UNESP -
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio
de Mesquita Filho"
FACULDADE
DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO
- Campus
Universitário de Bauru
Capítulo
II - A Persuasão
2. A Força da Palavra Bíblica
Na
Bíblia temos, também, duas
formações discursivas antagônicas.
Ambas operam no sentido de persuadir o povo
a andar nos caminhos do Senhor, porém
com retóricas diferentes. É analisando
o processo produtivo e receptivo dessas formas
discursivas que chegaremos ao eixo da comunicação.
Ambas apresentam uma parenética fortemente
persuasiva: ou age para captar seguidores ou
para manter.
O
antagonismo de linguagem estabelece um confronto
linguístico entre trechos do Antigo
Testamento e do Novo Testamento. À terminologia
coerciva do Gênesis e do Êxodo
que nos apresentam um Deus guerreiro e tonitroante,
contrapõe-se, no Novo Testamento, o
discurso manso e pacífico de Jesus,
pregando o amor e a paz, caminhando com os
andarilhos, curando os leprosos, aproximando-se
das prostitutas, ceando com cobradores de impostos,
cercando-se de humildes pescadores e a todos
os humildes anunciando: "Vosso é o
Reino dos Céus".
Se
queremos estudar as técnicas de
comunicação que se adequam à transmissão
do Discurso Religioso, é imperativo
discutir antes que tipo de mensagem queremos
transmitir. Isto nos leva a pesquisar a palavra
bíblica que, na expressividade de sua
polissemia, resiste aos séculos como
o livro mais editado do mundo, sendo a fonte
de toda comunicação religiosa,
uma comunicação que evolui do
anátema ao diálogo.
Segundo
Strabelli (1990)29 "A Bíblia
começou a ser escrita a partir do século
IX antes de Cristo. E o último livro
da Bíblia a ser escrito foi o livro
da Sabedoria, aí pelo ano 50 antes de
Cristo". Cita Carlos Mesters30 para dizer
que "a Bíblia é resultado
final de longa caminhada, fruto da ação
de Deus que quer o bem dos homens, e do esforço
dos homens que querem conhecer e praticar a
vontade de Deus. Ou seja, a Bíblia é o
fruto de mutirão prolongado do povo".
Em
Rm 1,19-20, o apóstolo Paulo diz
que as coisas criadas são o modo de
falar de Deus. Strabeli acrescenta que "Deus é pessoa
e pessoa se comunica. A comunicação
de Deus é a criação. Tudo
o que foi criado é linguagem de Deus.
Deus continua criando e conservando o cosmo.
Ou seja: Deus continua falando para nós
através das coisas e das pessoas".
P.12.
Com
73 livros, a Bíblia nasceu com
a experiência de Abraão e se desenvolveu
com a história do Povo de Deus, principalmente
com a experiência do Êxodo (Strabeli).
Mas nem tudo na Bíblia é história.
Muitos relatos têm finalidade essencialmente
teológica. Por isso, para entender a
Bíblia é preciso estudar o contexto
de produção de cada texto. Por
muitos séculos o Livro-dos-Livros foi
aceito ao pé da letra, sem questionamentos.
Mas hoje sabemos, pelos avanços da ciência
e pelas pesquisas em linguística - por
exemplo - que a narração sobre
as origens do mundo e do homem não é relato único
e exclusivo do povo hebreu. Tal tipo de relato,
ensina Strabeli, faz parte dos escritos religiosos
de muitos povos inseridos no contexto cultural
do Antigo Oriente. Tais escritos usam forma
literária específica comum, onde
entram o simbolismo, as imagens, as concepções
populares, a intenção do autor,
a cultura do tempo etc.
É nesse contexto que se descobre a
origem do "descanso" de Deus no sétimo
dia da criação, conforme Gn 1,1-2,3.
A narrativa da criação aparece
duas vezes na Bíblia, a primeira em
Gn 1,1-2-4a, escrita pelos sacerdotes, e a
segunda em Gn 2,4b-25, escrita por gente do
povo. Segundo Strabeli, no tempo do escriba
Esdras (séc. IV a.C.) essas duas narrações
foram reunidas numa só, formando a atual
(Ne 8). A finalidade específica do texto é sustentar
a fé do povo, dar sentido à vida,
dar esperança de retorno.
