Especialistas
têm demonstrado que
o Brasil teria uma imprensa mais democrática
e mais comprometida com os verdadeiros interesses
do povo se o poder da mídia estivesse
menos concentrado nas mãos de poucas
famílias situadas nas principais metrópoles
do país. Talvez um jornalismo mais
popular – porém não populista – não
precisasse focar com tanta ênfase a
alta economia, aquela que envolve os grandes
investimentos e os mega-negócios,
num país onde o povo não tem
salário nem para chegar até o
final do mês, quanto mais para investir
na Bolsa. Claro que há um segmento
de público à espera desse noticiário
e da orientação que ele proporciona.
Mas não é o grande público.
Este quer saber apenas porque o gás
de cozinha sobe tanto; porque a energia e
o telefone têm tantos reajustes; porque é preciso
pagar tanto imposto embutido no preço
do feijão e dos alimentos em geral.
Trata-se, portanto, não apenas de
divulgar os aumentos mas de explicar porque
eles estão acontecendo, se é por
causa da entressafra, ou por causa da seca,
ou do excesso de chuva, ou mesmo da elevação
do dólar, ou das pressões corporativas
do setor (como se dá nos postos de
gasolina quando a Petrobrás autoriza
novos preços) porém, sempre
sob a ótica do povo, com palavras
que o povo possa entender, sem “economês” como
se todos fôssemos ilustres membros
da elite nacional, como se todos morássemos
na Av. Paulista. O noticiário econômico é apenas
um sintoma do apego da imprensa brasileira às
elites. Também pertencem às
elites as grandes cadeias de empreendimentos
industriais, comerciais e de serviço.
Portanto, através das agências
de publicidade, a elite manipula o noticiário
e impede que se publiquem informações
de interesse público que possam contrariar
os seus negócios. Quanto mais fraco
o jornal, mais forte a pressão dos
anunciantes. Outra característica
já apontada neste trabalho é a
forte tendência de ser uma “imprensa
chapa-branca”, sempre com o pires na
mão para que, através de áulicos
editoriais, consiga as benesses do poder.
No
pequeno jornal essas características
estão todas presentes. Não
basta o país ter mil jornais no interior.
Poderia ter a metade e eles teriam mais efeito
se fossem realmente livres, soberanos, independentes,
a serviço do coletivo e não
de grupos, de prefeitos, de deputados, de
vereadores, de empresários gananciosos
interessados em faturar concorrências
públicas etc.
Entre
os pequenos jornais, há dois
tipos principais. O jornal comercialmente
instalado, dentro dos parâmetros da
Lei 5.250, a Lei de Imprensa, devidamente
registrados em cartório, com inscrição
no Ministério da Fazenda, contador,
jornalista responsável etc. Podem
ser jornais de tiragens médias, situados
em cidades acima de 100 mil habitantes, mas
também podem ser minúsculos
jornais que rodam até 500 exemplares
com impressora off-set alugada, ostentando
recursos de Internet e toda a parafernália
da informática – como sites,
câmaras digitais, celulares, plotadoras
etc – tanto na captação
como na produção do noticiário.
Em cidades de 50 mil habitantes, como Penápolis,
a 500 quilômetros de São Paulo,
existem jornais assim, onde o noticiário
da Prefeitura e da Câmara chega diariamente às
redações via Internet, devidamente
pronto para ser publicado.
Outro
tipo de pequeno jornal, é o
jornal Comunitário, que existe em
função de uma comunidade, geralmente
sem fins lucrativos, arrecadando apenas os
recursos necessários a cobrir os custos,
destinado a lutar em favor da comunidade.
Quando feito com seriedade, esse jornal não
tem dono – se assim se pode dizer.
A pauta nasce de reuniões com os moradores,
os problemas são resolvidos pelo Conselho
da Comunidade. Não se pode aceitar
verbas de um político ou de um candidato
que depois venha a usar a comunidade em benefício
próprio. Quem manda na linha editorial é o
povo. O Brasil precisaria ter mais jornais
assim, com liberdade para dizerem o que pensam
porque não estão submetidos
a nenhuma canga de prefeito, de político,
ou de empresário.
O
jornal comunitário tanto pode
circular no bairro, como na fábrica,
na escola etc.
Alguns
fazem confusão com Jornal
Especializado. Mas não há motivo
para confusão. Basta lembrar que o
Especializado trata de temas específicos
de uma determinada categoria social. Assim,
o jornal ou a revista especializada em assuntos
odontológicos poderá circular
por todo o Estado e até pelo país.
Mas jamais será um veículo
comunitário, mesmo quando se dirige à “comunidade
dos dentistas brasileiros”, porque
neste caso o termo comunidade é tomado
em outro sentido, isto é, pessoas
que comungam dos mesmos assuntos. Pode ser
a Comunidade Católica (ou Judaica
ou outra qualquer) Brasileira ou Universal,
a Comunidade Islâmica, a Comunidade
Médica etc.
O
sentido que se aplica ao termo para Jornalismo
Comunitário, é o sentido de “comum-unidade”,
isto é, pessoas que vivem em determinado
local, que vivenciam problemas específicos,
que têm lutas em comum a serem travadas
e vencidas. Refere-se ao convício
das pessoas em determinada unidade geográfica
que pode ser um ambiente interno ( escola,
fábrica etc) ou externo ( rua, bairro,
quarteirão etc).
Mesmo
que essa diferenciação
de sentidos não apresente muita razão
de ser, o certo é que não se
pode confundir Jornalismo Especializado (ou
Temático) com Jornalismo Comunitário.
É importante traçar esse paralelo
porque os públicos são diferentes.
O Especializado vai girar, principalmente,
em torno de um tema especificamente destinado à categoria
tal. Já o comunitário vai ser
um jornal de conteúdo variado, que procura
não apenas refletir as questões
locais, mas que também busca traduzir
para a comunidade os fatos do país e
do mundo. É um jornalismo que fala diretamente
ao coração das pessoas, sempre
com palavras simples, capaz de jamais se enganar
sobre os nomes das pessoas do local, por exemplo. É uma
linguagem preferencialmente coloquial, quase
intimista, bem diferente do formalismo próprio
do Especializado. Todos devem ser ouvidos com
respeito, com carinho, com atenção,
mesmo quando não saibam se expressar
direito. Já no Especializado o repórter
conversará com especialistas em cada
matéria abordada, pois o produto vai
ser consumido por um público altamente
esclarecido sobre o tema daquela edição.
Na verdade, o verdadeiro jornalismo comunitário – seja
no impressos, seja nas Rádios Comunitárias – faz
diariamente uma troca de idéias com
as pessoas. Assim a comunidade vai crescendo
em organização, em consciência
política, na compreensão da realidade,
valorizando-se como cidadãs e aprendendo
a olhar o mundo com outros olhos, com um olhar
crítico e participativo, não
com um olhar cabisbaixo e alienado. Assim se
constrói um país soberano e livre.
Mas
seria preciso que essa idéia
fosse inculcada nos estudantes de jornalismo
como um verdadeiro sacerdócio. No
entanto, o que se vê é que alguns
cursos de Comunicação Social
estão extinguindo a disciplina “Jornalismo
Comunitário”, substituindo-a
por Jornalismo Especializado, como se fosse
a mesma coisa, ou por Jornalismo Online que
está na moda. Também esse é um
modo de valorizar a vocação
elitista da nossa imprensa, cortando o atalho
da comunicação popular e formando
apenas os futuros ases da Globo, os repórteres
especializados na cobertura da Bolsa de Valores
e na participação em entrevistas
ministeriais ou palacianas.
Os
futuros jornalistas têm mercado
de trabalho farto e abundando tanto nos jornais
do interior formalmente estabelecidos, como
nos pequenos jornais comunitários
que faturam apenas para pagar as despesas
(inclusive com os profissionais que os fazem).
Por enquanto, é o mercado formal – isto é,
os jornais comercialmente estruturados, mesmo
que pequenos e circulando em pequenas cidades – que
mais tem espaço para os novos profissionais.
Por isto vamos refletir um pouco mais sobre
esse segmento da imprensa brasileira, geralmente
representado em cada estado pela respectiva “Associação
de Jornais do Interior” e, nacionalmente,
pela Associação Brasileira
de Jornais do Interior, com sede em Brasília.
Podemos dar um nome a esta reflexão: “O
papel do jornal no Interior”.
Em
1992, a acadêmica Isabel Siqueira
Travancas aproveitou sua dissertação
de mestrado para fazer uma pesquisa sobre
o modo de vida dos jornalistas, entrevistando
dezenas de profissionais no Rio de Janeiro.
O resultado foi “O Mundo dos Jornalistas” (
São Paulo: Summus, 1992), hoje obrigatório
para todos os estudantes de jornalismo.
