1. Xilogravura, tipografia,
off-set
2. Jornal-Família; Jornal -Empresa
3. Dimensão
Humana do Jornalista
1. Xilogravura, Tipografia, offset
Tecnicamente,
a xilogravura é a arte de imprimir
através da madeira. Com um buril, o artesão
escava a madeira, retirando a parte que não terá contato
com a tinta e por isto aparecerá em branco na
impressão do desenho. Com a mesma técnica
produziam-se os chamados “livros tabulares”,
destinados não ao povo, mas ao clero. Esses livros
chamavam-se “tabulares” porque eram impressos
através de tabuinhas. Entre os mais antigos, impressos
na Holanda, está o “Speculum Humanae Salvationis” (
Espelho da Redenção Humana), destinado
a orientar a prédica clerical, ilustrado com imagens
piedosas. Outro exemplar histórico é a “Bíblia
Pauperum”. ( “Bíblia dos Pobres”,
embora se saiba que era total o analfabetismo das classes
populares na Idade Média).
Originária da China e do Japão, a xilogravura é o
método mais antigo na ilustração
de livros, sendo utilizado na Europa a partir do Séc.
XIV, portanto anterior ao surgimento da imprensa com
os tipos móveis de Gutenberg que datam de 1455.
A impressão xilográfica constitui, segundo
pesquisadores como Edouard Rouveyre, “o primeiro
passo no sentido da descoberta da impressão em
caracteres móveis. Conjecturas sobre os primórdios
da tipografia, dão conta que Gutenberg associara-se
a um anônimo que produzia jogos de carta em xilogravura
e teria tido, aí, a idéia de separar individualmente
os caracteres.
No
Séc. XV, com o aperfeiçoamento da
imprensa, a xilogravura ganhou espaço na ilustração
de livros de todos os tipos, facilitando o entendimento
também das classes populares. Surgiram muitos
livros de viagens ou de ensinamentos práticos.
Predominavam os livros religiosos sobre a história
de Jesus, de Maria e dos Santos, sob influência
da Igreja medieval.
Para
se ter uma idéia do papel da imagem não
verbal numa sociedade de analfabetismo generalizado e
do resultado pedagógico que os predicadores religiosas
tiravam delas, basta ler a “Balada para Rezar a
Nossa Senhora”, de François Villon:
“Sou
mulher pobrezinha e quase no final.
Eu nada sei, jamais por mim letra foi lida.
Vejo
na igreja que freqüento, paroquial,
Pintado
o céu onde o alaúde, a harpa é ouvida,
E o inferno, onde os danados fervem sem medida:
Um
me apavora, o outro alegria em mim derrama...”
Entre
os livros mais famosos ilustrados com xilogravura,
na
Europa, a partir do Séc.XV, são citados:
Torquemada. “Meditações sobre a
Paixão do Senhor”, 1467
Valturius. “A Arte da Guerra”,
1472
Megenberg. “Livro da Natureza”,
1475
Pseudo-Apuleio
(Manuscrito Botânico do século
IX), 1480
Herbário latino (Mogúncia(,
1484
Breydenbach. “Viagens” (Mogúncia),
1486. É o primeiro livro de viagens ilustrado.
“Crônica de Nuremberg”,1493
Pelerin. “Perspectiva” (1504).Primeiro
livro impresso sobre o assunto.
Fanti. “Teoria e prática da Caligrafia”.
(Veneza), 1514
Herbários
de 1484 e 1485, que inspiraram muitos outros
Holbein. “Dança Macabra”(1538)
Além de “dar vida” aos primeiros
livros tipográficos, a xilogravura também
foi valorizada por artistas de renome como o pintor e
gravador alemão Albrecht Dürer (1471-1528)
que fez várias viagens e descobriu o Renascimento
na Itália. Alternou a pintura com a gravura sobre
madeira e metal, dedicando-se aos temas mitológicos
e religiosos. Uma das mais belas produções
da Renascença alemã é um livro de
horas que Dürer ilustrou, em xilogravura, para o
imperador Maximiliano. Entre suas gravuras, destacam-se
Apocalipse (1498), Adão e Eva (1504), A Grande
Paixão (1510), Vida da Virgem, A Pequena Paixão
( 1511), o Cavaleiro, A Morte e o Diabo (1513), a Melancolia
( 1514).