Por
que "esperança de retorno"?
Porque nessa época (587-539 a.C.) o
povo hebreu estava exilado em Babilônia,
diante de muitos ídolos e sofrendo pressão
para abandonar a própria fé e
aderir ao deus Marduc, o deus da Babilônia.
A dúvida dos hebreus estava posta nos
seguintes termos: Quem é mais poderoso:
Marduc, da Babilônia vencedora, ou Javé,
o Deus libertador de um povo vencido? Que libertação
era essa? Os sacerdotes partem de um princípio:
Israel recebeu as promessas de Deus em Abrãao
e com os patriarcas e tem a herança
do passado. Se está agora exilado, é porque
se esqueceu de Deus. Se voltar para Deus e
permanecer fiel a ele, tudo será reconstruído:
haverá nação, rei, templo
e sacerdote, pois o povo é e será sempre
a herança do senhor (Sl 16,5;28,9;47,4;78,7;10,16
etc). Em seguida os sacerdotes ensinam que
para manter a fidelidade a Deus o povo deve
evitar o culto dos ídolos, voltando
ao culto verdadeiro. Como celebrar o culto,
porém, e participar da vida religiosa
se não há templo?
Strabeli
conclui a exegese esclarecendo que o termo "descanso" não denota "repouso
físico" de Deus. Trata-se de um
recurso literário para traduzir uma
verdade teológica: a observância
integral do sábado como Dia do Senhor
e como meio de unir o povo e manter a fé.
Portanto, a intenção não
foi científica, nem quiseram os sacerdotes
afirmar que o mundo foi feito em seis dias
de 24 horas e nem em seis períodos de
tempo. A intenção era fundamentar
o sétimo dia como dia de descanso e
culto.
São muitos os exemplos bíblicos
em que o texto apresenta uma intertextualidade
que fala por si. Ao comunicador compete examinar,
estudar, pesquisar a riquíssima bibliografia
hoje disponível para passar a mensagem
de forma adequada aos questionamentos de nosso
tempo. No exemplo citado a persuasão
se dá através do modo de narrar
e não apenas através dos fatos
narrados que incluem toda a genealogia do homem
e da natureza.
Mas
esta é uma tentativa de dissertar
sobre a comunicação no discurso
religioso, e não sobre teologia. Por
isto, vamos examinar as formas de linguagem
do Antigo e do Novo Testamento para chegarmos
ao nosso objetivo.
Dissemos
que o A.T. apresenta uma linguagem vertical,
que busca a persuasão através
da coerção e da intimidação.
Os exemplos são múltiplos.
Ao
punir o pecado de Adão e Eva que
acaba de descobrir, Deus condena a serpente,
a mulher e o homem numa explosão de
fúria, surgindo então o primeiro
grande poema da Bíblia conforme Jack
Miles (1997)31:
Então o Senhor disse à serpente:
"Visto
que isso fizeste,
Maldita és entre todos os animais domésticos
e
o és entre todos os animais selváticos
Rastejarás
sobre o teu ventre
e
comerás o pó
Todos os dias da tua vida.
Porei inimizade
entre ti e a mulher,
entre
a tua descendência e o seu descendente.
Este
te ferirá a cabeça
e
tu lhe ferirás o calcanhar."
E à mulher
disse:
"Multiplicarei
sobremodo
os sofrimentos da tua gravidez,
em
meio a dores darás à luz
filhos;
o
teu desejo será para o teu marido
e
ele te governará".
E
a Adão disse: "Visto que atendeste
a voz de tua mulher, e comeste da árvore
que eu te ordenara não comesses":
"Maldita é a
terra por tua causa:
em
fadiga obterás dela o sustento
durante todos os dias de tua vida.
Ela
produzirá também cardos
e abrolhos,
e
tu comerás a erva do campo.
