Tomar conhecimento do leitor, saber quem ele é,
o que faz, onde está, o que pensa...afinal,
definir o público-alvo é a primeira
iniciativa de quem se põe a planejar um
produto de comunicação, seja um
veículo devidamente estruturado, seja um
simples artigo de jornal. Podemos tomar de empréstimo
alguns ensinamentos da Teoria Literária
para discutir o papel do receptor no processo
de aquisição do conhecimento, portanto
no processo de informação. Duas
escolas se destacaram, no Séc. XX, no âmbito
da questão literária. A Escola Marxista
(ocupada em demonstrar o nexo da literatura em
seu espelhamento da realidade social) e a Escola
Formalista (que valorizava a percepção
artística da literatura, desvinculando
a obra literária de todas as condicionantes
históricas).
A Escola Marxista não trata o leitor –
quando dele se ocupa – diferentemente do
modo como trata o autor: busca-lhe a posição
social ou procura reconhecê-lo na estratificação
de uma dada sociedade. A Escola Formalista precisa
dele apenas como o sujeito da percepção,
como alguém que, seguindo as indicações
do texto, tem a seu cargo distinguir a forma ou
desvendar o procedimento. Pretende, pois, ver
o leitor dotado da compreensão teórica
do filólogo, o qual, conhecedor dos meios
artísticos, é capaz de refletir
sobre eles – do mesmo modo como, inversamente,
a Escola Marxista iguala a experiência espontânea
do leitor ao interesse científico do materialismo
histórico, que deseja desvendar na obra
literária as relações entre
a superestrutura e a base. Contudo – como
afirmou Walther Bulst – texto algum jamais
foi escrito para ser lido e interpretado filologicamente
por filólogos ou historicamente por historiadores
(Jauss,1994)
Dessa exposição inicial constata-se
que ambos os métodos de análise
da literatura – o formalista e o marxista
– ignoram o leitor em seu papel genuíno,
imprescindível tanto para o conhecimento
estético quanto para o histórico:
o papel do destinatário a quem, primordialmente,
a obra literária visa, segundo observa,
ainda, Hans Robert Jauss ao estudar a estética
da recepção.
Quando se diz, portanto, que não escrevemos
para filólogos ou historiadores, deduz-se
que escrevemos para todas as pessoas e o objetivo
primeiro do texto comunicativo é fazer-se
entender por todos. Por isto o texto precisa ter
vida, passar o fato com emoção,
valorizando o lado humano da notícia ou
da reportagem, pois só assim esse texto
será interessante para o leitor...afinal
estará estabelecendo um diálogo
com a vida do leitor. Quando lê uma matéria
bem escrita, uma história bem contada,
dessas que se começa a ler e não
se consegue parar até chegar ao final,
o leitor sente-se transportado para o local dos
fatos, sente-se participante da ação.
Quando descreve esse caráter dialógico
do texto com o leitor - essa capacidade que o
bom texto tem de ser como uma partitura voltada
para a ressonância renovada da leitura,
libertando-se da matéria das palavras para
conferir-lhe existência real – Jauss
recorre ao francês: “ parole que doit,
en même temps qu´elle lui parle, créer
um interlocuteur capable de l´entendre”.
Temos visto, nesta história da imprensa,
que os primeiros livros do Renascimento não
foram escritos – com os tipos móveis
de Gutenberg – diretamente para o povo,
mas sim para o clero, pois o povo não sabia
ler. Com a Revolução Industrial
tornou-se necessário apostar na qualificação,
na educação das pessoas para que
aprendessem a lidar com as máquinas e invenções
nas quais o capitalismo nascente apostava todas
as suas fichas de um futuro rico e lucrativo.
Com efeito são as sociedades mais bem informadas
que ocupam os lugares de destaque no ranking da
economia mundial. No plano individual, de um modo
geral, é também o acesso à
informação de qualidade que faz
a diferença entre as pessoas de um e de
outro grupo social, daí a permanente luta
pela melhoria do ensino público, pela inclusão
digital, pela criação da quota para
negros na Universidade, pela cidadania, pelos
direitos do consumidor, pela preservação
do planeta, pela defesa das minorias etc
Os modernos meios de comunicação
cedo aprenderam que não bastava publicar
colaborações dos leitores –
como no jornalismo de 200 anos atrás –
nem apenas as cartas dos leitores. Era preciso
muito mais. Era preciso saber o que o leitor estava
pensando de cada edição, de cada
matéria, de cada profissional. Por isto
os jornais mais ricos criaram seus Institutos
de Pesquisa que realizam permanentes levantamentos
de opinião pública tanto sobre temas
de interesse dos leitores (por exemplo, o que
se pensa dessa ou daquela ação de
governo, o que se acha do Presidente da República,
qual a situação dos preços,
como está a inflação etc)
mas também sobre a aceitação
das inovações do próprio
jornal, embora, naturalmente, tais levantamentos
sejam apenas para consumo interno dos técnicos
e planejadores do jornal.
No Brasil e na América do Sul já
faz tempo que muitos jornais mantém grupos
de profissionais encarregados de contatar, todas
as manhãs, uma “amostra” de
público a fim de verificar a receptividade
às diversas matérias publicadas.
O objetivo é aprofundar os temas mais solicitados,
através de novas pautas e novas apurações,
e corrigir os erros cometidos. Também é
prática comum, desde a década de
70, a eleição do “ombusdsman”
que não pode ser demitido e que tem a função
de criticar diariamente o jornal como representante
dos leitores. Sempre com o objetivo de agradar
aos seus leitores e de estabelecer interação
com eles, há jornais que desenvolvem campanhas
de cidadania, como fez o “Correio Braziliense”,
anos atrás, quando reuniu milhares de pessoas
numa passeata pelas ruas de Brasília a
favor da Paz no Trânsito. Outros jornais
criam o Conselho dos Leitores para que cada editoria
possa ser julgada. Outros se filiam a organismos
de controle de qualidade como ISO 9.000.
Foi com o advento do Rádio e, depois, da
Televisão, que o público receptor
ampliou seu espaço de participação.
No rádio antigo, com a produção
ao vivo, a participação ativa do
ouvinte era fundamental. Era um atestado, perante
os patrocinadores, de que o programa estava sendo
ouvido. Até hoje o rádio enfatiza
as cartinhas e telefonemas que recebe dos lugares
mais distantes. Na TV criam-se programas interativos
onde o telespectador tem a ilusão de que
está decidindo alguma coisa, como no caso
do antigo “Você Decide”, da
Globo, em que a produção gravava
dois finais para uma história e abria o
telefone para as pessoas “decidirem”
entre um e outro. Nos programas vespertinos da
TV, sobre comportamento, culinária, direitos
do consumidor etc, repete-se, hoje, o antigo costume
do rádio, ouvindo-se palpites do povo ou
opiniões espontâneas de especialistas....tudo
com o objetivo de envolver o público, para
que ele não fique indiferente.
Nos programas mais sérios como os noticiários
da noite, por exemplo, algumas emissoras, como
a TV Record, usam a figura do “âncora”
para proporcionar ao inerte espectador da poltrona
uma espécie de “válvula de
escape”, como se o âncora interpretasse
a sua revolta após um escândalo político,
com o bordão de Boris Casoy: “Isto
é uma vergonha”. Outros programas
mais espetaculosos – como os de Luis Datena,
também da Record, e Roberto Cabrini, da
Bandeirante – também procuram explorar
esse “filão” da interatividade
com o leitor, fazendo comentários supostamente
raivosos diante de notícias revoltantes,
como se fossem representantes eleitos pelo povo
para defendê-lo.
Os chamados “reality shows” não
vão em outra direção senão
a de criar a falsa impressão de que as
pessoas estão “espiando a vida alheia
como ela é”, quando qualquer observação
mais atenta nos revela o artificialismo de estúdio
onde o que interessa mesmo é o prêmio
milionário e tudo o mais é encenado
para agradar a audiência, seja através
de linguajar agressivo, ou de gestos inusitados,
ou de festas típicas, ou de fuxicos ou
de apelos sensuais.
Mas é com a Internet que a participação
direta do receptor, sua capacidade de intervenção
nos vários estágios de produção
da notícia e mesmo seu poder de reeditar
a matéria ou de redirecioná-la para
grupos de amigos em salas de bate papo ou diretamente
por e-mail, tornou-se decisiva.
Nos primeiros anos da TV, na década de
50, quando ela ainda era em preto e branco, era
preciso levantar-se da poltrona para mudar o canal.
Depois surgiram controles remotos com fio. Depois
controles remotos sem fio. Já estamos na
Era Digital onde logo será possível
intervir na programação da TV, interligando-a
ao computador. Na TV por assinatura, o assinante
tem centenas de canais à sua disposição
para navegar pelos programas de seu maior interesse,
podendo ver mais de um programa ao mesmo tempo
através do “paper view”. Pode
usar sua TV como uma imensa locadora comprando
– e pagando na fatura mensal – os
filmes do seu agrado.
Hoje, com a Internet, o receptor tem amplas possibilidades
de se aprofundar nos assuntos de seu interesse
através da leitura hipertextual, construindo
seu próprio roteiro de leitura através
do labirinto da Internet, pesquisando nas edições
anteriores, entrando em outros sites, checando
informações com a fonte citada pelo
jornal, conferindo a apuração do
repórter, discutindo a edição
escolhida para a matéria, julgando o corte
de uma foto, reorganizando o noticiário
de uma região ou de um assunto em forma
de “clipes” que muitas vezes são
até vendidos a clientes que se interessam
por este tipo de assessoria.
Portanto, se é cada vez maior e mais expressivo
o papel do leitor no processo de comunicação,
então é altamente necessário
conhecer bem o perfil desse navegante que percorre
diariamente esse mar de notícias que jorra
de todas as fontes: rádio, televisão,
jornal, revistas, Internet etc. Conhecendo cada
vez melhor o seu público, o jornalista
terá condições de estabelecer
uma sintonia com ele e isto poderá fazer
do seu veículo um caso de retumbante sucesso
ou de catastrófico fracasso. Veículos
que operam de costas para os seus receptores,
apenas usando-os como massa de manobra a serviço
de senhores do poder, de grupos econômicos,
de ideologias políticas etc cedo ou tarde
deparam-se na lamentável situação
do peixe fora d`água ou como um navio sem
mar. Afinal, jornal sem leitor e político
sem voto é morte anunciada.
2.
No mar de notícias
De 18 a 20 de julho de 2001, a pedido da Associação
Nacional de Jornais, o Datafolha entrevistou 1.605
pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto
Alegre, Brasília e Recife, cidades que
ostentam um público estimado em 12 milhões
de leitores. O objetivo era traçar um perfil
dos leitores e de suas preferências em relação
ao produto jornal. O relatório da pesquisa
foi apresentado aos participantes do 3º Congresso
Brasileiro de Jornais e do 1º Fórum
de Editores promovido pela ANJ de 13 a 14 de agosto
de 2001, no Rio de Janeiro, com a participação
de 400 editores, diretores e empresários
de mídia.
A pesquisa revelou que 37% dos entrevistados (o
que representa 3,9 milhões de pessoas no
universo trabalhado) lêem jornal diariamente.
Também ficou demonstrado que o jornal é
a mídia preferida pelas pessoas com mais
idade, aquelas que confiam mais na informação
impressa, o tradicional “preto no branco”:
43% dos leitores diários tinham, na época,
mais de 41 anos de idade. Já os jovens,
entre 16 e 24 anos, revelaram preferência
por outros meios de informação,
como a Internet: Apenas 22%, em média,
declararam-se leitores assíduos de jornais.
O trabalho ainda mostrou que um terço dos
leitores têm até o 1º grau de
escolaridade. A maioria (79% dos homens e 74%
das mulheres) tem renda até 10 salários
mínimos, sendo que 43% dos homens e 61%
das mulheres pertencem às classes A/B,
o que revela poder aquisitivo para assinar ou
comprar o jornal diariamente.
No item Credibilidade, o Datafolha constatou que
35% dos entrevistados costumam se informar mais
pela TV aberta,vindo os jornais em segundo lugar,
com 28%. Os que preferem o jornal para se manterem
bem informados explicam tal preferência
devido à facilidade de portar o jornal
e à credibilidade que a informação
impressa proporciona: 24% disseram que o jornal
tem conteúdo mais abrangente que a TV aberta;
15% que pode ser lido em qualquer lugar e outros
15% que as notícias são confiáveis.
Entre as pessoas com nível superior, 29%
disseram que confiam muito nos jornais como veículos
de informação. Também têm
a mesma opinião os 32% que ganham de 10
a 20 salários mínimos; os 28% que
pertencem às classes A/B e os 29% que acessam
a Internet diariamente. Nesses três segmentos,
é superior a 40% o percentual de pessoas
que atribuem muita credibilidade aos jornais.
Em Porto Alegre esse percentual vai a 47%.
O Instituto perguntou por quais motivos os jornais
impressos têm muita credibilidade e as respostas
revelaram que isto está relacionado com
a veracidade. Aqui ficou claro que os jornais
têm um longo caminho a percorrer se quiserem
conquistar a confiança das pessoas, pois
50% acham que os jornais são confiáveis,
mas 82% acham que eles causam desconfiança
porque publicam mentiras(39%), distorcem os fatos
( 20%) , são sensacionalistas ( 13%) e
são parciais/tendenciosos(11%).
Na avaliação geral da imprensa brasileira,
41º, entre os entrevistados mais jovens (
16 a 24 anos), disseram que ela é regular.
Para 42% dos leitores de São Paulo; 39%
dos leitores de Porto Alegre e do Rio; 46% dos
leitores de Brasília e 41% dos de Recife,
os jornais contribuem muito na formação
de opiniões. Para 53% dos internautas diários,
eles contribuem pouco.
Os assuntos mais lidos nos jornais são
Esporte (11%; em Recife: 16%), Classificados (7%),
Noticiário Político (7%, chegando
a 17% em Brasília), Economia (5%), Noticiário
Policial (4%), Manchetes (3%). Porém 46%
disseram que lêem o jornal aleatoriamente,
sem procurar um assunto específico. O tempo
médio dedicado à leitura de jornais
é de 68 minutos durante a semana e 84 minutos
nos finais de semana.
No quesito liberdade de imprensa, 49% das mulheres
responderam que a imprensa deve ter algum tipo
de controle. Pensam igual 52% dos mais jovens
e 59% dos menos escolarizados. Para 61% da amostra
geral, a imprensa deve ser totalmente livre. Para
35% dos entrevistados, o maior problema dos jornais
brasileiros é o sensacionalismo. Para 23%
é a falta de profundidade nas matérias.
Para 9% é o excesso de texto. Para outros
9% é a falta de isenção dos
jornalistas. Para 8% é a má qualidade
dos textos. Para 7% é o posicionamento
ideológico.
O principal motivo de contato das pessoas com
o jornal é a publicidade. Entre os entrevistados,
85% nunca entraram em contato com algum jornal
e 15% já fizeram algum contato. Entre estes,
28% foi para anunciar nos classificados; 17% para
assinar o jornal; 12% para participar sobre assuntos
determinados; 11% para pesquisas e informações;
11% para reclamar sobre matérias ou artigos.