Nas
páginas 88/89 ela descreve que
o sonho de todo jornalista dos grandes centros
urbanos é “ser dono de um jornal”,
ou ter um bar, para “se libertar do
esquema empresarial dos grandes jornais e
do próprio anonimato”. Uma jornalista
entrevistada pela pesquisadora disse que
gostaria de montar o seu próprio negócio,
sem patrão, no esquema de cooperativa,
para fazer algo criativo e que dê dinheiro
também. “ Não ter patrão
e possuir um negócio seu parecem palavras-chave
para entender o imaginário deste grupo”,
diz Isabel referindo-se aos profissionais
mais jovens.
Depois
de constatar que “o jornalismo é uma
profissão que se aprende nas redações,
na prática”, Isabel Siqueira
Travancas constata, em sua pesquisa, que “outro
ponto importante a enfatizar é que
a grande maioria dos órgãos
de comunicação do país
são empresas privadas com fins lucrativos.
São poucas as estações
de rádio ou canais de televisão
do Estado. Isso
também demonstra que o jornalismo
se desenvolveu junto com a sociedade e dentro
dela, sendo o jornal um produto de consumo.
Raros são os jornais de cooperativa,
sem fins lucrativos ou com empregados que
trabalhem principalmente por amor à arte.
O jornalismo hoje faz parte da sociedade
capitalista, e o jornalista é uma
peça importante dessa engrenagem que
produz notícias”.
Essa
transformação do jornal
do século XIX – voltado para
a defesa dos costumes, as virtudes morais
e sociais, a publicação de
novelas, extratos de história, resumo
de viagens, trechos de autores clássicos
e anedotas – para o jornalismo de mentalidade
empresarial do século XX, começando
já em torno de 1875, foi observada
por outra pesquisadora da USP, Cremilda Medina,
em “Notícia – Um Produto à Venda
( São Paulo: Summus, 1988). Segundo
ela “as grandes agências de notícia
se encarregaram de implantar internacionalmente,
após a II Guerra, o modelo de consumo
norte-americano – a notícia
como um produto de venda no mercado urbano
e industrial”.
Cremilda critica a falta de maturidade e de
conhecimento histórico do jornalista
brasileiro: “ ...assim como o brasileiro
alfabetizado médio, também o
produtor de informação não
pesquisa a história de sua cultura,
a história de seu povo, a história
da sociedade em que está inserido como
canal e agente de comunicação”.
Aqui
chegamos ao ponto da lição
que dá título ao tema de hoje:
Jornal do Interior.
O
interior do Brasil conta com mais de mil
jornais diários, semanais, bi-semanais,
tri-semanais, quinzenais e mensais. O estado
que mais concentra esse tipo de jornalismo é São
Paulo, com mais de 500 jornais, quase um
por município. São jornais
que circulam em todo tipo de comunidade,
mesmo em cidades de 5 mil ou 50 mil habitantes
em média, constituindo, inclusive,
amplo mercado de trabalho para os estudantes
de comunicação, principalmente
com a legalização do estágio
em jornalismo, daí a oportunidade
de olhar mais de perto para este segmento,
tendo em vista a saturação
dos grandes meios de comunicação
voltados para políticas de enxugamento
de custos que sempre resultam em dispensa
de profissionais optando-se pela terceirização
( produção independente ) ou
pelo free-lancer, que não envolve
encargos trabalhistas. Segundo o Sindicato
dos Jornalistas do Estado de São Paulo,
o trabalho dos free-lancers é uma
verdadeira aberração na capital
paulista: eles vão à redação
diariamente, lá têm uma mesa
com telefone, micro etc mas não têm
qualquer vínculo com a empresa...ou
aceitam essa situação humilhante
ou ficam desempregados, caso não consigam
abrir o próprio negócio, muitas
vezes na forma de assessoria de imprensa
independente.
Assim,
tentar refúgio em jornais
de porte médio do interior é sempre
uma saída possível, apesar
dos baixos salários. No interior de
São Paulo há 436 jornais filiados à Associação
dos Jornais do Interior. Segundo essa entidade,
54% dos leitores de jornal, no interior paulista,
lêem somente o jornal da sua cidade,
contra 11% que só lêem jornais
da Capital. Entre os leitores, 35% são
assinantes de jornais da Capital e também
do local. A Adjori também informa
que a tiragem média dos jornais do
interior paulista é de 3.900 exemplares
e faz as seguintes contas em seu Anuário
de 1998: “Considerando-se as tiragens
dos jornais Folha e Estado, da Capital, e
dividindo-se pelos 625 municípios
paulistas, a distribuição média
em cada município seria de 353 e 228
exemplares, respectivamente. Porém,
a maior parte da tiragem de ambos (51%) é destinada
ao público da Capital. Dos 49% restantes,
30% são destinados ao interior e 19%
vão para outras Capitais e para cidades
do interior de outros Estados. Assim, conclui-se
que a tiragem de um jornal do interior paulista,
na sua própria cidade, é 11,04
vezes maior que o da Folha e 17,10 vezes
maior que a do Estado”.
Esse
crescimento dos pequenos jornais estaria
diretamente ligado ao poder econômico
do interior paulista que tem taxas de crescimento
e indicadores sociais comparados aos de países
desenvolvidos. Por exemplo: 21% da produção
industrial do Estado; 51,6% da receita do
comércio; 11,9% das famílias
com renda do tipo classe A; 2,2 de cada dez
eleitores paulistas; eleitorado equivalente à soma
de 10 estados brasileiros; consumo de 15%
de toda a produção brasileira;
oito diretorias exclusivas do maior banco
particular do país etc, conforme dados
publicados no citado anuário.
Em
4 de junho de 2.000, a Organização
Mundial de Saúde divulgou, em Genebra,
uma nova forma de calcular a expectativa
de vida que considera o estado de saúde
da população e os anos de incapacidade,
ao invés de contabilizar apenas a
idade da morte. Os dados mostram que o Brasil é um
país nitidamente dividido entre norte
e sul, com regiões como o Estado de
São Paulo, onde os índices
se equiparam aos 20 países mais saudáveis,
em que a expectativa de vida oscila de 70,5
anos (Finlândia) a 74,5 anos (Japão),
contra 59,1 anos da média nacional.
Levando-se em conta o contingente populacional
do interior paulista em relação à Grande
São Paulo, percebe-se porque tantos
paulistanos procuram o interior para morar,
em busca de melhor qualidade de vida.
E é no interior de São
Paulo que situa-se o curso de Jornalismo
da Unesp.
Portanto, é oportuno
estudar esse segmento empresarial e profissional.
Como é ser
jornalista no interior?
Antes
de mais nada é preciso conhecer
de perto esse mercado ainda dominado por
muito aventureirismo empresarial, o que leva
alguns meios acadêmicos a se distanciarem
dele ao confundirem tal atividade com pura
e simples “picaretagem”, isto é,
um jornalismo voltado apenas para o faturamento,
sem distinção entre notícia
e matéria paga, resultando em baixa
credibilidade diante do público, principalmente
por causa das influências políticas,
partidárias, econômicas, religiosas
etc.
Mas
as novas tecnologias estão mudando
esse segmento. Pressionados pelos leitores – que
estão cada vez mais exigentes à medida
que podem confrontar o “jornalzinho” da
cidade com outros jornais que chegam de fora
e mesmo com o conteúdo noticioso da
TV aberta, da TV por assinatura, do rádio
e da Internet - os jornais do interior estão
se modernizando e se organizando. Muitos
já estão associados à Associação
Nacional de Jornais que, por sua vez, é filiada à Associação
Mundial de Jornais, tendo um código
de ética próprio e até verificação
de circulação. Os pequenos
fazem parte da Associação dos
Jornais do Interior (com sede em cada estado
) e da Associação Brasileira
de Jornais (com sede em Brasília).
Há também a Associação
dos Jornais de Bairro e a Associação
Brasileira de Veículos de Comunicação,
além do Sindicato dos Proprietários
de Jornais. A maioria dessas entidades conta
com sites na Internet.
Os
próprios jornais estão
conectados na rede porque a maioria opera
em off-set, portanto com o uso regular do
computador, restando ainda alguns, mesmo
no Estado de São Paulo, que trabalham
no antigo sistema de chumbo e linotipia.
A
mesma classificação de
empresas capitalistas que as pesquisadoras
Cremilda Medina (em 1988) e Isabel S. Travancas
(em 1992) atribuem aos jornais brasileiros
deve ser atribuída, naturalmente,
aos jornais do interior. Eles vivenciam uma
experiência empresarial, com a característica
de serem menores, num público menor,
onde as pressões são maiores
e mais diretas, tanto por parte dos leitores
como dos anunciantes.
Sob
este aspecto, ser dono de jornal não é o “mar
de rosas” sonhado pelos repórteres
dos grandes centros que Isabel Travancas
entrevistou. Muitas vezes resulta em terríveis
dores de cabeça, principalmente quando
o jornalista-empresário pretende se
manter incorruptível, sem ceder a
este ou aquele grupo da comunidade, buscando
servir apenas, e o mais imparcialmente possível,
aos seus leitores.
