UNESP
- UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio
de Mesquita Filho"
FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO
- Campus Universitário de Bauru
Capítulo
I - A Presença do Mito Hoje
1.
Mito e Comunicação
1.1. O Poder da Imagem
1.2. Contextualização e Interpretação
1. Mito e Comunicação
As
múltiplas possibilidades de interpretação
dificultam a definição de mito.
Seria
"uma forma narrativa que busca explicar de
forma própria fenômenos importantes
para a sociedade que o cria, adota ou adapta"
(Hilário Franco Júnior, 1996)3.
"Mitos
são pistas para as potencialidades espirituais
da vida humana... Eles servem para nos conduzir
a um tipo de consciência que é espiritual",
no dizer de Joseph Campbell (1995)4, também
explicando o mito não como uma sequência
de imagens independentes, mas como "um todo
significativo, no qual um aspecto particular do
mundo real está refletido".
Ernst
Cassirer5 define o mito como formas simbólicas
de expressão. Trata-se de uma intuição,
não de uma abstração. O mito
difere da arte por ser um ato de fé, seu
mundo é um mundo de forças, de ação,
e de poderes conflitivos. Para o sentimento mítico
e religioso a natureza se torna uma grande sociedade,
a sociedade da vida.
O
elemento comum a todos os mitos, segundo Eduard
Buess, é que todos eles fazem referência
ao conhecimento do que não se pode conhecer.
O
Dicionário de Mitos Literários,
organizado por Pierre Brunel6 (1997), registra
que "inúmeras explicações
antigas do universo e de seu funcionamento concentram-se
na exploração dos mitos cosmogônicos...
tais mitos são ligados à ciência,
ao sagrado e à idéia de uma revelação
relativa à formação do mundo."
Henry
Frankfort7 define o mito como "uma forma
de poesia que vai mais além da poesia,
pois proclama uma verdade, uma forma de raciocínio
que vai mais além do raciocínio
ao querer levar a cabo a verdade que proclama;
uma forma de ação, de conduta ritual;
uma forma de ação que não
encontra sua total culminação no
ato, mas que há de proclamar e elaborar
uma forma poética de verdade."
Acrescenta
que o mito não é um pensamento discursivo
que opera sobre princípios gerais ou leis
aceitas do pensamento e do ser.
Pintura
das cavernas de Lascaux França:
Representação mítica
da caça como fonte de alimentação
e vida?
Também Campbell8 destaca a poética
do mito ao indagar: "A mitologia poderia ter
brotado de alguma outra mente que não a dos
artistas? As cavernas-templo do Paleolítico
nos dão a resposta". Ele acrescenta
que a mitologia é uma imagem poética
supranormal, concebida, como toda poesia, em profundidade,
mas susceptível de interpretação
em vários níveis. Na mitologia das
cavernas - templo está a origem de todas
as catedrais e todos os templos que não são
meras casas de reunião, mas manifestações
do espaço mágico de Deus, segundo
Campbell.
Para que alcance seus fins próprios,
o mito tem que ser sempre uma representação
simbólica da realidade última. Envolve
as realidades mais profundas, as coisas pelas
quais vivem os homens. É uma realidade
vivida. Como consequência, cada religião
vital há de ter sua própria mitologia,
porque o mito é a linguagem natural da
religião, como o ritual é sua dramatização
no culto.
Aqui chegamos ao ponto: é
através do mito que a religião se
comunica ao longo dos séculos, atualizando,
transformando e adaptando essa comunicação
ao contexto histórico de cada época
para se fazer entender.
Continuamente reelaborada a exegese
do símbolo, que é o próprio
mito, na definição de Jakob Bachofen9,
nos fala ao longo da história de forma
oral, anônima, coletiva. Mas o sentido de
um mito não se encontra apenas nele próprio
e sim na sua articulação com outros
mitos, como já vimos, daí o termo
"mitologia" para expressar a significação
dos símbolos.