Por falta de tempo, de dinheiro ou de interesse,
18% dos entrevistados preferem a TV aberta; 7%
atualizam-se pelo Rádio e 3% acessam a
Internet. No resultado geral, a maioria alega
falta de tempo (35%) para não ler jornais
e 25% preferem outros meios.
O trabalho do Datafolha mostrou que, no Brasil,
os jornais são considerados mais confiáveis
entre os mais escolarizados e das classes mais
altas, nas seguintes proporções:
TV aberta(30%), Jornais (29%), Rádio (18),
Internet (10%), TV Paga (3%), Revistas (3%).
Para os mais escolarizados, a TV aberta é
considerada menos confiável.
Um terço dos internautas diários
preferem o jornal impresso para se aprofundarem
nos assuntos: 36%, mas 56% acham mais fácil
aprofundar-se ilimitadamente através do
hipertexto. Metade dos internautas diários
(29%) acham que o jornal é um gênero
de primeira necessidade e que não se pode
viver sem ele.Mas também acham (28%) que
os jornais têm muitos erros ortográficos
e gramaticais.
E qual o perfil desses internautas diários?
Segundo a pesquisa, 86% deles são das classes
A/B, sendo que 64% deles têm renda de até
10 s.m.
A leitura atenta desta pesquisa vai revelar, a
quem quiser ver, o que o leitor acha dos jornais
e o que eles devem fazer para melhorar. O principal
é a confiabilidade. O leitor cobra apreço
à verdade dos fatos e à humildade
de reconhecer erros. Na pressa de apurar para
competir, os jornais cometem muitos erros que
são publicados com destaque. Mas na hora
de reconhecê-los, publica-se uma notinha
de pé de página interna. São
inúmeros os casos a respeito. O da Escola
Base já entrou para a história do
jornalismo que deve ser evitado. Sobre o texto
apressado, é aconselhável a leitura
de “Jornalismo em tempo real – O fetiche
da Velocidade” (Revan.Rio,2002) em que a
jornalista e professora da UFF, Sylvia Moretzsohn,
estuda o futuro do jornalismo impresso diante
da TV e da Internet. Segundo ela, a rapidez é
a condição da sobrevivência,
sem que, no entanto, se saiba em que sentido é
preciso ser rápido. O jornalismo do “tempo
real” esconde a crítica e encobre
a lógica do capital: ao contrário,
celebra a “nova utopia tecnológica”
representada pela Internet e sua possibilidade
de interligar o mundo com informações
instantâneas e em fluxo contínuo.
O resultado é um superficialismo tão
abundante que não explica nada, conforme
comentário de Fernando Veríssimo:
“Vivemos num tempo maluco em que a informação
é tão rápida que exige explicação
instantânea e tão superficial que
qualquer explicação serve”
.
Ao estabelecer paralelos entre os leitores de
jornais e os usuários da Internet, o citado
trabalho do Datafolha abre um leque de reflexão
para quem se debruça, hoje, sobre o debate
a respeito do futuro do jornalismo impresso. Para
muitos, o impresso não terá futuro
se não souber tirar proveito das novas
tecnologias não apenas para melhorar-se
graficamente, mas para contar com profissionais
bem formados e preparados para fazer o jornalismo
que o leitor espera. São muitas as pesquisas
de opinião que dão conta das preferências
dos leitores.
Como dissemos no início desta história,
quando as pessoas eram analfabetas, não
adiantava escrever livros ou jornais para elas.
Escrevia-se para a elite intelectual, em latim.
Hoje não se pode escrever “difícil”
porque o texto do jornalista não se destina
à elite, mas ao povo. E em nossos dias
agitados ninguém tem tempo para ler texto
mal escrito, reportagem mal apurada ou tendenciosa.
Além de bem informadas – ou exatamente
por isto – as pessoas têm pressa e
isto precisa ser levado em conta. Respeitar o
leitor, como explicava Jauss, é situá-lo
como sujeito da história e não como
objeto de consumo.
Provavelmente só na academia o futuro jornalista
aprenderá tudo isto e um pouco mais sobre
ética, moral, respeito à pessoa
humana, cidadania, espírito público,
honestidade profissional, trabalho de equipe etc
para ajudar o leitor a entender melhor.
Como isto pode ser feito? O que é preciso
fazer para reconquistar a confiança que
o jornal impresso merece, tanto nos grandes centros
como nas comunidades? Veremos a seguir.
3.
Ajudando o leitor a entender melhor
Em Angola, segundo Ricardo Noblat (obra citada)
os lugares onde são dadas aulas de português
chamam-se “Casa de Explicação”.
Ele propõe que cada redação
de jornal seja, para o leitor, uma “casa
de explicação”. O texto jornalístico
não pode ser “um enigma a ser desvendado”
como ocorre quando a matéria inclui palavras
não usuais ou fora do contexto, frases
sem sentido, parágrafos que não
guardam coerência entre si, textos com palavras
inúteis, excesso de adjetivos, falta de
detalhamentos ( por exemplo: idade, ocupação,
qualificação do entrevistado, ou
falta de informação sobre o local
e data de um evento), sem contar as falhas de
ética que mancham o jornalismo pela tendenciosidade,
por ouvir só um lado da questão,
por negar espaço aos demais atores envolvidos
na questão...não só “aos
demais”, mas a todos os atores possíveis,
valorizando o contraditório, a polêmica,
a diversidade, na certeza de que jornalismo não
é tese de mestrado, é obra aberta
ao debate público.
No gênero Informativo, o leitor espera do
jornalista todos os detalhes sobre o fato ou a
pessoa, bem como as circunstâncias que envolvem
ou envolveram o fato. Não se trata de opinar,
mas de abrir o leque de opções para
o leitor sentir-se bem informado a respeito. Isto
envolve muito trabalho de pesquisa e não
é tarefa para jornalistas preguiçosos
que preferem o declaratório oficialista
que se pode pegar por telefone ou através
da assessoria de imprensa.
No gênero Opinativo, trata-se exatamente
de cumprir a mais nobre missão do jornalismo
que é orientar as pessoas sobre o rumo
dos acontecimentos. Para Ricardo Noblat, o Brasil
precisa, urgentemente, começar a aprender
com outros países onde o jornalismo impresso
já percebeu que não basta tentar
seguir as pegadas da mídia eletrônica
para ficar sempre em cima do fato, isto é,
para ter um noticiário sempre atualizado.
É preciso ir além. Mas como o impresso
poderá ir além da televisão
e da Internet? Parece absurdo, mas isto não
é impossível. O autor cita um exemplo
clássico e recente: Os analistas políticos
de norte a sul do Brasil “sentiram”
que Roseana Sarney não tinha outro caminho
senão retirar a candidatura à Presidência
da República em meados de 2002. No entanto
isto só foi noticiado quando ela mesma
anunciou tal decisão. Já na primeira
Guerra do Golfo, a CNN anunciou o início
da guerra antes dela ter eclodido.
Entretanto, não se trata de fazer futurologia
ou “chutar” comentários avançados
sobre o futuro. Trata-se de ter uma equipe de
profissionais altamente qualificados e capazes
de quebrarem a barreira das 24 horas que separam
uma edição da outra no jornalismo
impresso, passando a fazer para o leitor não
o “jornal de hoje” sobre os fatos
de ontem, mas o “jornal de amanhã”,
com os fatos que serão notícia,
isto é, mostrando os desdobramentos possíveis
de uma história, de uma iniciativa, de
uma ação. Se contextualizar o acontecido
já exige enorme trabalho de apuração,
comentar o futuro de um fato naturalmente não
é para qualquer um. Principalmente quando
muitos jornais aproveitam para terceirizar a própria
redação, tentando assim reduzir
custos de produção cortando já
não na carne, mas no coração
do próprio jornal. Cada vez mais, porém,
é o investimento em qualidade que vai fazer
a diferença. Principalmente quando a Internet
chegar à metade dos lares brasileiros como
em outros países. Ela ainda está
engatinhando, como um manso cordeiro, mas vai
se transformar num leão voraz para quem
não atualizar os modos e maneiras de fazer
jornal.
Também não pode faltar, no jornalismo,
o gênero Recreativo que proporciona o lúdico,
o agradável, o perfunctório, o “dolce
far niente” tão valorizado na sociedade
moderna em sua tentativa permanente de fugir do
stress, conforme descreve Domenico De Masi, entre
outros estudiosos do ócio com dignidade.
É um gênero que faz sucesso no jornalismo
atual, inclusive nas revistas fartamente coloridas.
Mas, o que queremos tratar aqui, nesta busca de
soluções para ajudar o leitor a
entender melhor o jornal de cada dia, é
do gênero Interpretativo que surgiu com
o chamado Novo Jornalismo, na década de
60, em nosso país.
Aprofundemos a reflexão a respeito.
Embasamento Teórico - Para o racionalismo
grego de Platão e Aristóteles, conhecer
significa entender as causas. Não é
possível conhecer sem pesquisar, sem estudar,
sem se aprofundar, sem ter humildade diante dos
fatos.
Aquele que se considera dono da verdade acaba
agindo como o califa que ordenou a destruição
da biblioteca de Alexandria argumentando que ou
os livros diziam o mesmo que o Corão, e
neste caso eram supérfluos, ou então
diziam algo diferente, e neste caso eram errados
e perniciosos.
A interpretação contida no texto
reflete apenas o ponto de vista do autor sobre
o assunto tratado. Segundo Umberto Eco ("Interpretação
e Superinterpretação". São
Paulo: Martins Fontes, 1993) "um texto é
um universo aberto onde o intérprete pode
descobrir infinitas interconexões".
Ele acrescenta que "a linguagem é
incapaz de apreender um significado único
e preexistente. A linguagem espelha, pois, a inadequação
do pensamento. Qualquer texto que pretenda afirmar
algo unívoco é um universo abortado".
Eco considera que "o leitor real é
aquele que compreende que o segredo de um texto
é seu vazio". Cita o paradoxo linguístico
formulado por Macedonio Fernandez: "Neste
mundo faltam tantas coisas que, se faltasse mais
uma, não haveria lugar para ela".
Citado por Nilson Lage (1998) o jornalista americano
Ivy Lee diz que "o esforço para apresentar
um fato absoluto é simplesmente uma tentativa
de alcançar o humanamente impossível;
tudo o que eu posso fazer é dar a minha
interpretação".
A esse respeito, Nilson Lage conta uma historinha
criada por outro jornalista americano, Derick
Daniels, para mostrar como a interpretação
é uma visão particular do fato:
"O padre, o geólogo e o vaqueiro contemplavam
pela primeira vez o Grand Canyon:
- Uma das maravilhas de Deus - disse o padre.
- Uma das maravilhas da ciência - disse
o geólogo.
- Um lugar danado de bom prá criar gado
- disse o vaqueiro".
Se antes o que diferenciava os jornais era a "notícia-furo",
hoje, com o conceito de furo e "segundo-clichê"
esvaziado pelos meios eletrônicos da era
digital, o que diferencia um bom jornal ou uma
boa agência de notícias é
a capacidade de seus profissionais para interpretar
os fatos e ajudar o leitor a entender melhor a
realidade à sua volta. Agindo assim o jornal
cumpre sua principal missão que é
prestar serviços ao leitor.
Como disse Eco, nada tem significado único,
portanto cada um interpreta conforme seus referenciais
( "o padre, o geólogo e o vaqueiro")
sobre o contexto dado. É exatamente isto
que diferencia o jornal, tirando-o da pasteurização
monótona que o apresenta como um clone
de outros tantos jornais do mesmo dia pelo país
afora.
É o próprio leitor - hoje muito
mais exigente - que cobra do seu jornal preferido
a melhor orientação sobre os fatos,
confirmando a Teoria da Recepção,
de Jauss (1994), segundo a qual o receptor comanda
o contexto de produção do discurso.
Exemplo claro do bom êxito dessa política
de serviço ao leitor foi o lançamento
do jornal "Valor", em 2001, destinado
a interpretar o fato econômico, com impressão
simultânea no Rio e em São Paulo,
com circulação nacional. Isto se
faz à luz do processo de globalização
que transforma a economia em assunto de interesse
direto não apenas dos investidores do sistema
financeiro, mas também do homem do povo.
Naturalmente não se conceberia uma demanda
desse tipo em outras épocas, quando o fato
econômico não era tão presente
e tão complexo a ponto de exigir esse tipo
de "tradução" para o entendimento
comum. A observação não invalida,
todavia, a crítica de que a mídia
não especializada foca exageradamente a
economia, passando informações técnicas
que o povo não entende e que não
têm qualquer relação com o
seu dia-a-dia.
O Interpretativo funciona, na verdade, como um
texto especializado.Isto requer especialização
na formação dos futuros profissionais
e é função dos meios acadêmicos
proporcionarem este ensino de qualidade, “no
entanto, a inadequação dos jovens
profissionais para a produção de
textos é a maior queixa de editores e empresas”,
alerta Nilson Lage em sua obra mais recente.
Interpretar é Investigar - O gênero
Interpretativo está relacionado com o jornalismo
investigativo. É um texto que se diferencia
do meramente informativo e mesmo do simplesmente
opinativo, embora alguns autores não vejam
tanta diferença entre interpretativo e
opinativo.
No informativo trata-se apenas de relatar os fatos
conforme já visto na estrutura da notícia,
bastando responder às perguntas clássicas.
No texto opinativo trata-se de mostrar claramente
o pensamento do jornal ( Editorial ) ou do articulista
( matéria assinada ).
No gênero Interpretativo o objetivo é
mostrar ao leitor as várias consequências
que um fato pode gerar, estudando suas origens,
analisando suas implicações. Noticiar
o bombardeio dos caças da OTAN sobre Kosovo,
na Iugoslávia, é Informativo. Condenar
esses ataques é Opinativo. Analisar as
causas e consequências da guerra no contexto
europeu é Interpretativo.
Cremilda Medina ( obra citada ) vê no gênero
Interpretativo exatamente essa investigação
sobre os antecedentes do fato, suas significações
indiretas e seu contexto. A investigação
jornalística muitas vezes torna-se um desafio.
A este respeito, Nilson Lage (2.001) cita artigo
de Roberto Fisk, decano dos correspondentes ocidentais
no Oriente Médio, publicado no jornal El
Pais, de Madri: “...desafiar a autoridade
faz parte do trabalho de um jornalista”.
Conforme Lage, “jornalistas não são
sacerdotes nem se espera que sejam militantes
de causa alguma. Dessa não-militância
é que resulta sua competência moral
para o desafio. Devem desenvolver uma persona
profissional tal que – a despeito de crenças
e valores pessoais, compromissos de classe e de
cultura – possam registrar os fatos e as
idéias do nosso tempo com honestidade,
concedendo à fonte o direito de ser como
é e ao público o direito de escolher
de que lado ficar”.
Ainda para diferenciar o gênero Interpretativo
do gênero Informativo não podemos
esquecer as influências que os jornalistas
sofrem ao longo da formação escolar
e da própria vida. Eles “são
assaltados por ideólogos de diferentes
cores – revolucionários, reacionários,
guerreiros, pacifistas, homossexuais, ecologistas
e místicos – todos pretendendo convencê-los
a aceitar versões sem crítica e
a fraudar os fatos em nome de grandes ou pequenos
objetivos”. A capacidade de desenvolver
espírito crítico e de ter idéias
próprias a respeito dos fatos do mundo
é que determinará o potencial do
texto interpretativo, muito além do mero
informativo.
