UNESP -
UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA - "Júlio
de Mesquita Filho"
FACULDADE
DE ARQUITETURA, ARTES E COMUNICAÇÃO
- Campus
Universitário de Bauru
Capítulo
I - A Presença do Mito Hoje
3.
Atualização do Mito 3. 1. O Rito: A Missa
3.1 O Rito: A missa
De
todos os símbolos que contribuem para
atualizar o grandioso mito de Jesus - não
no sentido ficcional, mas no sentido contrário,
o do reconhecimento de Jesus de Nazaré como
o maior fenômeno de todos os
tempos, verdadeiro
Filho de Deus enviado pelo Pai dentro do seu
plano de salvação
da Humanidade - certamente o mais expressivo é o
rito da missa.
Claro que cada
um dos símbolos litúrgicos
- também chamados sacramentos por serem
sinais da graça de Deus - tem uma força
expressiva de comunicação como
o Batismo, o Crisma, a Ordenação
Sacerdotal, o Matrimônio, a Confissão,
a Unção dos Enfermos, a Reconciliação.
Todos têm sua própria história,
sua significação específica,
seu poder de persuasão e conversão.
Mas o sacramento
da memória, aquele que é celebrado
por ordem do próprio Cristo para perpetuar
a sua memória, é o sacramento da
Eucaristia. Ele é o Cristo continuado
na história.
O rito da missa,
para efeito de análise
semiológica, pode ser desconstruído
em inúmeros sub-símbolos formando,
no todo, uma metalinguagem que significa a comunhão
de todo o povo, lembrando a missão evangélica
da Igreja no sentido de servir ao povo de Deus
e não a si mesma como fez nos desvios
do passado.
Etimologicamente
a palavra "missa" vem
do termo latino "mittere", que quer
dizer "enviar". "Missa" é o
particípio passado: "enviado, enviada". "Ite
missa est" quer dizer, literalmente, "foi
enviada". Isto é, a oblação,
o sacrifício de louvor e reparação
de Cristo; a ação de graças,
a ação sacrificial foi enviada,
foi apresentada ao Pai em nome de todos os que
participaram da missa (Ribolla, 1996)21.
São Lucas conta como era a missa entre
os primeiros cristãos, nos Atos dos Apóstolos: "Reuniam-se
e colocavam tudo em comum", (AT 4,32), ressaltando
a dimensão comunitária da celebração.
A primeira parte
da missa, entre os primeiros cristãos, constituía a liturgia
da palavra, com orações, leituras,
comentários. A 2ª parte, chamada
a "fração do pão",
incluía a consagração e
a comunhão. Nela fazia-se a ação
de graças e, em seguida, distribuíam-se
alimentos e roupas aos irmãos necessitados
através das ofertas apresentadas pela
comunidade no ofertório.
Pe Ribolla (Op.
cit., P. 104) observa que "não
se separava o Cristo-no-pão do Cristo-no-irmão".
Quem freqüenta a missa constata que ainda
hoje ela conserva, estruturalmente, a grande
divisão: 1ª parte - liturgia da palavra;
2ª parte: liturgia da eucaristia.
Hoje podemos
subdividir a 1ª parte
em
1. Ato Penitencial
2. Orações
3. Leituras
4. Homilia
5. Profissão
de Fé
A Liturgia Eucarística,
que constitui a segunda grande parte da missa,
subdivide-se
em
1. Ofertório
2. Consagração
3. Comunhão
4. Ação de Graças
5. Encerramento
A missa reproduz
as características do
ano litúrgico que é o calendário
religioso da Igreja. Seu conteúdo é a
celebração da História da
Salvação. Tem basicamente três
períodos: Natal, Páscoa e Tempo
Comum. Existem dois tempos litúrgicos
de preparação: O Advento - que
prepara para o Natal - e a Quaresma - que prepara
para a Páscoa. O Tempo Comum é um
período de 34 semanas ou domingos e está dividido
em duas partes: Começa logo depois da
Festa do Batismo de Jesus e vai até antes
da Quarta-Feira de Cinzas; recomeça na
segunda-feira depois de Pentecostes e vai até o
sábado antes do Primeiro Domingo do Advento.
Durante o Tempo Comum são celebradas as
festas de Nossa Senhora, dos Santos e dos finados.
Portanto, a Missa
não é uma celebração
aleatória. É um momento de comunicação
em que os textos selecionados do Antigo e do
Novo Testamento, a "gestal" do sacerdote,
as cores e os tipos dos "paramentos" que
são as vestes do celebrante, cada detalhe,
enfim, passa uma narrativa específica
do tempo litúrgico.