O mito, perpetuado no ritual,
é garantia de continuidade daquilo que
ele representa. Assim a missa católica
é um conjunto de ritos concêntricos
que tem seu ponto culminante no rito da partilha
do pão,a comunhão, recuperando repetidamente
("do nascer ao pôr do sol") o
Mito Jesus. Por sinal, mito, aqui, no melhor sentido
do termo, como nos autoriza o já citado
Dicionário de Mitos Literários (p.
517), em verbete assinado por André Dabezies:
"Na
medida em que o mito pode exprimir a experiência
mais profunda da humanidade, falar de mito a propósito
de Jesus Cristo não implica nenhuma redução
com o propósito de negar (como implicava
no século passado) e não envolve
absolutamente um pré-julgamento da atitude
religiosa de quem quer que seja".
1.1 O Poder da Imagem
Cristo
em Majestad afresco da Abside da igreja de
São Clemente Tahull,pelo mestre de
Tahull; 1123, Museu de Arte Catalã,
Barcelona
Foi
na Idade Média que a representação
do sagrado atingiu seu ponto máximo através
das pinturas dos grandes autores. O discurso imagético
era intocável. Era um patrimônio
do sagrado, prevendo-se pena de morte para aquele
que ousasse modificar as obras sacras, alterar
os textos sagrados.
Naturalmente
tal limitação não se aplicava
ao próprio autor da obra, do contrário
Dante não teria criado a Divina Comédia
como sátira política e Michelângelo
não teria escandalizado os moralistas de
seu tempo com os nus do David ou da Capela Sistina.
Segundo
Enrico Castelli (Paris, 1971)10 "A imagem
sagrada não pode ser desmistificável
da mesma forma como a arte sagrada porque ela
não é um mito em si mas um veículo
de signos. Fazer distinção entre
imagem sagrada e imagem do sagrado é possível
e necessário".
Afinal
foi a falta de clareza nesse particular que levou
a reforma protestante a criticar a "adoração
de imagens pelos católicos". Após
o Concílio Vaticano II ,(1962-1965) deu-se
a retirada das imagens dos altares principais,
sendo recuadas para altares secundários
nas igrejas, pois o excesso de imagens desviava
a atenção do Cristocentrismo.
Tal
procedimento tratava de esclarecer, todavia -
e esta comunicação não obteve
sucesso - que o culto se dava em torno daquilo
que a imagem representava e não da imagem
em si.
Mais
recentemente, em 12 de outubro de 1995, tivemos,
no Brasil, o episódio do pastor que chutou
a imagem de Nossa Senhora Aparecida diante das
câmeras de TV.
Insistindo
em atuar com o sinal trocado, talvez fingindo
ignorar o poder de representação
da imagem, o pastor agiu como quem chuta um pedaço
de gesso pintado que se compra em qualquer esquina,
por alguns reais. Mas a reação que
se seguiu fez ver que havia toda uma devoção
popular em torno não do gesso, mas daquilo
que o pedaço de gesso representava, deduzindo-se
daí o poder de comunicação
daquela imagem ou de qualquer outra imagem relacionada
com o sagrado.
12/10/95:
O pastor Von Helder, da Igreja Universal do
Reino de Deus chuta a imagem de N. Srª.
Aparecida na Tv Record
Castelli11
vê na arte sagrada "um aspecto da busca
da equidade na ordem do sobrenatural; ela transcende
a razão na representação do
não representável (o sagrado) por
descrever em uma profanação sui generis
(uma injustiça gráfica) os elementos
de uma evocação do divino no mundo
do sensível."
Já na Idade Média,
inspirados em elementos folclóricos da
época, os autores revelaram, em muitos
trabalhos, que a imagem é uma expressão
plástica não apenas do literário,
mas de todo o enquadramento sócio-cultural
que engendra o literário, inclusive da
oralidade que representava papel fundamental na
Idade Média (Hilário F. Jr.). É
pela imagem que a Igreja passa o seu discurso
no contexto medieval. Porém, para lê-las
é preciso partir do ambiente sócio-cultural-psicológico
da produção da imagem e procurar
interpretá-las com leituras possíveis
que ela recebia. Para Hilário F. J. "trata-se
de pensar sobre as funções da imagem
que não são necessariamente explicadas
pelas suas formas. É preciso retirar o
véu que recobre o símbolo, isto
é, verificar as revelações
entre significante e significado", conduta
indicada no episódio do chute na santa
para avaliar as conseqüências do caso.