O jornalismo investigativo, realizado com ética,
seriedade e muita pesquisa, tem se revelado um
poderoso aliado no processo de comunicação,
na medida que diferencia o jornal abrindo espaço
para denúncias que abalam o país
e conquistam o respeito dos leitores. Não
se trata do "denuncismo", do "jornalismo
declaratório" feito nos gabinetes
e nas redações, condenado por respeitados
nomes como Alberto Dines, mas de trabalho acurado,
com informações bem checadas, com
suado trabalho de campo.
Esse tipo de jornalismo é o terror de governantes,
políticos e empresários corruptos.
Por isto mesmo o governo tentou aprovar, no início
de 2001, no Congresso, a Lei da Mordaça,
punindo autoridades policiais e judiciais que
permitissem o acesso da imprensa a processos em
andamento. Com tal lei em vigor teria sido difícil
remover do governo Collor a "República
de Alagoas". Afinal, só depois que
a imprensa movimenta a opinião pública
denunciando a corrupção é
que as autoridades começam a agir para
recuperar o mínimo de dignidade na coisa
pública.
Um pouco de História - Durante a cobertura
da I Guerra Mundial, o público americano
passou a exigir que os jornais explicassem melhor
o que se passava na Europa e como aqueles fatos
- envolvendo familiares dos imigrantes - poderiam
influenciar a vida deles.
Surgiram assim veículos especializados
em interpretação como "Time
Magazine", em 1923, criada por dois jovens
jornalistas empenhados em mostrar uma nova dimensão
da notícia: seus antecedentes, seus significados,
seu contexto. Foi especialmente o confronto com
o Rádio e o Telejornalismo dos anos 30
e 40 que fixou, aos poucos, a interpretação
como um critério de informação
na imprensa. No Brasil, segundo Cremilda Medina,
são bem mais tardios os sintomas de uma
transformação no jornalismo.
Na primeira metade do Séc. XX havia ainda
no país uma alta taxa de analfabetismo,
além de dificuldades técnicas e
falta de hábito de leitura. Mas, na segunda
metade do século a situação
mudou completamente com o processo de industrialização
que trouxe o homem do campo para as cidades; com
o surgimento da TV; com as novas tecnologias incorporadas
pelos jornais; com o amplo processo de alfabetização
e melhoria das escolas; com o surgimento das Faculdades
de Comunicação e a especialização
da mão-de-obra de jornais; com o advento
dos multimeios ( computador, CD Ron, fax, celular,
vídeo-câmara, internet ); com a TV
por assinatura e a comunicação digital
que multiplicaram o alcance da mídia.
Pesquisadores identificam grandes mudanças
no jornalismo brasileiro a partir de determinados
fatos como a revolução editorial
do Diário Carioca ( 1947); a fundação
da TV Tupi ( 1951 ); o aparecimento do jornal
Última Hora ( Samuel Wainer ) e a reforma
do Jornal do Brasil ( Alberto Dines-1956).
Em 1964, imitando o N. Y. Times, o Jornal do Brasil
fundou seu Departamento de Pesquisa e Documentação,
sob a orientação de seu editor-chefe,
Alberto Dines, o que costuma ser considerado o
marco inicial do jornalismo interpretativo em
nosso país.
Inicialmente o material coligido pelo Departamento
de Pesquisa era anexado à cobertura de
atualidades, mantendo-se duas estruturas independentes
( conforme análise de Mário Erbolato
). Mas o Departamento foi se afirmando e as matérias
interpretativas foram deixando aquele caráter
de verbete enciclopédico para se transformarem
numa unidade, onde a notícia é filtrada
em meio a seus antecedentes históricos
e outros fatos que participam do mesmo contexto.
Em São Paulo o Jornal da Tarde foi o primeiro
a se interessar pelas transformações
que ocorriam no jornalismo carioca.
Surgiu, então, o que Dines chama de "jornalismo
de autor" dos anos 60. Os textos eram assinados
e apresentavam qualidade literária, como
na revista Realidade. Inspirados na Escola Realista,
os autores reproduziam fielmente o contexto dos
fatos.
Nos últimos anos esse tipo de texto perdeu
o vigor, optando-se pelo texto mais curto, a chamada
"notícia modular", com farta
ilustração, para deixar o jornal
visualmente bonito como na tela colorida da TV.
Entretanto, muitos estudiosos, entre eles o próprio
Alberto Dines, defendem a necessidade do jornal
trilhar seu próprio caminho - que é
o caminho do aprofundamento, da pesquisa, da investigação,
do bom texto interpretativo - ao invés
de tentar competir com os meios eletrônicos,
notadamente a TV e a Internet.
No inusitado episódio do charuto na Casa
Branca, ficou patente que esta é uma corrida
perdida. Enquanto os jornais esperavam aflitos
a liberação dos depoimentos da estagiária
Mônica Lewinsky para publicação
no dia seguinte, o mundo inteiro tomava conhecimento,
na véspera, dos mais escabrosos detalhes
do "affair" pela Internet.
Na Guerra do Golfo, enquanto os jornais fotografavam
e coligiam dados, a CNN mostrava o "show"
ao vivo e a cores 24 horas por dia, o tempo todo,
todo o tempo. Nos atentados de 11 de setembro
a busca de informações detalhadas
na Internet colocou a rede em colapso pela primeira
vez. Não se pode falar em competir. A televisão
não mostra o fato que aconteceu. Ela mostra
o fato acontecendo. A defasagem com o jornal é
de no mínimo um dia ou uma noite de diferença.
São muitas horas.
Mas o consumidor de notícias vai procurar
o jornal do dia seguinte para ter mais detalhes,
assim como o internauta vai ler o jornal de papel
com o mesmo objetivo. São meios diferentes,com
atividades e finalidades específicas.
Está claro que o rádio não
acabou com o livro, a TV não acabou com
o rádio e nem a TV e o Rádio juntos
acabaram ou vão acabar com os jornais,
muito menos a Internet. O suporte de papel é
insubstituível em sua especificidade, pelo
menos no modo conhecido. As mídias se complementam
e todas se voltam para a conquista do leitor através
de serviços de qualidade.
O diferencial é exatamente a qualidade.
A investigação, a interpretação
é que farão o diferencial no jornal
impresso.Nessa dimensão seria injusto ignorar
o trabalho de interpretação da realidade
nacional desenvolvido pelos jornais alternativos
durante a ditadura militar. Jornais como Pasquim,
Opinião, Movimento etc abrigaram nomes
que honraram o jornalismo brasileiro pela capacidade
de explicitarem a indignação do
povo diante das atrocidades do poder, mesmo quando
esse povo encontrava-se anestesiado pela lavagem
cerebral da propaganda oficial permeada pela imprensa
burguesa. Que achava “popular” ou
“simpática” a demagógica
figura do ditador Garrastazu Médice torcendo
no estádio com um radinho de pilha colado
no ouvido.
Tipos de Interpretação - São
interpretativas não apenas as grandes reportagens
que descem fundo nos assuntos e muitas vezes se
tornam livro-reportagem ( como "Rota 66",
de Caco Barcelos, ou "A Guerra dos Meninos",
de Gilberto Dimenstein, ou "Chatô -
O Rei do Brasil", de Fernando Morais, ou,
também de Fernando Morais, o recente trabalho
sobre a Shindo Renmei no Brasil: “Corações
Sujos”. São Paulo: Cia. das Letras,
2.000) mas também os pequenos comentários
que visam "traduzir" o assunto para
melhor entendimento do receptor.
Interpretar é dar detalhes, é apoiar-se
em fontes especializadas, é conduzir o
leitor por entre o emaranhado dos fatos, a partir
do esclarecimento dos próprios fatos. Isto
exige pleno domínio do assunto.
-Interpretar não é editorializar,
mas dar ao leitor elementos suficientes, relacionados
à raiz e à essência dos fatos,
para que ele forme opinião", ensina
o Manual de Redação e Estilo de
O Globo. Também diz que "jornal não
é oráculo. No entanto, está
nas suas atribuições somar dois
e dois e chegar a quatro, sabendo usar a memória.
A receita de uma boa matéria interpretativa
é simples: acrescentam-se aos fatos do
dia comportamentos anteriores, leis e regulamentos
que se aplicam ao tema, posições
e opiniões conhecidas de pessoas ou instituições".
Exemplo: Para tentar entender o raciocínio
do Assassino do Parque (o Motoboy) ou do estudante
que matou pessoas no cinema em S. Paulo, não
basta apenas noticiar os fatos como se fazia antigamente.
É preciso ouvir especialistas. Para entender
uma medida do governo que atinge os trabalhadores
ou os contribuintes do Imposto de Renda, é
preciso entrevistar pessoas capazes de clarear
a situação.
Trata-se, também, de não acolher
a informação do modo como ela vem
e apenas passá-la adiante porque isto é
jornalismo declaratório. É preciso
verificar o que está por trás da
informação, sobretudo as oficiais.
Agindo assim o jornalista estará pelo menos
tentando evitar a manipulação que
desgasta e até aniquila tantos profissionais
da imprensa.
O presidente da Sociedade Americana de Editores
de Jornais, Newbold Noyes, uma vez comentou que
"os repórteres são preguiçosos
e superficiais, habitualmente tratando acontecimentos
oficiais como notícias, não se notando
a situação real atrás desses
acontecimentos". Ele reconhece que o pior
de nossa preguiça e de nosso desempenho
superficial é que nós da imprensa
permitimos ser manipulados.
Na Editoria de Política, por exemplo, o
jornalista tem excelente espaço para exercer
com brilhantismo o texto interpretativo, cabendo,
aqui, os conselhos do mais brilhante entre os
jornalistas políticos brasileiros da segunda
metade do século XX, Carlos Castello Branco,
conforme registra Nilson Lage (2001): “O
repórter que se obriga a contar o que viu
e a transmitir o que ouviu, na notícia
impessoal, subordina-se à linha de objetividade
narrativa comum a todos os setores da reportagem.
Ele não pode, ou pelo menos não
deve, interferir nos fatos, mas apenas transmiti-los
dentro do melhor processo técnico, a partir
do lead. Seu trabalho é evidentemente importante,
mas não é o suficiente. O episódio
político tem conotações próprias
e o fato se insere num contexto que deve ser esclarecido.
A notícia nua e crua não o revela
em todas as suas nuanças. Ele deve ser
didaticamente desmontado. Essencialmente dinâmico,
muda de aspecto de hora em hora. É impreciso
e sinuoso e muitas vezes ameaça ser e não
é. Está em permanente elaboração.
O que é lógico: a política
é uma constante divergência e conciliação,
um interminável processo dialético...”
(palestra na UFMG-1968).
Na política ou em qualquer outro setor
do jornalismo interpreta-se não apenas
através do texto verbal mas – e com
muita propriedade – também com imagens.
Entre os vários tipos de linguagem não-verbal
destacam-se a foto, a charge, o infográfico,
a ilustração, o modo de diagramar,
o tipo de letras, o destaque na página...tudo
isto ajuda a interpretar porque facilita a compreensão
do leitor. A foto do jovem diante da coluna de
tanques na Praça da Paz Celestial, em Pequim,
é capaz, por si só, de interpretar
todo o contexto daquele momento histórico.
A comunicação não-verbal
tem fortíssimo poder de interpretação
dos fatos porque pode ser decodificada por todos.
Até os iletrados guiam-se, no trânsito,
pela sinalização. A imagem, tal
como a música, desconhece fronteiras linguísticas
e culturais, como estão a ensinar os semioticistas.
Sobre as técnicas de produzir o texto interpretativo
não há muito o que acrescentar ao
resumo já dado pelo manual de O Globo.
É a notícia, no seu modo clássico,
completada com detalhes e informações
esclarecedoras. Basta ter em mente que não
se trata de persuadir o receptor sobre determinado
fato, como no Opinativo, mas de lhe oferecer tudo
sobre o assunto, para que ele mesmo se sirva.
“É preciso ter capacidade de contar
a notícia com tantos detalhes que o texto
se torne um eco fiel do fato original, recuperando
sua capacidade de surpreender enquanto atribui
a capacidade de compreendê-la”, ensina
Leão Serva (2001).
O lado humano - Quem interpreta um fato, uma declaração,
uma iniciativa oficial ou qualquer notícia
está sempre preocupado em passar ao leitor
a informação mais completa. No jornalismo,
todos buscamos uma identidade com o leitor. Ele
será tanto mais fiel ao jornal de cada
dia se o veículo, através de seus
textos, tiver capacidade de se identificar com
ele, com os fatos da sua vida, isto é,
se for possível passar algum tipo de interatividade.
Por isto, um viés estrategicamente correto
da interpretação é buscar
o lado humano do fato. Se se trata de uma declaração
sobre custo de vida ou aumento de preços,
ou mudanças no Imposto de Renda ou mesmo
da direção do trânsito em
nossa cidade, é necessário que o
jornalista coloque-se no lugar do leitor e busque
mais detalhes que possam facilitar o entendimento
da matéria em suas minúcias. Se
o fato a noticiar é um acidente de trânsito
ou uma catástrofe, o bom intérprete
será aquele capaz de se aprofundar no lado
humano da história, de ouvir pessoas, aquele
que não transforma gente em mera e fria
estatística.
Warren Burkett ( 1990) registra: “As pessoas
gostam de ler sobre outras pessoas. Quando o trabalho
de um cientista tem significado e impacto, ou
proporciona reconhecimento ou fama, tal como o
Prêmio Nobel, os redatores podem achar mais
fácil centrar suas histórias na
forma pela qual a pessoa trabalha em ciência.Os
subterfúgios, hobbies, ou outros interesses
não-científicos que as pessoas têm
podem ajudar o redator a mostrar o cientista como
um ser humano afetuoso, minucioso, às vezes
falível, buscador, freqüentemente
falível, com o qual os leitores podem se
identificar”.
Na
avaliação de Al Neuharth, criador
do USA Today, citado por Caio Túlio Costa,
o modo de interpretar os fatos acaba caracterizando
um jornal. Ele acha possível compreender
bem um jornal pelo título que ele daria
à maior de suas reportagens – a do
fim do mundo:
-
The New York Times: “Acaba o mundo. Terceiro
mundo mais atingido”.
-
The Washington Post: “ Acaba o mundo. Fonte
não identificada diz que a Casa Branca
ignorou advertências”.
-
USA Today: “Estamos mortos! Números
de vítimas, estado por estado, página
8A. Últimos (mesmo) resultados esportivos,
página 10C”.
No
Brasil, segundo o ombudsman, esse tipo de manchete
poderia sair assim:
-
Estado: “Conforme advertimos, o mundo acabou”.
-
Globo: “ Anunciado: o fim do mundo”.
-
Folha: “ Mundo acaba, admite ONU; 43% da
população discorda”.
Analisando
criticamente o jornal em que trabalhava, Caio
Túlio queria dizer que a Folha tinha mania
de usar pesquisas de opinião: “Suas
manchetes diversas vezes ficam na aparência,
se restringem ao noticiário “declaratório”
– quando não estão baseadas
totalmente em pesquisas cujos resultados, algumas
vezes, trazem pouca novidade ou pouco significam
no contexto”.
Quem
está na área acadêmica sempre
tem muitas críticas para os grandes jornais
porque eles estão mais visíveis.
