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Capítulo I

I - História da Imprensa

1. Xilogravura, tipografia, off-set
2. Jornal-Família; Jornal -Empresa
3. Dimensão Humana do Jornalista

1. Xilogravura, Tipografia, offset

Tecnicamente, a xilogravura é a arte de imprimir através da madeira. Com um buril, o artesão escava a madeira, retirando a parte que não terá contato com a tinta e por isto aparecerá em branco na impressão do desenho. Com a mesma técnica produziam-se os chamados “livros tabulares”, destinados não ao povo, mas ao clero. Esses livros chamavam-se “tabulares” porque eram impressos através de tabuinhas. Entre os mais antigos, impressos na Holanda, está o “Speculum Humanae Salvationis” ( Espelho da Redenção Humana), destinado a orientar a prédica clerical, ilustrado com imagens piedosas. Outro exemplar histórico é a “Bíblia Pauperum”. ( “Bíblia dos Pobres”, embora se saiba que era total o analfabetismo das classes populares na Idade Média).

Originária da China e do Japão, a xilogravura é o método mais antigo na ilustração de livros, sendo utilizado na Europa a partir do Séc. XIV, portanto anterior ao surgimento da imprensa com os tipos móveis de Gutenberg que datam de 1455. A impressão xilográfica constitui, segundo pesquisadores como Edouard Rouveyre, “o primeiro passo no sentido da descoberta da impressão em caracteres móveis. Conjecturas sobre os primórdios da tipografia, dão conta que Gutenberg associara-se a um anônimo que produzia jogos de carta em xilogravura e teria tido, aí, a idéia de separar individualmente os caracteres.

No Séc. XV, com o aperfeiçoamento da imprensa, a xilogravura ganhou espaço na ilustração de livros de todos os tipos, facilitando o entendimento também das classes populares. Surgiram muitos livros de viagens ou de ensinamentos práticos. Predominavam os livros religiosos sobre a história de Jesus, de Maria e dos Santos, sob influência da Igreja medieval.

Para se ter uma idéia do papel da imagem não verbal numa sociedade de analfabetismo generalizado e do resultado pedagógico que os predicadores religiosas tiravam delas, basta ler a “Balada para Rezar a Nossa Senhora”, de François Villon:

“Sou mulher pobrezinha e quase no final.

Eu nada sei, jamais por mim letra foi lida.

Vejo na igreja que freqüento, paroquial,

Pintado o céu onde o alaúde, a harpa é ouvida,

E o inferno, onde os danados fervem sem medida:

Um me apavora, o outro alegria em mim derrama...”

Entre os livros mais famosos ilustrados com xilogravura, na Europa, a partir do Séc.XV, são citados:

Torquemada. “Meditações sobre a Paixão do Senhor”, 1467

Valturius. “A Arte da Guerra”, 1472

Megenberg. “Livro da Natureza”, 1475

Pseudo-Apuleio (Manuscrito Botânico do século IX), 1480

Herbário latino (Mogúncia(, 1484

Breydenbach. “Viagens” (Mogúncia), 1486. É o primeiro livro de viagens ilustrado.

“Crônica de Nuremberg”,1493

Pelerin. “Perspectiva” (1504).Primeiro livro impresso sobre o assunto.

Fanti. “Teoria e prática da Caligrafia”. (Veneza), 1514

Herbários de 1484 e 1485, que inspiraram muitos outros

Holbein. “Dança Macabra”(1538)

Além de “dar vida” aos primeiros livros tipográficos, a xilogravura também foi valorizada por artistas de renome como o pintor e gravador alemão Albrecht Dürer (1471-1528) que fez várias viagens e descobriu o Renascimento na Itália. Alternou a pintura com a gravura sobre madeira e metal, dedicando-se aos temas mitológicos e religiosos. Uma das mais belas produções da Renascença alemã é um livro de horas que Dürer ilustrou, em xilogravura, para o imperador Maximiliano. Entre suas gravuras, destacam-se Apocalipse (1498), Adão e Eva (1504), A Grande Paixão (1510), Vida da Virgem, A Pequena Paixão ( 1511), o Cavaleiro, A Morte e o Diabo (1513), a Melancolia ( 1514).

