Home
Artigos
Pesquisa
Código de Ética
Tese
Curriculum
Links
E-mail
Capítulo IV

A Experiência de Penápolis

1. Jornal Interior: 18 anos com a Comunidade

A Cidade - Hoje são 50 mil habitantes que enfrentam problemas porque as principais usinas de açúcar da cidade entraram em colapso financeiro levando muitas pequenas empresas (as que geralmente prestam serviços de manutenção às frotas) e muitos plantadores de cana praticamente à falência.

Mas não foi sempre assim. Comecemos do princípio.

Em 1908 o patrimônio de Santa Cruz do Avanhandava recebeu o nome de Penápolis em homenagem ao Presidente da República, Afonso Pena, que partira de Bauru para inaugurar, naquele ano, as estações da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil que já estavam prontas. Os plantadores de café viam na ferrovia a chance de grande desenvolvimento econômico para a região. Por isto estavam agradecidos ao presidente. Ele não chegou até Penápolis, parou em Avanhandava, última estação que estava pronta. Penápolis era a seguinte. Mesmo assim os cafeicultores de Santa Cruz homenagearam o presidente ao recebê-lo na cidade vizinha, informando que ele daria nome ao povoado de mil almas surgido em torno da estação seguinte.

A história da cidade refletiu, em termos econômicos e sociais, a história do Brasil, com exceção do ciclo da mineração. Depois do café veio a Pecuária e, mais tarde, o açúcar. O Brasil conhece a história desses ciclos que geraram acentuada concentração de renda no país. Em Penápolis não foi diferente. Após a expulsão dos índios caingangues à custa de muito derramamento de sangue – tanto de índios como de brancos - foram se firmando as grandes fortunas cafeeiras estimuladas com a chegada dos imigrantes italianos, japoneses, portugueses, sírio-libaneses, espanhóis etc. Muitos já encontraram aqui os parentes que tinham vindo ajudar a implantar os trilhos da ferrovia. Com o baixo preço das terras loteadas por Manuel Bento da Cruz (um advogado originário da Ilha da Madeira, em Portugal, que se tornou prefeito de Penápolis, depois de Bauru no início do Séc. XX) e com a mão de obra barata dos antigos meieiros e agregados, muitos imigrantes fizeram fortuna nos cafezais de Penápolis e da noroeste de São Paulo.

Com o desmatamento sem medida e sem controle, foram surgindo as grandes pastagens que, a partir da quebra do café na década de 30, deram margem à pecuária extensiva, muitas vezes ainda consorciada com o café, o milho, o algodão etc. Também aqui algumas famílias se destacaram com fazendas de sedes colossais, bem instaladas, com vilas de casas para os funcionários. Novamente o poder se concentrou nas mãos de poucos.

Com o ciclo da cana, em meados do século XX, acreditava-se que a necessidade de grandes plantios acabaria democratizando a riqueza, já que todos podiam plantar e vender com segurança. Quando o pro-álcool surgiu, na década de 70, acreditava-se que a produção de álcool seria mais rentável que a de açúcar e que todos ficariam ricos. Realmente, com a crise do petróleo dos anos 70, multiplicaram-se nas ruas de Penápolis as camionetes OKM dos canavieiros e até a polícia passou a ter mais problemas com o grande número de roubo de camionetes em Penápolis.

A principal empresa da cidade, a Usina Campestre, tinha, em sua direção, empresários interessados em arte e cultura, herança do pai, Silvestre Ferraz Egreja, três vezes deputado federal, e da mãe, Almey, que cultivava o gosto pela poesia. Um dos diretores da Usina, José Vianna Egreja, sucedeu o pai como deputado federal eleito pela região na década de 80. Netos de Silvestre Ferraz casaram-se em São Paulo com representantes da aristocracia cafeeira. Outro diretor da Usina, Mário, montou uma empresa de escultura em bronze, sob a coordenação de renomado artista internacional.

