A
Cidade - Hoje são 50 mil habitantes que enfrentam
problemas porque as principais usinas de açúcar
da cidade entraram em colapso financeiro levando muitas
pequenas empresas (as que geralmente prestam serviços
de manutenção às frotas) e muitos
plantadores de cana praticamente à falência.
Mas
não foi sempre assim. Comecemos do princípio.
Em
1908 o patrimônio de Santa Cruz do Avanhandava
recebeu o nome de Penápolis em homenagem ao Presidente
da República, Afonso Pena, que partira de Bauru
para inaugurar, naquele ano, as estações
da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil que já estavam
prontas. Os plantadores de café viam na ferrovia
a chance de grande desenvolvimento econômico para
a região. Por isto estavam agradecidos ao presidente.
Ele não chegou até Penápolis, parou
em Avanhandava, última estação que
estava pronta. Penápolis era a seguinte. Mesmo assim
os cafeicultores de Santa Cruz homenagearam o presidente
ao recebê-lo na cidade vizinha, informando que ele
daria nome ao povoado de mil almas surgido em torno da
estação seguinte.
A
história da cidade refletiu, em termos econômicos
e sociais, a história do Brasil, com exceção
do ciclo da mineração. Depois do café veio
a Pecuária e, mais tarde, o açúcar.
O Brasil conhece a história desses ciclos que geraram
acentuada concentração de renda no país.
Em Penápolis não foi diferente. Após
a expulsão dos índios caingangues à custa
de muito derramamento de sangue – tanto de índios
como de brancos - foram se firmando as grandes fortunas
cafeeiras estimuladas com a chegada dos imigrantes italianos,
japoneses, portugueses, sírio-libaneses, espanhóis
etc. Muitos já encontraram aqui os parentes que
tinham vindo ajudar a implantar os trilhos da ferrovia.
Com o baixo preço das terras loteadas por Manuel
Bento da Cruz (um advogado originário da Ilha da
Madeira, em Portugal, que se tornou prefeito de Penápolis,
depois de Bauru no início do Séc. XX) e com
a mão de obra barata dos antigos meieiros e agregados,
muitos imigrantes fizeram fortuna nos cafezais de Penápolis
e da noroeste de São Paulo.
Com
o desmatamento sem medida e sem controle, foram surgindo
as grandes pastagens
que, a partir da
quebra do café na
década de 30, deram margem à pecuária
extensiva, muitas vezes ainda consorciada com o café,
o milho, o algodão etc. Também aqui algumas
famílias se destacaram com fazendas de sedes colossais,
bem instaladas, com vilas de casas para os funcionários.
Novamente o poder se concentrou nas mãos de poucos.
Com
o ciclo da cana, em meados do século XX, acreditava-se
que a necessidade de grandes plantios acabaria democratizando
a riqueza, já que todos podiam plantar e vender
com segurança. Quando o pro-álcool surgiu,
na década de 70, acreditava-se que a produção
de álcool seria mais rentável que a de açúcar
e que todos ficariam ricos. Realmente, com a crise do petróleo
dos anos 70, multiplicaram-se nas ruas de Penápolis
as camionetes OKM dos canavieiros e até a polícia
passou a ter mais problemas com o grande número
de roubo de camionetes em Penápolis.
A
principal empresa da cidade, a Usina Campestre, tinha,
em sua direção, empresários interessados
em arte e cultura, herança do pai, Silvestre Ferraz
Egreja, três vezes deputado federal, e da mãe,
Almey, que cultivava o gosto pela poesia. Um dos diretores
da Usina, José Vianna Egreja, sucedeu o pai como
deputado federal eleito pela região na década
de 80. Netos de Silvestre Ferraz casaram-se em São
Paulo com representantes da aristocracia cafeeira. Outro
diretor da Usina, Mário, montou uma empresa de escultura
em bronze, sob a coordenação de renomado
artista internacional.
Porém, quem mais se destacou na área cultural
de Penápolis – a ponto de no Governo Montoro
a cidade ter recebido o título de Referência
Cultural Regional – foi o diretor Celso Viana Egreja.
Ele criou o Museu do Sol, com acervo cedido pela amiga
Iracema Arditi, de São Paulo, e passou a estimular
o surgimento de novos talentos na pintura ingênua.
O Museu se destacou, tornando-se conhecido em todo o país.