A
primeira grande dificuldade de quem decide
montar o próprio jornal, em pequenas
comunidades, é separar Jornalismo
e Publicidade. Embora difícil, este é um
passo importante e decisivo para dar ao noticiário
do jornal uma linha de independência
a serviço da comunidade. Havendo esta
separação física e clara
entre uma e outra atividade, com pessoas
diferentes para cada atividade, será possível
preservar, de algum modo, a soberania da
cobertura jornalística. Para ter bom
resultado, o jornal do interior precisa ter êxito,
primeiro, nessa divisão de trabalho,
isto é, necessita de um profissional
que consiga, honestamente, carrear publicidade
para as páginas do jornal e de um
corpo de jornalistas interessados em fazer
jornalismo para atender prioritariamente à comunidade.
Do contrário o que se terá é um
jornal destinado apenas a apoiar um partido,
uma empresa, um grupo político, o
prefeito, uma denominação religiosa
etc, sendo, portanto, não um jornal
para a comunidade, mas um jornal partidário
ou de grupo, afinal, um jornal parcial, aí sim
muito próximo da picaretagem que só degrada
a profissão.
Por
isto, ao buscar mercado de trabalho no
interior, o estudante de comunicação
que deseja fazer uma carreira séria,
procura se informar sobre a base de sustentação
econômica do jornal para saber até onde
poderá exercer seu ofício com
liberdade, pelo menos nos níveis de
liberdade consentida nos jornais de expressão,
já que o Código de Ética
e a Lei de Imprensa valem para todos que
exercem o jornalismo, independentemente da
tiragem. As penas da Lei de Imprensa não
são atenuadas para quem exerce o jornalismo
em pequenas comunidades. Portanto, as responsabilidades
são iguais.
Naturalmente,
os salários são
menores. O próprio Sindicato dos Jornalistas
do Estado de São Paulo tem um piso
menor para os profissionais do interior.
Mas há compensações
em viver no interior. O risco é trocar
o salário de R$ 10 mil em São
Paulo ou em Brasília pela tentação
de ser dono do próprio negócio
no interior sem verificar, antes, como será a
sustentação econômica
da empresa.
Geralmente,
nas cidades com cerca de 50 mil habitantes,
o principal cliente do jornal é a
prefeitura. Em muitos casos essa dependência
cria uma vinculação excessiva
entre o jornal e o poder público municipal,
de modo que o leitor vai encontrar nas páginas
do jornal não o noticiário
sobre a cidade, mas o noticiário sobre
a administração municipal.
Já há cidades no interior de
São Paulo onde os releases municipais
da prefeitura, Câmara e autarquias
chegam aos jornais locais e regionais via
Internet. E o mesmo ocorre com os atos oficiais
para o veículo vencedor da concorrência
pública. Por isto, por comodidade
e para reduzir custos, o jornal acaba dando
vazão a todos os releases disponíveis
no computador ao invés de pagar repórteres
para irem atrás de fatos novos que,
muitas vezes, interessam à comunidade
mas desagradam à prefeitura. Quando
há substituição do partido
ou da coligação partidária
no poder, o jornal muda apenas os nomes dos
novos donos do poder, mas o estilo de trabalho
continua o mesmo, sempre privilegiando a
visão oficial e esquecendo-se da principal
razão de ser de qualquer jornal digno
do nome que é o leitor, a comunidade,
a coletividade.
Ficar preso à prefeitura é o
pior mundo possível para um jornal que
quer ter uma atuação comunitária
porque ao fazer acordo para publicação
de atos oficiais e notícias prontas
da prefeitura, o jornal acaba vendendo a própria
alma e perde a independência para tratar
da vasta gama de assuntos que interessam à comunidade.
Há profissionais éticos que preferem
perder o emprego ou até o próprio
negócio – se donos - quando o
jornal envereda por caminhos tão perigosos.
O
melhor rumo para um jornal pequeno é seguir
o mesmo plano do grande jornal: Lutar para
manter e ampliar sempre sua base de assinantes,
de modo a ser financiado pelo único
patrão que merece ser bem servido
no jornalismo ético: o leitor. Isto
exige bom planejamento administrativo na
estratégia de relacionamento com os
assinantes velhos e novos e bom produto final
porque o leitor dará preferência
ao jornal bem feito, sério, isento,
independente, que está a serviço
da comunidade e não deste ou daquele
grupo de poder.
Sob
este ponto de vista, teremos jornais “de
comunidade” (voltados para a comunidade
) e jornais “comunitários”.
Neste último caso trata-se do jornal
feito pelos próprios moradores do
bairro ou da vila, sem fins lucrativos, como
num mutirão, onde a linha editorial é discutida
pelos representantes da comunidade, sendo
o jornal um produto coletivo para a coletividade.
No primeiro caso, trata-se de um jornal com
proprietário identificado, que administra
e cuida do jornal, porém aberto a
todos, democraticamente, zelando pela ética,
evitando prender-se a grupos, colocando-se
inteiramente a serviço dos leitores
e apenas deles dependendo para continuar
circulando, bem como de anunciantes médios
que não interfiram na linha editorial.
Outro modelo é o jornal mantido por
uma entidade – como uma universidade,
por exemplo – em que não há interferência
editorial, sendo o objetivo maior servir à comunidade.
Em
seguida vamos discutir o conteúdo
dos jornais do interior.
Jornalismo “segura peão!” -
Engana-se totalmente quem imagina que jornalismo
no interior é só festa. Muitos
acham que o repórter do interior não
faz outra coisa senão cobrir festa
de rodeio, churrasco do prefeito e inauguração
de obras municipais.
Até os pequenos jornais estão
se estruturando em modos profissionais e
empresariais. Os antigos jornais de família,
fundados por um advogado, um professor, um
militar aposentado etc vão cedendo
espaço a organizações
empresariais que já optam até mesmo
pela terceirização, além
de assinarem serviços noticiosos e
de receberem colunas diárias pela
Internet.
Quem
tem uma idéia na cabeça
e um computador na mão não
precisa, necessariamente, fazer um “jornal
de roça”. Se fizer, não
terá leitores. Se tiver, perderá em
pouco tempo. Se o leitor está se atualizando,
movido pelos processos inerentes à Globalização,
não resta outra saída às
empresas de comunicação senão
seguir a toada. A maioria já compreende
o conceito de “globalização
local”, isto é, de realizar
na comunidade a integração
que se verifica a nível global entre
os países. Trata-se, pois, de valorizar
os fatos locais, a história local,
as pessoas do lugar, sem perder de vista
o que passa pelo mundo (pleonasticamente
) globalizado.
Muitos
autores mostram que longe de desaparecer
diante da enxurrada de notícias do
mundo globalizado que chega por todos os
lados e da forma mais “on line” (se é que
se pode usar tal palavra como sinônimo
de concomitante para significar “enquanto
o fato está acontecendo” ou “momentos
após ele ter acontecido” ),
os jornais de comunidade tendem a crescer
de importância pois é para ele
e para os demais veículos sérios
do lugar, que a comunidade se volta como
náufraga do mar global de notícias
em busca de referência, de ponto de
apoio, de reconhecimento da própria
identidade. No jornal da cidade ou na emissora
de rádio local, o receptor sabe que
seu nome não vai sair errado e só ali
ele ficará sabendo que o trânsito
da rua da sua casa vai mudar de mão.
Isto não seria possível no
grande jornal globalizado que chega pelo
correio às 10h.
O
jornal do interior como “leitura
local” será sempre insubstituível
como marco referencial da comunidade, cabendo
aos jornais regionais ou mesmo aos jornais
dos grandes centros, o papel secundário
de “segunda leitura”, exatamente
por causa da absoluta necessidade de identificação
entre emissor e receptor, característica
acentuada do jornal de comunidade. À medida
que se colocar a serviço da comunidade
para lutar pelas causas coletivas, à medida
que tiver a comunidade como sua única
referência e preocupação,
o jornal do interior conquistará prestígio
e respeito, cabendo-lhe, depois, zelar por
esse patrimônio com a responsabilidade
e o equilíbrio de seu noticiário.
Ao profissional desse tipo de jornal caberá reconhecer
a importância social que a comunidade
lhe atribui, mas, ao mesmo tempo, exercer
seu trabalho com ética e humildade,
sem jamais se deixar levar pela tentação
de tirar proveito pessoal do seu status.
Os que agem com seriedade ficam na memória
histórica da cidade, os que traem
a confiança da comunidade são
execrados e esquecidos para sempre.
A
carreira de muitos jornalistas de renome
começou no pequeno jornal do interior
e isto prova que em qualquer lugar há espaço
para a ética, a seriedade, a competência,
o texto bem apurado, a interpretação
adequada do fato. Afinal, jornalista do interior
também acessa o Observatório
da Imprensa na Internet e está passando
o tempo em que esse ofício era apenas
uma atividade caricata ou folclórica
no interiorzão do país, nos “grotões” citados
por Ulisses Guimarães.