Por outro lado, a grande mídia é
o objeto de desejo de todo jornalista recém-formado.
Mas ninguém repara nos pequenos jornais
que somam algo em torno de mil títulos
em todo o interior do Brasil, a maioria dos quais
no interior de São Paulo. Além desses,
instalados comercialmente, há milhares
de jornais de bairro, jornais institucionais,
jornais empresariais especializados no trabalho
comunitário, no serviço à
comunidade e que acabam sendo um mercado de bom
tamanho para os novos jornalistas que disputam
um mercado de tantos candidatos e tão poucas
vagas formais.
Por
isto focaremos nossa pesquisa no Jornalismo Comunitário,
a partir do Capítulo III.
Capítulo III
1.
Características do pequeno jornal
Especialistas têm demonstrado que o Brasil
teria uma imprensa mais democrática e mais
comprometida com os verdadeiros interesses do
povo se o poder da mídia estivesse menos
concentrado nas mãos de poucas famílias
situadas nas principais metrópoles do país.
Talvez um jornalismo mais popular – porém
não populista – não precisasse
focar com tanta ênfase a alta economia,
aquela que envolve os grandes investimentos e
os mega-negócios, num país onde
o povo não tem salário nem para
chegar até o final do mês, quanto
mais para investir na Bolsa. Claro que há
um segmento de público à espera
desse noticiário e da orientação
que ele proporciona. Mas não é o
grande público. Este quer saber apenas
porque o gás de cozinha sobe tanto; porque
a energia e o telefone têm tantos reajustes;
porque é preciso pagar tanto imposto embutido
no preço do feijão e dos alimentos
em geral. Trata-se, portanto, não apenas
de divulgar os aumentos mas de explicar porque
eles estão acontecendo, se é por
causa da entressafra, ou por causa da seca, ou
do excesso de chuva, ou mesmo da elevação
do dólar, ou das pressões corporativas
do setor (como se dá nos postos de gasolina
quando a Petrobrás autoriza novos preços)
porém, sempre sob a ótica do povo,
com palavras que o povo possa entender, sem “economês”
como se todos fôssemos ilustres membros
da elite nacional, como se todos morássemos
na Av. Paulista. O noticiário econômico
é apenas um sintoma do apego da imprensa
brasileira às elites. Também pertencem
às elites as grandes cadeias de empreendimentos
industriais, comerciais e de serviço. Portanto,
através das agências de publicidade,
a elite manipula o noticiário e impede
que se publiquem informações de
interesse público que possam contrariar
os seus negócios. Quanto mais fraco o jornal,
mais forte a pressão dos anunciantes. Outra
característica já apontada neste
trabalho é a forte tendência de ser
uma “imprensa chapa-branca”, sempre
com o pires na mão para que, através
de áulicos editoriais, consiga as benesses
do poder.
No pequeno jornal essas características
estão todas presentes. Não basta
o país ter mil jornais no interior. Poderia
ter a metade e eles teriam mais efeito se fossem
realmente livres, soberanos, independentes, a
serviço do coletivo e não de grupos,
de prefeitos, de deputados, de vereadores, de
empresários gananciosos interessados em
faturar concorrências públicas etc.
Entre os pequenos jornais, há dois tipos
principais. O jornal comercialmente instalado,
dentro dos parâmetros da Lei 5.250, a Lei
de Imprensa, devidamente registrados em cartório,
com inscrição no Ministério
da Fazenda, contador, jornalista responsável
etc. Podem ser jornais de tiragens médias,
situados em cidades acima de 100 mil habitantes,
mas também podem ser minúsculos
jornais que rodam até 500 exemplares com
impressora off-set alugada, ostentando recursos
de Internet e toda a parafernália da informática
– como sites, câmaras digitais, celulares,
plotadoras etc – tanto na captação
como na produção do noticiário.
Em cidades de 50 mil habitantes, como Penápolis,
a 500 quilômetros de São Paulo, existem
jornais assim, onde o noticiário da Prefeitura
e da Câmara chega diariamente às
redações via Internet, devidamente
pronto para ser publicado.
Outro tipo de pequeno jornal, é o jornal
Comunitário, que existe em função
de uma comunidade, geralmente sem fins lucrativos,
arrecadando apenas os recursos necessários
a cobrir os custos, destinado a lutar em favor
da comunidade. Quando feito com seriedade, esse
jornal não tem dono – se assim se
pode dizer. A pauta nasce de reuniões com
os moradores, os problemas são resolvidos
pelo Conselho da Comunidade. Não se pode
aceitar verbas de um político ou de um
candidato que depois venha a usar a comunidade
em benefício próprio. Quem manda
na linha editorial é o povo. O Brasil precisaria
ter mais jornais assim, com liberdade para dizerem
o que pensam porque não estão submetidos
a nenhuma canga de prefeito, de político,
ou de empresário.
O jornal comunitário tanto pode circular
no bairro, como na fábrica, na escola etc.
Alguns fazem confusão com Jornal Especializado.
Mas não há motivo para confusão.
Basta lembrar que o Especializado trata de temas
específicos de uma determinada categoria
social. Assim, o jornal ou a revista especializada
em assuntos odontológicos poderá
circular por todo o Estado e até pelo país.
Mas jamais será um veículo comunitário,
mesmo quando se dirige à “comunidade
dos dentistas brasileiros”, porque neste
caso o termo comunidade é tomado em outro
sentido, isto é, pessoas que comungam dos
mesmos assuntos. Pode ser a Comunidade Católica
(ou Judaica ou outra qualquer) Brasileira ou Universal,
a Comunidade Islâmica, a Comunidade Médica
etc.
O sentido que se aplica ao termo para Jornalismo
Comunitário, é o sentido de “comum-unidade”,
isto é, pessoas que vivem em determinado
local, que vivenciam problemas específicos,
que têm lutas em comum a serem travadas
e vencidas. Refere-se ao convício das pessoas
em determinada unidade geográfica que pode
ser um ambiente interno ( escola, fábrica
etc) ou externo ( rua, bairro, quarteirão
etc).
Mesmo que essa diferenciação de
sentidos não apresente muita razão
de ser, o certo é que não se pode
confundir Jornalismo Especializado (ou Temático)
com Jornalismo Comunitário.
Capítulo
III
1.
Características do pequeno jornal
Especialistas têm demonstrado que o Brasil
teria uma imprensa mais democrática e mais
comprometida com os verdadeiros interesses do
povo se o poder da mídia estivesse menos
concentrado nas mãos de poucas famílias
situadas nas principais metrópoles do país.
Talvez um jornalismo mais popular – porém
não populista – não precisasse
focar com tanta ênfase a alta economia,
aquela que envolve os grandes investimentos e
os mega-negócios, num país onde
o povo não tem salário nem para
chegar até o final do mês, quanto
mais para investir na Bolsa. Claro que há
um segmento de público à espera
desse noticiário e da orientação
que ele proporciona. Mas não é o
grande público. Este quer saber apenas
porque o gás de cozinha sobe tanto; porque
a energia e o telefone têm tantos reajustes;
porque é preciso pagar tanto imposto embutido
no preço do feijão e dos alimentos
em geral. Trata-se, portanto, não apenas
de divulgar os aumentos mas de explicar porque
eles estão acontecendo, se é por
causa da entressafra, ou por causa da seca, ou
do excesso de chuva, ou mesmo da elevação
do dólar, ou das pressões corporativas
do setor (como se dá nos postos de gasolina
quando a Petrobrás autoriza novos preços)
porém, sempre sob a ótica do povo,
com palavras que o povo possa entender, sem “economês”
como se todos fôssemos ilustres membros
da elite nacional, como se todos morássemos
na Av. Paulista. O noticiário econômico
é apenas um sintoma do apego da imprensa
brasileira às elites. Também pertencem
às elites as grandes cadeias de empreendimentos
industriais, comerciais e de serviço. Portanto,
através das agências de publicidade,
a elite manipula o noticiário e impede
que se publiquem informações de
interesse público que possam contrariar
os seus negócios. Quanto mais fraco o jornal,
mais forte a pressão dos anunciantes. Outra
característica já apontada neste
trabalho é a forte tendência de ser
uma “imprensa chapa-branca”, sempre
com o pires na mão para que, através
de áulicos editoriais, consiga as benesses
do poder.
No pequeno jornal essas características
estão todas presentes. Não basta
o país ter mil jornais no interior. Poderia
ter a metade e eles teriam mais efeito se fossem
realmente livres, soberanos, independentes, a
serviço do coletivo e não de grupos,
de prefeitos, de deputados, de vereadores, de
empresários gananciosos interessados em
faturar concorrências públicas etc.
Entre os pequenos jornais, há dois tipos
principais. O jornal comercialmente instalado,
dentro dos parâmetros da Lei 5.250, a Lei
de Imprensa, devidamente registrados em cartório,
com inscrição no Ministério
da Fazenda, contador, jornalista responsável
etc. Podem ser jornais de tiragens médias,
situados em cidades acima de 100 mil habitantes,
mas também podem ser minúsculos
jornais que rodam até 500 exemplares com
impressora off-set alugada, ostentando recursos
de Internet e toda a parafernália da informática
– como sites, câmaras digitais, celulares,
plotadoras etc – tanto na captação
como na produção do noticiário.
Em cidades de 50 mil habitantes, como Penápolis,
a 500 quilômetros de São Paulo, existem
jornais assim, onde o noticiário da Prefeitura
e da Câmara chega diariamente às
redações via Internet, devidamente
pronto para ser publicado.
Outro tipo de pequeno jornal, é o jornal
Comunitário, que existe em função
de uma comunidade, geralmente sem fins lucrativos,
arrecadando apenas os recursos necessários
a cobrir os custos, destinado a lutar em favor
da comunidade. Quando feito com seriedade, esse
jornal não tem dono – se assim se
pode dizer. A pauta nasce de reuniões com
os moradores, os problemas são resolvidos
pelo Conselho da Comunidade. Não se pode
aceitar verbas de um político ou de um
candidato que depois venha a usar a comunidade
em benefício próprio. Quem manda
na linha editorial é o povo. O Brasil precisaria
ter mais jornais assim, com liberdade para dizerem
o que pensam porque não estão submetidos
a nenhuma canga de prefeito, de político,
ou de empresário.
O jornal comunitário tanto pode circular
no bairro, como na fábrica, na escola etc.
Alguns fazem confusão com Jornal Especializado.
Mas não há motivo para confusão.
Basta lembrar que o Especializado trata de temas
específicos de uma determinada categoria
social. Assim, o jornal ou a revista especializada
em assuntos odontológicos poderá
circular por todo o Estado e até pelo país.
Mas jamais será um veículo comunitário,
mesmo quando se dirige à “comunidade
dos dentistas brasileiros”, porque neste
caso o termo comunidade é tomado em outro
sentido, isto é, pessoas que comungam dos
mesmos assuntos. Pode ser a Comunidade Católica
(ou Judaica ou outra qualquer) Brasileira ou Universal,
a Comunidade Islâmica, a Comunidade Médica
etc.
O sentido que se aplica ao termo para Jornalismo
Comunitário, é o sentido de “comum-unidade”,
isto é, pessoas que vivem em determinado
local, que vivenciam problemas específicos,
que têm lutas em comum a serem travadas
e vencidas. Refere-se ao convício das pessoas
em determinada unidade geográfica que pode
ser um ambiente interno ( escola, fábrica
etc) ou externo ( rua, bairro, quarteirão
etc).
Mesmo que essa diferenciação de
sentidos não apresente muita razão
de ser, o certo é que não se pode
confundir Jornalismo Especializado (ou Temático)
com Jornalismo Comunitário.
É importante traçar esse paralelo
porque os públicos são diferentes.
O Especializado vai girar, principalmente, em
torno de um tema especificamente destinado à
categoria tal. Já o comunitário
vai ser um jornal de conteúdo variado,
que procura não apenas refletir as questões
locais, mas que também busca traduzir para
a comunidade os fatos do país e do mundo.
É um jornalismo que fala diretamente ao
coração das pessoas, sempre com
palavras simples, capaz de jamais se enganar sobre
os nomes das pessoas do local, por exemplo. É
uma linguagem preferencialmente coloquial, quase
intimista, bem diferente do formalismo próprio
do Especializado. Todos devem ser ouvidos com
respeito, com carinho, com atenção,
mesmo quando não saibam se expressar direito.
Já no Especializado o repórter conversará
com especialistas em cada matéria abordada,
pois o produto vai ser consumido por um público
altamente esclarecido sobre o tema daquela edição.
Na verdade, o verdadeiro jornalismo comunitário
– seja no impressos, seja nas Rádios
Comunitárias – faz diariamente uma
troca de idéias com as pessoas. Assim a
comunidade vai crescendo em organização,
em consciência política, na compreensão
da realidade, valorizando-se como cidadãs
e aprendendo a olhar o mundo com outros olhos,
com um olhar crítico e participativo, não
com um olhar cabisbaixo e alienado. Assim se constrói
um país soberano e livre.
Mas seria preciso que essa idéia fosse
inculcada nos estudantes de jornalismo como um
verdadeiro sacerdócio. No entanto, o que
se vê é que alguns cursos de Comunicação
Social estão extinguindo a disciplina “Jornalismo
Comunitário”, substituindo-a por
Jornalismo Especializado, como se fosse a mesma
coisa, ou por Jornalismo Online que está
na moda. Também esse é um modo de
valorizar a vocação elitista da
nossa imprensa, cortando o atalho da comunicação
popular e formando apenas os futuros ases da Globo,
os repórteres especializados na cobertura
da Bolsa de Valores e na participação
em entrevistas ministeriais ou palacianas.
Os futuros jornalistas têm mercado de trabalho
farto e abundando tanto nos jornais do interior
formalmente estabelecidos, como nos pequenos jornais
comunitários que faturam apenas para pagar
as despesas (inclusive com os profissionais que
os fazem). Por enquanto, é o mercado formal
– isto é, os jornais comercialmente
estruturados, mesmo que pequenos e circulando
em pequenas cidades – que mais tem espaço
para os novos profissionais. Por isto vamos refletir
um pouco mais sobre esse segmento da imprensa
brasileira, geralmente representado em cada estado
pela respectiva “Associação
de Jornais do Interior” e, nacionalmente,
pela Associação Brasileira de Jornais
do Interior, com sede em Brasília. Podemos
dar um nome a esta reflexão: “O papel
do jornal no Interior”.
Em 1992, a acadêmica Isabel Siqueira Travancas
aproveitou sua dissertação de mestrado
para fazer uma pesquisa sobre o modo de vida dos
jornalistas, entrevistando dezenas de profissionais
no Rio de Janeiro. O resultado foi “O Mundo
dos Jornalistas” ( São Paulo: Summus,
1992), hoje obrigatório para todos os estudantes
de jornalismo.
Nas páginas 88/89 ela descreve que o sonho
de todo jornalista dos grandes centros urbanos
é “ser dono de um jornal”,
ou ter um bar, para “se libertar do esquema
empresarial dos grandes jornais e do próprio
anonimato”. Uma jornalista entrevistada
pela pesquisadora disse que gostaria de montar
o seu próprio negócio, sem patrão,
no esquema de cooperativa, para fazer algo criativo
e que dê dinheiro também. “
Não ter patrão e possuir um negócio
seu parecem palavras-chave para entender o imaginário
deste grupo”, diz Isabel referindo-se aos
profissionais mais jovens.
