Reportagem
não é notícia
grande. Certamente é uma grande notícia
porque sem um fato importante, um grande fato,
não se tem reportagem de interesse para
o leitor. Ter-se-á, talvez, uma espécie
de picaretagem, ou uma matéria paga, que
interessa a algumas pessoas, não ao universo
de leitores do jornal.
Na
definição de Amaral (1997) "reportagem é a
representação de um fato ou acontecimento
enriquecida pela capacidade intelectual, observação
atenta, sensibilidade, criatividade e narração
fluente do autor".
Para
Alberto Dines, "a reportagem também é uma
arte porque nela entra toda a bagagem subjetiva
de quem a faz". Muitos autores situam a
reportagem a meio caminho da literatura, na verdade
já dentro da literatura como se pode notar,
inclusive, na modalidade do livro-reportagem
que faz tanto sucesso, mesmo quando o volume
ostenta 500 páginas e mais, tamanha a
leveza do texto e a habilidade de narrar os fatos
jornalisticamente.
No
dia-a-dia da imprensa, um texto maior - nestes
apressados tempos da informação
on line - precisa se justificar para ser lido.
Justificar-se por si mesmo, sendo um bom assunto,
e justificar-se através de sua construção
linguística e de sua programação
visual. Do contrário, não será lido,
apenas ocupará o caro espaço do
jornal.
Por
isto não basta ampliar a notícia
com "cascatas" ou "enchendo linguiça".
O leitor não é bobo. Ele está cada
vez mais exigente. E antes dele há o editor
cobrando qualidade o tempo todo. A reportagem é o
caminho para a consagração de um
repórter logo em seus primeiros anos de
carreira. Mas também é a sepultura
de quem tem preguiça de apurar. Pesquisar,
checar dados, rechecar com outras fontes, cruzar
informações, descobrir mentiras
antes que elas sejam publicadas, enterrar-se
em calhamaços de documentos, pedir ajuda
a quem entende para estudar papéis técnicos
e balanços, andar muito, ouvir muito,
perguntar muito e ter a sorte de contar com uma
boa equipe, com um editor competente e um programador
visual ainda mais...eis o caminho da boa reportagem.
É preciso sorte, também, para
estar numa empresa que acredita no valor da reportagem
e por isto investe recursos nela, ao invés
de optar por um jornalismo rapidinho, baratinho,
inutilzinho, destinado a ser varrido do mapa
pelo concorrente em questão de tempo...A
boa reportagem é trabalho demorado. O
livro-reportagem, por exemplo, leva meses, anos
para ser concluído.
Por
isto os bons jornais têm sempre uma
equipe com os melhores profissionais trabalhando
assuntos em profundidade que vão resultar
em grandes matérias. Na fase de levantamentos
o trabalho exige discrição, sigilo
mesmo, para que o assunto não vaze, o
que poderia abortar a matéria por ferir
algum interesse inconfessável. Imagine-se
a pressão dos corruptos sobre um repórter
se souberem que ele está prestes a revelar
fatos escabrosos do Detran, da Polícia,
de uma empreiteira, de grupos políticos,
ministérios etc. O repórter deve
ter a habilidade de não "abrir" totalmente
para suas fontes o teor da matéria; apenas
o suficiente para obter as informações
de que precisa. Ao mesmo tempo deve ter o zelo ético
de ouvir todos os envolvidos para não
ser injusto, deixando claro quando a pessoa citada
se recusou a falar.
Boas
reportagens transformam-se em pauta para os
demais jornais e para a televisão.
Na verdade, em muitos casos o repórter
de jornal tem mais facilidade para levantar informações
porque pode se infiltrar melhor nos ambientes,
enquanto a equipe de TV exige, forçosamente,
uma parafernália enorme que logo chama
a atenção e muitas vezes afugenta
fontes preciosas...a não ser quando se
usa câmara secreta, claro...
