UNESP -
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio
de Mesquita Filho"
FACULDADE
DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO
- Campus
Universitário de Bauru
CONCLUSÃO
Vimos
neste trabalho que, incorporando e transformando
mitos e ritos
através dos séculos, o Discurso
Religioso opera no sentido de persuadir o Homem
a respeito dos valores transcendentais, ensinando-o
a agir de modo ético e moralmente correto. É um
trabalho de persuasão que atua sob uma
premissa básica: Se levado a acreditar
no Transcendente, se persuadido a colocar em
prática a sua Fé, o Homem amará o
próximo, respeitando-o como filho de Deus,
sendo ético, moral, justo e fraterno no
relacionamento com a família humana. O
grau de adesão a essa filosofia de vida
dependerá dos níveis de persuasão.
Para aprofundar a persuasão, o comunicador
precisa recorrer às técnicas de
retórica e argumentação.
Também vimos - na abordagem da Teoria
Estética da Recepção -
que o Discurso é recebido de modo diferente
a cada época. Sua recepção
influencia o contexto de produção.
Exatamente por isto o orador sacro, o autor
católico, o comunicador afinal, precisa
ser realisticamente pragmático ao se
dirigir aos diferentes "auditórios" que,
neste trabalho de pesquisa, foram definidos à luz
da Teoria Retórica de Perelman.
Para Perelman é clara a distinção
da "argumentação" e
da "demonstração",
no bojo da arte retórica. A argumentação
envolve o conjunto das técnicas discursivas
que permitem provocar ou aumentar a adesão
das mentes às teses apresentadas. Enquanto
a demonstração é uma série
de estruturas e formas destinadas a provar,
coercivamente, um postulado, sem deixar margem
a dúvidas. A diferença é que
a argumentação leva em conta
o tempo histórico como fator preponderante,
enquanto a demonstração independe
do tempo, isolando-se do contexto.
Considerando-se que a argumentação é essencialmente
um ato de comunicação, implicando
a comunhão das mentes - "tomada
de consciência comum do mundo tendo em
vista uma ação real, através
de uma linguagem viva, com tudo o que esta
comporta de tradição, de ambiguidade,
de permanente evolução",
na definição de Perelmam (Retóricas
P. 379) - podemos afirmar que a Igreja opera
com sucesso essas duas variáveis da
Retórica.
Com efeito todo o Discurso Religioso está repleto
de exemplos que comprovam esta afirmação.
A persuasão se dá sempre através
de atos de demonstração e de
atos de argumentação. Tomando
os textos bíblicos e eclesiásticos
selecionados para esta dissertação,
podemos comprovar a ocorrência dessa
técnica de comunicação
desde o Antigo Testamento: Para persuadir a
Casa de Abraão a ser fiel, afastando-se
da idolatria, Javé não usa apenas
a argumentação da Terra Prometida,
a recompensa futura, a descendência mais
numerosa que os grãos de areia da praia,
ou a dialética dos Dez Mandamentos.
Ele também dá demonstrações
do seu poder através dos Patriarcas,
derrotando os cananeus e outras tribos para
entregar a Terra de Canaã ao Povo Eleito.
Na chamada "Teofania do Sinai" as
demonstrações de Poder são
fenomenais. No Novo Testamento Jesus irá dizer
que o Pai precisava ser tão enfático
por causa da "dura cerviz" do povo
antigo. Deus ensinou a Moisés, pessoalmente,
como persuadir o Faraó a respeito do
poder do Verdadeiro Deus. Mandou que Moisés
e Aarão atirassem seus cajados diante
do Faraó e eles se transformaram em
serpentes venenosas. Mandou que Moisés
tocasse com sua vara as águas do Nilo
e elas ficaram rubras como sangue. O Senhor
separou as águas do mar para que os
hebreus fugissem a seco do cativeiro do Egito.
No deserto enviou o Maná e tirou água
da rocha para saciar a sede do povo.
Ao longo dos séculos a argumentação
muda, pois já não se trata de
salvar uma etnia, um determinado povo, mas
todos os homens. Já não se trata
de perdoar os amigos e odiar os inimigos, mas
de amar e ajudar os que nos fazem mal. Não
se trata mais de ter o poder do Rei Davi com
seu gládio e sua espada, ou o poder
dos exércitos para conquistar e dominar,
mas de ser manso e humilde de coração,
de olhar para o pobre, o excluido, o marginalizado,
o desprezado, porque ele é a imagem
de Cristo. A argumentação evoluiu
com o tempo - como mostra Perelman - mas os
atos de demonstração são
como pilares imutáveis que independem
do tempo e permanecem para sempre fornecendo
suporte ao trabalho de argumentação.
