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UNESP - UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio de Mesquita Filho"
FACULDADE DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO - Campus Universitário de Bauru
Introdução
"É preciso que exista, enfim,
uma hora clara, depois que os
corpos se resignam sob as pedras
como máscaras metidas no chão."
(Cecília Meirelles: Futuro)
Este trabalho pretende estudar a utilização do mito na esfera do sagrado através dos tempos.

Escolhemos o cristianismo por abranger várias denominações religiosas baseadas na tradição e na Bíblia; delimitamos o campo da pesquisa ao catolicismo, termo derivado de katholikós, geral, universal, idéia já presente em formulações dos antigos, como em Aristóteles.

Dentro de nossa linha centrada no ensino da Comunicação, tentaremos mostrar como o discurso religioso usa o Mito para se comunicar e, principalmente, para persuadir.

Julgamos pertinente observar como o catolicismo soube transformar e incorporar mitos e ritos pagãos de todos os tempos para transmitir a sua mensagem central, baseada no plano de Deus, a fim de dar um sentido à vida humana.

Essa transformação e apropriação de termos, símbolos e imagens inicia-se logo em meados do primeiro século depois de Cristo, quando Santo Inácio, bispo de Antioquia, na Epístola aos cristãos de Esmirna, usa o termo "católico" para distinguir a religião cristã dos apóstolos e discípulos de Cristo, diferenciando-a, assim, de outras denominações também baseadas nos ensinamentos de Cristo, mas que escolhiam algumas verdades da fé e rejeitavam outras ("heresia", que quer dizer "escolha").

Ao longo de sua história - e para falar de seu discurso é preciso contar um pouco da história da Igreja através dos séculos - a Igreja Católica desevolveu todo um processo de escolha, atualização e transformação de expressões e símbolos adequando-os a cada tempo, a cada povo, a cada região, para assegurar a melhor recepção ao seu discurso de conversão.

Pretendemos aplicar as teorias clássicas da argumentação e da recepção, com atualização do texto para estudar o rico acervo de imagens e símbolos do discurso religioso, com destaque especial para o rito da missa que é um conjunto de signos onde o rito atualiza, permanentemente, o maior de todos os mitos da humanidade, o Mito de Yoshua ben Joseph, também chamado Filho de Davi, o Enviado, o Messias, o Salvador, aquele que disse: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim !" (Jo 14,6)

A mudança no "modo de dizer" dentro da economia do sagrado (Orlandi, 1987) traduz a própria necessidade de adequação aos vários contextos onde se dá a locução, porém de modo que o texto muda, o discurso muda, mas não há mudança na essência da coisa anunciada, isto é, da verdade sobre o plano de Deus em relação ao homem.

Para examinar como se dá essa unidade na diversidade, selecionaremos um corpus que vai do livro do Êxodo (em que Javé impõe ao povo hebreu os Dez Mandamentos, como pedra fundamental da moral e da ética religiosa) até os dias atuais, quando a Igreja prega, através da Campanha da Fraternidade, o mesmo mandamento do amor e da misericórdia, com um discurso adaptado à realidade brasileira. Neste caso, faremos uso de um texto da CF - 1996 com o tema "Fraternidade e Política - Justiça e Paz se abraçarão", adaptado à realidade do ano eleitoral de 1996.

Entre esses dois modos de dizer, analisaremos o cap. 5 do Evangelho segundo São Mateus que apresenta o Discurso - Programa de Jesus Cristo, praticamente um desdobramento da "Lei de Moisés" - a Toráh - que lança os fundamentos de uma nova abordagem das relações entre o homem e Deus, uma nova doutrina, uma nova mensagem, uma "boa nova" (do grego "euaggélion").

Para os dois textos bíblicos do Antigo e do Novo Testamento, iremos contrapor dois textos da história recente da Igreja, a pedagogia dos Bispos Brasileiros (CF - 1996) e um trecho da Encíclica Centesimus Annus com a qual o papa João Paulo II celebrou o centenário da Rerum Novarum, de Leão XIII, o primeiro papa moderno da Igreja, gestor de um pontificado esclarecido, que lançou as bases da doutrina social da Igreja.

Iremos mostrar em nossa dissertação que, apesar dos descaminhos através da história, a Igreja persegue a "pedagogia do amor" porque centra o seu discurso no enunciado básico "amai-vos uns aos outros", o maior de todos os mandamentos.

