Luiz Beltrão ("A Imprensa Informativa".
São Paulo: Folco Masucci) define a entrevista
como "a técnica de obter matérias
de interesse jornalístico por meio de
perguntas e respostas".
A entrevista é um dos instrumentos de
pesquisa do repórter. Com os dados nela
obtidos ele pode montar uma reportagem de texto
corrido em que as declarações são
citadas entre aspas ou pode montar um texto tipo
perguntas e respostas, também chamado "pingue-pongue".
Segundo Luiz Amaral ("Técnicas de Jornal
e Periódico". Rio: Tempo Brasileiro, 1987)
podem-se distinguir dois tipos de entrevista:
a de informação ou opinião
(quando entrevistamos uma autoridade, um líder
ou um especialista) e a de perfil (quando entrevistamos
uma personalidade para mostrar como ela vive
e não apenas para revelar opiniões
ou para dar informações. Em ambos
os casos há interesse do leitor e o jornalista
será sempre um intermediário representando
o seu leitor ( ou receptor ) diante do entrevistado.
Na primeira situação, quando se
trata de divulgar informações e
opiniões, mesmo para produzir uma simples
nota, é conveniente e necessário
o jornalista repercutir o material com outras
fontes envolvidas com o fato, checando a informação.
Fábio Altman ("A Arte da Entrevista:uma
antologia de 1823 aos nossos dias". São
Paulo: Scritta,1995) diz que "a entrevista é a
essência do jornalismo". Segundo Altman, "a
entrevista transforma o cidadão comum
em líder, dono da palavra, professor,
uma pessoa incomum".
Em "Técnicas de Codificação
em Jornalismo-Redação, Captação
e Edição do Jornal Diário".
São Paulo: Ática, 1991, Mário
Erbolato conta que as origens da entrevista remontam
a 1836, quando James Gordon Bennet fez perguntas
a Rosina Townsend, proprietária de um
prostíbulo de Nova York no qual ocorrera
um assassinato classificado, então, como "sensacional".
Segundo Juarez Bahia ("Jornal, História
e Técnica - História da Imprensa
Brasileira". São Paulo: Ática,
1990 ) um dos requisitos mais importantes, na
entrevista, é a autenticidade, isto é,
que as declarações atribuídas
ao entrevistado possam ser facilmente provadas.
Carlos Tramontina ("Entrevista". Rio: Globo,
1996 ) lembra que todo entrevistador faz a mesma
coisa: perguntas. Mas cada um desenvolve um estilo
próprio, prepara-se de maneira diferente
e usa de variadas estratégias para conseguir
boas respostas. Afinal, não há boa
entrevista sem bom entrevistador.
Voltando a Fábio Altman: "Perguntas frouxas
e equivocadas pressupõem respostas do
mesmo teor. A inteligência das questões
e a descoberta do mote correto podem transformar
conversas aparentemente inócuas em grandes
depoimentos". Pode-se dar como exemplo a série
de encontros informais entre o ex-presidente
Figueiredo e o repórter Orlando Brito
em caminhadas pela praia de Copacabana ou a fita
de vídeo que ele concordou em gravar num
fim de festa, em 1997, onde fez revelações
sobre as entranhas do poder militar. Em agosto
de 1994, com o microfone aberto e a imagem fora
do ar, Carlos Monforte, da TV Globo, transmitiu
para o país confidências escabrosas
do então ministro Rubens Ricupero. (Todos
se lembram: "O que é bom a gente
mostra, o que é ruim a gente esconde").
Para o professor José Salomão
David Amorin, da UnB, "no Brasil as orientações
para uma boa entrevista, em certos cursos de
jornalismo, têm sido reduzidas a conselhos
gagás do tipo quando for entrevistar um
sujeito, telefone para saber se ele está em
casa; quando ele atender ao telefone diga-lhe
bom dia; não compareça a uma entrevista
sem gravata..."
Edgar Morin ("A Entrevista nas Ciências
Sociais, no Rádio e na Televisão".
Cadernos de Jornalismo e Comunicação,
11. Rio de Janeiro,1968) define a entrevista
como "uma comunicação pessoal,
realizada com objetivo de informação".
O professor Mário Erbolato lembra que "a
entrevista é um gênero jornalístico
que requer técnica e capacidade profissional.
Se não for bem conduzida, redundará em
fracasso".
Segundo Alexandre Garcia, citado no livro de
Tramontina, quem mais perde com o fracasso de
uma entrevista é o entrevistador porque
no dia seguinte ele vai fazer a mesma coisa,
enquanto o entrevistado sai de cena.
