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Reportagem Contextualizada

Prof. MS Pedro Celso Campos

1. O QUE É REPORTAGEM

Reportagem não é notícia grande. Certamente é uma grande notícia porque sem um fato importante, um grande fato, não se tem reportagem de interesse para o leitor. Ter-se-á, talvez, uma espécie de picaretagem, ou uma matéria paga, que interessa a algumas pessoas, não ao universo de leitores do jornal.

Na definição de Amaral (1997) "reportagem é a representação de um fato ou acontecimento enriquecida pela capacidade intelectual, observação atenta, sensibilidade, criatividade e narração fluente do autor".

Para Alberto Dines, "a reportagem também é uma arte porque nela entra toda a bagagem subjetiva de quem a faz". Muitos autores situam a reportagem a meio caminho da literatura, na verdade já dentro da literatura como se pode notar, inclusive, na modalidade do livro-reportagem que faz tanto sucesso, mesmo quando o volume ostenta 500 páginas e mais, tamanha a leveza do texto e a habilidade de narrar os fatos jornalisticamente.

No dia-a-dia da imprensa, um texto maior - nestes apressados tempos da informação on line - precisa se justificar para ser lido. Justificar-se por si mesmo, sendo um bom assunto, e justificar-se através de sua construção linguística e de sua programação visual. Do contrário, não será lido, apenas ocupará o caro espaço do jornal.

Por isto não basta ampliar a notícia com "cascatas" ou "enchendo linguiça". O leitor não é bobo. Ele está cada vez mais exigente. E antes dele há o editor cobrando qualidade o tempo todo. A reportagem é o caminho para a consagração de um repórter logo em seus primeiros anos de carreira. Mas também é a sepultura de quem tem preguiça de apurar. Pesquisar, checar dados, rechecar com outras fontes, cruzar informações, descobrir mentiras antes que elas sejam publicadas, enterrar-se em calhamaços de documentos, pedir ajuda a quem entende para estudar papéis técnicos e balanços, andar muito, ouvir muito, perguntar muito e ter a sorte de contar com uma boa equipe, com um editor competente e um programador visual ainda mais...eis o caminho da boa reportagem.

É preciso sorte, também, para estar numa empresa que acredita no valor da reportagem e por isto investe recursos nela, ao invés de optar por um jornalismo rapidinho, baratinho, inutilzinho, destinado a ser varrido do mapa pelo concorrente em questão de tempo...A boa reportagem é trabalho demorado. O livro-reportagem, por exemplo, leva meses, anos para ser concluído.

Por isto os bons jornais têm sempre uma equipe com os melhores profissionais trabalhando assuntos em profundidade que vão resultar em grandes matérias. Na fase de levantamentos o trabalho exige discrição, sigilo mesmo, para que o assunto não vaze, o que poderia abortar a matéria por ferir algum interesse inconfessável. Imagine-se a pressão dos corruptos sobre um repórter se souberem que ele está prestes a revelar fatos escabrosos do Detran, da Polícia, de uma empreiteira, de grupos políticos, ministérios etc. O repórter deve ter a habilidade de não "abrir" totalmente para suas fontes o teor da matéria; apenas o suficiente para obter as informações de que precisa. Ao mesmo tempo deve ter o zelo ético de ouvir todos os envolvidos para não ser injusto, deixando claro quando a pessoa citada se recusou a falar.

Boas reportagens transformam-se em pauta para os demais jornais e para a televisão. Na verdade, em muitos casos o repórter de jornal tem mais facilidade para levantar informações porque pode se infiltrar melhor nos ambientes, enquanto a equipe de TV exige, forçosamente, uma parafernália enorme que logo chama a atenção e muitas vezes afugenta fontes preciosas...a não ser quando se usa câmara secreta, claro...

De um modo geral a dinâmica da TV não comporta detalhes de documentação que o jornal pode apresentar. Números, documentos, dados comparativos alcançam melhor entendimento quando impressos, preto no banco, onde as pessoas podem ler, reler, conferir, arquivar. É inegável que a TV tem outras vantagens como o alcance imediato do país inteiro. Como negar o impacto das imagens da PM paulista espancando pessoas indefesas na Favela Naval? Ou as cenas de trombadinhas em plena ação na Praça da Sé? Mas no dia seguinte os interessados vão procurar o jornal para conferir detalhes que escapam no vídeo e que não se pode arquivar, pois o telespectador comum não assiste a programação das emissoras com o vídeo-cassete pronto para a gravação.Nem mesmo a maioria das agências de publicidade têm recursos para gravar simultaneamente várias programações de TV, o tempo todo.

