a fala do povo hoje? Paradoxo,
que seja em nosso tempo cibernético, certamente
significará retomar a vida e a obra de
Francisco de Assis nos sécs. XI e XII,
em plena Idade Média.
A
Bíblia está na raiz da conversão
do jovem Francisco que abandona uma vida rica
para ser "um pobre de Cristo", iniciando
assim uma "pregação de vida"
(e não só de palavras) para "reconstruir"
a Igreja que, naquela época, estava afastada
de Deus porque tinha se distanciado dos pequenos
e vivia com e como os poderosos. Nessa época
os mosteiros eram cidadelas isoladas, onde os
padres tinham suas posses e até mesmo escravos.
Adotando a pobreza como lema de vida, vivendo
radicalmente o Evangelho, embora sem fazer distinção
entre o Antigo e Novo Testamento, Francisco pregou
para todo mundo, até para o Papa e para
os cardeais; pôs o dedo na ferida da Igreja,
interpelou, mas sem criar animosidade, conflitos,
cisões e excomunhões... Ele falou
mais com o exemplo de sua Ordem da Penitência
do que com palavras e confrontos. Mas só
depois do encontro com o leproso é que
iniciou seu processo de conversão. Depois
de mudar de vida, depois de se deixar persuadir
e impregnar radicalmente pelo Evangelho é
que ele começou a pregar aos outros."
(1993)38
Cena
de "Francisco, Arauto de Deus"
de Roberto Rosselini. Foto: David Seymor
Nos meios eletrônicos (no cinema, na televisão,
no rádio, no computador) a Igreja tem diante
de si todo um
espaço para a sua mensagem. Mas cada veículo
exige um
tratamento adequado da mensagem para que ela possa
ser recebida
e assimilada pelo "auditório universal"
descrito por Perelman
São
Francisco diz que foi Deus mesmo quem lhe revelou
que ele devia viver segundo o Santo Evangelho
que diz "se você quer ser perfeito,
vá, venda tudo o que tem, dê o dinheiro
aos pobres"(Mt 19,21) ou "não
levem nada pelo caminho" (Lc 9,3) e ainda
"se alguém quer me seguir, renuncie
a si mesmo" (Lc 9,3). Para Francisco Deus
nos fala o tempo todo através dos acontecimentos,
das pessoas e da natureza. O cântico ao
Irmão Sol tem este sentido de louvor e
da "imersão da criatura em Deus":
"Louvado sejas, meu senhor,
por todas as tuas criaturas
que no céu formaste
Por nossa irmã e mãe terra...
pela irmã água, a qual é
muito útil e preciosa e casta.
Louvai e bendizei a meu senhor
e rendei-lhe graças
Por nossa irmã e mãe terra,
que vos alimenta e governa
e produz variados frutos
e coloridas flores e ervas.
Louvado sejas, meu senhor,
pelo irmão Sol,
pela irmã Lua e as estrelas
Louvado sejas, meu senhor,
por todas as tuas criaturas
Louvado sejas, meu senhor,
por aqueles que perdoam pelo teu amor."
Para Strabeli "O Cântico do Irmão
Sol expressa primeiramente mais uma experiência
íntima, espiritual, do que uma cosmologia.
Essa experiência é a fraternidade
entre os homens e os elementos cósmicos,
é experiência da reconciliação
do homem consigo mesmo e sua abertura ao ser que
é plenitude". (Op. cit., P.19)
O
maior mal que o homem pode cometer é desrespeitar
seu semelhante, é não amar. "O
desamor corrói a criação,
desequilibra, mata o próprio homem... provoca
a guerra que é divisão, e não
homogeneidade, como na criação",
diz o teólogo franciscano. (Op. cit., P.
20) Segundo ele, na hermenêutica de São
Francisco o texto é lido no seu contexto.
Assim o Antigo Testamento é visto como
promessa e figura do Novo. Cristo está
presente no A. T. como promessa de salvação,
a antiga aliança é figura da Nova.
A Lei estava "grávida de Cristo",
vai dizer Santo Agostinho. São Francisco
cita sempre os dois testamentos, de forma global
e íntegra, pois os dois testamentos são
inseparáveis." (Op. cit., P. 36)
Para
São Francisco a Escritura não é
um livro para ser conhecido. É uma mensagem
para ser vivida. Como toda a Escritura converge
para Jesus Cristo, Francisco faz uma leitura essencialmente
cristológica da Bíblia e diz: "Não
necessito de mais nada: conheço Cristo
pobre e crucificado".