"Entrevistar não é somente fazer
uma pergunta, esperar uma resposta e juntar à resposta
outra pergunta. É um exercício
profissional trabalhoso e ingrato. Quase sempre
quanto maior é o interesse do jornal em
conseguir a entrevista, menor o do entrevistado
em concedê-la, e vice-versa. Na medida
que cresce o interesse do jornal, crescem também
os problemas do entrevistador", garante Luiz
Amaral ("Jornalismo - Matéria de Primeira
Página". Rio: Tempo Brasileiro, 1997),
citando, em seguida, Joseph Folliet ( "Tu seras
journaliste". Lyon: Chronique Sociale de France,
1961): Esse gênero exige muita intuição,
delicadeza, perfeito conhecimento do assunto,
do entrevistado, de sua vida e de sua obra, uma
grande probidade - um exterior, enfim, que inspire
confiança e incite à confidência.
Na opinião do professor de jornalismo
da Federal de Santa Catarina, Nilson Lage
("A Reportagem - teoria e técnica de
entrevista e pesquisa jornalística". São
Paulo: Record, 2001) a palavra entrevista é ambígua.
Ela tanto significa o diálogo com a fonte,
como a matéria publicada.
2. ESTRATÉGIAS
Grandes entrevistadores adquirem técnicas
que transformam o jogo de perguntas e respostas
numa espécie de xadrez, conseguindo arrancar
declarações que o entrevistado
não pretendia fazer.
Mas não basta ter experiência. É preciso
trabalhar duro antes da entrevista, pesquisando
tudo sobre os temas a serem tratados e sobre
o entrevistado.
Depois de bem preparado (de preferência
um ou mais dias antes) o entrevistador deve fazer
um roteiro com começo, meio e fim. O objetivo
não é bitolar e restringir o desempenho
do entrevistador, mas ser uma base referencial
para evitar "brancos" e atropelos.
É importante que o entrevistador seja
o condutor da entrevista. Mas só estará no
comando se estiver bem informado e bem preparado. "É estimulante
para o entrevistado, nos momentos em que a fala
se interrompe, perceber que o entrevistador está compreendendo
o enunciado...se o entrevistado declarou que
a economia vai bem, uma observação óbvia,
tal como 'o senhor é então otimista
quanto aos acontecimentos do futuro próximo'
vale não por seu conteúdo, mas
pela demonstração de interesse
e entendimento. Dependendo, no entanto, das circunstâncias,
pode ser conveniente apresentar um dado de contestação,
no momento adequado, para obter maior espontaneidade,
expansão ou aprofundamento", ensina o
professor Lage.
O ideal é que a entrevista flua espontaneamente,
cada resposta permitindo o "encaixe" da pergunta
seguinte.
Afirma Carlos Tramontina que "a estratégia
mais produtiva é aquela baseada na informação:
jamais um entrevistado experiente conseguirá fugir
das perguntas ou esconder os fatos se diante
dele estiver sentado um entrevistador cheio de
informações".
Exemplo:
Em fevereiro de 1969, ao entrevistar o temível
General Vo Nguyen Giap, em Hanói, sobre
a guerra que ele comandava, no Vietnã do
Norte, contra os americanos e os sul-vietnamitas,
entre o final dos anos 60 e início dos
anos 70, a jornalista italiana Oriana Falacci,
trabalhando para o jornal "L'Europeo", levou
o líder vietnamita a revelar, com franqueza
inédita, tudo o que pensava sobre seus
inimigos americanos, conforme conta Fábio
Altman ( obra citada ).
Bem preparada para a entrevista, Oriana teve
o cuidado de levar para o tenso ambiente do seu
interlocutor duas companheiras que faziam as
anotações enquanto ela enfrentava
o olhar fixo do General. Nesses casos é impossível
ao repórter anotar e dialogar ao mesmo
tempo.
Foi nesse clima que a jornalista italiana ousou
contradizer o entrevistado classificando de derrota
do Vietnã do Norte a ofensiva do Tet.
Segundo ela contou depois, o General se levantou
nervoso, caminhou ao redor da mesa e, com braços
estendidos, exclamou: "Diga isto à Frente
de Libertação".
Oriana respondeu: "Primeiro estou perguntando
ao senhor, General".
É prática usual entre entrevistadores
mais experientes usar a estratégia de
começar a entrevista com atitudes ou comentários
bem humorados para deixar o interlocutor à vontade,
referindo-se a um jogo importante ou a algo curioso
e de conhecimento comum.
