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UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio de Mesquita Filho"
FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO - Campus Universitário de Bauru
Capítulo II - A Persuasão

Para atingir o ouvinte, segundo Perelman, é preciso que quem fala leve em consideração a complexidade do auditório, que pode ser compreendida não somente pela existência de língua comum entre orador e ouvinte, mas também pelas condições físicas que os ligam. Citando Perelman, Haquira Osakabe (1979)23 lembra que se o ouvinte é o conjunto daqueles sobre os quais o orador quer influir, pela sua argumentação, é preciso considerar que esse conjunto é uma imagem que o orador cria, segundo seus objetivos. E não se trata de uma imagem simples, pois o quadro no qual se situam orador e ouvinte é o quadro em direção ao qual convergem variáveis psicológicas e sociológicas.
 

Um outro teórico, bem antes de Perelman, Pe. Antonio Vieira, descreve durante o Sermão pelo Bom Sucesso contra os Holandeses um quadro que certamente não nos comove, hoje, séculos depois. Mas, se levarmos em conta o contexto no qual foi pronunciado, com os holandeses prestes a invadir a capital da Bahia e com toda a propaganda da Corte portuguesa sobre o terror que isto significaria para a Bahia e a Colônia, veremos que o jesuíta tinha à sua frente a situação propícia para uma retórica de persuasão.

Quanto ao "Sermão da Sexagésima", o texto é uma explicação da doutrina com o objetivo primeiro de comunicar uma informação, seguido imediatamente da intenção de persuadir. Trata-se de um esquema informacional que situa Jesus como referente; o pregador como destinador e o auditório como destinatário.

A preocupação do pregador é destinar adequadamente o conteúdo da mensagem (o evangelho de Jesus Cristo) para obter a adesão do destinatário (o auditório), pois o objetivo do discurso religioso é a conversão pela persuasão.

Já Perelman ensina que para convencer é preciso antes estar convencido, o que exige acurado preparo do pregador sobre o tema, sobre a circunstância e sobre o auditório, pois o discurso deve ser visto como um todo, "compreendendo o que fala e aquele a quem se fala", nas palavras de Osakabe.

Na antiguidade clássica, Aristóteles, em sua Retórica, distingue três elementos que se relacionam no ato do discurso: O caráter do Orador; as disposições onde se situa o ouvinte e aquilo que o discurso pretende demonstrar.

O nível de empatia que o pregador consegue estabelecer com o auditório é diretamente proporcional ao grau de persuasão que pretende alcançar. Daí a necessária "vinculação" ou "comunhão" entre emissor e receptor da mensagem.

Vieira, nas pegadas de Aristóteles, descrevendo as características do bom pregador, insiste na gratuidade das palavras se elas forem vazias, e não vierem acompanhadas de exemplos paralelos ao discurso; porque deve existir coerência entre idéia e ação, uma vez que se "as palavras movem, os exemplos arrastam".

Longe de indicar que as palavras têm importância menor no conjunto do discurso, isto mostra que é preciso usar uma linguagem escorreita, adaptando-a a cada circunstância: O mesmo sermão de domingo, na mesma Igreja, pelo mesmo padre não pode ter o mesmo tom na missa das crianças, ou na missa da juventude ou na missa dos casais.

Teoricamente, tal postura foi estudada por Oswald Ducrot (1987)24 que a chama de pragmática linguística: "O problema fundamental é saber porque é possível servir-se de palavras para exercer uma influência, porque certas palavras, em certas circunstâncias, são dotadas de eficácia."

Ducrot recorre a um exemplo bíblico para ilustrar seu enunciado: "É o problema do centurião do Evangelho, que se espanta por poder dizer a seu criado "venha", e o criado vem."

Sobre o maior ou menor poder de comunicação da palavra, poderíamos considerar o teor explosivo da palavra "fogo" se pronunciada em altos brados num auditório lotado.

Mas a "pragmática linguística" de Ducrot não se preocupa apenas com o que se faz quando se fala - como a riqueza de gestos, a expressão corporal, a indumentária própria no caso do discurso religioso - mas com o que considera que a fala faz: Le dire est faire. "Utilizando um enunciado interrogativo pretende-se obrigar, pela própria fala, a pessoa a quem se dirige a adotar um comportamento particular, o de responder e, do mesmo modo, pretende-se incitá-lo a agir de uma certa meneira, se se recorre a um imperativo. O ponto importante, a meu ver, é que esta incitação para agir ou esta obrigação de responder são dadas como efeitos da enunciação".