Apesar de tão antiga, a xilogravura não foi abandonada, conhecendo períodos de glorioso retorno, conforme se verifica na impressão tipográfica que ainda hoje subsiste em vários países onde o método off-set é considerado muito caro para baixas tiragens. Por ser um método barato, que exige apenas madeira, paciência e criatividade, a xilogravura foi adotada, inicialmente, também na ilustração de “livros de cordel” , como se vê, por exemplo, no nordeste brasileiro.

Embora utilizando tecnologia industrial, os clichês e vinhetas de jornais tipográficos, produzidos em zinco, para reprodução de imagens e traços, com a vantagem de permitir impressões reticuladas (fotogravura) também são originários da xilogravura, técnica que influencia até hoje as artes plásticas.

No que se refere aos meios impressos, pode-se dizer que a reprodução de textos, através dos tipos móveis de Gutenberg, teve importância equivalente à xilogravura, se consideramos, como já foi dito, a necessidade da imagem para o entendimento da mensagem na sociedade analfabeta do período medieval ( compreendido entre a queda do Império Romano do Ocidente com a invasão dos vândalos e visigodos, no Séc. V, e o Renascimento, no Séc. XV).

A propagação do conhecimento ( antes enclausurado nos mosteiros), através de texto e imagens impressas, estimulou o Renascimento, facilitou os Descobrimentos, viabilizou o debate religioso através da Reforma, abalou o poderio do clero que chegou a possuir cerca de um terço das terras da Europa, levou a burguesia nascente a lutar contra os privilégios da aristocracia feudal, incentivou a Universidade surgida no Séc. XII. No final do Séc. XVI a Europa estava transformada e o terreno estava pronto para os grandes inventos que viriam nos séculos seguintes para mudar o mundo.

Ainda hoje, mesmo com o avanço da mídia digital e com a possibilidade de produção e armazenamento de textos através da Internet, o processo do conhecimento está baseado na palavra impressa.

Embora se considere que a impressão moderna começou com a invenção dos tipos móveis e metálicos no Séc. XV, por Gutenberg - sendo a Bíblia de 42 linhas seu marco inicial - sabe-se que no Séc XIII os chineses já utilizavam o sistema tipográfico (desde 1260). Mas não restam provas desse conhecimento dos chineses ou da continuidade desse modo de reprodução de imagens e textos. Assim como devemos distinguir os diversos tipos de imprimir não tipográficos da tipografia propriamente dita, devemos também evitar o erro de supor que ocorra alguma relação entre a imprensa chinesa e a que se começa a praticar na Europa, antes de Gutenberg, a partir do século XIII ( Martins,1996).

Em 1260, fundidores europeus tinham autorização oficial para fabricar letras isoladas. Livros impressos com caracteres móveis, datando das primeiras décadas do Séc. XV, foram descobertos na Coréia. Mas é apenas a partir da segunda metade do século XVI que o livro impresso tipograficamente corta, em definitivo, suas ligações com o livro manuscrito, como os que eram produzidos pelos copistas nos conventos medievais.

Nos 400 anos seguintes à Bíblia de 42 linhas, surgiram poucas mudanças na arte de imprimir até a invenção da máquina que funde o tipo a partir de um teclado elétrico, produzindo linhas de texto na largura prevista para a coluna do jornal, do livro, ou de qualquer outro impresso. Era a Linotipo, inventada por Ottmar Mergenthaler, em Baltimore (1884), nos Estados Unidos. Até as primeiras décadas do Séc. XX esse era o sistema utilizado pelos grandes jornais brasileiros e continua sendo usado em milhares de jornais em todo o mundo, já que o método permite o reaproveitamento do chumbo utilizado na produção das linhas e títulos, estes produzidos em máquina semelhante, porém com matrizes maiores, chamada “tituleira”. É dispensável lembrar que essa automatização da composição através dos tipos manuais de Gutenberg, acelerou a capacidade de produção de livros e jornais, da mesma maneira que o invento de 1455 revolucionou a disseminação do conhecimento manuscrito dos mosteiros.