Em 27 de junho de 1989, ao entrevistar o Deputado
Ulisses Guimarães, Jô Soares pediu
ao garçom que lhe servisse uma dose de "poire" (
licor de pêra ), bebida preferida do Sr.
Diretas e de seus colaboradores mais próximos.
No dia seguinte, ao entrevistar outro candidato à Presidência
da República, Jô chamou a atenção
para o sapato Vulcabrás 752 que Paulo
Maluf usava e do qual era garoto-propaganda.
Carlos Tramontina diz que "constrangimentos
entre quem pergunta e quem responde fazem parte
da atividade da imprensa. Geralmente os homens
públicos, que têm mais experiência
no contato com a mídia, não se
surpreendem". Esse tipo de entrevista é definida
como "confronto" por Nilson Lage: "É a
entrevista em que o repórter assume o
papel de inquisidor, despejando sobre o entrevistado
acusações e contra-argumentando,
eventualmente com veemência, com base em
algum dossiê ou conjunto acusatório.
O repórter atua, então, como promotor
em um julgamento informal. A tática é comum
em jornalismo panfletário, quando se pretende
'ouvir o outro lado' sem lhe dar, na verdade,
condições razoáveis de expor
seus pontos de vista". O autor reconhece que
muitas vezes esse tipo de entrevista pode transformar-se
num espetáculo de constrangimento, principalmente
quando transmitida ao vivo, no rádio ou
na televisão.
Para Alexandre Garcia, "a pergunta embaraçosa
pode ter duas conseqüências: desmontar
o entrevistado a ponto dele contar tudo o que
sabe, ou irritá-lo a ponto de passar a
responder tudo com monossílabos", matando
a entrevista.
Alexandre recomenda que o repórter estude
o perfil psicológico do entrevistado para
saber se deve conduzir a entrevista "batendo
ou assoprando".
Ele também ensina a preparar emboscadas
para o entrevistado: Você faz uma pergunta
sabendo de antemão qual será a
resposta, porque ela é óbvia, previsível,
ou porque já foi dada antes. Logo em seguida
faz a pergunta-chave da entrevista.
É uma estratégia que se aplica
melhor às entrevistas longas.
Às vezes é o caso de entrar direto
no assunto, como fizeram os repórteres
de Veja ao entrevistar Pedro Collor a quem a
mãe, Leda, vivia pedindo que fosse ao
médico examinar a cabeça. Naquela
entrevista, segundo os repórteres, a primeira
pergunta foi: "O Senhor se considera louco? " É um
modo de balizar o terreno para que o leitor saiba
com quem está falando. Se Pedro Collor
admitisse problemas mentais suas declarações
não teriam a mesma força. Morreu
tempos depois com um tumor na cabeça...
Em determinados casos, o experiente Alexandre
Garcia usa outra estratégia que exige
muito domínio da situação:
- Eu me finjo de bobo, que não sei das
coisas, para que o entrevistado sinta-se mais
forte, superior a mim e seguro de si. Nessa situação
ele fica mais à vontade, revela mais coisas
e abre a guarda. É aí que eu entro.
Alexandre diz que age assim porque, na sua opinião,
o entrevistado tem medo do jornalista, pois uma
entrevista publicada pode gerar muitas conseqüências.
A história está cheia de exemplos
sobre a força que uma entrevista tem em
certas circunstâncias. A entrevista de
Getúlio Vargas a Samuel Wainer na estância
gaúcha do ex-presidente, publicada por "O
Jornal", do Rio de Janeiro, em 03/03/1949, abriu
caminho para a volta do ditador ao poder.
A já citada entrevista de Pedro Collor
provocou o impeachment de Fernando Collor e o
desbaratamento do Esquema PC.
As entrevistas em off conseguidas por Carl Bernstein
e Bob Woodward, no caso Watergate, levaram à renúncia
o homem mais poderoso do mundo, o Presidente
dos Estados Unidos da América ( Richard
Nixon ).
Costuma-se datar o início da revolução
sexual feminina, no Brasil, a partir da entrevista
que Leila Diniz deu ao "Pasquim" em 21-26.11.1969,
ao chegar dos EUA.
3. CUIDADOS
Alguns cuidados ajudam o entrevistador a evitar
problemas na hora de transformar a entrevista
em notícia.
Uma precaução é sustentar
o diálogo com o entrevistado tratando-o
do modo mais coloquial, seja pelo primeiro nome
ou pelo cargo, conforme as circunstâncias:
Soaria ridículo tratar um cantor popular
ou um ator de "Senhor": , Sr. Chico Buarque,
Sr. Caetano Veloso, Sr. Roberto Carlos, Sra.
