Na
segunda metade do século
XX a chegada e a evolução tecnológica
da televisão (1950) alteraram profundamente
os hábitos do povo brasileiro, forçando
a mídia tradicional rádio e jornal a
buscarem novos caminhos. Ao longo dos anos, cada
veículo foi encontrando sua linguagem própria,
empenhando-se em assegurar a audiência com
programas de interesse para seus receptores. O
rádio tornou-se digital, o jornal ganhou
cores, a TV diversificou sua programação
e o próprio negócio televisivo segmentou-se
entre TV aberta e TV paga.
Com
o avanço da Internet,
novos arranjos vão se verificando, na medida
em que todas as mídias convergem para a
virtualidade da Web. O rádio transmite músicas
pela Internet. Os jornais e revistas veiculam versões
on-line embora ainda sem uma linguagem totalmente
adaptada ao novo meio. Também as emissoras
de TV remetem os telespectadores para seus sites
na rede "onde terão mais detalhes".
Nesse
processo de interação
e de acomodação das mídias,
trava-se o inútil debate a respeito de quem
vai desaparecer e quem vai ficar, por mais que
a história nos tenha mostrado que nada nem
ninguém desapareceu, no passado ( nem o
teatro, nem o cinema, nem o livro, nem o rádio
) com a evolução dos novos meios.
Por mais que a Internet seja um veículo
ainda incipiente, com apenas cinco a seis anos
de vida entre nós, não dá para
imaginar outro cenário senão o da
complementação dos meios, cada qual
explorando a melhor maneira de chegar junto ao
público.
É pela verificação
de audiência que o veículo consegue
se firmar no mercado, na medida que valoriza sua
tabela de publicidade e atrai novos clientes. Por
isto a programação ou o "conteúdo" acaba
se tornando "um produto à venda", como diz
a professora Cremilda Medina em relação à notícia
no mercado capitalista. Isto também acaba "justificando" alguns
exageros que algumas emissoras de TV cometem na
tentativa de "segurar" a audiência, apelando
para o emocionalismo, o escândalo, a manipulação,
o sensacionalismo e todo tipo de exagero onde a ética
escoa pelo ralo.
Ciente
de que precisa entrar em interação com sua audiência
para conquistar pontos no Ibope, a televisão
de nossos dias tenta, a todo custo, "relacionar-se" com
seus receptores, desenvolvendo programas que incluem
a participação popular, seja diretamente
- através de telefonemas seja através
de representações próprias
do imaginário popular, como se dá nas
telenovelas e nos programas de auditório
que procuram reproduzir algum tipo de vivência
real ou imaginária.
Não raro, porém,
essa tentativa de interação fica
só no superficial ou ilusório, como
no caso de programas que sugerem a possibilidade
do telespectador "decidir o final", quando se sabe
que só existem dois finais gravados e prontos
para ir ao ar num apertar de botão.
Comunidade na TV
Mas
a televisão conhece
seu poder de influência junto à opinião
pública e junto às autoridades. Também
sabe que sua missão principal como em
todo meio de comunicação é servir
ao público. Por isto não basta uma
programação dirigida a todos, indistintamente.
O processo de interação será mais
efetivo e mais direto se for possível segmentar
esse público, criando programas especialmente
dirigidos a determinadas comunidades, de modo que,
naquele programa, naquele espaço, a audiência
possa ter no canal de televisão um porta-voz
poderoso no sentido de "reforçar" as reivindicações
populares junto aos poderes públicos.
Da
mesma maneira que os meios de comunicação contam com o "Ibope" (
no sentido figurado ) para se firmarem e crescerem,
também os políticos ( como detentores
de cargos públicos ) contam com as pesquisas
de opinião, tornando-se "mais sensíveis" às
reivindicações populares quando elas
são intermediadas por um veículo
tão poderoso como a TV.