Ainda no campo das definições, devemos concordar com Dines: a reportagem é uma arte. Ela não pode ater-se apenas ao relato factual porque não pode ser um relatório frio, como um processo judicial ou um inquérito policial, nos quais há muitos dados mas não há reportagem, pois não está presente ali a arte de escrever, não há um estilo, uma interpretação jornalística dos fatos. Pelo menos não há um sentido para os fatos, uma contextualização, uma humanização do relato. "O retrato quadrado de um acontecimento não é jornalismo, é registro. O retrato de um acontecimento engrandecido pela técnica da narração, argúcia e cultura de quem observa, isto sim é jornalismo", comenta Alberto Dines, citado por Amaral (1997).

Em "A Arte da Reportagem-Vol I" ( Igor Fuser-org.São Paulo: Scritta, 1996) o apresentador da obra, Eugênio Bucci, define: " A reportagem, como a arte, tem a necessária pretensão de iluminar o significado, de apontar uma direção acima do caos dos eventos cotidianos". Para alcançar este objetivo, "o repórter deve entender o que tem a narrar. E, para entender, precisa sentir. Só então ele ordena o caos ( e escreve, encadeando os fatos como são encadeadas as palavras). Porque o repórter sente, as reportagens emocionam. Porque ele entende, elas informam. ( Informação, não custa repetir, é um dado que contém sentido para o leitor. Ou não será informação, mas apenas um dado a mais, perdido)".

"A arte da reportagem é trazer à luz a informação que é notícia – aquela cujas repercussões tendem a alterar a expectativa dos fatos futuros...Vivemos um momento em que a imprensa proporciona uma gigantesca oferta de dados, mas carece de informações; anda atulhada de opiniões, mas raquítica em visão de mundo; lista fatos e mais fatos, mas quase não tem reportagem. A reportagem só é arte ( e bom jornalismo ) quando foge da indiferença e traz, em sua narrativa, a pretensão de compreender o que se passa", conclui.

2. O QUE É NECESSÁRIO

Amaral (1997) relaciona os seguintes requisitos para a reportagem:

Capacidade intelectual – O profissional tem que por à prova todas as suas aptidões, a fim de abordar convenientemente o tema e esgotá-lo até os últimos limites.

Observação atenta – Aí entra em jogo a capacidade que tem o repórter de ver. A bagagem intelectual e as informações prévias sobre a questão facilitarão ao repórter discernir o que é principal e secundário durante o trabalho de campo e em meio a um mundo de informações. Agir com toda a curiosidade exigida pelo jornalismo.

Sensibilidade – Embora influenciada pela bagagem cultural, é pessoal, íntima, não pode ser ampliada com simples regras de comportamento. Esta faculdade ou o repórter a tem ou não a tem, é o caso do músico, do pintor ou do escritor.

Criatividade – Toda a articulação e exposição do tema precisa assentar-se em bases reais, do contrário seria uma negação mesma do jornalismo. Impõe-se a reconstituição honesta dos fatos e do clima em que se desenrolam. Por maiores que sejam a imaginação e a técnica narrativa do repórter, seu dever fundamental é com a verdade. Para cumpri-lo, necessita ter coragem e dizer "isto eu vi", "isto me contaram", tal como fez Pero Vaz Caminha.

Narração fluente – A informação bruta transforma-se em reportagem através da narração fluente. O repórter não deve mostrar muita preocupação com a forma, mas tem que saber expor os fatos de maneira que o leitor se sinta atraído do princípio ao fim do texto.

A boa reportagem pode e deve ser o diferencial entre os meios impressos e a mídia eletrônica ( internet, rádio, tv) uma vez que possibilita descer a fundo na questão abordada.