Carla Peres...Nos diálogos com um deputado,
um ministro, um senador, usa-se o nome do cargo.
Em coletivas ou locais solenes, chama-se o Presidente
da República de "Sr. Presidente".
É preciso desenvolver, também,
uma técnica pessoal para observar se o
entrevistado está mentindo. A este respeito,
conta Luiz Amaral que depois de entrevistar milhares
de homens e mulheres sobre casos sexológicos,
o dr. Alfred Kinsey respondeu, certa vez, ao
lhe indagarem se ele sabia até que ponto
eram verdadeiras, ou não, as confissões
que lhe eram feitas: 'É muito simples.
Eu as encaro de frente. Inclino-me para diante.
Faço as perguntas rapidamente, uma depois
da outra. Não as perco de vista. Naturalmente,
se vacilam posso saber que estão mentindo".
Em casos de entrevistas ao vivo pode acontecer
o acidente do "dar um branco", mesmo quando se
entrevistam pessoas que o país inteiro
conhece. Nunca é demais ter o nome do
entrevistado bem à mostra, além
do seu cargo exato.
Conta-se que até o experiente Boris Casoy
já sofreu com isto porque o editor se
esqueceu (ou achou que nem precisava ) de colocar
no script do apresentador o nome do entrevistado
daquela noite, no SBT. E na hora de apresentar
o entrevistado, entre uma matéria e outra,
Boris começou: "Estamos aqui com um grande
nome da Música Popular Brasileira, um
homem extremamente conhecido de vocês,
que agora está atuando na política...vereador
em Salvador...um compositor maravilhoso...um
compositor de mão-cheia...."
A apresentação não acabava
mais porque Boris não conseguia lembrar-se
do nome de Gilberto Gil sentado à sua
frente, saindo-se com esta: "Ele dispensa apresentações".
"Mais do que em qualquer outro veículo,
a entrevista televisiva devassa a intimidade
do entrevistado, a partir de dados como sua roupa,
seus gestos, seu olhar, a expressão facial
e o ambiente. A produção, nos talk
shows televisivos, é geralmente mais cuidada
e o entrevistador, violando um dos preceitos
básicos da entrevista jornalística,
pode tornar-se a estrela do programa, com todo
prejuízo que isso traz para a informação
- não necessariamente para o espetáculo",
observa Nilson Lage. Para o rádio, ele
recomenda um tom mais coloquial
É importante, ainda, entender porque
as pessoas geralmente gostam de dar entrevistas.
Não é apenas porque precisam se
comunicar, mas por vaidade, na avaliação
de Boris Casoy. Por isto ele acha que um elogio
inicial "lubrifica" e a pessoa acaba liberando
as portas de sua intimidade, permitindo que o
entrevistador chegue à caixa-preta.
Para Joelmir Beting (também citado no
livro de Tramontina) as pessoas dão entrevistas
porque têm informações, idéias
ou propostas importantes. Outros, por interesses
pessoais ou financeiros. Querem mostrar a empresa,
a associação, o sindicato ou o órgão
de governo ao qual pertencem.
Mas Joelmir também não se esquece
da vaidade: "O pior é que muitos não
estão preparados e acabam falando o que
não devem, vendo publicado o que não
gostariam".
Exemplo foi a entrevista do ex-ministro da Aeronáutica,
Tenente-Brigadeiro Walter Werner Brauer, que
enviou carta à Revista Veja de 10.01.2.000
desmentindo referências elogiosas a Hitler
contidas na entrevista concedida à repórter
Sandra Brasil na edição anterior.
Joelmir conta, com orgulho, que não é amigo
de nenhum ministro ou qualquer outra autoridade
do governo. Faz questão de não
dever favores porque quer se manter livre e independente
em seu trabalho.
4. GRAVAR OU ANOTAR
Cada repórter desenvolve um método
pessoal de documentar a entrevista. Alguns preferem
confiar na memória, o que é perigoso
quando a declaração envolve números
ou nomes de difícil entendimento. Outros
preferem anotar, porém em alguns casos é difícil
sustentar um diálogo e anotar ao mesmo
tempo, como já foi visto na técnica
usada por Oriana Fallaci ao entrevistar o General
Giap. O mais garantido é gravar. Mas até isto
pode dar problemas porque o gravador pode falhar
e surpreender o repórter na fatídica
hora do fechamento do jornal. O recomendável é,
além de gravar, reconstituir a entrevista
com base em palavras-chaves que o repórter
anota, indicando os temas principais na sequência
em que ocorreram. Isso geralmente basta para,
passado um período curto de tempo, reproduzir
com bastante fidelidade, discursos não
muito extensos ou complicados (Lage 2001). Também
há entrevistados que se intimidam com
o gravador ligado, temendo falar alguma bobagem
e não poder voltar atrás ou com
receio de que a gravação se torne
um documento de uso futuro.