No
instante em que a TV "corta
caminho" na densa floresta da burocracia colocando
no ar a reclamação de um líder
comunitário sobre atendimento hospitalar,
por exemplo, e, na mesma tela, o ministro da Saúde
tomando conhecimento da denúncia e comprometendo-se
publicamente a apurá-la, certamente temos
uma eficiente prestação de serviço à comunidade
e esse serviço será tanto mais eficiente
se o assunto não morrer por aí, se,
dias depois, o programa de TV prestar contas do
resultado final da sua ação comunitária.
É nestes termos que funcionam
programas chamados TV Comunidade, focando-se determinada
comunidade e trabalhando sobre os seus problemas,
suas lutas e aspirações. Essa vinculação
com a comunidade pode se dar através de
programas específicos produzidos pelas emissoras
tradicionais, através de suas afiliadas
regionais; pode se dar através de emissoras
totalmente comunitárias; ou pode ser por
produção independente.
No
primeiro caso é possível
contar com toda a infra-estrutura tecnológica
da emissora, bastando haver vontade política
do Departamento de Jornalismo para produzir programas
realmente comunitários. No segundo caso,
o das emissoras comunitárias, não é raro
nos depararmos com produtos de má qualidade
diante da falta de recursos. Afinal não é segredo
que fazer TV com qualidade custa muito caro. Vale
destacar, entretanto, esforços pioneiros
como a TV Olho que surgiu no Rio em 1982 como iniciativa
de entusiastas do vídeo, mantendo, durante
algum tempo, um telejornal diário exibido
através de monitores e caixas de som em
uma das mais movimentadas praças do município
de Duque de Caxias. Sobrevivendo com anúncios
do comércio, a TV Olho fazia matérias
sobre buracos de rua, inaugurações
de escolas etc. Em 1985, em Olinda, surgiu a TV
Viva, com apoio de verbas procedentes da Holanda,
destinada a produzir vídeos que depois eram
exibidos nos bairros, ao ar livre. Em 1986 entrou
no ar, em São Paulo, a TV Bixiga, voltada
para a preservação do patrimônio
artístico e cultural daquela região
metropolitana. No mesmo ano surgiu a TV dos Trabalhadores,
vinculada ao Sindicato dos Metalúrgicos
de São Bernardo e Diadema A alternativa
da produção independente já é comum
em vários gêneros, como o , de entrevistas
( Conexão Roberto D΄Ávila), documentários
( Paula Saldanha), reportagens sociais ( Amaury
Jr ), debates ( Observatório da Imprensa
) etc. Mas pode vir a ser também um espaço
para programas comunitários de qualidade,
o que envolve patrocínio publicitário,
certamente.
A
produção independente
já é comum em outros países.
No Brasil essa modalidade de acesso ao espaço
televisivo tem se fortalecido a partir da década
de 80, embora já nos anos 60 tenham sido
registradas iniciativas neste sentido. Além
de ser um modo adequado para desverticalizar as
redes e prestar serviços diretos à população,
a produção independente também
amplia o mercado de trabalho, segundo afirma Candido
José Mendes de Almeida. ( "Uma Nova Ordem
Audiovisual Novas Tecnologias de Comunicação".
São Paulo: Summus, 1988 ). Para ele, "a
consolidação do projeto da produção
independente dentro das emissoras comerciais encontra-se
inserida em um elenco de mudanças que parece
destinado a modificar o perfil da televisão
brasileira. Ao lado das aguardadas modificações
no Código Brasileiro de Telecomunicações
e da introdução de novas tecnologias
capazes de sofisticar os modos de produção,
lançam-se as bases para a renovação
de um veículo que atinge sartreanamente
a idade da razão, condenado a associá-la
a doses generosas de criatividade e inventiva.
Vencidas as eras do fogo, do ferro e os obstáculos
técnicos e políticos, a TV no Brasil
tem diante de si o equipamento necessário
para reinventar o social na pequena tela".
Esta é uma declaração
anterior ao surgimento da Internet e da tecnologia
digital, mas não invalida a tese de que
os canais de televisão, sendo concessões
públicas, devem trabalhar para servir ao
público de modo mais horizontal e democrático,
sendo a variedade de "emissores" uma forma de democratizar
o espaço televisivo.