Apesar
de tão antiga, a xilogravura não
foi abandonada, conhecendo períodos de glorioso
retorno, conforme se verifica na impressão tipográfica
que ainda hoje subsiste em vários países
onde o método off-set é considerado muito
caro para baixas tiragens. Por ser um método barato,
que exige apenas madeira, paciência e criatividade,
a xilogravura foi adotada, inicialmente, também
na ilustração de “livros de cordel” ,
como se vê, por exemplo, no nordeste brasileiro.
Embora
utilizando tecnologia industrial, os clichês
e vinhetas de jornais tipográficos, produzidos
em zinco, para reprodução de imagens e
traços, com a vantagem de permitir impressões
reticuladas (fotogravura) também são originários
da xilogravura, técnica que influencia até hoje
as artes plásticas.
No
que se refere aos meios impressos, pode-se dizer que
a reprodução de textos, através
dos tipos móveis de Gutenberg, teve importância
equivalente à xilogravura, se consideramos, como
já foi dito, a necessidade da imagem para o entendimento
da mensagem na sociedade analfabeta do período
medieval ( compreendido entre a queda do Império
Romano do Ocidente com a invasão dos vândalos
e visigodos, no Séc. V, e o Renascimento, no Séc.
XV).
A
propagação do conhecimento ( antes
enclausurado nos mosteiros), através de texto
e imagens impressas, estimulou o Renascimento, facilitou
os Descobrimentos, viabilizou o debate religioso através
da Reforma, abalou o poderio do clero que chegou a possuir
cerca de um terço das terras da Europa, levou
a burguesia nascente a lutar contra os privilégios
da aristocracia feudal, incentivou a Universidade surgida
no Séc. XII. No final do Séc. XVI a Europa
estava transformada e o terreno estava pronto para os
grandes inventos que viriam nos séculos seguintes
para mudar o mundo.
Ainda
hoje, mesmo com o avanço da mídia
digital e com a possibilidade de produção
e armazenamento de textos através da Internet,
o processo do conhecimento está baseado na palavra
impressa.
Embora
se considere que a impressão moderna
começou com a invenção dos tipos
móveis e metálicos no Séc. XV, por
Gutenberg - sendo a Bíblia de 42 linhas seu marco
inicial - sabe-se que no Séc XIII os chineses
já utilizavam o sistema tipográfico (desde
1260). Mas não restam provas desse conhecimento
dos chineses ou da continuidade desse modo de reprodução
de imagens e textos. Assim como devemos distinguir os
diversos tipos de imprimir não tipográficos
da tipografia propriamente dita, devemos também
evitar o erro de supor que ocorra alguma relação
entre a imprensa chinesa e a que se começa a praticar
na Europa, antes de Gutenberg, a partir do século
XIII ( Martins,1996).
Em 1260, fundidores europeus tinham autorização
oficial para fabricar letras isoladas. Livros impressos
com caracteres móveis, datando das primeiras décadas
do Séc. XV, foram descobertos na Coréia.
Mas é apenas a partir da segunda metade do século
XVI que o livro impresso tipograficamente corta, em definitivo,
suas ligações com o livro manuscrito, como
os que eram produzidos pelos copistas nos conventos medievais.
Nos
400 anos seguintes à Bíblia de 42
linhas, surgiram poucas mudanças na arte de imprimir
até a invenção da máquina
que funde o tipo a partir de um teclado elétrico,
produzindo linhas de texto na largura prevista para a
coluna do jornal, do livro, ou de qualquer outro impresso.