Cada caso é um caso.
Boris Casoy, por exemplo, no depoimento a Tramontina
(obra citada ) conta que, quando trabalhava em
jornal impresso, preferia gravar a entrevista
com dois gravadores por via das dúvidas.
Também há diferentes modos de
veicular a entrevista. Ela pode servir apenas
como banco de dados para reforçar uma
reportagem; as citações podem ser
colocadas entre aspas ao longo do texto corrido
ou também se pode usar o já referido
formato de perguntas e respostas, tal como foi
gravada a entrevista.
Nos casos de denúncias, este último é o
melhor sistema porque não deixa margem
a dúvidas sobre a interpretação
do repórter. Foi o que aconteceu com o "grampo
do BNDES" em 1999. A "Folha de S. Paulo" soltou
o conteúdo das fitas aos poucos, reproduzindo
na íntegra os diálogos que comprometeram
ministros e autoridades do Governo FHC com favorecimentos
na privatização da telefonia no
país.
Boris Casoy ensina que o entrevistador não
deve ter vergonha de perguntar tudo o que precisa
saber, senão fará um texto falho,
incompleto. "O bom profissional é aquele
que consegue transmitir para o leitor, num texto
sintético e conciso, todos os conceitos,
com precisão",diz.
5. DIREITOS DO ENTREVISTADO
Além das técnicas de entrevista,
o jornalista também deve levar em conta
os direitos do entrevistado. Segundo Caio Túlio
Costa ("O Relógio de Pascal – A Experiência
do Primeiro Ombudsman da Imprensa Brasileira".São
Paulo: Siciliano, 1991), nos EUA as vítimas
de entrevistas deturpadas ou fraudadas podem
recorrer ao Centro Nacional das Vitimas, com
sede em Forth Worth, no Texas, que defende os
seguintes direitos dos entrevistados:
. Você tem o direito de dizer não
a um pedido de entrevista.
. Você tem o direito de escolher um porta-voz
ou um advogado da sua preferência.
. Você tem o direito de escolher a hora
e o local para entrevistas aos meios de comunicação.
. Você tem o direito de requisitar um
repórter de sua escolha.
. Você tem o direito de recusar entrevista
a um repórter específico, mesmo
que você tenha prometido entrevistas a
outros repórteres.
. Você tem o direito de dizer não
a uma entrevista mesmo que você tenha dito
anteriormente que daria entrevistas.
. Você tem o direito de excluir crianças
de entrevistas
. Você tem o direito de não responder
questões que julgue inconfortáveis
ou inapropriadas.
. Você tem o direito de saber com antecedência
quais direções a história
vai tomar.
. Você tem o direito de pedir para rever
suas declarações antes da publicação.
. Você tem o direito de recusar coletivas
de imprensa e falar com cada repórter
por vez.
. Você tem o direito de pedir retratação
quando informações imprecisas forem
reportadas.
. Você tem o direito de pedir que fotografias
ofensivas sejam omitidas na publicação
ou que imagens idem não sejam levadas
ao ar.
. Você tem o direito de dar entrevistas
na televisão mostrando apenas a silhueta
ou solicitar que sua foto não seja publicada.
. Você tem o direito de recusar-se a responder
perguntas de repórteres durante julgamento.
. Você tem o direito de processar um jornalista.
. Você tem o direito de sofrer na privacidade.
. Você tem o direito a todo momento de
ser tratado com dignidade e respeito pelos meios
de comunicação".
Caio Túlio comenta que "tudo isto
tem muito a ver com o que os americanos chamam
de fair play, o jogo limpo, a transparência
do jornalista para com seu entrevistado e seus
leitores".
6. ORGANIZAÇÃO
Além de fazer a entrevista e de publicá-la,
muitas vezes é necessário planejar
e organizar o encontro entre a fonte e a imprensa. É o
caso do jornalista que exerce funções
de Assessor de Imprensa nas empresas, nos órgãos
públicos etc.
