Enquanto
se discute se a Internet vai ou não
vai tomar o lugar do jornal impresso como meio
de informação rápida e eficiente,
a maioria dos especialistas aconselha os jornalistas
a se tornarem "multimídia",
isto é, profissionais habilitados a escrever
bem e rápido sobre qualquer assunto e
para qualquer público, seja do impresso,
do rádio, da TV, da Internet. Também
se espera que o novo jornalista saiba não
apenas lidar com as novas tecnologias à sua
disposição, mas que saiba "pensar
visualmente", valorizando a imagem numa época
em que os recursos digitais transformaram o próprio
texto em imagem. O bom repórter discute
a pauta com o pauteiro, a foto com o fotógrafo,
o hinfográfico com o Departamento de Arte
e a diagramação com o programador
visual.
Sem
dúvida esse preparo do novo profissional
passa pela adequação do ensino
universitário às necessidades com
as quais o jovem recém-formado vai se
deparar no mercado. Talvez por isto apesar
da reflexão crítica que nos leva
a considerar o espaço universitário
como o lugar da experienciação
e das novas propostas - os estudantes de jornalismo
sempre pedem ao professor, todo semestre, algum
tipo de contato com profissionais do mercado
capazes de explicar o que está acontecendo, "hoje",
na prática profissional.
O
receio é que a formação
meramente teórica afaste o jovem do mercado
ao invés de inseri-lo nesse mundo em permanente
estado de transformação sem deixar
de levar em conta a formação teórica
e o aprendizado ético e moral, próprios
da academia.
Trazer
os profissionais bem sucedidos para a sala
de aula é algo muito complicado,
por diversos fatores. São pessoas sempre
muito ocupadas e a escola pública nunca
tem verba para arcar com as despesas de viagens,
cachês etc, já que a maioria milita
no eixo Rio-São Paulo-Brasília.
Quando muito consegue-se recurso extra para trazer
algum profissional por ocasião dos eventos
acadêmicos, para uma palestra apenas,
ou uma mesa redonda.
No
entanto, os alunos querem um contato mais
direto, mais intenso. Querem mais tempo para
aprender coisas novas com o visitante, para
atualizar
o "saber-fazer".
Por
isto, neste primeiro semestre de 2003, na
impossibilidade de trazer até a Unesp
de Bauru o Editor do "Correio Braziliense",
de Brasília, jornalista Ricardo Noblat,
optamos por repassar aos alunos de "Técnicas
de Reportagem, Entrevista e Pesquisa Jornalística" os
principais ensinamentos do mais recente livro
desse conceituado profissional: "A Arte
de Fazer um Jornal Diário" São
Paulo: Editora Contexto, 2002.
(Antes,
porém, é preciso lembrar
que o pernambucano Ricardo Noblat, com 35 anos
de experiência profissional, já ocupou
os mais destacados postos da mídia brasileira,
com inúmeras reportagens no exterior,
tendo sido, também, responsável
pela reforma gráfica e visual do "Correio
Braziliense" em 2.000. Regularmente dá palestras
em universidades brasileiras).
CRÍTICA AO "JORNAL-ESPETÁCULO"
"O que interessa ao público nem
sempre é de interesse público",
observa Noblat. E explica: "...estimular
os baixos instintos do ser humano, por exemplo,
interessa a uma expressiva fatia do público.
Aumenta as vendas de um jornal. Amplia a audiência
de uma emissora de TV. Mas proceder assim é condenável
porque em vez de contribuir para a elevação
dos padrões morais da sociedade, o jornalismo
os rebaixa".
Com
isto o autor condena a euforia do furo pelo
furo, quando o repórter conclui que tem
o direito de apelar para quaisquer recursos na
hora de sair na frente com a sua notícia,
usando câmaras ocultas, mentindo sobre
sua condição de jornalista, roubando
documentos, invadindo a privacidade alheia, traindo
a confiança de fontes que se revelam
em off, etc.
