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Capítulo II

II – O que quer o leitor do jornal?

1. Papel do Receptor

Tomar conhecimento do leitor, saber quem ele é, o que faz, onde está, o que pensa...afinal, definir o público-alvo é a primeira iniciativa de quem se põe a planejar um produto de comunicação, seja um veículo devidamente estruturado, seja um simples artigo de jornal. Podemos tomar de empréstimo alguns ensinamentos da Teoria Literária para discutir o papel do receptor no processo de aquisição do conhecimento, portanto no processo de informação. Duas escolas se destacaram, no Séc. XX, no âmbito da questão literária. A Escola Marxista (ocupada em demonstrar o nexo da literatura em seu espelhamento da realidade social) e a Escola Formalista (que valorizava a percepção artística da literatura, desvinculando a obra literária de todas as condicionantes históricas).

A Escola Marxista não trata o leitor – quando dele se ocupa – diferentemente do modo como trata o autor: busca-lhe a posição social ou procura reconhecê-lo na estratificação de uma dada sociedade. A Escola Formalista precisa dele apenas como o sujeito da percepção, como alguém que, seguindo as indicações do texto, tem a seu cargo distinguir a forma ou desvendar o procedimento. Pretende, pois, ver o leitor dotado da compreensão teórica do filólogo, o qual, conhecedor dos meios artísticos, é capaz de refletir sobre eles – do mesmo modo como, inversamente, a Escola Marxista iguala a experiência espontânea do leitor ao interesse científico do materialismo histórico, que deseja desvendar na obra literária as relações entre a superestrutura e a base. Contudo – como afirmou Walther Bulst – texto algum jamais foi escrito para ser lido e interpretado filologicamente por filólogos ou historicamente por historiadores (Jauss,1994)

Dessa exposição inicial constata-se que ambos os métodos de análise da literatura – o formalista e o marxista – ignoram o leitor em seu papel genuíno, imprescindível tanto para o conhecimento estético quanto para o histórico: o papel do destinatário a quem, primordialmente, a obra literária visa, segundo observa, ainda, Hans Robert Jauss ao estudar a estética da recepção.

Quando se diz, portanto, que não escrevemos para filólogos ou historiadores, deduz-se que escrevemos para todas as pessoas e o objetivo primeiro do texto comunicativo é fazer-se entender por todos. Por isto o texto precisa ter vida, passar o fato com emoção, valorizando o lado humano da notícia ou da reportagem, pois só assim esse texto será interessante para o leitor...afinal estará estabelecendo um diálogo com a vida do leitor. Quando lê uma matéria bem escrita, uma história bem contada, dessas que se começa a ler e não se consegue parar até chegar ao final, o leitor sente-se transportado para o local dos fatos, sente-se participante da ação. Quando descreve esse caráter dialógico do texto com o leitor - essa capacidade que o bom texto tem de ser como uma partitura voltada para a ressonância renovada da leitura, libertando-se da matéria das palavras para conferir-lhe existência real – Jauss recorre ao francês: “ parole que doit, en même temps qu´elle lui parle, créer um interlocuteur capable de l´entendre”.

Temos visto, nesta história da imprensa, que os primeiros livros do Renascimento não foram escritos – com os tipos móveis de Gutenberg – diretamente para o povo, mas sim para o clero, pois o povo não sabia ler. Com a Revolução Industrial tornou-se necessário apostar na qualificação, na educação das pessoas para que aprendessem a lidar com as máquinas e invenções nas quais o capitalismo nascente apostava todas as suas fichas de um futuro rico e lucrativo. Com efeito são as sociedades mais bem informadas que ocupam os lugares de destaque no ranking da economia mundial. No plano individual, de um modo geral, é também o acesso à informação de qualidade que faz a diferença entre as pessoas de um e de outro grupo social, daí a permanente luta pela melhoria do ensino público, pela inclusão digital, pela criação da quota para negros na Universidade, pela cidadania, pelos direitos do consumidor, pela preservação do planeta, pela defesa das minorias etc

Os modernos meios de comunicação cedo aprenderam que não bastava publicar colaborações dos leitores – como no jornalismo de 200 anos atrás – nem apenas as cartas dos leitores. Era preciso muito mais. Era preciso saber o que o leitor estava pensando de cada edição, de cada matéria, de cada profissional. Por isto os jornais mais ricos criaram seus Institutos de Pesquisa que realizam permanentes levantamentos de opinião pública tanto sobre temas de interesse dos leitores (por exemplo, o que se pensa dessa ou daquela ação de governo, o que se acha do Presidente da República, qual a situação dos preços, como está a inflação etc) mas também sobre a aceitação das inovações do próprio jornal, embora, naturalmente, tais levantamentos sejam apenas para consumo interno dos técnicos e planejadores do jornal.

No Brasil e na América do Sul já faz tempo que muitos jornais mantém grupos de profissionais encarregados de contatar, todas as manhãs, uma “amostra” de público a fim de verificar a receptividade às diversas matérias publicadas. O objetivo é aprofundar os temas mais solicitados, através de novas pautas e novas apurações, e corrigir os erros cometidos. Também é prática comum, desde a década de 70, a eleição do “ombusdsman” que não pode ser demitido e que tem a função de criticar diariamente o jornal como representante dos leitores. Sempre com o objetivo de agradar aos seus leitores e de estabelecer interação com eles, há jornais que desenvolvem campanhas de cidadania, como fez o “Correio Braziliense”, anos atrás, quando reuniu milhares de pessoas numa passeata pelas ruas de Brasília a favor da Paz no Trânsito. Outros jornais criam o Conselho dos Leitores para que cada editoria possa ser julgada. Outros se filiam a organismos de controle de qualidade como ISO 9.000.

Foi com o advento do Rádio e, depois, da Televisão, que o público receptor ampliou seu espaço de participação. No rádio antigo, com a produção ao vivo, a participação ativa do ouvinte era fundamental. Era um atestado, perante os patrocinadores, de que o programa estava sendo ouvido. Até hoje o rádio enfatiza as cartinhas e telefonemas que recebe dos lugares mais distantes. Na TV criam-se programas interativos onde o telespectador tem a ilusão de que está decidindo alguma coisa, como no caso do antigo “Você Decide”, da Globo, em que a produção gravava dois finais para uma história e abria o telefone para as pessoas “decidirem” entre um e outro. Nos programas vespertinos da TV, sobre comportamento, culinária, direitos do consumidor etc, repete-se, hoje, o antigo costume do rádio, ouvindo-se palpites do povo ou opiniões espontâneas de especialistas....tudo com o objetivo de envolver o público, para que ele não fique indiferente.

Nos programas mais sérios como os noticiários da noite, por exemplo, algumas emissoras, como a TV Record, usam a figura do “âncora” para proporcionar ao inerte espectador da poltrona uma espécie de “válvula de escape”, como se o âncora interpretasse a sua revolta após um escândalo político, com o bordão de Boris Casoy: “Isto é uma vergonha”. Outros programas mais espetaculosos – como os de Luis Datena, também da Record, e Roberto Cabrini, da Bandeirante – também procuram explorar esse “filão” da interatividade com o leitor, fazendo comentários supostamente raivosos diante de notícias revoltantes, como se fossem representantes eleitos pelo povo para defendê-lo.

Os chamados “reality shows” não vão em outra direção senão a de criar a falsa impressão de que as pessoas estão “espiando a vida alheia como ela é”, quando qualquer observação mais atenta nos revela o artificialismo de estúdio onde o que interessa mesmo é o prêmio milionário e tudo o mais é encenado para agradar a audiência, seja através de linguajar agressivo, ou de gestos inusitados, ou de festas típicas, ou de fuxicos ou de apelos sensuais.

Mas é com a Internet que a participação direta do receptor, sua capacidade de intervenção nos vários estágios de produção da notícia e mesmo seu poder de reeditar a matéria ou de redirecioná-la para grupos de amigos em salas de bate papo ou diretamente por e-mail, tornou-se decisiva.

Nos primeiros anos da TV, na década de 50, quando ela ainda era em preto e branco, era preciso levantar-se da poltrona para mudar o canal. Depois surgiram controles remotos com fio. Depois controles remotos sem fio. Já estamos na Era Digital onde logo será possível intervir na programação da TV, interligando-a ao computador. Na TV por assinatura, o assinante tem centenas de canais à sua disposição para navegar pelos programas de seu maior interesse, podendo ver mais de um programa ao mesmo tempo através do “paper view”. Pode usar sua TV como uma imensa locadora comprando – e pagando na fatura mensal – os filmes do seu agrado.

Hoje, com a Internet, o receptor tem amplas possibilidades de se aprofundar nos assuntos de seu interesse através da leitura hipertextual, construindo seu próprio roteiro de leitura através do labirinto da Internet, pesquisando nas edições anteriores, entrando em outros sites, checando informações com a fonte citada pelo jornal, conferindo a apuração do repórter, discutindo a edição escolhida para a matéria, julgando o corte de uma foto, reorganizando o noticiário de uma região ou de um assunto em forma de “clipes” que muitas vezes são até vendidos a clientes que se interessam por este tipo de assessoria.

Portanto, se é cada vez maior e mais expressivo o papel do leitor no processo de comunicação, então é altamente necessário conhecer bem o perfil desse navegante que percorre diariamente esse mar de notícias que jorra de todas as fontes: rádio, televisão, jornal, revistas, Internet etc. Conhecendo cada vez melhor o seu público, o jornalista terá condições de estabelecer uma sintonia com ele e isto poderá fazer do seu veículo um caso de retumbante sucesso ou de catastrófico fracasso. Veículos que operam de costas para os seus receptores, apenas usando-os como massa de manobra a serviço de senhores do poder, de grupos econômicos, de ideologias políticas etc cedo ou tarde deparam-se na lamentável situação do peixe fora d`água ou como um navio sem mar. Afinal, jornal sem leitor e político sem voto é morte anunciada.

2. No mar de notícias

De 18 a 20 de julho de 2001, a pedido da Associação Nacional de Jornais, o Datafolha entrevistou 1.605 pessoas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília e Recife, cidades que ostentam um público estimado em 12 milhões de leitores. O objetivo era traçar um perfil dos leitores e de suas preferências em relação ao produto jornal. O relatório da pesquisa foi apresentado aos participantes do 3º Congresso Brasileiro de Jornais e do 1º Fórum de Editores promovido pela ANJ de 13 a 14 de agosto de 2001, no Rio de Janeiro, com a participação de 400 editores, diretores e empresários de mídia.

A pesquisa revelou que 37% dos entrevistados (o que representa 3,9 milhões de pessoas no universo trabalhado) lêem jornal diariamente. Também ficou demonstrado que o jornal é a mídia preferida pelas pessoas com mais idade, aquelas que confiam mais na informação impressa, o tradicional “preto no branco”: 43% dos leitores diários tinham, na época, mais de 41 anos de idade. Já os jovens, entre 16 e 24 anos, revelaram preferência por outros meios de informação, como a Internet: Apenas 22%, em média, declararam-se leitores assíduos de jornais. O trabalho ainda mostrou que um terço dos leitores têm até o 1º grau de escolaridade. A maioria (79% dos homens e 74% das mulheres) tem renda até 10 salários mínimos, sendo que 43% dos homens e 61% das mulheres pertencem às classes A/B, o que revela poder aquisitivo para assinar ou comprar o jornal diariamente.

No item Credibilidade, o Datafolha constatou que 35% dos entrevistados costumam se informar mais pela TV aberta,vindo os jornais em segundo lugar, com 28%. Os que preferem o jornal para se manterem bem informados explicam tal preferência devido à facilidade de portar o jornal e à credibilidade que a informação impressa proporciona: 24% disseram que o jornal tem conteúdo mais abrangente que a TV aberta; 15% que pode ser lido em qualquer lugar e outros 15% que as notícias são confiáveis. Entre as pessoas com nível superior, 29% disseram que confiam muito nos jornais como veículos de informação. Também têm a mesma opinião os 32% que ganham de 10 a 20 salários mínimos; os 28% que pertencem às classes A/B e os 29% que acessam a Internet diariamente. Nesses três segmentos, é superior a 40% o percentual de pessoas que atribuem muita credibilidade aos jornais. Em Porto Alegre esse percentual vai a 47%.

O Instituto perguntou por quais motivos os jornais impressos têm muita credibilidade e as respostas revelaram que isto está relacionado com a veracidade. Aqui ficou claro que os jornais têm um longo caminho a percorrer se quiserem conquistar a confiança das pessoas, pois 50% acham que os jornais são confiáveis, mas 82% acham que eles causam desconfiança porque publicam mentiras(39%), distorcem os fatos ( 20%) , são sensacionalistas ( 13%) e são parciais/tendenciosos(11%).

Na avaliação geral da imprensa brasileira, 41º, entre os entrevistados mais jovens ( 16 a 24 anos), disseram que ela é regular. Para 42% dos leitores de São Paulo; 39% dos leitores de Porto Alegre e do Rio; 46% dos leitores de Brasília e 41% dos de Recife, os jornais contribuem muito na formação de opiniões. Para 53% dos internautas diários, eles contribuem pouco.

Os assuntos mais lidos nos jornais são Esporte (11%; em Recife: 16%), Classificados (7%), Noticiário Político (7%, chegando a 17% em Brasília), Economia (5%), Noticiário Policial (4%), Manchetes (3%). Porém 46% disseram que lêem o jornal aleatoriamente, sem procurar um assunto específico. O tempo médio dedicado à leitura de jornais é de 68 minutos durante a semana e 84 minutos nos finais de semana.

No quesito liberdade de imprensa, 49% das mulheres responderam que a imprensa deve ter algum tipo de controle. Pensam igual 52% dos mais jovens e 59% dos menos escolarizados. Para 61% da amostra geral, a imprensa deve ser totalmente livre. Para 35% dos entrevistados, o maior problema dos jornais brasileiros é o sensacionalismo. Para 23% é a falta de profundidade nas matérias. Para 9% é o excesso de texto. Para outros 9% é a falta de isenção dos jornalistas. Para 8% é a má qualidade dos textos. Para 7% é o posicionamento ideológico.

O principal motivo de contato das pessoas com o jornal é a publicidade. Entre os entrevistados, 85% nunca entraram em contato com algum jornal e 15% já fizeram algum contato. Entre estes, 28% foi para anunciar nos classificados; 17% para assinar o jornal; 12% para participar sobre assuntos determinados; 11% para pesquisas e informações; 11% para reclamar sobre matérias ou artigos.