Grande
número de pequenos jornais
do interior também já possui
portais na Internet, com atualização
durante o dia. Os repórteres já trabalham
com câmaras digitais gravando as fotos
em disquete e descarregando a imagem direto
no computador. Os repórteres, entre
uma cobertura e outra, são acionados
pelo celular. O mais curioso e inusitado é que,
apesar de estarem no interior, esses jornais
falam pouco ou quase nada da área
rural. Quando muito noticiam o início
da safra nas usinas de açúcar
e álcool ou a construção
de pontes nos chamados “bairros rurais”.
Na verdade são jornais que procuram “substituir” a
segunda-leitura, isto é, tentam evitar
que o assinante seja obrigado a assinar o
jornal do grande centro, bem mais caro, para
ficar bem informado, daí a publicação
de páginas com assuntos nacionais
e internacionais ao invés de se dedicar
espaço para os assuntos da zona rural.
Outra
explicação seria o
acentuado processo de urbanização
que tirou o homem do campo a partir das décadas
de 50 e 60 conforme dados do IBGE, não
havendo público para ler o jornal
na zona rural, além de ser mais difícil
a cobertura e a distribuição
posterior do jornal. O pensamento que norteia
estes veículos e que lhes dá uma
tonalidade urbana apesar de estarem no interior, é que
os donos de sítios e fazendas que
ainda exploram atividades rurais, na verdade,
vivem e moram nas pequenas cidades onde o
jornal circula. Daí a preocupação
em encerrar a distribuição
do jornal diário antes das sete horas
da manhã, antes que o leitor pegue
sua camioneta para ir trabalhar.
Outro
fenômeno “urbano” dos
jornais do interior é o sistema de
impressão a cores que está chegando
rapidamente às cidades de 100 mil
habitantes, provocando o surgimento de novos
cadernos que, naturalmente, exigem profissionais
especializados, apesar de boa parte do material,
tipo matéria-fria, ser fornecido pelas
agências de notícia. A maioria
desses jornais estrutura suas páginas
de modo semelhante à diagramação
dos grandes jornais, com primeira página
bem desenhada onde ficam as chamadas para
as páginas de dentro, sempre divididas
com material opinativo na página 2
e material local a partir da página
3, seguindo o noticiário nacional
e internacional, a página de lazer
com roteiro de filmes, novelas, horóscopo
etc, os classificados e o segundo caderno,
num total de 24 páginas aproximadamente.
Nas pequenas cidades, com cerca de 50 mil
habitantes, o número de páginas é de
apenas 10, em média, para os diários
e um pouco mais para os semanários.
Na
esteira do crescimento dos pequenos jornais
estão surgindo inúmeros
cursos de formação universitária,
embora englobando, ainda, profissões
assemelhadas como Jornalismo, Publicidade,
Relações Públicas e
até Turismo. Por sinal, o turismo
e a ecologia são temas que estão
ganhando espaço no interior, principalmente
aqui no interior de São Paulo, com
o surgimento dos grandes lagos formados pelas
hidrelétricas da CESP no Rio Tietê e
com o crescimento do turismo rural que aproveita
ambientes propícios de antigas fazendas.
Portanto,
quem olha dos grandes centros para o jornalismo
do interior, não
deve imaginar que os colegas “do campo” praticam
um “jornalismo de caverna”, a
não ser que se trate da “caverna
digital” que acaba isolando os “produtores
independentes” em casa (temerosos da
insegurança e do trânsito das
megalópoles) como observa Ciro Marcondes
Filho (“Jornalismo Fin-de-Siècle”.
São Paulo: Scritta, 1993) e os jornalistas
na redação, “apurando” pelo
telefone , como observa Alberto Dines (“O
Papel do Jornal”. São Paulo:
Summus, 1986).
Fazer “jornal de verdade” independentemente
do veículo circular na Av. Paulista
ou em Penápolis, é um desafio
que se impõe aos novos jornalistas
que ingressam num mercado altamente desenvolvido
do ponto de vista tecnológico. Mas
jornal de verdade não se faz apenas
usando os mesmos recursos de informática
que se usam em Tóquio, Paris ou Nova
Iorque, mas produzindo um jornal sério,
independente, bem escrito, bem diagramado.
Alberto
Dines (1986) destaca o que significa ser “independente” para
um jornal:
-Um
grande jornal deve comportar-se sempre
como se fosse um pequeno jornal. Não
apenas por uma questão de humildade,
mas também em função
da preservação de seus princípios.
Toda vez que um dirigente de jornal, ou alguém
do escalão que o represente, disser,
em tom de desculpa, “afinal, há grandes
interesses em jogo...”, significa que
estamos num grande jornal que já se
esqueceu dos dias em que foi pequeno”.
Apesar
do jornal do interior visar lucro como
qualquer outra empresa, ele não é uma
empresa qualquer. Se tentar ser, isto é,
se o seu objetivo for somente o lucro, então
será uma “picaretagem” a
mais, sem credibilidade, uma empresa que
usa o nome de jornal mas que também
poderia se chamar catálogo, folheto,
lista de palavras ou qualquer coisa assim.
Para ter o direito de ser chamado de “jornalzinho” (não
no sentido pejorativo, mas na conotação
de cálido, próximo da gente,
gente de casa – como se fosse um amigo
ou um irmão mais velho em quem a gente
confia com segurança) o pequeno jornal
do interior precisa ser grande como os maiores
títulos do mundo em ética,
boa apuração, bom texto, isenção
e independência.
Dines
também lembra que em qualquer
lugar do mundo “o único compromisso
de jornais e jornalistas é com a informação.
Seu empenho nesta tarefa faz, de um jornal
qualquer, um jornal livre, logo um grande
jornal. Uma nação de grandes
jornais é uma grande nação.
Sem este valor intrínseco, sem este
quilate que advém de um entendimento
superior das suas funções,
um jornal, por melhor que seja organizado
e construído, será apenas um
catálogo de notícias”.
2. Instrumento de Transformação
Social
Por
suas características peculiares,
o jornal voltado para comunidades específicas
deve ser, naturalmente, um instrumento de
transformação social, sem o
que não faz sentido. Para tanto, o
profissional deve trabalhar sempre imbuído
dos melhores princípios éticos,
tanto no relacionamento com a própria
comunidade, como no relacionamento com as
fontes de informação. Muitas
vezes é aqui que mora o perigo. Devido à proximidade,
não raro as fontes tentam manipular
o jornal em proveito próprio. Outras
vezes é o jornalista que se aproveita
do seu prestígio na sociedade para
deturpar, com prepotência, o que foi
dito, conforme os seus interesses ou os interesses
do jornal. Ambos são caminhos errados,
a serem evitados, por mais fortes que sejam
as pressões e as tentações.
Um
modo de identificar-se com a comunidade,
buscando permanente interação
com ela, é valorizar a cultura e os
costumes locais.O jornalismo comunitário
deve estudar mais a fundo a formação
histórica e social da população à qual
se dirige. Aprofundar-se nos costumes que
caracterizam a cultura popular (religiosidade,
arte, vida familiar, formas de sociabilidade,
educação etc) e aprender a
respeitar e valorizar essa cultura, reconhecendo
nela um processo dinâmico e vivo, é um
bom começo para quem se inicia no
jornalismo comunitário.
Para
captar a alma do povo, o jornalista será sempre um observador privilegiado
e um estudioso da sociologia, aprendendo
que os regionalismos integram, na sua multiplicidade
de variantes, a alma do povo brasileiro.
Nas linhas finais de sua última obra
(O Povo Brasileiro – A formação
e o sentido do Brasil. São Paulo:
Cia. das Letras, 1995), Darcy Ribeiro traça
um perfil que todo jornalista deve conhecer
e sobre o qual deve refletir para bem cumprir
o seu ofício de comunicador:
“...apesar de feitos pela fusão
de matrizes tão diferenciadas, os
brasileiros são, hoje, um dos povos
mais homogêneos lingüística
e culturalmente e também um dos mais
integrados socialmente da Terra. Falam a
mesma língua, sem dialetos. Não
abrigam nenhum contingente reivindicativo
de autonomia, nem se apegam a nenhum passado.
Estamos abertos é para o futuro”,
afirma o sociólogo depois de estudar
as origens étnicas de nosso povo no índio,
no negro e no europeu, mais tarde enriquecidas
com a chegada dos orientais.
Diante
de tanto jornalista deslumbrado com outras
culturas e por isto mesmo alimentando
complexos de inferioridade pelos traços
culturais de seu país ou de sua região,
Darcy Ribeiro proclama:
“Nações há no
Mundo Novo – Estados Unidos, Canadá,
Austrália – que são meros
transplantes da Europa para amplos espaços
além-mar. Não apresentam novidade
alguma neste mundo. São excedentes
que não cabiam mais no Velho Mundo
e aqui vieram repetir a Europa, reconstituindo
suas paisagens natais para viverem com mais
folga e liberdade, sentindo-se em casa. É certo
que às vezes se fazem criativos, reinventando
a república e a eleição
grega. Raramente. São, a rigor, o
oposto de nós”.