Seu acervo excursionou por Paris e pela Alemanha. Além
do ateliê de pintura, o museu mantinha uma Escola
de Música. A cada dois anos, na década de
80, Celso Egreja trazia de São Paulo e de todo o
Brasil dezenas de artistas famosos para o Salão
de Artes. Também convidava amigos como Arthur Moreira
Lima ou Pedrinho Matar, para apresentar-se ao piano na
cidade. Trazia orquestras como a de Sylvio Bacarelli para
se apresentarem na Praça Dr. Carlos Sampaio Filho,
gratuitamente. Durante o carnaval, trazia carnavalescos
do Rio de Janeiro para fazer em Penápolis o melhor
carnaval do interior paulista, com ricas fantasias e sambas-enredo
gravados em discos.
Penápolis
era uma festa cultural. A cidade chegou a ter 23 grupos
de teatro
amador.
O jornal - Foi nesse contexto, em 1º de Maio de
1982, que nasceu o jornal interior, criado por três
universitários: Paulo Sérgio Muçouçah
(Sociologia-USP), Mário Sergio Vanderley (Comunicação
Visual) e Pedro Celso Campos (Jornalismo-UnB), com a
colaboração de mais dois amigos que mais
tarde também se diplomaram: Joel Pereira Gomes
(Direito) e João Carlos Vilas Boas ( Direito).
A
idéia era inovar a partir do nome. Por isto
o jornal nasceu com inicial minúscula, o que logo
causou estranheza. Não seria um jornal “do
interior”, mas um jornal moderno situado “no
interior”. E “interior” com letras minúsculas
em protesto contra a discriminação do governo
estadual em relação às prioridades
do interior. Era um jornal que nascia com a proposta de
ser “profissional e ético, comprometido apenas
com os destinos da cidade e com a luta em favor da comunidade
penapolense”, conforme o primeiro editorial chamado “Nossa
Opinião”.
Com
todo o gás de quem está saindo da Universidade
para se iniciar no mercado de trabalho e ainda com a ousada
iniciativa de optar pelo interior ao invés dos grandes
centros (embora Paulo e Mário já tivessem
trabalhado em São Paulo e Pedro em Brasília)
o grupo logo tratou de inovar nos mínimos detalhes,
com retrancas criativas, olho nas matérias, linha
fina sob as manchetes etc. Na época a impressão
era tipográfica. Dois anos depois, em 1984, o interior
assinou convênio com a UPI para participar de uma
experiência-piloto e passou a ser o primeiro jornal
do interior a publicar o noticiário internacional
de cada dia, através de um aparelho de Telex TE-315.
Desde
o início, uma das principais preocupações
da equipe do jornal foi separar a redação
do Departamento Comercial, coisa inédita no interior.
Tudo o que se referia a matérias pagas, publicidade,
merchandising etc era tratado com o diretor comercial.
O objetivo era evitar a mistura que se fazia então,
quando o repórter era procurado para publicar anúncios
em forma de notícia. Também em relação à prefeitura,
toda matéria oficial devia ser repercutida com os
moradores dos bairros e com as associações
de classe, de modo a não se fazer um jornal oficialista.
Em algumas ocasiões, o jornal liderava a comunidade
na reivindicação por obras e o diretor acompanhava
o prefeito a Brasília e a São Paulo participando
das audiências com autoridades em defesa de reivindicações
da comunidade. Assim aconteceu com a construção
do novo prédio da Caixa Federal, com o asfaltamento
da Estrada da Forquilha, com a construção
do prédio do Corpo de Bombeiros, com o parcelamento
de débitos da previdência quando o ministro
era Antonio Brito etc.
Por
outro lado, o jornal jamais deixava de acatar sugestões
de pauta da população, mesmo as mais críticas.
Durante algum tempo, no final da década de 90, o
jornal passou a publicar charges para criticar decisões
oficiais ou situações locais que prejudicavam
a comunidade. Outra iniciativa do jornal foi a criação
da Bolsa de Materiais, com a relação de todas
as entidades assistenciais do município, suas principais
necessidades no momento e o telefone de contato para quem
quisesse ajudar. Tratava-se de “organizar” a
solidariedade: Muitas vezes uma família ou uma empresa
tinha algum material de construção sobrando
e uma determinada entidade estava precisando justamente
daquele material para uma reforma ou ampliação,
então o jornal colocava as duas partes em contato,
estimulando a cooperação social.
Um
dos destaques do jornal, durante muitos anos, foi a Coluna
Radar, assinada
pelo diretor Pedro Campos com
a intenção de passar pequenas informações
e de criticar decisões que feriam os interesses
da população. Através dessa coluna
denunciava-se a situação de desemprego, fome
e miséria existente em alguns bairros da cidade,
como na Vila Planalto. Os leitores liam assiduamente a
coluna e diariamente entravam em contato com o autor para
sugerir novos assuntos. O colunista ligava para as autoridades
cobrando resultados de denúncias veiculadas.
