Como
não se faz bom jornalismo
sem boas fontes de informação, também
não se faz veículo comunitário
sem boa apuração, sem contar com
uma rede de informações confiável
e suficientemente ampla para manter o jornal bem
informado. Não é o fato da comunidade
ser um universo fisicamente menor que o dos grandes
centros urbanos que dispensará o jornalista
de uma boa pauta e uma boa agenda com nome, endereço
e telefone de seus contatos. A especificidade que
se pode verificar no caso do comunitário é,
naturalmente, a proximidade e quase "vizinhança" do
repórter com a fonte, mas isto como que
reproduz, por exemplo, o universo de Brasília,
a cidade com a maior concentração
de fontes do país nos palácios, nos
ministérios, no Congresso, nas embaixadas,
no Governo do Distrito Federal, nas autarquias
etc.
A
relação de proximidade
com a fonte, seja ela física ou de qualquer
outro tipo, é sempre uma relação
potencialmente perigosa, que pode levar a um envolvimento
sem retorno, a um nível em que a fonte passa
a manobrar o veículo ao "plantar" informações
de seu interesse. A eqüidistância ética
e equilibrada ( nem proximidade demais que envolva
interferência, nem distanciamento tal que
não comporte um telefonema fora de hora
) deve ser valorizada e buscada pelo jornalista,
e de forma tanto maior quanto mais próxima
for a "vizinhança" com a fonte, conforme
se dá no interior das comunidades.
Por isto este texto vai tratar
do relacionamento com as fontes.
Quando
trabalhamos com veículos
comunitários não podemos dispensar
o confronto e a diversidade de opiniões
para passar ao leitor uma informação
completa e bem interpretada. Agir sem essa preocupação é correr
para as facilidades de um jornalismo superficial,
rápido e sem apuração alegando
a velha e esfarrapada desculpa da falta de tempo.
Nasce daí um jornalismo faccioso, tendencioso,
anti-ético, a serviço de grupos e
não da comunidade.
Por
menor que seja o universo de abrangência do veículo – ainda
que seja apenas o jornal da escola – sempre será possível
e necessário estabelecer o contraditório
em busca da informação total, redonda,
completa, justa, ética, para manter o receptor
bem informado.
Isto
tem a ver com boas fontes, mediante acurado trabalho
de pesquisa ou apuração,
através de entrevistas, consultas a publicações,
documentos, bibliotecas, arquivos etc. Afinal,
não há nenhum motivo para que um
jornal comunitário não seja tão
bem feito quanto um grande jornal. Apenas temos
um micro-cosmo menor a ser trabalhado, mas as normas éticas
de apuração são as mesmas,
por isto todos devem respeito ao artigo 7º do Código
de Ética do Jornalista Brasileiro: "O compromisso
fundamental do jornalista é com a verdade
dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa
apuração dos acontecimentos e sua
correta divulgação".
Assim, "se o repórter vai
cobrir a queixa dos moradores de que uma indústria
está poluindo um rio, deve ouvir não
só os moradores, mas também os donos
da indústria e as autoridades locais", alerta,
de modo prático, o Manual de Telejornalismo
da Central Globo de Jornalismo, ao definir isenção
como a obrigação moral do repórter
ouvir os dois lados de um assunto polêmico.
JORNALISMO DE COMPADRE
Na
comunidade, muitas vezes corre-se o risco de
fazer "jornalismo de compadre", para
usar a expressão de Francisco José Karan
( em "Jornalismo, Ética e Liberdade". São
Paulo: Summus, 1997) quando nos contentamos com
a informação oficial sobre determinado
assunto e não vamos checar, confrontar,
repercutir a notícia antes de publicá-la,
de tal modo que "os donos do poder" passam a considerar "aquele
jornalista" totalmente "confiável", isto é,
uma pessoa que divulga a informação
que foi passada sem questioná-la, sem incluir
outras abordagens, sem gerar "incômodos desagradáveis" etc,
quando sabemos que a credibilidade, a confiabilidade
devem vir do público, do universo alcançado
pelo veículo e não deste ou daquele
grupo, se queremos fazer jornal comunitário.