Também é preciso
considerar que a Internet tende a tirar público
da TV aberta na medida em que os computadores vão
chegando a todas as classes sociais e o acesso
vai se tornando mais popular e gratuito. Quando
a Internet estiver presente na maioria dos lares
como está a TV hoje, certamente os anunciantes
optarão pela rede e isto permitirá a
gratuidade total do uso da Internet como ocorre
hoje com o acesso à TV aberta. Esta é uma
tendência que foi registrada pelos especialistas
que participaram, em junho de 2.000, no Rio, do
encontro da Associação Mundial de
Jornais.
Depois
de dominar soberana por tantos anos, a TV precisa,
também ela, buscar
novos caminhos para não cair no vazio. Hoje,
um milhão de brasileiros já optaram
pela TV paga, enquanto a programação
da TV aberta cai de qualidade e perde anunciantes
que emigram para a Web.
A
produção independente
pode ser um bom negócio para a TV aberta.
E a produção de programas comunitários
pode criar novos espaços de audiência
dentro da programação.
De
qualquer forma, o que as comunidades organizadas
cobram é uma televisão
mais comprometida com os interesses da população,
menos oficialista, menos declaratória, menos
superficial, menos banal. A direção
das redes compreendeu, há muito, a necessidade
da "cor local" no noticiário de TV, daí a
criação dos telejornais regionais
que falam "mais de perto" para a audiência
de cada região do estado e do país.
Não basta, porém,
noticiar friamente os fatos da região ou
de determinadas comunidades. É preciso engajar-se
na vida diária dessas comunidades quando
se pretende fazer programas comunitários.
Só programas especialmente voltados para
a comunidade, poderão criar a necessária
sintonia entre emissor e receptor do discurso televisivo.
A programação geral, de caráter
universal, acaba passando longe das questões
regionais, deixando apáticos milhões
de telespectadores diante de assuntos que "não
lhes dizem respeito", como se falassem de outro
país, de outro Brasil e não do Brasil
real. Quem não se lembra como a maior rede
de televisão do país demorou para
apoiar o impeachment de Collor só agindo
depois de empurrada pela pressão da opinião
pública, principalmente dos estudantes de
caras pintadas nas manifestações
de rua?
Quando
toda a imprensa cobria intensamente os depoimentos
e repercussões
da CPI do Esquema PC, a principal emissora mantinha
o povo desinformado, como conta o jornalista Mario
Sergio Conti ( "Notícias do Planalto". São
Paulo: Companhia das Letras, 1999 ): " No Jornal
Nacional as notícias sobre a CPI e a reação
do governo limitavam-se ao registro do essencial
dos fatos, sem comentários. A emissora não
abria espaço para entrevistas e debates
sobre o assunto. O dono da rede, Roberto Marinho,
e o diretor da Central de Jornalismo, Alberico
Souza Cruz, continuavam apoiando o presidente e
levavam as dificuldades dele ao ar com discrição".
Artur
da Távola ( "Televisão
Brasileira História, Análise e
Conteúdo". São Paulo: Ed. Globo,
1996 ) ao analisar o conteúdo das telenovelas
- espaço onde a televisão passa a
comunicação na forma de conceitos
e estereótipos - ao longo de 32 anos, de
1963 a 1995, constata que " grandes problemas sociais
brasileiros como miséria, fome, analfabetismo,
moradia e saúde não foram tema central
de qualquer novela até hoje, embora alguns
autores os tenham abordado incidentalmente. A pobreza
chegou a ser tema ou sub-tema de telenovelas, a
miséria jamais".
Portanto,
o que se espera é uma
televisão mais identificada com as questões
populares e que atue com transparência e ética,
sem jamais mentir ao povo como se fez na edição
do debate entre Lula e Collor nas eleições
de 89.