Entretanto, como em tudo na vida, uma boa reportagem começa com uma boa idéia, com a intuição do repórter para farejar fatos sensacionais ou muito graves. Depois que todos os jornais estão criticando o uso de aviões da Força Aérea para ministros e presidentes de Tribunais passarem férias com a família em Fernando de Noronha fica muito fácil e até redundante escrever sobre o assunto. Mas o primeiro a atacar o problema, a pesquisar e revelar o que descobriu, com coragem, clareza e transparência, este sim não será visto como mais um repórter.

O start para a grande idéia vem da percepção para entender o que está por trás de uma simples nota de coluna, de uma declaração em off, de uma frase solta numa entrevista coletiva, de uma conversa de bastidores, de um encontro sindical. Às vezes a suspeita não se confirma, mas o repórter deve estar sempre atento, antenado, ligado.

Depois da grande idéia é preciso planejar uma boa pauta, montar um bom roteiro, traçar um plano de ação, partir para a pesquisa, botar o pé na estrada sem medo de enfrentar todo e qualquer tipo de dificuldade, como ensina o saudoso Marcos Faerman no livro "Repórteres", organizado por Audálio Dantas. São Paulo: Editora Senac-SP, 1998. O sacrifício se paga, por maior que seja, quando o jornalista vê seu texto publicado e gerando reações positivas na sociedade para melhorar as pessoas, as instituições, o país. Ser jornalista não é ganhar dinheiro ( porque vender carro usado dá mais ). É mudar o mundo. "Fare il giornalista è molto faticoso, ma è meglio che lavorare", pilheriam os italianos, segundo conta Mauro Santayana, no livro "Repórteres". É uma profissão para grandes mentes e grandes corações.

Sobre a reportagem, Audálio Dantas adverte: "É preciso ter coragem para ver, coragem para contar o que viu, coragem para espantar o medo, coragem para conviver com o medo".

Quem parte para a investigação jornalística deve "domesticar a arrogância de pensar que sabe tudo. Ela é inimiga da boa investigação", orienta Carlos Wagner, de "Zero Hora". E completa: " A prepotência é inimiga mortal do repórter".

José Hamilton Ribeiro ( ex- Realidade ) define a boa reportagem como "uma vitória repentina", ou, então, como "um ato de amor, de ilusão, de crença no ser humano...mas o jornalista tem de ter fé".

Para fazer a boa reportagem o jornalista deve escapar dos limites da redação e não se prender à rodinha dos amigos porque a grande notícia tem que ser buscada, checada, conferida alí onde o homem está, no meio do povo, na rua, nas esquinas do mundo.

José Hamilton tem uma fórmula para este tipo de jornalismo no qual se consagrou:

BC + BF

GR = -----------------

( T x T )"

Grande Reportagem ( GR ) é igual a um Bom Começo ( BC ) mais Bom Final ( BF ), em cima de Trabalho ( T ) vezes Talento ( T ) elevados à enésima potência.

Também ensina ao repórter iniciante: "Olho aberto para o mundo...com os sentidos todos aguçados para captar cada detalhe e, com eles, compor um bom conjunto. Aí é sair para o abraço ou o brinde".

Ele também orienta que se deve ter muito cuidado com as fontes: "O que se ouve, convém registrar como versão. O fato mesmo depende de mais observação".

Ganhador de prêmios internacionais no exercício da profissão, Lúcio Flávio Pinto diz que "boa informação nunca fez mal à sociedade. Mas, para encontrá-la, é preciso muito esforço, persistência, aplicação e criatividade. Ela não se oferece fácil.Pode estar oculta, prosaicamente, num balanço contábil, por exemplo. É preciso desfazer a maquiagem dos números para saber o que ocultam".

Segundo ele, "jornalismo é impulso movido, principalmente, pela indignação".

Marcos Faerman define a reportagem como "a arte de reconstruir os fatos através da documentação. É um método de investigação da realidade que difere da historiografia, da sociologia ou da antropologia e que tem como centro a arte de investigar os fatos e saber descrevê-los.Isto se faz com melhor ou pior qualidade e tem muito a ver com a formação cultural de quem escreve".