Depois de constatar que “o jornalismo é
uma profissão que se aprende nas redações,
na prática”, Isabel Siqueira Travancas
constata, em sua pesquisa, que “outro ponto
importante a enfatizar é que a grande maioria
dos órgãos de comunicação
do país são empresas privadas com
fins lucrativos. São poucas as estações
de rádio ou canais de televisão
do Estado. Isso
também
demonstra que o jornalismo se desenvolveu junto
com a sociedade e dentro dela, sendo o jornal
um produto de consumo. Raros são os jornais
de cooperativa, sem fins lucrativos ou com empregados
que trabalhem principalmente por amor à
arte. O jornalismo hoje faz parte da sociedade
capitalista, e o jornalista é uma peça
importante dessa engrenagem que produz notícias”.
Essa transformação do jornal do
século XIX – voltado para a defesa
dos costumes, as virtudes morais e sociais, a
publicação de novelas, extratos
de história, resumo de viagens, trechos
de autores clássicos e anedotas –
para o jornalismo de mentalidade empresarial do
século XX, começando já em
torno de 1875, foi observada por outra pesquisadora
da USP, Cremilda Medina, em “Notícia
– Um Produto à Venda ( São
Paulo: Summus, 1988). Segundo ela “as grandes
agências de notícia se encarregaram
de implantar internacionalmente, após a
II Guerra, o modelo de consumo norte-americano
– a notícia como um produto de venda
no mercado urbano e industrial”.
Cremilda critica a falta de maturidade e de conhecimento
histórico do jornalista brasileiro: “
...assim como o brasileiro alfabetizado médio,
também o produtor de informação
não pesquisa a história de sua cultura,
a história de seu povo, a história
da sociedade em que está inserido como
canal e agente de comunicação”.
Aqui chegamos ao ponto da lição
que dá título ao tema de hoje: Jornal
do Interior.
O interior do Brasil conta com mais de mil jornais
diários, semanais, bi-semanais, tri-semanais,
quinzenais e mensais. O estado que mais concentra
esse tipo de jornalismo é São Paulo,
com mais de 500 jornais, quase um por município.
São jornais que circulam em todo tipo de
comunidade, mesmo em cidades de 5 mil ou 50 mil
habitantes em média, constituindo, inclusive,
amplo mercado de trabalho para os estudantes de
comunicação, principalmente com
a legalização do estágio
em jornalismo, daí a oportunidade de olhar
mais de perto para este segmento, tendo em vista
a saturação dos grandes meios de
comunicação voltados para políticas
de enxugamento de custos que sempre resultam em
dispensa de profissionais optando-se pela terceirização
( produção independente ) ou pelo
free-lancer, que não envolve encargos trabalhistas.
Segundo o Sindicato dos Jornalistas do Estado
de São Paulo, o trabalho dos free-lancers
é uma verdadeira aberração
na capital paulista: eles vão à
redação diariamente, lá têm
uma mesa com telefone, micro etc mas não
têm qualquer vínculo com a empresa...ou
aceitam essa situação humilhante
ou ficam desempregados, caso não consigam
abrir o próprio negócio, muitas
vezes na forma de assessoria de imprensa independente.
Assim, tentar refúgio em jornais de porte
médio do interior é sempre uma saída
possível, apesar dos baixos salários.
No interior de São Paulo há 436
jornais filiados à Associação
dos Jornais do Interior. Segundo essa entidade,
54% dos leitores de jornal, no interior paulista,
lêem somente o jornal da sua cidade, contra
11% que só lêem jornais da Capital.
Entre os leitores, 35% são assinantes de
jornais da Capital e também do local. A
Adjori também informa que a tiragem média
dos jornais do interior paulista é de 3.900
exemplares e faz as seguintes contas em seu Anuário
de 1998: “Considerando-se as tiragens dos
jornais Folha e Estado, da Capital, e dividindo-se
pelos 625 municípios paulistas, a distribuição
média em cada município seria de
353 e 228 exemplares, respectivamente. Porém,
a maior parte da tiragem de ambos (51%) é
destinada ao público da Capital. Dos 49%
restantes, 30% são destinados ao interior
e 19% vão para outras Capitais e para cidades
do interior de outros Estados. Assim, conclui-se
que a tiragem de um jornal do interior paulista,
na sua própria cidade, é 11,04 vezes
maior que o da Folha e 17,10 vezes maior que a
do Estado”.
Esse crescimento dos pequenos jornais estaria
diretamente ligado ao poder econômico do
interior paulista que tem taxas de crescimento
e indicadores sociais comparados aos de países
desenvolvidos. Por exemplo: 21% da produção
industrial do Estado; 51,6% da receita do comércio;
11,9% das famílias com renda do tipo classe
A; 2,2 de cada dez eleitores paulistas; eleitorado
equivalente à soma de 10 estados brasileiros;
consumo de 15% de toda a produção
brasileira; oito diretorias exclusivas do maior
banco particular do país etc, conforme
dados publicados no citado anuário.
Em 4 de junho de 2.000, a Organização
Mundial de Saúde divulgou, em Genebra,
uma nova forma de calcular a expectativa de vida
que considera o estado de saúde da população
e os anos de incapacidade, ao invés de
contabilizar apenas a idade da morte. Os dados
mostram que o Brasil é um país nitidamente
dividido entre norte e sul, com regiões
como o Estado de São Paulo, onde os índices
se equiparam aos 20 países mais saudáveis,
em que a expectativa de vida oscila de 70,5 anos
(Finlândia) a 74,5 anos (Japão),
contra 59,1 anos da média nacional. Levando-se
em conta o contingente populacional do interior
paulista em relação à Grande
São Paulo, percebe-se porque tantos paulistanos
procuram o interior para morar, em busca de melhor
qualidade de vida.
E é no interior de São Paulo que
situa-se o curso de Jornalismo da Unesp.
Portanto, é oportuno estudar esse segmento
empresarial e profissional.
Como é ser jornalista no interior?
Antes de mais nada é preciso conhecer de
perto esse mercado ainda dominado por muito aventureirismo
empresarial, o que leva alguns meios acadêmicos
a se distanciarem dele ao confundirem tal atividade
com pura e simples “picaretagem”,
isto é, um jornalismo voltado apenas para
o faturamento, sem distinção entre
notícia e matéria paga, resultando
em baixa credibilidade diante do público,
principalmente por causa das influências
políticas, partidárias, econômicas,
religiosas etc.
Mas as novas tecnologias estão mudando
esse segmento. Pressionados pelos leitores –
que estão cada vez mais exigentes à
medida que podem confrontar o “jornalzinho”
da cidade com outros jornais que chegam de fora
e mesmo com o conteúdo noticioso da TV
aberta, da TV por assinatura, do rádio
e da Internet - os jornais do interior estão
se modernizando e se organizando. Muitos já
estão associados à Associação
Nacional de Jornais que, por sua vez, é
filiada à Associação Mundial
de Jornais, tendo um código de ética
próprio e até verificação
de circulação. Os pequenos fazem
parte da Associação dos Jornais
do Interior (com sede em cada estado ) e da Associação
Brasileira de Jornais (com sede em Brasília).
Há também a Associação
dos Jornais de Bairro e a Associação
Brasileira de Veículos de Comunicação,
além do Sindicato dos Proprietários
de Jornais. A maioria dessas entidades conta com
sites na Internet.
Os próprios jornais estão conectados
na rede porque a maioria opera em off-set, portanto
com o uso regular do computador, restando ainda
alguns, mesmo no Estado de São Paulo, que
trabalham no antigo sistema de chumbo e linotipia.
A mesma classificação de empresas
capitalistas que as pesquisadoras Cremilda Medina
(em 1988) e Isabel S. Travancas (em 1992) atribuem
aos jornais brasileiros deve ser atribuída,
naturalmente, aos jornais do interior. Eles vivenciam
uma experiência empresarial, com a característica
de serem menores, num público menor, onde
as pressões são maiores e mais diretas,
tanto por parte dos leitores como dos anunciantes.
Sob este aspecto, ser dono de jornal não
é o “mar de rosas” sonhado
pelos repórteres dos grandes centros que
Isabel Travancas entrevistou. Muitas vezes resulta
em terríveis dores de cabeça, principalmente
quando o jornalista-empresário pretende
se manter incorruptível, sem ceder a este
ou aquele grupo da comunidade, buscando servir
apenas, e o mais imparcialmente possível,
aos seus leitores.
A primeira grande dificuldade de quem decide montar
o próprio jornal, em pequenas comunidades,
é separar Jornalismo e Publicidade. Embora
difícil, este é um passo importante
e decisivo para dar ao noticiário do jornal
uma linha de independência a serviço
da comunidade. Havendo esta separação
física e clara entre uma e outra atividade,
com pessoas diferentes para cada atividade, será
possível preservar, de algum modo, a soberania
da cobertura jornalística. Para ter bom
resultado, o jornal do interior precisa ter êxito,
primeiro, nessa divisão de trabalho, isto
é, necessita de um profissional que consiga,
honestamente, carrear publicidade para as páginas
do jornal e de um corpo de jornalistas interessados
em fazer jornalismo para atender prioritariamente
à comunidade. Do contrário o que
se terá é um jornal destinado apenas
a apoiar um partido, uma empresa, um grupo político,
o prefeito, uma denominação religiosa
etc, sendo, portanto, não um jornal para
a comunidade, mas um jornal partidário
ou de grupo, afinal, um jornal parcial, aí
sim muito próximo da picaretagem que só
degrada a profissão.
Por isto, ao buscar mercado de trabalho no interior,
o estudante de comunicação que deseja
fazer uma carreira séria, procura se informar
sobre a base de sustentação econômica
do jornal para saber até onde poderá
exercer seu ofício com liberdade, pelo
menos nos níveis de liberdade consentida
nos jornais de expressão, já que
o Código de Ética e a Lei de Imprensa
valem para todos que exercem o jornalismo, independentemente
da tiragem. As penas da Lei de Imprensa não
são atenuadas para quem exerce o jornalismo
em pequenas comunidades. Portanto, as responsabilidades
são iguais.
Naturalmente, os salários são menores.
O próprio Sindicato dos Jornalistas do
Estado de São Paulo tem um piso menor para
os profissionais do interior. Mas há compensações
em viver no interior. O risco é trocar
o salário de R$ 10 mil em São Paulo
ou em Brasília pela tentação
de ser dono do próprio negócio no
interior sem verificar, antes, como será
a sustentação econômica da
empresa.
Geralmente, nas cidades com cerca de 50 mil habitantes,
o principal cliente do jornal é a prefeitura.
Em muitos casos essa dependência cria uma
vinculação excessiva entre o jornal
e o poder público municipal, de modo que
o leitor vai encontrar nas páginas do jornal
não o noticiário sobre a cidade,
mas o noticiário sobre a administração
municipal. Já há cidades no interior
de São Paulo onde os releases municipais
da prefeitura, Câmara e autarquias chegam
aos jornais locais e regionais via Internet. E
o mesmo ocorre com os atos oficiais para o veículo
vencedor da concorrência pública.
Por isto, por comodidade e para reduzir custos,
o jornal acaba dando vazão a todos os releases
disponíveis no computador ao invés
de pagar repórteres para irem atrás
de fatos novos que, muitas vezes, interessam à
comunidade mas desagradam à prefeitura.
Quando há substituição do
partido ou da coligação partidária
no poder, o jornal muda apenas os nomes dos novos
donos do poder, mas o estilo de trabalho continua
o mesmo, sempre privilegiando a visão oficial
e esquecendo-se da principal razão de ser
de qualquer jornal digno do nome que é
o leitor, a comunidade, a coletividade.
Ficar preso à prefeitura é o pior
mundo possível para um jornal que quer
ter uma atuação comunitária
porque ao fazer acordo para publicação
de atos oficiais e notícias prontas da
prefeitura, o jornal acaba vendendo a própria
alma e perde a independência para tratar
da vasta gama de assuntos que interessam à
comunidade. Há profissionais éticos
que preferem perder o emprego ou até o
próprio negócio – se donos
- quando o jornal envereda por caminhos tão
perigosos.
O melhor rumo para um jornal pequeno é
seguir o mesmo plano do grande jornal: Lutar para
manter e ampliar sempre sua base de assinantes,
de modo a ser financiado pelo único patrão
que merece ser bem servido no jornalismo ético:
o leitor. Isto exige bom planejamento administrativo
na estratégia de relacionamento com os
assinantes velhos e novos e bom produto final
porque o leitor dará preferência
ao jornal bem feito, sério, isento, independente,
que está a serviço da comunidade
e não deste ou daquele grupo de poder.
Sob este ponto de vista, teremos jornais “de
comunidade” (voltados para a comunidade
) e jornais “comunitários”.
Neste último caso trata-se do jornal feito
pelos próprios moradores do bairro ou da
vila, sem fins lucrativos, como num mutirão,
onde a linha editorial é discutida pelos
representantes da comunidade, sendo o jornal um
produto coletivo para a coletividade. No primeiro
caso, trata-se de um jornal com proprietário
identificado, que administra e cuida do jornal,
porém aberto a todos, democraticamente,
zelando pela ética, evitando prender-se
a grupos, colocando-se inteiramente a serviço
dos leitores e apenas deles dependendo para continuar
circulando, bem como de anunciantes médios
que não interfiram na linha editorial.
Outro modelo é o jornal mantido por uma
entidade – como uma universidade, por exemplo
– em que não há interferência
editorial, sendo o objetivo maior servir à
comunidade.
Em seguida vamos discutir o conteúdo dos
jornais do interior.
Jornalismo “segura peão!” -
Engana-se totalmente quem imagina que jornalismo
no interior é só festa. Muitos acham
que o repórter do interior não faz
outra coisa senão cobrir festa de rodeio,
churrasco do prefeito e inauguração
de obras municipais.
Até os pequenos jornais estão se
estruturando em modos profissionais e empresariais.
Os antigos jornais de família, fundados
por um advogado, um professor, um militar aposentado
etc vão cedendo espaço a organizações
empresariais que já optam até mesmo
pela terceirização, além
de assinarem serviços noticiosos e de receberem
colunas diárias pela Internet.
Quem tem uma idéia na cabeça e um
computador na mão não precisa, necessariamente,
fazer um “jornal de roça”.
Se fizer, não terá leitores. Se
tiver, perderá em pouco tempo. Se o leitor
está se atualizando, movido pelos processos
inerentes à Globalização,
não resta outra saída às
empresas de comunicação senão
seguir a toada. A maioria já compreende
o conceito de “globalização
local”, isto é, de realizar na comunidade
a integração que se verifica a nível
global entre os países. Trata-se, pois,
de valorizar os fatos locais, a história
local, as pessoas do lugar, sem perder de vista
o que passa pelo mundo (pleonasticamente ) globalizado.
Muitos autores mostram que longe de desaparecer
diante da enxurrada de notícias do mundo
globalizado que chega por todos os lados e da
forma mais “on line” (se é
que se pode usar tal palavra como sinônimo
de concomitante para significar “enquanto
o fato está acontecendo” ou “momentos
após ele ter acontecido” ), os jornais
de comunidade tendem a crescer de importância
pois é para ele e para os demais veículos
sérios do lugar, que a comunidade se volta
como náufraga do mar global de notícias
em busca de referência, de ponto de apoio,
de reconhecimento da própria identidade.