A
vocação latina do povo
brasileiro, a natural integração
continental da América do Sul, cada
vez mais discutida em nossos dias, a partir
do Mercosul retomado na Administração
de Luis Inácio Lula da Silva, é vislumbrada
pelo sociólogo:
“Nosso destino é nos unificarmos
com todos os latino-americanos por nossa
oposição comum ao mesmo antagonista,
que é a América anglo-saxônica,
para fundarmos, tal como ocorre na Comunidade
Européia, a Nação Latino-Americana
sonhada por Bolívar. Hoje, somos 500
milhões, amanhã seremos 1 bilhão.
Vale dizer, um contingente humano com magnitude
suficiente para encarnar a latinidade em
face dos blocos chineses, eslavos, árabes
e neobritânicos na humanidade futura”.
Darcy Ribeiro deixou-nos um legado de otimismo
que muitas vezes falta ao jornalista:
“Estamos nos construindo para florescer
amanhã como uma nova civilização,
mestiça e tropical, orgulhosa de si
mesma. Mais alegre, porque mais sofrida.
Melhor, porque incorpora em si mais humanidades.
Mais generosa, porque aberta à convivência
com todas as raças e todas as culturas
e porque assentada na mais bela e luminosa
província da Terra”.
Na
Comunidade, o jornalista verá refletido,
como num espelho, um pouco de cada um dos
matizes que conformam a alma brasileira.
Na cobertura diária, nas reuniões
com o povo, nas festas populares, nas tradições
locais, o comunicador entrará em contato
com o Brasil crioulo, o Brasil caboclo, o
Brasil sertanejo, o Brasil caipira, os Brasis
sulinos, de que fala o mesmo autor.
“Embora nos ensinem a ter um modo
de vida refinado, civilizado e eficiente – numa
palavra, culto – não conseguimos
evitar que muitos objetos e práticas
que qualificamos de populares pontilhem nosso
cotidiano. Samba, frevo, maracatu, vatapá,
tutu de feijão e cuscuz, seresta,
repente, folheto de cordel, congada, reisado,
bumba-meu-boi, boneca de pano, talha, mamulengo,
colher de pau, moringa, peneira, carnaval,
procissão, benzimento, quebrante,
simpatia, chá de ervas etc são
palavras familiares, algumas numa região,
outras noutra, com sotaque italiano, japonês,
alemão ou árabe, ou ainda de
modo supostamente puro”, observa o
pesquisador Antonio Augusto Arantes em “O
Que é Cultura Popular” ( São
Paulo: Brasiliense, 1985).
Resgatando
a cultura popular ( que tanto pode ser
instrumento de conservação
como de transformação social,
segundo Ferreira Gullar), nas suas várias
manifestações, o jornalismo
comunitário estará contribuindo
para a formação da cidadania,
para que o desconforto das pessoas contra
a desigualdade social gerada pela política
neo-liberal não se transforme em mero
sentimento de constrangimento ou de vergonha,
mas que se afirme como o inconformismo que
leva à luta por uma situação
de justiça, de igualdade, de solidariedade.
Por
isto mesmo o jornalismo comunitário
não deve se voltar para grupos, porque
isto significaria oprimir ainda mais o povo
através da desinformação
ou do sectarismo político-partidário.
Deve, isto sim, abraçar as causas
populares e usar a força do veículo
comunitário junto aos que têm
poder de decisão para forçar
a solução dos problemas que
afligem a comunidade, no seu dia-a-dia.
É nobre e de grande responsabilidade
a tarefa do jornalismo comunitário.
A
propósito de cultura popular e
cidadania, o educador Paulo Freire participou,
como conferencista, da produção
de um vídeo popular em apoio à campanha
de erradicação do analfabetismo
promovida pelo Banco do Brasil em maio de
1994, com o título “Educação
e Mudança”. E ao falar para
educadores, Paulo Freire está falando,
naturalmente, para líderes comunitários
que têm o pode de influir na opinião
pública do lugar onde trabalham. Entre
esses líderes estão, naturalmente,
os jornalistas comunitários, nos quais
a comunidade aprende a confiar e dos quais
espera comportamento ético, sereno
e responsável.
Segundo
ele, a tarefa do educador é uma
tarefa “gnosiológica”,
isto é, que envolve o processo do
conhecimento. Para transmitir ensinamentos,
ele precisa ter clareza política,
visão de mundo e método de
trabalho. À medida que transfere o
conhecimento, ele “reconhece” o
que conheceu durante o estudo do objeto,
capacitando-se, assim, cada vez mais, como
formador.
Na
comunidade, o jornalista é permanentemente
convidado a integrar órgãos
colegiados, associações, grupos
de debate, jurado de eventos culturais etc.
Isto ocorre porque a comunidade reconhece
nele a capacidade de liderar e de influenciar.
Dotado de princípios éticos,
o comunicador comunitário deve aproveitar
esse contato direto para estar sempre aprendendo
com a comunidade de modo a poder servi-la
cada vez melhor, sem jamais impor os seus
processos, mas sempre discutindo, democraticamente,
o melhor caminho em cada situação.
De
quem lidera, a comunidade também
aguarda um pouco de esperança, de
estímulo, alguém que sabe não
apenas criticar mas também propor
soluções. Paulo Freire denuncia
como artimanha do capitalismo neo-liberal
a estratégia de dizer que as utopias
morreram, que não adianta mais sonhar,
que a pobreza é um determinismo histórico,
que os pobres devem se conformar com a vida
que levam etc.
O
formador de opinião deve enfrentar
essa barreira, segundo Freire, porque é uma
barreira imposta pela ideologia das classes
dominantes. O educador/formador deve resgatar
a esperança do povo num mundo melhor,
fazendo-o sentir-se sujeito da história
e não mero objeto dela ou um joguete
do destino. Se há exclusão
social a culpa não é dos excluídos,
mas do modelo perverso de sociedade que temos.
Por isto a cidadania é um processo
em permanente construção, é um
direito a ser exercido por todos, sem qualquer
tipo de exclusão por analfabetismo,
cor, situação econômica,
crença, convicção política
etc. Na medida que o comunicador comunitário
dá as costas para os interesses do
coletivo e passa a servir a este ou aquele
grupo, ele está traindo a confiança
da comunidade e retirando dela o direito à cidadania.
E ninguém pode tirar do outro o direito
de sonhar e de lutar. “A existência
ultrapassa a vida; pode haver vida sem sonho,
mas não há existência
sem sonho”, diz Paulo Freire esclarecendo
que existir socialmente, como cidadão, é mais
que viver biologicamente como qualquer ser
vivo.
O
jornalista comunitário não
pode se limitar a perceber que tem nas mãos
o dever social de mudar o mundo, de torná-lo
melhor e mais justo. Ele precisa assumir,
na prática, esse discurso, colocando
seu trabalho, seu jornal, seu veículo,
a serviço da coletividade em toda
e qualquer circunstância.
Se
não estiver preparado para ter
uma visão crítica da história
e da sociedade, o jornalista poderá contribuir
para alienar ainda mais ao invés de
libertar os excluídos. “Quando
o Sujeito não se reconhece como produtor
das obras e como sujeito da história,
mas toma as obras e a história como
forças estranhas, exteriores, alheias
a ele e que o dominam e perseguem, temos
o que Hegel designa como alienação.
Esta é a impossibilidade do sujeito
histórico identificar-se com sua obra,
tomando-a como um poder separado dele, ameaçador
e estranho”, observa Marilena Chauí em
O Que É Ideologia ( São Paulo:
Brasiliense, 1980).
Na
comunidade, como já dito, o jornal
e o jornalista devem apoiar e incentivar
as manifestações da cultura
popular, como teatro, música, poesia,
arte etc. Para Antonio Arantes, “fazer
qualquer modalidade de arte é construir,
com cacos e fragmentos, um espelho onde transparece,
com as suas roupagens identificadoras particulares,
e concretas, o que é mais abstrato
e geral num grupo humano, ou seja, a sua
organização, que é condição
e modo de sua participação
na produção da sociedade”
Um
dos melhores instrumentos de trabalho do
jornalista que milita em grandes corporações é a
boa relação do profissional
com suas fontes de informação.
No pequeno jornal não deve ser diferente,
como já vimos. Afinal, como não
se faz bom jornalismo sem boas fontes de
informação, também não
se faz veículo comunitário
sem boa apuração, sem contar
com uma rede de informações
confiável e suficientemente ampla
para manter o jornal bem informado. Não é o
fato da comunidade ser um universo fisicamente
menor que o dos grandes centros urbanos que
dispensará o jornalista de uma boa
pauta e uma boa agenda com nome, endereço
e telefone de seus contatos. A especificidade
que se pode verificar no caso do comunitário é,
naturalmente, a proximidade e quase “vizinhança” do
repórter com a fonte, mas isto como
que reproduz, por exemplo, o universo de
Brasília, a cidade com a maior concentração
de fontes do país nos palácios,
nos ministérios, no Congresso, nas
embaixadas, no Governo do Distrito Federal,
nas autarquias etc.