Também nos anos 90, já funcionando em sede
própria e em off-set, o jornal fez convênio
com a Editora Ática e passou a distribuir os livros
da literatura brasileira que caiam no vestibular, sorteando-os
entre os assinantes.
Em
2000, após 18 anos de bons serviços
prestados à comunidade penapolense, com o afastamento
do único diretor remanescente, Pedro Campos – cujo
trabalho jornalístico foi reconhecido com o título
de Cidadão Penapolense conferido pela Câmara
Municipal de Penápolis - para dar aulas na Unesp
de Bauru, onde fizera o Mestrado em Comunicação
entre 1994 e 1997, o jornal foi arrendado e um ano e meio
depois foi vendido, circulando, porém, até hoje,
em novo endereço, mas com outra linha editorial
que não tem nada a ver com os tempos pioneiros dos
anos citados e também já com alteração
na logomarca, embora mantendo o nome “Interior”,
com inicial maiúscula.
A
experiência de Penápolis mostrou claramente
que é possível fazer um grande jornalismo
num pequeno jornal, mesmo com os parcos recursos de uma
comunidade do interior e apesar de todas as pressões
do poder público municipal. Muitas críticas
do jornal repercutiram diretamente no Palácio dos
Bandeirantes onde, certa vez, o diretor Pedro Campos foi
chamado para, acompanhado do prefeito João Carlos
D´Elia e do então deputado e escritor Fernando
Morais(PMDB) dar explicações sobre as críticas
feitas em Penápolis. No entanto as críticas,
construtivas, foram mantidas, apesar do jornal continuar
sendo boicotado na distribuição de anúncios
do governo estadual. Também na década de
90 o diretor Pedro Campos foi eleito membro do Conselho
de Ética da Associação dos Jornais
do Interior de São Paulo-Adjori, com reuniões
mensais em São Paulo. A luta do jornal, na Adjori,
contribuiu com a assinatura da “Carta de Araraquara”,
em que o então governador André Franco Montoro
prometeu repassar 20% da verba publicitária do Estado
para os jornais do interior. Depois de Montoro a carta
foi esquecida e os pequenos jornais voltaram a ficar abandonados
pelos anúncios do governo estadual que preferia
anunciar no asfalto de São Paulo assuntos que só tinham
a ver com as lavouras do interior.
O
jornal Interior de Penápolis tem uma longa e
bonita história que será contada dentro de
algum tempo, em outro trabalho de documentação
sobre a imprensa do interior paulista. O mais importante,
por enquanto, é ressaltar, que tanto os grandes
quanto os pequenos jornais precisam trabalhar imbuídos
de boa formação ética e moral para
que tais produtos de comunicação estejam
sempre a serviço dos leitores e de mais ninguém.
Nunca é demais falar em ética quanto se trata
de uma profissão que tem tanta responsabilidade
pública, apesar de pertencer à iniciativa
privada.
É o
assunto a seguir.
2. Ética para Grandes e Pequenos
Não se concebe jornalismo comunitário ou
qualquer outro sem levar em conta os princípios
da ética e da moral. A proximidade física
entre o emissor da notícia e o receptor dela, no
Jornalismo Comunitário, acentua ainda mais a necessidade
da boa apuração para que a informação
seja sempre verdadeira, completa e desapaixonada.
O
que se pretende é que o jornalista seja “o
mais isento possível”, pois tem a responsabilidade
moral de veicular todas as versões de um mesmo fato,
com fidelidade, checando e comprovando as informações
que recebe antes de passá-las ao leitor, ouvinte
ou telespectador. Por isto é falta de ética, é desonesto, é imoral
aceitar qualquer vantagem que possa comprometer o exercício
profissional, conforme recomenda, entre outros, o manual
da Folha de São Paulo.(São Paulo: Ática,
1994).
Quanto à objetividade, trata-se de ser claro e “sem
enrolação” na produção
e emissão do texto, em qualquer veículo.
Nada muito difícil de explicar para um público
receptor cada vez mais exigente quanto à qualidade
do discurso jornalístico. Com a acirrada concorrência
entre os meios, o receptor optará por outro veículo
quando se deparar com textos sem objetividade, confusos,
que misturam opinião com informação,
que tentam manipular e forçar a “decisão” do
receptor por este ou por aquele modo de ver os fatos e
as pessoas.