Em nossos dias o papel da imagem
como elemento de comunicação continua
forte e atuante.
Se as imagens do medievo situaram-se
apenas como referência do patrimônio
cultural do Renascimento, as várias representações
simbólicas do sagrado continuam presentes
no imaginário popular, ostentadas em procissões,
romarias, celebrações litúrgicas
e todo tipo de exteriorização da
religiosidade.
A comunicação pela
imagem dá-se, principalmente, através
da televisão, por sua capacidade de envolvimento
direto com o segmento de público "preparado"
para a recepção e o entendimento
do discurso não-verbal.
É nessa área, por
exemplo, que a Igreja Católica tem perdido
espaço por ter demorado a aderir aos novos
tempos da comunicação instantânea
via satélite ou pela Internet. No estúdio
de TV ou no sermão de domingo o sacerdote
já não pode ser apenas um bom conhecedor
da teologia. Ele precisa ser, sobretudo, um comunicador,
sem traços de amadorismo. Trata-se de um
desafio que se apresenta, hoje, aos seminaristas,
futuros comunicadores; anunciadores da palavra,
no espaço do sagrado.
O poder da imagem é o poder
da comunicação. É um poder
que pode ser usado para obter resultados pré-determinados.
Assim compreendendo, o milenarismo recorreu às
horríveis máscaras demoníacas
para anunciar o fim do mundo nos sécs.
X e XI.
De outro lado, o terror provocado
pela imagem demoníaca teria a função
de convencer o católico a se refugiar em
Cristo. Na virada do segundo milênio, a
técnica se repete, agora com uma tentativa
de "humanização" dos monstros
horríveis apresentados em filmes ou em
programas infantis com vastas doses de "bondade",
"coragem" e até "simpatia",
como se houvesse interesse em tornar aceitável,
palatável, a falta de estética de
tais personagens, o que estaria de acordo com
outra seita milenarista, a Nova Era ou "New
Age".
A imagem está sempre presente
e atuante como poderoso meio de comunicação
e de persuasão na esfera do sagrado, quer
no iluminismo renascentista, quer no maneirismo
barroco, quer no pós-moderno .
A presença do barroco é
característica na comunicação
do sagrado com seus anjinhos rechonchudos e nus,
como na obra "Christus Infans" e a Vaidade
do Mundo, de Antonio de Pereda (Église
d’Arc-Senans), séc. XVI.
É
nessa área, por exemplo, que a Igreja Católica
tem perdido espaço por ter demorado a aderir
aos novos tempos da comunicação
instantânea via satélite ou pela
Internet. No estúdio de TV ou no sermão
de domingo o sacerdote já não pode
ser apenas um bom conhecedor da teologia. Ele
precisa ser, sobretudo, um comunicador, sem traços
de amadorismo. Trata-se de um desafio que se apresenta,
hoje, aos seminaristas, futuros comunicadores;
anunciadores da palavra, no espaço do sagrado.
O
poder da imagem é o poder da comunicação.
É um poder que pode ser usado para obter
resultados pré-determinados. Assim compreendendo,
o milenarismo recorreu às horríveis
máscaras demoníacas para anunciar
o fim do mundo nos sécs. X e XI.
De
outro lado, o terror provocado pela imagem demoníaca
teria a função de convencer o católico
a se refugiar em Cristo. Na virada do segundo
milênio, a técnica se repete, agora
com uma tentativa de "humanização"
dos monstros horríveis apresentados em
filmes ou em programas infantis com vastas doses
de "bondade", "coragem" e
até "simpatia", como se houvesse
interesse em tornar aceitável, palatável,
a falta de estética de tais personagens,
o que estaria de acordo com outra seita milenarista,
a Nova Era ou "New Age".