No Novo Testamento o discurso também
se alterna entre recursos de demonstração
e de argumentação como se vê nos
milagres que corroboram a pregação
de Jesus provando sua Natureza Divina. É com
o milagre da transformação da água
em vinho, nas Bodas de Caná da Galiléia,
que ele faz sua primeira manifestação
pública. Ao longo da vida Jesus prega
e faz milagres. Argumenta e demonstra, com
fatos sobrenaturais, sua origem divina. Após
a morte física na cruz, ele continua
fazendo milagres. Aparece às santas
mulheres na forma de um jardineiro; aos Irmãos
de Emaús como um caminhante peregrino
e quando aparece aos apóstolos, com
Tomé ausente, este não se deixa
persuadir pela argumentação dos
apóstolos que viram o Mestre. Quer uma
demonstração. Quer ver para crer.
Jesus lhe mostra as feridas (demonstração,
fato estático no tempo, único)
mas faz uma profecia de bênção
que atravessa os séculos até cada
um de nós, ao mesmo tempo que censura
a falta de fé de Tomé: "Felizes,
porém, os que não viram e acreditaram" (argumentação).
imagem 11
As bases do discurso
a
seqüência do corpus temos a Encíclica
Centesimus Annus, toda ela voltada para o social,
reafirmando que não basta argumentar com
palavras, é preciso demonstrar a fé com
obras. Está escrito que é pelas
obras que serão reconhecidos os verdadeiros
cristãos. "Não pode uma árvore
boa dar maus frutos", disse Jesus.Na Encíclica,
João Paulo II declara: "O amor ao
homem - e em primeiro lugar ao pobre, no qual
a Igreja vê Cristo - concretiza-se na promoção
da justiça". Sem demonstrar o seu
amor pelo pobre colocando em prática a
sua Fé, a Igreja recua ao contexto do
medievalismo, isolando-se, enclausurando-se,
nos gabinetes do poder. E ao se isolar, verá sua
argumentação ruir por terra pela
dissociação do que Perelmam chama
de "ato e pessoa", como já vimos,
também, neste trabalho.
Recursos
de argumentação e de
demonstração estão ainda
presentes nas Campanhas da Fraternidade da CNBB,
todas elas voltadas para atos concretos de fé a
favor dos excluidos. Exemplo de referência é a
Campanha da Fraternidade de 1995 que retoma o
Evangelho de Mateus ao evocar o Juizo Final quando
os homens serão julgados pela fé que
tiveram em Jesus. "Fé que significa
- diz o Texto Base - reconhecimento e compromisso
com a pessoa concreta de Jesus, identificado
com os pobres e oprimidos, marginalizados pela
sociedade fundamentada no lucro e no poder".
O mote da campanha relaciona-se com a pergunta
que faremos quando, em juízo, Jesus nos
questionar: "Tive fome e não me destes
de comer; tive sede, e não me destes de
beber; estava nú, e não me vestistes;
era estrangeiro, e não me acolhestes".
Então indagaremos: "Mas quando é que
te vímos com fome, com sede, né ou
como estrangeiro? "A resposta será: "Toda
vez que fizestes estas coisas ao menor dos vossos
irmãos foi a mim que fizestes". Por
isto a CF mostra a miséria desumana dos
excluidos e faz a vinculação com
a passagem evangélica: "Eras tu,
Senhor?".
A Igreja argumenta que "a fé sem
obras é morta" (Tg 2, 14-19 )
Na
CF DE 1996, voltada para a conscientização
política por ser ano de eleições,
os argumentos remetem para a demonstração
prática da consciência religiosa ao
recomendar expressamente o voto nos candidatos
compromissados com a ética e a moral, contra
a corrupção. Do ponto de vista ético
ou dos valores, a política é o conjunto
de ações pelas quais os homens buscam
uma forma de convivência entre os indivíduos,
grupos, nações que ofereça
condições para a realização
do bem comum".
Em toda a prática moderna da Igreja, é cada
vez mais presente essa forma de demonstrar a
fé indo ao encontro dos pobres como faz
a pastoral da Terra, ou a Pastoral dos Enfermos,
como fazia a Ação Católica
ou como fazem hoje as Comunidades Eclesiais de
Base. A Igreja atua no campo ou na cidade, nos
países ricos ou nas regiões pobres,
dentro das esferas diplomáticas do poder
internacional, ou na estrutura miserável
dos países "emergentes". Essa
capacidade de se adaptar aos contextos históricos
de todos os tempos - uma característica
da argumentação também vista
por Perelman como expressão da antropologia,
da sociologia e da psicologia - assegura a atualidade
do Discurso Religioso (num mundo cada vez mais
sequioso de Deus).