No capítulo I, estudaremos a narrativa do mito, mostrando que o processo de atualização do mito, através do rito, ocorre na esfera da estética da recepção, verificando-se em função do contexto e do destinatário. Veremos que todo discurso religioso é ideológico, persuasivo e pedagógico. Analisaremos a presença do mito em nossos dias, seu poder de comunicação; a força das imagens na transmissão do discurso. Estudaremos a interpretação dos símbolos religiosos a partir da perspectiva atual do imaginário popular. No contexto de nossos dias, como são recebidas as celebrações litúrgicas, as festas populares, as procissões, as ‘promessas’ etc?

Quando se fala em rito, na "economia do sagrado", o momento máximo é a Eucaristia, consubstanciada no "sacrifício" incruento da Missa, onde o rito atualiza o mito Jesus ao cumprir a determinação que ele fez na última ceia: "Fazei isto em memória de mim". Por isto, a Igreja reza: "Toda vez que se come deste pão, toda vez que se bebe deste vinho, recorda-se a paixão de Jesus Cristo". Assim, a missa católica é a repetição da Santa Ceia em todas as suas etapas, desde a preparação (declaração de fé pelo Credo, lavar as mãos), o sentar-se à mesa, o partilhar o pão e o vinho ("que alimentam e dão coragem") e a bênção de despedida, cena caseira e familiar em que se deseja boa jornada àquele que parte. É um rito que fala de fraternidade, de comunidade, de amor, de justiça, de caridade. Sobretudo, é um rito que celebra o mito da Ressurreição, porque sem a Ressurreição, a missa poderia ser um culto a um deus qualquer. É Cristo Ressurgido que justifica a Fé e alimenta a Esperança, pois um Cristo Morto só serviria de inspiração aos artistas. O decreto "Presbiterorum Ordinis", nº 6, emitido pelo Concilio Vaticano II, é muito claro a respeito: "Não se edifica nenhuma comunidade cristã se ela não tiver por raiz e centro a celebração da Santíssima Eucaristia". Porque "a Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja" (Santo Inácio de Loyola).

Ainda, neste capítulo, estudaremos a origem de algumas tradições que remontam ao período medieval onde a arte se dedicou ao sagrado para reproduzir, em novas cores, a religiosidade, porém num contexto de fé imposta ao homem por uma hierarquia religiosa que detinha a chave do conhecimento colocado como um véu entre o homem e Deus; situação que evolui para uma relação de intermediação mais pessoal, mais direta, em nossos dias, quando a religião se coloca ao lado do homem, pregando a libertação do homem todo, emigrando dos palácios da influência das classes dominantes, para o plano das reivindicações sociais em defesa dos excluídos, dos sem terra, dos índios, das minorias. A fé já não é uma imposição que se faz de cimitarra em punho. É uma experiência de vida, é um compartilhar de fraternidade, é a partilha do pão, da palavra, da justiça. E partilha é Comunicação.

No capítulo II, estudando as características do discurso religioso, veremos que a construção do texto, seja ele parabólico ou não, contém elementos de persuasão na sua essência. Trataremos especificamente da persuasão, descrevendo o discurso religioso em seus vários aspectos, enfatizando aqui já não a imagem não-verbal, mas o poder do texto lido ou falado, das construções verbais, dos recursos de retórica pesquisados em Pecheux, Searle, Ducrot e, principalmente, Perelman.

Trabalharemos com a Teoria Retórica de Perelman1 que distingue dois tipos de argumentação: a persuasiva (que se restringe a um auditório particular) e a convincente (que se pretende válida universalmente).

A persuasão tem sido objeto de reflexão desde Platão e Aristóteles, passando pelos céticos antigos e pelos sofistas, iniciadores da retórica.

Com a Nova Retórica de Perelman2, a persuasão foi recolocada como importante questão filosófica. Esclarece que persuadir não é o mesmo que convencer e adianta que para persuadir é preciso se preocupar com o auditório, o que nos remete à própria estética da recepção e ao horizonte de expectativa do receptor.

Exemplos práticos dos ensinamentos de Perelman podem ser encontrados na obra do maior pregador barroco de todos os tempos, o Pe. Antonio Vieira, notadamente no "Sermão pelo bom sucesso contra os Holandeses", pregado em 1640, em Salvador - BA, ou no ontológico "Sermão da Sexagésima"(Lisboa, 1655).

