Desde
que Edgard Roquete Pinto colocou no ar, em 1923,
a primeira emissora de
rádio comercial do país, a Rádio
Sociedade do Rio de Janeiro ( embora um grupo de
radiotelegrafistas tenha fundado a Rádio
Clube de Pernambuco em 1919), o rádio brasileiro
foi sempre um reduto de poucos, cada vez mais voltado
para o lucro como empresa do que para a prestação
de serviço como concessão pública.
Chegou a ser moeda de troca na ampliação
do mandato do Presidente José Sarney. Até pouco
tempo as concessões saiam com mais facilidade
para políticos amigos do governo e para
a oligarquia estabelecida. Com o crescimento da
indústria fonográfica, surgiu um
concluiu natural entre o rádio e as gravadoras,
instalando-se no país o popular "jabá",
pelo qual as gravadoras manipulam a programação
musical das emissoras em função de
seus interesses comerciais e não apenas
do gosto dos ouvintes ou das culturas regionais.
Na verdade a linguagem uniforme do rádio
e sua subserviência ao poder concedente,
o Estado, acabava alijando da programação
as manifestações culturais das diferentes
regiões do país, além de afastar
a participação popular, de forma
alienante e intolerável.
Mas,
a partir da década
de 80, inspirada na rebeldia dos jovens ingleses
que também protestaram contra o oficialismo
conservador das emissoras de seu país instalando
emissoras clandestinas que operavam em navios – daí o
nome Rádio Pirata, porque emitiam sinais
do mar para a terra - aproximadamente 20 projetos
pioneiros de emissoras populares surgiram no Brasil.
Eram transmissões esporádicas que
tocavam a música do povo e falavam de temas
de interesse popular.
Esse movimento ganhou vigor em
1992 com o Pacto Internacional de Direitos Humanos
firmado na Costa Rica.
Mas
foi a partir de 1994 – com
o surgimento das emissoras evangélicas – que
o número de emissoras comunitárias,
as chamadas Rádios Livres, proliferou por
todo o país, chegando a 7 mil já em
1996, pressionando o governo a tomar alguma atitude
para regularizar esse tipo de atividade popular,
uma vez que as emissoras vinham enfrentando a ira
da poderosa Associação Brasileira
de Emissoras de Rádio e Televisão-Abert
( criada em 1934 ) e, naturalmente, das emissoras
convencionais, sob a alegação de
que a concorrência era desleal porque as
pequenas emissoras tinham poucos custos operacionais
e tiravam faturamento da praça.
Veio
então a Lei 9.612,
de 19.02.1998, que institui o serviço de
radiodifusão comunitária, proibindo
a veiculação de anúncios publicitários
pagos, a não ser como "apoio cultural",
brecha que deu margem à continuação
da briga, com o forte lobby das emissoras impedindo,
até hoje, a regulamentação
das concessões que permitiria o funcionamento
legal das emissoras populares. Ao invés
disso, apesar da lei 9.612, as emissoras livres
têm sofrido ataques de todo tipo e muitas
são fechadas pela Polícia Federal
sob a alegação de que estão
interferindo no sinal das outras emissoras e colocando
em risco até mesmo a aviação
comercial...
Por
isto a Associação
Brasileira de Rádio Comunitária-ABRAÇO,
com sede em São Paulo e site na Internet,
tem fornecido completa assessoria para todos os
segmentos populares que desejam implantar emissoras
livres. Essa assessoria, gratuita, vai desde o
modo de fixar a antena no mastro da rádio,
até os formulários de hábeas
corpus para quem sofrer ameaças por dirigir
uma rádio livre.
Segundo
representantes das comunitárias,
quem mais se irrita com a atividade delas, na verdade, é a
poderosa indústria fonográfica, que
teme perder espaço para suas atividades
escusas no rádio brasileiro onde o poder
do dinheiro determina qual o "hit" que deve ser
tocado, todos os dias, sob a hipócrita rubrica
das "dez mais do ouvinte", o que afasta totalmente
as chances de um músico pobre –que não
esteja no esquema das grandes gravadoras – ascender
no mercado.
De
qualquer forma o número
de emissoras vai crescendo e logo estarão
todas legalizadas, com seus transmissores PLL de
50 watts. Mas, se hoje conta com instrumentos jurídicos
e associações em todos os estados,
as emissoras livres precisam discutir como usar
o rádio para servir à comunidade
através do jornalismo, dos debates sobre
problemas do bairro, da promoção
da autêntica cultura regional, das orientações
sobre saúde e higiene, das questões
de segurança e emprego, do lazer, do debate
sobre os direitos da pessoa humana.
LINGUAGEM HORIZONTAL
A
primeira regra, nesse tipo de comunicação comunitária, é não
fazer rádio para si mesmo e sim procurar
todos os meios de "fazer a democracia acontecer
na radiodifusão" como ensina a ABRAÇO.
E isto se faz dando pleno acesso a toda a comunidade.