A relação de proximidade com
a fonte, é sempre uma relação
potencialmente perigosa, que pode levar a um
envolvimento sem retorno, a um nível
em que a fonte passa a manobrar o veículo
ao “plantar” informações
de seu interesse. A eqüidistância ética
e equilibrada ( nem proximidade demais que
envolva interferência, nem distanciamento
tal que não comporte um telefonema fora
de hora ) deve ser valorizada e buscada pelo
jornalista, e de forma tanto maior quanto mais
próxima for a “vizinhança” com
a fonte, conforme se dá no interior
das comunidades.
Por isto, vamos tratar, agora, do relacionamento
com as fontes.
Quando
trabalhamos com veículos
comunitários não podemos dispensar
o confronto e a diversidade de opiniões
para passar ao leitor uma informação
completa e bem interpretada. Agir sem essa
preocupação é correr
para as facilidades de um jornalismo superficial,
rápido e sem apuração
alegando a velha e esfarrapada desculpa da
falta de tempo. Nasce daí um jornalismo
faccioso, tendencioso, anti-ético,
a serviço de grupos e não da
comunidade.
Por
menor que seja o universo de abrangência
do veículo – ainda que seja
apenas o jornal da escola – sempre
será possível e necessário
estabelecer o contraditório em busca
da informação total, redonda,
completa, justa, ética, para manter
o receptor bem informado.
Isto
tem a ver com boas fontes, mediante acurado
trabalho de pesquisa ou apuração,
através de entrevistas, consultas
a publicações, documentos,
bibliotecas, arquivos etc. Afinal, não
há nenhum motivo para que um jornal
comunitário não seja tão
bem feito quanto um grande jornal. Apenas
temos um ambiente menor a ser trabalhado,
mas as normas éticas de apuração
são as mesmas, por isto todos devem
respeito ao artigo 7º do Código
de Ética do Jornalista Brasileiro: “O
compromisso fundamental do jornalista é com
a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta
pela precisa apuração dos acontecimentos
e sua correta divulgação”.
Assim, “se o repórter vai
cobrir a queixa dos moradores de que uma
indústria está poluindo um
rio, deve ouvir não só os moradores,
mas também os donos da indústria
e as autoridades locais”, alerta, de
modo prático, o Manual de Telejornalismo
da Central Globo de Jornalismo, ao definir
isenção como a obrigação
moral do repórter ouvir os dois lados
de um assunto polêmico.
Jornalismo
de Compadre - Na comunidade, muitas vezes
corre-se o risco de fazer “jornalismo
de compadre”, para usar a expressão
de Francisco José Karan (em “Jornalismo, Ética
e Liberdade”. São Paulo: Summus,
1997) quando nos contentamos com a informação
oficial sobre determinado assunto e não
vamos checar, confrontar, repercutir a notícia
antes de publicá-la, de tal modo que “os
donos do poder” passam a considerar “aquele
jornalista” totalmente “confiável”,
do ponto de vista deles, isto é, uma
pessoa que divulga a informação
que foi passada sem questioná-la,
sem incluir outras abordagens, sem gerar “incômodos
desagradáveis” etc, quando sabemos
que a credibilidade, a confiabilidade devem
vir do público, do universo alcançado
pelo veículo e não deste ou
daquele grupo, se queremos fazer jornal comunitário.
Um
exemplo desse “jornalismo de compadre” é a “declaração
não autorizada” do então
ministro das Relações Exteriores,
Rubens Ricupero, à Rede Globo nas
eleições de 1994. Sem saber
que os microfones estavam abertos, o ministro
explicou o modelo de “transparência” do
Governo FHC ao manipular índices inflacionários: “O
que é bom a gente divulga, o que é ruim
a gente esconde”. Para Karan esse tipo
de comportamento mostrou a promiscuidade
entre a Globo e candidatura de Fernando Henrique
Cardoso, num tipo de jornalismo que a emissora
e o governo viam (ou vêem ) como de
interesse social. É bem uma relação
de compadrio a promiscuidade entre governos
neo-liberais e a grande mídia, como
Mário Sérgio Conti ( ) conta
do Governo Collor.
Nas
pequenas comunidades não é raro
o jornal colocar-se a serviço do poder
municipal, por exemplo, com o pretexto de
que está servindo à população
ao divulgar, sem questionar, sem repercutir
- e muitas vezes na íntegra - as informações
fornecidas pela prefeitura ou pela Câmara
através de “press releases” ou
entrevistas. É o “jornalismo
de compadre”.
É fácil explicar o interesse
dos governantes em manipular a informação,
seja na relação entre a Presidência
da República e a poderosa Rede Globo,
seja na imposição de um prefeito
sobre um pequeno jornal que precisa da publicação
dos atos oficiais para sobreviver. Francisco
José Karan registra a declaração
que Napoleão fez há 200 anos: “Se
perdesse o controle da imprensa, não
duraria três meses no poder”.
Nos bastidores, afirma-se, por exemplo, que
o Brasil só conseguiu o democrático
exemplo do afastamento de Collor da presidência,
em 1992, depois que a Globo retirou seu “apoio” ao
Presidente após tentar ignorar, de
início, os “caras pintadas” que
exigiam o impeachment nas ruas.
Considerando
que o veículo comunitário é “a
leitura local”, concluímos que
dentro daquele universo ele faz as vezes
da Globo, do Estadão ou da Folha,
isto é, tem todas as condições
de ajudar ou prejudicar os governantes. Mas é preciso
que o jornalista jamais use o seu veículo
com tal objetivo, daí a imperiosa
necessidade de contar com outras fontes na
divulgação das informações
municipais ou comunitárias.
Jornalismo
Oficial - Compreende-se porque o jornalismo
comunitário preocupa-se
tanto em obter informações
junto aos órgãos oficiais.
Primeiramente eles precisam de informação
e os governantes têm informação.
Em segundo lugar, é das autoridades
que os moradores reivindicam soluções
para os seus problemas diários de
segurança, buraco de rua, escolas,
transporte coletivo, atendimento de saúde,
fornecimento de água e luz, limpeza
pública, coleta de lixo, taxas e impostos
excessivos etc. Em terceiro lugar é sempre
mais fácil e mais cômodo procurar
as fontes oficiais que têm telefone
e outras facilidades de serem alcançadas,
que os dirigentes comunitários e as
pessoas da própria comunidade.
É natural esperar que o jornalismo
comunitário procure equilibrar o noticiário
empenhando-se em dar espaço à comunidade
e privilegiando as fontes comunitárias.
Mas o comodismo de buscar antes as fontes
oficiais é um defeito que não
atinge só o comunitário, mas
também a grande mídia. Rememorando
os 30 anos iniciais do jornalismo brasiliense,
conta Venício A. de Lima (em “Jornalismo
de Brasília – Impressões
e Vivências”. Brasília:
UnB, 1993 ) que “a principal pauta
do jornalismo de Brasília, tanto local
quanto das sucursais, tem sido a ação
do governo federal, entendido, aqui, sobretudo,
como a ação do Poder Executivo.
O Legislativo e o Judiciário ocuparam,
historicamente, uma posição
secundária nessa agenda, decorrência
não só da atrofia provocada
pelos 21 anos de autoritarismo militar, mas
também da herança de nossa
tradição política conservadora
que sempre entendeu a política como
reduzida ao estado, leia-se ao Poder Executivo”.
Entretanto é necessário despertar
a cidadania de modo que as comunidades percebam
a força da sua organização,
uma organização que será tanto
mais possível quanto maior for o empenho ético
do veículo comunitário de se
comprometer com essa tarefa social. O sociólogo
Betinho ( Herbert Viana ), em vídeo
popular gravado em maio de 1996, com o título “Cultura
Organizacional”, para o Programa de Formação
de Instrutores do Banco do Brasil, lembra aos
formadores de opinião que eles devem
valorizar a cidadania como “expressão
de ação, de quem não espera
acontecer, exercendo papel criativo e livre
na construção de uma nova sociedade..” porque,
segundo ele, “não é o Estado
que salva a sociedade, é o cidadão
que impõe uma política ao Estado
democrático onde a pessoa mais importante
não é o Presidente da República, é o
Cidadão”. Lembra o sociólogo
que o cidadão constrói a democracia
quando delega poderes ao estado, pelo voto,
para que o estado possa gerir os recursos sociais
a serviço da comunidade. E se o governante
não cumpre o que lhe foi atribuído,
então é afastado por impeachment.
A
mania que a imprensa tem de privilegiar
as fontes oficiais, muitas vezes estabelecendo-se
aquela promiscuidade entre o repórter
e a fonte, é chamada de “fontismo” por
Gilberto Dimenstein e Ricardo Kotscho em “A
Aventura da Reportagem” ( São
Paulo: Summus, 1990): “O jornalismo
independente e, portanto, com credibilidade,
significa atritos com o poder – logo,
com as fontes. Atritos implicam boicote.