De
um modo geral a dinâmica da TV não
comporta detalhes de documentação
que o jornal pode apresentar. Números,
documentos, dados comparativos alcançam
melhor entendimento quando impressos, preto no
banco, onde as pessoas podem ler, reler, conferir,
arquivar. É inegável que a TV tem
outras vantagens como o alcance imediato do país
inteiro. Como negar o impacto das imagens da
PM paulista espancando pessoas indefesas na Favela
Naval? Ou as cenas de trombadinhas em plena ação
na Praça da Sé? Mas no dia seguinte
os interessados vão procurar o jornal
para conferir detalhes que escapam no vídeo
e que não se pode arquivar, pois o telespectador
comum não assiste a programação
das emissoras com o vídeo-cassete pronto
para a gravação.Nem mesmo a maioria
das agências de publicidade têm recursos
para gravar simultaneamente várias programações
de TV, o tempo todo.
Ainda
no campo das definições,
devemos concordar com Dines: a reportagem é uma
arte. Ela não pode ater-se apenas ao relato
factual porque não pode ser um relatório
frio, como um processo judicial ou um inquérito
policial, nos quais há muitos dados mas
não há reportagem, pois não
está presente ali a arte de escrever,
não há um estilo, uma interpretação
jornalística dos fatos. Pelo menos não
há um sentido para os fatos, uma contextualização,
uma humanização do relato. "O
retrato quadrado de um acontecimento não é jornalismo, é registro.
O retrato de um acontecimento engrandecido pela
técnica da narração, argúcia
e cultura de quem observa, isto sim é jornalismo",
comenta Alberto Dines, citado por Amaral (1997).
Em "A Arte da Reportagem-Vol I" (
Igor Fuser-org.São Paulo: Scritta, 1996)
o apresentador da obra, Eugênio Bucci,
define: " A reportagem, como a arte, tem
a necessária pretensão de iluminar
o significado, de apontar uma direção
acima do caos dos eventos cotidianos". Para
alcançar este objetivo, "o repórter
deve entender o que tem a narrar. E, para entender,
precisa sentir. Só então ele ordena
o caos ( e escreve, encadeando os fatos como
são encadeadas as palavras). Porque o
repórter sente, as reportagens emocionam.
Porque ele entende, elas informam. ( Informação,
não custa repetir, é um dado que
contém sentido para o leitor. Ou não
será informação, mas apenas
um dado a mais, perdido)".
"A arte da reportagem é trazer à luz
a informação que é notícia aquela
cujas repercussões tendem a alterar a
expectativa dos fatos futuros...Vivemos um momento
em que a imprensa proporciona uma gigantesca
oferta de dados, mas carece de informações;
anda atulhada de opiniões, mas raquítica
em visão de mundo; lista fatos e mais
fatos, mas quase não tem reportagem. A
reportagem só é arte ( e bom jornalismo
) quando foge da indiferença e traz, em
sua narrativa, a pretensão de compreender
o que se passa", conclui.
2.
O QUE É NECESSÁRIO
Amaral (1997) relaciona os seguintes requisitos
para a reportagem:
Capacidade intelectual O profissional
tem que por à prova todas as suas aptidões,
a fim de abordar convenientemente o tema e esgotá-lo
até os últimos limites.
Observação
atenta Aí entra
em jogo a capacidade que tem o repórter
de ver. A bagagem intelectual e as informações
prévias sobre a questão facilitarão
ao repórter discernir o que é principal
e secundário durante o trabalho de campo
e em meio a um mundo de informações.
Agir com toda a curiosidade exigida pelo jornalismo.
Sensibilidade Embora influenciada pela
bagagem cultural, é pessoal, íntima,
não pode ser ampliada com simples regras
de comportamento. Esta faculdade ou o repórter
a tem ou não a tem, é o caso do
músico, do pintor ou do escritor.