Exatamente 24 anos após a invenção da Linotipo, portanto em 1908, também nos EUA, foi dado o passo seguinte que até hoje contribui com a melhoria da qualidade de impressão em papéis, conhecido como sistema offset, criado pelo americano Ira W. Rubel. Enquanto na tipografia a impressão se dá pelo contato direto do papel com a página (ou “rama”) composta em chumbo e entintada a cada rodada da impressora, no offset utiliza-se, entre o papel e o rolo, uma chapa de alumínio, quimicamente tratada, onde a parte a ser impressa atrai a tinta e a restante atrai água. O sistema também é chamado “impressão indireta”, porque o contato de impressão é feito através de um cilindro intermediário. Em offset preto e branco, as ilustrações são impressas da mesma forma como o texto. Para a impressão em cores, a ilustração é fotografada em magenta, ciano, amarelo e preto e os quatro filmes são superpostos na impressão (através de um cilindro para cada matriz), reproduzindo-se, assim, as cores da ilustração original. É conveniente lembrar que a foto colorida surgiu um ano antes da criação do offset, em 1907, na França, com Auguste Lumière.

O sistema offset e a impressão a cores prepararam o jornalismo para uma sociedade de consumo que valoriza a imagem, o que viria a fazer o grande sucesso do veículo de comunicação eletrônica que surgiu depois do Rádio (1923): a Televisão (1950).

Durante muitos anos vários jornais continuaram usando a composição tipográfica de textos para imprimir em offset. Entretanto, era preciso agilizar também a composição. Isto foi possível com a introdução do computador nas redações a partir das duas últimas décadas do Séc. XX. Na verdade, o computador (Univac I) foi inventado em 1951, nos EUA.

Agora que era possível compor rápido e imprimir com qualidade, o jornalismo só precisava melhorar o seu conteúdo para apurar e informar com mais precisão. Esta é uma tarefa que se tornou bem mais fácil com o surgimento da Internet (em 1983 nos EUA e em 1995 no Brasil).

Mas, será que só a tecnologia é capaz de melhorar a qualidade dos meios impressos, como jornais e revistas? Após toda essa evolução, o jornalismo – agora empresarial – é praticado a serviço do leitor ou a serviço dos interesses comerciais, políticos ou ideológicos do grupo que o dirige?

É o que veremos a seguir.

2. O jornal como negócio empresarial

Se na Europa o acesso ao conhecimento através da impressão tipográfica de livros e jornais, a partir do Séc. XV foi motivo de avanço cultural e crescimento material para os países envolvidos com a exploração além-mar, no Brasil ocorreu o contrário.

Sabendo o potencial da informação como instrumento de mobilização coletiva, Portugal proibiu o funcionamento de qualquer tipografia no Brasil durante os primeiros “300 anos” da colonização: desde o descobrimento, em 1500, até a chegada do príncipe-regente D. João VI, em 1808. Com ele vieram dois prelos e 26 caixas de material tipográfico comprado na Inglaterra. Enquanto isto o México já tinha tipografia em 1533; o Peru em 1584 e nos EUA, em 1600, já existiam tipografias preparadas para a impressão de jornais. No Brasil o primeiro jornal – de cunho oficialista – só surgiu em 10 de setembro de 1808. Era a “Gazeta do Rio de Janeiro”. Mas o primeiro jornal “brasileiro” foi o “Correio Braziliense”, lançado por Hipólito da Costa, a partir de Londres, em junho de 1808. Funcionou durante quase 15 anos, burlando a censura portuguesa e lutando até o último número por princípios liberais e democráticos, contra as práticas obscurantistas e despóticas.

Antes, porém, nos três primeiros séculos da colonização, os “boletins noticiosos” eram escritos à mão. Intelectuais como o poeta Gregório de Mattos, na Bahia, veiculavam suas críticas ao regime português e à corrupção reinante no Brasil através da recitação de poesias, numa espécie de “jornalismo oral”. Essa “insubmissão oral e manuscrita” é a única forma de burlar o bloqueio decorrente da vigilância política e econômica imposta por Portugal ( Bahia,1990).

Mesmo após a permissão de impressão de jornais no Brasil, em 1808, era difícil o acesso aos tipos gráficos, por isto muitos jornais surgiam em forma de manuscritos, como “O Paulista”, de Antonio Mariano de Azevedo Marques, lançado em 1823.

Com a disseminação da tipografia pelas províncias, os primeiros jornais vão se organizando em torno de ideais libertários, a favor da Independência que viria em 1822, após a abolição da censura prévia em 1821. São jornais que refletem plataformas de governo, discutem em prosa e verso, com sugestões, verrinas, programas de reforma social. Há até publicações em francês e inglês, como a “Revue Brésilienne”, de 1830. (Bahia).