Por falta de tempo, de dinheiro ou de interesse, 18% dos entrevistados preferem a TV aberta; 7% atualizam-se pelo Rádio e 3% acessam a Internet. No resultado geral, a maioria alega falta de tempo (35%) para não ler jornais e 25% preferem outros meios.

O trabalho do Datafolha mostrou que, no Brasil, os jornais são considerados mais confiáveis entre os mais escolarizados e das classes mais altas, nas seguintes proporções: TV aberta(30%), Jornais (29%), Rádio (18), Internet (10%), TV Paga (3%), Revistas (3%).

Para os mais escolarizados, a TV aberta é considerada menos confiável.

Um terço dos internautas diários preferem o jornal impresso para se aprofundarem nos assuntos: 36%, mas 56% acham mais fácil aprofundar-se ilimitadamente através do hipertexto. Metade dos internautas diários (29%) acham que o jornal é um gênero de primeira necessidade e que não se pode viver sem ele.Mas também acham (28%) que os jornais têm muitos erros ortográficos e gramaticais.

E qual o perfil desses internautas diários? Segundo a pesquisa, 86% deles são das classes A/B, sendo que 64% deles têm renda de até 10 s.m.

A leitura atenta desta pesquisa vai revelar, a quem quiser ver, o que o leitor acha dos jornais e o que eles devem fazer para melhorar. O principal é a confiabilidade. O leitor cobra apreço à verdade dos fatos e à humildade de reconhecer erros. Na pressa de apurar para competir, os jornais cometem muitos erros que são publicados com destaque. Mas na hora de reconhecê-los, publica-se uma notinha de pé de página interna. São inúmeros os casos a respeito. O da Escola Base já entrou para a história do jornalismo que deve ser evitado. Sobre o texto apressado, é aconselhável a leitura de “Jornalismo em tempo real – O fetiche da Velocidade” (Revan.Rio,2002) em que a jornalista e professora da UFF, Sylvia Moretzsohn, estuda o futuro do jornalismo impresso diante da TV e da Internet. Segundo ela, a rapidez é a condição da sobrevivência, sem que, no entanto, se saiba em que sentido é preciso ser rápido. O jornalismo do “tempo real” esconde a crítica e encobre a lógica do capital: ao contrário, celebra a “nova utopia tecnológica” representada pela Internet e sua possibilidade de interligar o mundo com informações instantâneas e em fluxo contínuo. O resultado é um superficialismo tão abundante que não explica nada, conforme comentário de Fernando Veríssimo: “Vivemos num tempo maluco em que a informação é tão rápida que exige explicação instantânea e tão superficial que qualquer explicação serve” .

Ao estabelecer paralelos entre os leitores de jornais e os usuários da Internet, o citado trabalho do Datafolha abre um leque de reflexão para quem se debruça, hoje, sobre o debate a respeito do futuro do jornalismo impresso. Para muitos, o impresso não terá futuro se não souber tirar proveito das novas tecnologias não apenas para melhorar-se graficamente, mas para contar com profissionais bem formados e preparados para fazer o jornalismo que o leitor espera. São muitas as pesquisas de opinião que dão conta das preferências dos leitores.

Como dissemos no início desta história, quando as pessoas eram analfabetas, não adiantava escrever livros ou jornais para elas. Escrevia-se para a elite intelectual, em latim. Hoje não se pode escrever “difícil” porque o texto do jornalista não se destina à elite, mas ao povo. E em nossos dias agitados ninguém tem tempo para ler texto mal escrito, reportagem mal apurada ou tendenciosa. Além de bem informadas – ou exatamente por isto – as pessoas têm pressa e isto precisa ser levado em conta. Respeitar o leitor, como explicava Jauss, é situá-lo como sujeito da história e não como objeto de consumo.

Provavelmente só na academia o futuro jornalista aprenderá tudo isto e um pouco mais sobre ética, moral, respeito à pessoa humana, cidadania, espírito público, honestidade profissional, trabalho de equipe etc para ajudar o leitor a entender melhor.

Como isto pode ser feito? O que é preciso fazer para reconquistar a confiança que o jornal impresso merece, tanto nos grandes centros como nas comunidades? Veremos a seguir.

3. Ajudando o leitor a entender melhor

Em Angola, segundo Ricardo Noblat (obra citada) os lugares onde são dadas aulas de português chamam-se “Casa de Explicação”. Ele propõe que cada redação de jornal seja, para o leitor, uma “casa de explicação”. O texto jornalístico não pode ser “um enigma a ser desvendado” como ocorre quando a matéria inclui palavras não usuais ou fora do contexto, frases sem sentido, parágrafos que não guardam coerência entre si, textos com palavras inúteis, excesso de adjetivos, falta de detalhamentos ( por exemplo: idade, ocupação, qualificação do entrevistado, ou falta de informação sobre o local e data de um evento), sem contar as falhas de ética que mancham o jornalismo pela tendenciosidade, por ouvir só um lado da questão, por negar espaço aos demais atores envolvidos na questão...não só “aos demais”, mas a todos os atores possíveis, valorizando o contraditório, a polêmica, a diversidade, na certeza de que jornalismo não é tese de mestrado, é obra aberta ao debate público.

No gênero Informativo, o leitor espera do jornalista todos os detalhes sobre o fato ou a pessoa, bem como as circunstâncias que envolvem ou envolveram o fato. Não se trata de opinar, mas de abrir o leque de opções para o leitor sentir-se bem informado a respeito. Isto envolve muito trabalho de pesquisa e não é tarefa para jornalistas preguiçosos que preferem o declaratório oficialista que se pode pegar por telefone ou através da assessoria de imprensa.

No gênero Opinativo, trata-se exatamente de cumprir a mais nobre missão do jornalismo que é orientar as pessoas sobre o rumo dos acontecimentos. Para Ricardo Noblat, o Brasil precisa, urgentemente, começar a aprender com outros países onde o jornalismo impresso já percebeu que não basta tentar seguir as pegadas da mídia eletrônica para ficar sempre em cima do fato, isto é, para ter um noticiário sempre atualizado. É preciso ir além. Mas como o impresso poderá ir além da televisão e da Internet? Parece absurdo, mas isto não é impossível. O autor cita um exemplo clássico e recente: Os analistas políticos de norte a sul do Brasil “sentiram” que Roseana Sarney não tinha outro caminho senão retirar a candidatura à Presidência da República em meados de 2002. No entanto isto só foi noticiado quando ela mesma anunciou tal decisão. Já na primeira Guerra do Golfo, a CNN anunciou o início da guerra antes dela ter eclodido.

Entretanto, não se trata de fazer futurologia ou “chutar” comentários avançados sobre o futuro. Trata-se de ter uma equipe de profissionais altamente qualificados e capazes de quebrarem a barreira das 24 horas que separam uma edição da outra no jornalismo impresso, passando a fazer para o leitor não o “jornal de hoje” sobre os fatos de ontem, mas o “jornal de amanhã”, com os fatos que serão notícia, isto é, mostrando os desdobramentos possíveis de uma história, de uma iniciativa, de uma ação. Se contextualizar o acontecido já exige enorme trabalho de apuração, comentar o futuro de um fato naturalmente não é para qualquer um. Principalmente quando muitos jornais aproveitam para terceirizar a própria redação, tentando assim reduzir custos de produção cortando já não na carne, mas no coração do próprio jornal. Cada vez mais, porém, é o investimento em qualidade que vai fazer a diferença. Principalmente quando a Internet chegar à metade dos lares brasileiros como em outros países. Ela ainda está engatinhando, como um manso cordeiro, mas vai se transformar num leão voraz para quem não atualizar os modos e maneiras de fazer jornal.

Também não pode faltar, no jornalismo, o gênero Recreativo que proporciona o lúdico, o agradável, o perfunctório, o “dolce far niente” tão valorizado na sociedade moderna em sua tentativa permanente de fugir do stress, conforme descreve Domenico De Masi, entre outros estudiosos do ócio com dignidade. É um gênero que faz sucesso no jornalismo atual, inclusive nas revistas fartamente coloridas.

Mas, o que queremos tratar aqui, nesta busca de soluções para ajudar o leitor a entender melhor o jornal de cada dia, é do gênero Interpretativo que surgiu com o chamado Novo Jornalismo, na década de 60, em nosso país.

Aprofundemos a reflexão a respeito.

Embasamento Teórico - Para o racionalismo grego de Platão e Aristóteles, conhecer significa entender as causas. Não é possível conhecer sem pesquisar, sem estudar, sem se aprofundar, sem ter humildade diante dos fatos.

Aquele que se considera dono da verdade acaba agindo como o califa que ordenou a destruição da biblioteca de Alexandria argumentando que ou os livros diziam o mesmo que o Corão, e neste caso eram supérfluos, ou então diziam algo diferente, e neste caso eram errados e perniciosos.

A interpretação contida no texto reflete apenas o ponto de vista do autor sobre o assunto tratado. Segundo Umberto Eco ("Interpretação e Superinterpretação". São Paulo: Martins Fontes, 1993) "um texto é um universo aberto onde o intérprete pode descobrir infinitas interconexões".

Ele acrescenta que "a linguagem é incapaz de apreender um significado único e preexistente. A linguagem espelha, pois, a inadequação do pensamento. Qualquer texto que pretenda afirmar algo unívoco é um universo abortado".

Eco considera que "o leitor real é aquele que compreende que o segredo de um texto é seu vazio". Cita o paradoxo linguístico formulado por Macedonio Fernandez: "Neste mundo faltam tantas coisas que, se faltasse mais uma, não haveria lugar para ela".

Citado por Nilson Lage (1998) o jornalista americano Ivy Lee diz que "o esforço para apresentar um fato absoluto é simplesmente uma tentativa de alcançar o humanamente impossível; tudo o que eu posso fazer é dar a minha interpretação".

A esse respeito, Nilson Lage conta uma historinha criada por outro jornalista americano, Derick Daniels, para mostrar como a interpretação é uma visão particular do fato:

"O padre, o geólogo e o vaqueiro contemplavam pela primeira vez o Grand Canyon:

- Uma das maravilhas de Deus - disse o padre.

- Uma das maravilhas da ciência - disse o geólogo.

- Um lugar danado de bom prá criar gado - disse o vaqueiro".

Se antes o que diferenciava os jornais era a "notícia-furo", hoje, com o conceito de furo e "segundo-clichê" esvaziado pelos meios eletrônicos da era digital, o que diferencia um bom jornal ou uma boa agência de notícias é a capacidade de seus profissionais para interpretar os fatos e ajudar o leitor a entender melhor a realidade à sua volta. Agindo assim o jornal cumpre sua principal missão que é prestar serviços ao leitor.

Como disse Eco, nada tem significado único, portanto cada um interpreta conforme seus referenciais ( "o padre, o geólogo e o vaqueiro") sobre o contexto dado. É exatamente isto que diferencia o jornal, tirando-o da pasteurização monótona que o apresenta como um clone de outros tantos jornais do mesmo dia pelo país afora.

É o próprio leitor - hoje muito mais exigente - que cobra do seu jornal preferido a melhor orientação sobre os fatos, confirmando a Teoria da Recepção, de Jauss (1994), segundo a qual o receptor comanda o contexto de produção do discurso.

Exemplo claro do bom êxito dessa política de serviço ao leitor foi o lançamento do jornal "Valor", em 2001, destinado a interpretar o fato econômico, com impressão simultânea no Rio e em São Paulo, com circulação nacional. Isto se faz à luz do processo de globalização que transforma a economia em assunto de interesse direto não apenas dos investidores do sistema financeiro, mas também do homem do povo. Naturalmente não se conceberia uma demanda desse tipo em outras épocas, quando o fato econômico não era tão presente e tão complexo a ponto de exigir esse tipo de "tradução" para o entendimento comum. A observação não invalida, todavia, a crítica de que a mídia não especializada foca exageradamente a economia, passando informações técnicas que o povo não entende e que não têm qualquer relação com o seu dia-a-dia.

O Interpretativo funciona, na verdade, como um texto especializado.Isto requer especialização na formação dos futuros profissionais e é função dos meios acadêmicos proporcionarem este ensino de qualidade, “no entanto, a inadequação dos jovens profissionais para a produção de textos é a maior queixa de editores e empresas”, alerta Nilson Lage em sua obra mais recente.

Interpretar é Investigar - O gênero Interpretativo está relacionado com o jornalismo investigativo. É um texto que se diferencia do meramente informativo e mesmo do simplesmente opinativo, embora alguns autores não vejam tanta diferença entre interpretativo e opinativo.

No informativo trata-se apenas de relatar os fatos conforme já visto na estrutura da notícia, bastando responder às perguntas clássicas. No texto opinativo trata-se de mostrar claramente o pensamento do jornal ( Editorial ) ou do articulista ( matéria assinada ).

No gênero Interpretativo o objetivo é mostrar ao leitor as várias consequências que um fato pode gerar, estudando suas origens, analisando suas implicações. Noticiar o bombardeio dos caças da OTAN sobre Kosovo, na Iugoslávia, é Informativo. Condenar esses ataques é Opinativo. Analisar as causas e consequências da guerra no contexto europeu é Interpretativo.

Cremilda Medina ( obra citada ) vê no gênero Interpretativo exatamente essa investigação sobre os antecedentes do fato, suas significações indiretas e seu contexto. A investigação jornalística muitas vezes torna-se um desafio. A este respeito, Nilson Lage (2.001) cita artigo de Roberto Fisk, decano dos correspondentes ocidentais no Oriente Médio, publicado no jornal El Pais, de Madri: “...desafiar a autoridade faz parte do trabalho de um jornalista”. Conforme Lage, “jornalistas não são sacerdotes nem se espera que sejam militantes de causa alguma. Dessa não-militância é que resulta sua competência moral para o desafio. Devem desenvolver uma persona profissional tal que – a despeito de crenças e valores pessoais, compromissos de classe e de cultura – possam registrar os fatos e as idéias do nosso tempo com honestidade, concedendo à fonte o direito de ser como é e ao público o direito de escolher de que lado ficar”.