Era a Linotipo, inventada por Ottmar Mergenthaler, em
Baltimore (1884), nos Estados Unidos. Até as primeiras
décadas do Séc. XX esse era o sistema utilizado
pelos grandes jornais brasileiros e continua sendo usado
em milhares de jornais em todo o mundo, já que
o método permite o reaproveitamento do chumbo
utilizado na produção das linhas e títulos,
estes produzidos em máquina semelhante, porém
com matrizes maiores, chamada “tituleira”. É dispensável
lembrar que essa automatização da composição
através dos tipos manuais de Gutenberg, acelerou
a capacidade de produção de livros e jornais,
da mesma maneira que o invento de 1455 revolucionou a
disseminação do conhecimento manuscrito
dos mosteiros.
Exatamente
24 anos após a invenção
da Linotipo, portanto em 1908, também nos EUA,
foi dado o passo seguinte que até hoje contribui
com a melhoria da qualidade de impressão em papéis,
conhecido como sistema offset, criado pelo americano
Ira W. Rubel. Enquanto na tipografia a impressão
se dá pelo contato direto do papel com a página
(ou “rama”) composta em chumbo e entintada
a cada rodada da impressora, no offset utiliza-se, entre
o papel e o rolo, uma chapa de alumínio, quimicamente
tratada, onde a parte a ser impressa atrai a tinta e
a restante atrai água. O sistema também é chamado “impressão
indireta”, porque o contato de impressão é feito
através de um cilindro intermediário. Em
offset preto e branco, as ilustrações são
impressas da mesma forma como o texto. Para a impressão
em cores, a ilustração é fotografada
em magenta, ciano, amarelo e preto e os quatro filmes
são superpostos na impressão (através
de um cilindro para cada matriz), reproduzindo-se, assim,
as cores da ilustração original. É conveniente
lembrar que a foto colorida surgiu um ano antes da criação
do offset, em 1907, na França, com Auguste Lumière.
O
sistema offset e a impressão a cores prepararam
o jornalismo para uma sociedade de consumo que valoriza
a imagem, o que viria a fazer o grande sucesso do veículo
de comunicação eletrônica que surgiu
depois do Rádio (1923): a Televisão (1950).
Durante
muitos anos vários jornais continuaram
usando a composição tipográfica
de textos para imprimir em offset. Entretanto, era preciso
agilizar também a composição. Isto
foi possível com a introdução do
computador nas redações a partir das duas últimas
décadas do Séc. XX. Na verdade, o computador
(Univac I) foi inventado em 1951, nos EUA.
Agora
que era possível compor rápido
e imprimir com qualidade, o jornalismo só precisava
melhorar o seu conteúdo para apurar e informar
com mais precisão. Esta é uma tarefa que
se tornou bem mais fácil com o surgimento da Internet
(em 1983 nos EUA e em 1995 no Brasil).
Mas,
será que só a tecnologia é capaz
de melhorar a qualidade dos meios impressos, como jornais
e revistas? Após toda essa evolução,
o jornalismo – agora empresarial – é praticado
a serviço do leitor ou a serviço dos interesses
comerciais, políticos ou ideológicos do
grupo que o dirige?
É o
que veremos a seguir.
2. O jornal como negócio
empresarial
Se
na Europa o acesso ao conhecimento através
da impressão tipográfica de livros e jornais,
a partir do Séc. XV foi motivo de avanço
cultural e crescimento material para os países
envolvidos com a exploração além-mar,
no Brasil ocorreu o contrário.
Sabendo
o potencial da informação como
instrumento de mobilização coletiva, Portugal
proibiu o funcionamento de qualquer tipografia no Brasil
durante os primeiros “300 anos” da colonização:
desde o descobrimento, em 1500, até a chegada
do príncipe-regente D. João VI, em 1808.