Em
regra um jornal – seja do bairro ou da chamada “grande
imprensa”, e isto também vale para os meios
eletrônicos - deve publicar tudo o que sabe. Mas
os manuais orientam que “uma informação
pode ser omitida quando o profissional observar, em sã consciência,
que sua divulgação pode colocar em risco
a segurança pública, ou de uma pessoa, ou
de uma empresa”, conforme, ainda, o manual da Folha
de São Paulo, por exemplo.
Um
dos manuais de redação que mais se preocupam
com as questões éticas no jornalismo é o
do jornal O Globo, do Rio, editado pela Editora Globo,
de São Paulo, em 1993, organizado pelo Editor de
Opinião, Luiz Garcia.. Muitas vezes o jornalista
comete deslizes éticos mais por falta de orientação
do que por predisposição de prejudicar o
leitor/ouvinte. Por isto nunca é demais tomar conhecimento
do que recomendam os manuais de redação a
este respeito. Neste sentido, o capítulo sobre ética
do Manual de Redação e Estilo, de O Globo, é útil
desde as linhas que introduzem o capítulo:
“As exigências éticas não prejudicam
a prática do jornalismo; ao contrário, elevam
a qualidade da informação. Pode ser frustrante
perder a foto dramática do menino delinqüente
ou a saborosa notícia não confirmada da indiscrição
do ministro. Mas se a decisão de não publicar
isto ou aquilo foi determinada por genuína preocupação ética,
não existe prejuízo real: o que se está desprezando é informação
ilegítima marcada por sensacionalismo, irresponsabilidade
ou manipulação dos fatos. Muitas vezes, a
decisão de não publicar resulta da distinção
entre interesse público e interesses do público
(que podem ser bastante mesquinhos ou vulgares). O que
ela jamais pode refletir é covardia ou interesse
subalterno que se disfarça de norma ética
para fugir ao dever de publicar. Seja como for, ética
não é mordaça. O que ela pede não é menos
notícia, mas melhor notícia: a informação
correta, completa, digna.
A
atividade jornalística – além de,
obviamente, obedecer às leis do país – tem
critérios éticos próprios. É a
própria imprensa que, por sentimento de dever e
interesse próprio (uma vez que não sobrevive
sem a estima e o respeito da coletividade), escolhe suas
regras específicas de conduta. Vinda de fora, qualquer
outra forma de limitação é censura
e agride a liberdade de imprensa.
Todo
jornalista, do repórter ao editor, seleciona
e dá pesos diferentes aos elementos de informação
que passam por suas mãos. Isso é inevitável – pois
não há outra maneira de trabalhar – e
representa o exercício de considerável poder:
o de decidir como determinado aspecto da realidade será apresentado à opinião
pública.
A
primeira questão ética que se impõe
para o jornalista, é aprender a não abusar
desse poder. É inaceitável que o processamento
da informação seja posto a serviço
de fins políticos, ideológicos e pessoais.
Mas existe o abuso não deliberado: ninguém
consegue despir idéias e sentimentos como quem tira
um paletó antes de começar um dia de serviço.
Ainda assim, mesmo sabendo que a isenção
total é impossível, o jornalista tem que
tentar, permanentemente, ser tão isento quanto possível.
O
poder da imprensa na sociedade não é mandato
dos deuses nem confere prerrogativas especiais ou privilégios
a quem o detém. Como acontece em qualquer função
socialmente importante, ser jornalista implica muito mais
deveres do que direitos; e informar é tanto um dever
como um direito. Não faz mal algum ao profissional
uma boa dose de humildade; e ele não tem pior conselheira
que a arrogância”.
Acima
do Bem e do Mal - Essa arrogância de que
fala Luiz Garcia é um vício que se instala
facilmente entre profissionais que têm o poder de
dar este ou aquele enfoque à matéria que
vão publicar, provocando, assim, este ou aquele
efeito em quem vai ler a informação. Naturalmente é um
poder e tanto. É nesse momento que a preocupação ética
escapa pelos dedos se não for suficientemente consistente.
Considerando-se senhor do Bem e do Mal, o jornalista acaba
incorporando o chamado “Complexo de Clark Kent”,
tema de um livro escrito por Geraldinho Vieira, em 1991,
editado pela Summus, de São Paulo ( “ Complexo
de Clark Kent – São super-homens os jornalistas?).
A organização da obra inclui entrevistas
com personalidades da imprensa, entre elas o então
ombudsman da Folha de São Paulo, Caio Túlio
Costa, que comenta:
“Há uma mistificação muito
grande em torno da figura que a sociedade faz do jornalista
e da figura que o jornalista faz de si mesmo e da profissão.