Ainda para diferenciar o gênero Interpretativo do gênero Informativo não podemos esquecer as influências que os jornalistas sofrem ao longo da formação escolar e da própria vida. Eles “são assaltados por ideólogos de diferentes cores – revolucionários, reacionários, guerreiros, pacifistas, homossexuais, ecologistas e místicos – todos pretendendo convencê-los a aceitar versões sem crítica e a fraudar os fatos em nome de grandes ou pequenos objetivos”. A capacidade de desenvolver espírito crítico e de ter idéias próprias a respeito dos fatos do mundo é que determinará o potencial do texto interpretativo, muito além do mero informativo.

O jornalismo investigativo, realizado com ética, seriedade e muita pesquisa, tem se revelado um poderoso aliado no processo de comunicação, na medida que diferencia o jornal abrindo espaço para denúncias que abalam o país e conquistam o respeito dos leitores. Não se trata do "denuncismo", do "jornalismo declaratório" feito nos gabinetes e nas redações, condenado por respeitados nomes como Alberto Dines, mas de trabalho acurado, com informações bem checadas, com suado trabalho de campo.

Esse tipo de jornalismo é o terror de governantes, políticos e empresários corruptos. Por isto mesmo o governo tentou aprovar, no início de 2001, no Congresso, a Lei da Mordaça, punindo autoridades policiais e judiciais que permitissem o acesso da imprensa a processos em andamento. Com tal lei em vigor teria sido difícil remover do governo Collor a "República de Alagoas". Afinal, só depois que a imprensa movimenta a opinião pública denunciando a corrupção é que as autoridades começam a agir para recuperar o mínimo de dignidade na coisa pública.

Um pouco de História - Durante a cobertura da I Guerra Mundial, o público americano passou a exigir que os jornais explicassem melhor o que se passava na Europa e como aqueles fatos - envolvendo familiares dos imigrantes - poderiam influenciar a vida deles.

Surgiram assim veículos especializados em interpretação como "Time Magazine", em 1923, criada por dois jovens jornalistas empenhados em mostrar uma nova dimensão da notícia: seus antecedentes, seus significados, seu contexto. Foi especialmente o confronto com o Rádio e o Telejornalismo dos anos 30 e 40 que fixou, aos poucos, a interpretação como um critério de informação na imprensa. No Brasil, segundo Cremilda Medina, são bem mais tardios os sintomas de uma transformação no jornalismo.

Na primeira metade do Séc. XX havia ainda no país uma alta taxa de analfabetismo, além de dificuldades técnicas e falta de hábito de leitura. Mas, na segunda metade do século a situação mudou completamente com o processo de industrialização que trouxe o homem do campo para as cidades; com o surgimento da TV; com as novas tecnologias incorporadas pelos jornais; com o amplo processo de alfabetização e melhoria das escolas; com o surgimento das Faculdades de Comunicação e a especialização da mão-de-obra de jornais; com o advento dos multimeios ( computador, CD Ron, fax, celular, vídeo-câmara, internet ); com a TV por assinatura e a comunicação digital que multiplicaram o alcance da mídia.

Pesquisadores identificam grandes mudanças no jornalismo brasileiro a partir de determinados fatos como a revolução editorial do Diário Carioca ( 1947); a fundação da TV Tupi ( 1951 ); o aparecimento do jornal Última Hora ( Samuel Wainer ) e a reforma do Jornal do Brasil ( Alberto Dines-1956).

Em 1964, imitando o N. Y. Times, o Jornal do Brasil fundou seu Departamento de Pesquisa e Documentação, sob a orientação de seu editor-chefe, Alberto Dines, o que costuma ser considerado o marco inicial do jornalismo interpretativo em nosso país.

Inicialmente o material coligido pelo Departamento de Pesquisa era anexado à cobertura de atualidades, mantendo-se duas estruturas independentes ( conforme análise de Mário Erbolato ). Mas o Departamento foi se afirmando e as matérias interpretativas foram deixando aquele caráter de verbete enciclopédico para se transformarem numa unidade, onde a notícia é filtrada em meio a seus antecedentes históricos e outros fatos que participam do mesmo contexto.

Em São Paulo o Jornal da Tarde foi o primeiro a se interessar pelas transformações que ocorriam no jornalismo carioca.

Surgiu, então, o que Dines chama de "jornalismo de autor" dos anos 60. Os textos eram assinados e apresentavam qualidade literária, como na revista Realidade. Inspirados na Escola Realista, os autores reproduziam fielmente o contexto dos fatos.

Nos últimos anos esse tipo de texto perdeu o vigor, optando-se pelo texto mais curto, a chamada "notícia modular", com farta ilustração, para deixar o jornal visualmente bonito como na tela colorida da TV.

Entretanto, muitos estudiosos, entre eles o próprio Alberto Dines, defendem a necessidade do jornal trilhar seu próprio caminho - que é o caminho do aprofundamento, da pesquisa, da investigação, do bom texto interpretativo - ao invés de tentar competir com os meios eletrônicos, notadamente a TV e a Internet.

No inusitado episódio do charuto na Casa Branca, ficou patente que esta é uma corrida perdida. Enquanto os jornais esperavam aflitos a liberação dos depoimentos da estagiária Mônica Lewinsky para publicação no dia seguinte, o mundo inteiro tomava conhecimento, na véspera, dos mais escabrosos detalhes do "affair" pela Internet.

Na Guerra do Golfo, enquanto os jornais fotografavam e coligiam dados, a CNN mostrava o "show" ao vivo e a cores 24 horas por dia, o tempo todo, todo o tempo. Nos atentados de 11 de setembro a busca de informações detalhadas na Internet colocou a rede em colapso pela primeira vez. Não se pode falar em competir. A televisão não mostra o fato que aconteceu. Ela mostra o fato acontecendo. A defasagem com o jornal é de no mínimo um dia ou uma noite de diferença. São muitas horas.

Mas o consumidor de notícias vai procurar o jornal do dia seguinte para ter mais detalhes, assim como o internauta vai ler o jornal de papel com o mesmo objetivo. São meios diferentes,com atividades e finalidades específicas.

Está claro que o rádio não acabou com o livro, a TV não acabou com o rádio e nem a TV e o Rádio juntos acabaram ou vão acabar com os jornais, muito menos a Internet. O suporte de papel é insubstituível em sua especificidade, pelo menos no modo conhecido. As mídias se complementam e todas se voltam para a conquista do leitor através de serviços de qualidade.

O diferencial é exatamente a qualidade.

A investigação, a interpretação é que farão o diferencial no jornal impresso.Nessa dimensão seria injusto ignorar o trabalho de interpretação da realidade nacional desenvolvido pelos jornais alternativos durante a ditadura militar. Jornais como Pasquim, Opinião, Movimento etc abrigaram nomes que honraram o jornalismo brasileiro pela capacidade de explicitarem a indignação do povo diante das atrocidades do poder, mesmo quando esse povo encontrava-se anestesiado pela lavagem cerebral da propaganda oficial permeada pela imprensa burguesa. Que achava “popular” ou “simpática” a demagógica figura do ditador Garrastazu Médice torcendo no estádio com um radinho de pilha colado no ouvido.

Tipos de Interpretação - São interpretativas não apenas as grandes reportagens que descem fundo nos assuntos e muitas vezes se tornam livro-reportagem ( como "Rota 66", de Caco Barcelos, ou "A Guerra dos Meninos", de Gilberto Dimenstein, ou "Chatô - O Rei do Brasil", de Fernando Morais, ou, também de Fernando Morais, o recente trabalho sobre a Shindo Renmei no Brasil: “Corações Sujos”. São Paulo: Cia. das Letras, 2.000) mas também os pequenos comentários que visam "traduzir" o assunto para melhor entendimento do receptor.

Interpretar é dar detalhes, é apoiar-se em fontes especializadas, é conduzir o leitor por entre o emaranhado dos fatos, a partir do esclarecimento dos próprios fatos. Isto exige pleno domínio do assunto.

-Interpretar não é editorializar, mas dar ao leitor elementos suficientes, relacionados à raiz e à essência dos fatos, para que ele forme opinião", ensina o Manual de Redação e Estilo de O Globo. Também diz que "jornal não é oráculo. No entanto, está nas suas atribuições somar dois e dois e chegar a quatro, sabendo usar a memória. A receita de uma boa matéria interpretativa é simples: acrescentam-se aos fatos do dia comportamentos anteriores, leis e regulamentos que se aplicam ao tema, posições e opiniões conhecidas de pessoas ou instituições".

Exemplo: Para tentar entender o raciocínio do Assassino do Parque (o Motoboy) ou do estudante que matou pessoas no cinema em S. Paulo, não basta apenas noticiar os fatos como se fazia antigamente. É preciso ouvir especialistas. Para entender uma medida do governo que atinge os trabalhadores ou os contribuintes do Imposto de Renda, é preciso entrevistar pessoas capazes de clarear a situação.

Trata-se, também, de não acolher a informação do modo como ela vem e apenas passá-la adiante porque isto é jornalismo declaratório. É preciso verificar o que está por trás da informação, sobretudo as oficiais. Agindo assim o jornalista estará pelo menos tentando evitar a manipulação que desgasta e até aniquila tantos profissionais da imprensa.

O presidente da Sociedade Americana de Editores de Jornais, Newbold Noyes, uma vez comentou que "os repórteres são preguiçosos e superficiais, habitualmente tratando acontecimentos oficiais como notícias, não se notando a situação real atrás desses acontecimentos". Ele reconhece que o pior de nossa preguiça e de nosso desempenho superficial é que nós da imprensa permitimos ser manipulados.

Na Editoria de Política, por exemplo, o jornalista tem excelente espaço para exercer com brilhantismo o texto interpretativo, cabendo, aqui, os conselhos do mais brilhante entre os jornalistas políticos brasileiros da segunda metade do século XX, Carlos Castello Branco, conforme registra Nilson Lage (2001): “O repórter que se obriga a contar o que viu e a transmitir o que ouviu, na notícia impessoal, subordina-se à linha de objetividade narrativa comum a todos os setores da reportagem. Ele não pode, ou pelo menos não deve, interferir nos fatos, mas apenas transmiti-los dentro do melhor processo técnico, a partir do lead. Seu trabalho é evidentemente importante, mas não é o suficiente. O episódio político tem conotações próprias e o fato se insere num contexto que deve ser esclarecido. A notícia nua e crua não o revela em todas as suas nuanças. Ele deve ser didaticamente desmontado. Essencialmente dinâmico, muda de aspecto de hora em hora. É impreciso e sinuoso e muitas vezes ameaça ser e não é. Está em permanente elaboração. O que é lógico: a política é uma constante divergência e conciliação, um interminável processo dialético...” (palestra na UFMG-1968).

Na política ou em qualquer outro setor do jornalismo interpreta-se não apenas através do texto verbal mas – e com muita propriedade – também com imagens. Entre os vários tipos de linguagem não-verbal destacam-se a foto, a charge, o infográfico, a ilustração, o modo de diagramar, o tipo de letras, o destaque na página...tudo isto ajuda a interpretar porque facilita a compreensão do leitor. A foto do jovem diante da coluna de tanques na Praça da Paz Celestial, em Pequim, é capaz, por si só, de interpretar todo o contexto daquele momento histórico. A comunicação não-verbal tem fortíssimo poder de interpretação dos fatos porque pode ser decodificada por todos. Até os iletrados guiam-se, no trânsito, pela sinalização. A imagem, tal como a música, desconhece fronteiras linguísticas e culturais, como estão a ensinar os semioticistas.

Sobre as técnicas de produzir o texto interpretativo não há muito o que acrescentar ao resumo já dado pelo manual de O Globo. É a notícia, no seu modo clássico, completada com detalhes e informações esclarecedoras. Basta ter em mente que não se trata de persuadir o receptor sobre determinado fato, como no Opinativo, mas de lhe oferecer tudo sobre o assunto, para que ele mesmo se sirva. “É preciso ter capacidade de contar a notícia com tantos detalhes que o texto se torne um eco fiel do fato original, recuperando sua capacidade de surpreender enquanto atribui a capacidade de compreendê-la”, ensina Leão Serva (2001).

O lado humano - Quem interpreta um fato, uma declaração, uma iniciativa oficial ou qualquer notícia está sempre preocupado em passar ao leitor a informação mais completa. No jornalismo, todos buscamos uma identidade com o leitor. Ele será tanto mais fiel ao jornal de cada dia se o veículo, através de seus textos, tiver capacidade de se identificar com ele, com os fatos da sua vida, isto é, se for possível passar algum tipo de interatividade.

Por isto, um viés estrategicamente correto da interpretação é buscar o lado humano do fato. Se se trata de uma declaração sobre custo de vida ou aumento de preços, ou mudanças no Imposto de Renda ou mesmo da direção do trânsito em nossa cidade, é necessário que o jornalista coloque-se no lugar do leitor e busque mais detalhes que possam facilitar o entendimento da matéria em suas minúcias. Se o fato a noticiar é um acidente de trânsito ou uma catástrofe, o bom intérprete será aquele capaz de se aprofundar no lado humano da história, de ouvir pessoas, aquele que não transforma gente em mera e fria estatística.

Warren Burkett ( 1990) registra: “As pessoas gostam de ler sobre outras pessoas. Quando o trabalho de um cientista tem significado e impacto, ou proporciona reconhecimento ou fama, tal como o Prêmio Nobel, os redatores podem achar mais fácil centrar suas histórias na forma pela qual a pessoa trabalha em ciência.Os subterfúgios, hobbies, ou outros interesses não-científicos que as pessoas têm podem ajudar o redator a mostrar o cientista como um ser humano afetuoso, minucioso, às vezes falível, buscador, freqüentemente falível, com o qual os leitores podem se identificar”.

Na avaliação de Al Neuharth, criador do USA Today, citado por Caio Túlio Costa, o modo de interpretar os fatos acaba caracterizando um jornal. Ele acha possível compreender bem um jornal pelo título que ele daria à maior de suas reportagens – a do fim do mundo:

- The New York Times: “Acaba o mundo. Terceiro mundo mais atingido”.

- The Washington Post: “ Acaba o mundo. Fonte não identificada diz que a Casa Branca ignorou advertências”.

- USA Today: “Estamos mortos! Números de vítimas, estado por estado, página 8A. Últimos (mesmo) resultados esportivos, página 10C”.

No Brasil, segundo o ombudsman, esse tipo de manchete poderia sair assim:

- Estado: “Conforme advertimos, o mundo acabou”.

- Globo: “ Anunciado: o fim do mundo”.

- Folha: “ Mundo acaba, admite ONU; 43% da população discorda”.