No jornal da cidade ou na emissora de rádio
local, o receptor sabe que seu nome não
vai sair errado e só ali ele ficará
sabendo que o trânsito da rua da sua casa
vai mudar de mão. Isto não seria
possível no grande jornal globalizado que
chega pelo correio às 10h.
O jornal do interior como “leitura local”
será sempre insubstituível como
marco referencial da comunidade, cabendo aos jornais
regionais ou mesmo aos jornais dos grandes centros,
o papel secundário de “segunda leitura”,
exatamente por causa da absoluta necessidade de
identificação entre emissor e receptor,
característica acentuada do jornal de comunidade.
À medida que se colocar a serviço
da comunidade para lutar pelas causas coletivas,
à medida que tiver a comunidade como sua
única referência e preocupação,
o jornal do interior conquistará prestígio
e respeito, cabendo-lhe, depois, zelar por esse
patrimônio com a responsabilidade e o equilíbrio
de seu noticiário. Ao profissional desse
tipo de jornal caberá reconhecer a importância
social que a comunidade lhe atribui, mas, ao mesmo
tempo, exercer seu trabalho com ética e
humildade, sem jamais se deixar levar pela tentação
de tirar proveito pessoal do seu status. Os que
agem com seriedade ficam na memória histórica
da cidade, os que traem a confiança da
comunidade são execrados e esquecidos para
sempre.
A carreira de muitos jornalistas de renome começou
no pequeno jornal do interior e isto prova que
em qualquer lugar há espaço para
a ética, a seriedade, a competência,
o texto bem apurado, a interpretação
adequada do fato. Afinal, jornalista do interior
também acessa o Observatório da
Imprensa na Internet e está passando o
tempo em que esse ofício era apenas uma
atividade caricata ou folclórica no interiorzão
do país, nos “grotões”
citados por Ulisses Guimarães.
Grande número de pequenos jornais do interior
também já possui portais na Internet,
com atualização durante o dia. Os
repórteres já trabalham com câmaras
digitais gravando as fotos em disquete e descarregando
a imagem direto no computador. Os repórteres,
entre uma cobertura e outra, são acionados
pelo celular. O mais curioso e inusitado é
que, apesar de estarem no interior, esses jornais
falam pouco ou quase nada da área rural.
Quando muito noticiam o início da safra
nas usinas de açúcar e álcool
ou a construção de pontes nos chamados
“bairros rurais”. Na verdade são
jornais que procuram “substituir”
a segunda-leitura, isto é, tentam evitar
que o assinante seja obrigado a assinar o jornal
do grande centro, bem mais caro, para ficar bem
informado, daí a publicação
de páginas com assuntos nacionais e internacionais
ao invés de se dedicar espaço para
os assuntos da zona rural.
Outra explicação seria o acentuado
processo de urbanização que tirou
o homem do campo a partir das décadas de
50 e 60 conforme dados do IBGE, não havendo
público para ler o jornal na zona rural,
além de ser mais difícil a cobertura
e a distribuição posterior do jornal.
O pensamento que norteia estes veículos
e que lhes dá uma tonalidade urbana apesar
de estarem no interior, é que os donos
de sítios e fazendas que ainda exploram
atividades rurais, na verdade, vivem e moram nas
pequenas cidades onde o jornal circula. Daí
a preocupação em encerrar a distribuição
do jornal diário antes das sete horas da
manhã, antes que o leitor pegue sua camioneta
para ir trabalhar.
Outro fenômeno “urbano” dos
jornais do interior é o sistema de impressão
a cores que está chegando rapidamente às
cidades de 100 mil habitantes, provocando o surgimento
de novos cadernos que, naturalmente, exigem profissionais
especializados, apesar de boa parte do material,
tipo matéria-fria, ser fornecido pelas
agências de notícia. A maioria desses
jornais estrutura suas páginas de modo
semelhante à diagramação
dos grandes jornais, com primeira página
bem desenhada onde ficam as chamadas para as páginas
de dentro, sempre divididas com material opinativo
na página 2 e material local a partir da
página 3, seguindo o noticiário
nacional e internacional, a página de lazer
com roteiro de filmes, novelas, horóscopo
etc, os classificados e o segundo caderno, num
total de 24 páginas aproximadamente. Nas
pequenas cidades, com cerca de 50 mil habitantes,
o número de páginas é de
apenas 10, em média, para os diários
e um pouco mais para os semanários.
Na esteira do crescimento dos pequenos jornais
estão surgindo inúmeros cursos de
formação universitária, embora
englobando, ainda, profissões assemelhadas
como Jornalismo, Publicidade, Relações
Públicas e até Turismo. Por sinal,
o turismo e a ecologia são temas que estão
ganhando espaço no interior, principalmente
aqui no interior de São Paulo, com o surgimento
dos grandes lagos formados pelas hidrelétricas
da CESP no Rio Tietê e com o crescimento
do turismo rural que aproveita ambientes propícios
de antigas fazendas.
Portanto, quem olha dos grandes centros para o
jornalismo do interior, não deve imaginar
que os colegas “do campo” praticam
um “jornalismo de caverna”, a não
ser que se trate da “caverna digital”
que acaba isolando os “produtores independentes”
em casa (temerosos da insegurança e do
trânsito das megalópoles) como observa
Ciro Marcondes Filho (“Jornalismo Fin-de-Siècle”.
São Paulo: Scritta, 1993) e os jornalistas
na redação, “apurando”
pelo telefone , como observa Alberto Dines (“O
Papel do Jornal”. São Paulo: Summus,
1986).
Fazer “jornal de verdade” independentemente
do veículo circular na Av. Paulista ou
em Penápolis, é um desafio que se
impõe aos novos jornalistas que ingressam
num mercado altamente desenvolvido do ponto de
vista tecnológico. Mas jornal de verdade
não se faz apenas usando os mesmos recursos
de informática que se usam em Tóquio,
Paris ou Nova Iorque, mas produzindo um jornal
sério, independente, bem escrito, bem diagramado.
Alberto Dines (1986) destaca o que significa ser
“independente” para um jornal:
-Um
grande jornal deve comportar-se sempre como se
fosse um pequeno jornal. Não apenas por
uma questão de humildade, mas também
em função da preservação
de seus princípios. Toda vez que um dirigente
de jornal, ou alguém do escalão
que o represente, disser, em tom de desculpa,
“afinal, há grandes interesses em
jogo...”, significa que estamos num grande
jornal que já se esqueceu dos dias em que
foi pequeno”.
Apesar
do jornal do interior visar lucro como qualquer
outra empresa, ele não é uma empresa
qualquer. Se tentar ser, isto é, se o seu
objetivo for somente o lucro, então será
uma “picaretagem” a mais, sem credibilidade,
uma empresa que usa o nome de jornal mas que também
poderia se chamar catálogo, folheto, lista
de palavras ou qualquer coisa assim. Para ter
o direito de ser chamado de “jornalzinho”
(não no sentido pejorativo, mas na conotação
de cálido, próximo da gente, gente
de casa – como se fosse um amigo ou um irmão
mais velho em quem a gente confia com segurança)
o pequeno jornal do interior precisa ser grande
como os maiores títulos do mundo em ética,
boa apuração, bom texto, isenção
e independência.
Dines
também lembra que em qualquer lugar do
mundo “o único compromisso de jornais
e jornalistas é com a informação.
Seu empenho nesta tarefa faz, de um jornal qualquer,
um jornal livre, logo um grande jornal. Uma nação
de grandes jornais é uma grande nação.
Sem este valor intrínseco, sem este quilate
que advém de um entendimento superior das
suas funções, um jornal, por melhor
que seja organizado e construído, será
apenas um catálogo de notícias”.
2. Instrumento de Transformação
Social
Por suas características peculiares, o
jornal voltado para comunidades específicas
deve ser, naturalmente, um instrumento de transformação
social, sem o que não faz sentido. Para
tanto, o profissional deve trabalhar sempre imbuído
dos melhores princípios éticos,
tanto no relacionamento com a própria comunidade,
como no relacionamento com as fontes de informação.
Muitas vezes é aqui que mora o perigo.
Devido à proximidade, não raro as
fontes tentam manipular o jornal em proveito próprio.
Outras vezes é o jornalista que se aproveita
do seu prestígio na sociedade para deturpar,
com prepotência, o que foi dito, conforme
os seus interesses ou os interesses do jornal.
Ambos são caminhos errados, a serem evitados,
por mais fortes que sejam as pressões e
as tentações.
Um modo de identificar-se com a comunidade, buscando
permanente interação com ela, é
valorizar a cultura e os costumes locais.O jornalismo
comunitário deve estudar mais a fundo a
formação histórica e social
da população à qual se dirige.
Aprofundar-se nos costumes que caracterizam a
cultura popular (religiosidade, arte, vida familiar,
formas de sociabilidade, educação
etc) e aprender a respeitar e valorizar essa cultura,
reconhecendo nela um processo dinâmico e
vivo, é um bom começo para quem
se inicia no jornalismo comunitário.
Para captar a alma do povo, o jornalista será
sempre um observador privilegiado e um estudioso
da sociologia, aprendendo que os regionalismos
integram, na sua multiplicidade de variantes,
a alma do povo brasileiro. Nas linhas finais de
sua última obra (O Povo Brasileiro –
A formação e o sentido do Brasil.
São Paulo: Cia. das Letras, 1995), Darcy
Ribeiro traça um perfil que todo jornalista
deve conhecer e sobre o qual deve refletir para
bem cumprir o seu ofício de comunicador:
“...apesar
de feitos pela fusão de matrizes tão
diferenciadas, os brasileiros são, hoje,
um dos povos mais homogêneos lingüística
e culturalmente e também um dos mais integrados
socialmente da Terra. Falam a mesma língua,
sem dialetos. Não abrigam nenhum contingente
reivindicativo de autonomia, nem se apegam a nenhum
passado. Estamos abertos é para o futuro”,
afirma o sociólogo depois de estudar as
origens étnicas de nosso povo no índio,
no negro e no europeu, mais tarde enriquecidas
com a chegada dos orientais.
Diante de tanto jornalista deslumbrado com outras
culturas e por isto mesmo alimentando complexos
de inferioridade pelos traços culturais
de seu país ou de sua região, Darcy
Ribeiro proclama:
“Nações
há no Mundo Novo – Estados Unidos,
Canadá, Austrália – que são
meros transplantes da Europa para amplos espaços
além-mar. Não apresentam novidade
alguma neste mundo. São excedentes que
não cabiam mais no Velho Mundo e aqui vieram
repetir a Europa, reconstituindo suas paisagens
natais para viverem com mais folga e liberdade,
sentindo-se em casa. É certo que às
vezes se fazem criativos, reinventando a república
e a eleição grega. Raramente. São,
a rigor, o oposto de nós”.
A vocação latina do povo brasileiro,
a natural integração continental
da América do Sul, cada vez mais discutida
em nossos dias, a partir do Mercosul retomado
na Administração de Luis Inácio
Lula da Silva, é vislumbrada pelo sociólogo:
“Nosso
destino é nos unificarmos com todos os
latino-americanos por nossa oposição
comum ao mesmo antagonista, que é a América
anglo-saxônica, para fundarmos, tal como
ocorre na Comunidade Européia, a Nação
Latino-Americana sonhada por Bolívar. Hoje,
somos 500 milhões, amanhã seremos
1 bilhão. Vale dizer, um contingente humano
com magnitude suficiente para encarnar a latinidade
em face dos blocos chineses, eslavos, árabes
e neobritânicos na humanidade futura”.
Darcy Ribeiro deixou-nos um legado de otimismo
que muitas vezes falta ao jornalista:
“Estamos
nos construindo para florescer amanhã como
uma nova civilização, mestiça
e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre,
porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora
em si mais humanidades. Mais generosa, porque
aberta à convivência com todas as
raças e todas as culturas e porque assentada
na mais bela e luminosa província da Terra”.
Na Comunidade, o jornalista verá refletido,
como num espelho, um pouco de cada um dos matizes
que conformam a alma brasileira. Na cobertura
diária, nas reuniões com o povo,
nas festas populares, nas tradições
locais, o comunicador entrará em contato
com o Brasil crioulo, o Brasil caboclo, o Brasil
sertanejo, o Brasil caipira, os Brasis sulinos,
de que fala o mesmo autor.
“Embora
nos ensinem a ter um modo de vida refinado, civilizado
e eficiente – numa palavra, culto –
não conseguimos evitar que muitos objetos
e práticas que qualificamos de populares
pontilhem nosso cotidiano. Samba, frevo, maracatu,
vatapá, tutu de feijão e cuscuz,
seresta, repente, folheto de cordel, congada,
reisado, bumba-meu-boi, boneca de pano, talha,
mamulengo, colher de pau, moringa, peneira, carnaval,
procissão, benzimento, quebrante, simpatia,
chá de ervas etc são palavras familiares,
algumas numa região, outras noutra, com
sotaque italiano, japonês, alemão
ou árabe, ou ainda de modo supostamente
puro”, observa o pesquisador Antonio Augusto
Arantes em “O Que é Cultura Popular”
( São Paulo: Brasiliense, 1985).
Resgatando a cultura popular ( que tanto pode
ser instrumento de conservação como
de transformação social, segundo
Ferreira Gullar), nas suas várias manifestações,
o jornalismo comunitário estará
contribuindo para a formação da
cidadania, para que o desconforto das pessoas
contra a desigualdade social gerada pela política
neo-liberal não se transforme em mero sentimento
de constrangimento ou de vergonha, mas que se
afirme como o inconformismo que leva à
luta por uma situação de justiça,
de igualdade, de solidariedade.
Por isto mesmo o jornalismo comunitário
não deve se voltar para grupos, porque
isto significaria oprimir ainda mais o povo através
da desinformação ou do sectarismo
político-partidário. Deve, isto
sim, abraçar as causas populares e usar
a força do veículo comunitário
junto aos que têm poder de decisão
para forçar a solução dos
problemas que afligem a comunidade, no seu dia-a-dia.
É
nobre e de grande responsabilidade a tarefa do
jornalismo comunitário.
A propósito de cultura popular e cidadania,
o educador Paulo Freire participou, como conferencista,
da produção de um vídeo popular
em apoio à campanha de erradicação
do analfabetismo promovida pelo Banco do Brasil
em maio de 1994, com o título “Educação
e Mudança”. E ao falar para educadores,
Paulo Freire está falando, naturalmente,
para líderes comunitários que têm
o pode de influir na opinião pública
do lugar onde trabalham. Entre esses líderes
estão, naturalmente, os jornalistas comunitários,
nos quais a comunidade aprende a confiar e dos
quais espera comportamento ético, sereno
e responsável.
Segundo ele, a tarefa do educador é uma
tarefa “gnosiológica”, isto
é, que envolve o processo do conhecimento.
Para transmitir ensinamentos, ele precisa ter
clareza política, visão de mundo
e método de trabalho. À medida que
transfere o conhecimento, ele “reconhece”
o que conheceu durante o estudo do objeto, capacitando-se,
assim, cada vez mais, como formador.