O jornalista age como se a história passasse ali
pelo seu monitor. Na verdade ele está apenas reportando
o que está acontecendo, e muitas vezes reportando
mal, com atraso e com deformações – em última
análise, até desinformando. Depois de mais
de um ano na função de ombudsman deu para
perceber que nenhum texto da Folha, eu digo nenhum, resiste
ao especialista...Isto mostra o grau de incipiência
em que de certa forma vive o jornalismo brasileiro. Acho
que este fenômeno é generalizado, não é só na
Folha. Acho correta a observação sobre esta
idealização que estudantes de Jornalismo,
o público e mesmo os profissionais da área
fazem: o jornalista se vê como um super-homem, ele
se sente como um super-homem. Em determinadas ocasiões
isto até ajuda, mas o fato dele se ver constantemente
assim pode acabar prejudicando e levando o profissional
a fazer certas coisas que sequer estão nos limites
de sua profissão”.
A
falta de ética no trato com a informação,
acaba, em muitos casos, dando razão ao filósofo
dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), precursor
do Existencialismo, que afirmou em 1848: “Se a imprensa
diária, tal como acontece com outros grupos profissionais,
tivesse de pendurar um letreiro, seus dizeres deveriam
ser os seguintes: aqui homens são desmoralizados
com a maior rapidez, na maior escala possível e
ao preço mais baixo possível”.
A
expressão do filósofo foi usada como
epígrafe do livro “Caso Escola Base -Os Abusos
da Imprensa” (São Paulo: Ática, 1995),
em que Alex Ribeiro denuncia, com detalhes, o crime de
calúnia, injuria e difamação praticado
pelo jornalismo brasileiro ao divulgar denúncias
não apuradas nem confirmadas, na Semana Santa de
1994, sobre a Escola de Educação Infantil
Base, no bairro da Aclimação, zona sul de
São Paulo. As falsas acusações de
práticas sexuais na escola destruíram a reputação
de seus dirigentes e extinguiram o empreendimento, mas
nada se fez para reparar tamanho dano causado por um jornalismo
sem ética.
O
melhor caminho para um jornalista, quando se vê diante
do inusitado, é checar adequadamente a informação.
Se não tiver tempo, é melhor perder o furo
que praticar um crime de informação. Sem
o furo, o jornal perde a notícia em primeira mão
e se recupera na edição seguinte. Com a notícia
errada, em primeira mão, o jornal perde a credibilidade
e leva tempo para recuperá-la.
De
qualquer forma, como foi dito no início, a
preocupação ética não é uma
mordaça, não se trata de noticiar menos,
mas de noticiar com mais qualidade. Ser rápido na
apuração, contar com a colaboração
de colegas, com fontes boas e confiáveis, pode fazer
a diferença entre dar um “furo” e dar
uma “barriga“. A quem interessa um jornal que
mente, que desinforma? Porque pagar por um jornal assim?
No
verbete Mandato do Leitor, o manual de redação
da Folha de São Paulo lembra que “nas sociedades
de mercado, cada leitor delega ao jornal que assina ou
adquire nas bancas a tarefa de investigar os fatos, recolher
material jornalístico, editá-lo e publicá-lo.
Se o jornal não corresponde às suas exigências,
o leitor suspende esse mandato, rompendo o contrato de
assinatura ou interrompendo a aquisição habitual
nas bancas. A força de um jornal repousa na solidez
e na quantidade de mandatos que lhe são delegados”.
Ética em Códigos - A boa formação
do profissional, seu conceito de princípios morais,
de honestidade e de caráter haverão de fundamentar
as bases de um trabalho profissional bem sucedido, desde
os primeiros dias como “foca”. Na verdade,
até antes, pois já nos bancos acadêmicos
o futuro jornalista vai se revelar um estudante responsável
e sério ou vai tentar atropelar o curso “empurrando
com a barriga” e encontrando sempre um meio de justificar
a prática de “fazer corpo mole”. A ética
faz parte da formação do indivíduo,
mas quando ele falha, por mau-caratismo, então esbarra
na lei, fracassando como profissional, perdendo a confiança
dos leitores, ouvintes, telespectadores.
É difícil preparar uma lista do tipo auto-ajuda
para quem deseja ser ético na imprensa, pois, como
já foi dito, ético é preciso ser o
tempo todo desde que nos entendemos por gente. É natural,
todavia, que os princípios éticos se aprimorem à medida
que o indivíduo adquire conhecimento e formação.
Entretanto, é normal as profissões, em geral,
conduzirem-se por um Código de Ética aprovado
em assembléia da categoria para normatizar as bases
do comportamento aceitável por parte de todos os
membros. No caso da imprensa, há o Código
dos Jornais e o Código dos Jornalistas.