No suor do rosto
comerás o teu pão,
até que tornes à terra
pois dela foste formado:
Porque
tu és pó
e
ao pó tornarás". (Gn
3: 9-14)
Outra
explosão retórica é o
que vemos logo depois, na condenação
de Caim por ter matado seu irmão Abel
("Que fizeste? A voz do sangue de teu
irmão clama da terra a mim. És
agora, pois, maldito por sobre a terra cuja
boca se abriu para receber de tua mão
o sangue do teu irmão. Quando lavrares
o solo não te dará ele a sua
força; serás fugitivo e errante
pela terra").
A
punição de Caim é uma
intensificação da punição
de Adão.
Raramente
falando do amor humano ("Jacó amava
Raquel", 29-18) e nunca do amor divino,
os redatores do Gênesis prosseguem apresentando-nos
um Deus todo poderoso que se arrepende de ter
criado o homem por causa da sua infidelidade: "Farei
desaparecer da face da terra o homem que criei,
o homem e o animal, os répteis e as
aves dos céus, porque me arrependo de
os haver feito". (Gn 6:7). É feita
uma exceção a Noé.
Na
benção de Deus a Abraão
já está contida a forma como
se daria a tomada da terra prometida (Canaã)
através da destruição
dos povos ali existentes, à custa de
muito sangue e violência (Op. cit., P.
63-64):
"Sai da tua terra, da tua parentela e
da casa de teu pai, e vai para a terra que
te mostrarei", diz o senhor a Abraão
em Ur dos Caldeus por volda do ano 2.000 a.C.:
de
ti farei uma grande nação,
e
te abençoarei,
e te engrandecerei o nome.
Sê tu uma benção:
Abençoarei os que abençoares;
em
ti serão benditas
todas
as famílias da terra.
Os
pecadores de Sodoma e Gomorra são
punidos por Deus com a destruição
de suas cidades. A intenção do
texto é mostar que o destino das nações
está nas mãos do Senhor. Surgem
em seguida as sete pragas do Egito como punição
ao Faraó que se recusa a permitir o êxodo
dos escravos hebreus. É a história
de José, Moisés e Josué.
A Bíblia passa para um discurso mais
elaborado, com apresentações
poéticas, legais e proféticas
de Deus, segundo Jack Miles. (Op. cit., P.111)
Mesmo
assim as circunstâncias da entrega
das Tábuas da Lei a Moisés, no
Sinai, são revestidas de uma grandiloquência
sem par, convenientemente realçadas
no clássico de Cecil B. De Milles Os
Dez Mandamentos.
"O Senhor revela-se a Israel numa exibição
espetacular e terrível de efeitos vulcânicos
e meteorológicos (19:1-25). Tendo-se
tornado assim maximamente assustador, ele fornece
o imortal Decálogo e um conjunto de
regras comumente chamado de Livro da Aliança
(20:1:23-33), seguidos de uma promessa de vitória
em Canaã e instruções
para o tratamento dos vencidos (23:20-33).
O povo submete-se então a um ritual
de sangue em submissão às leis
do Senhor (24:1-14)".
Em
Ex. 15:26 há um alerta sombrio que
diz claramente: "Observem minhas leis,
senão enviarei pragas como as que enviei
aos egípcios". É a "pragmática
da persuasão", a dialética
do poder, que Jack Miles define como "teofania
do Sinai":
"Ao amanhecer do terceiro dia houve trovões
e relâmpagos e uma espessa nuvem sobre
o monte, e mui forte clangor de trombetas,
de maneira que todo o povo que estava no arraial
estremeceu. E Moisés levou o povo fora
do Arraial ao encontro de Deus; e puseram-se
ao pé do monte".
Miles
comenta: "Alguns acham que o poder
literário da Bíblia repousa,
em parte, nas incongruências e nas transições
súbitas, que forçam o leitor
ou ouvinte a encontrar um sentido pessoal no
contexto".
Esta é uma
dessas passagens, claramente. (P.139)
Ainda
no Sinai (Êxodo, 23) o Senhor
descreve como irá varrer de Canaã os
habitantes nativos para dar lugar ao povo eleito:
"Enviarei o meu terror diante de ti confundindo
a todo o povo aonde entrares, farei que todos
os teus inimigos te voltem as costas. Também
enviarei vespas diante de ti, que lancem fora
os heveus, os canaeus e os heteus, de diante
de ti".