Analisando criticamente o jornal em que trabalhava, Caio Túlio queria dizer que a Folha tinha mania de usar pesquisas de opinião: “Suas manchetes diversas vezes ficam na aparência, se restringem ao noticiário “declaratório” – quando não estão baseadas totalmente em pesquisas cujos resultados, algumas vezes, trazem pouca novidade ou pouco significam no contexto”.

Quem está na área acadêmica sempre tem muitas críticas para os grandes jornais porque eles estão mais visíveis. Por outro lado, a grande mídia é o objeto de desejo de todo jornalista recém-formado. Mas ninguém repara nos pequenos jornais que somam algo em torno de mil títulos em todo o interior do Brasil, a maioria dos quais no interior de São Paulo. Além desses, instalados comercialmente, há milhares de jornais de bairro, jornais institucionais, jornais empresariais especializados no trabalho comunitário, no serviço à comunidade e que acabam sendo um mercado de bom tamanho para os novos jornalistas que disputam um mercado de tantos candidatos e tão poucas vagas formais.

Por isto focaremos nossa pesquisa no Jornalismo Comunitário, a partir do Capítulo III.

Capítulo III

1. Características do pequeno jornal

Especialistas têm demonstrado que o Brasil teria uma imprensa mais democrática e mais comprometida com os verdadeiros interesses do povo se o poder da mídia estivesse menos concentrado nas mãos de poucas famílias situadas nas principais metrópoles do país. Talvez um jornalismo mais popular – porém não populista – não precisasse focar com tanta ênfase a alta economia, aquela que envolve os grandes investimentos e os mega-negócios, num país onde o povo não tem salário nem para chegar até o final do mês, quanto mais para investir na Bolsa. Claro que há um segmento de público à espera desse noticiário e da orientação que ele proporciona. Mas não é o grande público. Este quer saber apenas porque o gás de cozinha sobe tanto; porque a energia e o telefone têm tantos reajustes; porque é preciso pagar tanto imposto embutido no preço do feijão e dos alimentos em geral. Trata-se, portanto, não apenas de divulgar os aumentos mas de explicar porque eles estão acontecendo, se é por causa da entressafra, ou por causa da seca, ou do excesso de chuva, ou mesmo da elevação do dólar, ou das pressões corporativas do setor (como se dá nos postos de gasolina quando a Petrobrás autoriza novos preços) porém, sempre sob a ótica do povo, com palavras que o povo possa entender, sem “economês” como se todos fôssemos ilustres membros da elite nacional, como se todos morássemos na Av. Paulista. O noticiário econômico é apenas um sintoma do apego da imprensa brasileira às elites. Também pertencem às elites as grandes cadeias de empreendimentos industriais, comerciais e de serviço. Portanto, através das agências de publicidade, a elite manipula o noticiário e impede que se publiquem informações de interesse público que possam contrariar os seus negócios. Quanto mais fraco o jornal, mais forte a pressão dos anunciantes. Outra característica já apontada neste trabalho é a forte tendência de ser uma “imprensa chapa-branca”, sempre com o pires na mão para que, através de áulicos editoriais, consiga as benesses do poder.

No pequeno jornal essas características estão todas presentes. Não basta o país ter mil jornais no interior. Poderia ter a metade e eles teriam mais efeito se fossem realmente livres, soberanos, independentes, a serviço do coletivo e não de grupos, de prefeitos, de deputados, de vereadores, de empresários gananciosos interessados em faturar concorrências públicas etc.

Entre os pequenos jornais, há dois tipos principais. O jornal comercialmente instalado, dentro dos parâmetros da Lei 5.250, a Lei de Imprensa, devidamente registrados em cartório, com inscrição no Ministério da Fazenda, contador, jornalista responsável etc. Podem ser jornais de tiragens médias, situados em cidades acima de 100 mil habitantes, mas também podem ser minúsculos jornais que rodam até 500 exemplares com impressora off-set alugada, ostentando recursos de Internet e toda a parafernália da informática – como sites, câmaras digitais, celulares, plotadoras etc – tanto na captação como na produção do noticiário. Em cidades de 50 mil habitantes, como Penápolis, a 500 quilômetros de São Paulo, existem jornais assim, onde o noticiário da Prefeitura e da Câmara chega diariamente às redações via Internet, devidamente pronto para ser publicado.

Outro tipo de pequeno jornal, é o jornal Comunitário, que existe em função de uma comunidade, geralmente sem fins lucrativos, arrecadando apenas os recursos necessários a cobrir os custos, destinado a lutar em favor da comunidade. Quando feito com seriedade, esse jornal não tem dono – se assim se pode dizer. A pauta nasce de reuniões com os moradores, os problemas são resolvidos pelo Conselho da Comunidade. Não se pode aceitar verbas de um político ou de um candidato que depois venha a usar a comunidade em benefício próprio. Quem manda na linha editorial é o povo. O Brasil precisaria ter mais jornais assim, com liberdade para dizerem o que pensam porque não estão submetidos a nenhuma canga de prefeito, de político, ou de empresário.

O jornal comunitário tanto pode circular no bairro, como na fábrica, na escola etc.

Alguns fazem confusão com Jornal Especializado. Mas não há motivo para confusão. Basta lembrar que o Especializado trata de temas específicos de uma determinada categoria social. Assim, o jornal ou a revista especializada em assuntos odontológicos poderá circular por todo o Estado e até pelo país. Mas jamais será um veículo comunitário, mesmo quando se dirige à “comunidade dos dentistas brasileiros”, porque neste caso o termo comunidade é tomado em outro sentido, isto é, pessoas que comungam dos mesmos assuntos. Pode ser a Comunidade Católica (ou Judaica ou outra qualquer) Brasileira ou Universal, a Comunidade Islâmica, a Comunidade Médica etc.

O sentido que se aplica ao termo para Jornalismo Comunitário, é o sentido de “comum-unidade”, isto é, pessoas que vivem em determinado local, que vivenciam problemas específicos, que têm lutas em comum a serem travadas e vencidas. Refere-se ao convício das pessoas em determinada unidade geográfica que pode ser um ambiente interno ( escola, fábrica etc) ou externo ( rua, bairro, quarteirão etc).

Mesmo que essa diferenciação de sentidos não apresente muita razão de ser, o certo é que não se pode confundir Jornalismo Especializado (ou Temático) com Jornalismo Comunitário.

Capítulo III

1. Características do pequeno jornal

Especialistas têm demonstrado que o Brasil teria uma imprensa mais democrática e mais comprometida com os verdadeiros interesses do povo se o poder da mídia estivesse menos concentrado nas mãos de poucas famílias situadas nas principais metrópoles do país. Talvez um jornalismo mais popular – porém não populista – não precisasse focar com tanta ênfase a alta economia, aquela que envolve os grandes investimentos e os mega-negócios, num país onde o povo não tem salário nem para chegar até o final do mês, quanto mais para investir na Bolsa. Claro que há um segmento de público à espera desse noticiário e da orientação que ele proporciona. Mas não é o grande público. Este quer saber apenas porque o gás de cozinha sobe tanto; porque a energia e o telefone têm tantos reajustes; porque é preciso pagar tanto imposto embutido no preço do feijão e dos alimentos em geral. Trata-se, portanto, não apenas de divulgar os aumentos mas de explicar porque eles estão acontecendo, se é por causa da entressafra, ou por causa da seca, ou do excesso de chuva, ou mesmo da elevação do dólar, ou das pressões corporativas do setor (como se dá nos postos de gasolina quando a Petrobrás autoriza novos preços) porém, sempre sob a ótica do povo, com palavras que o povo possa entender, sem “economês” como se todos fôssemos ilustres membros da elite nacional, como se todos morássemos na Av. Paulista. O noticiário econômico é apenas um sintoma do apego da imprensa brasileira às elites. Também pertencem às elites as grandes cadeias de empreendimentos industriais, comerciais e de serviço. Portanto, através das agências de publicidade, a elite manipula o noticiário e impede que se publiquem informações de interesse público que possam contrariar os seus negócios. Quanto mais fraco o jornal, mais forte a pressão dos anunciantes. Outra característica já apontada neste trabalho é a forte tendência de ser uma “imprensa chapa-branca”, sempre com o pires na mão para que, através de áulicos editoriais, consiga as benesses do poder.

No pequeno jornal essas características estão todas presentes. Não basta o país ter mil jornais no interior. Poderia ter a metade e eles teriam mais efeito se fossem realmente livres, soberanos, independentes, a serviço do coletivo e não de grupos, de prefeitos, de deputados, de vereadores, de empresários gananciosos interessados em faturar concorrências públicas etc.

Entre os pequenos jornais, há dois tipos principais. O jornal comercialmente instalado, dentro dos parâmetros da Lei 5.250, a Lei de Imprensa, devidamente registrados em cartório, com inscrição no Ministério da Fazenda, contador, jornalista responsável etc. Podem ser jornais de tiragens médias, situados em cidades acima de 100 mil habitantes, mas também podem ser minúsculos jornais que rodam até 500 exemplares com impressora off-set alugada, ostentando recursos de Internet e toda a parafernália da informática – como sites, câmaras digitais, celulares, plotadoras etc – tanto na captação como na produção do noticiário. Em cidades de 50 mil habitantes, como Penápolis, a 500 quilômetros de São Paulo, existem jornais assim, onde o noticiário da Prefeitura e da Câmara chega diariamente às redações via Internet, devidamente pronto para ser publicado.

Outro tipo de pequeno jornal, é o jornal Comunitário, que existe em função de uma comunidade, geralmente sem fins lucrativos, arrecadando apenas os recursos necessários a cobrir os custos, destinado a lutar em favor da comunidade. Quando feito com seriedade, esse jornal não tem dono – se assim se pode dizer. A pauta nasce de reuniões com os moradores, os problemas são resolvidos pelo Conselho da Comunidade. Não se pode aceitar verbas de um político ou de um candidato que depois venha a usar a comunidade em benefício próprio. Quem manda na linha editorial é o povo. O Brasil precisaria ter mais jornais assim, com liberdade para dizerem o que pensam porque não estão submetidos a nenhuma canga de prefeito, de político, ou de empresário.

O jornal comunitário tanto pode circular no bairro, como na fábrica, na escola etc.

Alguns fazem confusão com Jornal Especializado. Mas não há motivo para confusão. Basta lembrar que o Especializado trata de temas específicos de uma determinada categoria social. Assim, o jornal ou a revista especializada em assuntos odontológicos poderá circular por todo o Estado e até pelo país. Mas jamais será um veículo comunitário, mesmo quando se dirige à “comunidade dos dentistas brasileiros”, porque neste caso o termo comunidade é tomado em outro sentido, isto é, pessoas que comungam dos mesmos assuntos. Pode ser a Comunidade Católica (ou Judaica ou outra qualquer) Brasileira ou Universal, a Comunidade Islâmica, a Comunidade Médica etc.

O sentido que se aplica ao termo para Jornalismo Comunitário, é o sentido de “comum-unidade”, isto é, pessoas que vivem em determinado local, que vivenciam problemas específicos, que têm lutas em comum a serem travadas e vencidas. Refere-se ao convício das pessoas em determinada unidade geográfica que pode ser um ambiente interno ( escola, fábrica etc) ou externo ( rua, bairro, quarteirão etc).

Mesmo que essa diferenciação de sentidos não apresente muita razão de ser, o certo é que não se pode confundir Jornalismo Especializado (ou Temático) com Jornalismo Comunitário.

É importante traçar esse paralelo porque os públicos são diferentes. O Especializado vai girar, principalmente, em torno de um tema especificamente destinado à categoria tal. Já o comunitário vai ser um jornal de conteúdo variado, que procura não apenas refletir as questões locais, mas que também busca traduzir para a comunidade os fatos do país e do mundo. É um jornalismo que fala diretamente ao coração das pessoas, sempre com palavras simples, capaz de jamais se enganar sobre os nomes das pessoas do local, por exemplo. É uma linguagem preferencialmente coloquial, quase intimista, bem diferente do formalismo próprio do Especializado. Todos devem ser ouvidos com respeito, com carinho, com atenção, mesmo quando não saibam se expressar direito. Já no Especializado o repórter conversará com especialistas em cada matéria abordada, pois o produto vai ser consumido por um público altamente esclarecido sobre o tema daquela edição. Na verdade, o verdadeiro jornalismo comunitário – seja no impressos, seja nas Rádios Comunitárias – faz diariamente uma troca de idéias com as pessoas. Assim a comunidade vai crescendo em organização, em consciência política, na compreensão da realidade, valorizando-se como cidadãs e aprendendo a olhar o mundo com outros olhos, com um olhar crítico e participativo, não com um olhar cabisbaixo e alienado. Assim se constrói um país soberano e livre.

Mas seria preciso que essa idéia fosse inculcada nos estudantes de jornalismo como um verdadeiro sacerdócio. No entanto, o que se vê é que alguns cursos de Comunicação Social estão extinguindo a disciplina “Jornalismo Comunitário”, substituindo-a por Jornalismo Especializado, como se fosse a mesma coisa, ou por Jornalismo Online que está na moda. Também esse é um modo de valorizar a vocação elitista da nossa imprensa, cortando o atalho da comunicação popular e formando apenas os futuros ases da Globo, os repórteres especializados na cobertura da Bolsa de Valores e na participação em entrevistas ministeriais ou palacianas.

Os futuros jornalistas têm mercado de trabalho farto e abundando tanto nos jornais do interior formalmente estabelecidos, como nos pequenos jornais comunitários que faturam apenas para pagar as despesas (inclusive com os profissionais que os fazem). Por enquanto, é o mercado formal – isto é, os jornais comercialmente estruturados, mesmo que pequenos e circulando em pequenas cidades – que mais tem espaço para os novos profissionais. Por isto vamos refletir um pouco mais sobre esse segmento da imprensa brasileira, geralmente representado em cada estado pela respectiva “Associação de Jornais do Interior” e, nacionalmente, pela Associação Brasileira de Jornais do Interior, com sede em Brasília. Podemos dar um nome a esta reflexão: “O papel do jornal no Interior”.

Em 1992, a acadêmica Isabel Siqueira Travancas aproveitou sua dissertação de mestrado para fazer uma pesquisa sobre o modo de vida dos jornalistas, entrevistando dezenas de profissionais no Rio de Janeiro. O resultado foi “O Mundo dos Jornalistas” ( São Paulo: Summus, 1992), hoje obrigatório para todos os estudantes de jornalismo.