Com ele vieram dois prelos e 26 caixas de material tipográfico
comprado na Inglaterra. Enquanto isto o México
já tinha tipografia em 1533; o Peru em 1584 e
nos EUA, em 1600, já existiam tipografias preparadas
para a impressão de jornais. No Brasil o primeiro
jornal – de cunho oficialista – só surgiu
em 10 de setembro de 1808. Era a “Gazeta do Rio
de Janeiro”. Mas o primeiro jornal “brasileiro” foi
o “Correio Braziliense”, lançado por
Hipólito da Costa, a partir de Londres, em junho
de 1808. Funcionou durante quase 15 anos, burlando a
censura portuguesa e lutando até o último
número por princípios liberais e democráticos,
contra as práticas obscurantistas e despóticas.
Antes,
porém, nos três primeiros séculos
da colonização, os “boletins noticiosos” eram
escritos à mão. Intelectuais como o poeta
Gregório de Mattos, na Bahia, veiculavam suas
críticas ao regime português e à corrupção
reinante no Brasil através da recitação
de poesias, numa espécie de “jornalismo
oral”. Essa “insubmissão oral e manuscrita” é a única
forma de burlar o bloqueio decorrente da vigilância
política e econômica imposta por Portugal
( Bahia,1990).
Mesmo
após a permissão de impressão
de jornais no Brasil, em 1808, era difícil o acesso
aos tipos gráficos, por isto muitos jornais surgiam
em forma de manuscritos, como “O Paulista”,
de Antonio Mariano de Azevedo Marques, lançado
em 1823.
Com
a disseminação da tipografia pelas
províncias, os primeiros jornais vão se
organizando em torno de ideais libertários, a
favor da Independência que viria em 1822, após
a abolição da censura prévia em
1821. São jornais que refletem plataformas de
governo, discutem em prosa e verso, com sugestões,
verrinas, programas de reforma social. Há até publicações
em francês e inglês, como a “Revue
Brésilienne”, de 1830. (Bahia).
Esse
tipo de jornalismo oriundo de grupos ou de famílias,
era o que viria vicejar,futuramente, no interior do país,
como se pode observar até nossos dias, com maior
incidência de publicações diárias,
trisemanais, bissemanais ou semanais, no interior de
São Paulo. Pesquisa realizada neste ano de 2003
por um grupo de alunos e professores do Departamento
de Comunicação Social da Universidade Estadual
Paulista-Unesp, revela que apenas num raio de 200Km em
torno de Bauru – região central do estado – existem
400 jornais em plena atividade. Estima-se que pelos menos
outros 200 títulos circulam nas demais regiões
do interior paulista.
Trata-se
de um jornalismo, geralmente, identificado com partidos
políticos, praticado em cidades com
menos de 100 mil habitantes, que depende das publicações
oficiais para subsistir ou, quando filiado a grupo político
contrário, de recursos alheios à receita
do próprio jornal, tendo em vista o fraco faturamento
oriundo da publicidade e da venda de assinaturas nas
pequenas cidades do interior.
Naturalmente,
quando o jornal não tem recursos
para ser livre e independente, a serviço dos seus
leitores, então sua linha editorial acaba comprometida
a favor ou contra o grupo que detém o mando político
da cidade. Mesmo assim, muitos desses jornais do interior,
em São Paulo, como já dito, já utilizam
impressão offset, a cores, contando com os mais
modernos recursos de acesso ao noticiário das
agências através da Internet, enquanto seus
repórteres utilizam celulares e câmaras
fotográficas digitais, tal como nos grandes jornais.
Porém, nem toda essa tecnologia é capaz
de afastar do jornalista o peso da permanente censura
imposta pela proximidade do patrão e de seus familiares
que geralmente “tocam o negócio” como
pequena empresa familiar, porém sempre de olho
nos interesses comerciais, o que vale dizer, não
desagradar os anunciantes nem os donos do poder. E no
interior todos são anunciantes em potencial, porque
as “edições especiais” de aniversário
da cidade, de natal etc acabam indo buscar mensagens
pagas de saudação até junto a pessoas
físicas, como no Dia do Padroeiro.