Na comunidade, o jornalista é permanentemente
convidado a integrar órgãos colegiados,
associações, grupos de debate, jurado
de eventos culturais etc. Isto ocorre porque a
comunidade reconhece nele a capacidade de liderar
e de influenciar. Dotado de princípios
éticos, o comunicador comunitário
deve aproveitar esse contato direto para estar
sempre aprendendo com a comunidade de modo a poder
servi-la cada vez melhor, sem jamais impor os
seus processos, mas sempre discutindo, democraticamente,
o melhor caminho em cada situação.
De quem lidera, a comunidade também aguarda
um pouco de esperança, de estímulo,
alguém que sabe não apenas criticar
mas também propor soluções.
Paulo Freire denuncia como artimanha do capitalismo
neo-liberal a estratégia de dizer que as
utopias morreram, que não adianta mais
sonhar, que a pobreza é um determinismo
histórico, que os pobres devem se conformar
com a vida que levam etc.
O formador de opinião deve enfrentar essa
barreira, segundo Freire, porque é uma
barreira imposta pela ideologia das classes dominantes.
O educador/formador deve resgatar a esperança
do povo num mundo melhor, fazendo-o sentir-se
sujeito da história e não mero objeto
dela ou um joguete do destino. Se há exclusão
social a culpa não é dos excluídos,
mas do modelo perverso de sociedade que temos.
Por isto a cidadania é um processo em permanente
construção, é um direito
a ser exercido por todos, sem qualquer tipo de
exclusão por analfabetismo, cor, situação
econômica, crença, convicção
política etc. Na medida que o comunicador
comunitário dá as costas para os
interesses do coletivo e passa a servir a este
ou aquele grupo, ele está traindo a confiança
da comunidade e retirando dela o direito à
cidadania. E ninguém pode tirar do outro
o direito de sonhar e de lutar. “A existência
ultrapassa a vida; pode haver vida sem sonho,
mas não há existência sem
sonho”, diz Paulo Freire esclarecendo que
existir socialmente, como cidadão, é
mais que viver biologicamente como qualquer ser
vivo.
O jornalista comunitário não pode
se limitar a perceber que tem nas mãos
o dever social de mudar o mundo, de torná-lo
melhor e mais justo. Ele precisa assumir, na prática,
esse discurso, colocando seu trabalho, seu jornal,
seu veículo, a serviço da coletividade
em toda e qualquer circunstância.
Se não estiver preparado para ter uma visão
crítica da história e da sociedade,
o jornalista poderá contribuir para alienar
ainda mais ao invés de libertar os excluídos.
“Quando o Sujeito não se reconhece
como produtor das obras e como sujeito da história,
mas toma as obras e a história como forças
estranhas, exteriores, alheias a ele e que o dominam
e perseguem, temos o que Hegel designa como alienação.
Esta é a impossibilidade do sujeito histórico
identificar-se com sua obra, tomando-a como um
poder separado dele, ameaçador e estranho”,
observa Marilena Chauí em O Que É
Ideologia ( São Paulo: Brasiliense, 1980).
Na comunidade, como já dito, o jornal e
o jornalista devem apoiar e incentivar as manifestações
da cultura popular, como teatro, música,
poesia, arte etc. Para Antonio Arantes, “fazer
qualquer modalidade de arte é construir,
com cacos e fragmentos, um espelho onde transparece,
com as suas roupagens identificadoras particulares,
e concretas, o que é mais abstrato e geral
num grupo humano, ou seja, a sua organização,
que é condição e modo de
sua participação na produção
da sociedade”
Um dos melhores instrumentos de trabalho do jornalista
que milita em grandes corporações
é a boa relação do profissional
com suas fontes de informação. No
pequeno jornal não deve ser diferente,
como já vimos. Afinal, como não
se faz bom jornalismo sem boas fontes de informação,
também não se faz veículo
comunitário sem boa apuração,
sem contar com uma rede de informações
confiável e suficientemente ampla para
manter o jornal bem informado. Não é
o fato da comunidade ser um universo fisicamente
menor que o dos grandes centros urbanos que dispensará
o jornalista de uma boa pauta e uma boa agenda
com nome, endereço e telefone de seus contatos.
A especificidade que se pode verificar no caso
do comunitário é, naturalmente,
a proximidade e quase “vizinhança”
do repórter com a fonte, mas isto como
que reproduz, por exemplo, o universo de Brasília,
a cidade com a maior concentração
de fontes do país nos palácios,
nos ministérios, no Congresso, nas embaixadas,
no Governo do Distrito Federal, nas autarquias
etc.
A relação de proximidade com a fonte,
é sempre uma relação potencialmente
perigosa, que pode levar a um envolvimento sem
retorno, a um nível em que a fonte passa
a manobrar o veículo ao “plantar”
informações de seu interesse. A
eqüidistância ética e equilibrada
( nem proximidade demais que envolva interferência,
nem distanciamento tal que não comporte
um telefonema fora de hora ) deve ser valorizada
e buscada pelo jornalista, e de forma tanto maior
quanto mais próxima for a “vizinhança”
com a fonte, conforme se dá no interior
das comunidades.
Por isto, vamos tratar, agora, do relacionamento
com as fontes.
Quando trabalhamos com veículos comunitários
não podemos dispensar o confronto e a diversidade
de opiniões para passar ao leitor uma informação
completa e bem interpretada. Agir sem essa preocupação
é correr para as facilidades de um jornalismo
superficial, rápido e sem apuração
alegando a velha e esfarrapada desculpa da falta
de tempo. Nasce daí um jornalismo faccioso,
tendencioso, anti-ético, a serviço
de grupos e não da comunidade.
Por menor que seja o universo de abrangência
do veículo – ainda que seja apenas
o jornal da escola – sempre será
possível e necessário estabelecer
o contraditório em busca da informação
total, redonda, completa, justa, ética,
para manter o receptor bem informado.
Isto tem a ver com boas fontes, mediante acurado
trabalho de pesquisa ou apuração,
através de entrevistas, consultas a publicações,
documentos, bibliotecas, arquivos etc. Afinal,
não há nenhum motivo para que um
jornal comunitário não seja tão
bem feito quanto um grande jornal. Apenas temos
um ambiente menor a ser trabalhado, mas as normas
éticas de apuração são
as mesmas, por isto todos devem respeito ao artigo
7º do Código de Ética do Jornalista
Brasileiro: “O compromisso fundamental do
jornalista é com a verdade dos fatos, e
seu trabalho se pauta pela precisa apuração
dos acontecimentos e sua correta divulgação”.
Assim, “se o repórter vai cobrir
a queixa dos moradores de que uma indústria
está poluindo um rio, deve ouvir não
só os moradores, mas também os donos
da indústria e as autoridades locais”,
alerta, de modo prático, o Manual de Telejornalismo
da Central Globo de Jornalismo, ao definir isenção
como a obrigação moral do repórter
ouvir os dois lados de um assunto polêmico.
Jornalismo de Compadre - Na comunidade, muitas
vezes corre-se o risco de fazer “jornalismo
de compadre”, para usar a expressão
de Francisco José Karan (em “Jornalismo,
Ética e Liberdade”. São Paulo:
Summus, 1997) quando nos contentamos com a informação
oficial sobre determinado assunto e não
vamos checar, confrontar, repercutir a notícia
antes de publicá-la, de tal modo que “os
donos do poder” passam a considerar “aquele
jornalista” totalmente “confiável”,
do ponto de vista deles, isto é, uma pessoa
que divulga a informação que foi
passada sem questioná-la, sem incluir outras
abordagens, sem gerar “incômodos desagradáveis”
etc, quando sabemos que a credibilidade, a confiabilidade
devem vir do público, do universo alcançado
pelo veículo e não deste ou daquele
grupo, se queremos fazer jornal comunitário.
Um exemplo desse “jornalismo de compadre”
é a “declaração não
autorizada” do então ministro das
Relações Exteriores, Rubens Ricupero,
à Rede Globo nas eleições
de 1994. Sem saber que os microfones estavam abertos,
o ministro explicou o modelo de “transparência”
do Governo FHC ao manipular índices inflacionários:
“O que é bom a gente divulga, o que
é ruim a gente esconde”. Para Karan
esse tipo de comportamento mostrou a promiscuidade
entre a Globo e candidatura de Fernando Henrique
Cardoso, num tipo de jornalismo que a emissora
e o governo viam (ou vêem ) como de interesse
social. É bem uma relação
de compadrio a promiscuidade entre governos neo-liberais
e a grande mídia, como Mário Sérgio
Conti ( ) conta do Governo Collor.
Nas pequenas comunidades não é raro
o jornal colocar-se a serviço do poder
municipal, por exemplo, com o pretexto de que
está servindo à população
ao divulgar, sem questionar, sem repercutir -
e muitas vezes na íntegra - as informações
fornecidas pela prefeitura ou pela Câmara
através de “press releases”
ou entrevistas. É o “jornalismo de
compadre”.
É
fácil explicar o interesse dos governantes
em manipular a informação, seja
na relação entre a Presidência
da República e a poderosa Rede Globo, seja
na imposição de um prefeito sobre
um pequeno jornal que precisa da publicação
dos atos oficiais para sobreviver. Francisco José
Karan registra a declaração que
Napoleão fez há 200 anos: “Se
perdesse o controle da imprensa, não duraria
três meses no poder”. Nos bastidores,
afirma-se, por exemplo, que o Brasil só
conseguiu o democrático exemplo do afastamento
de Collor da presidência, em 1992, depois
que a Globo retirou seu “apoio” ao
Presidente após tentar ignorar, de início,
os “caras pintadas” que exigiam o
impeachment nas ruas.
Considerando que o veículo comunitário
é “a leitura local”, concluímos
que dentro daquele universo ele faz as vezes da
Globo, do Estadão ou da Folha, isto é,
tem todas as condições de ajudar
ou prejudicar os governantes. Mas é preciso
que o jornalista jamais use o seu veículo
com tal objetivo, daí a imperiosa necessidade
de contar com outras fontes na divulgação
das informações municipais ou comunitárias.
Jornalismo Oficial - Compreende-se porque o jornalismo
comunitário preocupa-se tanto em obter
informações junto aos órgãos
oficiais. Primeiramente eles precisam de informação
e os governantes têm informação.
Em segundo lugar, é das autoridades que
os moradores reivindicam soluções
para os seus problemas diários de segurança,
buraco de rua, escolas, transporte coletivo, atendimento
de saúde, fornecimento de água e
luz, limpeza pública, coleta de lixo, taxas
e impostos excessivos etc. Em terceiro lugar é
sempre mais fácil e mais cômodo procurar
as fontes oficiais que têm telefone e outras
facilidades de serem alcançadas, que os
dirigentes comunitários e as pessoas da
própria comunidade.
É
natural esperar que o jornalismo comunitário
procure equilibrar o noticiário empenhando-se
em dar espaço à comunidade e privilegiando
as fontes comunitárias. Mas o comodismo
de buscar antes as fontes oficiais é um
defeito que não atinge só o comunitário,
mas também a grande mídia. Rememorando
os 30 anos iniciais do jornalismo brasiliense,
conta Venício A. de Lima (em “Jornalismo
de Brasília – Impressões e
Vivências”. Brasília: UnB,
1993 ) que “a principal pauta do jornalismo
de Brasília, tanto local quanto das sucursais,
tem sido a ação do governo federal,
entendido, aqui, sobretudo, como a ação
do Poder Executivo. O Legislativo e o Judiciário
ocuparam, historicamente, uma posição
secundária nessa agenda, decorrência
não só da atrofia provocada pelos
21 anos de autoritarismo militar, mas também
da herança de nossa tradição
política conservadora que sempre entendeu
a política como reduzida ao estado, leia-se
ao Poder Executivo”.
Entretanto é necessário despertar
a cidadania de modo que as comunidades percebam
a força da sua organização,
uma organização que será
tanto mais possível quanto maior for o
empenho ético do veículo comunitário
de se comprometer com essa tarefa social. O sociólogo
Betinho ( Herbert Viana ), em vídeo popular
gravado em maio de 1996, com o título “Cultura
Organizacional”, para o Programa de Formação
de Instrutores do Banco do Brasil, lembra aos
formadores de opinião que eles devem valorizar
a cidadania como “expressão de ação,
de quem não espera acontecer, exercendo
papel criativo e livre na construção
de uma nova sociedade..” porque, segundo
ele, “não é o Estado que salva
a sociedade, é o cidadão que impõe
uma política ao Estado democrático
onde a pessoa mais importante não é
o Presidente da República, é o Cidadão”.
Lembra o sociólogo que o cidadão
constrói a democracia quando delega poderes
ao estado, pelo voto, para que o estado possa
gerir os recursos sociais a serviço da
comunidade. E se o governante não cumpre
o que lhe foi atribuído, então é
afastado por impeachment.
A mania que a imprensa tem de privilegiar as fontes
oficiais, muitas vezes estabelecendo-se aquela
promiscuidade entre o repórter e a fonte,
é chamada de “fontismo” por
Gilberto Dimenstein e Ricardo Kotscho em “A
Aventura da Reportagem” ( São Paulo:
Summus, 1990): “O jornalismo independente
e, portanto, com credibilidade, significa atritos
com o poder – logo, com as fontes. Atritos
implicam boicote. Os repórteres não
recebem sequer as informações mais
ingênuas, como a data e o local onde o ministro
vai se reunir com empresários ou parlamentares.
Mas os editores exigem de seus comandados boas
notícias. É preciso, então,
um malabarismo para que não se fique tão
distante das fontes a ponto de perder a informação
– e nem tão próximo que signifique
deixar de publicá-la. A busca desse equilíbrio
exige a procura de novos e variados canais de
obtenção de dados, único
mecanismo para não cair nas armadilhas.
O esforço compensa: o jornalismo e os jornalistas
servis ganham o curto prazo, dão aqui e
ali um furo sem maior importância, mas,
a médio prazo, sofrem desgaste em sua credibilidade.
E por um simples motivo: os governantes passam,
voltam para casa, mas o jornalista e o leitor
ficam. Quem quiser ser jornalista e ambicionar
agrados do poder e, ao mesmo tempo, o respeito
profissional, é bom ir logo procurando
outra atividade”.
Em 1993 Geraldo Sobreira escreveu um manual para
orientar as fontes de notícia no trato
com os jornalistas. ( “Manual da Fonte –
Como lidar com os jornalistas”. São
Paulo: Geração Editorial, 1993).
E afirma: “ Na relação entre
o jornalista e a fonte – o profissional
da política, dos negócios, da propaganda,
da Justiçca, da polícia etc –
os repórteres sabem que não se ganha
informação de graça: a divulgação
de uma notícia sempre tem um objetivo,
que contraria uns e favorece outros”.
Segundo ele, “em toda instituição,
quem tem poder tem informação”.
Mas a diretora de O Globo, em Brasília,
Eliane Catanhêde, na mesma obra, define
o que considera uma boa fonte de notícias
na área oficial: “ A fonte de verdade
é uma pessoa bem informada. É quem
tem informação, sabe para onde as
coisas estão indo e cria fatos. Essas são
as melhores fontes. Ela participa do poder, é
bem informada sobre o poder e os partidos. E sabe
passar isso de forma clara e isenta para os repórteres
certos, na hora certa. Mas há também
o homem do poder que é o contrário,
que é uma má fonte. É o político,
o homem de poder que tem medo da imprensa. Não
dá informação, não
recebe, não sabe nada de imprensa e acha
que tudo é sigilo. Outro tipo é
aquele que não desgruda, persegue o repórter,
quer almoçar com ele toda semana,quer aparecer
a qualquer custo sem criar fatos que justifiquem”.