Mauro Santayana ( ex-Jornal do Brasil ), também citado no livro "Repórteres", acha que o jornalista iniciante deve lidar com a reportagem policial e com a cobertura de hospitais, pronto-socorros e necrotérios. Segundo ele, "a conduta da reportagem policial revela o caráter do jornalista e a emoção dos fatos ajuda-o a construir seu texto pessoal, ao exigir o equilíbrio entre a emoção e a verdade. Na reportagem de polícia, o jornalista faz, e para toda a vida, sua opção ética e política. Fica de um lado ou do outro da sociedade. Com a reivindicação de justiça ou na cumplicidade com o poder do dinheiro".

Santayana diz que "um jornalista sofre com o mundo quando leva seu ofício a sério". Lembra que todos nós temos uma posição diante do mundo associada a nossa identidade essencial. Por fim, aconselha:

- Se você não conseguir ter uma visão muito clara da situação e não tiver tempo para investigar a fundo, fique com a parte mais débil. A injustiça contra o forte, mesmo que seja detestável, como toda injustiça, é melhor do que a injustiça contra o fraco. O forte consegue restabelecer a verdade e recuperar a credibilidade. O pobre, ao perder a reputação, desgraça-se para sempre.

Ricardo Kotscho tem a convicção de que "repórter é repórter em qualquer lugar, não importam as circunstâncias, os veículos, os tempos históricos. Tem de estar preparado para escrever sobre qualquer assunto, em qualquer lugar, a qualquer hora".

Para ele o trabalho terá resultado tanto melhor se o repórter perguntar sempre, não desistir nunca, tiver a humildade de reconhecer que não domina todos os assuntos e disposição para descobrir o que, afinal, está acontecendo. Se der sorte de estar no lugar certo, na hora certa, então, melhor ainda.

Kotscho é um dos que critica a falta de apoio das empresas, hoje, para a grande reportagem, saudoso dos anos 60, quando, com o surgimento do Novo Jornalismo no Brasil, "o repórter era o coração e o pulmão de qualquer veículo".

Os que acolhem esse tipo de crítica dos grandes jornalistas vêem na empresa atual a única preocupação de manter um bom saldo bancário, privilegiando o "marketing de guerrilha" que acaba transformando os jornalistas em meros coadjutores no bazar ambulante do jornal atual, cheio de quinquilharias para atrair o cliente. Capítulos de enciclopédia e de livros, discos e até sementes são distribuídos aos leitores, quando bastaria um jornalismo mais investigativo, mais interpretativo, mais voltado à prestação de serviço para dar resultados muito melhores.

Tudo isto justifica e valoriza a importância da reportagem no jornal impresso. Daí a responsabilidade de quem se põe a produzi-la.

6-1 REPORTAGEM CONTEXTUALIZADA

II Parte

1. COMO FAZER

O planejamento, a partir da pauta, é fase essencial da boa reportagem. É o plano que vai dirigir a pesquisa de campo e orientar as ações futuras do trabalho, evitando perda de tempo.

Antigamente a pauta era uma "camisa de força" da qual o repórter não podia se desviar um milímetro. O repórter do grande texto precisa ter autonomia para reinventar a pauta quando for necessário. Às vezes o repórter faz uma longa viagem e se a pauta furar caberá a ele a iniciativa de criar outra adaptada ao contexto em que se encontra, comunicando ao editor. Naturalmente o jornal e os leitores esperam essa criatividade do jornalista.

Além de discutir a pauta com sua equipe, o repórter precisa contar com bom espírito de cooperação para trabalhar em grupo. Mesmo quando a reportagem exige um trabalho solitário de apuração, o repórter precisa contar com uma retaguarda na redação que vai desde o contato responsável pela liberação de recursos até a movimentação de fotógrafos, do Departamento de Arte ( que pode ir adiantando a ilustração da matéria ), o pessoal de pesquisa ( que vai buscando dados para completar a matéria se a publicação é urgente ) etc. O jornal é uma grande equipe e a função das chefias é fortalecer a cooperação interna.

( Trataremos com mais detalhe a Pauta e a Pesquisa ainda neste curso ).

Na hora de transformar as anotações no texto da grande matéria, o redator deverá seguir um novo planejamento, discutindo com o editor da área a melhor abordagem, o ângulo da matéria, os destaques principais, afinal, a isotopia do texto, o eixo em torno do qual ele vai girar.