Nas páginas 88/89 ela descreve que o sonho de todo jornalista dos grandes centros urbanos é “ser dono de um jornal”, ou ter um bar, para “se libertar do esquema empresarial dos grandes jornais e do próprio anonimato”. Uma jornalista entrevistada pela pesquisadora disse que gostaria de montar o seu próprio negócio, sem patrão, no esquema de cooperativa, para fazer algo criativo e que dê dinheiro também. “ Não ter patrão e possuir um negócio seu parecem palavras-chave para entender o imaginário deste grupo”, diz Isabel referindo-se aos profissionais mais jovens.

Depois de constatar que “o jornalismo é uma profissão que se aprende nas redações, na prática”, Isabel Siqueira Travancas constata, em sua pesquisa, que “outro ponto importante a enfatizar é que a grande maioria dos órgãos de comunicação do país são empresas privadas com fins lucrativos. São poucas as estações de rádio ou canais de televisão do Estado. Isso

também demonstra que o jornalismo se desenvolveu junto com a sociedade e dentro dela, sendo o jornal um produto de consumo. Raros são os jornais de cooperativa, sem fins lucrativos ou com empregados que trabalhem principalmente por amor à arte. O jornalismo hoje faz parte da sociedade capitalista, e o jornalista é uma peça importante dessa engrenagem que produz notícias”.

Essa transformação do jornal do século XIX – voltado para a defesa dos costumes, as virtudes morais e sociais, a publicação de novelas, extratos de história, resumo de viagens, trechos de autores clássicos e anedotas – para o jornalismo de mentalidade empresarial do século XX, começando já em torno de 1875, foi observada por outra pesquisadora da USP, Cremilda Medina, em “Notícia – Um Produto à Venda ( São Paulo: Summus, 1988). Segundo ela “as grandes agências de notícia se encarregaram de implantar internacionalmente, após a II Guerra, o modelo de consumo norte-americano – a notícia como um produto de venda no mercado urbano e industrial”.

Cremilda critica a falta de maturidade e de conhecimento histórico do jornalista brasileiro: “ ...assim como o brasileiro alfabetizado médio, também o produtor de informação não pesquisa a história de sua cultura, a história de seu povo, a história da sociedade em que está inserido como canal e agente de comunicação”.

Aqui chegamos ao ponto da lição que dá título ao tema de hoje: Jornal do Interior.

O interior do Brasil conta com mais de mil jornais diários, semanais, bi-semanais, tri-semanais, quinzenais e mensais. O estado que mais concentra esse tipo de jornalismo é São Paulo, com mais de 500 jornais, quase um por município. São jornais que circulam em todo tipo de comunidade, mesmo em cidades de 5 mil ou 50 mil habitantes em média, constituindo, inclusive, amplo mercado de trabalho para os estudantes de comunicação, principalmente com a legalização do estágio em jornalismo, daí a oportunidade de olhar mais de perto para este segmento, tendo em vista a saturação dos grandes meios de comunicação voltados para políticas de enxugamento de custos que sempre resultam em dispensa de profissionais optando-se pela terceirização ( produção independente ) ou pelo free-lancer, que não envolve encargos trabalhistas. Segundo o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, o trabalho dos free-lancers é uma verdadeira aberração na capital paulista: eles vão à redação diariamente, lá têm uma mesa com telefone, micro etc mas não têm qualquer vínculo com a empresa...ou aceitam essa situação humilhante ou ficam desempregados, caso não consigam abrir o próprio negócio, muitas vezes na forma de assessoria de imprensa independente.

Assim, tentar refúgio em jornais de porte médio do interior é sempre uma saída possível, apesar dos baixos salários. No interior de São Paulo há 436 jornais filiados à Associação dos Jornais do Interior. Segundo essa entidade, 54% dos leitores de jornal, no interior paulista, lêem somente o jornal da sua cidade, contra 11% que só lêem jornais da Capital. Entre os leitores, 35% são assinantes de jornais da Capital e também do local. A Adjori também informa que a tiragem média dos jornais do interior paulista é de 3.900 exemplares e faz as seguintes contas em seu Anuário de 1998: “Considerando-se as tiragens dos jornais Folha e Estado, da Capital, e dividindo-se pelos 625 municípios paulistas, a distribuição média em cada município seria de 353 e 228 exemplares, respectivamente. Porém, a maior parte da tiragem de ambos (51%) é destinada ao público da Capital. Dos 49% restantes, 30% são destinados ao interior e 19% vão para outras Capitais e para cidades do interior de outros Estados. Assim, conclui-se que a tiragem de um jornal do interior paulista, na sua própria cidade, é 11,04 vezes maior que o da Folha e 17,10 vezes maior que a do Estado”.

Esse crescimento dos pequenos jornais estaria diretamente ligado ao poder econômico do interior paulista que tem taxas de crescimento e indicadores sociais comparados aos de países desenvolvidos. Por exemplo: 21% da produção industrial do Estado; 51,6% da receita do comércio; 11,9% das famílias com renda do tipo classe A; 2,2 de cada dez eleitores paulistas; eleitorado equivalente à soma de 10 estados brasileiros; consumo de 15% de toda a produção brasileira; oito diretorias exclusivas do maior banco particular do país etc, conforme dados publicados no citado anuário.

Em 4 de junho de 2.000, a Organização Mundial de Saúde divulgou, em Genebra, uma nova forma de calcular a expectativa de vida que considera o estado de saúde da população e os anos de incapacidade, ao invés de contabilizar apenas a idade da morte. Os dados mostram que o Brasil é um país nitidamente dividido entre norte e sul, com regiões como o Estado de São Paulo, onde os índices se equiparam aos 20 países mais saudáveis, em que a expectativa de vida oscila de 70,5 anos (Finlândia) a 74,5 anos (Japão), contra 59,1 anos da média nacional. Levando-se em conta o contingente populacional do interior paulista em relação à Grande São Paulo, percebe-se porque tantos paulistanos procuram o interior para morar, em busca de melhor qualidade de vida.

E é no interior de São Paulo que situa-se o curso de Jornalismo da Unesp.

Portanto, é oportuno estudar esse segmento empresarial e profissional.

Como é ser jornalista no interior?

Antes de mais nada é preciso conhecer de perto esse mercado ainda dominado por muito aventureirismo empresarial, o que leva alguns meios acadêmicos a se distanciarem dele ao confundirem tal atividade com pura e simples “picaretagem”, isto é, um jornalismo voltado apenas para o faturamento, sem distinção entre notícia e matéria paga, resultando em baixa credibilidade diante do público, principalmente por causa das influências políticas, partidárias, econômicas, religiosas etc.

Mas as novas tecnologias estão mudando esse segmento. Pressionados pelos leitores – que estão cada vez mais exigentes à medida que podem confrontar o “jornalzinho” da cidade com outros jornais que chegam de fora e mesmo com o conteúdo noticioso da TV aberta, da TV por assinatura, do rádio e da Internet - os jornais do interior estão se modernizando e se organizando. Muitos já estão associados à Associação Nacional de Jornais que, por sua vez, é filiada à Associação Mundial de Jornais, tendo um código de ética próprio e até verificação de circulação. Os pequenos fazem parte da Associação dos Jornais do Interior (com sede em cada estado ) e da Associação Brasileira de Jornais (com sede em Brasília). Há também a Associação dos Jornais de Bairro e a Associação Brasileira de Veículos de Comunicação, além do Sindicato dos Proprietários de Jornais. A maioria dessas entidades conta com sites na Internet.

Os próprios jornais estão conectados na rede porque a maioria opera em off-set, portanto com o uso regular do computador, restando ainda alguns, mesmo no Estado de São Paulo, que trabalham no antigo sistema de chumbo e linotipia.

A mesma classificação de empresas capitalistas que as pesquisadoras Cremilda Medina (em 1988) e Isabel S. Travancas (em 1992) atribuem aos jornais brasileiros deve ser atribuída, naturalmente, aos jornais do interior. Eles vivenciam uma experiência empresarial, com a característica de serem menores, num público menor, onde as pressões são maiores e mais diretas, tanto por parte dos leitores como dos anunciantes.

Sob este aspecto, ser dono de jornal não é o “mar de rosas” sonhado pelos repórteres dos grandes centros que Isabel Travancas entrevistou. Muitas vezes resulta em terríveis dores de cabeça, principalmente quando o jornalista-empresário pretende se manter incorruptível, sem ceder a este ou aquele grupo da comunidade, buscando servir apenas, e o mais imparcialmente possível, aos seus leitores.

A primeira grande dificuldade de quem decide montar o próprio jornal, em pequenas comunidades, é separar Jornalismo e Publicidade. Embora difícil, este é um passo importante e decisivo para dar ao noticiário do jornal uma linha de independência a serviço da comunidade. Havendo esta separação física e clara entre uma e outra atividade, com pessoas diferentes para cada atividade, será possível preservar, de algum modo, a soberania da cobertura jornalística. Para ter bom resultado, o jornal do interior precisa ter êxito, primeiro, nessa divisão de trabalho, isto é, necessita de um profissional que consiga, honestamente, carrear publicidade para as páginas do jornal e de um corpo de jornalistas interessados em fazer jornalismo para atender prioritariamente à comunidade. Do contrário o que se terá é um jornal destinado apenas a apoiar um partido, uma empresa, um grupo político, o prefeito, uma denominação religiosa etc, sendo, portanto, não um jornal para a comunidade, mas um jornal partidário ou de grupo, afinal, um jornal parcial, aí sim muito próximo da picaretagem que só degrada a profissão.

Por isto, ao buscar mercado de trabalho no interior, o estudante de comunicação que deseja fazer uma carreira séria, procura se informar sobre a base de sustentação econômica do jornal para saber até onde poderá exercer seu ofício com liberdade, pelo menos nos níveis de liberdade consentida nos jornais de expressão, já que o Código de Ética e a Lei de Imprensa valem para todos que exercem o jornalismo, independentemente da tiragem. As penas da Lei de Imprensa não são atenuadas para quem exerce o jornalismo em pequenas comunidades. Portanto, as responsabilidades são iguais.

Naturalmente, os salários são menores. O próprio Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo tem um piso menor para os profissionais do interior. Mas há compensações em viver no interior. O risco é trocar o salário de R$ 10 mil em São Paulo ou em Brasília pela tentação de ser dono do próprio negócio no interior sem verificar, antes, como será a sustentação econômica da empresa.

Geralmente, nas cidades com cerca de 50 mil habitantes, o principal cliente do jornal é a prefeitura. Em muitos casos essa dependência cria uma vinculação excessiva entre o jornal e o poder público municipal, de modo que o leitor vai encontrar nas páginas do jornal não o noticiário sobre a cidade, mas o noticiário sobre a administração municipal. Já há cidades no interior de São Paulo onde os releases municipais da prefeitura, Câmara e autarquias chegam aos jornais locais e regionais via Internet. E o mesmo ocorre com os atos oficiais para o veículo vencedor da concorrência pública. Por isto, por comodidade e para reduzir custos, o jornal acaba dando vazão a todos os releases disponíveis no computador ao invés de pagar repórteres para irem atrás de fatos novos que, muitas vezes, interessam à comunidade mas desagradam à prefeitura. Quando há substituição do partido ou da coligação partidária no poder, o jornal muda apenas os nomes dos novos donos do poder, mas o estilo de trabalho continua o mesmo, sempre privilegiando a visão oficial e esquecendo-se da principal razão de ser de qualquer jornal digno do nome que é o leitor, a comunidade, a coletividade.

Ficar preso à prefeitura é o pior mundo possível para um jornal que quer ter uma atuação comunitária porque ao fazer acordo para publicação de atos oficiais e notícias prontas da prefeitura, o jornal acaba vendendo a própria alma e perde a independência para tratar da vasta gama de assuntos que interessam à comunidade. Há profissionais éticos que preferem perder o emprego ou até o próprio negócio – se donos - quando o jornal envereda por caminhos tão perigosos.

O melhor rumo para um jornal pequeno é seguir o mesmo plano do grande jornal: Lutar para manter e ampliar sempre sua base de assinantes, de modo a ser financiado pelo único patrão que merece ser bem servido no jornalismo ético: o leitor. Isto exige bom planejamento administrativo na estratégia de relacionamento com os assinantes velhos e novos e bom produto final porque o leitor dará preferência ao jornal bem feito, sério, isento, independente, que está a serviço da comunidade e não deste ou daquele grupo de poder.

Sob este ponto de vista, teremos jornais “de comunidade” (voltados para a comunidade ) e jornais “comunitários”. Neste último caso trata-se do jornal feito pelos próprios moradores do bairro ou da vila, sem fins lucrativos, como num mutirão, onde a linha editorial é discutida pelos representantes da comunidade, sendo o jornal um produto coletivo para a coletividade. No primeiro caso, trata-se de um jornal com proprietário identificado, que administra e cuida do jornal, porém aberto a todos, democraticamente, zelando pela ética, evitando prender-se a grupos, colocando-se inteiramente a serviço dos leitores e apenas deles dependendo para continuar circulando, bem como de anunciantes médios que não interfiram na linha editorial. Outro modelo é o jornal mantido por uma entidade – como uma universidade, por exemplo – em que não há interferência editorial, sendo o objetivo maior servir à comunidade.

Em seguida vamos discutir o conteúdo dos jornais do interior.

Jornalismo “segura peão!” - Engana-se totalmente quem imagina que jornalismo no interior é só festa. Muitos acham que o repórter do interior não faz outra coisa senão cobrir festa de rodeio, churrasco do prefeito e inauguração de obras municipais.

Até os pequenos jornais estão se estruturando em modos profissionais e empresariais. Os antigos jornais de família, fundados por um advogado, um professor, um militar aposentado etc vão cedendo espaço a organizações empresariais que já optam até mesmo pela terceirização, além de assinarem serviços noticiosos e de receberem colunas diárias pela Internet.

Quem tem uma idéia na cabeça e um computador na mão não precisa, necessariamente, fazer um “jornal de roça”. Se fizer, não terá leitores. Se tiver, perderá em pouco tempo. Se o leitor está se atualizando, movido pelos processos inerentes à Globalização, não resta outra saída às empresas de comunicação senão seguir a toada. A maioria já compreende o conceito de “globalização local”, isto é, de realizar na comunidade a integração que se verifica a nível global entre os países. Trata-se, pois, de valorizar os fatos locais, a história local, as pessoas do lugar, sem perder de vista o que passa pelo mundo (pleonasticamente ) globalizado.

