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O Show de Truman e as Câmeras da Endurb


( Leitura dialética do controle social pela informação)
"Digo-o com orgulho, nunca considerei a pintura como uma arte de puro entretenimento e distração. Através do desenho e da cor, pois que estas eram as minhas armas, pretendia penetrar de forma cada vez mais profunda no conhecimento do mundo e dos homens, para que este conhecimento nos fizesse mais livres dia após dia...Sim, tenho consciência de ter lutado com a minha pintura como um verdadeiro revolucionário".
Picasso

Pedro Celso Campos

O exercício da arte como crítica, como elemento de denúncia para tirar o ser humano da alienação, é uma característica que se destaca no filme dirigido por Peter Weir, a partir da obra de Andrew Nicoll, "O Show de Truman – O Show da Vida" (1998), re-exibido regularmente em canais de televisão menos envolvidos com a "cultura de massa", essa cultura que se transformou em "indústria cultural" a serviço da dominação e da ideologia do poder, como criticam os fundadores da Escola de Frankfurt ( 1923 ) Max Horkheimer e Theodor Adorno.
Muitos autores, entre eles George Orwell ( 1949), já denunciaram, em obras de ficção, a "possibilidade" de um mundo no qual o ser humano seria totalmente controlado a partir de interesses alheios aos seus próprios interesses, isto é, à sua revelia. Só pela arte, entretanto, só pela reflexão crítica, conseguimos observar como a ficção vai se tornando realidade, ao longo dos séculos, de tal modo que o homem, sem se dar conta, acaba prisioneiro da "gaiola eletrônica" de que falou Marcuse, tornando-se não mais sujeito, mas objeto inconsciente, coisificado, da indústria cultural.
Da mesma maneira que o imperialismo não foi a última etapa do capitalismo, como previa Lênin, já que a sociedade contemporânea se aburguesou, em seu egoísmo materialista e sem escrúpulos, conforme analisa Hannah Arendt, também a evolução dos meios de controle social não se deu de forma linear. Já não é através de grandes conflagrações bélicas que se impõem a dominação totalitária sobre a sociedade, senão através de mecanismos muito mais sutis como os acordos econômicos internacionais fechados em quatro paredes com o Fundo Monetário Internacional, por exemplo; com o progressivo endividamento da classe média sufocada pelos impostos escorchantes; com o sucateamento da escola e da Universidade pública; pela manipulação das massas através dos meios de comunicação etc. Esse "imperialismo cultural" iguala todas as classes e suplanta o próprio conceito de lutas de classe quando situa todos na mesma dependência do necessário à subsistência de tal modo que já não há espaço para as reivindicações e os protestos porque outra coisa não resta senão tentar manter o emprego, por mais humilhante que seja, já que todos estão presos aos carnês de pagamento mensal...e isto é dominação pura e simples. Marx – que era filósofo e não profeta – viu a dominação mundial dos povos através do pesado endividamento imposto às nações pobres...Dá-se o mesmo no plano individual. Só resta a melancolia ao homem moderno endividado. E essa melancolia lhe tira o desejo de lutar, de protestar, pois ele está subjugado, está dominado.
Entretanto, no filme de Peter Weir, a sátira social do homem ( Truman ) alienado em seu próprio mundo, cercado por outros atores que apenas cumprem ordens, acompanhado e controlado pelas câmeras de TV do todo-poderoso diretor do show que ambiguamente tem o nome de Christof, numa referência ao dogmatismo religioso, deixa margem à perspectiva da mudança, da revolução, do "basta", pela conscientização, pela desalienação, pelo questionamento, pela crítica da práxis.
Manipulado pelo trauma de infância – artificialmente criado, claro – em que tomou medo do mar ao perder o pai por afogamento, Truman é chantageado pelo patrão que ameaça demiti-lo se não for visitar um cliente numa ilha; é traído pelo melhor amigo que na verdade representa o Controlador do Show; nem o amor de sua mulher, Sylvia, é verdadeiro porque ela também apenas cumpre as aparências impostas pelo sistema sendo uma "atriz" do show...mas nunca perde a esperança de fugir daquele lugar, para um mundo realmente livre, para uma utopia com a qual todo homem sonha. E paga caro por ousar ser livre, por ousar superar o trauma e enfrentar o mar na louca aventura da fuga, pois é torturado pelo criador do Show que manda ventos e tempestades a virarem o barco no qual Truman está amarrado como o Ulisses de Homero durante o "canto das sereias". Truman sabe que em algum lugar há uma saída, mas é preciso vencer o desconhecido para chegar lá. Como Ulisses, ele entende que é preciso desvendar o mito para superá-lo, para se libertar de sua força mágica.