Um
profissional que representa a sociedade na
hora de fiscalizar e combater os corruptos,
não
tem o direito de mentir e trair para se destacar
no mercado de trabalho. Deve, isto sim, agir
com ética e transparência.
Noblat
ilustra o ensinamento com o caso da TV comercial
que normalmente destaca matérias
sem importância apenas porque rendem belas
imagens, e muitas vezes ignora notícias
que não comportam imagens tão relevantes,
mas que são de grande importância
para o público.
Tanto
os jornais quanto a TV noticiam com grande
destaque a fase policial dos processos, quando
as pessoas são apresentadas à sociedade
como suspeitas de algum crime, porém ignoram
a fase judicial, quando, muitas vezes, são
inocentadas em juízo e tudo o que sai
na imprensa são poucas linhas num pé de
página.
Em
suma: Transformar a notícia em espetáculo, "interessa
ao público", mas não é "de
interesse público". O autor critica
a arrogância dos jornalistas em geral principalmente
dos que apelam para meios fraudulentos na hora
de apurar a matéria. Faz até uma
pilhéria: "Médico pensa que é Deus,
jornalista tem certeza".
Portanto, é bom lembrar: A competência
profissional não dispensa uma boa dose
de humildade.
JORNAL DE ONTEM
Quando
abrimos o jornal do dia só vamos
ler notícias que já vimos ontem
na TV e na Internet, ou que ouvimos no rádio.
Que graça tem ler matéria velha?
Será que não poderíamos
desenvolver a criatividade para produzir o "Jornalismo
Histórico", através das muitas
ferramentas que hoje temos em mãos, como
a Internet, recorrendo a pesquisas documentais,
entrevistas etc, transformando fatos históricos
em saborosos textos jornalísticos? O autor
vai mais além, ao indagar se não
poderíamos ser mais criativos ainda a
ponto de produzirmos o "Jornal de Amanhã"?
Segundo Noblat isto já existe. Lembra
que a CNN noticiou a Guerra do Golfo antes que
ela se iniciasse de fato porque contava com uma
grande equipe de profissionais especializados
em análises. Em contrapartida, os jornalistas
políticos do Brasil só noticiaram
que a governadora do Maranhão, Roseana
Sarney, estava fora da sucessão presidencial
de 2002 quando ela convocou a imprensa para anunciar
essa notícia óbvia, após
o escândalo das notas de R$ 50,00 encontradas
na Empresa Lumus, de seu marido, Jorge Murad.
Talvez
não se invista nesse tipo de jornalismo
porque as empresas estão sempre em contenção
de custos e não querem investir em profissionais
tão competentes a ponto de analisarem
a perspectiva dos fatos, pois não se trata
de fazer futurologia, mas de mostrar ao leitor
a tendência dos acontecimentos, como
fazem, por exemplo, os consultores de economia.
Outro
ponto que Ricardo Noblat aborda é a
própria definição de notícia. "O
que é notícia?", indaga. E
responde: "Notícia é tudo
que os jornalistas escolhem para oferecer ao
público". Muitas vezes os jornalistas
valorizam mais as notícias negativas como
forma de obter mais audiência para seu
veículo - e então o mundo parece
muitas vezes pior do que verdadeiramente é,
segundo o autor.
Trata-se
de uma verdade que deve ser objeto de reflexão, se lembrarmos que existe
muito mais "liberdade de empresa" que "liberdade
de imprensa" em todo o mundo. Dá para
imaginar o poder e a responsabilidade das pessoas
que "agendam o mundo", isto é,
que decidem o que deve ser noticiado no mundo
a partir de meia dúzia de agências
internacionais. No caso do Brasil não é muito
maior o número de famílias que
controlam a imprensa, portanto o pensamento
nacional.
O VALOR DO DETALHE
Ensina
Ricardo Nobalt que os jovens profissionais
não devem desprezar jamais a riqueza dos
detalhes por menores que sejam porque neles
pode estar a chave de uma grande matéria.
