UNESP -
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio
de Mesquita Filho"
FACULDADE
DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO
- Campus
Universitário de Bauru
Capítulo
I - A Presença do Mito Hoje
2.
Mitologia Medieval 2.1. Mil Anos de Tradição
2.2. Fé Imposta
2.3. Fé Adquirida 2.
Mitologia Medieval
2.1. Mil anos de tradição
Nas suas origens, o cristianismo ainda não
constituía uma religião nova.
Sua convivência dentro do judaísmo
foi se tornando cada vez mais difícil.
A ruptura, segundo vários autores, consumou-se
plenamente por volta do ano 79 da nossa era, época
da destruição do templo de Jerusalém.
A causa determinante da ruptura foi o desentendimento
relativo à observância da lei
e a licitude das relações entre
judeus e não judeus. Paulo testemunha
isto de maneira clara. Refletindo sobre a relação
entre Judaísmo e Cristianismo, ele aponta
para a liberalidade da graça que tornou
caduca a lei como causa da diversidade religiosa
entre cristãos e judeus.
Mas a leitura atenta dos evangelhos revela
que "a causa real da ruptura foi, em última
análise, o lugar que Jesus ocupava na
doutrina cristã da realização
do desígnio de Deus, seu reconhecimento
como Messias, Senhor e Filho de Deus" (conforme
Franco Catão e Magno Vilela, 1994)20,
raiz do processo que levou Jesus à morte.
Vários autores discutem o conflito entre
o judaísmo e o cristianismo nascente.
- O Judaísmo não poderia jamais
admitir a exaltação do Senhor
Jesus. Isso contrariava sua fé, no que
tinha de mais essencial e característico,
a confissão da unidade de Deus, criador
de todas as coisas. A sinagoga não poderia
conter a Igreja em seu seio sem deixar de ser
o que era. ( Catão e Vilela, Op. cit.
P. 315)
O evangelho de Mateus testemunha o clima polêmico
em que se deu a separação entre
cristãos e judeus: o Judaísmo
rejeitava o Cristianismo sob a mais grave acusação
religiosa possível: atentar contra a
unidade e a transcendência do Altíssimo.
Os cristãos, por sua vez, acusavam os
judeus do mais grave dos pecados: rejeitar
o dom de Deus e resistir ao Espírito
Santo.
Mesmo assim inúmeros cristãos
judeus participaram do Primeiro Concílio
de Jerusalém. Nessa ocasião -
contam Catão e Vilela - eles abriram
mão de uma série de observâncias
consideradas sagradas. Tudo para que os não-judeus,
por eles considerados gentios, pudessem receber
o Evangelho, ser batizados e viver como cristãos.
Mas a tentativa de aproximação
não deu resultados, porque Jesus, anunciador
do Reino de Deus, em meio a tantos profetas
e mestres em Israel, passou a ser reconhecido
pelos discípulos como Cristo (palavra
grega que significa Messias, Enviado), Filho
do Altíssimo. De Anunciador do Reino,
tornou-se objeto do anúncio. De Adorador
de Deus, tornou-se adorado como Senhor. (Catão
e Vilela, Op. cit. P. 316)
"A tradição teocrática
de Israel, especialmente sob a ocupação
romana detestada pelo povo, determinou a maneira
como foi recebida essa primeira pregação
de Jesus". (Catão e Vilela, Op.
cit. P.114)
A essa dissensão inicial, seguiu-se
a perseguição do Império
romano transformando mártires em sementes
de novos cristãos, com a religião
baseando-se na tradição oral
e nas celebrações das catacumbas.
Só ao final do séc. I a doutrina
de Cristo estava codificada nos evangelhos,
iniciando-se um ciclo de 1.300 anos até o
Renascimento, após a Idade Média.
Características sociais e políticas
do período permitiram que a Igreja monopolizasse
o sagrado, tornando-se dona da verdade e depois
misturando-se também com o poder civil
numa simbiose que a levou para longe dos objetivos
primeiros do ideal cristão todo ele
baseado no amor ao próximo e na adesão
a Deus.
A Arte medieval, com sua riqueza de símbolos
e ícones, com sua vasta mitologia, traduz
bem o sentido da religião nesses mil
anos de supervalorização da teologia,
uma teologia hermética, voltada para
o estudo de um Deus distante, ameaçador,
punitivo, castrador, que nada lembrava o pobrezinho
de Nazaré.