Assim
a encarnação de Jesus tem, na Cristologia
de São Francisco, segundo Strabeli, a finalidade
de revelar o profundo amor de Deus pelo homem:
Jesus se encarna não para redimir o homem,
mas para manifestar visivelmente o Pai. Sua morte
foi conseqüência desse gesto de amor.
Com
a encarnação, Deus divinizou o homem
e com isso se fez nosso irmão e companheiro.
("Emanuel = Deus conosco"- Mt 1,23).
A encarnação é, para São
Francisco, a irrupção de Deus na
História; Deus se insere em nossa história
para nos ensinar a sermos fraternos e livres.
(Op. cit., P. 41)
O
que fez Jesus senão pregar o amor, o perdão,
a fraternidade subvertendo o sistema egoísta
então vigente? Por isto foi crucificado.
São
Francisco, o poeta idealizador da vida simples,
foi o inventor do presépio que montou pela
primeira vez numa gruta de Grecio no Natal de
1223. Sua mensagem, politicamente correta a favor
dos excluídos, do amor entre todos os homens
e em defesa da ecologia, chega forte e atual aos
nossos dias, neste fim de milênio, 800 anos
após a sua morte 04/10/1226, como uma ponte
que interliga o modo de vida simples ("eles
tinham tudo em comum") dos apóstolos
e dos primeiros discípulos aos agitados
dias de hoje, passando sobre a Idade Média
e nos religando com a vida simples, humilde e
pobre do Filho de Deus.
O
egoísmo denunciado por Jesus há
dois mil anos e novamente denunciado por Francisco,
há 800 anos, teria acabado? Pelo contrário,
antes de Francisco, já no séc. IX,
o feudalismo surgido da desintegração
do império romano, com a invasão
dos bárbaros, já submetia os camponeses
à servidão do Senhor Feudal. No
séc. XIV, com a prática da usura
e do comércio, muitos burgueses e banqueiros
acumularam capitais e passaram a investir na produção
com operários assalariados. No séc.
XVI surge o mercado mundial, com os descobrimentos
marítimos e inicia-se outro ciclo igualmente
injusto do ponto de vista sócio-econômico:
o capitalismo, movido unicamente pelo lucro, resultando
em graves injustiças sociais pela má
distribuição da renda.
Nos
séc. XVIII e XIX, com a ampliação
do mercado de trabalho, do volume de dinheiro
e do mercado de consumo, surge a Revolução
Industrial ampliando a produção
das manufaturas, especialmente na Inglaterra.
No
final do século acentuou-se a tendência
à concentração da renda acumulada
através de cartéis, trustes e monopólios,
resultando na formação de gigantescas
empresas multinacionais.
Com
o fracasso da tentativa socialista de inspiração
atéia - como ateu era o positivismo capitalista
nascido do Iluminismo - de melhorar as condições
sociais do homem através da distribuição
justa dos bens produzidos, o capitalismo ampliou
seus tentáculos mundiais transformando
enormes regiões do globo em mercados integrados
conforme os interesses macro-econômicos
das mega-empresas, passando por cima dos interesses
e das culturas regionais (ou nacionais), agora
sob a bandeira do chamado Neo-Liberalismo.
Pode
existir Amor, Fraternidade, Perdão, Paz
onde impera a concorrência desenfreada desde
os níveis individuais (disputa entre as
pessoas por vagas de emprego, posições
sociais etc.) até os níveis internacionais
ou, já não entre as nações
ricas e pobres, mas entre os mercados onde somas
inimagináveis de trilhões de dólares
podem migrar de uma região para outra do
globo bastando apertar uma tecla de computador
e levando a miséria, o desemprego e a fome
para milhões de pessoas do país
de onde o capital saiu para ser investido em local
mais vantajoso, com mão de obra mais barata,
com menos impostos, onde dê mais lucros?