Esse tipo de jornalismo oriundo de grupos ou de famílias, era o que viria vicejar,futuramente, no interior do país, como se pode observar até nossos dias, com maior incidência de publicações diárias, trisemanais, bissemanais ou semanais, no interior de São Paulo. Pesquisa realizada neste ano de 2003 por um grupo de alunos e professores do Departamento de Comunicação Social da Universidade Estadual Paulista-Unesp, revela que apenas num raio de 200Km em torno de Bauru – região central do estado – existem 400 jornais em plena atividade. Estima-se que pelos menos outros 200 títulos circulam nas demais regiões do interior paulista.

Trata-se de um jornalismo, geralmente, identificado com partidos políticos, praticado em cidades com menos de 100 mil habitantes, que depende das publicações oficiais para subsistir ou, quando filiado a grupo político contrário, de recursos alheios à receita do próprio jornal, tendo em vista o fraco faturamento oriundo da publicidade e da venda de assinaturas nas pequenas cidades do interior.

Naturalmente, quando o jornal não tem recursos para ser livre e independente, a serviço dos seus leitores, então sua linha editorial acaba comprometida a favor ou contra o grupo que detém o mando político da cidade. Mesmo assim, muitos desses jornais do interior, em São Paulo, como já dito, já utilizam impressão offset, a cores, contando com os mais modernos recursos de acesso ao noticiário das agências através da Internet, enquanto seus repórteres utilizam celulares e câmaras fotográficas digitais, tal como nos grandes jornais. Porém, nem toda essa tecnologia é capaz de afastar do jornalista o peso da permanente censura imposta pela proximidade do patrão e de seus familiares que geralmente “tocam o negócio” como pequena empresa familiar, porém sempre de olho nos interesses comerciais, o que vale dizer, não desagradar os anunciantes nem os donos do poder. E no interior todos são anunciantes em potencial, porque as “edições especiais” de aniversário da cidade, de natal etc acabam indo buscar mensagens pagas de saudação até junto a pessoas físicas, como no Dia do Padroeiro.

Em algumas cidades onde circulam esses “jornais familiares”, a Prefeitura e a Câmara Municipal colaboram com o “enxugamento” da mão-de-obra “especializada” fornecendo diretamente, via Internet, os releases e fotos para serem publicados na íntegra, sem alteração nem mesmo no título, em troca de um pagamento fixo mensal ao dono do jornal. Em alguns casos, a Assessoria de Imprensa da Prefeitura passa a ter mais equipamentos ( computadores, celulares, veículos, câmaras digitais) e mais repórteres que o próprio jornal, tudo pago com recursos públicos para assegurar a “boa imagem pública da administração”, enquanto os bairros da cidade e as Associações de Moradores ficam sem qualquer tipo de cobertura, contentando-se com alguma “carta do leitor”, geralmente censurada quando contraria a política oficialista do jornal.

Todavia, a nível nacional, não se pode esperar muito mais dos grandes jornais que também têm seus problemas de caixa e seus compromissos com o poder, de tal forma que sobra apenas alguma margem de manobra para o jornalista exercer o seu ofício com a ética, a dignidade e o espírito de serviço público que a profissão requer.

Nascida no oficialismo áulico da “Gazeta do Rio de Janeiro”, a imprensa brasileira sempre teve vocação para “chapa-branca” como se pode conferir em obras de peso sobre o assunto, como “História da Imprensa no Brasil”, de Nelson Werneck Sodré; “História da Imprensa Brasileira”, de Juarez Bahia; “Chatô: Rei do Brasil”, de Fernando Moraes; “Notícias do Planalto”, de Mário Sérgio Conti etc.

Nos últimos anos, antes da posse de Lula na Presidência, vimos como a imprensa nacional apoiava e defendia o programa neo-liberal imposto pelos países ricos aos países eternamente “emergentes” como o Brasil, um programa inteiramente coerente com o enriquecimento dos ricos e o empobrecimento dos pobres, sem qualquer margem para a sensibilidade social.