Desconstruindo
a liturgia da Missa encontramos enorme riqueza
de comunicação nas
várias partes do ritual:
1- O Ato Penitencial
remete à idéia
de purificação, de arrependimento,
de preparação para iniciar a celebração
do sacrifício.
2- As orações têm o objetivo
de envolver a comunidade para que se sinta participante
e não apenas "assistente" da
missa, como no passado.
3- As leituras referem-se ao tema do dia, sendo
uma do Antigo e outra do Novo Testamento.
4- A homilia
já foi, no passado, o "locus" de
inflamados discursos que enriqueceram a literatura
universal como os sermões do Pe. Antonio
Vieira (séc. XVI), já citado.Ainda
hoje o já abolido púlpito é local
de advertências a favor da justiça
social. Mas é, fundamentalmente, o momento
de distribuir o pão da palavra, como expressão
máxima do discurso religioso. É também
o espaço que mais afasta católicos
da Igreja ou por discordarem do conteúdo
da locução ou por se irritarem
com monótonas e sonolentas perorações
em que pouco se ouve e nada se guarda. Cada vez
mais, além de bom teólogo - isto é,
de bom conhecedor das Escrituras, da Teologia
e da realidade social no contexto de cada paróquia
- o sacerdote precisa ter noções
básicas de comunicação para
não lidar de forma desinteressada e apática
com os poderosos e riquíssimos elementos
de informação e persuasão
disponíveis no discurso religioso. Aqui
também a Igreja perde fiéis para
o pentecostalismo cujos pastores recebem as pessoas
na porta da Igreja, interessam-se por elas e
na homília falam com o coração,
tocando o íntimo dos crentes, preenchendo
um espaço esvaziado pela angústia,
pelo desespero, pelo desemprego, pela exclusão
social e econômica, pelas humilhações.
Afinal, pelo peso do próprio fardo da
vida neste fim de milênio.Utilizando inadequadamente
os meios eletrônicos, os católicos
de hoje parecem ser bons escrevendo mas sofríveis
usando o formidável equipamento da TV,
principalmente, salvo honrosas exceções,
claro.Isto vem de uma época em que a Igreja
impunha o próprio discurso e não
tinha necessidade de "disputar espaço" com
outras formas de religiosidade, nem com um mundo
tão exigente e bem informado como o nosso.
Hoje, a homilia deve ser um lugar muito especial
de persuasão porque ao invés do
púlpito que separava fisicamente o pregador
do auditório, situando o emissor num plano
verticalmente elevado, talvez para compensar
a inexistência de aparelhos de som ou para
deixar claro que a Igreja detinha o poder da
verdade, temos o padre falando e celebrando mais
perto do povo, quase no mesmo plano horizontal,
celebrando de frente, não de costas; falando
o comunicativo vernáculo, não o
misterioso latim. Todos estes são fatores
de persuasão a serem levados em conta
pelo comunicador católico.
5. A profissão de Fé é um
ato de consciência do cristão. Ele
reafirma a sua adesão espontânea
a Deus, recitando sumariamente os principais
fatos da tradição cristã: "Deus é Pai, é criador
de todas as coisas, Jesus Cristo é seu
filho único, ele foi concebido sem pecado,
ele nasceu da Virgem Maria, morreu na cruz mas
ressuscitou. Um dia voltará para o julgamento
final". A oração é encerrada
com a renovação das promessas do
batismo: "Creio no Espírito Santo,
na Santa Igreja Católica, na comunhão
dos santos, na remissão dos pecados, na
ressurreição da carne, na vida
eterna".
O Catecismo da
Igreja Católica (1993)22
ensina que "não cremos em fórmulas,
mas nas realidades que elas expressam e que a
fé nos permite tocar. Há séculos,
através de tantas línguas, culturas,
povos e nações, a Igreja não
cessa de confessar a sua única fé,
recebida de um só Senhor, transmitida
por um único batismo, enraizada na convicção
de que todos os homens têm um só Deus
e Pai".
A fé - ainda conforme o catecismo - é um
dom sobrenatural de Deus, infundido pelo Espírito
Santo. Crer é um ato humano, consciente
e livre, que corresponde à dignidade da
pessoa humana. Crer é um ato eclesial.
A fé da Igreja precede, gera, sustenta
e alimenta a nossa fé. A Igreja é a
mãe de todos os crentes. A fé é necessária à salvação.