Era uma Igreja das cortes, dos castelos feudais,
de papas civis e até ateus e assassinos,
escolhidos por famílias nobres, sem
compromissos com a Igreja de Cristo. Era um
tempo em que a moral católica via pecado
em tudo, erigindo-se a Igreja como árbitro
e dona da verdade, plasmando toda uma civilização
alicerçada na culpa e na tradição
judáico-cristã do bem e do mal
(maniqueísmo). Nesse contexto sobrava
pouco espaço para o homem que só no
Renascimento explodiu em criatividade, como
que libertando-se do atraso milenarista e proclamando
a glória de Deus em suas catedrais e
nos traços geniais de seus pintores,
escultores, poetas e amantes de todas as artes.
Hoje, entendemos a Igreja como expressão
histórica da comunicação
de Deus com os homens. Mas esta é uma
visão (chamada "aggiornamento")
decorrente dos últimos séculos,
particularmente dos Concílios de Trento
(1545-1563) e do Vaticano II.
Antes a Igreja era dogmática e tradicionalista,
monopolista, muito distante da "igreja
pastoral" que vemos no mundo pluralista
de hoje. Era uma igreja especialmente ortodoxa
e fechada, com o conhecimento acumulado nos
mosteiros, detentora do bem e do mal, como
bem descrito no romance de U. Eco "O Nome
da Rosa". Essa Igreja, distanciada de
Deus e amiga da pompa, inebriou-se no poder
material praticando aberrações,
confusões e perseguições
de todo tipo, até provocar o terceiro
grande cisma que foi a Reforma Protestante
de Zwínglio, Calvino e Lutero no séc.
XVI que arrebatou parte do ocidente (A segunda
subdivisão da Igreja ocorreu no séc.
XI com a Igreja Bizantina que passou a dominar
parte do Oriente - Igreja Ortodoxa).
A reforma levou a Igreja para o Concílio
de Trento que, ao longo de 18 anos, plantou
as bases da contra-reforma, isto é,
da nação católica moderna.
Doravante, devia-se distinguir com precisão
os católicos dos protestantes, "a
golpes de anátemas, controvérsias
e enfezadas condenações",
no dizer de Catão e Vilela.
Restabeleceu-se ou recrudesceu o monopólio
religioso do catolicismo que seria mantido
ao longo de cinco séculos nos moldes
tridentinos. A Igreja consolidou sua visão
de mundo como sociedade hierárquica
de clérigos. Os leigos só podiam
exercer papel subalterno. Tudo na Igreja remonta à tradição
dos dogmas. Uma tradição de mais
de mil anos tão ortodoxa agora como
antes da contra-reforma.
2.2. Fé Imposta
Detendo o monopólio do sagrado e distanciando-se
dos dissidentes pela reafirmação
de dogmas básicos - como Comunhão,
Maria e o Papa - a Igreja da Idade Média
se caracterizou pela concentração
dos poderes político e religioso nas
mãos do sucessor de Pedro, bispo de
Roma, reunindo na tiara o tríplice poder
de sacerdote, rei e juiz, sendo o Papa considerado
Soberano Pontífice. Enquanto Vigário
de Cristo, desempenharia o papel de representante
de Deus no mundo. Teria o poder de dispor de
todas as coisas e pessoas em virtude de sua
autoridade divina, delegada por Jesus aos apóstolos
e a seus sucessores, reunidos em torno de Pedro.
Até um século atrás,
ou menos, esse aparato de poder - mesmo com
a separação entre Igreja e Estado
- dava ao catolicismo as mais amplas condições
para impor as suas crenças a todos os
povos através dos mais diferenciados
meios.
Esses meios passaram do Tribunal do Santo
Ofício às Cruzadas contra os
mouros; do envolvimento com monarcas sanguinários à exercitação
do discurso de conversão como o de pregadores
famosos como, Santo Agostinho, Francisco de
Sales, Antonio Vieira; ou às meditações
de Teilhard de Chardin ou, ainda, aos Pensamentos
de Pascal e tantos outros exemplos.
No Séc. XVI, por exemplo, a Igreja
enfrentava o cisma ocidental da Reforma Protestante
e reunia-se no Concílio de Trento, um
concílio, aliás, que não
tomou conhecimento do que se passava no novo
mundo, muito menos no Brasil.
Foi um período de fé imposta
pelo dogmatismo, pelo monopólio da fé,
sem levar em conta as características
regionais de cada povo ou mesmo da pessoa humana,
as culturas e costumes locais, os regionalismos,
a religiosidade popular dos índios e
dos caboclos, os mitos que os índios
usavam para tentar explicar a vida, apenas
transferindo para os últimos cinco séculos
de história a patrística dos
primeiros séculos da igreja sem se preocupar
com a atualização do discurso,
com o que chamamos hoje "aggiornamento",
atualização, inculturação,
a ponto de João Paulo II pedir perdão
aos povos indígenas por ocasião
da celebração dos 500 anos da
invasão portuguesa no Brasil.