Criatividade Toda a articulação
e exposição do tema precisa assentar-se
em bases reais, do contrário seria uma
negação mesma do jornalismo. Impõe-se
a reconstituição honesta dos fatos
e do clima em que se desenrolam. Por maiores
que sejam a imaginação e a técnica
narrativa do repórter, seu dever fundamental é com
a verdade. Para cumpri-lo, necessita ter coragem
e dizer "isto eu vi", "isto me
contaram", tal como fez Pero Vaz Caminha.
Narração
fluente A informação
bruta transforma-se em reportagem através
da narração fluente. O repórter
não deve mostrar muita preocupação
com a forma, mas tem que saber expor os fatos
de maneira que o leitor se sinta atraído
do princípio ao fim do texto.
A
boa reportagem pode e deve ser o diferencial
entre os meios impressos e a mídia eletrônica
( internet, rádio, tv) uma vez que possibilita
descer a fundo na questão abordada.
Entretanto,
como em tudo na vida, uma boa reportagem começa com uma boa idéia, com a
intuição do repórter para
farejar fatos sensacionais ou muito graves. Depois
que todos os jornais estão criticando
o uso de aviões da Força Aérea
para ministros e presidentes de Tribunais passarem
férias com a família em Fernando
de Noronha fica muito fácil e até redundante
escrever sobre o assunto. Mas o primeiro a atacar
o problema, a pesquisar e revelar o que descobriu,
com coragem, clareza e transparência, este
sim não será visto como mais um
repórter.
O
start para a grande idéia vem da percepção
para entender o que está por trás
de uma simples nota de coluna, de uma declaração
em off, de uma frase solta numa entrevista coletiva,
de uma conversa de bastidores, de um encontro
sindical. Às vezes a suspeita não
se confirma, mas o repórter deve estar
sempre atento, antenado, ligado.
Depois
da grande idéia é preciso
planejar uma boa pauta, montar um bom roteiro,
traçar um plano de ação,
partir para a pesquisa, botar o pé na
estrada sem medo de enfrentar todo e qualquer
tipo de dificuldade, como ensina o saudoso Marcos
Faerman no livro "Repórteres", organizado
por Audálio Dantas. São Paulo:
Editora Senac-SP, 1998. O sacrifício se
paga, por maior que seja, quando o jornalista
vê seu texto publicado e gerando reações
positivas na sociedade para melhorar as pessoas,
as instituições, o país.
Ser jornalista não é ganhar dinheiro
( porque vender carro usado dá mais ). É mudar
o mundo. "Fare il giornalista è molto
faticoso, ma è meglio che lavorare", pilheriam
os italianos, segundo conta Mauro Santayana,
no livro "Repórteres". É uma profissão
para grandes mentes e grandes corações.
Sobre
a reportagem, Audálio Dantas adverte: "É preciso
ter coragem para ver, coragem para contar o que
viu, coragem para espantar o medo, coragem para
conviver com o medo".
Quem
parte para a investigação
jornalística deve "domesticar a arrogância
de pensar que sabe tudo. Ela é inimiga
da boa investigação", orienta Carlos
Wagner, de "Zero Hora". E completa: " A prepotência é inimiga
mortal do repórter".
José Hamilton Ribeiro ( ex- Realidade
) define a boa reportagem como "uma vitória
repentina", ou, então, como "um ato de
amor, de ilusão, de crença no ser
humano...mas o jornalista tem de ter fé".
Para
fazer a boa reportagem o jornalista deve escapar
dos limites da redação
e não se prender à rodinha dos
amigos porque a grande notícia tem que
ser buscada, checada, conferida alí onde
o homem está, no meio do povo, na rua,
nas esquinas do mundo.
José Hamilton tem uma fórmula
para este tipo de jornalismo no qual se consagrou:
BC + BF
GR = -----------------
(
T x T )"
Grande
Reportagem ( GR ) é igual a um
Bom Começo ( BC ) mais Bom Final ( BF
), em cima de Trabalho ( T ) vezes Talento (
T ) elevados à enésima potência.