O próprio Senhor o afirma: "Aquele
que crer e for batizado, será salvo; aquele
que não crer, será condenado (Mc
16,16).
"Quem diz "creio" diz "dou
minha adesão àquilo que nós
cremos". A comunhão da fé precisa
de uma linguagem comum da fé, normativa
para todos e que una todos na mesma confissão
de fé." (Op. cit., P. 60)
Infelizmente
apesar da riqueza simbólica
da liturgia e de orações tão
plenas de significado como o Pai Nosso ou o Credo,
o católico participa da celebração
da palavra de forma minemônica, repetindo
fórmulas maquinalmente sem atentar para
o que está dizendo. Outras vezes - embora
se diga que quem canta reza duas vezes - os próprios
organizadores da celebração transformam
os cantos num show à parte, de modo que
o povo fica de boca fechada como se estivesse
assistindo à missa pela televisão.
Na verdade a missa não deve ser "assistida",
mas "celebrada", "participada".
Então porque a Pastoral do Canto não
ensaia antes com o povo para que todos possam
acompanhar? Para que produzir shows vocais se
a Igreja não é um stúdio?
Por
isto insistimos neste símbolo sagrado
da fé que é a oração
do credo. Desde a origem a Igreja exprimiu e
transmitiu a sua própria fé em
formas breves e normativas para todos. Mas dois
símbolos - entre os muitos criados - ocupam
lugar particularíssimo na vida da Igreja,
segundo o catecismo: O Símbolo dos Apóstolos
(assim chamado por expressar o resumo fiel da
fé dos apóstolos, da fé de
Pedro) e o símbolo Niceno-constantinopolitano
(resultante dos dois primeiros concílios
ecumênicos - 325 e 381) ainda hoje comum
a todas as grandes Igrejas do Oriente e do Ocidente:
Símbolo dos Apóstolos
Creio em Deus
Pai todo-poderoso,
criador
do céu e da terra.
E em Jesus Cristo, seu
único
Filho,
Nosso Senhor;
padeceu sob Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto
e sepultado.
Desceu à mansão dos mortos;
ressuscitou ao terceiro dia;
subiu aos céus
está sentado à direita
de Deus Pai
todo-poderoso,
donde
há de vir a julgar os
vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo;
na
Santa Igreja católica;
na
comunhão dos santos;
na remissão dos pecados;
na
ressurreição da carne;
na vida eterna.
Amém.
Símbolo niceno -constantinopolitano
Creio em um só Deus,
Pai todo-poderoso,
criador
do céu e da terra,
de
todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio
em um só Senhor, Jesus Cristo.
Filho
Unigênito de Deus,
nascido
do Pai antes de todos os séculos:
Deus de Deus, Luz da Luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro;
gerado,
não criado,
consubstancial ao Pai.
Por ele todas as coisas foram feitas.
E
por nós, homens, e para nossa
salvação, desceu dos céus
e
se encarnou pelo Espírito Santo,
no seio da Virgem Maria,
e se fez homem.
Também por nós foi crucificado
sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia,
conforme as Escrituras,
e
subiu aos céus,
onde
está sentado à direita do
Pai.
E de novo há de vir, em sua glória,
para julgar os vivos e os mortos;
e
o seu reino não terá fim.
Creio
no Espírito Santo,
Senhor
que dá a vida,
e procede do Pai e do Filho;
e com o Pai e o Filho
é adorado
e glorificado:
Ele que falou pelos profetas.
Creio na Igreja,
una,
santa, católica e apostólica.
Professo
um só batismo
para
a remissão dos pecados.
E
espero a ressurreição dos mortos
e
a vida do mundo que há de vir
Amém.
Arrependido
dos pecados, instruído pelas
leituras, orientado pela homilia, feito o ato
de fé, o católico está preparado
para participar do sacrifício da missa
como co-celebrante e não como espectador
passivo, distante, alienado.
Na
segunda parte a missa ganha uma dimensão
mais rica ainda com toda sua pedagogia de partilha
e participação.
1.
O ofertório representa um gesto de
generosidade e desprendimento dos bens materiais,
a adesão a Deus que é o Criador
e Dono de todas as coisas, fato que reconhecemos
- confirmando o credo anterior - ao nos despojarmos
dos bens materiais, do apego à vaidade,
ao orgulho, às posições
sociais etc.
2.
Antes da consagração o celebrante
lava as mãos e as enxuga, num gesto material
que reforça a idéia de purificação,
de preparação para o sagrado mistério.