Muitos autores mostram que longe de desaparecer diante da enxurrada de notícias do mundo globalizado que chega por todos os lados e da forma mais “on line” (se é que se pode usar tal palavra como sinônimo de concomitante para significar “enquanto o fato está acontecendo” ou “momentos após ele ter acontecido” ), os jornais de comunidade tendem a crescer de importância pois é para ele e para os demais veículos sérios do lugar, que a comunidade se volta como náufraga do mar global de notícias em busca de referência, de ponto de apoio, de reconhecimento da própria identidade. No jornal da cidade ou na emissora de rádio local, o receptor sabe que seu nome não vai sair errado e só ali ele ficará sabendo que o trânsito da rua da sua casa vai mudar de mão. Isto não seria possível no grande jornal globalizado que chega pelo correio às 10h.

O jornal do interior como “leitura local” será sempre insubstituível como marco referencial da comunidade, cabendo aos jornais regionais ou mesmo aos jornais dos grandes centros, o papel secundário de “segunda leitura”, exatamente por causa da absoluta necessidade de identificação entre emissor e receptor, característica acentuada do jornal de comunidade. À medida que se colocar a serviço da comunidade para lutar pelas causas coletivas, à medida que tiver a comunidade como sua única referência e preocupação, o jornal do interior conquistará prestígio e respeito, cabendo-lhe, depois, zelar por esse patrimônio com a responsabilidade e o equilíbrio de seu noticiário. Ao profissional desse tipo de jornal caberá reconhecer a importância social que a comunidade lhe atribui, mas, ao mesmo tempo, exercer seu trabalho com ética e humildade, sem jamais se deixar levar pela tentação de tirar proveito pessoal do seu status. Os que agem com seriedade ficam na memória histórica da cidade, os que traem a confiança da comunidade são execrados e esquecidos para sempre.

A carreira de muitos jornalistas de renome começou no pequeno jornal do interior e isto prova que em qualquer lugar há espaço para a ética, a seriedade, a competência, o texto bem apurado, a interpretação adequada do fato. Afinal, jornalista do interior também acessa o Observatório da Imprensa na Internet e está passando o tempo em que esse ofício era apenas uma atividade caricata ou folclórica no interiorzão do país, nos “grotões” citados por Ulisses Guimarães.

Grande número de pequenos jornais do interior também já possui portais na Internet, com atualização durante o dia. Os repórteres já trabalham com câmaras digitais gravando as fotos em disquete e descarregando a imagem direto no computador. Os repórteres, entre uma cobertura e outra, são acionados pelo celular. O mais curioso e inusitado é que, apesar de estarem no interior, esses jornais falam pouco ou quase nada da área rural. Quando muito noticiam o início da safra nas usinas de açúcar e álcool ou a construção de pontes nos chamados “bairros rurais”. Na verdade são jornais que procuram “substituir” a segunda-leitura, isto é, tentam evitar que o assinante seja obrigado a assinar o jornal do grande centro, bem mais caro, para ficar bem informado, daí a publicação de páginas com assuntos nacionais e internacionais ao invés de se dedicar espaço para os assuntos da zona rural.

Outra explicação seria o acentuado processo de urbanização que tirou o homem do campo a partir das décadas de 50 e 60 conforme dados do IBGE, não havendo público para ler o jornal na zona rural, além de ser mais difícil a cobertura e a distribuição posterior do jornal. O pensamento que norteia estes veículos e que lhes dá uma tonalidade urbana apesar de estarem no interior, é que os donos de sítios e fazendas que ainda exploram atividades rurais, na verdade, vivem e moram nas pequenas cidades onde o jornal circula. Daí a preocupação em encerrar a distribuição do jornal diário antes das sete horas da manhã, antes que o leitor pegue sua camioneta para ir trabalhar.

Outro fenômeno “urbano” dos jornais do interior é o sistema de impressão a cores que está chegando rapidamente às cidades de 100 mil habitantes, provocando o surgimento de novos cadernos que, naturalmente, exigem profissionais especializados, apesar de boa parte do material, tipo matéria-fria, ser fornecido pelas agências de notícia. A maioria desses jornais estrutura suas páginas de modo semelhante à diagramação dos grandes jornais, com primeira página bem desenhada onde ficam as chamadas para as páginas de dentro, sempre divididas com material opinativo na página 2 e material local a partir da página 3, seguindo o noticiário nacional e internacional, a página de lazer com roteiro de filmes, novelas, horóscopo etc, os classificados e o segundo caderno, num total de 24 páginas aproximadamente. Nas pequenas cidades, com cerca de 50 mil habitantes, o número de páginas é de apenas 10, em média, para os diários e um pouco mais para os semanários.

Na esteira do crescimento dos pequenos jornais estão surgindo inúmeros cursos de formação universitária, embora englobando, ainda, profissões assemelhadas como Jornalismo, Publicidade, Relações Públicas e até Turismo. Por sinal, o turismo e a ecologia são temas que estão ganhando espaço no interior, principalmente aqui no interior de São Paulo, com o surgimento dos grandes lagos formados pelas hidrelétricas da CESP no Rio Tietê e com o crescimento do turismo rural que aproveita ambientes propícios de antigas fazendas.

Portanto, quem olha dos grandes centros para o jornalismo do interior, não deve imaginar que os colegas “do campo” praticam um “jornalismo de caverna”, a não ser que se trate da “caverna digital” que acaba isolando os “produtores independentes” em casa (temerosos da insegurança e do trânsito das megalópoles) como observa Ciro Marcondes Filho (“Jornalismo Fin-de-Siècle”. São Paulo: Scritta, 1993) e os jornalistas na redação, “apurando” pelo telefone , como observa Alberto Dines (“O Papel do Jornal”. São Paulo: Summus, 1986).

Fazer “jornal de verdade” independentemente do veículo circular na Av. Paulista ou em Penápolis, é um desafio que se impõe aos novos jornalistas que ingressam num mercado altamente desenvolvido do ponto de vista tecnológico. Mas jornal de verdade não se faz apenas usando os mesmos recursos de informática que se usam em Tóquio, Paris ou Nova Iorque, mas produzindo um jornal sério, independente, bem escrito, bem diagramado.

Alberto Dines (1986) destaca o que significa ser “independente” para um jornal:

-Um grande jornal deve comportar-se sempre como se fosse um pequeno jornal. Não apenas por uma questão de humildade, mas também em função da preservação de seus princípios. Toda vez que um dirigente de jornal, ou alguém do escalão que o represente, disser, em tom de desculpa, “afinal, há grandes interesses em jogo...”, significa que estamos num grande jornal que já se esqueceu dos dias em que foi pequeno”.

Apesar do jornal do interior visar lucro como qualquer outra empresa, ele não é uma empresa qualquer. Se tentar ser, isto é, se o seu objetivo for somente o lucro, então será uma “picaretagem” a mais, sem credibilidade, uma empresa que usa o nome de jornal mas que também poderia se chamar catálogo, folheto, lista de palavras ou qualquer coisa assim. Para ter o direito de ser chamado de “jornalzinho” (não no sentido pejorativo, mas na conotação de cálido, próximo da gente, gente de casa – como se fosse um amigo ou um irmão mais velho em quem a gente confia com segurança) o pequeno jornal do interior precisa ser grande como os maiores títulos do mundo em ética, boa apuração, bom texto, isenção e independência.

Dines também lembra que em qualquer lugar do mundo “o único compromisso de jornais e jornalistas é com a informação. Seu empenho nesta tarefa faz, de um jornal qualquer, um jornal livre, logo um grande jornal. Uma nação de grandes jornais é uma grande nação. Sem este valor intrínseco, sem este quilate que advém de um entendimento superior das suas funções, um jornal, por melhor que seja organizado e construído, será apenas um catálogo de notícias”.

2. Instrumento de Transformação Social

Por suas características peculiares, o jornal voltado para comunidades específicas deve ser, naturalmente, um instrumento de transformação social, sem o que não faz sentido. Para tanto, o profissional deve trabalhar sempre imbuído dos melhores princípios éticos, tanto no relacionamento com a própria comunidade, como no relacionamento com as fontes de informação. Muitas vezes é aqui que mora o perigo. Devido à proximidade, não raro as fontes tentam manipular o jornal em proveito próprio. Outras vezes é o jornalista que se aproveita do seu prestígio na sociedade para deturpar, com prepotência, o que foi dito, conforme os seus interesses ou os interesses do jornal. Ambos são caminhos errados, a serem evitados, por mais fortes que sejam as pressões e as tentações.

Um modo de identificar-se com a comunidade, buscando permanente interação com ela, é valorizar a cultura e os costumes locais.O jornalismo comunitário deve estudar mais a fundo a formação histórica e social da população à qual se dirige. Aprofundar-se nos costumes que caracterizam a cultura popular (religiosidade, arte, vida familiar, formas de sociabilidade, educação etc) e aprender a respeitar e valorizar essa cultura, reconhecendo nela um processo dinâmico e vivo, é um bom começo para quem se inicia no jornalismo comunitário.

Para captar a alma do povo, o jornalista será sempre um observador privilegiado e um estudioso da sociologia, aprendendo que os regionalismos integram, na sua multiplicidade de variantes, a alma do povo brasileiro. Nas linhas finais de sua última obra (O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1995), Darcy Ribeiro traça um perfil que todo jornalista deve conhecer e sobre o qual deve refletir para bem cumprir o seu ofício de comunicador:

“...apesar de feitos pela fusão de matrizes tão diferenciadas, os brasileiros são, hoje, um dos povos mais homogêneos lingüística e culturalmente e também um dos mais integrados socialmente da Terra. Falam a mesma língua, sem dialetos. Não abrigam nenhum contingente reivindicativo de autonomia, nem se apegam a nenhum passado. Estamos abertos é para o futuro”, afirma o sociólogo depois de estudar as origens étnicas de nosso povo no índio, no negro e no europeu, mais tarde enriquecidas com a chegada dos orientais.

Diante de tanto jornalista deslumbrado com outras culturas e por isto mesmo alimentando complexos de inferioridade pelos traços culturais de seu país ou de sua região, Darcy Ribeiro proclama:

“Nações há no Mundo Novo – Estados Unidos, Canadá, Austrália – que são meros transplantes da Europa para amplos espaços além-mar. Não apresentam novidade alguma neste mundo. São excedentes que não cabiam mais no Velho Mundo e aqui vieram repetir a Europa, reconstituindo suas paisagens natais para viverem com mais folga e liberdade, sentindo-se em casa. É certo que às vezes se fazem criativos, reinventando a república e a eleição grega. Raramente. São, a rigor, o oposto de nós”.

A vocação latina do povo brasileiro, a natural integração continental da América do Sul, cada vez mais discutida em nossos dias, a partir do Mercosul retomado na Administração de Luis Inácio Lula da Silva, é vislumbrada pelo sociólogo:

“Nosso destino é nos unificarmos com todos os latino-americanos por nossa oposição comum ao mesmo antagonista, que é a América anglo-saxônica, para fundarmos, tal como ocorre na Comunidade Européia, a Nação Latino-Americana sonhada por Bolívar. Hoje, somos 500 milhões, amanhã seremos 1 bilhão. Vale dizer, um contingente humano com magnitude suficiente para encarnar a latinidade em face dos blocos chineses, eslavos, árabes e neobritânicos na humanidade futura”.

Darcy Ribeiro deixou-nos um legado de otimismo que muitas vezes falta ao jornalista:

“Estamos nos construindo para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra”.

Na Comunidade, o jornalista verá refletido, como num espelho, um pouco de cada um dos matizes que conformam a alma brasileira. Na cobertura diária, nas reuniões com o povo, nas festas populares, nas tradições locais, o comunicador entrará em contato com o Brasil crioulo, o Brasil caboclo, o Brasil sertanejo, o Brasil caipira, os Brasis sulinos, de que fala o mesmo autor.

“Embora nos ensinem a ter um modo de vida refinado, civilizado e eficiente – numa palavra, culto – não conseguimos evitar que muitos objetos e práticas que qualificamos de populares pontilhem nosso cotidiano. Samba, frevo, maracatu, vatapá, tutu de feijão e cuscuz, seresta, repente, folheto de cordel, congada, reisado, bumba-meu-boi, boneca de pano, talha, mamulengo, colher de pau, moringa, peneira, carnaval, procissão, benzimento, quebrante, simpatia, chá de ervas etc são palavras familiares, algumas numa região, outras noutra, com sotaque italiano, japonês, alemão ou árabe, ou ainda de modo supostamente puro”, observa o pesquisador Antonio Augusto Arantes em “O Que é Cultura Popular” ( São Paulo: Brasiliense, 1985).

Resgatando a cultura popular ( que tanto pode ser instrumento de conservação como de transformação social, segundo Ferreira Gullar), nas suas várias manifestações, o jornalismo comunitário estará contribuindo para a formação da cidadania, para que o desconforto das pessoas contra a desigualdade social gerada pela política neo-liberal não se transforme em mero sentimento de constrangimento ou de vergonha, mas que se afirme como o inconformismo que leva à luta por uma situação de justiça, de igualdade, de solidariedade.

Por isto mesmo o jornalismo comunitário não deve se voltar para grupos, porque isto significaria oprimir ainda mais o povo através da desinformação ou do sectarismo político-partidário. Deve, isto sim, abraçar as causas populares e usar a força do veículo comunitário junto aos que têm poder de decisão para forçar a solução dos problemas que afligem a comunidade, no seu dia-a-dia.

É nobre e de grande responsabilidade a tarefa do jornalismo comunitário.

A propósito de cultura popular e cidadania, o educador Paulo Freire participou, como conferencista, da produção de um vídeo popular em apoio à campanha de erradicação do analfabetismo promovida pelo Banco do Brasil em maio de 1994, com o título “Educação e Mudança”. E ao falar para educadores, Paulo Freire está falando, naturalmente, para líderes comunitários que têm o pode de influir na opinião pública do lugar onde trabalham. Entre esses líderes estão, naturalmente, os jornalistas comunitários, nos quais a comunidade aprende a confiar e dos quais espera comportamento ético, sereno e responsável.

Segundo ele, a tarefa do educador é uma tarefa “gnosiológica”, isto é, que envolve o processo do conhecimento. Para transmitir ensinamentos, ele precisa ter clareza política, visão de mundo e método de trabalho. À medida que transfere o conhecimento, ele “reconhece” o que conheceu durante o estudo do objeto, capacitando-se, assim, cada vez mais, como formador.