Ducrot cita um outro teórico, Le Guern25 para descrever a persuasão:

"Um dos segredos da persuasão tal como é analisada a partir de Aristóteles é, para o orador, dar de si mesmo uma imagem favorável, imagem que seduzirá o ouvinte e captará sua benevolência... é necessário entender por isto o carater que o orador atribui a si mesmo pelo modo como exerce sua atividade oratória. Não se trata de afirmações auto-elogiosas que ele pode fazer de sua própria pessoa no conteúdo de seu discurso, afirmações que podem, ao contrário, chocar o ouvinte, mas da aparência que lhe confere a fluência, a entonação (calorosa ou severa), a escolha das palavras, os argumentos (o fato de escolher ou de negligenciar tal argumento pode parecer sintomática de tal qualidade ou de tal defeito moral)".

Quanto à questão da coerência entre orador e enunciado, Perelman coloca em termos de ato e pessoa em estado de interação. Cita um texto em que o pregador francês, Bossuet, solicita compreensão para os que pregam a Boa Nova sem o devido preparo (Retóricas, P. 246). "Pregadores corrompidos", indaga-se Bossuet, "poderão trazer a palavra de vida eterna?"E responde, repetindo uma comparação de S. Agostinho:

"A sarça carrega um fruto que não lhe pertence, mas que ainda assim é o fruto da vinha, embora esteja apoiado na sarça... Não desdenheis essa uva, sob o pretexto de que a vedes em meio aos espinhos; não rejeiteis essa doutrina, porque está rodeada de maus costumes: ela não deixa de vir de Deus..."

Mas Perelman ensina:

"A ligação ato-pessoa parece-nos o protótipo de uma série de laços que provocam as mesmas interações e se prestam aos mesmos argumentos: a ligação entre indivíduo e grupo, aquela entre o acontecimento e a época em que sucedeu, e tantas outras ligações de coexistência das quais a mais geral é a do ato com a essência". (Retóricas, P. 247-248)

Perelman define como pessoa aquela que

"é considerada como suporte de uma série de qualidades, autor de uma série de atos e de juízos, objeto de uma série de apreciações, é, portanto esse ser duradouro a cuja volta se agrupa toda uma série de fenômenos aos quais ele confere uma coesão e um significado. Mas, por outro lado essa própria pessoa é conhecida através de seus atos, de suas manifestações, pois existe uma solidariedade profunda entre a idéia que se tem da pessoa e o conhecimento que se tem do conjunto de seus atos. De fato encontramo-nos perante uma constante interação entre o ato e a pessoa". (Retóricas, P. 224)

No conteúdo do discurso religioso encontramos um resumo que define o bom pregador: "Não é má a árvore que dá bons frutos". Ou ainda: "Por vossas obras sereis conhecidos".

Na relação ato-pessoa Perelman entende por ato tudo o que pode ser considerado emanação da pessoa: "Serão tanto ações como juízos, modos de expressão, reações emotivas, tiques involuntários", diz. (P.228).

Sempre empenhado em demonstrar como é importante o "bom nome"do pregador para atingir a persuasão, destaca que em nosso meio é muito comum prevermos o futuro de uma pessoa pelo que se sabe dela e de seus atos passados: "Mas é mais curioso constatar que se pode predizer o comportamento das pessoas não se baseando na experiência passada, mas na idéia de uma impossibilidade moral, fornecida por um sistema de crenças, e totalmente paralela à impossibilidade física, fornecida por um sistema científico". (P.230)

Perelman ilustra o caso com esta citação de Pascal:

"Há muita diferença entre não ser a favor de Jesus Cristo e dizê-lo e não ser a favor de Jesus Cristo e fingir sê-lo. Uns podem fazer milagres, não os outros: pois fica claro, de uns, que estão contra a verdade, não dos outros, e assim os milagres ficam mais claros. A quem fosse inimigo encoberto, Deus não permitiria que fizesse milagres abertamente. Os milagres diabólicos são possíveis, porque não enganam ninguém; não é possível, em contrapartida, que Deus permita aos inimigos ocultos de Jesus Cristo enganar os fiéis através de milagres". (P.231).

Segundo Perelman "Embora o caráter do auditório seja primordial na argumentação retórica, a opinião que esse auditório tem do orador desempenha um papel de igual importância. É impossível à argumentação retórica escapar à interação entre opinião que o auditório tem da pessoa do orador e aquela que tem dos juízos e argumentos deste." (P. 74).

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