Porém, quem mais se destacou na área cultural de Penápolis – a ponto de no Governo Montoro a cidade ter recebido o título de Referência Cultural Regional – foi o diretor Celso Viana Egreja. Ele criou o Museu do Sol, com acervo cedido pela amiga Iracema Arditi, de São Paulo, e passou a estimular o surgimento de novos talentos na pintura ingênua. O Museu se destacou, tornando-se conhecido em todo o país. Seu acervo excursionou por Paris e pela Alemanha. Além do ateliê de pintura, o museu mantinha uma Escola de Música. A cada dois anos, na década de 80, Celso Egreja trazia de São Paulo e de todo o Brasil dezenas de artistas famosos para o Salão de Artes. Também convidava amigos como Arthur Moreira Lima ou Pedrinho Matar, para apresentar-se ao piano na cidade. Trazia orquestras como a de Sylvio Bacarelli para se apresentarem na Praça Dr. Carlos Sampaio Filho, gratuitamente. Durante o carnaval, trazia carnavalescos do Rio de Janeiro para fazer em Penápolis o melhor carnaval do interior paulista, com ricas fantasias e sambas-enredo gravados em discos.

Penápolis era uma festa cultural. A cidade chegou a ter 23 grupos de teatro amador.

O jornal - Foi nesse contexto, em 1º de Maio de 1982, que nasceu o jornal interior, criado por três universitários: Paulo Sérgio Muçouçah (Sociologia-USP), Mário Sergio Vanderley (Comunicação Visual) e Pedro Celso Campos (Jornalismo-UnB), com a colaboração de mais dois amigos que mais tarde também se diplomaram: Joel Pereira Gomes (Direito) e João Carlos Vilas Boas ( Direito).

A idéia era inovar a partir do nome. Por isto o jornal nasceu com inicial minúscula, o que logo causou estranheza. Não seria um jornal “do interior”, mas um jornal moderno situado “no interior”. E “interior” com letras minúsculas em protesto contra a discriminação do governo estadual em relação às prioridades do interior. Era um jornal que nascia com a proposta de ser “profissional e ético, comprometido apenas com os destinos da cidade e com a luta em favor da comunidade penapolense”, conforme o primeiro editorial chamado “Nossa Opinião”.

Com todo o gás de quem está saindo da Universidade para se iniciar no mercado de trabalho e ainda com a ousada iniciativa de optar pelo interior ao invés dos grandes centros (embora Paulo e Mário já tivessem trabalhado em São Paulo e Pedro em Brasília) o grupo logo tratou de inovar nos mínimos detalhes, com retrancas criativas, olho nas matérias, linha fina sob as manchetes etc. Na época a impressão era tipográfica. Dois anos depois, em 1984, o interior assinou convênio com a UPI para participar de uma experiência-piloto e passou a ser o primeiro jornal do interior a publicar o noticiário internacional de cada dia, através de um aparelho de Telex TE-315.

Desde o início, uma das principais preocupações da equipe do jornal foi separar a redação do Departamento Comercial, coisa inédita no interior. Tudo o que se referia a matérias pagas, publicidade, merchandising etc era tratado com o diretor comercial. O objetivo era evitar a mistura que se fazia então, quando o repórter era procurado para publicar anúncios em forma de notícia. Também em relação à prefeitura, toda matéria oficial devia ser repercutida com os moradores dos bairros e com as associações de classe, de modo a não se fazer um jornal oficialista. Em algumas ocasiões, o jornal liderava a comunidade na reivindicação por obras e o diretor acompanhava o prefeito a Brasília e a São Paulo participando das audiências com autoridades em defesa de reivindicações da comunidade. Assim aconteceu com a construção do novo prédio da Caixa Federal, com o asfaltamento da Estrada da Forquilha, com a construção do prédio do Corpo de Bombeiros, com o parcelamento de débitos da previdência quando o ministro era Antonio Brito etc.

Por outro lado, o jornal jamais deixava de acatar sugestões de pauta da população, mesmo as mais críticas. Durante algum tempo, no final da década de 90, o jornal passou a publicar charges para criticar decisões oficiais ou situações locais que prejudicavam a comunidade. Outra iniciativa do jornal foi a criação da Bolsa de Materiais, com a relação de todas as entidades assistenciais do município, suas principais necessidades no momento e o telefone de contato para quem quisesse ajudar. Tratava-se de “organizar” a solidariedade: Muitas vezes uma família ou uma empresa tinha algum material de construção sobrando e uma determinada entidade estava precisando justamente daquele material para uma reforma ou ampliação, então o jornal colocava as duas partes em contato, estimulando a cooperação social.

Um dos destaques do jornal, durante muitos anos, foi a Coluna Radar, assinada pelo diretor Pedro Campos com a intenção de passar pequenas informações e de criticar decisões que feriam os interesses da população. Através dessa coluna denunciava-se a situação de desemprego, fome e miséria existente em alguns bairros da cidade, como na Vila Planalto. Os leitores liam assiduamente a coluna e diariamente entravam em contato com o autor para sugerir novos assuntos. O colunista ligava para as autoridades cobrando resultados de denúncias veiculadas.