Na verdade a rádio livre aprende a fazer
rádio com o povo, com a própria comunidade,
com seu modo de se expressar, usando, assim, uma
linguagem horizontal que todos entendem bem, mesmo
quando não se usa o português castiço
das elites intelectuais e econômicas tão
distantes do povo. Na comunidade, todos são
iguais, um ajuda o outro, todos são solidários,
não há excluídos. Por isto
o rádio comunitário não deve
ter um "dono do microfone", um sabe-tudo que aproveita
para fazer proselitismo político, religioso,
partidário etc, como há no rádio
convencional. Também não se deve
copiar a programação das emissoras
comerciais porque elas trabalham visando o lucro
e não a comunidade. É preciso ser
criativo e não copiativo.
Como
instrumento de comunicação
popular o rádio é o meio mais fácil
e mais rápido de chegar ao povo, num país
com tanto analfabetismo e tão reduzido hábito
de leitura. Na comunidade, todos têm o seu
rádio. O de pilha pode ser ouvido em qualquer
lugar, tanto pelo agricultor que carpe a terra,
como pelo guarda-noturno sobre a bicicleta. A dona
de casa que está ouvindo o rádio
enquanto costura ou cozinha, pode ligar para a
rádio e opinar sobre o que está sendo
debatido a respeito do bairro ou da vila. Ela entende
a linguagem que está ouvindo e conhece as
pessoas, portanto sente-se à vontade para
participar. É isto que caracteriza a liberdade
e o espírito democrático do Rádio
Comunitário.
Não se pode confundir Rádio
Comunitário com micro-empresa de comunicação.
Se a emissora tem dono, ela não pode ser
classificada de comunitária apenas por ser
pequena e operar em determinado bairro. É comunitária
aquela emissora mantida e tocada diretamente pela
comunidade.
COMO ORGANIZAR
A
lei 9.612 exige que a rádio
esteja sob a responsabilidade legal de uma associação
de moradores e que seja administrada por um Conselho
Comunitário integrado por representantes
de pelo menos cinco entidades do lugar, permitindo
apenas uma emissora por bairro ou vila. A transmissão
pode ser feita com 25 watts de potência,
o que resulta em alcance médio de 50 km
em terreno livre de obstáculos como prédios,
morros etc, já que a FM opera em linha reta.
O
artigo 3º da lei estabelece
as finalidades da Rádio Comunitária:
I
- dar oportunidade à difusão
de idéias, elementos de cultura, tradições
e hábitos sociais da comunidade;
II – oferecer mecanismos à formação
e integração da comunidade, estimulando
o lazer, a cultura e o convívio social;
III – prestar serviços
de utilidade pública integrando-se aos serviços
de defesa civil, sempre que necessário;
IV – contribuir para o aperfeiçoamento
profissional dos jornalistas e radialistas, de
conformidade com a legislação profissional
vigente;
V
- permitir a capacitação
dos cidadãos no exercício do direito
de expressão da forma mais acessível
possível.
"Na criação da associação
que vai gerir a emissora, é preciso determinar
bem os mecanismos de ingresso. Se a associação
for muito fechada, ela vira uma Academia Brasileira
de Letras. Se for muito aberta, corre-se o risco
da emissora ser invadida por grupos ou tendências
alheias ao espírito original", orienta a
ABRAÇO.
Uma
emissora voltada para a organização
da cidadania deve conhecer bem os direitos do cidadão
brasileiro. Setenta e sete desses direitos estão
relacionados no artigo 5º da Constituição
Brasileira. Do artigo 6º ao artigo 11º a Constituição
trata dos direitos sociais e trabalhistas. Os direitos
políticos e de nacionalidade estão
consagrados nos artigos 12º a 16º. Também
há direitos a serem divulgados e conhecidos
por todos no Estatuto da Criança e do Adolescente,
no Código de Defesa do Consumidor, na Declaração
Universal dos Direitos do Homem etc.
Na
emissora comunitária,
todos têm direito de se expressar livremente
em busca de consenso para a solução
das dificuldades individuais e coletivas, segundo
recomenda a lei.
Antes
de criar a associação
que vai cuidar da rádio, é preciso
reunir-se com a comunidade, promover uma campanha
financeira que vai garantir a aquisição
do equipamento e, principalmente, discutir como
vai ser o trabalho do novo meio de comunicação,
certificando-se de que ele não será manipulado
por ninguém, nem por partidos, nem por religiões,
nem por sindicatos de uma ou outra categoria.
Por
não estar dividida
em "brakes comerciais", já que não
visa lucro, a programação da rádio
comunitária é menos artificial, é mais
comprometida com os valores da comunidade, não é obrigada
a suspender uma entrevista com alguém do
bairro para chamar os comerciais como fazem as
emissoras convencionais, onde até notícias
de interesse popular são dadas suscintamente,
superficialmente, sem contextualizar, sem explicar,
mais para desinformar do que para informar, entre
um "brake" comercial e outro como no seguinte exemplo: " Integrantes
do Movimento dos Trabalhadores sem Terra invadiram
hoje à tarde uma fazenda no Pontal do Paranapanema".