Em mais de mil anos - além de se desviar
pelos caminhos do mundo, pregando para os nobres
- a igreja reservou aos pobres somente a parte
do discurso que comportava ameaças,
medo, coerção, castigos, punições,
castração etc. infundindo assim
a idéia de um Deus Vingativo, quase
que relegando a plano secundário o evangelho
do amor de Cristo, recuando ao mais profundo
do Antigo Testamento, no que ele tem de mais
severo e ameaçador, tanto na voz dos
profetas como na história dos reis,
dos juizes e nas falas de Javé.
Javé fala com imposição.
Ameaçou Adão com a morte se ele
comer da árvore do bem e do mal (Gen.
2, 17); logo em seguida condenou a serpente: "És
maldita entre todos os animais e andarás
de rastro sobre o ventre. Porei inimizade entre
ti e a mulher"(Gen. 3,14-15). Também
amaldiçou a mulher por ter aceitado
o fruto proibido: "Multiplicarei o trabalho
dos teus partos. Parirás teus filhos
em dor e teu marido te dominará"(Gen.
3, 16). Voltou-se para Adão: "A
terra será maldita por causa da tua
desobediência. Tirarás o sustento
dela à força de trabalho. Ela
te produzirá espinhos e abrolhos. Comerás
o pão com o suor do teu rosto até que
voltes à terra porque és pó e
ao pó voltarás".
Já no cap. 4 a pedagogia da punição
continua presente quando o Senhor amaldiçou
Caim pela morte de Abel: "Serás maldito
sobre a terra que abriu a boca e recebeu o sangue
do teu irmão. Quando a cultivar, ela não
dará os seus frutos. Andarás vagabundo
e fugitivo sobre a terra".
Dois
capítulos adiante, no 6º,
o Gênesis dá conta de que Deus
se arrependera de ter criado o homem tal a
corrupção já presente
sobre a terra e manda o dilúvio: "Eu
destruirei de cima da face da terra o homem
que criei. Estenderei minha vingança
desde o homem até os animais, dos répteis às
aves do céu porque me pesa os ter criado"(6,7).
Abençoando Noé que se salvou
do dilúvio Deus parecia aceitar a inconstância
humana e proclamou: "Não amaldiçoarei
mais a terra por causa dos homens, porque o
espírito e o coração do
homem são inclinados para o mal desde
a sua mocidade"(Gen. 8,21).
Mas,
ao repetir a Noé a recomendação
dita antes a Adão e Eva ("crescei
e multiplicai-vos") Javé adverte
aos que pecarem: "Todo o que derrama o
sangue humano será castigado com a efusão
do seu próprio sangue (Gen. 9,6)
No
cap. 12 o Senhor aflige o Faraó com
muitas pragas porque ele se aproveita de Sarai,
mulher de Abraão, durante viagem do
patriarca ao Egito (Gen. 12,17).
Segue-se
a destruição de Sodoma
e Gomorra por causa da iniquidade dos homens
(cap. 19).
Até à morte de José,
no final do Gênesis, o Senhor não
impõe mais castigos aos homens, apenas
acompanha e abençoa sua história.
No
Livro do Êxodo a persuasão
se dá de modo mais direto quando Deus
convence Moisés e põe na sua
boca palavras de fogo contra o Faraó até conseguir
a libertação do povo hebreu.
Ele
ensinou a Moisés até mesmo
as palavras que deveria usar para persuadir
o Faraó a deixar o povo partir, ensinando
o truque das varas a serem convertidas em cobras
(Ex. 4,2) e demais recursos de convencimento,
orientando ainda sobre o que dizer ao povo
para conquistar-lhe a confiança: "Dirás
aos filhos de Israel: O Senhor Deus de vossos
pais, O Deus de Abraão, o Deus de Isaac,
o Deus de Jacó me enviou a vós.
Este será o meu nome por toda a eternidade."
No
deserto o Senhor voltou a se irritar com
o povo que preferiu adorar o bezerro de ouro
enquanto Moisés não descia do
Sinai com as Tábuas da Lei. Os Dez Mandamentos
são impositivos. Não admitem
tergiversação.
Moisés também usa um discurso
impositivo ao se relacionar com o povo hebreu
que está sempre reclamando da sorte
e com Deus, dizendo preferir o cativeiro no
Egito a perambular pelo deserto.
Tanto
Moisés como Javé prometem
bênçãos aos que obedecerem às
prescrições, e maldições
aos que se desviarem do caminho do bem, preferindo
a idolatria.
