Nos
quatro textos aqui apresentados está sempre
explícita a noção de
amor e respeito ao próximo através
da coerência entre palavra e ato. No
Antigo Testamento - devido à rusticidade
do povo, como explica o próprio Jesus
- Deus dita as normas para uma vida feliz
e ameaça com severa punição,
dentro do cenário que alguns chamam
de "teofania do Sinai", tal a impressionante
grandiosidade do ambiente que cercou a entrega
das tábuas da lei a Moisés
(os Dez Mandamentos). Era uma época
de pouca cultura, em que as etnias viam sentido
em adorar um pedaço de barro, de pedra
ou de madeira como "deus". É bem
verdade que até meados do séc.
XII alguns povos nórdicos ainda acreditavam
em deuses pagãos. Mas o culto ao monoteísmo
do Deus Verdadeiro ganhou corpo com a pregação
evangélica, no Novo Testamento, por
todo o mundo.
No
Discurso-Programa de Jesus, um dos textos
mais bonitos do Novo Testamento (Marx disse
que adotaria o Sermão da Montanha),
Jesus lança os fundamentos de um Mundo
Novo. Aos Judeus revoltados com a dominação
romana, ele prega a paz, o perdão,
o amor, a misericórdia, mostrando
que a verdadeira força do homem não
está nas armas, no dinheiro, no poder
político, mas na sua capacidade de
relacionar-se com Deus, concretamente, através
do serviço aos irmãos. Ele
ensina aos comunicadores do Reino como proceder
para convencer e persuadir o povo sobre os
novos valores da Fé.
Da
mesma forma, a Encíclica Centesimus
Annus (1º.05.1991), celebrando os cem
anos da Rerum Novarum, proclamada por Leão
XIII em 15.05.1891, vem lembrar os primeiros
tempos quando os cristãos partilhavam
seus bens com os pobres, dando exemplos práticos
de amor e de fraternidade. Ressalta que amar é ser
justo e alerta que a Globalização
não deveria ser instrumento de aniquilamento
das nacionalidades, mas uma oportunidade
de crescimento para os países pobres,
onde há miséria, fome e desemprego.
Destaca a presença de Deus na História
para julgar a conduta dos homens.
Finalmente
a C.F. de 1996 ensina que amar o próximo é instruí-lo, é conscientizá-lo, é incentivá-lo
a não se omitir, a participar das
instâncias de decisão política
que influenciam a vida do povo. Instrução,
comunicação significam partilhar
a palavra como Cristo que se revelou aos
discípulos de Emaús no ato
de partilhar o pão: Cristão é aquele
que partilha, que participa, que se abre
para o irmão, fraternalmente: "Por
vossas obras os conhecerão!"
Pode-se
observar, claramente, nestes quatro trechos
escolhidos ao acaso dentro do discurso religioso
que, apesar dos séculos que separam
um do outro, todos têm em comum a mesma
mensagem do "amor ao próximo",
do "respeito aos irmãos". É a
pregação que se vê do
Livro do Êxodo até à Campanha
da Fraternidade. É essa unidade que
dá sentido ao discurso, muito embora
eventuais desvios que afastaram a Igreja
de sua missão junto aos excluídos
durante algum tempo. Mas a própria
Igreja, membro do corpo místico que
tem em Cristo a sua cabeça, reconhece-se "santa
e pecadora", abrindo-se diariamente à conversão
e ao encontro do Ressuscitado.
Pregar
o amor ao próximo é a missão.
Porém o que dá sentido à vida é dar
exemplos práticos de amor e respeito
ao próximo. Isto significa ir ao encontro
do irmão, vendo nele a imagem e a
semelhança do próprio Cristo: "Cada
vez que fizestes isso a um dos menores desses
meus irmãos, a mim o fizestes".
(Mt 25,40)