A consagração é o momento
maior do rito que atualiza o mito. O sacerdote
repete literalmente as palavras de Jesus: "Tomai,
todos, e comei: Isto é o meu corpo, que
será entregue por vós". E
depois: "Tomai e bebei, todos, este é o
cálice do meu sangue, o sangue da nova
e eterna aliança, que será derramado
por vós e por todos, para remissão
dos pecados. Fazei isto em memória de
mim".
Antes
de se elevar ao céu, diante dos
discípulos, Jesus disse: "Eu estarei
convosco até a consumação
dos tempos". Com a Festa de Corpus Christi,
a Igreja mostra aos fiéis que a carne
e o sangue de Cristo estão verdadeiramente
presentes nas sagradas espécies. Sabemos
que a Eucaristia é um dogma de fé,
no entanto é lamentável testemunhar
a pressa e a displicência de alguns celebrantes
durante esse momento maior da missa, verdadeiro
locus da persuasão, que é a consagração.
3. A comunhão é a comunicação
pela partilha. Foi no gesto de partir o pão
- símbolo da vida - que Jesus ressuscitado
foi reconhecido pelos irmãos de Emaús. É na
partilha que praticamos, pela justiça
social, o maior de todos os mandamentos, o mandamento
do amor, realizando aquela que S. Paulo considera
a mãe de todas as virtudes, a caridade. "Felizes
os que têm fome e sede de justiça
porque serão saciados" (MT 5,6),
disse Jesus no Sermão da Montanha. E mais: "Vinde
a mim vós todos que estais famintos, cansados,
exaustos e eu vos aliviarei porque meu peso é leve,
meu jugo é suave" (MT 11,30). A comunhão
representa a integração total com
o Cristo Eucarístico, a união de
toda a Igreja, a comunicação mais
perfeita em que o emissor (Cristo) e o receptor
(povo de Deus) fundem-se num só elemento
pois, como diz S. Paulo, "já não
sou eu que vivo, é Cristo que vive em
mim" (GL 2,20).
O
próprio modo de se distribuir a comunhão
hoje é mais comunicativo que antes do
Concílio Vaticano II. Retoma-se o modo
como o próprio Cristo ensinou, entregando
o pão diretamente aos apóstolos.
A hóstia não é mais depositada
sobre a língua do comungante, mas sobre
sua mão esquerda que atua como uma mesa
da qual, com a mão direita, ele se servirá do
pão espiritual, colocando a hóstia
na boca e alimentando-se com ela como se alimenta
com o pão de cada dia, normalmente. É uma
participação física, é uma
intimidade maior onde se funde o temporal (do
pão feito de trigo) com o transcendente
(baseado na Fé), corpo e alma, Cristo
Homem e Cristo Deus, aparência (de pão)
verdade (de Deus).
4. A ação de graças é o
reconhecimento humilde de que nada somos, de
que tudo é dom de Deus. Apesar de nossos
poucos méritos, fomos levados em conta
pelo Pai que arquitetou um plano de salvação
para nos conduzir à origem de onde viemos:
a essência espiritual do amor eterno, puro,
imaculado, omnisciente, alfa e ômega, o
inominável, o incriado, o transcendente,
o sentido da vida, Deus Pai.
5.
A despedida ou encerramento tem a simbologia
do pai de família que se despede do filho
quando este parte para uma longa caminhada após
um tempo de convívio ameno com seus entes
queridos, no ambiente puro e seguro do lar: "Vai
em paz, o Senhor te acompanhe".
Então a missa é uma reunião
de amigos de Jesus com a finalidade de lembrar
seus ensinamentos, de reviver os princípios
da fé, de reaprender o valor da caridade
fraterna, de se fortalecer com o corpo de Deus
e de receber uma bênção final
que nos devolve revigorados para mais uma semana
de trabalho.
Mas é, e deve ser, principalmente, um
momento forte de conversão interior para
que examinemos a nossa consciência e aperfeiçoemos
o respeito que devemos a todos os irmãos,
inclusive aos de outras religiões.
É também o lugar de refletir sobre
o papel de cada um de nós por um mundo
mais digno, menos hipócrita, onde todos
possam ter a vida plena e abundante de que falou
Jesus.
Todo
esse processo de reflexão está diretamente
ligado às técnicas de comunicação
utilizadas com o objetivo de "fazer crer" e "fazer-fazer",
mediante o envolvimento do destinador-sujeito
(celebrante) e do destinatário-sujeito
(povo celebrante).