Geraldo alerta que “não é
só o Governo que tem poder. A oposição
é poder de fato, na medida em que influencia
e altera decisões de governo, induz o comportamento
da sociedade, cria fatos. O poder não está
só no Palácio do Planalto ou no
partido majoritário. Está no Congresso,
nos sindicatos, nas entidades da sociedade civil,
na Justiça, na polícia etc”.
Mônica Waldvogel, na mesma obra, declara:
“Eu respeito a fonte que, embora sabendo
a verdade e não podendo falar, diz que
não pode falar ou deixa isto claro.Detesto
a fonte que mente, que fala uma coisa contrária
àquilo que está acontecendo, porque
quer esconder os fatos e coloca o repórter
na pista errada”.
Sigilo da Fonte - Muitas vezes, na comunidade,
a pessoa de poder, aproveitando-se da fragilidade
econômica do veículo comunitário,
tenta intimidar o profissional da imprensa, exigindo,
entre outras coisas, que revele suas fontes de
informação. A este respeito, Mário
Erbolato (“Técnicas de Codificação
em Jornalismo”. São Paulo: Ática,
1991) cita o artigo 71 da Lei de Imprensa: “Nenhum
jornalista ou radialista, ou em geral as pessoas
referidas no artigo 25, poderão ser compelidos
ou coagidos a indicar o nome de seu informante
ou a fonte de suas informações,
não podendo o seu silêncio a respeito
sofrer qualquer sanção direta ou
indireta, nem qualquer espécie de penalidade”.
Sobre o “sigilo da fonte”, situação
em que o repórter trabalha com “declarações
em off”, isto é, sem citar a fonte
expressamente, Darcy Arruda Miranda (Comentários
à Lei de Imprensa. São Paulo: Revista
dos Tribunais, 1969) observa: “Do mesmo
modo que se asseguram aos profissionais das profissões
liberais o direito ao sigilo, no que se refere
às confidências de seus clientes
e de quem foram depositários, o mesmo direito
deve ter o jornalista, rádio-repórter
ou o comentarista. Muitas vezes o profissional
da imprensa, nas suas andanças em busca
de informações, é obrigado
a socorrer-se de fontes que não podem ser
reveladas”.
Segundo Miranda, a mesma lei que assegura ao profissional
de imprensa o direito ao sigilo quanto às
fontes de informação, respeita,
também, este sigilo, donde a incriminação
penal (pelo art. 154 do Código Penal) em
caso de ser ele revelado sem anuência do
informante.
Esse amparo legal assegura ao profissional da
imprensa, na avaliação do jurista,
maior amplitude na colheita ou busca de informações
de interesse público, não ficando,
de forma alguma, obrigado a revelar, em Juízo,
a sua fonte ou origem que tanto pode ser pessoa
como coisa (uma revelação pessoal
e sigilosa, uma conversa ou confidência
acidental, a leitura de um documento confidencial
ou não, a verificação de
um fato ocorrido na intimidade dos bastidores,
a descoberta de objeto ou pessoa procurada).
Também o art. 5º da Constituição
Federal, em seu parágrafo XIV, assegura
o direito de preservar a identidade da fonte:
“ É assegurado a todos o acesso à
informação e resguardado o sigilo
da fonte, quando necessário ao exercício
profissional”.
Portanto, é dever do estudante de Jornalismo
e dos repórteres iniciantes informarem-se
a respeito de seus direitos e deveres profissionais
para exercerem plenamente a profissão no
Jornalismo Comunitário. Afinal, a lei não
faz distinção entre “tamanhos”
de veículos, tanto assim que as penas para
os crimes de injúria, calúnia e
difamação são iguais para
todos, devendo o jornalista responder pelo que
publica. O próprio artigo 5º da Constituição
é iniciado com a seguinte premissa: “Todos
são iguais perante a lei, sem distinção
de qualquer natureza”.
Assessoria de Imprensa - Na comunidade, o jornalista
terá fontes de informação
na polícia, corpo de bombeiros, hospitais,
associações, prefeitura, câmara,
autarquias, justiça, representações
de órgãos estaduais e federais,
terminal rodoviário, clubes de serviço,
clubes recreativos, escolas, agências noticiosas,
Internet, outros veículos de informação,
pessoas que se destacam nos esportes ou na cultura,
cartas e telefonemas dos leitores e ouvintes,
funerárias, pessoas que procuram a redação,
etc.
Cada vez mais, porém, o jornalismo, inclusive
o comunitário, depara-se com a figura do
Assessor de Imprensa quando procura informações
em grandes empresas, sindicatos, órgãos
públicos etc mesmo no interior.
Nestes casos é preciso estar atento para
o fato de que, em muitas situações,
o compromisso do Assessor de Imprensa é
com o seu patrão, enquanto o compromisso
do jornalista é com o público. Sabemos
que não deveria ser assim. Mas, na prática,
percebe-se que o foco de interesse da Assessoria
pode não ser o mesmo que interessa ao veículo
comunitário, daí a necessidade ética
de submeter a informação da Assessoria
ao crivo de outras fontes e, também, de
repercuti-la com a própria comunidade.
Em “Assessoria de Imprensa-Teoria e Prática”
(Porto Alegre: Sagra-DC Luzzatto, 1993), Elisa
Kopplin e Luiz Artur Ferraretto advertem que “pressionar
para que notícias a respeito do assessorado
sejam publicadas, sonegar informações
de interesse, divulgar inverdades e defender os
interesses de quem o contratou acima dos da população
são problemas ainda freqüentes no
mercado brasileiro de Assessoria de Imprensa.
Em síntese, contrariam o Código
de Ética da profissão e, não
raro, prejudicam a imagem de quem é assessorado”.
Antes de encerrar este capítulo, uma palavrinha
final sobre um assunto já tratado, mas
que precisa de mais algum esclarecimento para
evitar confusões. Trata-se de diferenciar,
claramente, o Jornalismo Comunitário do
Jornalismo Especializado.
Chama-se Especializado o jornalismo voltado, pontualmente,
para públicos específicos, mesmo
quando eles recebem o nome de, digamos, Comunidade
Médica Nacional, Comunidade Jurídica,
Comunidade Católica...isto é, quando
se dirige a públicos unidos por interesses
comuns, porém difusamente situados no país
ou no mundo. Não se pode confundir Jornal
Comunitário com Jornal Especializado. Os
vários cadernos que integram os jornais
clássicos, especialmente aos domingos,
enquadram-se bem na definição de
Jornalismo Especializado. Eles se dirigem a públicos
específicos como os apreciadores de Informática
(Caderno de Informática), os interessados
em comprar e vender Carros (Jornal do Carro),
os adolescentes (Caderno Teen), os intelectuais
(Mais), a mulher (Feminino), o homem do campo
(Agrícola) etc.
Quanto ao Jornalismo Comunitário propriamente
dito, ele tem público específico,
como já foi dito. Ele atua dentro de uma
comunidade, tornando-se ponto de referência.
Temos, assim, jornais comunitários em Empresas,
Escolas, Sindicatos, Igrejas etc. Entretanto,
para manter as características de comunitário,
é necessário que o veículo
esteja voltado para o chamado “público
interno”. Para isto, é preciso ser
feito a partir dos interesses e expectativas desse
público, da pauta ao produto final. No
momento que o jornal empresarial, escolar, sindical,
religioso etc estiver voltado para o público
externo, com o objetivo de divulgação
para outros públicos, então teremos
um veículo especializado na divulgação
daquela empresa, escola, sindicato, igreja etc.
Misturar os dois públicos por medida de
“economia” ou por qualquer outro motivo
é um grande erro.Que interesse o público
externo (clientela da empresa) terá por
assuntos que só dizem respeito ao público
interno da instituição? Somar os
dois públicos pode ser prejudicial à
imagem da empresa junto a seus funcionários.
A questão dos públicos fica, assim,
bem definida e resolvida. É necessário
ter um produto para cada público, ainda
que da mesma instituição. Afinal
é a partir do público que se caracterizará
o perfil de produção do veículo.
Enquanto o Especializado é a transferência
de conhecimentos sobre determinado assunto, o
Comunitário é uma experiência
comum de participação e de interação.
Pode-se dizer que o Especializado é um
jornalismo vertical, enquanto o Comunitário
deve ser horizontal, com ampla participação
do receptor-sujeito. Além do mais, enquanto
o público externo exige um produto mais
sofisticado, o público interno prefere
uma linguagem mais descontraída, mais “próxima”,
mais coloquial, onde se usam apelidos. Usar linguagem
de sinal trocado (formal para o público
interno e descontraída para o público
externo) é matar o veículo no ninho.
Empresa - Jaurês Palma, em “Jornalismo
Empresarial” (Porto Alegre: Sagra-DC Luzzatto,
1994) lembra que “a empresa é um
módulo social cuja atividade voltada para
o lucro se dá segundo um processo que não
está restrito ao ato de compra e venda,
mas compõe-se, também, das relações
com seus diversos públicos”. Há,
portanto, amplo espaço para os jornalistas
atuarem no chamado Jornalismo Institucional, tanto
com produtos especializados para o público
externo, como com produtos comunitários
voltados para o público interno da instituição.
Trata-se de um mercado amplo, porque, como frisa
o autor, “os futuros jornalistas são
preparados para lidar com códigos de produção
e difusão estritos de jornais diários
e meios eletrônicos de massa... mas os cursos
não estão aparelhados para o ensino
do jornalismo institucional. Paradoxalmente, enquanto
faltam centenas de empregos para as centenas de
formados nos cursos de comunicação
e outros tantos demitidos dos veículos
de massa, há poucos profissionais aptos
a exercer o jornalismo institucional”.
Como
não se pode produzir um veículo
comunitário em determinado bairro sem conhecer
bem o lugar, mediante pesquisa, também
não haverá bom êxito na tentativa
de produzir idêntico produto numa empresa
sem conhecê-la a fundo. É fundamental
estudar o organograma da empresa para localizar
os fluxos de informação e as fontes
de notícia. Tratando-se de produto comunitário,
será igualmente oportuno localizar fontes
de informação no meio do público
receptor, isto é, dos funcionários,
através de suas lideranças, Comissões
internas e quaisquer outras manifestações
coletivas.
O
jornalismo comunitário, dentro de uma empresa
ou de um órgão público, evitará
a disseminação de boatos. No lugar
deles, os funcionários terão informações
corretas, detalhadas e sérias, o que passa
ao público interno um clima de transparência
e confiança na direção da
empresa, fator psicológico que certamente
influi na produtividade.
Além
do organograma, o planejador da comunicação
interna deve levar em conta os dados estatísticos
da instituição, seus manuais ou
estatutos internos que servem, inclusive, para
orientar os novos empregados, o fluxograma que
determina os caminhos do expediente, a planta
de arranjo que mostra as instalações
etc.
Palma
ensina que, nesse tipo de comunicação,
“a mensagem deve ser criada de acordo com
as condições de recepção,
levando em conta, conforme o caso, a capacidade,
condições e motivação
necessários para o receptor responder (
feedback )adequadamente à mensagem”.
Acrescenta que, “dependendo do meio utilizado,
é necessário levar em conta fatores
implícitos e explícitos que possam
interferir na mensagem, tais como vocabulário,
condições dos cinco sentidos, nível
hierárquico e nível de valores na
escala do receptor. A resposta à mensagem
emitida deve ser estimulada. Ninguém está
disposto a responder, desconhecendo as razões
da comunicação. Portanto, é
necessário, em primeiro lugar, explicar
as razões da mensagem. Ela estará
mais perto de alcançar os objetivos, quando
contiver perguntas ou estímulos que levem
à oportunidade de manifestação
escrita, falada ou contida em posturas e reações”.
Equipe
- Normalmente financiado pela própria instituição,
o veículo interno pode contar com a seguinte
equipe, conforme proposta do professor Jaurês
Palma:
Editor:
pessoa que dirige e coordena uma publicação
periódica.
Redator:
aquele que, além das incumbências
de redação, tem o encargo de redigir
editoriais, crônicas ou comentários.
Repórter:
aquele que cumpre a determinação
de colher notícia ou informação,
preparando-as para divulgação.
Web-designer:
aquele que editará a versão eletrônica
do impresso, utilizando a linguagem gráfica
adequada à Internet.
Diagramador:
aquele a quem compete planejar e executar a distribuição
gráfica de matérias, fotografias
e ilustrações de caráter
jornalístico, para fins de publicação.
Programador
visual – técnico especializado no
planejamento de um sistema de linguagem coerente
e uniforme em todos os aspectos visuais, para
publicação.
Arte-finalista
– artista gráfico, desenhista, letrista
ou fotógrafo que executa um trabalho de
arte-final: ilustração, anúncio,
cartaz, página de jornal ou revista, capas
ou qualquer trabalho desenhado e montado.
Ilustrador
– aquele que tem a seu cargo criar ou executar
desenhos artísticos ou técnicos,
de caráter jornalístico.
Produtor
gráfico – produção,
execução ou coordenação
de todos os trabalhos de confecção
física de uma revista, jornal, folheto
ou qualquer publicação, dirigindo
e acompanhando todas as etapas da editoração
à gráfica, da marcação
dos originais ao acabamento.
Fotógrafo
Esta
seria a equipe ideal. Mas só grandes instituições
conseguem mantê-la. Na maioria das vezes
um só jornalista acaba fazendo tudo.
Justificativa - São muitas as justificativas
para se propor a veiculação de um
jornal interno em uma prefeitura, em uma empresa
ou em qualquer outra instituição
com certo número de funcionários,
embora alguns dirigentes empresariais –
de formação antiquada - ainda insistam
em ver na comunicação interna apenas
um desperdício. Jaurês Palma dá
as seguintes justificativas para o projeto comunitário:
-Seria
de uma inutilidade grosseira a implantação
de um jornal ou revista, se o empresário
lhe atribuísse a função motivadora
de solidariedade, quando a política da
empresa sugere o individualismo; de coesão,
quando a política determina a dispersão;
de harmonia de relações, quando
a política leva à diferenciação
nos tratos interpessoais; de dignidade profissional,
quando a política não promove a
importância da classe; de congraçamento,
quando a política promove a competição
interna; de formação de opiniões
e atitudes, quando a política é
centralizadora. O veículo, em sua política,
é a própria empresa. A persuasão,
a propaganda, enquanto fins, não encontram,
no jornal de empresa, um meio adequado. Desta
forma, estamos lembrando que o periódico
empresarial é um recurso tão atual
e inevitável quanto o é o único
conceito de administração compatível
com um contexto sócio-econômico aceitável.
No próximo capítulo vamos conhecer
a experiência de um jornal diário
que circulou durante 18 anos numa cidade de 50
mil habitantes no interior de São Paulo.
Veremos sua história, suas lutas, seus
altos e baixos na trajetória da sobrevivência.
Trata-se da Experiência de Penápolis.
Também discutiremos mais a fundo a questão
ética que interessa a todos, grandes e
pequenos veículos de comunicação
realmente comprometidos com o serviço ao
público. Daremos algumas indicações
para quem deseja montar seu próprio jornal
no interior ou nas comunidades.