Também ensina ao repórter iniciante: "Olho
aberto para o mundo...com os sentidos todos aguçados
para captar cada detalhe e, com eles, compor
um bom conjunto. Aí é sair para
o abraço ou o brinde".
Ele
também orienta que se deve ter muito
cuidado com as fontes: "O que se ouve, convém
registrar como versão. O fato mesmo depende
de mais observação".
Ganhador
de prêmios internacionais no
exercício da profissão, Lúcio
Flávio Pinto diz que "boa informação
nunca fez mal à sociedade. Mas, para encontrá-la, é preciso
muito esforço, persistência, aplicação
e criatividade. Ela não se oferece fácil.Pode
estar oculta, prosaicamente, num balanço
contábil, por exemplo. É preciso
desfazer a maquiagem dos números para
saber o que ocultam".
Segundo
ele, "jornalismo é impulso movido,
principalmente, pela indignação".
Marcos
Faerman define a reportagem como "a arte
de reconstruir os fatos através da documentação. É um
método de investigação da
realidade que difere da historiografia, da sociologia
ou da antropologia e que tem como centro a arte
de investigar os fatos e saber descrevê-los.Isto
se faz com melhor ou pior qualidade e tem muito
a ver com a formação cultural de
quem escreve".
Mauro
Santayana ( ex-Jornal do Brasil ), também
citado no livro "Repórteres", acha que
o jornalista iniciante deve lidar com a reportagem
policial e com a cobertura de hospitais, pronto-socorros
e necrotérios. Segundo ele, "a conduta
da reportagem policial revela o caráter
do jornalista e a emoção dos fatos
ajuda-o a construir seu texto pessoal, ao exigir
o equilíbrio entre a emoção
e a verdade. Na reportagem de polícia,
o jornalista faz, e para toda a vida, sua opção ética
e política. Fica de um lado ou do outro
da sociedade. Com a reivindicação
de justiça ou na cumplicidade com o poder
do dinheiro".
Santayana
diz que "um jornalista sofre com o
mundo quando leva seu ofício a sério".
Lembra que todos nós temos uma posição
diante do mundo associada a nossa identidade
essencial. Por fim, aconselha:
-
Se você não conseguir ter uma
visão muito clara da situação
e não tiver tempo para investigar a fundo,
fique com a parte mais débil. A injustiça
contra o forte, mesmo que seja detestável,
como toda injustiça, é melhor do
que a injustiça contra o fraco. O forte
consegue restabelecer a verdade e recuperar a
credibilidade. O pobre, ao perder a reputação,
desgraça-se para sempre.
Ricardo
Kotscho tem a convicção
de que "repórter é repórter
em qualquer lugar, não importam as circunstâncias,
os veículos, os tempos históricos.
Tem de estar preparado para escrever sobre qualquer
assunto, em qualquer lugar, a qualquer hora".
Para
ele o trabalho terá resultado tanto
melhor se o repórter perguntar sempre,
não desistir nunca, tiver a humildade
de reconhecer que não domina todos os
assuntos e disposição para descobrir
o que, afinal, está acontecendo. Se der
sorte de estar no lugar certo, na hora certa,
então, melhor ainda.
Kotscho é um dos que critica a falta
de apoio das empresas, hoje, para a grande reportagem,
saudoso dos anos 60, quando, com o surgimento
do Novo Jornalismo no Brasil, "o repórter
era o coração e o pulmão
de qualquer veículo".
Os
que acolhem esse tipo de crítica dos
grandes jornalistas vêem na empresa atual
a única preocupação de manter
um bom saldo bancário, privilegiando o "marketing
de guerrilha" que acaba transformando os jornalistas
em meros coadjutores no bazar ambulante do jornal
atual, cheio de quinquilharias para atrair o
cliente. Capítulos de enciclopédia
e de livros, discos e até sementes são
distribuídos aos leitores, quando bastaria
um jornalismo mais investigativo, mais interpretativo,
mais voltado à prestação
de serviço para dar resultados muito melhores.