Na comunidade, o jornalista é permanentemente convidado a integrar órgãos colegiados, associações, grupos de debate, jurado de eventos culturais etc. Isto ocorre porque a comunidade reconhece nele a capacidade de liderar e de influenciar. Dotado de princípios éticos, o comunicador comunitário deve aproveitar esse contato direto para estar sempre aprendendo com a comunidade de modo a poder servi-la cada vez melhor, sem jamais impor os seus processos, mas sempre discutindo, democraticamente, o melhor caminho em cada situação.

De quem lidera, a comunidade também aguarda um pouco de esperança, de estímulo, alguém que sabe não apenas criticar mas também propor soluções. Paulo Freire denuncia como artimanha do capitalismo neo-liberal a estratégia de dizer que as utopias morreram, que não adianta mais sonhar, que a pobreza é um determinismo histórico, que os pobres devem se conformar com a vida que levam etc.

O formador de opinião deve enfrentar essa barreira, segundo Freire, porque é uma barreira imposta pela ideologia das classes dominantes. O educador/formador deve resgatar a esperança do povo num mundo melhor, fazendo-o sentir-se sujeito da história e não mero objeto dela ou um joguete do destino. Se há exclusão social a culpa não é dos excluídos, mas do modelo perverso de sociedade que temos. Por isto a cidadania é um processo em permanente construção, é um direito a ser exercido por todos, sem qualquer tipo de exclusão por analfabetismo, cor, situação econômica, crença, convicção política etc. Na medida que o comunicador comunitário dá as costas para os interesses do coletivo e passa a servir a este ou aquele grupo, ele está traindo a confiança da comunidade e retirando dela o direito à cidadania. E ninguém pode tirar do outro o direito de sonhar e de lutar. “A existência ultrapassa a vida; pode haver vida sem sonho, mas não há existência sem sonho”, diz Paulo Freire esclarecendo que existir socialmente, como cidadão, é mais que viver biologicamente como qualquer ser vivo.

O jornalista comunitário não pode se limitar a perceber que tem nas mãos o dever social de mudar o mundo, de torná-lo melhor e mais justo. Ele precisa assumir, na prática, esse discurso, colocando seu trabalho, seu jornal, seu veículo, a serviço da coletividade em toda e qualquer circunstância.

Se não estiver preparado para ter uma visão crítica da história e da sociedade, o jornalista poderá contribuir para alienar ainda mais ao invés de libertar os excluídos. “Quando o Sujeito não se reconhece como produtor das obras e como sujeito da história, mas toma as obras e a história como forças estranhas, exteriores, alheias a ele e que o dominam e perseguem, temos o que Hegel designa como alienação. Esta é a impossibilidade do sujeito histórico identificar-se com sua obra, tomando-a como um poder separado dele, ameaçador e estranho”, observa Marilena Chauí em O Que É Ideologia ( São Paulo: Brasiliense, 1980).

Na comunidade, como já dito, o jornal e o jornalista devem apoiar e incentivar as manifestações da cultura popular, como teatro, música, poesia, arte etc. Para Antonio Arantes, “fazer qualquer modalidade de arte é construir, com cacos e fragmentos, um espelho onde transparece, com as suas roupagens identificadoras particulares, e concretas, o que é mais abstrato e geral num grupo humano, ou seja, a sua organização, que é condição e modo de sua participação na produção da sociedade”

Um dos melhores instrumentos de trabalho do jornalista que milita em grandes corporações é a boa relação do profissional com suas fontes de informação. No pequeno jornal não deve ser diferente, como já vimos. Afinal, como não se faz bom jornalismo sem boas fontes de informação, também não se faz veículo comunitário sem boa apuração, sem contar com uma rede de informações confiável e suficientemente ampla para manter o jornal bem informado. Não é o fato da comunidade ser um universo fisicamente menor que o dos grandes centros urbanos que dispensará o jornalista de uma boa pauta e uma boa agenda com nome, endereço e telefone de seus contatos. A especificidade que se pode verificar no caso do comunitário é, naturalmente, a proximidade e quase “vizinhança” do repórter com a fonte, mas isto como que reproduz, por exemplo, o universo de Brasília, a cidade com a maior concentração de fontes do país nos palácios, nos ministérios, no Congresso, nas embaixadas, no Governo do Distrito Federal, nas autarquias etc.

A relação de proximidade com a fonte, é sempre uma relação potencialmente perigosa, que pode levar a um envolvimento sem retorno, a um nível em que a fonte passa a manobrar o veículo ao “plantar” informações de seu interesse. A eqüidistância ética e equilibrada ( nem proximidade demais que envolva interferência, nem distanciamento tal que não comporte um telefonema fora de hora ) deve ser valorizada e buscada pelo jornalista, e de forma tanto maior quanto mais próxima for a “vizinhança” com a fonte, conforme se dá no interior das comunidades.

Por isto, vamos tratar, agora, do relacionamento com as fontes.

Quando trabalhamos com veículos comunitários não podemos dispensar o confronto e a diversidade de opiniões para passar ao leitor uma informação completa e bem interpretada. Agir sem essa preocupação é correr para as facilidades de um jornalismo superficial, rápido e sem apuração alegando a velha e esfarrapada desculpa da falta de tempo. Nasce daí um jornalismo faccioso, tendencioso, anti-ético, a serviço de grupos e não da comunidade.

Por menor que seja o universo de abrangência do veículo – ainda que seja apenas o jornal da escola – sempre será possível e necessário estabelecer o contraditório em busca da informação total, redonda, completa, justa, ética, para manter o receptor bem informado.

Isto tem a ver com boas fontes, mediante acurado trabalho de pesquisa ou apuração, através de entrevistas, consultas a publicações, documentos, bibliotecas, arquivos etc. Afinal, não há nenhum motivo para que um jornal comunitário não seja tão bem feito quanto um grande jornal. Apenas temos um ambiente menor a ser trabalhado, mas as normas éticas de apuração são as mesmas, por isto todos devem respeito ao artigo 7º do Código de Ética do Jornalista Brasileiro: “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação”.

Assim, “se o repórter vai cobrir a queixa dos moradores de que uma indústria está poluindo um rio, deve ouvir não só os moradores, mas também os donos da indústria e as autoridades locais”, alerta, de modo prático, o Manual de Telejornalismo da Central Globo de Jornalismo, ao definir isenção como a obrigação moral do repórter ouvir os dois lados de um assunto polêmico.

Jornalismo de Compadre - Na comunidade, muitas vezes corre-se o risco de fazer “jornalismo de compadre”, para usar a expressão de Francisco José Karan (em “Jornalismo, Ética e Liberdade”. São Paulo: Summus, 1997) quando nos contentamos com a informação oficial sobre determinado assunto e não vamos checar, confrontar, repercutir a notícia antes de publicá-la, de tal modo que “os donos do poder” passam a considerar “aquele jornalista” totalmente “confiável”, do ponto de vista deles, isto é, uma pessoa que divulga a informação que foi passada sem questioná-la, sem incluir outras abordagens, sem gerar “incômodos desagradáveis” etc, quando sabemos que a credibilidade, a confiabilidade devem vir do público, do universo alcançado pelo veículo e não deste ou daquele grupo, se queremos fazer jornal comunitário.

Um exemplo desse “jornalismo de compadre” é a “declaração não autorizada” do então ministro das Relações Exteriores, Rubens Ricupero, à Rede Globo nas eleições de 1994. Sem saber que os microfones estavam abertos, o ministro explicou o modelo de “transparência” do Governo FHC ao manipular índices inflacionários: “O que é bom a gente divulga, o que é ruim a gente esconde”. Para Karan esse tipo de comportamento mostrou a promiscuidade entre a Globo e candidatura de Fernando Henrique Cardoso, num tipo de jornalismo que a emissora e o governo viam (ou vêem ) como de interesse social. É bem uma relação de compadrio a promiscuidade entre governos neo-liberais e a grande mídia, como Mário Sérgio Conti ( ) conta do Governo Collor.

Nas pequenas comunidades não é raro o jornal colocar-se a serviço do poder municipal, por exemplo, com o pretexto de que está servindo à população ao divulgar, sem questionar, sem repercutir - e muitas vezes na íntegra - as informações fornecidas pela prefeitura ou pela Câmara através de “press releases” ou entrevistas. É o “jornalismo de compadre”.

É fácil explicar o interesse dos governantes em manipular a informação, seja na relação entre a Presidência da República e a poderosa Rede Globo, seja na imposição de um prefeito sobre um pequeno jornal que precisa da publicação dos atos oficiais para sobreviver. Francisco José Karan registra a declaração que Napoleão fez há 200 anos: “Se perdesse o controle da imprensa, não duraria três meses no poder”. Nos bastidores, afirma-se, por exemplo, que o Brasil só conseguiu o democrático exemplo do afastamento de Collor da presidência, em 1992, depois que a Globo retirou seu “apoio” ao Presidente após tentar ignorar, de início, os “caras pintadas” que exigiam o impeachment nas ruas.

Considerando que o veículo comunitário é “a leitura local”, concluímos que dentro daquele universo ele faz as vezes da Globo, do Estadão ou da Folha, isto é, tem todas as condições de ajudar ou prejudicar os governantes. Mas é preciso que o jornalista jamais use o seu veículo com tal objetivo, daí a imperiosa necessidade de contar com outras fontes na divulgação das informações municipais ou comunitárias.

Jornalismo Oficial - Compreende-se porque o jornalismo comunitário preocupa-se tanto em obter informações junto aos órgãos oficiais. Primeiramente eles precisam de informação e os governantes têm informação. Em segundo lugar, é das autoridades que os moradores reivindicam soluções para os seus problemas diários de segurança, buraco de rua, escolas, transporte coletivo, atendimento de saúde, fornecimento de água e luz, limpeza pública, coleta de lixo, taxas e impostos excessivos etc. Em terceiro lugar é sempre mais fácil e mais cômodo procurar as fontes oficiais que têm telefone e outras facilidades de serem alcançadas, que os dirigentes comunitários e as pessoas da própria comunidade.

É natural esperar que o jornalismo comunitário procure equilibrar o noticiário empenhando-se em dar espaço à comunidade e privilegiando as fontes comunitárias. Mas o comodismo de buscar antes as fontes oficiais é um defeito que não atinge só o comunitário, mas também a grande mídia. Rememorando os 30 anos iniciais do jornalismo brasiliense, conta Venício A. de Lima (em “Jornalismo de Brasília – Impressões e Vivências”. Brasília: UnB, 1993 ) que “a principal pauta do jornalismo de Brasília, tanto local quanto das sucursais, tem sido a ação do governo federal, entendido, aqui, sobretudo, como a ação do Poder Executivo. O Legislativo e o Judiciário ocuparam, historicamente, uma posição secundária nessa agenda, decorrência não só da atrofia provocada pelos 21 anos de autoritarismo militar, mas também da herança de nossa tradição política conservadora que sempre entendeu a política como reduzida ao estado, leia-se ao Poder Executivo”.

Entretanto é necessário despertar a cidadania de modo que as comunidades percebam a força da sua organização, uma organização que será tanto mais possível quanto maior for o empenho ético do veículo comunitário de se comprometer com essa tarefa social. O sociólogo Betinho ( Herbert Viana ), em vídeo popular gravado em maio de 1996, com o título “Cultura Organizacional”, para o Programa de Formação de Instrutores do Banco do Brasil, lembra aos formadores de opinião que eles devem valorizar a cidadania como “expressão de ação, de quem não espera acontecer, exercendo papel criativo e livre na construção de uma nova sociedade..” porque, segundo ele, “não é o Estado que salva a sociedade, é o cidadão que impõe uma política ao Estado democrático onde a pessoa mais importante não é o Presidente da República, é o Cidadão”. Lembra o sociólogo que o cidadão constrói a democracia quando delega poderes ao estado, pelo voto, para que o estado possa gerir os recursos sociais a serviço da comunidade. E se o governante não cumpre o que lhe foi atribuído, então é afastado por impeachment.

A mania que a imprensa tem de privilegiar as fontes oficiais, muitas vezes estabelecendo-se aquela promiscuidade entre o repórter e a fonte, é chamada de “fontismo” por Gilberto Dimenstein e Ricardo Kotscho em “A Aventura da Reportagem” ( São Paulo: Summus, 1990): “O jornalismo independente e, portanto, com credibilidade, significa atritos com o poder – logo, com as fontes. Atritos implicam boicote. Os repórteres não recebem sequer as informações mais ingênuas, como a data e o local onde o ministro vai se reunir com empresários ou parlamentares. Mas os editores exigem de seus comandados boas notícias. É preciso, então, um malabarismo para que não se fique tão distante das fontes a ponto de perder a informação – e nem tão próximo que signifique deixar de publicá-la. A busca desse equilíbrio exige a procura de novos e variados canais de obtenção de dados, único mecanismo para não cair nas armadilhas. O esforço compensa: o jornalismo e os jornalistas servis ganham o curto prazo, dão aqui e ali um furo sem maior importância, mas, a médio prazo, sofrem desgaste em sua credibilidade. E por um simples motivo: os governantes passam, voltam para casa, mas o jornalista e o leitor ficam. Quem quiser ser jornalista e ambicionar agrados do poder e, ao mesmo tempo, o respeito profissional, é bom ir logo procurando outra atividade”.

Em 1993 Geraldo Sobreira escreveu um manual para orientar as fontes de notícia no trato com os jornalistas. ( “Manual da Fonte – Como lidar com os jornalistas”. São Paulo: Geração Editorial, 1993). E afirma: “ Na relação entre o jornalista e a fonte – o profissional da política, dos negócios, da propaganda, da Justiçca, da polícia etc – os repórteres sabem que não se ganha informação de graça: a divulgação de uma notícia sempre tem um objetivo, que contraria uns e favorece outros”.

Segundo ele, “em toda instituição, quem tem poder tem informação”.

Mas a diretora de O Globo, em Brasília, Eliane Catanhêde, na mesma obra, define o que considera uma boa fonte de notícias na área oficial: “ A fonte de verdade é uma pessoa bem informada. É quem tem informação, sabe para onde as coisas estão indo e cria fatos. Essas são as melhores fontes. Ela participa do poder, é bem informada sobre o poder e os partidos. E sabe passar isso de forma clara e isenta para os repórteres certos, na hora certa. Mas há também o homem do poder que é o contrário, que é uma má fonte. É o político, o homem de poder que tem medo da imprensa. Não dá informação, não recebe, não sabe nada de imprensa e acha que tudo é sigilo. Outro tipo é aquele que não desgruda, persegue o repórter, quer almoçar com ele toda semana,quer aparecer a qualquer custo sem criar fatos que justifiquem”.