Ao longo do Antigo Testamento vemos profetas
punindo os reis, em nome de Deus, além
de ameaçá-los com castigos se não
seguirem a vontade de Deus. É sempre um
discurso de imposição, recebido
com temor e receio pelo povo diante dos milagres
que os profetas têm o poder de fazer.
2.3. Fé Adquirida
Entretanto,
diacronicamente, percebe-se que o discurso
religioso tem mudado de forma através
dos tempos, mesmo sem alterar a sua essência
mais profunda que é o amor entre Deus
e os homens.
Muitos
desvios, muitas crises, muitas confusões
parecem afastar para longe do povo; muitas
vezes, esse amor do Pai, foi reservado para
os nobres, os poderosos, exatamente os que
praticavam o culto ao próprio poder
e não a Deus.
Esquecida
pelo Concílio de Trento,
a América Latina responde 500 anos depois,
incentivada pelo Concílio Vaticano II,
apresentando uma proposta de evangelização
voltada para o diálogo, para o respeito às
demais religiões, retomando o grito
de Francisco de Assis(1182-1226) que emerge
dos tempos medievais (1.200) como um holofote
alumiando um futuro de fiel obediência
ao evangelho e ao maior de todos os mandamentos,
o mandamento do Amor.
Uma
análise detalhada do discurso,
como na teoria preconizada por Ducrot, mostra
que a semântica do texto bíblico,
fonte maior da comunicação religiosa,
está repleta de figuras de linguagem
que deixam margem a variadas interpretações
na medida em que a determinação
do sentido depende das circunstâncias
da fala, como veremos adiante, ao tratar explicitamente
da argumentação e da persuasão.
O confronto sincrônico de textos do Antigo
Testamento - do Êxodo por exemplo - com
o Discurso Programa em que Mateus anuncia os
ensinamentos básicos de Cristo revela
um avanço expressivo de linguagem.
Enquanto
Javé determina, secamente "não
matarás"(Ex. 20,14), de forma peremptória,
no Novo Testamento Jesus amplia o enunciado
e lhe dá outro alcance, com dimensão
humana, conforme o mandamento do amor:... "eu
porém vos digo, amarás a Deus
sobre todas as coisas e ao próximo como
a ti mesmo"!
Portanto
o discurso evolui de uma posição
de "não matar" para o conceito
de "amar os inimigos".
Muitas
outras situações revelam
o Novo Testamento como uma revolução
na comunicação entre Deus e os
homens. Até em coisas aparentemente
simples como a carta de divórcio que
a lei de Moisés permitia ou como a chamada "Lei
de Talião", ocorre uma reviravolta
que intriga os hebreus e Jesus esclarece que
foi por causa da dureza dos corações
que Deus permitiu a Moisés liberar o
divórcio. Ele, porém, coerente
com sua pregação de respeito
e caridade entre todos os homens, assevera: "Não
desuna o homem o que Deus uniu".
Se
há atualização de
linguagem entre Antigo e Novo Testamento (...não
vim para rejeitar a lei e os profetas, mas
para que se cumpra a vontade do Pai), há uma
atualização ainda mais expressiva
na aplicação prática do
texto codificado nos evangelhos.
Vimos
que nos 1.300 anos seguintes à divulgação
dos evangelhos escritos a Igreja atravessou
profunda crise como instituição,
afastando-se da Fé e impondo seus princípios
a ferro e fogo, literalmente.
Só muito recentemente, com a transformação
social, econômica e política do
mundo, especialmente após a Revolução
Industrial, depois das divisões havidas
no seio da Igreja, o discurso de persuasão,
voltado para a conversão, deixou, embora
não totalmente, de lado o monólogo
para abrir-se ao diálogo tanto com os
fiéis como com os demais cultos e crenças.
A
Fé já não resulta da
imposição porque os sacerdotes
não estão mais em guerra com
os leigos, mas ao lado dos trabalhadores, acampados
entre os sem terra, trabalhando nas fábricas,
morando nas favelas, atuando entre os jovens,
através de instituições
leigas como a Ação Católica,
antes, e as Comunidades Eclesiais de Base,
hoje.
Os
bispos já não moram nos palácios,
discutem os problemas do povo e lutam junto
aos governos para melhores condições
de vida da população, buscando
salvar o homem como um todo: corpo e alma.
Os
temas das Campanhas da Fraternidade, todos
os anos, revelam essa preocupação
social da Igreja nascida com a encíclica
Mater et Magistra de João XXIII. A fé,
agora, já é adquirida de modo
espontâneo num plano individual de adesão
a Deus.