Um
exemplo desse "jornalismo de
compadre" é a "declaração
não autorizada" do então ministro
das Relações Exteriores, Rubens Ricupero, à Rede
Globo nas eleições de 1994. Sem saber
que os microfones estavam abertos, o ministro explicou
o modelo de "transparência" do Governo FHC
ao manipular índices inflacionários: "O
que é bom a gente divulga, o que é ruim
a gente esconde". Para Karan esse tipo de comportamento
mostrou a promiscuidade entre a Globo e candidatura
de Fernando Henrique Cardoso, num tipo de jornalismo
que a emissora e o governo viam ( ou vêem
) como de interesse social.
Nas
pequenas comunidades não é raro
o jornal colocar-se a serviço do poder municipal,
por exemplo, com o pretexto de que está servindo à população
ao divulgar,sem questionar, sem repercutir - e
muitas vezes na íntegra - as informações
fornecidas pela prefeitura ou pela Câmara
através de "press releases" ou entrevistas. É o "jornalismo
de compadre".
É fácil explicar
o interesse dos governantes em manipular a informação,
seja na relação entre a Presidência
da República e a poderosa Rede Globo, seja
na imposição de um prefeito sobre
um pequeno jornal que precisa da publicação
dos atos oficiais para sobreviver. Francisco José Karan
registra a declaração que Napoleão
fez há 200 anos: "Se perdesse o controle
da imprensa, não duraria três meses
no poder". Quem duvida que o Brasil só conseguiu
o democrático exemplo do afastamento de
Collor da presidência, em 1992, depois que
a Globo, pressionada pela opinião pública,
retirou seu "apoio" ao Presidente?
Considerando
que o veículo
comunitário é "a leitura local",
concluímos que dentro daquele universo ele
faz as vezes da Globo, do Estadão ou da
Folha, isto é, tem todas as condições
de ajudar ou prejudicar os governantes. Mas é preciso
que o jornalista jamais use o seu veículo
com tal objetivo, daí a imperiosa necessidade
de contar com outras fontes na divulgação
das informações municipais ou comunitárias.
JORNALISMO OFICIAL
Compreende-se
porque o jornalismo comunitário preocupa-se tanto em obter informações
junto aos órgãos oficiais. Primeiramente
eles precisam de informação e os
governantes têm informação.
Em segundo lugar, é das autoridades que
os moradores reivindicam soluções
para os seus problemas diários de segurança,
buraco de rua, escolas, transporte coletivo, atendimento
de saúde, fornecimento de água e
luz, limpeza pública, coleta de lixo, taxas
e impostos excessivos etc. Em terceiro lugar é sempre
mais fácil e mais cômodo procurar
as fontes oficiais que têm telefone e outras
facilidades de serem alcançadas, que os
dirigentes comunitários e as pessoas da
própria comunidade.
É natural esperar que o
jornalismo comunitário procure equilibrar
o noticiário empenhando-se em dar espaço à comunidade
e privilegiando as fontes comunitárias.
Mas o comodismo de buscar antes as fontes oficiais é um
defeito que não atinge só o comunitário,
mas também a grande mídia. Rememorando
os 30 anos iniciais do jornalismo brasiliense,
conta Venício A. de Lima ( em "Jornalismo
de Brasília – Impressões e Vivências".
Brasília: UnB, 1993 ) que "a principal pauta
do jornalismo de Brasília, tanto local quanto
das sucursais, tem sido a ação do
governo federal, entendido, aqui, sobretudo, como
a ação do Poder Executivo. O Legislativo
e o Judiciário ocuparam, historicamente,
uma posição secundária nessa
agenda, decorrência não só da
atrofia provocada pelos 21 anos de autoritarismo
militar, mas também da herança de
nossa tradição política conservadora
que sempre entendeu a política como reduzida
ao estado, leia-se ao Poder Executivo".
Entretanto é necessário
despertar a cidadania de modo que as comunidades
percebam a força da sua organização,
uma organização que será tanto
mais possível quanto maior for o empenho ético
do veículo comunitário de se comprometer
com essa tarefa social. O sociólogo Betinho
( Herbert Viana ), em vídeo popular gravado
em maio de 1996, com o título "Cultura Organizacional",
para o Programa de Formação de Instrutores
do Banco do Brasil, lembra aos formadores de opinião
que eles devem valorizar a cidadania como "expressão
de ação, de quem não espera
acontecer, exercendo papel criativo e livre na
construção de uma nova sociedade.." porque,
segundo ele, "não é o Estado que
salva a sociedade, é o cidadão que
impõe uma política ao Estado democrático
onde a pessoa mais importante não é o
Presidente da República, é o Cidadão".