"Antigamente convertia-se o mundo, hoje porque não se converte ninguém?", indagava Vieira no Sermão de 1655. E ele mesmo respondia: "Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras."

Os documentos papais, a ação dos bispos, as exortações aos movimentos da Igreja estão todos imbuídos desse elemento essencial da persuasão: o exemplo.

São Paulo ensina que a fé sem obras não vale nada e os antigos filósofos gregos doutrinavam que "as palavras movem, o exemplo arrasta", o que nos remete à questão da coerência entre discurso e ação, portanto da conduta ética visível na coerência do pregador.

Vieira lembra que "palavras sem obras são tiro sem bala; atroam mas não ferem".

Desejamos, portanto, mostrar como a Igreja opera o discurso religioso utilizando-se dos recursos da retórica e dos gestos litúrgicos para falar com palavras, gestos, cores, música, sempre na busca da persuasão.

A Igreja apresenta-se atenta às transformações econômicas e sociais para adaptar o discurso às diversas realidades, mas sem se afastar - pelo menos em nossos dias - da essência evangélica. Portanto, ao ir hoje ao encontro do pobre, a Igreja está apenas colocando em prática todo o discurso contido na vida de Cristo.

Analisado por este ângulo, o discurso religioso, hoje, é uma reelaboração do próprio discurso evangélico em que notamos a permanente preocupação de Cristo com o pobre e o excluído. São inúmeras as passagens bíblicas que atestam essa opção. Vemos Jesus, com frequência, ao lado dos leprosos, dos samaritanos, dos cobradores de impostos, desafiando os fariseus a atirarem a primeira pedra na mulher pecadora... Vemos um Jesus que vem para salvar, resgatar, redimir, não para condenar.

É essa opção preferencial pelos pobres que leva a Igreja a falar a mesma língua dos excluídos hoje, ampliando seu canal de comunicação com esse auditório definido por Perelman como "universal".

É sintomático ver na televisão o Primeiro Ministro inglês, Tony Blair, lendo as palavras de Paulo sobre o louvor à caridade no enterro da princesa Diana.

É impressionante como a partilha do amor e da caridade tem o poder de mitificar pessoas como Madre Tereza de Calcutá, ou Antonio Conselheiro ou Frei Damião, ou Betinho... ou Francisco de Assis (em plena Idade Média).

Quando pratica a linguagem do amor ao próximo, a Igreja atualiza o discurso de Cristo e entra em interação com todos os oprimidos do mundo inteiro, comunicando-se, convencendo, persuadindo, convertendo. É a retórica eloquente da caridade mantendo sempre atual o discurso milenar dos evangelhos. Por isto o Papa João Paulo II reúne multidões de crianças, jovens e adultos onde quer que vá para pregar o amor de Jesus Cristo, como ocorreu recentemente em Paris, Bolonha e no Rio de Janeiro.

O capítulo III cuidará das instâncias de recepção (Jauss, 1967) que determinam a produção do texto como condição básica para seu entendimento e, portanto, para que cumpra sua finalidade de persuadir. Como esse discurso teria sido recebido ao longo dos tempos? Sobretudo, como ele é recebido hoje? Como se dá essa releitura na América Latina? Qual a diferença de uma Igreja latifundiária para uma Igreja que acampa na estrada ao lado dos sem-terra? O que mudou? Porque mudou? Como mudou? O que mais pode mudar? Que efeitos causa a mudança entre os mais conservadores, por exemplo? O que isto significa em matéria de rompimento das tradições passadas de pai para filho? O que significa dizer a um católico de 70 anos que Caim e Abel são metáforas bíblicas como Adão e Eva ou o Dilúvio ou a Travessia do Mar Vermelho.

No capítulo IV, através de fragmentos do Discurso Religioso (Antigo e Novo Testamento, Encíclicas e Documentos da CNBB) pretendemos mostrar como as alterações do texto convergem todas para um só escopo: A persuasão. O primeiro item do "corpus" é o capítulo 20, versículos 2 a 17 do Êxodo em que Javé prescreve normas de conduta a todo o povo. É um discurso que recorre à coerção para persuadir " ... porque eu sou o senhor teu Deus, o Deus forte e zeloso, que vinga a iniquidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem".