Os objetivos propostos no início deste
trabalho eram estudar a função
do mito no espaço do sagrado, sua transformação
e incorporação ao discurso católico.
Também nos propusemos a analisar as condições
de recepção através dos
tempos para mostrar que foram muitas as alterações
no modo de expressar a palavra sagrada, mas a
essência do discurso manteve-se homogênica,
centrada na pregação do amor entre
os homens e a Deus. Foi nosso objetivo esclarecer
como se dá o processo de persuasão
através desses recursos míticos,
retóricos e imagéticos. A escolha
do corpus esteve ligada aos objetivos temáticos
do trabalho. Atualizando a leitura do discurso,
concluimos que não basta, hoje, na era
da imagem digitalizada, a proposta de Vieira
sobre o pregador.
Não basta considerar a pessoa, o conhecimento,
o assunto, o estilo e a voz do pregador. No mundo
informatizado da eletrônica o pregador
pode estar do outro lado do planeta, falando
para um auditório universal, sem a proximidade íntima
dos antigos curas de aldeia, daí ser apenas
relativa a circunsância da pessoa.
Quanto ao conhecimento é inevitável
e indispensável a todo comunicador, embora
se cumpra em nossos dias a profecia evangélica
dos falsos profetas, aqueles que usam o discurso
do amor para pregar o ódio, a dissenção
religiosa e até a guerra, usando o conhecimento
para agir como lobos em pele de ovelha. Cristo
profetizou a respeito dizendo: "Dias virão
em que desejareis ver um dia só o Filho
do Homem, e não o vereis. Então
vos dirão: 'Ei-lo aqui. Ei-lo ali.' Não
deveis sair nem os seguir. Pois como o relâmpago,
reluzindo numa extremidade do céu, brilha
até à outra, assim será com
o Filho do Homem no seu dia. É necessário,
porém, que primeiro ele sofra muito e
seja rejeitado por esta geração".
O assunto do pregador, hoje como ontem, remeterá sempre
ao texto bíblico, fonte da mensagem sagrada,
como já vimos.
O estilo que o próprio Vieira criticava
em seu tempo por ser pesado e rococó,
não comporta mais os rebuscados do barroco,
muito menos quando o espaço é o
eletrônico onde a longa exposição
causa efeitos desastrosos ao comunicador se ele
não tiver vivacidade para prender o interesse
do receptor. A voz, hoje, também é influenciada
pelos recursos eletrônicos, não
tendo mais o peso determinante de outrora, quando
o pregador precisava falar do púlpito,
por sobre as cabeças, para ser ouvido
e entendido. Hoje, cumprindo outra profecia do
próprio Cristo, o comunicador fala "por
sobre os telhados", através da televisão,
do rádio, da Internet, via satélite.
O modelo de Vieira carece, para ser válido
em nossos tempos, de indagar "com quem o
pregador fala "porque aqui está presente
o conceito de "estética da recepção",
influenciando diretamente o discurso do orador.
Já foi dito neste trabalho que o pregador
não pode fazer do mesmo modo o sermão
de domingo para a missa dos adultos (às
7 horas), a missa das crianças (às
10 horas) e a missa dos jovens (às 19h30).
Não apenas por impedimento físico,
mas porque cada auditório exige um tipo
de discurso, muito embora sobre o mesmo assunto.
Se o pregador se dirige ao auditório universal,
representado empiricamente na sua imaginação,
então será preciso escolher um
modo de falar que atinja o maior número
possível de pessoas, considerando-se o
alcance e o público-alvo da emissora.
De qualquer modo é preciso considerar
gravemente a circunstância do "com
quem fala".
Igualmente importante é saber "o
que o pregador quer alcançar". Um
discurso religioso não é propriamente
um discurso informativo. Ele interpreta textos
bíblicos e dele tira conclusões
para o presente, para a nossa realidade, num
processo diacrônico de atualização
permanente. Sabemos que o objetivo a alcançar
será sempre a persuasão, a conversão,
a transformação. Isto exige argumentação
lastreada em demonstrações, em
exemplos práticos da vida diária
como fazia o próprio Cristo recorrendo às
parábolas, às palavras simples
das donas de casa e também aos milagres
(estes, naturalmente, privilégio de sua
natureza divina).
Finalmente, esperamos ter realizado
uma pesquisa bibliográfica em que se demonstra o desempenho
das palavras-chave propostas no início:
Discurso-Orador-Ouvinte-Persuasão-Mito-Rito.