Em
algumas cidades onde circulam esses “jornais
familiares”, a Prefeitura e a Câmara Municipal
colaboram com o “enxugamento” da mão-de-obra “especializada” fornecendo
diretamente, via Internet, os releases e fotos para serem
publicados na íntegra, sem alteração
nem mesmo no título, em troca de um pagamento
fixo mensal ao dono do jornal. Em alguns casos, a Assessoria
de Imprensa da Prefeitura passa a ter mais equipamentos
( computadores, celulares, veículos, câmaras
digitais) e mais repórteres que o próprio
jornal, tudo pago com recursos públicos para assegurar
a “boa imagem pública da administração”,
enquanto os bairros da cidade e as Associações
de Moradores ficam sem qualquer tipo de cobertura, contentando-se
com alguma “carta do leitor”, geralmente
censurada quando contraria a política oficialista
do jornal.
Todavia,
a nível nacional, não se pode
esperar muito mais dos grandes jornais que também
têm seus problemas de caixa e seus compromissos
com o poder, de tal forma que sobra apenas alguma margem
de manobra para o jornalista exercer o seu ofício
com a ética, a dignidade e o espírito de
serviço público que a profissão
requer.
Nascida
no oficialismo áulico da “Gazeta
do Rio de Janeiro”, a imprensa brasileira sempre
teve vocação para “chapa-branca” como
se pode conferir em obras de peso sobre o assunto, como “História
da Imprensa no Brasil”, de Nelson Werneck Sodré; “História
da Imprensa Brasileira”, de Juarez Bahia; “Chatô:
Rei do Brasil”, de Fernando Moraes; “Notícias
do Planalto”, de Mário Sérgio Conti
etc.
Nos últimos anos, antes da posse de Lula na
Presidência, vimos como a imprensa nacional apoiava
e defendia o programa neo-liberal imposto pelos países
ricos aos países eternamente “emergentes” como
o Brasil, um programa inteiramente coerente com o enriquecimento
dos ricos e o empobrecimento dos pobres, sem qualquer
margem para a sensibilidade social.
Embora
estribada, a partir do Séc. XX, em estruturas
empresariais e racionalmente voltadas para o lucro, a
imprensa brasileira continua concentrada nas mãos
de poucos, refletindo exatamente o que se dá com
a injusta divisão da renda nacional, o que dá ao
Brasil o triste título de campeão mundial
da injustiça social (Hobsbawum).
Ao
mesmo tempo que concentra o poder de decidir o que
deve ou
não deve ser publicado, os editores de
jornais acabam utilizando-se das mesmas agências
internacionais de notícias que, por sua vez, decidem
o que vale a pena ser publicado em todo o Ocidente. Sobra
pouco espaço para a boa reportagem local do repórter
iniciante e politicamente correto quanto à ética
e à vocação de servir primeiramente
ao público que deve nortear todo veículo
de comunicação.
Com
a crise do papel dos anos 50 e, depois, com a crise
do petróleo dos anos 70, os jornais sofreram grandes
prejuízos e tiveram que reduzir seus gastos. No
final do século XX, com a supervalorização
do dólar, muitos estavam endividados nessa moeda
estrangeira e as medidas de economia foram ampliadas,
passando muitos jornais a terceirizarem sua própria
confecção diária, além das
oficinas e da distribuição.
Mais
tarde, com a liminar da juíza Carla Ricci,
de São Paulo, dispensando a obrigatoriedade do
diploma para o exercício do jornalismo, o mercado
de trabalho ficou ainda mais difícil para os profissionais.
Nesse clima de encolhimento do mercado, até do
Sindicato muitos profissionais se afastaram. O receio
de perder o emprego leva o jornalista a se tornar cada
vez mais subserviente, cada vez mais “cordeirinho” diante
de chefetes e representantes do patronato nem sempre éticos
e honestos. Para evitar “complicações” pratica-se
um jornalismo declaratório, de gabinete, sem investigação,
sem aprofundamento, sem interpretação,
sem compromisso com o leitor.