Tudo
isto justifica e valoriza a importância
da reportagem no jornal impresso. Daí a
responsabilidade de quem se põe a produzi-la.
6-1 REPORTAGEM CONTEXTUALIZADA
II Parte
1. COMO FAZER
O
planejamento, a partir da pauta, é fase
essencial da boa reportagem. É o plano
que vai dirigir a pesquisa de campo e orientar
as ações futuras do trabalho, evitando
perda de tempo.
Antigamente
a pauta era uma "camisa de força" da
qual o repórter não podia se desviar
um milímetro. O repórter do grande
texto precisa ter autonomia para reinventar a
pauta quando for necessário. Às
vezes o repórter faz uma longa viagem
e se a pauta furar caberá a ele a iniciativa
de criar outra adaptada ao contexto em que se
encontra, comunicando ao editor. Naturalmente
o jornal e os leitores esperam essa criatividade
do jornalista.
Além de discutir a pauta com sua equipe,
o repórter precisa contar com bom espírito
de cooperação para trabalhar em
grupo. Mesmo quando a reportagem exige um trabalho
solitário de apuração, o
repórter precisa contar com uma retaguarda
na redação que vai desde o contato
responsável pela liberação
de recursos até a movimentação
de fotógrafos, do Departamento de Arte
( que pode ir adiantando a ilustração
da matéria ), o pessoal de pesquisa (
que vai buscando dados para completar a matéria
se a publicação é urgente
) etc. O jornal é uma grande equipe e
a função das chefias é fortalecer
a cooperação interna.
( Trataremos com mais detalhe a Pauta e a Pesquisa
ainda neste curso ).
Na
hora de transformar as anotações
no texto da grande matéria, o redator
deverá seguir um novo planejamento, discutindo
com o editor da área a melhor abordagem,
o ângulo da matéria, os destaques
principais, afinal, a isotopia do texto, o eixo
em torno do qual ele vai girar.
Fatos
de última hora podem determinar
alterações nos destaques principais,
daí a importância da sintonia com
os dirigentes da redação.
O
moderno processo gráfico dá ao
repórter e ao editor de arte possibilidades
muito amplas de tratar a matéria visualmente
para que tenha boa estética na página,
agradando ao leitor não só pela
forma da narrativa como também pelas ilustrações,
tamanho do corpo, inserções de "olhos" ou "janelas" ,
linhas finas, legendas criativas, box explicativo,
quadro de serviço etc.
A
reportagem é sempre um gênero
informativo acrescido de interpretação
e opinião. De acordo com o assunto tratado,
poderá ser também um texto recreativo,
pois a crônica social, a crônica
esportiva, o texto cultural também podem
ter a forma de reportagem.
O
que caracteriza a reportagem é a quantidade
de dados nela contidos a partir do trabalho de
campo.
Pode-se
fazer a notícia, a coluna ou
a crônica sem sair da redação
ou do escritório do produtor independente
( como está virando moda ), usando apenas
o telefone, o fax, o computador, a Internet,
a biblioteca, os jornais do dia etc. Mas é praticamente
impossível produzir uma grande reportagem
sem árduo trabalho externo, de rua. Daí vem
a riqueza de dados da reportagem. É ela
que sustenta o jornalismo, naquilo que ele tem
de melhor.
"Trabalho de rua" é tomado como sentido
figurado, segundo Clóvis Rossi no prefácio
do livro "A Aventura da Reportagem"( DIMENSTEIN,
Gilberto e KOTSCHO, Ricardo. São Paulo:
Summus, 1990) : "Rua pode ser a rua propriamente
dita, mas também pode ser um estádio
de futebol, a favela da Rocinha, o palanque de
um comício, o gabinete de uma autoridade,
as selvas de El Salvador, os campos petrolíferos
do Oriente Médio. Só não
pode ser a redação de um jornal".