É a própria condição do homem eternamente vocacionado para decifrar o segredo da Esfinge sob pena de ser esmagado por sua própria ignorância, de ser devorado pela "máquina" que Kafka descreve na Colônia Penal, de se sentir eternamente culpado pelas mazelas do mundo, "porque a culpa é sempre indubitável", havendo processo mesmo quando não há crime...("A maquinaria mutila os homens mesmo quando os alimenta", lembram Adorno e Horkheimer).
A cena remete à essência da visão crítica do Iluminismo sobre a vida humana. Trata-se de "dissolver os mitos e substituir a imaginação pelo saber", segundo observam Adorno e Horkheimer, na Dialética do Esclarecimento (1947). E aduzem: "A superioridade do homem está no saber, disso não há dúvida. Nele muitas coisas estão guardadas que os reis, com todos os seus tesouros, não podem comprar". Para eles "o entendimento que vence a superstição deve imperar sobre a natureza desencantada, pois o saber que é poder não conhece nenhuma barreira, nem na escravização da criatura, nem na complacência em face dos senhores do mundo".
Trumam quer ir para as "imaginárias" Ilhas Fiji. Essa busca do mundo ideal que Platão chama de Atlântida; Thomas Morus de Utopia; Campanella de A Cidade do Sol; os Cavaleiros da Távola Redonda de Santo Graal; os judeus de Jardim do Éden, os colonizadores de Eldorado e o poeta Manuel Bandeira de Pasárgada: "Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do Rei". É a busca do mundo ideal,da fuga do sofrimento, como no "Rei Lear", ou em Hamlet, de Shakespeare.
Sufocado pela indústria cultural dos meios de comunicação que transformam em ouro tudo o que tocam, como na lenda do Rei Arthur, na desesperada busca do mercado, do Ibope, do produto de resultados, da objetividade técnica que reifica tudo e todos a ponto de transformar pessoas em números estatísticos, ou em mais um João (sem sobrenome e sem história) que morreu agonizando no chão frio do Pronto Socorro, o homem moderno vive o seu Show de Truman todos os dias: No mesmo horário em que todos se levantam para trabalhar, nos mesmos gestos da higiene matinal; nas mesmas notícias lidas apressadamente no café da manhã ou diante do Bom Dia Brasil enquanto se aperta o nó da gravata; no mesmo trânsito infernal que faz a coluna de veículos avançar ou parar de acordo com a cor do sinal luminoso levantado à frente – como um estandarte poderoso e imperativo; na mesma angústia de, na pressa, exceder em mais de 20% a velocidade permitida que é de 50Km/h o que levará, fatalmente, a uma multa equivalente a quase três salários mínimos aplicadas pela Empresa de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru-Endurb através de atentas câmeras espalhadas pela cidade com o olhar "astucioso" do Grande Irmão imaginado por Orson Welles. É o Show de Truman. E nele, como diz a música funk, "está tudo dominado". (Segundo Olgária Matos, "o caminho da história passa pelo sofrimento e a miséria dos indivíduos". Contextualizando historicamente os filósofos da Escola de Frankfurt, ela explica sua melancólica visão do futuro pela tendência à "total administração na sociedade moderna". Olgária ainda nos lembra que "a sociedade administrada produz massa acrítica e manipulável. Nela ocorre a extinção do sujeito cognoscente, do sujeito histórico, do sujeito responsável").
Mas é necessário pensar e refletir – até porque navegar é preciso - a respeito de quem dirige o show. Quem está "brincando de Deus" com a gente enquanto nos faz correr para cima e para baixo, como alucinados, e depois não nos dá paz nem quando chegamos em casa porque é aí que se depara, novamente, com o que de pior aconteceu durante o dia ou então com as alienantes cenas da novela que só aparentemente têm a ver com a nossa vida...
É isto que Truman quer saber quando se rebela e tenta enfrentar os seus demônios, ou os seus deuses - vai saber - interpelando o desconhecido:
"Who are you?"
Quem tem visão crítica sabe a resposta:
"Eu sou o Sistema...o criador do Show".

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