Geraldo alerta que “não é só o Governo que tem poder. A oposição é poder de fato, na medida em que influencia e altera decisões de governo, induz o comportamento da sociedade, cria fatos. O poder não está só no Palácio do Planalto ou no partido majoritário. Está no Congresso, nos sindicatos, nas entidades da sociedade civil, na Justiça, na polícia etc”.

Mônica Waldvogel, na mesma obra, declara: “Eu respeito a fonte que, embora sabendo a verdade e não podendo falar, diz que não pode falar ou deixa isto claro.Detesto a fonte que mente, que fala uma coisa contrária àquilo que está acontecendo, porque quer esconder os fatos e coloca o repórter na pista errada”.

Sigilo da Fonte - Muitas vezes, na comunidade, a pessoa de poder, aproveitando-se da fragilidade econômica do veículo comunitário, tenta intimidar o profissional da imprensa, exigindo, entre outras coisas, que revele suas fontes de informação. A este respeito, Mário Erbolato (“Técnicas de Codificação em Jornalismo”. São Paulo: Ática, 1991) cita o artigo 71 da Lei de Imprensa: “Nenhum jornalista ou radialista, ou em geral as pessoas referidas no artigo 25, poderão ser compelidos ou coagidos a indicar o nome de seu informante ou a fonte de suas informações, não podendo o seu silêncio a respeito sofrer qualquer sanção direta ou indireta, nem qualquer espécie de penalidade”.

Sobre o “sigilo da fonte”, situação em que o repórter trabalha com “declarações em off”, isto é, sem citar a fonte expressamente, Darcy Arruda Miranda (Comentários à Lei de Imprensa. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1969) observa: “Do mesmo modo que se asseguram aos profissionais das profissões liberais o direito ao sigilo, no que se refere às confidências de seus clientes e de quem foram depositários, o mesmo direito deve ter o jornalista, rádio-repórter ou o comentarista. Muitas vezes o profissional da imprensa, nas suas andanças em busca de informações, é obrigado a socorrer-se de fontes que não podem ser reveladas”.

Segundo Miranda, a mesma lei que assegura ao profissional de imprensa o direito ao sigilo quanto às fontes de informação, respeita, também, este sigilo, donde a incriminação penal (pelo art. 154 do Código Penal) em caso de ser ele revelado sem anuência do informante.

Esse amparo legal assegura ao profissional da imprensa, na avaliação do jurista, maior amplitude na colheita ou busca de informações de interesse público, não ficando, de forma alguma, obrigado a revelar, em Juízo, a sua fonte ou origem que tanto pode ser pessoa como coisa (uma revelação pessoal e sigilosa, uma conversa ou confidência acidental, a leitura de um documento confidencial ou não, a verificação de um fato ocorrido na intimidade dos bastidores, a descoberta de objeto ou pessoa procurada).

Também o art. 5º da Constituição Federal, em seu parágrafo XIV, assegura o direito de preservar a identidade da fonte: “ É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”.

Portanto, é dever do estudante de Jornalismo e dos repórteres iniciantes informarem-se a respeito de seus direitos e deveres profissionais para exercerem plenamente a profissão no Jornalismo Comunitário. Afinal, a lei não faz distinção entre “tamanhos” de veículos, tanto assim que as penas para os crimes de injúria, calúnia e difamação são iguais para todos, devendo o jornalista responder pelo que publica. O próprio artigo 5º da Constituição é iniciado com a seguinte premissa: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”.

Assessoria de Imprensa - Na comunidade, o jornalista terá fontes de informação na polícia, corpo de bombeiros, hospitais, associações, prefeitura, câmara, autarquias, justiça, representações de órgãos estaduais e federais, terminal rodoviário, clubes de serviço, clubes recreativos, escolas, agências noticiosas, Internet, outros veículos de informação, pessoas que se destacam nos esportes ou na cultura, cartas e telefonemas dos leitores e ouvintes, funerárias, pessoas que procuram a redação, etc.

Cada vez mais, porém, o jornalismo, inclusive o comunitário, depara-se com a figura do Assessor de Imprensa quando procura informações em grandes empresas, sindicatos, órgãos públicos etc mesmo no interior.

Nestes casos é preciso estar atento para o fato de que, em muitas situações, o compromisso do Assessor de Imprensa é com o seu patrão, enquanto o compromisso do jornalista é com o público. Sabemos que não deveria ser assim. Mas, na prática, percebe-se que o foco de interesse da Assessoria pode não ser o mesmo que interessa ao veículo comunitário, daí a necessidade ética de submeter a informação da Assessoria ao crivo de outras fontes e, também, de repercuti-la com a própria comunidade.

Em “Assessoria de Imprensa-Teoria e Prática” (Porto Alegre: Sagra-DC Luzzatto, 1993), Elisa Kopplin e Luiz Artur Ferraretto advertem que “pressionar para que notícias a respeito do assessorado sejam publicadas, sonegar informações de interesse, divulgar inverdades e defender os interesses de quem o contratou acima dos da população são problemas ainda freqüentes no mercado brasileiro de Assessoria de Imprensa. Em síntese, contrariam o Código de Ética da profissão e, não raro, prejudicam a imagem de quem é assessorado”.

Antes de encerrar este capítulo, uma palavrinha final sobre um assunto já tratado, mas que precisa de mais algum esclarecimento para evitar confusões. Trata-se de diferenciar, claramente, o Jornalismo Comunitário do Jornalismo Especializado.

Chama-se Especializado o jornalismo voltado, pontualmente, para públicos específicos, mesmo quando eles recebem o nome de, digamos, Comunidade Médica Nacional, Comunidade Jurídica, Comunidade Católica...isto é, quando se dirige a públicos unidos por interesses comuns, porém difusamente situados no país ou no mundo. Não se pode confundir Jornal Comunitário com Jornal Especializado. Os vários cadernos que integram os jornais clássicos, especialmente aos domingos, enquadram-se bem na definição de Jornalismo Especializado. Eles se dirigem a públicos específicos como os apreciadores de Informática (Caderno de Informática), os interessados em comprar e vender Carros (Jornal do Carro), os adolescentes (Caderno Teen), os intelectuais (Mais), a mulher (Feminino), o homem do campo (Agrícola) etc.

Quanto ao Jornalismo Comunitário propriamente dito, ele tem público específico, como já foi dito. Ele atua dentro de uma comunidade, tornando-se ponto de referência. Temos, assim, jornais comunitários em Empresas, Escolas, Sindicatos, Igrejas etc. Entretanto, para manter as características de comunitário, é necessário que o veículo esteja voltado para o chamado “público interno”. Para isto, é preciso ser feito a partir dos interesses e expectativas desse público, da pauta ao produto final. No momento que o jornal empresarial, escolar, sindical, religioso etc estiver voltado para o público externo, com o objetivo de divulgação para outros públicos, então teremos um veículo especializado na divulgação daquela empresa, escola, sindicato, igreja etc.

Misturar os dois públicos por medida de “economia” ou por qualquer outro motivo é um grande erro.Que interesse o público externo (clientela da empresa) terá por assuntos que só dizem respeito ao público interno da instituição? Somar os dois públicos pode ser prejudicial à imagem da empresa junto a seus funcionários.

A questão dos públicos fica, assim, bem definida e resolvida. É necessário ter um produto para cada público, ainda que da mesma instituição. Afinal é a partir do público que se caracterizará o perfil de produção do veículo. Enquanto o Especializado é a transferência de conhecimentos sobre determinado assunto, o Comunitário é uma experiência comum de participação e de interação. Pode-se dizer que o Especializado é um jornalismo vertical, enquanto o Comunitário deve ser horizontal, com ampla participação do receptor-sujeito. Além do mais, enquanto o público externo exige um produto mais sofisticado, o público interno prefere uma linguagem mais descontraída, mais “próxima”, mais coloquial, onde se usam apelidos. Usar linguagem de sinal trocado (formal para o público interno e descontraída para o público externo) é matar o veículo no ninho.

Empresa - Jaurês Palma, em “Jornalismo Empresarial” (Porto Alegre: Sagra-DC Luzzatto, 1994) lembra que “a empresa é um módulo social cuja atividade voltada para o lucro se dá segundo um processo que não está restrito ao ato de compra e venda, mas compõe-se, também, das relações com seus diversos públicos”. Há, portanto, amplo espaço para os jornalistas atuarem no chamado Jornalismo Institucional, tanto com produtos especializados para o público externo, como com produtos comunitários voltados para o público interno da instituição. Trata-se de um mercado amplo, porque, como frisa o autor, “os futuros jornalistas são preparados para lidar com códigos de produção e difusão estritos de jornais diários e meios eletrônicos de massa... mas os cursos não estão aparelhados para o ensino do jornalismo institucional. Paradoxalmente, enquanto faltam centenas de empregos para as centenas de formados nos cursos de comunicação e outros tantos demitidos dos veículos de massa, há poucos profissionais aptos a exercer o jornalismo institucional”.

Como não se pode produzir um veículo comunitário em determinado bairro sem conhecer bem o lugar, mediante pesquisa, também não haverá bom êxito na tentativa de produzir idêntico produto numa empresa sem conhecê-la a fundo. É fundamental estudar o organograma da empresa para localizar os fluxos de informação e as fontes de notícia. Tratando-se de produto comunitário, será igualmente oportuno localizar fontes de informação no meio do público receptor, isto é, dos funcionários, através de suas lideranças, Comissões internas e quaisquer outras manifestações coletivas.

O jornalismo comunitário, dentro de uma empresa ou de um órgão público, evitará a disseminação de boatos. No lugar deles, os funcionários terão informações corretas, detalhadas e sérias, o que passa ao público interno um clima de transparência e confiança na direção da empresa, fator psicológico que certamente influi na produtividade.

Além do organograma, o planejador da comunicação interna deve levar em conta os dados estatísticos da instituição, seus manuais ou estatutos internos que servem, inclusive, para orientar os novos empregados, o fluxograma que determina os caminhos do expediente, a planta de arranjo que mostra as instalações etc.

Palma ensina que, nesse tipo de comunicação, “a mensagem deve ser criada de acordo com as condições de recepção, levando em conta, conforme o caso, a capacidade, condições e motivação necessários para o receptor responder ( feedback )adequadamente à mensagem”. Acrescenta que, “dependendo do meio utilizado, é necessário levar em conta fatores implícitos e explícitos que possam interferir na mensagem, tais como vocabulário, condições dos cinco sentidos, nível hierárquico e nível de valores na escala do receptor. A resposta à mensagem emitida deve ser estimulada. Ninguém está disposto a responder, desconhecendo as razões da comunicação. Portanto, é necessário, em primeiro lugar, explicar as razões da mensagem. Ela estará mais perto de alcançar os objetivos, quando contiver perguntas ou estímulos que levem à oportunidade de manifestação escrita, falada ou contida em posturas e reações”.

Equipe - Normalmente financiado pela própria instituição, o veículo interno pode contar com a seguinte equipe, conforme proposta do professor Jaurês Palma:

Editor: pessoa que dirige e coordena uma publicação periódica.

Redator: aquele que, além das incumbências de redação, tem o encargo de redigir editoriais, crônicas ou comentários.

Repórter: aquele que cumpre a determinação de colher notícia ou informação, preparando-as para divulgação.

Web-designer: aquele que editará a versão eletrônica do impresso, utilizando a linguagem gráfica adequada à Internet.

Diagramador: aquele a quem compete planejar e executar a distribuição gráfica de matérias, fotografias e ilustrações de caráter jornalístico, para fins de publicação.

Programador visual – técnico especializado no planejamento de um sistema de linguagem coerente e uniforme em todos os aspectos visuais, para publicação.

Arte-finalista – artista gráfico, desenhista, letrista ou fotógrafo que executa um trabalho de arte-final: ilustração, anúncio, cartaz, página de jornal ou revista, capas ou qualquer trabalho desenhado e montado.

Ilustrador – aquele que tem a seu cargo criar ou executar desenhos artísticos ou técnicos, de caráter jornalístico.

Produtor gráfico – produção, execução ou coordenação de todos os trabalhos de confecção física de uma revista, jornal, folheto ou qualquer publicação, dirigindo e acompanhando todas as etapas da editoração à gráfica, da marcação dos originais ao acabamento.

Fotógrafo

Esta seria a equipe ideal. Mas só grandes instituições conseguem mantê-la. Na maioria das vezes um só jornalista acaba fazendo tudo.

Justificativa - São muitas as justificativas para se propor a veiculação de um jornal interno em uma prefeitura, em uma empresa ou em qualquer outra instituição com certo número de funcionários, embora alguns dirigentes empresariais – de formação antiquada - ainda insistam em ver na comunicação interna apenas um desperdício. Jaurês Palma dá as seguintes justificativas para o projeto comunitário:

-Seria de uma inutilidade grosseira a implantação de um jornal ou revista, se o empresário lhe atribuísse a função motivadora de solidariedade, quando a política da empresa sugere o individualismo; de coesão, quando a política determina a dispersão; de harmonia de relações, quando a política leva à diferenciação nos tratos interpessoais; de dignidade profissional, quando a política não promove a importância da classe; de congraçamento, quando a política promove a competição interna; de formação de opiniões e atitudes, quando a política é centralizadora. O veículo, em sua política, é a própria empresa. A persuasão, a propaganda, enquanto fins, não encontram, no jornal de empresa, um meio adequado. Desta forma, estamos lembrando que o periódico empresarial é um recurso tão atual e inevitável quanto o é o único conceito de administração compatível com um contexto sócio-econômico aceitável.

No próximo capítulo vamos conhecer a experiência de um jornal diário que circulou durante 18 anos numa cidade de 50 mil habitantes no interior de São Paulo. Veremos sua história, suas lutas, seus altos e baixos na trajetória da sobrevivência. Trata-se da Experiência de Penápolis. Também discutiremos mais a fundo a questão ética que interessa a todos, grandes e pequenos veículos de comunicação realmente comprometidos com o serviço ao público. Daremos algumas indicações para quem deseja montar seu próprio jornal no interior ou nas comunidades.

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