Entre
os requisitos da reportagem destaca-se o aspecto
humano. O repórter usa máquinas
para coletar os dados; usa máquinas para
redigir a matéria; o jornal usa máquinas
para imprimir e distribuir suas edições;
o leitor usa máquinas para ir até a
banca comprar o seu exemplar...mas ninguém
escreve para máquinas. Escreve-se para
pessoas de carne e osso, que se definem por variáveis
de idade, sexo, classe social, aspirações,
situação econômica, local
de residência, escolaridade, opção
política, formação cultural
etc.
Essas
pessoas se interessam pelo drama vivido por
outras pessoas porque, de algum modo, sentem-se
envolvidas com os fatos na imensa aldeia global
onde tudo afeta a todos cada vez mais. Por isto
as agências e os jornais exploram o lado
humano de suas histórias, despertando
o interesse dos seus leitores, apesar de serem
acusadas de estarem explorando a miséria
alheia.
Segundo
Clovis Rossi "reportagem é uma
coisa paradoxal, por se tratar, ao mesmo tempo,
da mais fácil e da mais difícil
maneira de viver a vida. Fácil porque,
no fundo, reportagem é apenas a técnica
de contar boas histórias. Todos sabem
contar histórias. Se bem alfabetizado,
pode-se até contá-las em português
correto e pronto: está-se fazendo uma
reportagem, até sem o saber. Difícil
porque o repórter persegue esse ser chamado
verdade, quase sempre inatingível ou inexistente
ou tão repleto de rostos diferentes que
se corre permanentemente o risco de não
conseguir captá-los todos e passá-los
todos para o leitor".
Rossi
cita um exemplo prático para ilustrar
sua abordagem:
-
Suponha que você está numa ponte
sobre uma rodovia qualquer. De repente, um carro
passa para a pista contrária e bate de
frente num caminhão. Morre o motorista
do carro. Qual é a verdade? O motorista
atravessou a pista e, logo, foi o culpado. Mas
a função do repórter é ir
atrás das causas, e estas não ficam
visíveis nem mesmo no exemplo simples
usado. O motorista pode ter perdido a direção
porque dormiu, porque estava bêbado, porque
sofreu um colapso e morreu no ato, porque quebrou
a barra de direção. Ou seja, mesmo
que você seja testemunha ocular de um fato,
nem por isso fica seguro de que sabe tudo a respeito
dele. Ora, jornalistas quase nunca são
testemunhas oculares de fatos menos corriqueiros.
Em geral, eles se passam nas sombras dos gabinetes,
no escurinho dos palácios, nos fundos
dos morros e favelas e assim por diante. Logo,
resgatar a 'melhor versão possível
da verdade' - como definiu em uma palestra em
São Paulo o repórter do "Washington
Post", Carl Bernstein, que, com Bob Woodward,
desvendou o caso Watergate - é uma tarefa
ingrata. Para executá-la, sejamos francos,
exige-se muito mais transpiração
que inspiração. Mais esforço
físico que intelectual. Exige que se gaste
a ponta do dedo telefonando para todas as pessoas
que possam dar ao menos um fragmento de informação.
Exige que se gaste a bunda nos sofás das
ante-salas de autoridades ou 'ôtoridades',
na espera de que elas atendam o repórter
e lhes dêem mais um pedacinho da informação.
Exige que se gastem as pernas e as solas dos
sapatos andando atrás de passeatas, comícios
ou fugindo da polícia. Exige, ainda, gastar
a vista lendo livros, revistas, jornais, documentos,
relatórios, certidões, o diabo,
atrás de detalhes ou confirmações
ou, no mínimo,como ponto de partida para
se iniciar um trabalho com um mínimo de
informações prévias. Gasta-se
a vista também no simples exercício
de olhar com olhos de ver. Tem muita gente que
olha e não vê detalhes que acabam
compondo pedaços por vezes vitais de uma
reportagem".