Também nos anos 90, já funcionando em sede própria e em off-set, o jornal fez convênio com a Editora Ática e passou a distribuir os livros da literatura brasileira que caiam no vestibular, sorteando-os entre os assinantes.

Em 2000, após 18 anos de bons serviços prestados à comunidade penapolense, com o afastamento do único diretor remanescente, Pedro Campos – cujo trabalho jornalístico foi reconhecido com o título de Cidadão Penapolense conferido pela Câmara Municipal de Penápolis - para dar aulas na Unesp de Bauru, onde fizera o Mestrado em Comunicação entre 1994 e 1997, o jornal foi arrendado e um ano e meio depois foi vendido, circulando, porém, até hoje, em novo endereço, mas com outra linha editorial que não tem nada a ver com os tempos pioneiros dos anos citados e também já com alteração na logomarca, embora mantendo o nome “Interior”, com inicial maiúscula.

A experiência de Penápolis mostrou claramente que é possível fazer um grande jornalismo num pequeno jornal, mesmo com os parcos recursos de uma comunidade do interior e apesar de todas as pressões do poder público municipal. Muitas críticas do jornal repercutiram diretamente no Palácio dos Bandeirantes onde, certa vez, o diretor Pedro Campos foi chamado para, acompanhado do prefeito João Carlos D´Elia e do então deputado e escritor Fernando Morais(PMDB) dar explicações sobre as críticas feitas em Penápolis. No entanto as críticas, construtivas, foram mantidas, apesar do jornal continuar sendo boicotado na distribuição de anúncios do governo estadual. Também na década de 90 o diretor Pedro Campos foi eleito membro do Conselho de Ética da Associação dos Jornais do Interior de São Paulo-Adjori, com reuniões mensais em São Paulo. A luta do jornal, na Adjori, contribuiu com a assinatura da “Carta de Araraquara”, em que o então governador André Franco Montoro prometeu repassar 20% da verba publicitária do Estado para os jornais do interior. Depois de Montoro a carta foi esquecida e os pequenos jornais voltaram a ficar abandonados pelos anúncios do governo estadual que preferia anunciar no asfalto de São Paulo assuntos que só tinham a ver com as lavouras do interior.

O jornal Interior de Penápolis tem uma longa e bonita história que será contada dentro de algum tempo, em outro trabalho de documentação sobre a imprensa do interior paulista. O mais importante, por enquanto, é ressaltar, que tanto os grandes quanto os pequenos jornais precisam trabalhar imbuídos de boa formação ética e moral para que tais produtos de comunicação estejam sempre a serviço dos leitores e de mais ninguém. Nunca é demais falar em ética quanto se trata de uma profissão que tem tanta responsabilidade pública, apesar de pertencer à iniciativa privada.

É o assunto a seguir.

2. Ética para Grandes e Pequenos

Não se concebe jornalismo comunitário ou qualquer outro sem levar em conta os princípios da ética e da moral. A proximidade física entre o emissor da notícia e o receptor dela, no Jornalismo Comunitário, acentua ainda mais a necessidade da boa apuração para que a informação seja sempre verdadeira, completa e desapaixonada.

O que se pretende é que o jornalista seja “o mais isento possível”, pois tem a responsabilidade moral de veicular todas as versões de um mesmo fato, com fidelidade, checando e comprovando as informações que recebe antes de passá-las ao leitor, ouvinte ou telespectador. Por isto é falta de ética, é desonesto, é imoral aceitar qualquer vantagem que possa comprometer o exercício profissional, conforme recomenda, entre outros, o manual da Folha de São Paulo.(São Paulo: Ática, 1994).

Quanto à objetividade, trata-se de ser claro e “sem enrolação” na produção e emissão do texto, em qualquer veículo. Nada muito difícil de explicar para um público receptor cada vez mais exigente quanto à qualidade do discurso jornalístico. Com a acirrada concorrência entre os meios, o receptor optará por outro veículo quando se deparar com textos sem objetividade, confusos, que misturam opinião com informação, que tentam manipular e forçar a “decisão” do receptor por este ou por aquele modo de ver os fatos e as pessoas.