Aprovado
pela Associação Nacional de Jornais-ANJ,
em 1991, o Código de Ética dos Jornais dita
os seguintes preceitos aos jornais afiliados::
1.
Manter sua independência
2.
Sustentar a liberdade de expressão, o funcionamento
sem restrições da imprensa e o livre exercício
da profissão
3.
Apurar e publicar a verdade dos fatos de interesse público, não admitindo que sobre eles prevaleçam
quaisquer interesses
4. Defender os direitos do ser humano, os valores da democracia
representativa e a livre iniciativa
5.
Assegurar o acesso dos seus leitores às diferentes
versões dos fatos e às diversas tendências
de opinião da sociedade
6.
Garantir a publicação de contestações
objetivas das pessoas ou organizações acusadas,
em suas páginas, de atos ilícitos ou comportamentos
condenáveis
7. Preservar o sigilo de suas fontes
8.
Respeitar o direito de cada indivíduo à sua
privacidade, salvo quando esse direito constituir obstáculo à informação
de interesse público.
9.
Diferenciar, de forma identificável pelos leitores,
material editorial e material publicitário
10.
Corrigir erros que tenham sido cometidos em suas edições.
Dados
Históricos - Obrigação de
consciência do homem civilizado, em qualquer comunidade,
a ética tem sido amplamente estudada pela filosofia.
Na Idade Média o conceito de Ética centrava-se
no chamado “homem moral e temente a Deus”.
A priori era ético tudo o que se relacionava com
a salvação da alma.
Depois,
no Século das Luzes (época do Iluminismo,
Séc. XVIII), a filosofia passou a exaltar a capacidade
do homem de conhecer e agir pela “luz da razão”,
não mais pelas explicações religiosas
e transcendentais. Expressão máxima do Iluminismo,
Kant (1724-1804), na Crítica da Razão Prática,
analisa a estrutura do agir e do pensar éticos,
desvendando suas puras formas, independentes de seus possíveis
conteúdos. O princípio fundamental da ética
kantiana repousa no Imperativo Categórico, enunciado
pelo filósofo nos seguintes termos: “ Age
de modo tal que tua máxima possa valer sempre como
princípio de uma legislação universal”.
A partir do indivíduo, o imperativo categórico
fundamentaria uma moral absoluta.
O
Iluminismo, em Kant e demais estudiosos da época,
se contrapõe à fé do período
medieval imposta por intimidação ( Santo
Ofício, fogueiras, cruzadas, isolamento do saber,
poder secular do clero etc). Defende a ciência e
a racionalidade crítica contra a superstição,
o dogma e as imposições religiosas. Contrapõe
a defesa das liberdades individuais e dos direitos do cidadão,
ao autoritarismo e o abuso do poder.
Em
seguida, Marx ( 1818-1883), na sua cosmovisão
do materialismo, mostrou que a moral tem a ver com a justiça
social. No séc. XX, Sartre diz que cada homem é responsável
por toda a humanidade.
Na
verdade, a nova ética não analisa mais
as ações em função de uma hierarquia
de valores dada a priori ( pela moral cristã, por
exemplo), mas sim em vista das conseqüências,
dos resultados da ação política: o
critério para definir o que é moral é o
bem da comunidade, na linha de Maquiavel, considerado o
fundador da ciência política no Séc.
XVI. Segundo ele, o governante deve sacrificar, se preciso,
sua moral individual em função da moral coletiva,
colocando o interesse público acima do interesse
particular. Nos “Comentários sobre a 1ª Década
de Tito Lívio“ , o filósofo florentino
afirma: “Não é o interesse particular
que faz a grandeza dos Estados, mas o interesse coletivo”.
Estamos
chegando ao final do nosso trabalho sobre Jornalismo
Comunitário e muitos se perguntam, então,
o que se deve fazer, na prática, para montar um
jornal.
É o
que veremos a seguir.
3. Como montar seu próprio jornal
Metodologia
do Projeto é uma das matérias
que os estudantes aprendem no curso de Jornalismo da Faculdade
de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp/Bauru.
Em Jornalismo Comunitário ensina-se como projetar,
metodicamente, o jornal de bairro, da pequena cidade, da
associação de moradores etc
Definido
o público e sabendo que vamos trabalhar
com um conceito de comunidade fisicamente reconhecível
e delimitada por um espaço geográfico pequena
cidade, bairro etc) ou por ambiente determinado (escola,
empresa, igreja, sindicato etc), é necessário
estudar o método acadêmico para criação
de um veículo (jornal, rádio, vídeo,
site etc) que atenda às necessidades de comunicação
do público-alvo previsto.