Na rádio comunitária o tempo não é prioritário.
O que tem prioridade é o conteúdo,
embora sabendo-se que o ouvinte não gosta
de "enrolação". Ele quer informação,
quer conhecimento, quer interpretação
competente dos fatos. É preciso – alerta
a ABRAÇO – confrontar a rapidez alienante
das FMs comerciais com o conteúdo informativo
das comunitárias.
CONVERSANDO COM O POVO
Nas
entrevistas com os moradores do bairro ou da
vila onde a emissora comunitária
opera, é preciso que a espontaneidade não
se confunda com falta de seriedade, sob pena de
minar a credibilidade do veículo que deve
ser sempre um porta-voz, um irmão maior,
um apoio para a comunidade. Para ser respeitada,
a rádio tem que ser confiável, por
isto o trabalho deve ser feito com seriedade.
"Quando o povo tem oportunidade
de falar para ele mesmo, através do rádio
popular, desenvolvem-se três níveis
de consciência: 1.de pessoa; 2.de grupo;
3. de crítica", ensina o Manual de Comunicação
nº 1 da Asociación Latinoamericana de Educación
Radiofônica – ALER ( Quito, Ecuador, 1984),
escrito por José Ignácio López
Vigil. E explica:
"Consciência de Pessoa:
O simples fato de que o homem marginalizado escute
a sua voz ou a de seus companheiros em um meio
de comunicação ( mesmo alternativo
), desperta nele um sentimento de importância,
de ser alguém, de ser uma pessoa. Desenvolve-se
a consciência da própria identidade.
Rompe-se o silêncio, a opressão do
silêncio. Penso, logo existo; falo, logo
resisto.
Consciência de Grupo: Ao
escutar as entrevistas de outros companheiros com
problemas semelhantes, o camponês, o trabalhador,
o marginalizado vai rompendo o isolamento e começa
a sentir-se integrado em um grupo mais amplo do
que o de sua comunidade ou de seu bairro. Esse
sentimento de solidariedade é a semente
de uma consciência mais elaborada. É a
consciência de classe. Por ela o povo compreende
que os poderosos vencem e dominam através
do isolamento do próprio povo, da alienação,
da desinformação, do afastamento
das oportunidades de reflexão.
Consciência Crítica:
Ao tomar conhecimento de que outros estão
sendo oprimidos, mas que lutam, que enfrentam dificuldades
de forma organizada, que às vezes fracassam,
mas outras vezes têm êxitos, o mundo
fixo dessa gente começa a mover-se. A situação
difícil de seus semelhantes começa
a ser vista como algo que se pode mudar. O povo
compreende que a pobreza não vem de Deus
ou do destino. A miséria não é coisa
natural, mas sim fruto de um sistema social que
pode e deve ser mudado"
Mesmo
nas emissoras populares, a entrevista pode e
deve ser bem organizada. As
perguntas podem ser de Esclarecimento ( servem
para conhecer melhor o assunto que se está tratando;
ou para esclarecer uma resposta confusa do entrevistado.
Exemplo: Quantos operários foram despedidos?
Durante quanto tempo trabalharam na fábrica?),
de Análise ( servem para entender melhor
os problemas, para descobrir as suas causas, para
aprofundar algumas respostas superficiais. Exemplo:
Porque esses operários foram demitidos?
Que motivos a empresa deu? ), de Ação
( servem para passar da teoria à prática,
para que os entrevistados expressem as ações
que vão desenvolver em relação
aos problemas analisados. Exemplo: O que o Sindicato
pretende fazer em relação a isto?
).
O
entrevistador não deve
fazer perguntas fechadas que só admitem
monossílabos como respostas. Exemplo: A
sua rua tem água? Vocês já solicitaram água?
Ainda não lhes deram resposta? As perguntas
abertas, que favorecem o diálogo com o entrevistado,
começam com "como", "por que", "o que você acha".
O
fato da emissora ser pequena não justifica a desordem do repórter
na hora da entrevista, quando nota que o gravador
está sem pilha, a caneta não tem
tinta, as perguntas não estão organizadas,
ele não sabe o nome do entrevistado e não
conhece o assunto que vai ser tratado.
As
perguntas não devem
ser longas ou muito genéricas e o entrevistador
deve prestar atenção no que está ouvindo,
ao invés de desviar a atenção
para outras atividades. Também não
deve manifestar surpresa com eventuais respostas
do entrevistado. Deve fazer perguntas curtas e
claras, além de evitar afetação
parecendo culto e importante. Outra recomendação é não "crivar" o
entrevistado com várias perguntas ao mesmo
tempo, fazendo uma de cada vez e aguardando a resposta.
Depois
de gravada, a entrevista deve ser editada porque,
como já foi dito,
o ouvinte não gosta de enrolação
no ar. O editor cortará tudo o que estiver
sobrando, como repetições, incorreções,
assuntos menos importantes, de modo que o ouvinte
possa entender claramente o que foi tratado.