Em regra um jornal – seja do bairro ou da chamada “grande imprensa”, e isto também vale para os meios eletrônicos - deve publicar tudo o que sabe. Mas os manuais orientam que “uma informação pode ser omitida quando o profissional observar, em sã consciência, que sua divulgação pode colocar em risco a segurança pública, ou de uma pessoa, ou de uma empresa”, conforme, ainda, o manual da Folha de São Paulo, por exemplo.

Um dos manuais de redação que mais se preocupam com as questões éticas no jornalismo é o do jornal O Globo, do Rio, editado pela Editora Globo, de São Paulo, em 1993, organizado pelo Editor de Opinião, Luiz Garcia.. Muitas vezes o jornalista comete deslizes éticos mais por falta de orientação do que por predisposição de prejudicar o leitor/ouvinte. Por isto nunca é demais tomar conhecimento do que recomendam os manuais de redação a este respeito. Neste sentido, o capítulo sobre ética do Manual de Redação e Estilo, de O Globo, é útil desde as linhas que introduzem o capítulo:

“As exigências éticas não prejudicam a prática do jornalismo; ao contrário, elevam a qualidade da informação. Pode ser frustrante perder a foto dramática do menino delinqüente ou a saborosa notícia não confirmada da indiscrição do ministro. Mas se a decisão de não publicar isto ou aquilo foi determinada por genuína preocupação ética, não existe prejuízo real: o que se está desprezando é informação ilegítima marcada por sensacionalismo, irresponsabilidade ou manipulação dos fatos. Muitas vezes, a decisão de não publicar resulta da distinção entre interesse público e interesses do público (que podem ser bastante mesquinhos ou vulgares). O que ela jamais pode refletir é covardia ou interesse subalterno que se disfarça de norma ética para fugir ao dever de publicar. Seja como for, ética não é mordaça. O que ela pede não é menos notícia, mas melhor notícia: a informação correta, completa, digna.

A atividade jornalística – além de, obviamente, obedecer às leis do país – tem critérios éticos próprios. É a própria imprensa que, por sentimento de dever e interesse próprio (uma vez que não sobrevive sem a estima e o respeito da coletividade), escolhe suas regras específicas de conduta. Vinda de fora, qualquer outra forma de limitação é censura e agride a liberdade de imprensa.

Todo jornalista, do repórter ao editor, seleciona e dá pesos diferentes aos elementos de informação que passam por suas mãos. Isso é inevitável – pois não há outra maneira de trabalhar – e representa o exercício de considerável poder: o de decidir como determinado aspecto da realidade será apresentado à opinião pública.

A primeira questão ética que se impõe para o jornalista, é aprender a não abusar desse poder. É inaceitável que o processamento da informação seja posto a serviço de fins políticos, ideológicos e pessoais. Mas existe o abuso não deliberado: ninguém consegue despir idéias e sentimentos como quem tira um paletó antes de começar um dia de serviço. Ainda assim, mesmo sabendo que a isenção total é impossível, o jornalista tem que tentar, permanentemente, ser tão isento quanto possível.

O poder da imprensa na sociedade não é mandato dos deuses nem confere prerrogativas especiais ou privilégios a quem o detém. Como acontece em qualquer função socialmente importante, ser jornalista implica muito mais deveres do que direitos; e informar é tanto um dever como um direito. Não faz mal algum ao profissional uma boa dose de humildade; e ele não tem pior conselheira que a arrogância”.

Acima do Bem e do Mal - Essa arrogância de que fala Luiz Garcia é um vício que se instala facilmente entre profissionais que têm o poder de dar este ou aquele enfoque à matéria que vão publicar, provocando, assim, este ou aquele efeito em quem vai ler a informação. Naturalmente é um poder e tanto. É nesse momento que a preocupação ética escapa pelos dedos se não for suficientemente consistente. Considerando-se senhor do Bem e do Mal, o jornalista acaba incorporando o chamado “Complexo de Clark Kent”, tema de um livro escrito por Geraldinho Vieira, em 1991, editado pela Summus, de São Paulo ( “ Complexo de Clark Kent – São super-homens os jornalistas?). A organização da obra inclui entrevistas com personalidades da imprensa, entre elas o então ombudsman da Folha de São Paulo, Caio Túlio Costa, que comenta:

“Há uma mistificação muito grande em torno da figura que a sociedade faz do jornalista e da figura que o jornalista faz de si mesmo e da profissão. O jornalista age como se a história passasse ali pelo seu monitor. Na verdade ele está apenas reportando o que está acontecendo, e muitas vezes reportando mal, com atraso e com deformações – em última análise, até desinformando. Depois de mais de um ano na função de ombudsman deu para perceber que nenhum texto da Folha, eu digo nenhum, resiste ao especialista...Isto mostra o grau de incipiência em que de certa forma vive o jornalismo brasileiro. Acho que este fenômeno é generalizado, não é só na Folha. Acho correta a observação sobre esta idealização que estudantes de Jornalismo, o público e mesmo os profissionais da área fazem: o jornalista se vê como um super-homem, ele se sente como um super-homem. Em determinadas ocasiões isto até ajuda, mas o fato dele se ver constantemente assim pode acabar prejudicando e levando o profissional a fazer certas coisas que sequer estão nos limites de sua profissão”.

A falta de ética no trato com a informação, acaba, em muitos casos, dando razão ao filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), precursor do Existencialismo, que afirmou em 1848: “Se a imprensa diária, tal como acontece com outros grupos profissionais, tivesse de pendurar um letreiro, seus dizeres deveriam ser os seguintes: aqui homens são desmoralizados com a maior rapidez, na maior escala possível e ao preço mais baixo possível”.

A expressão do filósofo foi usada como epígrafe do livro “Caso Escola Base -Os Abusos da Imprensa” (São Paulo: Ática, 1995), em que Alex Ribeiro denuncia, com detalhes, o crime de calúnia, injuria e difamação praticado pelo jornalismo brasileiro ao divulgar denúncias não apuradas nem confirmadas, na Semana Santa de 1994, sobre a Escola de Educação Infantil Base, no bairro da Aclimação, zona sul de São Paulo. As falsas acusações de práticas sexuais na escola destruíram a reputação de seus dirigentes e extinguiram o empreendimento, mas nada se fez para reparar tamanho dano causado por um jornalismo sem ética.

O melhor caminho para um jornalista, quando se vê diante do inusitado, é checar adequadamente a informação. Se não tiver tempo, é melhor perder o furo que praticar um crime de informação. Sem o furo, o jornal perde a notícia em primeira mão e se recupera na edição seguinte. Com a notícia errada, em primeira mão, o jornal perde a credibilidade e leva tempo para recuperá-la.

De qualquer forma, como foi dito no início, a preocupação ética não é uma mordaça, não se trata de noticiar menos, mas de noticiar com mais qualidade. Ser rápido na apuração, contar com a colaboração de colegas, com fontes boas e confiáveis, pode fazer a diferença entre dar um “furo” e dar uma “barriga“. A quem interessa um jornal que mente, que desinforma? Porque pagar por um jornal assim?

No verbete Mandato do Leitor, o manual de redação da Folha de São Paulo lembra que “nas sociedades de mercado, cada leitor delega ao jornal que assina ou adquire nas bancas a tarefa de investigar os fatos, recolher material jornalístico, editá-lo e publicá-lo. Se o jornal não corresponde às suas exigências, o leitor suspende esse mandato, rompendo o contrato de assinatura ou interrompendo a aquisição habitual nas bancas. A força de um jornal repousa na solidez e na quantidade de mandatos que lhe são delegados”.

Ética em Códigos - A boa formação do profissional, seu conceito de princípios morais, de honestidade e de caráter haverão de fundamentar as bases de um trabalho profissional bem sucedido, desde os primeiros dias como “foca”. Na verdade, até antes, pois já nos bancos acadêmicos o futuro jornalista vai se revelar um estudante responsável e sério ou vai tentar atropelar o curso “empurrando com a barriga” e encontrando sempre um meio de justificar a prática de “fazer corpo mole”. A ética faz parte da formação do indivíduo, mas quando ele falha, por mau-caratismo, então esbarra na lei, fracassando como profissional, perdendo a confiança dos leitores, ouvintes, telespectadores.

É difícil preparar uma lista do tipo auto-ajuda para quem deseja ser ético na imprensa, pois, como já foi dito, ético é preciso ser o tempo todo desde que nos entendemos por gente. É natural, todavia, que os princípios éticos se aprimorem à medida que o indivíduo adquire conhecimento e formação.

Entretanto, é normal as profissões, em geral, conduzirem-se por um Código de Ética aprovado em assembléia da categoria para normatizar as bases do comportamento aceitável por parte de todos os membros. No caso da imprensa, há o Código dos Jornais e o Código dos Jornalistas.