Lembra o sociólogo que o cidadão
constrói a democracia quando delega poderes
ao estado, pelo voto, para que o estado possa gerir
os recursos sociais a serviço da comunidade.
E se o governante não cumpre o que lhe foi
atribuído, então é afastado
por impeachment.
A
mania que a imprensa tem de privilegiar as fontes
oficiais, muitas vezes estabelecendo-se
aquela promiscuidade entre o repórter e
a fonte, é chamada de "fontismo" por Gilberto
Dimenstein e Ricardo Kotscho em "A Aventura da
Reportagem" ( São Paulo: Summus, 1990): "O
jornalismo independente e, portanto, com credibilidade,
significa atritos com o poder – logo, com as fontes.
Atritos implicam boicote. Os repórteres
não recebem sequer as informações
mais ingênuas, como a data e o local onde
o ministro vai se reunir com empresários
ou parlamentares. Mas os editores exigem de seus
comandados boas notícias. É preciso,
então, um malabarismo para que não
se fique tão distante das fontes a ponto
de perder a informação – e nem tão
próximo que signifique deixar de publicá-la.
A busca desse equilíbrio exige a procura
de novos e variados canais de obtenção
de dados, único mecanismo para não
cair nas armadilhas. O esforço compensa:
o jornalismo e os jornalistas servis ganham o curto
prazo, dão aqui e ali um furo sem maior
importância, mas, a médio prazo, sofrem
desgaste em sua credibilidade. E por um simples
motivo: os governantes passam, voltam para casa,
mas o jornalista e o leitor ficam. Quem quiser
ser jornalista e ambicionar agrados do poder e,
ao mesmo tempo, o respeito profissional, é bom
ir logo procurando outra atividade".
Em
1993 Geraldo Sobreira escreveu um manual para
orientar as fontes de notícia
no trato com os jornalistas. ( "Manual da Fonte – Como
lidar com os jornalistas". São Paulo: Geração
Editorial, 1993). E afirma: " Na relação
entre o jornalista e a fonte – o profissional da
política, dos negócios, da propaganda,
da Justiçca, da polícia etc – os
repórteres sabem que não se ganha
informação de graça: a divulgação
de uma notícia sempre tem um objetivo, que
contraria uns e favorece outros".
Segundo
ele, "em toda instituição,
quem tem poder tem informação".
Mas
a diretora de O Globo, em Brasília, Eliane Catanhêde, na mesma
obra, define o que considera uma boa fonte de notícias
na área oficial: " A fonte de verdade é uma
pessoa bem informada. É quem tem informação,
sabe para onde as coisas estão indo e cria
fatos. Essas são as melhores fontes. Ela
participa do poder, é bem informada sobre
o poder e os partidos. E sabe passar isso de forma
clara e isenta para os repórteres certos,
na hora certa. Mas há também o homem
do poder que é o contrário, que é uma
má fonte. É o político, o
homem de poder que tem medo da imprensa. Não
dá informação, não
recebe, não sabe nada de imprensa e acha
que tudo é sigilo. Outro tipo é aquele
que não desgruda, persegue o repórter,
quer almoçar com ele toda semana,quer aparecer
a qualquer custo sem criar fatos que justifiquem".
Geraldo
alerta que "não é só o
Governo que tem poder. A oposição é poder
de fato, na medida em que influencia e altera decisões
de governo, induz o comportamento da sociedade,
cria fatos. O poder não está só o
Palácio do Planalto ou no partido majoritário.
Está no Congresso, nos sindicatos, nas entidades
da sociedade civil, na Justiça, na polícia
etc".
Mônica Waldvogel, na mesma
obra, declara: "Eu respeito a fonte que, embora
sabendo a verdade e não podendo falar, diz
que não pode falar ou deixa isto claro.Detesto
a fonte que mente, que fala uma coisa contrária àquilo
que está acontecendo, porque quer esconder
os fatos e coloca o repórter na pista errada".
SIGILO DA FONTE
Muitas
vezes, na comunidade, a pessoa de poder, aproveitando-se
da fragilidade
econômica do veículo comunitário,
tenta intimidar o profissional da imprensa, exigindo,
entre outras coisas, que revele suas fontes de
informação. A este respeito, Mário
Erbolato ( "Técnicas de Codificação
em Jornalismo". São Paulo: Ática,
1991) cita o artigo 71 da Lei de Imprensa: "Nenhum
jornalista ou radialista, ou em geral as pessoas
referidas no artigo 25, poderão ser compelidos
ou coagidos a indicar o nome de seu informante
ou a fonte de suas informações, não
podendo o seu silêncio a respeito sofrer
qualquer sanção direta ou indireta,
nem qualquer espécie de penalidade".