E
assim, apesar da tecnologia e da estrutura empresarial
do
jornalismo moderno, é o leitor que sai perdendo
num mar de notícias repetidas ou supérfluas
que mais desinforma do que informa, conforme observa
João Serva em “Jornalismo e Desinformação”,
2002.
3. Dimensão Humana do Jornalista
Allan
Acardo, do “Le Monde Diplomatique”,
do mesmo modo que Ciro Marcondes Filho, Serge Halimi
e tantos outros, critica ferrenhamente a subserviência
do jornalista. E isto ocorre no mundo todo. Não
se pode dizer que o jornalista da CNN, por se tratar
de uma empresa com alcance mundial, é mais livre
ou mais consciente que os jornalistas da Globo ou de
emissoras menores. Basta lembrar que a emissora pediu
autorização da Casa Branca para veicular
os primeiros vídeos sobre a Al Qaeda, de Ossama
Bin Laden, já veiculados pela TV Aljazira, do
Qatar. Será que diante das torres gêmeas
em ruínas a CNN não teria tarefa jornalística
mais nobre a fazer que simplesmente retransmitir as mesmas
imagens dias seguidos? O que se nota é que principalmente
as grandes emissoras, quando diante de fatos muito inusitados,
acabam se perdendo na cobertura e até os seus
mais experientes profissionais pagam micos monumentais
na tentativa de aparentar naturalidade diante do fato
em andamento, um fato inesperado que foge da formatação à qual
todos estão acostumados e para a qual todos estão
treinados e ensaiados, como num grande script, como se
um diretor invisível dirigisse e planificasse
o jornalismo do mundo inteiro. Por aqui mesmo, quem não
se lembra das gafes que a Globo cometeu por ocasião
da paixão e morte de Tancredo Neves? Até hoje,
na simples transmissão ao vivo de um Oscar ou
de algo semelhante, percebe-se as dificuldades de trabalhar
com o fato real, porque a grande mídia revela-se
preparada apenas para lidar com o real simbólico,
com o fato devidamente editado, cortado, enquadrado,
afinal, com o recorte da realidade, nunca com a realidade
em si.
O
próprio jornalista é treinado para
cumprir pautas sem questionar, sem discutir, sem criar
problemas. Sua função é produzir
quantidade e não qualidade. Por isto não
se dá ao trabalho de checar as informações
ou de buscar a contextualização através
da pesquisa, da repercussão com outras fontes,
da reflexão sobre a própria pauta, do acompanhamento
da diagramação para que a matéria
saia bem editada, devidamente ilustrada pelo Departamento
de Arte, com box e dados de apoio, afinal, com pesquisa.
Em muitas situações, como o objetivo do
jornal é apenas disputar o mercado, acompanhando
a concorrência, os editores estão orientados
a fazer um jornal o mais variado possível, com
ampla cobertura dos mais diferentes assuntos, buscando
atender a uma faixa o mais ampla possível de leitores,
embora isto não signifique, necessariamente, aprofundamento
em nenhum assunto, de tal modo que depois de ler o mesmo
assunto em todos os jornais o leitor conclui que não
entendeu nada, que quanto mais se informa, mais se desinforma.
Além de não ser cobrado quanto ao conteúdo
de suas matérias, o jornalista mais jovem também
não é cobrado quanto ao procedimento ético
no relacionamento com as fontes, na apuração
séria da matéria, na conduta moral irretocável
para que o fato chegue ao leitor do modo mais completo,
devidamente explicado. E só pode explicar quem
gasta sola de sapato para ir em busca de mais informação
complementar.
Entretanto, é isto que faz a diferença
entre um grande profissional que trabalha para servir à sociedade,
daquele que trabalha apenas para servir aos interesses
do próprio jornal. Para estes, realmente não
há necessidade de diploma, como quer a juíza
paulista. Nem é preciso saber escrever ou ter
qualquer compromisso com o leitor. Basta que alguém
pague alguma coisa para que se escreva a favor ou contra
este ou aquele assunto, como no velho jornalismo do Séc.