Essa
corrida louca pelo dinheiro e pelo poder não
está levando os homens ao desespero? Eles
teriam para onde apelar senão para o próprio
Senhor Deus dos Desgraçados de que falou
Castro Alves contra o tráfico dos navios
negreiros? Não é o espaço
do sagrado o lugar para este homem inseguro, humilhado,
revoltado e desesperançado do fim do milênio
ter, finalmente, o seu encontro com Deus não
no sentido de "separar a alma do corpo",
na expressão do historiador Eric Hobsbawn,
crítico severo deste século de guerras
e chacinas com seus 300 milhões de seres
humanos vitimados pelas máquinas de morte
do capitalismo e do comunismo, mas no sentido
de ter, realmente, uma experiência com Deus?
Não
é missão do comunicador católico
estar sensível para o modo como esse público
espera receber o discurso religioso? Esse discurso
de esperança não haveria de ser
como um lenitivo para as feridas da alma?
Mas
qual deve ser a mensagem? Trata-se da mensagem
escatológica que persuade pelo medo da
punição ou da mensagem do perdão
e da fraternidade ensinada por Cristo e por Francisco?
Como
mudar e melhorar o mundo sem converter as estruturas
materialistas que trafegam longe de Deus para
matar seus filhos?
Na
América Latina o discurso esboçado
para reagir às injustiças sociais
que contextuam a realidade humana, hoje como há
mil anos, é a teologia da libertação.
Embora
desagradando a setores tradicionalistas da Igreja
- setores para os quais talvez fosse preciso voltar
a pregar o evangelho radical como fez Francisco
para o papa Inocêncio III e os cardeais
- a TL é uma visão especialmente
humana sobre as condições de vida
dos povos latino-americanos que tanto já
sofreram pela depredação praticada
pelos países mais ricos desde os descobrimentos
marítimos.
A
conclusão é que o mecanismo da competição
é perverso porque embora a ideologia das
classes dominantes propale que todos são
iguais - ficando implícito que só
não se enriquece quem não quer ou
não é abençoado por Deus
- na verdade todos sabemos que não é
assim nem entre os indivíduos, nem entre
as nações, nem entre as etnias.
A realidade mostra um empobrecimento crescente
dos mais pobres e um enriquecimento desenfreado
dos mais ricos. Isto porque a lógica da
acumulação não respeita barreiras
éticas, morais, religiosas ou quaisquer
outras. A globalização apenas maximiza
esse potencial mortífero do capitalismo
neo-liberal.
Visto
isto, não é difícil explicar
a corrida do homem em busca de alguma força
sobrenatural situada acima dessa lógica
maquiavélica do mercado. Essa busca quase
desesperada por milagres, aparições,
curas milagrosas, promessas, procissões,
penitências que beiram o fanatismo, culto
popular a expressões regionais como padre
Cícero ou Frei Damião, devocionismos
etc. quando não a própria evasão
do catolicismo na direção dos cultos
afro-brasileiros ou pentecostais em busca de "sensações
mais fortes" quanto à "experiência
com Deus" é sintoma deste final dos
tempos como no milenarismo do séc. X.
Buscam-se
hoje, desesperadamente, um Deus-presente, um Deus-tocável,
um Deus forte, como pediam os Hebreus no Antigo
Testamento ou os Judeus no tempo da dominação
Romana.
O
homem quer se livrar de algozes tão cruéis
hoje como eram o cativeiro do Egito, o cativeiro
de Babilônia ou a dominação
romana. Os fantasmas que povoam a alma humana
no final do milênio são a fome (quase
1 milhão de desnutridos no mundo), a pobreza
(1 bilhão de pobres), a criança
abandonada (13 milhões morrem por ano antes
dos 5 anos), a falta de postos de trabalho (120
milhões estão desempregados) a miséria
(60% da América Latina) a falta de assistência
médica e tantos outros fantasmas que apavoram
o ser humano, num mundo onde "o homem é
lobo do homem", segundo Hobbes.
Campo
de refugiados civis no Sudão: Crianças
subnutridas esperam por distribuição
de alimentos
Pobreza
absoluta castiga 1,3 bilhão
Miséria
Globalizada: Relatório da ONU mostra que
22,8% da população mundial sobrevivem
com menos de um dólar por dia
Cerca de
1,3 bilhão de pessoas vivem com menos de
um dólar por dia, apesar do crescimento
da riqueza mundial, afirma estudo do PNUD (Programa
das Nações Unidas para o Desenvolvimento)
divulgado ontem em Genebra, por ocasião
do Dia Internacional para a Erradicação
da Pobreza.