Sobre
o "sigilo da fonte", situação
em que o repórter trabalha com "declarações
em off", isto é, sem citar a fonte expressamente,
Darcy Arruda Miranda ( Comentários à Lei
de Imprensa. São Paulo: Revista dos Tribunais,
1969) observa: " Do mesmo modo que se asseguram
aos profissionais das profissões liberais
o direito ao sigilo, no que se refere às
confidências de seus clientes e de quem foram
depositários, o mesmo direito deve ter o
jornalista, rádio-repórter ou o comentarista.
Muitas vezes o profissional da imprensa, nas suas
andanças em busca de informações, é obrigado
a socorrer-se de fontes que não podem ser
reveladas".
Segundo
Miranda, a mesma lei que assegura ao profissional
de imprensa o direito
ao sigilo quanto às fontes de informação,
respeita, também, este sigilo, donde a incriminação
penal ( pelo art. 154 do Código Penal )
em caso de ser ele revelado sem anuência
do informante.
Esse
amparo legal assegura ao profissional da imprensa,
na avaliação
do jurista, maior amplitude na colheita ou busca
de informações de interesse público,
não ficando, de forma alguma, obrigado a
revelar, em Juízo, a sua fonte ou origem
que tanto pode ser pessoa como coisa ( uma revelação
pessoal e sigilosa, uma conversa ou confidência
acidental, a leitura de um documento confidencial
ou não, a verificação de um
fato ocorrido na intimidade dos bastidores, a descoberta
de objeto ou pessoa procurada).
Também o art. 5º da Constituição
Federal, em seu parágrafo XIV, assegura
o direito de preservar a identidade da fonte: " É assegurado
a todos o acesso à informação
e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário
ao exercício profissional".
Portanto, é dever do estudante
de Jornalismo e dos repórteres iniciantes
informarem-se a respeito de seus direitos e deveres
profissionais para exercerem plenamente a profissão
no Jornalismo Comunitário. Afinal, a lei
não faz distinção entre "tamanhos" de
veículos, tanto assim que as penas para
os crimes de injúria, calúnia e difamação
são iguais para todos, devendo o jornalista
responder pelo que publica. O próprio artigo
5º da Constituição é iniciado
com a seguinte premissa: "Todos são iguais
perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza".
ASSESSORIAS DE IMPRENSA
Na
comunidade, o jornalista terá fontes
de informação na polícia,
corpo de bombeiros, hospitais, associações,
prefeitura, câmara, autarquias, justiça,
representações de órgãos
estaduais e federais, terminal rodoviário,
clubes de serviço, clubes recreativos, escolas,
agências noticiosas, Internet, outros veículos
de informação, pessoas que se destacam
nos esportes ou na cultura, cartas e telefonemas
dos leitores e ouvintes, pessoas que procuram a
redação, etc.
Cada
vez mais, porém, o
jornalismo, inclusive o comunitário, depara-se
com a figura do Assessor de Imprensa quando procura
informações em grandes empresas,
sindicatos, órgãos públicos
etc mesmo no interior.
Nestes
casos é preciso
estar atendo para o fato de que, normalmente, o
compromisso do Assessor de Imprensa é com
o seu patrão, enquanto o compromisso do
jornalista é com o público. O foco
de interesse da Assessoria pode não ser
o mesmo que interessa ao veículo comunitário,
daí a necessidade ética de submeter
a informação da Assessoria ao crivo
de outras fontes e, também, de repercutí-la
com a própria comunidade.
Em "Assessoria de Imprensa-Teoria
e Prática" ( Porto Alegre: Sagra-DC Luzzatto,
1993), Elisa Kopplin e Luiz Artur Ferraretto advertem
que "pressionar para que notícias a respeito
do assessorado sejam publicadas, sonegar informações
de interesse, divulgar inverdades e defender os
interesses de quem o contratou acima dos da população
são problemas ainda freqüentes no mercado
brasileiro de Assessoria de Imprensa. Em síntese,
contrariam o Código de Ética da profissão
e, não raro, prejudicam a imagem de quem é assessorado".