As entrevistas podem ser organizadas de vários
modos. Elas podem se dar nos gabinetes ou nas
redações; podem ser ao vivo ou
por telefone, fax, Internet etc. Podem ser pessoais
ou de grupo (coletivas ); exclusivas ou não;
convocadas ou espontâneas; anônimas
( como nas pesquisas ) ou não; em off
( como no caso Watergate ) ou em on; simples
( com poucos repórteres ) ou americanas
( com maior organização dos entrevistadores);
de rotina ( ouvindo testemunhas de um acidente
de trânsito por exemplo ) ou caracterizadas
( quando alguém informa ou opina sobre
assuntos políticos, econômicos,
esportivos etc ); biográficas ( com perfis
de personalidades ou de pessoas que se destacam
no meio do povo, na cultura, nas artes etc);
informativas; opinativas etc.
Na entrevista coletiva simples, com poucos repórteres à mesa,
o entrevistado, em geral, faz um breve resumo
dos fatos. As perguntas são aleatórias,
de modo espontâneo. O esquema abaixo dá uma
idéia (segundo KOPPLIN, Elisa e FERRARETO,
Luiz Artur. "Assessoria de Imprensa Teoria e
Prática". Porto Alegre: Sagra-DC Luzzatto,
1993) da organização desse tipo
de entrevista:
RÁDIO JORNAIS CINEGRAFISTAS
ENTREVISTADO e e e
TELEVISÃO REVISTAS FOTÓGRAFOS
Conforme os mesmos autores, a Coletiva Americana é mais
elaborada. O entrevistado ou o porta-voz fica
mais distante dos repórteres, em um auditório.
O número de perguntas e a duração
máxima de cada uma é distribuída
em função do número de veículos
credenciados previamente e conforme o tempo de
que dispõe o entrevistado para o encontro
com a imprensa. Ao formular a pergunta, o profissional
deve se identificar, bem como ao veículo
que representa, fazendo perguntas claras e objetivas,
estando preparado para repetir se for solicitado.
Neste caso a ilustração ficaria
assim:
ACOMODAÇÕES ACOMODAÇÕES
Microfone
DO ENTREVISTADO DOS JORNALISTAS
Geralmente a Assessoria de Imprensa procura
facilitar o trabalho dos jornalistas fornecendo
material de apoio e infra-estrutura ( release,
press-kit etc)
Às vezes exige-se que as perguntas sejam
apresentadas à mesa por escrito, podendo
haver mais de um entrevistado. Assim todos podem
participar e há a possibilidade de se
apresentar mais esclarecimentos ao jornalista
após a coletiva, além de ser possível
responder questões que não foram
respondidas no momento por falta de tempo.
Tato Taborda ("A Entrevista Coletiva". Cadernos
de Jornalismo e Comunicação, 30.
Rio de Janeiro, maio/junho: 1971) afirma que "toda
entrevista coletiva tende a se transformar num
jogo de inteligência. De um lado, o entrevistado
disposto a declarar apenas o que lhe interessa,
do outro o entrevistador que, na pressa de ser
ouvido, corta o impacto da indagação
do colega". Por isto, quanto maior a organização
da entrevista, melhor para todos. Porém
esse tipo de entrevista organizada torna-se quase
impossível em situações
de emergência, quando o entrevistado precisa
responder questões urgentes sobre emergências
nacionais ou internacionais, catástrofes,
epidemias, tragédias etc.Em tais situações
o jornalista deve estar preparado para enfrentar
um clima tenso e conseguir informações
em situações quase caóticas,
em meio ao tumulto das circunstâncias.
A coletiva inicial do Presidente Johnson foi
dada em pleno vôo do "Air Force One" enquanto
o corpo de Kennedy ainda estava no hospital,
em Dallas.
Nas entrevistas com pessoas especializadas,
o repórter deve redobrar os cuidados de
anotação para não cometer
gafes imperdoáveis ao redigir a matéria. É sempre
conveniente deixar o próprio telefone
ou o e-mail com o entrevistado (nas entrevistas
individuais, ou com o assessor, nas coletivas
) e anotar o dele para qualquer troca de informações
durante o fechamento do jornal.
Costuma-se comparar uma redação
de jornal - na hora do fechamento da edição
- ao convés de um navio de guerra em plena
ação. Umberto Eco usa a imagem
de uma "caixa preta" para descrever
o "caos organizado" de uma redação
de jornal. Nessas circunstâncias é desesperador
para o repórter não ter em mãos
uma bem organizada lista de telefones para contatos
urgentes com as fontes. Muitas vezes perde-se
a chance de ver a própria matéria
na manchete do dia seguinte por falta de meios
para confirmar uma informação imprescindível.
Jornalista iniciante que perde oportunidades
por desorganização está abrindo
mão de uma carreira ascendente.