O número de pobres cresce cerca de 25
milhões por ano, e aproximadamente um quarto
da população mundial vive na pobreza,
segundo o PNUD. Esse cálculo de pobreza
é baseado em definição do
Banco Mundial e da ONU sobre pobreza absoluta:
as pessoas que vivem com até US$ 370 por
ano.
Dados das Nações Unidas sugerem
que, a cada minuto, o mundo ganha mais 47 pobres.
A agência da ONU afirma que 840 milhões
de pessoas, entre elas 160 milhões de crianças,
estão subnutridas. Cerca de 1 bilhão
de pessoas são analfabetas e um número
ainda maior não tem acesso a água
potável.
"Se o número de ricos dobrou em 50
anos, o de pobres triplicou", afirma o PNUD.
Em 1947, o planeta tinha uma população
de cerca de 2,3 bilhões de pessoas, e o
número de pobres (400 milhões) correspondia
a 17,4% da população. Em 1997, 1,3
bilhão de pobres correspondem a 22,8% da
população mundial (cerca de 5,7
bilhões).
O diretor do programa, James Gustave Speth, estima
que um investimento anual de 1% da renda mundial,
durante 20 anos, melhoraria a vida de várias
centenas de milhões de pessoas.
"Proporcionar acesso universal a serviços
de saúde, água potável, educação
e planejamento familiar só demandaria um
custo anual adicional de US$ 40 bilhões",
explicou Speth.
Outros US$ 40 bilhões seriam necessários
para que as famílias mais desfavorecidas
deixassem o estado de pobreza, segundo Speth.
O montante final, de US$ 80 bilhões, "não
chega a 0,5% da renda mundial anual, o que torna
a eliminação da pobreza uma proposta
razoável", diz Speth.
"O fato de termos agora condições
de superar a pobreza nos obriga moralmente a fazê-lo
sem demora. A riqueza mundial (que corresponderia
à soma dos PIBs nacionais) é da
ordem de US$ 25 trilhões e não pára
de aumentar", afirmou o coordenador do PNUD.
As desigualdades entre os países, assim
como dentro deles, alcançam proporções
sem precedentes, acrescentou. A parcela da receita
mundial que cabe a 20% dos indivíduos mais
pobres da humanidade é de apenas 1,1%.
A parte do comércio mundial dos 50 países
menos desenvolvidos, onde vivem 10% da população
mundial, caiu pela metade em 20 anos, ficando
em 0,3%.
Nos países da Europa Oriental e da ex-URSS,
as pessoas vivendo na pobreza passaram de 4 milhões
em 1987 para 120 milhões na atualidade,
o que representa um quarto da população
da região, diz o PNUD.
Entretanto, lembra o estudo, se realizaram enormes
progressos em meio século: a riqueza mundial
cresceu sete vezes, e mais de 75% da população
têm agora acesso aos serviços essenciais.
Desde 1960, a mortalidade infantil nos países
em desenvolvimento caiu mais de 50%. A incidência
da subnutrição teve queda de 30%.
Em 20 anos, a China e outros 14 países,
que representam 1,6 bilhão de pessoas,
diminuíram em 50% a parcela da população
vivendo abaixo do nível de pobreza.
* Matéria publicada pelo jornal Folha
de São Paulo na última
sexta-feira, 17 de outubro de 1997.
É
um cenário que preocupa e leva à
reflexão.
Não
constituimos uma natureza inerte, formada por
objetos dos quais temos apenas que tomar posse
como queria o racionalismo de Descartes, confundindo
homem e natureza apenas como meios de acumular
capital. Somos pessoas, somos sujeitos, com vida
e sentimento.
Não
basta a frieza marmórea e cruel do "penso,
logo existo", é preciso o calor fraterno
do "sinto, logo existo".
Bonhoffer
dizia que "ser para os outros é a
única experiência da transcendência".
No
contexto de nossos dias não há espaço
para a divisão entre as religiões
se é nelas que está a esperança
de uma intermediação entre o homem
e Deus. Continuar brigando e se dividindo é
trair a confiança do povo e os ensinamentos
do próprio Cristo.