Aprovado pela Associação Nacional de Jornais-ANJ, em 1991, o Código de Ética dos Jornais dita os seguintes preceitos aos jornais afiliados::

1. Manter sua independência

2. Sustentar a liberdade de expressão, o funcionamento sem restrições da imprensa e o livre exercício da profissão

3. Apurar e publicar a verdade dos fatos de interesse público, não admitindo que sobre eles prevaleçam quaisquer interesses

4. Defender os direitos do ser humano, os valores da democracia representativa e a livre iniciativa

5. Assegurar o acesso dos seus leitores às diferentes versões dos fatos e às diversas tendências de opinião da sociedade

6. Garantir a publicação de contestações objetivas das pessoas ou organizações acusadas, em suas páginas, de atos ilícitos ou comportamentos condenáveis

7. Preservar o sigilo de suas fontes

8. Respeitar o direito de cada indivíduo à sua privacidade, salvo quando esse direito constituir obstáculo à informação de interesse público.

9. Diferenciar, de forma identificável pelos leitores, material editorial e material publicitário

10. Corrigir erros que tenham sido cometidos em suas edições.

Dados Históricos - Obrigação de consciência do homem civilizado, em qualquer comunidade, a ética tem sido amplamente estudada pela filosofia. Na Idade Média o conceito de Ética centrava-se no chamado “homem moral e temente a Deus”. A priori era ético tudo o que se relacionava com a salvação da alma.

Depois, no Século das Luzes (época do Iluminismo, Séc. XVIII), a filosofia passou a exaltar a capacidade do homem de conhecer e agir pela “luz da razão”, não mais pelas explicações religiosas e transcendentais. Expressão máxima do Iluminismo, Kant (1724-1804), na Crítica da Razão Prática, analisa a estrutura do agir e do pensar éticos, desvendando suas puras formas, independentes de seus possíveis conteúdos. O princípio fundamental da ética kantiana repousa no Imperativo Categórico, enunciado pelo filósofo nos seguintes termos: “ Age de modo tal que tua máxima possa valer sempre como princípio de uma legislação universal”. A partir do indivíduo, o imperativo categórico fundamentaria uma moral absoluta.

O Iluminismo, em Kant e demais estudiosos da época, se contrapõe à fé do período medieval imposta por intimidação ( Santo Ofício, fogueiras, cruzadas, isolamento do saber, poder secular do clero etc). Defende a ciência e a racionalidade crítica contra a superstição, o dogma e as imposições religiosas. Contrapõe a defesa das liberdades individuais e dos direitos do cidadão, ao autoritarismo e o abuso do poder.

Em seguida, Marx ( 1818-1883), na sua cosmovisão do materialismo, mostrou que a moral tem a ver com a justiça social. No séc. XX, Sartre diz que cada homem é responsável por toda a humanidade.

Na verdade, a nova ética não analisa mais as ações em função de uma hierarquia de valores dada a priori ( pela moral cristã, por exemplo), mas sim em vista das conseqüências, dos resultados da ação política: o critério para definir o que é moral é o bem da comunidade, na linha de Maquiavel, considerado o fundador da ciência política no Séc. XVI. Segundo ele, o governante deve sacrificar, se preciso, sua moral individual em função da moral coletiva, colocando o interesse público acima do interesse particular. Nos “Comentários sobre a 1ª Década de Tito Lívio“ , o filósofo florentino afirma: “Não é o interesse particular que faz a grandeza dos Estados, mas o interesse coletivo”.

Estamos chegando ao final do nosso trabalho sobre Jornalismo Comunitário e muitos se perguntam, então, o que se deve fazer, na prática, para montar um jornal.

É o que veremos a seguir.

3. Como montar seu próprio jornal

Metodologia do Projeto é uma das matérias que os estudantes aprendem no curso de Jornalismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp/Bauru. Em Jornalismo Comunitário ensina-se como projetar, metodicamente, o jornal de bairro, da pequena cidade, da associação de moradores etc

Definido o público e sabendo que vamos trabalhar com um conceito de comunidade fisicamente reconhecível e delimitada por um espaço geográfico pequena cidade, bairro etc) ou por ambiente determinado (escola, empresa, igreja, sindicato etc), é necessário estudar o método acadêmico para criação de um veículo (jornal, rádio, vídeo, site etc) que atenda às necessidades de comunicação do público-alvo previsto.