Em determinadas situações parte
da entrevista exclusiva é dada em off.
O repórter deve ter a habilidade de respeitar
o pedido de off para preservar sua fonte. Sem
boas fontes um repórter não é ninguém.
Nestes casos as informações em
off devem ser atribuídas a "uma fonte
bem informada da empresa"..."técnicos
da área"....."especialistas no assunto"...etc.
Nas entrevistas de rotina nem sempre é possível
citar o nome e a qualificação de
todos que falaram (como ocorre nas pesquisas
sobre preços de combustíveis ou
preços de supermercados etc). A informação
deve, então, ser atribuída a fontes
generalizadas: "Alguns proprietários de
postos de gasolina afirmam que o consumo de gasolina
caiu cerca de 40% na cidade depois do último
aumento autorizado pelo governo". Ou: "Segundo
testemunhas, o motorista do ônibus argentino
foi o culpado pelo acidente que matou 38 turistas,
ontem, numa curva da BR 101, em Santa Catarina,
perto de Joinville".
Chama-se "caracterizada" a entrevista em que
a fonte aparece claramente identificada: "Quero
esclarecer que não convidei mais ninguém
para o cargo", garantiu ontem o presidente Fernando
Henrique Cardoso, desmentindo declarações
de que teria sondado outros nomes, além
do Procurador-Geral da República, Geraldo
Quintão, para o cargo de Ministro da Defesa,
em substituição a Élcio Álvares.
Nas entrevistas de rua, tipo "povo-fala", "pesquisa" etc é conveniente
qualificar o entrevistado citando, além
do nome, idade, profissão e região
onde mora. De acordo com o assunto da entrevista,
esses dados são fundamentais. É relevante,
numa entrevista sobre sexo antes do casamento,
por exemplo, ou sobre topless em Copacabana,
se o entrevistado tem 17 ou 77 anos. Do mesmo
modo é determinante se o elogio dirigido à política
do governo veio do deputado do PT ou do PFL.
Às vezes é necessário dar
mais detalhes sobre o entrevistado. Se a entrevista
de rua é sobre recursos que os taxistas
usam para poupar combustível e se isto,
de algum modo, beneficia o usuário, é bom
citar também a placa do carro que o entrevistado
dirige e seu ponto de parada, pois o bom jornalismo
deve ter sempre o sentido de serviço ao
leitor.
7. COMO FAZER
O manual da Folha de São Paulo diz que
o segredo de uma boa entrevista está na
elaboração de um bom roteiro:
- Levante sempre o máximo de informações
sobre o entrevistado e o tema que ele vai tratar.Em
seguida, reflita sobre o objetivo a que pretende
chegar. O melhor caminho é redigir perguntas
tão específicas quanto possível.
Perguntas muito genéricas resultam em
entrevistas tediosas.
Os repórteres da Folha também
recebem estas orientações:
-Ao transcrever a entrevista, o repórter
deve corrigir os erros de português ou
problemas da linguagem coloquial quando for imprescindível
para a perfeita compreensão do que foi
dito. Mas não se pode trocar as palavras
ou mudar o estilo da linguagem do entrevistado.
Se relevantes, eventuais erros ou atos falhos
do entrevistado podem ser destacados com a expressão
latina "sic" entre parêntesis na frente
da palavra ou frase. É recomendável
preservar a ordem original das perguntas.
E ainda:
a) Marque a entrevista com antecedência;
b) Informe o entrevistado sobre o tema e a duração
do encontro;
c) Grave a entrevista para poder reproduzir
com absoluta fidelidade eventuais declarações
curiosas, reveladoras ou bombásticas;
d) Vista-se de modo adequado a não destoar
do ambiente em que será feita a entrevista,
para não inibir ou agredir o entrevistado;
e) Faça perguntas breves, diretas, que
não contenham resposta implícita;
f) Identifique contradições, mencione
pontos de vistas opostos e levante objeções
sem agredir o entrevistado;
g) Não deixe de abordar temas considerados "sensíveis" pelo
entrevistado. Faça perguntas diretas e
ousadas. Insista quantas vezes achar necessário
se o entrevistado se recusar a responder a alguma
pergunta;
h) Registre essa recusa se for significativa;
I) O entrevistado tem o direito de retificar
ou acrescentar declarações. Se
for relevante, o repórter pode registrar
as duas versões (original e posterior).
8. OUTRAS RECOMENDAÇÕES
a) Evitar perguntas fechadas, isto é,
que só admitem monossílabos como
resposta. ( "O Sr. é a favor ou contra
a candidatura de Lula à Presidência?".