A
imagem está sempre presente e atuante como
poderoso meio de comunicação e de
persuasão na esfera do sagrado, quer no
iluminismo renascentista, quer no maneirismo barroco,
quer no pós-moderno .
A
presença do barroco é característica
na comunicação do sagrado com seus
anjinhos rechonchudos e nus, como na obra "Christus
Infans" e a Vaidade do Mundo, de Antonio de
Pereda (Église d’Arc-Senans), séc.
XVI.
1.2
Contextualização e Interpretação
É
clássico na teoria da recepção
que não se pode interpretar adequadamente
um discurso verbal ou não verbal sem conhecimento
do contexto em que ele foi produzido.
Para Jacques Aumont (1990)15 se a imagem contém
sentido, este tem que ser "lido" por seu
destinatário, por seu espectador: é
todo o problema da interpretação da
imagem. Todos sabem, por experiência direta,
que as imagens, visíveis de modo aparentemente
imediato e inato, nem por isso são compreendidas
com facilidade, sobretudo se foram produzidas em
outro contexto afastado do nosso (no espaço
ou no tempo, as imagens do passado costumam exigir
mais interpretação).
No que se refere à imagem, as condutas de
interpretação têm levado em
conta os recursos teóricos da semiologia
(percepção dos códigos universais
por analogia), a iconologia (significação
primária ou natural, significação
secundária ou convencional, significação
intrínseca ou essencial).
Porém hoje a interpretação
da obra de arte procura antes de tudo fazer uma
leitura histórica, relacionando-se do modo
mais exato e mais verossímil possível
com seu contexto filosófico, ideológico
e também material e político. Por
isto quase todos os historiadores analisam a arte
através da iconologia.
Nesse domínio, a abordagem mais importante,
segundo Jacques Aumont16, pela coerência e
pela influência, é a escola alemã
desde Aby Warburg e seus alunos, de Erwin Panofsky
a E. H. Gombrich. É a Panofsky (1932-1933)
que se deve a exposição mais sintética
do método proposto, sob o nome de Iconologia.
Para ele todo fenômeno social comporta vários
níveis de sentido (logo deve ser lido em
diversos níveis). Um gesto cotidiano - cruzar
com alguém que levanta o chapéu, por
exemplo - possui várias significações
e tem o sentido da saudação cortês
em determinadas sociedades. Aliás é
uma convenção prestes a desaparecer
porque já não se usa chapéu,
apenas boné grudado na cabeça. (Cf.
"A Imagem", Campinas, Papirus, 1993).
A abordagem histórica, através da
iconologia, permite comparar elementos comuns entre
obras de diferentes épocas e diferentes gêneros.
Isso levou Panofsky (1934) a propor uma comparação
entre o cinema de 1910 e a arte da Idade Média,
no sentido de que um e outra estavam em busca de
uma iconografia estável, que ajudasse a compreensão.
Mas - ensina Aumont - foi bem mais recentemente
que apareceram verdadeiras interpretações
de obras cinematográficas que igualam em
rigor e em erudição as interpretações
das obras pictóricas, sempre através
da iconologia.
Como elemento de comunicação não-verbal,
ao longo dos séculos a imagem passou do espiritual
ao visual. Neste final de milênio, também
poderíamos nos referir ao tridimensionalismo
da imagem virtual. A este respeito explica Jacques
Aumont: "A
imagem medieval (para não falar de civilizações
mais distantes) era muito diferente da imagem de
hoje, ao menos porque não tinha necessariamente
manifestação sensível e, se
possuísse alguma, não tinha valor
em relação às entidades imateriais,
celestes, às quais a imagem dava acesso.
Em uma cultura que afirmava como paradigma da noção
de imagem e como fundamento da própria possibilidade
de imagens a encarnação de Deus Pai
por Cristo, é evidente que a aparência
visual dessas imagens dependia do elemento contingente.
O objetivo delas era bem diferente de uma simples
duplicação do sensível e, por
conseguinte, do seu papel - ideológico, intelectual,
social - por isto excedia em muito o próprio
papel que elas parecem ter sob nossos olhos".