Para dar praticidade ao projeto, é conveniente imaginar que ele dependerá de aprovação por parte de uma comissão de moradores ou de representantes do público alvo. Se o veículo for “imposto” verticalmente perderá sua característica comunitária, tornando-se apenas mais um entre os tantos veículos que circulam naquele lugar ou naquele ambiente, porém sem identificação com “aquela” comunidade. Neste caso não será um veículo que “representa” a comunidade, que seja o seu porta-voz confiável, sério, independente.

Porque desenvolver um método científico para projetar o veículo comunitário?

A Universidade é o espaço da reflexão e a investigação científica é o processo mais adequado para o estudante se aprofundar na reflexão sobre o objeto de estudo. Através do método, o estudante universitário aprende a propor, observar, experimentar, analisar e tirar conclusões, desenvolvendo raciocínio crítico em torno da realidade que vivencia ou na qual pretende atuar, como profissional: Um profissional que “acrescenta”, que não é apenas mais um.

Normalmente os pré-projetos de Comunitário I preenchem os seguintes itens de pesquisa:

1. Introdução

2. Problema

3. Justificativa

4. Objetivos

4.1. Geral

4.2. Específico

5. Meta

5.1. Geral

5.2. Específica

6. Hipóteses

7. Variáveis

8. Âmbito e População

9. Metodologia

10. Cronograma

11. Bibliografia

12. Anexos

Para responder a estes itens da pesquisa, é necessário estudar, detalhadamente, o local onde o projeto deverá ser desenvolvido. Imaginando-se um ambiente aberto como um bairro ou qualquer outra comunidade, pode-se recorrer às seguintes etapas propostas em “Como Fazer uma Monografia” , do professor Délcio Vieira Salomon ( São Paulo: Martins Fontes, 1994), partindo de um contato global para:

1) demarcação da região estudada

2) atividades industriais da região

3) vida agrícola

4) intercâmbios; função econômica da região

5) vitalidade da população e migração

6) habitação, urbanismo, ruralismo, equipe sanitária

7) rede de distribuição dos bens de consumo habituais

8) níveis de vida, gêneros de vida de estratos sociais

9) aumento da população

10) topografia política

Presumindo-se que já temos uma visão de conjunto da área onde o projeto será implantado, pode-se partir para o que Salomon chama de “ Visita Detalhada”, delimitando-se as grandes zonas: Centro, bairros, arrabaldes, localidades suburbanas, percurso pelas ruas principais – comércio, circulação, tráfego; visitar as zonas periféricas identificando paisagem, fábricas, ruas, bairros, locais mais característicos onde se observa maior comodidade e maior miséria; estudo da natureza das fábricas e sua localização, visitar ao menos uma fábrica diferente; percorrer grandes artérias observando aglomeração e circulação, sobretudo na hora da saída do trabalho; observar nas zonas suburbanas o grau de dependência e autonomia da cidade em relação à indústria, comércio, horticultura, atividades rurais, transporte coletivo etc; tomar contato com a população em bares, cafés, restaurantes, logradouros públicos etc.

Em seguida, deve-se recorrer aos documentos, que narram a evolução histórica do lugar, nas bibliotecas municipais, museus, arquivos etc.

Outro detalhe importante consiste em pesquisar a evolução histórica da população. É o caso de verificar – tomando-se os últimos cinco anos – os índices de natalidade, mortalidade, mortalidade infantil, densidade da população, pirâmide de idades, emigração-imigração, distribuição das profissões ( criando formulários e fichas para coleta desses dados).

O inventário das instalações fundamentais deve ser feito em fichas apropriadas, onde serão anotados dados sobre comunicações, transportes urbanos, lojas e mercados, fornecimento de água, eletricidade e gás; redes de esgoto e de saneamento básico; instalações culturais; instalações sociais; instalações desportivas; serviços públicos; instalações religiosas etc

A vida do bairro pode ser pesquisada através dos seguintes itens:

1) Agrupamentos internos do bairro (dimensão geográfica, agrupamentos homogêneos, agrupamentos de vizinhança, centros de vizinhança, centro de reunião de influência, a família, a vida religiosa ).

2) Agrupamentos que extrapolam o bairro (trabalho, diversões, transportes, meios de relação social).

3) Forças e tensões sociais (de ordem social, entre grupos de idades, ocasionadas por preconceitos, religiosas, políticas, sindicais).