2. PORQUE FAZER
O
livro-reportagem de Gilberto Dimenstein sobre
meninos de rua ( "A Guerra dos Meninos - Assassinatos
de Menores no Brasil".São Paulo: Brasiliense,
1990 ) não acabou com o problema do menor
abandonado nas ruas do país e nem com
o extermínio de menores. Mas, pela seriedade
do trabalho, quem pode afirmar que esse texto
não causou medidas positivas nos bastidores
do poder ou mesmo na conduta interior das pessoas
em relação ao menor? Uma das autoridades
entrevistadas, que na época era senador,
hoje está em condições de
fazer alguma coisa para resolver esse problema
social. Na época o senador Fernando Henrique
Cardoso propôs uma CPI para investigar
os grupos de extermínio, após a
publicação do livro-reportagem.
Caco
Barcelos não acabou com as arbitrariedades
da Polícia Militar de São Paulo
ao denunciar os crimes da corporação
em "Rota 66 - A Polícia que Mata" mas
contribuiu para alertar a opinião pública
sobre a impunidade dos policiais. Formar a consciência
do cidadão e ajudá-lo a levantar
a voz para que as autoridades cumpram o seu dever
colocando assassinos potenciais atrás
das grades e não atrás de uma arma
paga com o dinheiro do povo, também é função
da reportagem-denúncia.
Entendemos
melhor, hoje, os bastidores da imprensa na
Era Vargas depois de "Chatô - O Rei
do Brasil", de Fernando Morais. Só agora
compreendemos o que se passou no interior da
colônia de imigrantes japoneses que vivia
no Brasil no final da II Guerra Mundial, depois
de levar o livro-reportagem de Fernando Morais "Corações
Sujos". A boa reportagem revela a realidade
em todos os seus detalhes, com todas as suas
nuances. Por isto, muitas vezes ela permanece
para sempre, não tem a vida efêmera
de uma notícia factual que é superada
em 24 horas de circulação do jornal.
Os
jornalistas devem ser estimulados a escrever
mais porque têm sensibilidade para olhar
os fatos a partir do interesse do leitor. "A
nós, jornalistas, cabe a tarefa - não
tanto heróica, mas essencial - de não
deixar passar em branco as páginas que
o acompanhamento do cotidiano nos impõe
escrever", afirma Lúcio Flávio
Pinto no livro "Repórteres".
3.
COMO COMEÇAR
Se
a grande reportagem deve ser discutida com
o editor por seu peso dentro da edição
do dia, a abertura da matéria não
precisa levar ninguém ao sofrimento.
O
importante, segundo Muniz Sodré e Maria
Helena Ferrari ( "Técnica de Reportagem
- Notas sobre a Narrativa Jornalística.
São Paulo: Summus, 1986 ), é que
o texto tenha uma boa narrativa, um relato humanizado,
que cause impressão e que trate dos fatos
objetivamente, tanto numa reportagem de ação
( com o fato em andamento: uma votação
importante, uma competição esportiva,
uma ação policial ), como numa
reportagem de fatos ( em que se dá todos
os detalhes de um evento como a morte de um presidente,
a execução de um condenado famoso
) ou numa reportagem documental ( baseada em
depoimentos, de cunho pedagógico, como
numa matéria sobre o relacionamento homem-mulher
em Cuba, por exemplo).
Na
prática do dia-a-dia, é preciso
que a abertura da matéria seja criativa
e interessante para prender a atenção
do leitor. Por isto o conteúdo informativo
das frases iniciais que irão introduzir
os parágrafos não deve ser completo
a ponto de esvaziar a seqüência do
texto. É preciso faltar sempre um dado
essencial para criar expectativa no leitor, a
exemplo do que se faz nas chamadas da primeira
página, despertando a curiosidade do leitor.