Os repórteres não recebem sequer
as informações mais ingênuas,
como a data e o local onde o ministro vai
se reunir com empresários ou parlamentares.
Mas os editores exigem de seus comandados
boas notícias. É preciso, então,
um malabarismo para que não se fique
tão distante das fontes a ponto de
perder a informação – e
nem tão próximo que signifique
deixar de publicá-la. A busca desse
equilíbrio exige a procura de novos
e variados canais de obtenção
de dados, único mecanismo para não
cair nas armadilhas. O esforço compensa:
o jornalismo e os jornalistas servis ganham
o curto prazo, dão aqui e ali um furo
sem maior importância, mas, a médio
prazo, sofrem desgaste em sua credibilidade.
E por um simples motivo: os governantes passam,
voltam para casa, mas o jornalista e o leitor
ficam. Quem quiser ser jornalista e ambicionar
agrados do poder e, ao mesmo tempo, o respeito
profissional, é bom ir logo procurando
outra atividade”.
Em
1993 Geraldo Sobreira escreveu um manual
para orientar as fontes de notícia
no trato com os jornalistas. ( “Manual
da Fonte – Como lidar com os jornalistas”.
São Paulo: Geração Editorial,
1993). E afirma: “ Na relação
entre o jornalista e a fonte – o profissional
da política, dos negócios,
da propaganda, da Justiçca, da polícia
etc – os repórteres sabem que
não se ganha informação
de graça: a divulgação
de uma notícia sempre tem um objetivo,
que contraria uns e favorece outros”.
Segundo
ele, “em toda instituição,
quem tem poder tem informação”.
Mas
a diretora de O Globo, em Brasília,
Eliane Catanhêde, na mesma obra, define
o que considera uma boa fonte de notícias
na área oficial: “ A fonte de
verdade é uma pessoa bem informada. É quem
tem informação, sabe para onde
as coisas estão indo e cria fatos.
Essas são as melhores fontes. Ela
participa do poder, é bem informada
sobre o poder e os partidos. E sabe passar
isso de forma clara e isenta para os repórteres
certos, na hora certa. Mas há também
o homem do poder que é o contrário,
que é uma má fonte. É o
político, o homem de poder que tem
medo da imprensa. Não dá informação,
não recebe, não sabe nada de
imprensa e acha que tudo é sigilo.
Outro tipo é aquele que não
desgruda, persegue o repórter, quer
almoçar com ele toda semana,quer aparecer
a qualquer custo sem criar fatos que justifiquem”.
Geraldo
alerta que “não é só o
Governo que tem poder. A oposição é poder
de fato, na medida em que influencia e altera
decisões de governo, induz o comportamento
da sociedade, cria fatos. O poder não
está só no Palácio do
Planalto ou no partido majoritário.
Está no Congresso, nos sindicatos,
nas entidades da sociedade civil, na Justiça,
na polícia etc”.
Mônica Waldvogel, na mesma obra,
declara: “Eu respeito a fonte que,
embora sabendo a verdade e não podendo
falar, diz que não pode falar ou deixa
isto claro.Detesto a fonte que mente, que
fala uma coisa contrária àquilo
que está acontecendo, porque quer
esconder os fatos e coloca o repórter
na pista errada”.
Sigilo
da Fonte - Muitas vezes, na comunidade,
a pessoa de poder, aproveitando-se da fragilidade
econômica do veículo comunitário,
tenta intimidar o profissional da imprensa,
exigindo, entre outras coisas, que revele
suas fontes de informação.
A este respeito, Mário Erbolato (“Técnicas
de Codificação em Jornalismo”.
São Paulo: Ática, 1991) cita
o artigo 71 da Lei de Imprensa: “Nenhum
jornalista ou radialista, ou em geral as
pessoas referidas no artigo 25, poderão
ser compelidos ou coagidos a indicar o nome
de seu informante ou a fonte de suas informações,
não podendo o seu silêncio a
respeito sofrer qualquer sanção
direta ou indireta, nem qualquer espécie
de penalidade”.
Sobre
o “sigilo da fonte”,
situação em que o repórter
trabalha com “declarações
em off”, isto é, sem citar a
fonte expressamente, Darcy Arruda Miranda
(Comentários à Lei de Imprensa.
São Paulo: Revista dos Tribunais,
1969) observa: “Do mesmo modo que se
asseguram aos profissionais das profissões
liberais o direito ao sigilo, no que se refere às
confidências de seus clientes e de
quem foram depositários, o mesmo direito
deve ter o jornalista, rádio-repórter
ou o comentarista. Muitas vezes o profissional
da imprensa, nas suas andanças em
busca de informações, é obrigado
a socorrer-se de fontes que não podem
ser reveladas”.
Segundo
Miranda, a mesma lei que assegura ao profissional
de imprensa o direito ao
sigilo quanto às fontes de informação,
respeita, também, este sigilo, donde
a incriminação penal (pelo
art. 154 do Código Penal) em caso
de ser ele revelado sem anuência do
informante.
Esse
amparo legal assegura ao profissional da
imprensa, na avaliação do
jurista, maior amplitude na colheita ou busca
de informações de interesse
público, não ficando, de forma
alguma, obrigado a revelar, em Juízo,
a sua fonte ou origem que tanto pode ser
pessoa como coisa (uma revelação
pessoal e sigilosa, uma conversa ou confidência
acidental, a leitura de um documento confidencial
ou não, a verificação
de um fato ocorrido na intimidade dos bastidores,
a descoberta de objeto ou pessoa procurada).
Também o art. 5º da Constituição
Federal, em seu parágrafo XIV, assegura
o direito de preservar a identidade da fonte: “ É assegurado
a todos o acesso à informação
e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário
ao exercício profissional”.
Portanto, é dever do estudante de
Jornalismo e dos repórteres iniciantes
informarem-se a respeito de seus direitos
e deveres profissionais para exercerem plenamente
a profissão no Jornalismo Comunitário.
Afinal, a lei não faz distinção
entre “tamanhos” de veículos,
tanto assim que as penas para os crimes de
injúria, calúnia e difamação
são iguais para todos, devendo o jornalista
responder pelo que publica. O próprio
artigo 5º da Constituição é iniciado
com a seguinte premissa: “Todos são
iguais perante a lei, sem distinção
de qualquer natureza”.
Assessoria de Imprensa - Na comunidade, o jornalista
terá fontes de informação
na polícia, corpo de bombeiros, hospitais,
associações, prefeitura, câmara,
autarquias, justiça, representações
de órgãos estaduais e federais,
terminal rodoviário, clubes de serviço,
clubes recreativos, escolas, agências
noticiosas, Internet, outros veículos
de informação, pessoas que se
destacam nos esportes ou na cultura, cartas
e telefonemas dos leitores e ouvintes, funerárias,
pessoas que procuram a redação,
etc.
Cada
vez mais, porém, o jornalismo,
inclusive o comunitário, depara-se
com a figura do Assessor de Imprensa quando
procura informações em grandes
empresas, sindicatos, órgãos
públicos etc mesmo no interior.
Nestes
casos é preciso estar atento
para o fato de que, em muitas situações,
o compromisso do Assessor de Imprensa é com
o seu patrão, enquanto o compromisso
do jornalista é com o público.
Sabemos que não deveria ser assim.
Mas, na prática, percebe-se que o
foco de interesse da Assessoria pode não
ser o mesmo que interessa ao veículo
comunitário, daí a necessidade ética
de submeter a informação da
Assessoria ao crivo de outras fontes e, também,
de repercuti-la com a própria comunidade.
Em “Assessoria de Imprensa-Teoria
e Prática” (Porto Alegre: Sagra-DC
Luzzatto, 1993), Elisa Kopplin e Luiz Artur
Ferraretto advertem que “pressionar
para que notícias a respeito do assessorado
sejam publicadas, sonegar informações
de interesse, divulgar inverdades e defender
os interesses de quem o contratou acima dos
da população são problemas
ainda freqüentes no mercado brasileiro
de Assessoria de Imprensa. Em síntese,
contrariam o Código de Ética
da profissão e, não raro, prejudicam
a imagem de quem é assessorado”.
Antes
de encerrar este capítulo,
uma palavrinha final sobre um assunto já tratado,
mas que precisa de mais algum esclarecimento
para evitar confusões. Trata-se de
diferenciar, claramente, o Jornalismo Comunitário
do Jornalismo Especializado.
Chama-se
Especializado o jornalismo voltado, pontualmente,
para públicos específicos,
mesmo quando eles recebem o nome de, digamos,
Comunidade Médica Nacional, Comunidade
Jurídica, Comunidade Católica...isto é,
quando se dirige a públicos unidos
por interesses comuns, porém difusamente
situados no país ou no mundo. Não
se pode confundir Jornal Comunitário
com Jornal Especializado. Os vários
cadernos que integram os jornais clássicos,
especialmente aos domingos, enquadram-se
bem na definição de Jornalismo
Especializado. Eles se dirigem a públicos
específicos como os apreciadores de
Informática (Caderno de Informática),
os interessados em comprar e vender Carros
(Jornal do Carro), os adolescentes (Caderno
Teen), os intelectuais (Mais), a mulher (Feminino),
o homem do campo (Agrícola) etc.
