UNESP -
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio
de Mesquita Filho"
FACULDADE
DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO
- Campus
Universitário de Bauru
Capítulo
II - A Persuasão
1.
Características do Discurso Religioso
Para
estudar o discurso religioso é preciso
analisar as características de sua produção.
Já nos referimos aos sermões de
Vieira. O sermão (ou homilia) é o
lugar característico do discurso religioso
na economia do sagrado. O púlpito da Idade
Média, na imponência dos capitéis
esculturados, situado em lugar alto para suprir
a inexistência dos sistemas eletrônicos
de som, dá bem a idéia da "autoridade"com
que a Igreja fala de seus dogmas e de sua ideologia,
através dos sermões, muitos deles
verdadeiras peças de retórica e
persuasão.
Para
Raquel Setzer26 "o sermão é,
como qualquer forma de discurso, percebido como
uma forma social de apropriação
da linguagem, na qual o sujeito do enunciado
tem a ilusão de estar na origem do que
foi dito, mas é interpretado pela ideologia.
Assim, se pode verificar historicamente a ideologia
das relações entre a Igreja, o
missionário e o povo".
No âmbito do discurso religioso, especificamente,
o sujeito do enunciado é o próprio
Deus ("É Deus que faz em vós
o querer e o fazer"- Flp 2,13)", aqui
situado como referente do enunciado, cabendo
ao pregador a função de Destinador
da mensagem sagrada. Lastreado na Fé,
o Destinatário (que Perelman chama de
Auditório) é o receptor desse discurso
apodítico em que o pregador parte de um
axioma incontestável em matéria
de Fé, para todos os crentes. A preocupação
primeira desse discurso,nos primórdios
da Igreja, é demonstrar que Jesus é verdadeiramente
Filho de Deus. É uma demonstração
que não entra em conflito com o processo
de verificação pela Fé.
É mais complicado quando a Igreja prega
sobre Ética e Moral, área em que
nem todos os crentes aceitam sem objetar, principalmente
em nossos dias. A presença do papa João
Paulo II no Rio, de 2 a 5 de outubro último,
para encerrar o II Encontro Mundial com a Família,
serviu como pano de fundo para a Igreja pregar
contra o projeto do governo que autoriza o Sistema Único
de Saúde- SUS a realizar operações
de aborto em situações onde a mãe
corre risco de vida ou tenha sido vítima
de estupro. De tão polêmico o tema
gerou comentário raivoso da Primeira Dama,
Ruth Cardoso, no dia da chegada do Papa: "A
relação do papa com o Congresso
brasileiro é igual a zero".
Terceira
visita do Papa ao Brasil: 2-5/10/1997
O
Papa também pregou contra o divórcio
e foi vivamente aclamado por mais de cem mil
pessoas que lotaram o Maracanã. Mas é fato
que os católicos, embora embevecidos com
a amável presença do Papa, continuam
regendo por conta própria as questões
relacionadas com este e outros asuntos da intimidade
sexual, como o uso de preservativos para prevenção
da Aids, os anticoncepcionais para adaptar o
número de filhos ao orçamento de
cada lar etc. É inegável, entretanto,
que a mensagem do Papa, baseada nos ensinamentos
do Evangelho, dará frutos no momento adequado,
constituindo, sua visita, um reforço para
uma Igreja que vinha se defrontando com o desânimo
e mesmo com a deserção de fiéis.
Em épocas mais remotas o sermão
de domingo era suficiente para definir padrões
de comportamento para todos os fiéis,
através de um discurso religioso do tipo
dominador que só se abriu ao diálogo
ecumênico no Concilio Vaticano II. Para
Habermas "as instituições
sociais dominantes são afins dos padrões
neuróticos de comportamento, já que
enrijecem a vida humana em um conjunto compulsivo
de normas, e, assim, bloqueiam o caminho da auto-reflexão
crítica27", como era comum na igreja
medieval, antes do racionalismo iluminista.
Veremos
mais, a este respeito, no próximo
capítulo, sobre a recepção.