Mas só repara em detalhes quem desenvolve
um excepcional poder de percepção,
um padrão elevado de sensibilidade. Em
algumas escolas de jornalismo dos EUA ( como
em Berkeley) os estudantes de jornalismo são
levados a recitarem obras de Shakespeare e a
ouvirem música clássica, como
forma de treinar a sensibilidade.
Segundo
o autor, é melhor o repórter
pecar por excesso de informação
( a ponto de ter que jogar algumas no lixo se
o espaço que lhe couber for insuficiente)
do que por falta de detalhes na apuração
de uma matéria. Para destacar a importância
do detalhe, lembra que a quantidade de álcool
que os jovens de classe média usaram para
atear fogo no indio Galdino, em Brasília,
um litro, foi determinante na condenação
deles. Imagine-se se a imprensa não tivesse
registrado a quantidade corretamente por preguiça
de apuração?
"A importância de um fato é que
determina a extensão de uma notícia.
Mas, mesmo uma notícia de umas 30 linhas
ganhará mais credibilidade se o repórter
contá-la em detalhes", ensina Ricardo
Noblat.
É preciso ficar claro que registrar detalhes
numa apuração dá muito trabalho.
Mas é o que faz a diferença num
universo em que os jornais são todos iguais,
de norte a sul do país, porque assinam
as mesmas agências e publicam as mesmas
manchetes e até a mesma foto. Quando o "detalhe" é gente,
então o repórter precisa ficar
ainda mais esperto. Afinal, "gente" não é detalhe, é sujeito
da história. O autor cita o exemplo hipotético
de uma mulher ( Maria José da Conceição)
que é barrada num show de Gilberto Gil,
no Canecão, porque chegou atrasada devido
ao trânsito. Ensina que personagem de matéria
não pode limitar-se a um nome: Quantos
anos tem Maria José? O que ela faz na
vida? É casada ou solteira? Tem filhos? É gorda
e baixinha ou alta e magrinha? Onde mora? Como
estava vestida? Falava em voz alta ou em voz
baixa?
Respostas
a tais detalhes dão vida a
um personagem e permitem que os leitores se identifiquem
com ele. Afinal, gente gosta de ler histórias
sobre gente, diz Noblat.
Apurar
detalhadamente tem a ver com a explicação
dos fatos ao leitor. É o que o Novo Jornalismo
dos anos 60 chama de "interpretação".
O bom profissional foge do "denuncismo",
isto é, das denúncias sem provas.
Não basta o truque de "ouvir os dois
lados" e depois lavar as mãos. O
leitor quer muito mais, quer as origens, as causas
do fato, as consequências, os resultados
dele. Tudo isto significa apurar com responsabilidade.
Para
chegar ao fundo da questão, o repórter
deve duvidar da primeira informação
que recebe. Deve pesquisar melhor, confirmar
com outras fontes, checar a informação,
ler documentos e publicações de
nível a respeito, buscar a verdade sempre
através de mecanismos legais e lícitos sempre
lembrando que "nada é como parece",
pois não existe verdade absoluta. É preciso
ser cético.
(Na
hora da entrevista, segundo Noblat, nem sempre
o gravador ajuda. Muitas vezes ele inibe
o entrevistado e desliga o entrevistador que
passa a se preocupar apenas com o funcionamento
da máquina, sem prestar atenção
no andamento da entrevista. Também aconselha
que se mude de assunto quando o entrevistado
ficar nervoso com uma pergunta, reformulando-a
mais à frente. O melhor é fazer
antes as perguntas que ele gostaria de responder).
Ao
confirmar notícias oficiais, o repórter
deve tomar cuidado porque "todo governo
mente". Afinal, informação é poder.
O bom profissional deve desconfiar de toda e
qualquer informação de fontes oficiais,
checando-a à exaustão.
Sobre
as informações em off, Ricardo
reconhece que o jornalismo não pode passar
sem elas. Mas acha que toda informação
em off só deve ser publicada depois de
checada com outra fonte. Mesmo que a confirmação
também seja em off.