O item dois é o capítulo 5 do Evangelho segundo São Mateus, versículos 3 a 16 e 21 a 48. No Sermão da Montanha, Jesus usa a dialética da recompensa caracterizando profunda mudança ideológica no discurso bíblico: "Bem- aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus..." Em seguida, o emissor do discurso define o público ao qual se dirige: "Vós sois o sal da terra ... Vós sois a luz do mundo". Na segunda parte deste item, o "corpus" apresenta o desdobramento do discurso com ênfase na partilha do amor ao apontar para o caminho da perfeição: "Vós tendes ouvido o que se disse: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, digo-vos que não resistais aos que vos fizerem mal..."

No terceiro item, o "corpus" apresenta um trecho da Encíclica "Centesimus Annus" onde a Igreja ensina que a partilha não pode ser meramente teórica. Primeiro deve vir a prática, depois a praxis. E redefine o público alvo da mensagem ao explicar que a pobreza não está apenas na ausência de bens materiais, mas na exclusão social e cultural também, tornando, pois, mais abrangente o Sermão da Montanha. A Encíclica conceitua Justiça como "colocar em comum o que há não o que sobra".

Para mostrar "como" o discurso se adapta aos novos tempos, selecionamos ainda um trecho da Campanha da Fraternidade (1996) anualmente promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, onde o "locus" da partilha é a política. Ali é que se deve travar a batalha pela justiça social, ali se deve buscar o bem comum, resultando daí graves responsabilidades para a classe política onde, infelizmente, ocorrem tantos exemplos que contrariam toda e qualquer expectativa neste sentido.

A pesquisa mostrará o discurso religioso partindo de um Deus "ameaçador", "assustador", "todo poderoso" atravessando os tempos, unindo-se com os poderosos, condenando Giordano Bruno, Galilleu etc, depois separando-se do Estado e iniciando um processo de aproximação com o povo, com o trabalhador, com as minorias, procurando agora evangelizar os políticos para que eles liderem a caminhada do povo rumo à justiça social e à paz, ao proclamar: Justiça e Paz se abraçarão.

Pelo exposto, verificamos que há um vasto campo de pesquisa, na área acadêmica, para quem se interessa pelas potencialidades de comunicação contidas no discurso religioso. Talvez, uma pesquisa assim possa ter alguma utilidade para todos aqueles que têm a nobre missão de semear a semente da palavra ou de acender uma luz para colocar sobre a mesa, ou que receberam a função de ser fermento na massa, ou o sal da terra que de nada vale se vier a perder a sua força.

Ao comunicador católico pergunta-se, hoje, porque tantos procuram outras religiões. Talvez porque não querem ser apenas mais um, porque querem sentir-se "pessoas", "indivíduos que contam dentro da Igreja." Quantos não se cansam do sermão monocórdio, enfadonho, repetitivo, artificial, distante? Quantos não acham que o potencial de comunicação do sagrado é rico demais para ser tratado sem expressividade, sem levar em conta a resposta do receptor? Podemos falar das coisas do Reino sem carisma, sem fogo no peito, sem entusiasmo, sem garra? Será que todos os comunicadores cristãos estarão preparados para compreender a expressividade do mito, a força comunicativa dos símbolos, o poder dos gestos, das palavras, das cores, das imagens?

Por mais humilde que seja, alguma reflexão sobre o assunto parece justificar-se neste momento. Pelo menos, para levantar novos debates, para problematizar o tema como propõem os teóricos da Metodologia Científica, por exemplo.

Ademais, o assunto parece oportuno quando, neste final de milênio, vemos as pessoas procurando não apenas ouvir falar em Deus, mas buscando uma experiência mística com Ele.

Só o fenômeno dos carismáticos, que já somam 60 mil grupos no Brasil e estão mudando a "cara" da Igreja no mundo inteiro, já valeria uma abordagem sobre as mudanças ultimamente operadas na comunicação religiosa, pois as pessoas mostram que descobriram finalmente a força da Fé.

A própria Igreja se interessa enormemente pelos meios de comunicação que foram objeto de análise no Concílio Vaticano II, através do Decreto Inter Mirifica, declarando que "pertence aos leigos a tarefa de vivificar estes mesmos instrumentos com um espírito humano e cristão, para que correspondam plenamente à grande esperança da família humana e ao desígnio divino".

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