Uma pergunta aberta seria: "Porque o Sr. apóia
Lula para Presidente?");
b) O repórter deve responder brevemente
se o entrevistado pedir a opinião dele;
c) Quando o entrevistado foge do assunto, o
repórter deve usar a pergunta seguinte
para trazê-lo de volta ao tema;
d) Procurar ser bem-humorado no diálogo,
porém sem exageros que destoem;
e) Agir com segurança e naturalidade,
mostrando que sabe o que quer;
f) Ao ouvir uma resposta-bomba, o repórter
não deve revelar entusiasmo porque essa
reação pode levar o entrevistado
a pedir o cancelamento da declaração,
receoso das conseqüências;
g) Não se deve usar exclamações
para comentar as respostas ("puxa! "..."quem
diria!"..."não me diga!".)
h) as perguntas podem ser de esclarecimento
("quantos operários foram demitidos?"),
de análise ("que motivos a empresa deu
para as demissões?"), de ação
("o que o sindicato pretende fazer agora?");
I) Perguntas muito longas podem complicar a
vida do repórter se o entrevistador pedir
que ele repita;
J) Não se deve misturar várias
perguntas ao mesmo tempo ("qual seu nome, idade,
trabalho atual e a situação do
seu bairro?");
l) Perguntas muito amplas confundem o entrevistado
("como o Sr. vê a situação
da humanidade de Adão até nossos
dias?");
m) O repórter deve acompanhar com total
atenção as respostas do entrevistado;
n) O entrevistado deve ser alertado para o fim
da entrevista ("agora uma última pergunta"..."para
terminar"...."o Sr. gostaria de acrescentar mais
alguma coisa?")
Mário Erbolato relaciona, entre outros
já vistos, os seguintes procedimentos
na preparação do repórter
para a entrevista:
a) Chegue ao local da entrevista na hora combinada,
se possível com alguma antecedência;
b) Ajude o entrevistado, se necessário,
a expor as suas opiniões. Conduza a entrevista;
c) Não corte as respostas. Espere que
cada uma delas termine para formular a próxima
pergunta;
d) Faça as perguntas no mesmo nível
de quem responde: Às vezes trata-se de
pessoa humilde que tem informações
sobre determinado fato, mas se ficar amedrontada
negará esclarecimentos preciosos para
o jornal;
e) Prepare o terreno para cada pergunta. As
coisas mais indiscretas podem ser indagadas se
o jornalista tiver o cuidado de ir-se conduzindo
com habilidade.
9 - QUEM É A ESTRELA?
O comportamento de alguns repórteres
de vídeo deixa dúvidas sobre quem
deve ser a "estrela" da entrevista. Todos sabem
que a "estrela" deve ser sempre o entrevistado, "por
mais conhecido e vaidoso que seja o repórter",
observa Nilson Lage. Segundo ele, espera-se que
o repórter seja discreto, como coadjuvante
e, ao mesmo tempo, diretor de cena: "Entrevistados
podem ser malcriados ou tentar intimidar o repórter;
este não deve irritar-se nem deixar-se
intimidar".
A exemplo de outros autores, também Nilson
Lage lembra que, durante a entrevista, uma das
chaves é saber perguntar em cima da resposta.
Outra é manter o comando da conversa impedindo
que o entrevistado se desvie do tema. Em algumas
situações, quando isto acontece,
a melhor estratégia, conforme Lage, é apresentar
nova pergunta, mudando o assunto, para retomar
posteriormente ao ponto problemático. "Não
se deve questionar mais do que o necessário
nem insistir em linhas de questionamento que
se constatam improdutivas", ensina.
Há muitos casos em que a entrevista precisa
ser feita por telefone. Lage observa: "O telefone é um
meio muito útil para a apuração
de informações, mas suprime algumas
condições facilitadoras da entrevista,
tais como o ambiente controlado e a presença
do outro".
Outro modo, hoje muito usual, de se entrevistar à distäncia, é via
e-mail. Aliás, com a Internet não
apenas os jornalistas encontram inúmeras
facilidades em seu trabalho, mas os próprios
estudantes de jornalismo podem partir para contatos
diretos no mercado, colocando em prática
as teorias aqui aprendidas sobre a arte de entrevistar,
por exemplo. No caso de conversas on-line, tipo
ICQ, o resultado depende, em parte, da destreza
do entrevistado na digitação. Muitas
pessoas perdem a espontaneidade quando escrevem.
E se digitam lentamente, as respostas "tenderão
a ser formais, como as que se obtém em
um questionário escrito"( Lage 2001).