XIX tão criticado por Balzac, na França,
(leia “Ilusões Perdidas”) porque quando
não existe ética o que se tem é apenas
infâmia, calúnia e difamação,
exatamente o que a Lei de Imprensa (5.250) mais combate.
Sem diploma, o leitor terá que ver advogados defendendo
os interesses dos advogados; médicos defendendo
interesses de médicos; políticos deitando
falação sobre as virtudes da sua classe
e assim por diante. Mas quem falará em nome do
povo, dos excluídos, das minorias? Por aí se
vê que é falacioso o alegado argumento de
que é preciso democratizar a informação
acabando com a exigência do diploma, uma vez que,
por tal caminho, só se consegue mesmo o contrário,
isto é, colocar o controle da informação
nas mãos de poucos que, pertencendo à elite
organizada da sociedade, estarão de costas para
o leitor. Ou achamos que um “redator-médico” vai
condenar os planos de saúde escorchantes e aquele
seu “colega de clínica” que aleijou
ou matou pessoas durante cirurgias plásticas?
Alguém já disse que os advogados escondem
seus erros; os médicos enterram e os jornalistas
publicam.
O
profissional sério sabe que tem um dever,
uma missão. Esta missão é levar
informação séria e correta ao leitor.
Mas isto tem uma fase anterior: trata-se de ser sério,
honesto, ético e correto também na hora
de apurar a informação. O jornalista não é Deus.
Não tem o direito de violar a privacidade alheia
com subterfúgios de quaisquer espécies – inclusive
com a falsidade ideológica de ocultar a própria
profissão ou com o estratagema das câmaras
escondidas ou de olhar pelo buraco da fechadura – afinal
jornalista também não é juiz, não é delegado,
não é detetive policial.
É a paranóia da quantidade, a pressa
de competir que leva ao jornalismo superficial e declaratório.
Essa pressa priva o jornalista da oportunidade de aprofundar
a apuração e, especialmente, de investir
no aspecto humano da notícia. É notório,
afinal, que o jornalismo, embora produzido com a utilização
de máquinas, de começo ao fim, não
se destina a máquinas e sim a pessoas de carne
e osso, aquelas descritas pelo filósofo Merleau
Ponty ou pelo existencialismo fenomenológico de
Sartre, aquelas que vivem, trabalham, respiram, sofrem,
lutam se emocionam, sentem....O jornalismo é feito
para pessoas vivas. Por isto precisa ter vida. E vida
plena. O jovem que entra no mercado de trabalho imbuído
deste ideal de se colocar a serviço do homem e
que, por isto mesmo, aprende a respeitar a diversidade,
o direito do outro ser diferente, aquele jornalista que
não se considera o sal da terra e o dono da verdade
absoluta....este é o jornalista que fará a
diferença. Ele será respeitado por sua
seriedade e o pauteiro o respeitará quando ele
discutir a pauta. O editor o escolherá para as
coberturas difíceis mesmo que o considere um “chato”.
Talvez perca o emprego, mas não ficará desempregado
porque os próprios colegas se encarregarão
de divulgar o seu valor, a sua lealdade, o seu caráter,
a sua competência e sua conduta ética. Não é raro
pessoas assim irem para postos cada vez maiores e melhores
em outros veículos quando são demitidas
no justo cumprimento do dever. Afinal, esse tipo de jornalista
sabe o que o leitor quer, conforme veremos no segundo
capítulo.
Antes,
para iluminar este capítulo sobre a história
da imprensa, vejamos o que diz o jornalista Eugênio
Bucci, em seu livro “ Sobre Ética e Imprensa”,
lançado pela Companhia das Letras, em 2000:
“ Jornalismo ético é jornalismo
de qualidade. Jornalismo de qualidade, é jornalismo ético.