Como
o texto poderia ser mais fortemente persuasivo
se ora contém ameaças, ora demonstrações
de poder, ora promessas tão caras para
um povo nômade do deserto?
Outra
característica do A.T. que se
contrapõe frontalmente com o N.T. é o
sacrifício cruento, com derramamento
do sangue de animais e que no N.T. corresponde
ao sacrifício incruento (sem derramamento
de sangue) da missa. Baseado no cap. 29, do
livro do Êxodo, Miles descreve o ritual
de ordenação de Arão e
de seus filhos, futuros sacerdotes:
"Um touro é abatido na entrada
da tenda de reunião, parte de seu sangue é esfregada
nos cantos do altar, o resto é despejado
na base. Em seguida um carneiro é abatido
e seu sangue jogado sobre o altar. Outro carneiro é morto
e seu sangue esfragado em partes do corpo dos
homens, além de ser misturado a óleo
e aspergido em suas roupas. No climax os ordinandos
seguram os rins cheios de sangue, as caudas
gordas e outras partes dos corpos dos carneiros,
além de outras oferendas rituais. Todo
o ritual é lavado em sangue". (P.142)
Mas
o autor assinala que "o sacrifício
de animais caracterizava um imenso número
de sociedades, embora não seja um universo
cultural: Dentro da história de Israel,
desempenhou um pequeno papel, depois um papel
maior, e mais tarde nenhum papel". (P.142)
O
que Miles considera é o terror que
o sangue infunde em qualquer circunstância.
Para
persuadir Israel a respeitar a aliança, "o
Senhor estende sua bondade à milésima
geração" e visita a iniquidade
dos pais nos filhos até a terceira e
quarta geração".
No
N.T. Jesus explicará que o pai era
tão duro no A.T. por causa da "dura
cerviz de vossos pais".
Miles
conclui que "o Deus apresentado
no Livro do Êxodo era um Deus assustador".
(P.154)
Nos
livros seguintes, agora que Deus habita no
tabernáculo da arca da Aliança,
no meio do povo, a linguagem é mais
amena. No "levítico" o tom é suave.
Em "Números", está a
bênção misericordiosa (6:6-24):
O
Senhor te abençoe e te guarde;
O
Senhor faça resplandecer o seu rosto
sobre ti,
e
tenha misericórdia de ti;
O Senhor sobre ti levante o seu rosto
e
te dê a paz.
O
ex-jesuíta Jack Miles, membro do
corpo editorial do Los Angeles Times, inquire
e responde: "Qual é o tom da Bíblia?
O tom varia, é claro; mas com impressionante
freqüência o tom é de irritabilidade,
de denúncia, de queixa raivosa".
As
queixas do povo são mais repetidas
no "Deuteronômio": "Até quando
me provocará este povo, e até quando
não crerão em mim, a despeito
de todos os sinais que fiz no meio deles?" protesta
o Senhor a Moisés.
Mas,
o que pede o Senhor no Antigo Testamento,
Amor ou Medo? Segundo Miles "uma resposta
fácil é que exige ambos, mas
de fato trata-se essencialmente de palavras
alternativas para a mesma atitude. A crítica
histórica afirmou isso enfatizando que
o amor em questão não é a
emoção espontânea, interpessoal,
mas o amor da aliança. Amar o Senhor
teu Deus "com todo o teu coração,
de toda a tua alma, e de toda a tua força" significa
meramente empenhar todos os esforços
em permanecer fiel aos termos da Aliança".
(P.169).
A
primeira vez em que Deus é citado
no A. T. como amigo dos oprimidos contra o
poder dos militarmente fortes só ocorre
nos primeiros capítulos de Samuel. É a
prece de Ana:
O
arco dos fortes é quebrado,
porém os débeis cingidos de
força.
Os
que antes eram fartos hoje se alugam por
pão,
mas os que andavam famintos
não
sofrem mais fome;
Até a estéril
tem sete filhos,
e a que tinha muitos filhos perde o vigor.