Embora estribada, a partir do Séc. XX, em estruturas empresariais e racionalmente voltadas para o lucro, a imprensa brasileira continua concentrada nas mãos de poucos, refletindo exatamente o que se dá com a injusta divisão da renda nacional, o que dá ao Brasil o triste título de campeão mundial da injustiça social (Hobsbawum).

Ao mesmo tempo que concentra o poder de decidir o que deve ou não deve ser publicado, os editores de jornais acabam utilizando-se das mesmas agências internacionais de notícias que, por sua vez, decidem o que vale a pena ser publicado em todo o Ocidente. Sobra pouco espaço para a boa reportagem local do repórter iniciante e politicamente correto quanto à ética e à vocação de servir primeiramente ao público que deve nortear todo veículo de comunicação.

Com a crise do papel dos anos 50 e, depois, com a crise do petróleo dos anos 70, os jornais sofreram grandes prejuízos e tiveram que reduzir seus gastos. No final do século XX, com a supervalorização do dólar, muitos estavam endividados nessa moeda estrangeira e as medidas de economia foram ampliadas, passando muitos jornais a terceirizarem sua própria confecção diária, além das oficinas e da distribuição.

Mais tarde, com a liminar da juíza Carla Ricci, de São Paulo, dispensando a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, o mercado de trabalho ficou ainda mais difícil para os profissionais. Nesse clima de encolhimento do mercado, até do Sindicato muitos profissionais se afastaram. O receio de perder o emprego leva o jornalista a se tornar cada vez mais subserviente, cada vez mais “cordeirinho” diante de chefetes e representantes do patronato nem sempre éticos e honestos. Para evitar “complicações” pratica-se um jornalismo declaratório, de gabinete, sem investigação, sem aprofundamento, sem interpretação, sem compromisso com o leitor.

E assim, apesar da tecnologia e da estrutura empresarial do jornalismo moderno, é o leitor que sai perdendo num mar de notícias repetidas ou supérfluas que mais desinforma do que informa, conforme observa João Serva em “Jornalismo e Desinformação”, 2002.

3. Dimensão Humana do Jornalista

Allan Acardo, do “Le Monde Diplomatique”, do mesmo modo que Ciro Marcondes Filho, Serge Halimi e tantos outros, critica ferrenhamente a subserviência do jornalista. E isto ocorre no mundo todo. Não se pode dizer que o jornalista da CNN, por se tratar de uma empresa com alcance mundial, é mais livre ou mais consciente que os jornalistas da Globo ou de emissoras menores. Basta lembrar que a emissora pediu autorização da Casa Branca para veicular os primeiros vídeos sobre a Al Qaeda, de Ossama Bin Laden, já veiculados pela TV Aljazira, do Qatar. Será que diante das torres gêmeas em ruínas a CNN não teria tarefa jornalística mais nobre a fazer que simplesmente retransmitir as mesmas imagens dias seguidos? O que se nota é que principalmente as grandes emissoras, quando diante de fatos muito inusitados, acabam se perdendo na cobertura e até os seus mais experientes profissionais pagam micos monumentais na tentativa de aparentar naturalidade diante do fato em andamento, um fato inesperado que foge da formatação à qual todos estão acostumados e para a qual todos estão treinados e ensaiados, como num grande script, como se um diretor invisível dirigisse e planificasse o jornalismo do mundo inteiro. Por aqui mesmo, quem não se lembra das gafes que a Globo cometeu por ocasião da paixão e morte de Tancredo Neves? Até hoje, na simples transmissão ao vivo de um Oscar ou de algo semelhante, percebe-se as dificuldades de trabalhar com o fato real, porque a grande mídia revela-se preparada apenas para lidar com o real simbólico, com o fato devidamente editado, cortado, enquadrado, afinal, com o recorte da realidade, nunca com a realidade em si.

O próprio jornalista é treinado para cumprir pautas sem questionar, sem discutir, sem criar problemas. Sua função é produzir quantidade e não qualidade. Por isto não se dá ao trabalho de checar as informações ou de buscar a contextualização através da pesquisa, da repercussão com outras fontes, da reflexão sobre a própria pauta, do acompanhamento da diagramação para que a matéria saia bem editada, devidamente ilustrada pelo Departamento de Arte, com box e dados de apoio, afinal, com pesquisa. Em muitas situações, como o objetivo do jornal é apenas disputar o mercado, acompanhando a concorrência, os editores estão orientados a fazer um jornal o mais variado possível, com ampla cobertura dos mais diferentes assuntos, buscando atender a uma faixa o mais ampla possível de leitores, embora isto não signifique, necessariamente, aprofundamento em nenhum assunto, de tal modo que depois de ler o mesmo assunto em todos os jornais o leitor conclui que não entendeu nada, que quanto mais se informa, mais se desinforma.