Fatos de última hora podem determinar alterações nos destaques principais, daí a importância da sintonia com os dirigentes da redação.

O moderno processo gráfico dá ao repórter e ao editor de arte possibilidades muito amplas de tratar a matéria visualmente para que tenha boa estética na página, agradando ao leitor não só pela forma da narrativa como também pelas ilustrações, tamanho do corpo, inserções de "olhos" ou "janelas" , linhas finas, legendas criativas, box explicativo, quadro de serviço etc.

A reportagem é sempre um gênero informativo acrescido de interpretação e opinião. De acordo com o assunto tratado, poderá ser também um texto recreativo, pois a crônica social, a crônica esportiva, o texto cultural também podem ter a forma de reportagem.

O que caracteriza a reportagem é a quantidade de dados nela contidos a partir do trabalho de campo.

Pode-se fazer a notícia, a coluna ou a crônica sem sair da redação ou do escritório do produtor independente ( como está virando moda ), usando apenas o telefone, o fax, o computador, a Internet, a biblioteca, os jornais do dia etc. Mas é praticamente impossível produzir uma grande reportagem sem árduo trabalho externo, de rua. Daí vem a riqueza de dados da reportagem. É ela que sustenta o jornalismo, naquilo que ele tem de melhor.

"Trabalho de rua" é tomado como sentido figurado, segundo Clóvis Rossi no prefácio do livro "A Aventura da Reportagem"( DIMENSTEIN, Gilberto e KOTSCHO, Ricardo. São Paulo: Summus, 1990) : "Rua pode ser a rua propriamente dita, mas também pode ser um estádio de futebol, a favela da Rocinha, o palanque de um comício, o gabinete de uma autoridade, as selvas de El Salvador, os campos petrolíferos do Oriente Médio. Só não pode ser a redação de um jornal".

Entre os requisitos da reportagem destaca-se o aspecto humano. O repórter usa máquinas para coletar os dados; usa máquinas para redigir a matéria; o jornal usa máquinas para imprimir e distribuir suas edições; o leitor usa máquinas para ir até a banca comprar o seu exemplar...mas ninguém escreve para máquinas. Escreve-se para pessoas de carne e osso, que se definem por variáveis de idade, sexo, classe social, aspirações, situação econômica, local de residência, escolaridade, opção política, formação cultural etc.

Essas pessoas se interessam pelo drama vivido por outras pessoas porque, de algum modo, sentem-se envolvidas com os fatos na imensa aldeia global onde tudo afeta a todos cada vez mais. Por isto as agências e os jornais exploram o lado humano de suas histórias, despertando o interesse dos seus leitores, apesar de serem acusadas de estarem explorando a miséria alheia.

Segundo Clovis Rossi "reportagem é uma coisa paradoxal, por se tratar, ao mesmo tempo, da mais fácil e da mais difícil maneira de viver a vida. Fácil porque, no fundo, reportagem é apenas a técnica de contar boas histórias. Todos sabem contar histórias. Se bem alfabetizado, pode-se até contá-las em português correto e pronto: está-se fazendo uma reportagem, até sem o saber. Difícil porque o repórter persegue esse ser chamado verdade, quase sempre inatingível ou inexistente ou tão repleto de rostos diferentes que se corre permanentemente o risco de não conseguir captá-los todos e passá-los todos para o leitor".

Rossi cita um exemplo prático para ilustrar sua abordagem:

- Suponha que você está numa ponte sobre uma rodovia qualquer. De repente, um carro passa para a pista contrária e bate de frente num caminhão. Morre o motorista do carro. Qual é a verdade? O motorista atravessou a pista e, logo, foi o culpado. Mas a função do repórter é ir atrás das causas, e estas não ficam visíveis nem mesmo no exemplo simples usado. O motorista pode ter perdido a direção porque dormiu, porque estava bêbado, porque sofreu um colapso e morreu no ato, porque quebrou a barra de direção. Ou seja, mesmo que você seja testemunha ocular de um fato, nem por isso fica seguro de que sabe tudo a respeito dele. Ora, jornalistas quase nunca são testemunhas oculares de fatos menos corriqueiros. Em geral, eles se passam nas sombras dos gabinetes, no escurinho dos palácios, nos fundos dos morros e favelas e assim por diante. Logo, resgatar a 'melhor versão possível da verdade' - como definiu em uma palestra em São Paulo o repórter do "Washington Post", Carl Bernstein, que, com Bob Woodward, desvendou o caso Watergate - é uma tarefa ingrata. Para executá-la, sejamos francos, exige-se muito mais transpiração que inspiração. Mais esforço físico que intelectual. Exige que se gaste a ponta do dedo telefonando para todas as pessoas que possam dar ao menos um fragmento de informação. Exige que se gaste a bunda nos sofás das ante-salas de autoridades ou 'ôtoridades', na espera de que elas atendam o repórter e lhes dêem mais um pedacinho da informação. Exige que se gastem as pernas e as solas dos sapatos andando atrás de passeatas, comícios ou fugindo da polícia. Exige, ainda, gastar a vista lendo livros, revistas, jornais, documentos, relatórios, certidões, o diabo, atrás de detalhes ou confirmações ou, no mínimo,como ponto de partida para se iniciar um trabalho com um mínimo de informações prévias. Gasta-se a vista também no simples exercício de olhar com olhos de ver. Tem muita gente que olha e não vê detalhes que acabam compondo pedaços por vezes vitais de uma reportagem".

2. PORQUE FAZER

O livro-reportagem de Gilberto Dimenstein sobre meninos de rua ( "A Guerra dos Meninos - Assassinatos de Menores no Brasil".São Paulo: Brasiliense, 1990 ) não acabou com o problema do menor abandonado nas ruas do país e nem com o extermínio de menores. Mas, pela seriedade do trabalho, quem pode afirmar que esse texto não causou medidas positivas nos bastidores do poder ou mesmo na conduta interior das pessoas em relação ao menor? Uma das autoridades entrevistadas, que na época era senador, hoje está em condições de fazer alguma coisa para resolver esse problema social. Na época o senador Fernando Henrique Cardoso propôs uma CPI para investigar os grupos de extermínio, após a publicação do livro-reportagem.

Caco Barcelos não acabou com as arbitrariedades da Polícia Militar de São Paulo ao denunciar os crimes da corporação em "Rota 66 - A Polícia que Mata" mas contribuiu para alertar a opinião pública sobre a impunidade dos policiais. Formar a consciência do cidadão e ajudá-lo a levantar a voz para que as autoridades cumpram o seu dever colocando assassinos potenciais atrás das grades e não atrás de uma arma paga com o dinheiro do povo, também é função da reportagem-denúncia.

Entendemos melhor, hoje, os bastidores da imprensa na Era Vargas depois de "Chatô - O Rei do Brasil", de Fernando Morais. Só agora compreendemos o que se passou no interior da colônia de imigrantes japoneses que vivia no Brasil no final da II Guerra Mundial, depois de levar o livro-reportagem de Fernando Morais "Corações Sujos". A boa reportagem revela a realidade em todos os seus detalhes, com todas as suas nuances. Por isto, muitas vezes ela permanece para sempre, não tem a vida efêmera de uma notícia factual que é superada em 24 horas de circulação do jornal.

Os jornalistas devem ser estimulados a escrever mais porque têm sensibilidade para olhar os fatos a partir do interesse do leitor. "A nós, jornalistas, cabe a tarefa - não tanto heróica, mas essencial - de não deixar passar em branco as páginas que o acompanhamento do cotidiano nos impõe escrever", afirma Lúcio Flávio Pinto no livro "Repórteres".

3. COMO COMEÇAR

Se a grande reportagem deve ser discutida com o editor por seu peso dentro da edição do dia, a abertura da matéria não precisa levar ninguém ao sofrimento.

O importante, segundo Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari ( "Técnica de Reportagem - Notas sobre a Narrativa Jornalística. São Paulo: Summus, 1986 ), é que o texto tenha uma boa narrativa, um relato humanizado, que cause impressão e que trate dos fatos objetivamente, tanto numa reportagem de ação ( com o fato em andamento: uma votação importante, uma competição esportiva, uma ação policial ), como numa reportagem de fatos ( em que se dá todos os detalhes de um evento como a morte de um presidente, a execução de um condenado famoso ) ou numa reportagem documental ( baseada em depoimentos, de cunho pedagógico, como numa matéria sobre o relacionamento homem-mulher em Cuba, por exemplo).