Para
dar praticidade ao projeto, é conveniente
imaginar que ele dependerá de aprovação
por parte de uma comissão de moradores ou de representantes
do público alvo. Se o veículo for “imposto” verticalmente
perderá sua característica comunitária,
tornando-se apenas mais um entre os tantos veículos
que circulam naquele lugar ou naquele ambiente, porém
sem identificação com “aquela” comunidade.
Neste caso não será um veículo que “representa” a
comunidade, que seja o seu porta-voz confiável,
sério, independente.
Porque
desenvolver um método científico
para projetar o veículo comunitário?
A
Universidade é o espaço da reflexão
e a investigação científica é o
processo mais adequado para o estudante se aprofundar na
reflexão sobre o objeto de estudo. Através
do método, o estudante universitário aprende
a propor, observar, experimentar, analisar e tirar conclusões,
desenvolvendo raciocínio crítico em torno
da realidade que vivencia ou na qual pretende atuar, como
profissional: Um profissional que “acrescenta”,
que não é apenas mais um.
Normalmente
os pré-projetos de Comunitário
I preenchem os seguintes itens de pesquisa:
1.
Introdução
2. Problema
3. Justificativa
4. Objetivos
4.1. Geral
4.2.
Específico
5. Meta
5.1. Geral
5.2.
Específica
6.
Hipóteses
7.
Variáveis
8. Âmbito e População
9. Metodologia
10. Cronograma
11. Bibliografia
12. Anexos
Para
responder a estes itens da pesquisa, é necessário
estudar, detalhadamente, o local onde o projeto deverá ser
desenvolvido. Imaginando-se um ambiente aberto como um
bairro ou qualquer outra comunidade, pode-se recorrer às
seguintes etapas propostas em “Como Fazer uma Monografia” ,
do professor Délcio Vieira Salomon ( São
Paulo: Martins Fontes, 1994), partindo de um contato global
para:
1)
demarcação da região
estudada
2)
atividades industriais da região
3)
vida agrícola
4)
intercâmbios; função econômica
da região
5)
vitalidade da população e migração
6)
habitação, urbanismo, ruralismo, equipe
sanitária
7)
rede de distribuição
dos bens de consumo habituais
8)
níveis de vida, gêneros
de vida de estratos sociais
9)
aumento da população
10)
topografia política
Presumindo-se
que já temos uma visão de
conjunto da área onde o projeto será implantado,
pode-se partir para o que Salomon chama de “ Visita
Detalhada”, delimitando-se as grandes zonas: Centro,
bairros, arrabaldes, localidades suburbanas, percurso pelas
ruas principais – comércio, circulação,
tráfego; visitar as zonas periféricas identificando
paisagem, fábricas, ruas, bairros, locais mais característicos
onde se observa maior comodidade e maior miséria;
estudo da natureza das fábricas e sua localização,
visitar ao menos uma fábrica diferente; percorrer
grandes artérias observando aglomeração
e circulação, sobretudo na hora da saída
do trabalho; observar nas zonas suburbanas o grau de dependência
e autonomia da cidade em relação à indústria,
comércio, horticultura, atividades rurais, transporte
coletivo etc; tomar contato com a população
em bares, cafés, restaurantes, logradouros públicos
etc.
Em
seguida, deve-se recorrer aos documentos, que narram
a evolução histórica
do lugar, nas bibliotecas municipais, museus, arquivos
etc.
Outro
detalhe importante consiste em pesquisar a evolução
histórica da população. É o
caso de verificar – tomando-se os últimos
cinco anos – os índices de natalidade, mortalidade,
mortalidade infantil, densidade da população,
pirâmide de idades, emigração-imigração,
distribuição das profissões ( criando
formulários e fichas para coleta desses dados).
O
inventário das instalações fundamentais
deve ser feito em fichas apropriadas, onde serão
anotados dados sobre comunicações, transportes
urbanos, lojas e mercados, fornecimento de água,
eletricidade e gás; redes de esgoto e de saneamento
básico; instalações culturais; instalações
sociais; instalações desportivas; serviços
públicos; instalações religiosas etc
A
vida do bairro pode ser pesquisada através dos
seguintes itens:
1)
Agrupamentos internos do bairro (dimensão geográfica,
agrupamentos homogêneos, agrupamentos de vizinhança,
centros de vizinhança, centro de reunião
de influência, a família, a vida religiosa
).
2)
Agrupamentos que extrapolam o bairro (trabalho, diversões,
transportes, meios de relação social).