Quanto
ao Jornalismo Comunitário
propriamente dito, ele tem público
específico, como já foi dito.
Ele atua dentro de uma comunidade, tornando-se
ponto de referência. Temos, assim,
jornais comunitários em Empresas,
Escolas, Sindicatos, Igrejas etc. Entretanto,
para manter as características de
comunitário, é necessário
que o veículo esteja voltado para
o chamado “público interno”.
Para isto, é preciso ser feito a partir
dos interesses e expectativas desse público,
da pauta ao produto final. No momento que
o jornal empresarial, escolar, sindical,
religioso etc estiver voltado para o público
externo, com o objetivo de divulgação
para outros públicos, então
teremos um veículo especializado na
divulgação daquela empresa,
escola, sindicato, igreja etc.
Misturar
os dois públicos por medida
de “economia” ou por qualquer
outro motivo é um grande erro.Que
interesse o público externo (clientela
da empresa) terá por assuntos que
só dizem respeito ao público
interno da instituição? Somar
os dois públicos pode ser prejudicial à imagem
da empresa junto a seus funcionários.
A
questão dos públicos fica,
assim, bem definida e resolvida. É necessário
ter um produto para cada público,
ainda que da mesma instituição.
Afinal é a partir do público
que se caracterizará o perfil de produção
do veículo. Enquanto o Especializado é a
transferência de conhecimentos sobre
determinado assunto, o Comunitário é uma
experiência comum de participação
e de interação. Pode-se dizer
que o Especializado é um jornalismo
vertical, enquanto o Comunitário deve
ser horizontal, com ampla participação
do receptor-sujeito. Além do mais,
enquanto o público externo exige um
produto mais sofisticado, o público
interno prefere uma linguagem mais descontraída,
mais “próxima”, mais coloquial,
onde se usam apelidos. Usar linguagem de
sinal trocado (formal para o público
interno e descontraída para o público
externo) é matar o veículo
no ninho.
Empresa - Jaurês Palma, em “Jornalismo
Empresarial” (Porto Alegre: Sagra-DC
Luzzatto, 1994) lembra que “a empresa é um
módulo social cuja atividade voltada
para o lucro se dá segundo um processo
que não está restrito ao ato
de compra e venda, mas compõe-se, também,
das relações com seus diversos
públicos”. Há, portanto,
amplo espaço para os jornalistas atuarem
no chamado Jornalismo Institucional, tanto
com produtos especializados para o público
externo, como com produtos comunitários
voltados para o público interno da instituição.
Trata-se de um mercado amplo, porque, como
frisa o autor, “os futuros jornalistas
são preparados para lidar com códigos
de produção e difusão
estritos de jornais diários e meios
eletrônicos de massa... mas os cursos
não estão aparelhados para o
ensino do jornalismo institucional. Paradoxalmente,
enquanto faltam centenas de empregos para as
centenas de formados nos cursos de comunicação
e outros tantos demitidos dos veículos
de massa, há poucos profissionais aptos
a exercer o jornalismo institucional”.
Como
não se pode produzir um veículo
comunitário em determinado bairro
sem conhecer bem o lugar, mediante pesquisa,
também não haverá bom êxito
na tentativa de produzir idêntico produto
numa empresa sem conhecê-la a fundo. É fundamental
estudar o organograma da empresa para localizar
os fluxos de informação e as
fontes de notícia. Tratando-se de
produto comunitário, será igualmente
oportuno localizar fontes de informação
no meio do público receptor, isto é,
dos funcionários, através de
suas lideranças, Comissões
internas e quaisquer outras manifestações
coletivas.
O
jornalismo comunitário, dentro
de uma empresa ou de um órgão
público, evitará a disseminação
de boatos. No lugar deles, os funcionários
terão informações corretas,
detalhadas e sérias, o que passa ao
público interno um clima de transparência
e confiança na direção
da empresa, fator psicológico que
certamente influi na produtividade.
Além do organograma, o planejador
da comunicação interna deve
levar em conta os dados estatísticos
da instituição, seus manuais
ou estatutos internos que servem, inclusive,
para orientar os novos empregados, o fluxograma
que determina os caminhos do expediente,
a planta de arranjo que mostra as instalações
etc.
Palma
ensina que, nesse tipo de comunicação, “a
mensagem deve ser criada de acordo com as
condições de recepção,
levando em conta, conforme o caso, a capacidade,
condições e motivação
necessários para o receptor responder
( feedback )adequadamente à mensagem”.
Acrescenta que, “dependendo do meio
utilizado, é necessário levar
em conta fatores implícitos e explícitos
que possam interferir na mensagem, tais como
vocabulário, condições
dos cinco sentidos, nível hierárquico
e nível de valores na escala do receptor.
A resposta à mensagem emitida deve
ser estimulada. Ninguém está disposto
a responder, desconhecendo as razões
da comunicação. Portanto, é necessário,
em primeiro lugar, explicar as razões
da mensagem. Ela estará mais perto
de alcançar os objetivos, quando contiver
perguntas ou estímulos que levem à oportunidade
de manifestação escrita, falada
ou contida em posturas e reações”.
Equipe
- Normalmente financiado pela própria
instituição, o veículo
interno pode contar com a seguinte equipe,
conforme proposta do professor Jaurês
Palma:
Editor:
pessoa que dirige e coordena uma publicação periódica.
Redator:
aquele que, além das incumbências
de redação, tem o encargo de
redigir editoriais, crônicas ou comentários.
Repórter: aquele que cumpre a determinação
de colher notícia ou informação,
preparando-as para divulgação.
Web-designer:
aquele que editará a
versão eletrônica do impresso,
utilizando a linguagem gráfica adequada à Internet.
Diagramador:
aquele a quem compete planejar e executar
a distribuição gráfica
de matérias, fotografias e ilustrações
de caráter jornalístico, para
fins de publicação.
Programador
visual – técnico
especializado no planejamento de um sistema
de linguagem coerente e uniforme em todos
os aspectos visuais, para publicação.
Arte-finalista – artista gráfico,
desenhista, letrista ou fotógrafo
que executa um trabalho de arte-final: ilustração,
anúncio, cartaz, página de
jornal ou revista, capas ou qualquer trabalho
desenhado e montado.
Ilustrador – aquele que tem a seu
cargo criar ou executar desenhos artísticos
ou técnicos, de caráter jornalístico.
Produtor
gráfico – produção,
execução ou coordenação
de todos os trabalhos de confecção
física de uma revista, jornal, folheto
ou qualquer publicação, dirigindo
e acompanhando todas as etapas da editoração à gráfica,
da marcação dos originais ao
acabamento.
Fotógrafo
Esta
seria a equipe ideal. Mas só grandes
instituições conseguem mantê-la.
Na maioria das vezes um só jornalista
acaba fazendo tudo.
Justificativa
- São muitas as justificativas
para se propor a veiculação
de um jornal interno em uma prefeitura, em
uma empresa ou em qualquer outra instituição
com certo número de funcionários,
embora alguns dirigentes empresariais – de
formação antiquada - ainda
insistam em ver na comunicação
interna apenas um desperdício. Jaurês
Palma dá as seguintes justificativas
para o projeto comunitário:
-Seria
de uma inutilidade grosseira a implantação
de um jornal ou revista, se o empresário
lhe atribuísse a função
motivadora de solidariedade, quando a política
da empresa sugere o individualismo; de coesão,
quando a política determina a dispersão;
de harmonia de relações, quando
a política leva à diferenciação
nos tratos interpessoais; de dignidade profissional,
quando a política não promove
a importância da classe; de congraçamento,
quando a política promove a competição
interna; de formação de opiniões
e atitudes, quando a política é centralizadora.
O veículo, em sua política, é a
própria empresa. A persuasão,
a propaganda, enquanto fins, não encontram,
no jornal de empresa, um meio adequado. Desta
forma, estamos lembrando que o periódico
empresarial é um recurso tão
atual e inevitável quanto o é o único
conceito de administração compatível
com um contexto sócio-econômico
aceitável.
No
próximo capítulo vamos
conhecer a experiência de um jornal
diário que circulou durante 18 anos
numa cidade de 50 mil habitantes no interior
de São Paulo. Veremos sua história,
suas lutas, seus altos e baixos na trajetória
da sobrevivência. Trata-se da Experiência
de Penápolis. Também discutiremos
mais a fundo a questão ética
que interessa a todos, grandes e pequenos
veículos de comunicação
realmente comprometidos com o serviço
ao público. Daremos algumas indicações
para quem deseja montar seu próprio
jornal no interior ou nas comunidades.