Ao
longo de toda a missa, a Igreja passa um discurso
homogênico, todo ele calcado na
figura de Cristo e no seu mandamento principal:
amar e dar a vida pelos irmãos se for
preciso.
O
rito da missa é, em si mesmo, um discurso
especificamente persuasivo que opera recursos
de linguagem verbal e não verbal, incluindo
a performance dos atores, a expressão
corporal, a oratória, os signos etc. para
convencer os participantes a respeito não
apenas da veracidade dos fatos cristãos,
mas da necessidade de mudança ("metanóia")
interior, de conversão, de adesão
incondicional a Cristo. É claro que não
só a palavra persuade. As imagens, a representação,
os gestos, as cores e cantos também formam
uma linguagem convincente. E nós, como
vemos o poder de persuasão do mito e das
imagens dentro do catolicismo? Naturalmente se
as imagens não falassem tão alto
na divulgação da fé evangélica,
certamente, não teriam sido tão
trabalhadas ontem e hoje.
Mesmo
depois da opção de tirá-las
do altar para realçar o cristocentrismo
e abrir os braços para o ecumenismo, a
partir do Vaticano II, a Igreja católica
continua contando com amplos recursos de expressão
fortemente comunicativos como as festas litúrgicas,
muitas delas contidas em ritos pagãos
e transformados pelo cristianismo . É o
caso da celebração do Natal, por
exemplo, em que a Igreja celebra o nascimento
de Cristo - embora a data exata não tenha
sido ainda suficientemente esclarecida, a ponto
de, nos primeiros séculos, ser comemorada
ora a 6 de janeiro, ora a 25 de março.
A data atual foi fixada em 440 a fim de cristianizar
grandes festas pagãs realizadas nesse
dia como a festa mitraica (religião que
rivalizava com o cristianismo nos primeiros séculos)
que celebrava o "natalis invicti solis" ("nascimento
do vitorioso sol") e várias outras
festividades decorrentes do solstício
de inverno, como os "saturnália",
em Roma, e os cultos solares entre celtas e germânicos.
A liturgia natalina retoma a idéia de
Cristo como a verdadeira luz, da mesma maneira
que, no Antigo Testamento, Javé persuade
o povo hebreu a se manter fiel ao verdadeiro
Deus, evitando a idolatria aos deuses pagãos
El, Mardoc, Baal etc.
Ao
transformar e incorporar esses ritos, a Igreja
deu início a um amplo processo de comunicação
pela imagem, conquistando e mantendo fiéis
em todo o mundo à medida que as celebrações
litúrgicas, sem fugir ao escopo central
de comunicar a Fé, puderam se adaptar às
diferentes culturas e regionalismos.
Se
as celebrações litúrgicas
são tão expressivas como elementos
de comunicação e de persuasão,
que dizer da propagação dos dogmas
conciliares que constituem os pilares da Igreja
como verdades imutávies e indiscutíveis?
Em cada região os católicos dão
um colorido todo próprio às celebrações
em homenagem à Imaculada Conceição, à Ascensão
de Maria, ao Santíssimo Sacramento etc.
O que dizer de festas populares como Corpus Christi,
Páscoa, Círio de Nazaré,
Paixão de Cristo, Jornadas de Oração,
Natal etc todas tão plenas de simbologia
e de comunicação?
A
Igreja também conta com outra potente
força de comunicação que é o
próprio Papa. Na recente visita ao Rio,
João Paulo II, apesar - ou por causa dela
mesmo - de sua fragilidade física, foi
considerado por especialistas como um "fenômeno
de marketing". "O gesto de beijar o
solo e, desta vez, o de balançar a bengala,
são mostras do grande comunicador que é",
disse o especialista em marketing católico
Antônio Miguel Karter Filho, para explicar
como João Paulo II, doente, frágil
e alquebrado, arrastou dois milhões de
pessoas ao invés de um milhão,
como previsto, à Missa de Despedida, no
aterro do Flamento, no Rio, dia 5 de Outubro
de 1997.
Se
a Igreja conta com todos estes recursos de
comunicação, porque não
haveria de se comunicar? É necessário
que os futuros pregadores sejam adequadamente
preparados, aprofundando-se na pesquisa bíblica,
no estudo dos mitos e das técnicas de
comunicação verbal e não-verbal.
O
perfil de um bom comunicador inclui a boa utilização da voz, a entonação,
a pronúncia, o ritmo, o timbre, a dicção,
os gestos, a movimentação, a postura,
a direção do olhar, a simpatia
pessoal (empatia), a descontração,
a expressividade etc.