De
qualquer forma, o bom profissional jamais
quebrará o acordo feito com a fonte, mesmo
quando isto o levar a perder o emprego ou mesmo
a ir para a cadeia. O respeito à fonte é questão
de ética. Boas fontes de informação
são o capital mais valioso de um profissional
da imprensa. Entretanto, Noblat admite que o
editor do jornal tem o direito de saber quem é a
fonte para avaliar o peso da declaração.
Afinal, se o repórter não puder
confiar no chefe dele, como o chefe confiará no
repórter?
Quem
consegue mais detalhes para produzir uma
boa matéria, nem sempre é o repórter
mais inteligente. Noblat cita o jornalista Elio
Gáspari, seu colega de "Veja",
para lembrar que "repórter bom é repórter
burro", isto é, aquele que não
tem vergonha de perguntar. Ele pergunta, pergunta,
pergunta e volta para a redação
com todas as dúvidas esclarecidas.
PARA ESCREVER BEM
Quem
não gosta de ler escolheu a profissão
errada se quer ser jornalista. Ler muito é essencial
para aprender a escrever bem. Não é na
redação do jornal diário
que o repórter aprenderá a escrever.
A pressa não dá espaço para
esse tipo de aprendizado. Saber escrever não é uma
questão de receita. Não existe
receita. O que existe é imaginação,
concisão, clareza, objetividade. Uma boa
técnica é ler o texto em voz
alta para perceber as falhas.
Os
parágrafos, segundo Noblat, devem
ser como as caixas de lenço de papel:
Quando se puxa um, o outro já fica na
posição de sair. Quer dizer, um
parágrafo deve se ligar ao outro para
que o texto flua com serenidade, sem saltos,
sem sustos. É isto que dá sentido
e coerência ao texto.
Noblat
também aconselha o jovem jornalista
a não misturar informação
com opinião. A opinião deve ser
sempre assinada e não pode ser confundida
com interpretação.
Sobre
a técnica do lead, Noblat acha
que ela já está superada. Vem da
Guerra de Secessão, nos EUA (final do
Séc. XIX), quando os operadores de telégrafos
só permitiam que cada correspondente passasse
apenas o parágrafo mais importante da
matéria para seus jornais já que
as ligações eram precárias
e costumavam cair durante a transmissão.
O melhor é usar a criatividade na abertura
da matéria. Fica mais interessante.
Entretanto,
quando se trata de redigir notas curtas,
o lead é indispensável
para o bom entendimento da matéria. Alguns
recém-formados têm extrema dificuldade
de escrever matérias curtas porque não
conseguem controlar a "verborragia".
A editora do Observatório Eletrônico,
Marinilda Carvalho, acha perigoso os professores
de jornalismo abandonarem as técnicas
do lead porque isto retira do aluno a capacidade
de síntese e o editor perde um tempo enorme
na hora de refundir a matéria quando o
espaço repentinamente é reduzido
por pressões do Departamento Comercial,
devido a anúncios de última hora.
Sair catando Quem, Que, Quando, Onde, Como e
Porque pelo texto afora na hora do fechamento é uma
perda de tempo enorme para a editoria.
No
que se refere à reportagem, então
sim, a abertura criativa e a condução
coerente do texto levam a uma leitura fluente,
agradável, prazerosa, sem as amarras
do lead.
Nenhum
estudante de jornalismo, pelo menos aqui
na Unesp de Bauru, deveria deixar de ler, em
2003, o novo livro de Ricardo Noblat que é mais
uma contribuição para a melhoria
da qualidade da imprensa brasileira. Afinal,
quanto mais se dispensa a obrigatoriedade do
diploma, mais o mercado precisará de profissionais
preparados para fazer a diferença. Isto
significa que os bons cursos vão sobreviver,
os demais vão desaparecer. Vale o mesmo
para os profissionais.