Para
quem deseja fazer TV Comunitária,
Artur da Távola recomenda que não
se descuide da qualidade e que não se percam
de vista a heterogeneidade do público: " Não
haverá obra televisual eficaz sem a consideração
dos critérios afetivos pelos quais o público
se relaciona com a tevê, bem como sem levar
em conta as características dos vários
públicos componentes dessa entidade indefinível
chamada "público" ( no sentido de uma massa
geral e amorfa ) e, finalmente, sem conhecer os
elementos componentes da gramática, da sintaxe
e da semântica próprias do idioma
televisual. Haverá opinião, contestação,
discursos bem-intencionados, pregação
de idéias, não comunicação".
Quem
sabe quanto custa produzir programas de TV, também sabe que não
vale a pena colocar o pé nessa estrada quando
não há condições técnicas
de produzir comunicação. Principalmente
na comunidade.
Além de qualidade, a televisão,
como qualquer meio de comunicação,
precisa ter ética. Nos EUA o Código
de Ética da Televisão chama atenção
para a responsabilidade comunitária do veículo,
segundo William L. Rivers e Wilbr Schramm ( "Responsabilidad
y Comunicación de Masas". Buenos Aires:
Troquel, 1973): "Um teledifusor e seus superiores
ocupam uma posição de responsabilidade
na comunidade e devem esforçar-se conscientemente
para familiarizar-se a fundo com suas necessidades
e características, a fim de contribuir melhor
com o bem-estar de seus cidadãos".
Ao
criticar a massificante ideologia da Indústria Cultural, os autores Luiz Beltrão
e Newton de Oliveira Quirino ( "Teoria da Comunicação
de Massa". São Paulo: Summus, 1986 ) advertem
que "não pode ser esquecida, pelo profissional
consciente, a sua responsabilidade ética
perante certos estratos da sociedade especialmente
a juventude que são os mais vulneráveis
pela ideologia da Indústria Cultural. O
profissional não deve dar-lhes apenas o
que eles querem receber, no sentido de diversão
e entretenimento, mas construir nos seus receptores
um pouco mais daquilo que possuem".
Vídeo Comunitário
Outro
instrumento de animação
comunitária é o Vídeo Popular
que tem sido amplamente empregado na área
de educação. Quando consegue superar
os ambientes fechados para chegar à veiculação
pela TV, o vídeo ( criado em 1956 pela empresa
americana AMPEX ) tem sua força multiplicada.
Foi com o vídeo que Jean-Luc Godard registrou
a histórica movimentação estudantil
de Paris, em 1968. Foi um vídeo-amador que
levou a julgamento os policiais que participaram
do espancamento de moradores da Favela Naval, em
Diadema, em 1997. Através do vídeo,
comunidades do MST são mobilizadas para
a luta. Pelo vídeo, grupos de fiéis
revigoram a própria fé nas mais diferentes
religiões e em todos os lugares do planeta.
Com as novas tecnologias, ficou cada vez mais fácil
produzir programas de boa qualidade em vídeo.
Candido
Almeida registra que "o
videoclipe, o documentário, o jornalismo,
os programas educativos e mesmo os programas de
auto-ajuda tipo "how to" ( como fazer ) têm
se adaptado ao vídeo por sua estética,
agilidade e praticidade. Na promoção
das artes, em geral, o vídeo tem papel de
destaque, através da videoarte, como explica
o autor: " O exercício do vídeo como
criação artística se desenvolve
hoje a partir de três categorias básicas:
a videoarte em si, a instalação e
a performance. Na primeira, o artista processa
um conceito através de uma plástica
de sons e imagens e a câmara funciona como
um pincel eletrônico. O resultado é uma
produção em vídeo posteriormente
exibível em aparelhos de televisão
comuns. A principal característica da instalação é o
papel do protagonista ali assumido pelo televisor:
este trabalho consiste na montagem de um ambiente
em cujo cenário a tela e seu conteúdo
sintetizem a mensagem artística. Já na
performance, o realizador e o seu corpo assumem
a condição de suporte capaz de interagir
e criar com o vídeo".