3)
Forças e tensões sociais (de ordem social,
entre grupos de idades, ocasionadas por preconceitos, religiosas,
políticas, sindicais).
4)
Particularidades típicas do centro da cidade:
classificação e descrição das
aglomerações.
5)
Avaliações
e necessidades do bairro: Administrativa, social, comercial,
escolar etc.
Se o projeto de comunicação vai ser implantado
em uma pequena cidade, é necessário fazer
uma análise crítica do orçamento:
o orçamento aprovado no fim do ano para o ano seguinte,
o orçamento adicional, autorizações
especiais; documentos executivos; prestação
de contas administrativas; cobrança; dívida
ativa e passiva do município; pessoal; categorias
de aplicação do orçamento; subvenções;
orçamento ordinário e extraordinário.
É preciso estabelecer graus de comparação
com outras cidades do mesmo porte; relacionar as grandes
obras municipais (as realizadas no ano anterior e as projetadas)
e levantar o patrimônio do município. Mas
o fundamental é estar sempre atento ao elemento
humano. Uma cidade não é feita de número
e de pedras. Ela é feita de gente. Gente que quer
ler notícias do seu interesse. No jornal comunitário
mais vale a notícia do buraco enorme que surgiu
na esquina da minha rua que o ataque dos EUA ao Iraque,
que não deve ser ignorado, claro, pois deve ser
explicado aos moradores. Mas a grande imprensa não
vai brigar para que tapem o buraco da esquina porque o
grande jornal nem sabe o nome da minha cidade, quanto mais
o da minha rua ou o meu nome. A equipe do Comunitário
sabe. Esta é a diferença, ainda que o exemplo
pareça um tanto forçado.
Outra
recomendação prática para
quem vai se iniciar como empresário de jornal é se
informar adequadamente para contratar um Contador idôneo.
Durante os anos em que o profissional está envolvido
com a feitura diária do jornal, ele está praticamente
nas mãos do Contador. Se ele for correto, recolherá todos
os impostos corretamente. Do contrário, só vários
anos mais tarde o pequeno empresário ficará sabendo
que a Receita está no seu encalço e o próprio
contador dirá, filosoficamente que “é melhor
um mau acordo ( com a Receita, claro ) do que uma boa demanda”,
e ficará tudo por isto mesmo, pois o jornalista
não terá mais em mãos os recibos para
provar nada...afinal quem cuidava deles era o contador.
Também é conveniente contar com um bom
advogado por perto, pois em muitos lugares viceja, prosperamente,
a indústria das indenizações. Por
interesses vários, algumas pessoas parecem ficar à espreita
de que na edição de cada dia saia alguma
coisa atravessada para tentar um processo de indenização
por danos morais, calúnia ou difamação,
isto quando não se parte para agressões físicas
contra o dono do pequeno jornal.
Na
comunidade, se o empresário de jornal ostentar
algum tipo de prosperidade material, então torna-se
alvo fácil daquilo que as pessoas simples da comunidade,
com muita sabedoria, chamam de “olho grande”...mesmo
tratando-se de pessoa honesta, que trabalha 16 horas ou
mais, até nos finais de semana, para que o jornal
chegue aos leitores, sem interrupção. Mas,
são ossos do ofício. No geral mesmo, fazer
o jornal comunitário ou de pequenas cidades é altamente
gratificante pela possibilidade que se tem de ajudar a
comunidade a crescer culturalmente, politicamente etc.
A
Professora Ana Callado publicou, pela Vozes, em 1985,
um manual
que explica detalhadamente “Como se faz
um Jornal Comunitário”. Ela chama atenção
para a questão dos custos:
“O montante dos recursos necessários para
lançar e sustentar um jornal será determinado
pelo tamanho, pelo tipo de papel usado, pela tiragem (quantidade
de exemplares de cada edição) e pela forma
de impressão que for adotada para o jornal. Esses
quatro fatores estão intimamente ligados. A tiragem é que
deve determinar o tipo de impressão. Quando se vai
começar com um jornal de 200 ou 300 exemplares,
o mimeógrafo ainda é o meio mais adequado.
O formato tem que ser ofício ou meio-ofício,
isto é, uma folha comum de papel ofício dobrada.
Esse pequeno formato foi adotado com sucesso pela Associação
de Moradores de Santa Teresa, no Rio,sendo da maior eficácia
para a comunicação entre os militantes do
bairro. A impressão tipográfica pode ser
mais barata para tiragens entre 300 e 2.000 exemplares.
Para jornais com mais exemplares, o melhor - salvo condições
especiais de preço - é, em geral, o off-set”.