Além de não ser cobrado quanto ao conteúdo de suas matérias, o jornalista mais jovem também não é cobrado quanto ao procedimento ético no relacionamento com as fontes, na apuração séria da matéria, na conduta moral irretocável para que o fato chegue ao leitor do modo mais completo, devidamente explicado. E só pode explicar quem gasta sola de sapato para ir em busca de mais informação complementar.

Entretanto, é isto que faz a diferença entre um grande profissional que trabalha para servir à sociedade, daquele que trabalha apenas para servir aos interesses do próprio jornal. Para estes, realmente não há necessidade de diploma, como quer a juíza paulista. Nem é preciso saber escrever ou ter qualquer compromisso com o leitor. Basta que alguém pague alguma coisa para que se escreva a favor ou contra este ou aquele assunto, como no velho jornalismo do Séc. XIX tão criticado por Balzac, na França, (leia “Ilusões Perdidas”) porque quando não existe ética o que se tem é apenas infâmia, calúnia e difamação, exatamente o que a Lei de Imprensa (5.250) mais combate. Sem diploma, o leitor terá que ver advogados defendendo os interesses dos advogados; médicos defendendo interesses de médicos; políticos deitando falação sobre as virtudes da sua classe e assim por diante. Mas quem falará em nome do povo, dos excluídos, das minorias? Por aí se vê que é falacioso o alegado argumento de que é preciso democratizar a informação acabando com a exigência do diploma, uma vez que, por tal caminho, só se consegue mesmo o contrário, isto é, colocar o controle da informação nas mãos de poucos que, pertencendo à elite organizada da sociedade, estarão de costas para o leitor. Ou achamos que um “redator-médico” vai condenar os planos de saúde escorchantes e aquele seu “colega de clínica” que aleijou ou matou pessoas durante cirurgias plásticas? Alguém já disse que os advogados escondem seus erros; os médicos enterram e os jornalistas publicam.

O profissional sério sabe que tem um dever, uma missão. Esta missão é levar informação séria e correta ao leitor. Mas isto tem uma fase anterior: trata-se de ser sério, honesto, ético e correto também na hora de apurar a informação. O jornalista não é Deus. Não tem o direito de violar a privacidade alheia com subterfúgios de quaisquer espécies – inclusive com a falsidade ideológica de ocultar a própria profissão ou com o estratagema das câmaras escondidas ou de olhar pelo buraco da fechadura – afinal jornalista também não é juiz, não é delegado, não é detetive policial.

É a paranóia da quantidade, a pressa de competir que leva ao jornalismo superficial e declaratório. Essa pressa priva o jornalista da oportunidade de aprofundar a apuração e, especialmente, de investir no aspecto humano da notícia. É notório, afinal, que o jornalismo, embora produzido com a utilização de máquinas, de começo ao fim, não se destina a máquinas e sim a pessoas de carne e osso, aquelas descritas pelo filósofo Merleau Ponty ou pelo existencialismo fenomenológico de Sartre, aquelas que vivem, trabalham, respiram, sofrem, lutam se emocionam, sentem....O jornalismo é feito para pessoas vivas. Por isto precisa ter vida. E vida plena. O jovem que entra no mercado de trabalho imbuído deste ideal de se colocar a serviço do homem e que, por isto mesmo, aprende a respeitar a diversidade, o direito do outro ser diferente, aquele jornalista que não se considera o sal da terra e o dono da verdade absoluta....este é o jornalista que fará a diferença. Ele será respeitado por sua seriedade e o pauteiro o respeitará quando ele discutir a pauta. O editor o escolherá para as coberturas difíceis mesmo que o considere um “chato”. Talvez perca o emprego, mas não ficará desempregado porque os próprios colegas se encarregarão de divulgar o seu valor, a sua lealdade, o seu caráter, a sua competência e sua conduta ética. Não é raro pessoas assim irem para postos cada vez maiores e melhores em outros veículos quando são demitidas no justo cumprimento do dever. Afinal, esse tipo de jornalista sabe o que o leitor quer, conforme veremos no segundo capítulo.