Na prática do dia-a-dia, é preciso que a abertura da matéria seja criativa e interessante para prender a atenção do leitor. Por isto o conteúdo informativo das frases iniciais que irão introduzir os parágrafos não deve ser completo a ponto de esvaziar a seqüência do texto. É preciso faltar sempre um dado essencial para criar expectativa no leitor, a exemplo do que se faz nas chamadas da primeira página, despertando a curiosidade do leitor. Exemplo: "Foi um dia trágico. Logo pela manhã o tiroteio entre milicianos cristãos, sunitas, drusos e palestinos deixou em chamas todo um bairro de Beirute. À tarde vieram notícias de nova retaliação israelense no sul, com a morte de 43 pessoas..." ou "O assassinato de um medíocre arquiduque, por terroristas que tinham motivação muito particular, mergulhou o mundo na Primeira Grande Guerra deste século..."

Também se pode abrir o texto com uma historinha que reflita o tom geral da matéria ( alegria, tristeza,esperança ) ou que defina atores como políticos, militares, guerrilheiros, ministros etc.

A Revista Veja de 02/02/2.000 trouxe matérias com as seguintes aberturas:

- A Vasp está fazendo uma guerra para tentar recuperar alguns pontos no mercado de aviação. ( No box, um quadro comparativo de preços com as demais companhias aéreas e um título relacionado com a abertura da matéria: "A guerra dos preços").

- A ousadia da senadora Heloísa Helena, do PT de Alagoas, aquela que deu voz de prisão ao ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, acabou custando caro.

- Há um empresário no Piauí que atende pelo nome de Mazuca. Ele foi goleiro de um time de futebol do interior, depois comprou uma borracharia, um trio elétrico e uma distribuidora de refrigerante.

- Quem disse que felicidade não se compra? Compra-se, sim, como bem sabem os cidadãos daquela moderna terra prometida, os Estados Unidos da América.

Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari dão outros exemplos de abertura criativa:

- Lápis, papel e carbono. Com esses instrumentos, um contingente de 45 mil pessoas ( apenas no Rio ) movimenta a astronômica cifra de Cr$ 400 a Cr$ 500 milhões por dia, cerca de Cr$ 10 bilhões por mês...( segue matéria sobre o Jogo do Bicho ).

- Pouco antes da meia-noite de segunda-feira passada, o telefone tocou na casa do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, Jair Meneghelli. Na outra ponta da linha, o empresário Roberto Della Manna, coordenador do Grupo 14, da Federação das Indústrias do Estado de S. Paulo ( FIESP ), propunha um encontro entre os dois no dia seguinte, em horário a combinar.

- Oito horas da noite. O vento sopra, vindo do lago, e faz uma chuvinha miúda bater nas janelas da Avenida das Figueiras, na parte residencial de Lousanne, Suiça. Também afugenta o cortejo habitual de turistas que vêm, do mundo inteiro, ver a casa do escritor vivo mais popular do mundo, Georges Simenon.

- Buenos Aires - Silvia Mabel Isabela Valenzi era loura, tinha os olhos azuis e quem a conheceu diz que era linda. Tão bonita que a chamavam de "A Gata". Devia ter uns 25 anos quando deu à luz no Hospital Provincial de Quilmes, na Grande Buenos Aires.

- À luz dos lampiões, numa noite de lua cheia, o casal de meia idade se levanta do banco em que estava conversando, de braços dados, para comprar pipocas...

- "Bem-Vindos sejam todos à Pracinha de São Cosme, São Damião e do Um". Um cartaz mal escrito chama o povo à praça, onde existe um altar para a devoção aos santos meninos e um viveiro com mais de 20 passarinhos, o local mais freqüentado da favela do Rebu, em Senador Camará.

OBSERVAÇÃO: Retire, na biblioteca da Unesp, o livro "A Arte da Reportagem", Volume I, organizado por Igor Fuser, e estude os modelos de reportagens de todos os tempos ali existentes.

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