Sobre
a questão ideológica, citada
por Rachel Setzer, que permeia o discurso religioso,
Terry Eagleton (p. 19-20) recorre a Jon Elster28
para esclarecer que
"as ideologias dominantes podem moldar
ativamente as necessidades e os desejos daqueles
a quem elas submetem; mas devem também
comprometer-se, de maneira significativa, com
as necessidades e desejos que as pessoas já têm,
captar esperanças e carências genuínas,
reinflectí-las em seu idioma próprio
e específico e retorná-las a seus
sujeitos de modo a converterem-se em ideologias
plausíveis e atraentes".
Para
Eagleton, para terem êxito, as ideologias
devem ser mais do que ilusões impostas
e, a despeito de todas as suas inconsistências,
devem comunicar a seus sujeitos uma versão
da realidade social que seja real e reconhecível
o bastante para não ser rejeitada.
Observando por este aspecto, o Papa disse no
encontro do Rio:
"Através da família toda
a existência humana é orientada
para o futuro. Nela o homem vem ao mundo, cresce
e amadurece. A família é também
o primeiro e fundamental ambiente onde cada homem
distingue e realiza a própria vocação
humana e cristã".
Naturalmente
o Papa argumentou para persuadir os casais
a se manterem fiéis ao casamento
em respeito a si próprios e aos filhos,
se quiserem cumprir a mensagem do Evangelho.
E como se dirigiu aos jovens?
"Deus vos ama loucamente. Ele deseja a
vossa felicidade, mas quer que saibais conjugar
sempre a fidelidade com a felicidade, pois não
pode haver uma sem a outra. Não deixeis
que a mentalidade hedonista, a ambição
e o egoísmo entrem em vossos lares. Sede
generosos com Deus".
O
Papa se expressou num contexto "paralinguístico" -
ou não verbal - em que sua imagem física
e seu carisma pessoal revelaram acentuada coerência
com o contexto do casamento no Brasil e no mundo,
como provam as estatísticas.
E
certamente o fez por acreditar que o esgotamento
do materialismo histórico e a frustração
do consumismo hedonista prenunciam um novo perfil
existencial para o homem. Quatro séculos
depois que o Iluminismo acreditou ser possível
substituir o Deus-Transcedente pela Deusa-Razão,
a nostalgia de Deus - como no mito do eterno
retorno - domina o mundo contemporâneo.
O terceiro milênio promete ser um período
de resgate do verdadeiro humanismo. O Papa aposta
na capacidade transformadora de uma Igreja que,
embora deva se adaptar aos diferentes povos e
culturas, não pode renunciar aos traços
essenciais de sua fisionomia milenar.
Condenando
a ideologia do prazer a qualquer custo o Papa
se põe em sintonia com esse
auditório universal (na visão de
Perelman) que busca, no mundo inteiro, um sentido
para a vida.
Feitas
as devidas mudanças de hierarquia
e de aparato físico, o sermão do
Papa para dois milhões de pessoas no aterro
do Flamengo (onde entrou em comunhão com
o povo ao repetir o refrão "Se Deus é brasileiro,
o Papa é carioca" e depois, já com
a voz debilitada, usou a bengala, girando-a no
ar como fazia Carlitos para comunicar sua alegria
e contentamento, numa lição prática
de comunicação não-verbal)
ou o sermão do padre humilde na igrejinha
do sertão, têm o mesmo objetivo:
ajudar as pessoas a encontrar um sentido para
a vida.
No
entanto, o discurso religioso traz em si, ao
menos no âmbito do catolicismo, outra
característica que reforça sua
função ideológica. São
duas formações discursivas antagônicas,
assim descritas por Rachel Setzer:
"Por um lado há uma legitimação
das normas tradicionais, com as marcas típicas
do discurso religioso. A estrutura rígida
das posições relativas dos interlocutores,
os dogmas sagrados, como a Fé em Deus,
são intocáveis. Tudo isto dá uma
aparência estática, cristalizada,
logo, "mais compreensível" da
realidade: tudo continua igual e a ordem social
pode ser mantida. Por outro lado, há um
processo de mudança aparente na exploração
de novos sentidos e na reintegração
dos conteúdos: os postulados podem mudar
e a ordem social também. Um discurso que
justapõe essas duas formações
discursivas antagônicas cria, segundo o
que pensamos, mais conflitos e contradições
do que efetivamente ajuda no processo de mudança".
(P. 101)
Estamos
falando de Teologia Tradicional e Teologia
da Libertação, tema que discutiremos
melhor no tópico a seguir.