Exemplo: "Foi um dia trágico. Logo pela
manhã o tiroteio entre milicianos cristãos,
sunitas, drusos e palestinos deixou em chamas
todo um bairro de Beirute. À tarde vieram
notícias de nova retaliação
israelense no sul, com a morte de 43 pessoas..." ou "O
assassinato de um medíocre arquiduque,
por terroristas que tinham motivação
muito particular, mergulhou o mundo na Primeira
Grande Guerra deste século..."
Também se pode abrir o texto com uma
historinha que reflita o tom geral da matéria
( alegria, tristeza,esperança ) ou que
defina atores como políticos, militares,
guerrilheiros, ministros etc.
A Revista Veja de
02/02/2.000 trouxe matérias com as seguintes
aberturas:
-
A Vasp está fazendo uma guerra para
tentar recuperar alguns pontos no mercado de
aviação. ( No box, um quadro comparativo
de preços com as demais companhias aéreas
e um título relacionado com a abertura
da matéria: "A guerra dos preços").
-
A ousadia da senadora Heloísa Helena,
do PT de Alagoas, aquela que deu voz de prisão
ao ex-presidente do Banco Central, Francisco
Lopes, acabou custando caro.
-
Há um empresário no Piauí que
atende pelo nome de Mazuca. Ele foi goleiro de
um time de futebol do interior, depois comprou
uma borracharia, um trio elétrico e uma
distribuidora de refrigerante.
-
Quem disse que felicidade não se compra?
Compra-se, sim, como bem sabem os cidadãos
daquela moderna terra prometida, os Estados Unidos
da América.
Muniz
Sodré e Maria Helena Ferrari dão
outros exemplos de abertura criativa:
-
Lápis, papel e carbono. Com esses instrumentos,
um contingente de 45 mil pessoas ( apenas no
Rio ) movimenta a astronômica cifra de
Cr$ 400 a Cr$ 500 milhões por dia, cerca
de Cr$ 10 bilhões por mês...( segue
matéria sobre o Jogo do Bicho ).
-
Pouco antes da meia-noite de segunda-feira
passada, o telefone tocou na casa do presidente
do Sindicato dos Metalúrgicos de São
Bernardo do Campo e Diadema, Jair Meneghelli.
Na outra ponta da linha, o empresário
Roberto Della Manna, coordenador do Grupo 14,
da Federação das Indústrias
do Estado de S. Paulo ( FIESP ), propunha um
encontro entre os dois no dia seguinte, em horário
a combinar.
-
Oito horas da noite. O vento sopra, vindo do
lago, e faz uma chuvinha miúda bater
nas janelas da Avenida das Figueiras, na parte
residencial de Lousanne, Suiça. Também
afugenta o cortejo habitual de turistas que vêm,
do mundo inteiro, ver a casa do escritor vivo
mais popular do mundo, Georges Simenon.
-
Buenos Aires - Silvia Mabel Isabela Valenzi
era loura, tinha os olhos azuis e quem a conheceu
diz que era linda. Tão bonita que a chamavam
de "A Gata". Devia ter uns 25 anos quando deu à luz
no Hospital Provincial de Quilmes, na Grande
Buenos Aires.
- À luz dos lampiões, numa noite
de lua cheia, o casal de meia idade se levanta
do banco em que estava conversando, de braços
dados, para comprar pipocas...
- "Bem-Vindos sejam todos à Pracinha
de São Cosme, São Damião
e do Um". Um cartaz mal escrito chama o povo à praça,
onde existe um altar para a devoção
aos santos meninos e um viveiro com mais de 20
passarinhos, o local mais freqüentado da
favela do Rebu, em Senador Camará.
OBSERVAÇÃO: Retire, na biblioteca
da Unesp, o livro "A Arte da Reportagem",
Volume I, organizado por Igor Fuser, e estude
os modelos de reportagens de todos os tempos
ali existentes.