Francisco
Catão e Magno Vilela encerram assim sua
destacada obra sobre "O Monopólio
do Sagrado" (Op. cit., P. 359):
"As
religiões são chamadas a se entender
como religiões e a colaborar na busca da
verdade, na luta pela justiça na prática
da solidariedade, por cima de todas as distinções
confessionais, culturais, étnicas ou quaisquer
outras que se possa imaginar. Devem colaborar
até mesmo na oração, numa
busca de Deus no fundo do coração,
para que homens e mulheres de todas as nações,
raças e latitudes, aprendam a viver em
paz, fraternalmente, como filhos de Deus".
O
Papa João Paulo II deu exemplo dessa tolerância
ecumênica ao aludir, na visita ao Rio, à
importância das presenças indígena
e africana em nossa cultura, sendo muito mais
lógico, hoje, aceitar as expressões
do rito afro-brasileiro, até mesmo admitindo
representações nas liturgias católicas
mais solenes - como ocorre na Bahia - que condenar
esses irmãos ao fogo eterno, como se não
pertencesse a Deus, e não a nós,
esse julgamento. Hoje é cada vez mais frequente
usar ritmos e alegorias mundanas, como o próprio
samba, para enriquecer e dar nova dimensão
à liturgia católica. Se no passado
o cristianismo - e até antes, na época
dos patriarcas - usou e transformou mitos pagãos
para transmitir o discurso religioso, a fé
num Deus único e verdadeiro, porque não
incorporar os símbolos de nosso tempo,
as imagens de nossa época - tão
ricas, expressivas e variadas - para ampliar o
alcance e o poder de persuasão do discurso
religioso? Porque não tratar as celebrações
com todos os recursos que a coreografia, a cultura
popular e a participação ativa da
assembléia proporciona?
Ainda
olhando para este século, Roger Garaudy
(Op. cit., P. 150) afirma que "um homem alienado
por um trabalho robotizado, pelos "divertimentos"
padronizados, pela tetanização do
espetáculo, televisado ou não, das
artes do não-sentido e das falsas vidas,
este homem alienado, castrado de suas dimensões,
da opção crítica e do projeto,
do amor, do poder de criar, de inventar o futuro,
este homem exposto ao fetichismo tecnocrático,
à idolatria do mercado, ao ópio
do não-sentido, só consegue ter
uma concepção alienada da fé,
seja para negá-la, seja para transformá-la
em devoção beata".
Se
o pregador da palavra atualizada, hoje, tem dúvidas,
deve meditar sobre este conceito de Roger Garaudy:
"Não basta substituir Constantino39
por Che Guevara. Não basta dizer que Deus
é libertador. "Deus" é
um apelo à minha própria superação.
Não tem sentido dizer a um acorrentado
"Deus o liberta", se não faço
nada para romper essas correntes. Não tem
sentido dizer "Deus te ama", se nada
é feito por aquele que pretende dar seu
testemunho, para mudar aquela situação".
Para
achar o fio do discurso que interessa a nossos
tempos, para levar a mensagem que o público
espera receber, devemos refletir ainda com Garaudy:
"O Deus de que precisamos hoje não
é o das teologias da dominação,
que não cessam de reinar desde Constantino.
O Deus de que precisamos, em um mundo onde o monoteísmo
do mercado opõe um punhado de ricos a uma
multidão de famintos, é o Deus que
revelou Jesus: Um Deus cuja transcendência
não se exprime através do poder,
como o Zeus soberano dos gregos ou o Deus dos
exércitos dos judeus, mas onde o divino
se revela através do mais fraco e do mais
pobre". (Op. cit., P. 44)
O
pregador iniciante talvez pensará duas
vezes antes de afrontar as estruturas como Francisco
de Assis que se deixou impregnar das palavras
do Cristo:
"Mostrar-vos-ei
a quem deveis temer: Temei aquele que tem o poder
de lançar todos no inferno. Não
se vendem dois pardais por duas moedas? E, no
entanto, nem um só deles passa despercebido
diante de Deus. Até os cabelos da vossa
cabeça estão todos contados. Não
temais, pois vós tendes mais valor do que
numerosos pardais" (Lc 12, 5-7).
Como
a Igreja opera o seu discurso hoje? Como ela contextualiza
a palavra sagrada inculturando o discurso nas
diferentes realidades culturais, econômicas
e sociais?
Para
responder a estas indagações, pesquisaremos
a seguir o "fio condutor" em quatro
textos extraídos do Livro do Êxodo,
do Evangelho de S. Mateus, da Encíclica
Centesimus Anus e da Campanha da Fraternidade
- 1996.