Antes, para iluminar este capítulo sobre a história da imprensa, vejamos o que diz o jornalista Eugênio Bucci, em seu livro “ Sobre Ética e Imprensa”, lançado pela Companhia das Letras, em 2000:

“ Jornalismo ético é jornalismo de qualidade. Jornalismo de qualidade, é jornalismo ético. Uma apuração malfeita conduz a desvios éticos, do mesmo modo que a edição malfeita. E aí nem estamos falando de más intenções, mas apenas das exigências técnicas da profissão que, é bom saber, constituem também exigências éticas. Na apuração, por exemplo, é um imperativo tanto ético quanto técnico ouvir todos os lados envolvidos e ser fiel aos diversos pontos de vista no momento de registrá-los. Na edição, é preciso dar o peso devido a cada um dos aspectos que fazem parte da história, um peso que reflita o peso que eles têm na realidade e que ajude o leitor, o telespectador, o ouvinte ou o internauta a formar uma visão equilibrada do que se relata. Quanto à má-fé, ela pode se manifestar na apuração e na edição. Normalmente, porém, quando se fala de manipulações, estas geralmente acontecem na edição: uma manchete maldosa e distorcida, uma foto artificialmente desfavorável de um personagem e que é escolhida pelo editor com intenções de prejudicar esse personagem, a omissão de detalhes ou de fatos relevantes para obter vantagens econômicas ou políticas. A manipulação é um desvio ético flagrante e conhecido e se materializa, sem dúvida, na edição e na chefia de reportagem. Mas não é o desvio mais importante, ao menos na minha opinião. Hoje, para mim, o mais preocupante é aquilo que passa à margem das intenções dos editores. O advento dos grandes conglomerados da mídia, por exemplo, transforma os veículos de informação, que antes eram empresas independentes, em departamentos dentro das mega-corporações. Esses departamentos convivem com outros negócios, como o entretenimento, e, por meios sutis, são muitas vezes estimulados a contribuir com reportagens para o sucesso de outros negócios da mesma empresa. Também me preocupa o que vem sendo chamado de “ pensamento único” . A imprensa acaba, ocasionalmente, desistindo de oferecer ao público uma visão crítica dos acontecimentos e embarca em canoas ideológicas da moda. A maioria não entra nessa por má intenção, mas porque não parou para refletir sobre a leitura de mundo que está passando adiante. Há pouca pluralidade de opiniões no jornalismo, há pouco debate. Formam-se grandes consensos sem maiores problematizações e isso pode conduzir a um empobrecimento da informação”.

Esta avaliação que Eugênio Bucci faz do mercado, em nossos dias, é como um corolário da história da imprensa que apuramos ao longo deste primeiro capítulo, quando discutimos a importância da xilogravura no processo de comunicação não verbal, seguindo-se o advento dos tipos móveis, depois a modernização dos sistemas de impressão e a progressiva transformação do jornalismo em negócio familiar, depois em negócio empresarial onde o papel do profissional corre o risco de ser reduzido a algo pouco expressivo diante dos outros interesses assumidos pelo grande jornal.

Também vimos que no interior do país, nas pequenas cidades, mesmo os pequenos jornais, ainda quando providos de toda a tecnologia moderna, não raro acabam cedendo à tentação de unir-se ao poder local para dele usufruir os recursos que assegurarão sua sobrevivência e seus lucros. Num e noutro caso, o leitor fica órfão, sente-se abandonado, sendo visto pela mídia como número de Ibope, alienado, como “objeto de planificação” e não como sujeito da história, capaz de pautar a própria mídia.

Entretanto, vivemos hoje uma época em que a facilidade do acesso à informação e à cultura torna as pessoas mais exigentes, porque mais esclarecidas. São essas pessoas que consomem o produto jornal e elas conferem o que está sendo noticiado na mídia impressa e na mídia eletrônica, inclusive na Internet. Por isto os jornais mantém institutos de pesquisa sempre ativos para saberem o que o público quer, o que está dando Ibope e o que deve ser descartado. Até por razões de mercado, todos procuram saber o que quer o leitor do jornal.

Nós também.

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