Muitos
católicos já sabem compreender
que Deus é maior que a Igreja.
Já é possível superar
aquela fase de "largar a igreja" porque
um padre causou escândalo ou porque alguém
disse que no passado a Igreja traiu seus próprios
princípios e se afastou de Deus como
o povo hebreu no deserto.
A
dimensão da fé nos conduz
a um Deus que está dentro de nós
e não pendurado nas catedrais ou confinado
nas sacristias.
A
experiência de Deus, hoje, é a
própria vida, é a prática
do verdadeiro humanismo, é o respeito
entre os irmãos e também à própria
natureza que já não é mais
vista como inimiga a ser dominada a partir
da ordem que Adão ouviu no Éden
antes da Queda e que a exploração
capitalista levou ao pé da letra nos últimos
300 anos a ponto de colocar em risco o equilíbrio
ecológico do planeta, tal a ganância
pelo lucro.
Toda
essa mudança acompanhou a evolução
dos tempos e hoje só comunica, só persuade,
só convence um discurso inculturado
na nova ordem mundial.
Essa
nova ordem mundial conduz a Igreja a se posicionar
diante de "pares de opostos"(como
quer Campbell) ou Duplos (como em Françoise
Graziani - Dicionário de Mitos Literários)
que parecem remontar à questão
básica da "dupla natureza"de
Cristo definida no Concílio de Calcedônia,
em 453 d.C., resultando a fórmula definitivamente
consagrada do "verdadeiro Deus e verdadeiro
homem", como buscam demonstrar os quatro
evangelistas. Também a Igreja pergunta-se
sobre o comprometimento maior com o temporal
ou com o espitirual. Daí as correntes
internas ditas conservadoras (voltadas para
o plano espiritual como fazem os carismáticos
e a própria linha pastoral do Vaticano)
e progressistas (representadas pela Teologia
da Libertação e parte da CNBB
com engajamento amplo no campo político
e social, denunciando injustiças, situando-se
preferencialmente ao lado dos excluídos,
buscando salvar todo o homem e o homem todo).
Naturalmente,
o processo de comunicação
da Igreja decore dessa preocupação
dual, dessa oposição conflituosa
que muitas vezes acaba confundindo o rebanho
já tão inseguro, neste fim de
milênio.
Por
outro lado, atuando nas duas frentes, a espiritual
e a temporal, como que mantendo
o pé em duas canoas, a Igreja acaba
se comunicando universalmente com todos os
povos (o que Perelman chama de Persuasão
Convincente).
Assim, baseando-se no dom da Fé, a Igreja
mais une que desune porque acima dessa contradição
interna, acima da própria Igreja está Aquele
do qual resultam todas as coisas e em nome do
qual se praticam todas as retóricas, todos
os tratados de argumentação, toda
teologia e toda comunicação: Jesus
Cristo.
É o cristocentrismo que assegura a
unidade da Igreja, de modo que são muitas
as fórmulas, são várias
as correntes de pensamento, mas um só é o
tema da comunicação anunciada:
Jesus Cristo, porque um só é o
Senhor.
O
que parece uma divisão, no seio da
igreja, torna-se, com efeito, motivo de união
quando se vê no homem a imagem de Cristo.
Por isto, ao mesmo tempo que incentiva movimentos
conservadores como a Opus Dei (fundada em Madri
em 1928 por Monsenhor Josemaria Escrivá de
Balaguer - primeira associação
católica autorizada pela Santa Sé a
aceitar a cooperação de membros
de outras religiões) e a Renovação
Carismática (que vibrou no mundo inteiro
quando João Paulo II disse durante visita
aos EUA: "Long life for the carismatics"),
a Igreja pratica, através da chamada
ala progressista ou emgajada, um discurso mais
terra-a-terra, mais realista, mais pé no
chão dentro da contingência temporal
do homem.
A
prova de que a Igreja mais une que desune
apesar dessa contrafação interna,
está na capacidade que o Papa tem de
falar ao coração dos jovens,
reunindo milhares deles em torno do altar de
Cristo como aconteceu este ano na França,
durante o encontro mundial da juventude católica.
Todas
estas informações são
elementares para o comunicador cristão
situar sua linha de argumentação
na esfera do sagrado. A lição
a tirar é que o elemento básico
do discurso está lastreado no pressuposto
da Fé.
Reunir
o povo de Deus em torno do altar, para o
sacrifício da missa, é reuní-lo
para a partilha da palavra, da participação,
da comunicação.
Por isto estudaremos, a seguir, o ritual da
missa que centraliza o discurso religioso na
esfera do catolicismo.