O
Senhor é o que tira a vida, e a dá;
faz
descer à sepultura, e faz subir.
O Senhor empobrece e enriquece;
abaixa
e também exalta.
Levanta
o pobre do pó,
e desde o monturo exalta o necessitado,
para
o fazer assentar entre os príncipes,
para
o fazer herdar o trono da glória;
porque
do Senhor são as colunas da
terra,
e assentou sobre elas o mundo. (2:4-8)
Com
os profetas o texto bíblico ganha
uma visão crítica da sociedade.
Anuncia-se um novo tempo. "O povo que
andava nas trevas viu uma grande luz",
anuncia Isaías. O Reino Messiânico
começará quando do tronco de
Jessé (pai de Davi) sair um rebento.
Então "o lobo habitará com
o cordeiro e o leopardo se deitará junto
ao cabrito". É o reino da paz. "Eis
que estenderei sobre ela [Jerusalém]
a paz como um rio, e a glória das nações
como uma torrente que transborda", afirma
Isaías.
No
final do A. T. no Livro de Jó, tenta-se
novamente a persuasão através
da força, do castigo, da punição.
Mas no N.T. tudo é diferente. Diferente
a ponto de Jesus Cristo se apresentar como
o oposto do Pai Assustador revelado no Êxodo.
Sua fala é enérgica, porém
cheia de amor como o Sermão da Montanha: "Bem
Aventurados os pobres porque deles é o
Reino dos Céus".
Longe
da orgia de sangue das origens bíblicas,
Jesus manda partilhar o pão da caridade,
do amor, da fraternidade, o pão da palavra
("Fazei isto em memória de mim").
Contra
a vingança, prega o perdão
("Se você estiver diante do altar
para fazer uma oferta e se lembrar que seu
irmão tem algo contra você, largue
tudo, vai primeiro reconciliar-se com seu irmão").
O
discurso do N.T. tem mais relação
com a oração de Ana em I Samuel
do que com os tonitroantes livros do Gênesis, Êxodos
etc. É um discurso a favor dos pobres
e dos excluídos.
Cristo nasce pobre entre os pobres, numa mangedoura,
entre pastores.
Roger
Garaudy (1993)32 questiona: "Qual
a semelhança entre o Reino de Davi e
o Reino de Deus, anunciado e preparado por
Jesus? Que necessidade tem Jesus dessa descendência
real para cumprir sua missão?"
Para
C.H. Dodd33 "a messianidade era
associada ao papel político e militar
do "Filho de Davi". Desempenhar tal
papel era a última coisa que Jesus desejava.
A Pilatos Cristo respondeu: "Meu reino
não é deste mundo", como
já tinha se dirigido à multidão
que exigia um reino diferente. "Se alguém
quer me seguir, que renuncie a si mesmo" (Lc
7,34). Garaudy observa que o "Filho do
homem", ao contrário do Filho de
Davi, não é um conquistador,
mas um servo, não apenas "que padece" (como
em Isaías 53,12-53, que o evocou com
tanta beleza) mas que é "rejeitado".
(P. 63).
Jesus
não ditou leis, ele invocou o
amor. Ele não enumera os pecadores que
não entrarão no Reino de Deus,
pelo contrário, condena os que assim
fazem ao frequentar os pecadores e declarar: "publicanos
e meretrizes vos precederão no Reino
de Deus" (Mt 21,31). Na cruz, disse: "Pai,
nenhum se perdeu", dando conta de sua
missão de amor entre os homens.
Diante
de tudo isto, é normal indagar
qual mensagem o comunicador deseja transmitir
nos dias de hoje? A mensagem coerciva dos primeiros
livros do A. T. ou a mensagem do Amor pregada
por Jesus?
Será que todos os pregadores estão
conscientes desse dilema? Qual a mensagem que
o povo espera ouvir hoje, no alvorecer do terceiro
milênio? O antagonismo entre Teologia
Tradicional e Teologia da Libertação
estabelece conflito na linha de argumentação
do pregador católico.
Estudaremos
esta questão no cap. III,
na atualização da leitura que
integra a estética da recepção.