Uma apuração malfeita conduz a desvios éticos,
do mesmo modo que a edição malfeita. E
aí nem estamos falando de más intenções,
mas apenas das exigências técnicas da profissão
que, é bom saber, constituem também exigências éticas.
Na apuração, por exemplo, é um imperativo
tanto ético quanto técnico ouvir todos
os lados envolvidos e ser fiel aos diversos pontos de
vista no momento de registrá-los. Na edição, é preciso
dar o peso devido a cada um dos aspectos que fazem parte
da história, um peso que reflita o peso que eles
têm na realidade e que ajude o leitor, o telespectador,
o ouvinte ou o internauta a formar uma visão equilibrada
do que se relata. Quanto à má-fé,
ela pode se manifestar na apuração e na
edição. Normalmente, porém, quando
se fala de manipulações, estas geralmente
acontecem na edição: uma manchete maldosa
e distorcida, uma foto artificialmente desfavorável
de um personagem e que é escolhida pelo editor
com intenções de prejudicar esse personagem,
a omissão de detalhes ou de fatos relevantes para
obter vantagens econômicas ou políticas.
A manipulação é um desvio ético
flagrante e conhecido e se materializa, sem dúvida,
na edição e na chefia de reportagem. Mas
não é o desvio mais importante, ao menos
na minha opinião. Hoje, para mim, o mais preocupante é aquilo
que passa à margem das intenções
dos editores. O advento dos grandes conglomerados da
mídia, por exemplo, transforma os veículos
de informação, que antes eram empresas
independentes, em departamentos dentro das mega-corporações.
Esses departamentos convivem com outros negócios,
como o entretenimento, e, por meios sutis, são
muitas vezes estimulados a contribuir com reportagens
para o sucesso de outros negócios da mesma empresa.
Também me preocupa o que vem sendo chamado de “ pensamento único” .
A imprensa acaba, ocasionalmente, desistindo de oferecer
ao público uma visão crítica dos
acontecimentos e embarca em canoas ideológicas
da moda. A maioria não entra nessa por má intenção,
mas porque não parou para refletir sobre a leitura
de mundo que está passando adiante. Há pouca
pluralidade de opiniões no jornalismo, há pouco
debate. Formam-se grandes consensos sem maiores problematizações
e isso pode conduzir a um empobrecimento da informação”.
Esta
avaliação que Eugênio Bucci
faz do mercado, em nossos dias, é como um corolário
da história da imprensa que apuramos ao longo
deste primeiro capítulo, quando discutimos a importância
da xilogravura no processo de comunicação
não verbal, seguindo-se o advento dos tipos móveis,
depois a modernização dos sistemas de impressão
e a progressiva transformação do jornalismo
em negócio familiar, depois em negócio
empresarial onde o papel do profissional corre o risco
de ser reduzido a algo pouco expressivo diante dos outros
interesses assumidos pelo grande jornal.
Também vimos que no interior do país,
nas pequenas cidades, mesmo os pequenos jornais, ainda
quando providos de toda a tecnologia moderna, não
raro acabam cedendo à tentação de
unir-se ao poder local para dele usufruir os recursos
que assegurarão sua sobrevivência e seus
lucros. Num e noutro caso, o leitor fica órfão,
sente-se abandonado, sendo visto pela mídia como
número de Ibope, alienado, como “objeto
de planificação” e não como
sujeito da história, capaz de pautar a própria
mídia.
Entretanto,
vivemos hoje uma época em que a
facilidade do acesso à informação
e à cultura torna as pessoas mais exigentes, porque
mais esclarecidas. São essas pessoas que consomem
o produto jornal e elas conferem o que está sendo
noticiado na mídia impressa e na mídia
eletrônica, inclusive na Internet. Por isto os
jornais mantém institutos de pesquisa sempre ativos
para saberem o que o público quer, o que está dando
Ibope e o que deve ser descartado. Até por razões
de mercado, todos procuram saber o que quer o leitor
do jornal.