Aumont conclui que, ao se reduzirem a mero registro
das aparências, - por mais expressivo que
fosse - as imagens perderam a força transcendente
que haviam possuído. Pode perceber-se hoje
uma retomada da imagem através de sua multiplicação
que as modernas técnicas proporcionam destacando-se
o espaço eletrônico.
No contexto atual, o discurso religioso já
não pode se embasar no poder de comunicação
imagético do passado distante porque outras
linguagens se impuseram em nossos dias. São
outras as imagens que falam à nossa mente,
hoje.
Umberto Eco (1993)17 destaca que "já
não é mais possível aceitar
uma relação fixa entre um repertório
de imagens de significados filosóficos, teológicos
e históricos que perderam suas características
de estabilidade", pois a arte moderna vem progressivamente
desenvolvendo para criar, ante a queda dos símbolos
objetivos, sobre os quais repousava a cultura clássica
e medieval, símbolos subjetivos.
Todas as imagens sacras, sejam passadas ou presentes,
ligam-se à hagiografia ou ao texto bíblico,
nele está a pedra fundamental, a matriz do
discurso religioso. Vários são os
leitores que o têm levado ao pé da
letra, particularmente nos 1.300 anos entre o aparecimento,
por exemplo, dos evangelhos, no Séc. III
d.C. e o fim da Idade Média (Séc.
XV).
O Fundamentalismo, porém, não faz
uma interpretação sincera do texto
bíblico ao levá-lo ao pé da
letra, sem considerar o contexto em que o texto
foi produzido e sem recorrer aos modernos métodos
de interpretação para transpor os
ensinamentos do Antigo e do Novo Testamento para
nossos dias (diacronia ou hermenêutica).
Hoje, como resultado dos Concilios de Trento (1545-1563)
e do Vaticano II (1962-1965), principalmente depois
de Medelin (1968) e Puebla (1979), após também
as descobertas dos documentos do Mar Morto, há
um novo tipo de reflexão teológica
sobre Cristo e a Bíblia.
Na introdução de "Lectura Materialista
de la Bíblia" (1978)18, o teólogo
Xabier Pikaza define como bíblia aquele conjunto
de textos que a tradição eclesial
tem transmitido de modo unitário como lugar
de revelação de Deus e fundamento
da fé cristã. Esses textos, escritos
em diversas circunstâncias e com fins muito
diversos, podem agrupar-se em dois grandes conjuntos
de sentido: a experiência religiosa de Israel,
fixada em sua vertente normativa de obediência
à lei e aos profetas; e o testemunho de fé
dos primeiros seguidores de Jesus, tal como tem
sido aceito e apresentado pela Igreja.
São várias as leituras feitas da Bíblia.
Destaca-se, entretanto, a leitura ideológico-religiosa.
Ideológica porque baseia-se em um juízo
de valores, onde destaca a mensagem sobre o bem,
o mundo superior, a vida transcendente; religiosa
porque no fundo está muito clara a presença
de Deus que dialoga com os homens.
Uma outra leitura, materialista, parte do valor
prioritário dado aos aspectos econômicos
e às práticas sociais. A religião,
tal como expressada na Bíblia, seria uma
conseqüência dessa base, conforme a interpretação
de autores marxistas como Engels e Kautsky. Para
eles a religião não tem autonomia
nem valor independente, mas pode ser sinal de algo
positivo, pois assinala uma busca de justiça,
um desejo de comunismo que existia em Israel e nas
primeiras comunidades cristãs.
O melhor caminho para entender o ambiente bíblico
é analisar o contexto religioso da época.
É o que faz Xabier Pikaza19, referindo-se
ao conteúdo radical do Antigo Testamento:
-a) Há uma religião oficial interpretada
como legitimadora da ordem estabelecida (sistema
da pureza);
-b) Há uma luta entre duas visões
diferentes: a vida como dom nos profetas e o culto
sagrado da pureza nos sacerdotes.
Naturalmente triunfam os sacerdotes, impondo aos
juizes suas diversas concepções da
lei. Sobre esse fundo surge a figura de Jesus, com
a intenção de retomar a linha aberta
nos profetas.