4) Particularidades típicas do centro da cidade: classificação e descrição das aglomerações.

5) Avaliações e necessidades do bairro: Administrativa, social, comercial, escolar etc.

Se o projeto de comunicação vai ser implantado em uma pequena cidade, é necessário fazer uma análise crítica do orçamento: o orçamento aprovado no fim do ano para o ano seguinte, o orçamento adicional, autorizações especiais; documentos executivos; prestação de contas administrativas; cobrança; dívida ativa e passiva do município; pessoal; categorias de aplicação do orçamento; subvenções; orçamento ordinário e extraordinário.

É preciso estabelecer graus de comparação com outras cidades do mesmo porte; relacionar as grandes obras municipais (as realizadas no ano anterior e as projetadas) e levantar o patrimônio do município. Mas o fundamental é estar sempre atento ao elemento humano. Uma cidade não é feita de número e de pedras. Ela é feita de gente. Gente que quer ler notícias do seu interesse. No jornal comunitário mais vale a notícia do buraco enorme que surgiu na esquina da minha rua que o ataque dos EUA ao Iraque, que não deve ser ignorado, claro, pois deve ser explicado aos moradores. Mas a grande imprensa não vai brigar para que tapem o buraco da esquina porque o grande jornal nem sabe o nome da minha cidade, quanto mais o da minha rua ou o meu nome. A equipe do Comunitário sabe. Esta é a diferença, ainda que o exemplo pareça um tanto forçado.

Outra recomendação prática para quem vai se iniciar como empresário de jornal é se informar adequadamente para contratar um Contador idôneo. Durante os anos em que o profissional está envolvido com a feitura diária do jornal, ele está praticamente nas mãos do Contador. Se ele for correto, recolherá todos os impostos corretamente. Do contrário, só vários anos mais tarde o pequeno empresário ficará sabendo que a Receita está no seu encalço e o próprio contador dirá, filosoficamente que “é melhor um mau acordo ( com a Receita, claro ) do que uma boa demanda”, e ficará tudo por isto mesmo, pois o jornalista não terá mais em mãos os recibos para provar nada...afinal quem cuidava deles era o contador.

Também é conveniente contar com um bom advogado por perto, pois em muitos lugares viceja, prosperamente, a indústria das indenizações. Por interesses vários, algumas pessoas parecem ficar à espreita de que na edição de cada dia saia alguma coisa atravessada para tentar um processo de indenização por danos morais, calúnia ou difamação, isto quando não se parte para agressões físicas contra o dono do pequeno jornal.

Na comunidade, se o empresário de jornal ostentar algum tipo de prosperidade material, então torna-se alvo fácil daquilo que as pessoas simples da comunidade, com muita sabedoria, chamam de “olho grande”...mesmo tratando-se de pessoa honesta, que trabalha 16 horas ou mais, até nos finais de semana, para que o jornal chegue aos leitores, sem interrupção. Mas, são ossos do ofício. No geral mesmo, fazer o jornal comunitário ou de pequenas cidades é altamente gratificante pela possibilidade que se tem de ajudar a comunidade a crescer culturalmente, politicamente etc.

A Professora Ana Callado publicou, pela Vozes, em 1985, um manual que explica detalhadamente “Como se faz um Jornal Comunitário”. Ela chama atenção para a questão dos custos:

“O montante dos recursos necessários para lançar e sustentar um jornal será determinado pelo tamanho, pelo tipo de papel usado, pela tiragem (quantidade de exemplares de cada edição) e pela forma de impressão que for adotada para o jornal. Esses quatro fatores estão intimamente ligados. A tiragem é que deve determinar o tipo de impressão. Quando se vai começar com um jornal de 200 ou 300 exemplares, o mimeógrafo ainda é o meio mais adequado. O formato tem que ser ofício ou meio-ofício, isto é, uma folha comum de papel ofício dobrada. Esse pequeno formato foi adotado com sucesso pela Associação de Moradores de Santa Teresa, no Rio,sendo da maior eficácia para a comunicação entre os militantes do bairro. A impressão tipográfica pode ser mais barata para tiragens entre 300 e 2.000 exemplares. Para jornais com mais exemplares, o melhor - salvo condições especiais de preço - é, em geral, o off-set”.

Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2003
Coluna Radar - www.ecibernetico.com.br/colunaradar

Site Produzido por Espaço Cibernético Espaço Cibernético