Professores
e alunos do Departamento de Comunicação
Social e do Departamento de Ciências Humanas
da UNESP/Bauru estão discutindo a reformulação
do projeto pedagógico e da grade curricular
das habilitações em Jornalismo, Relações
Públicas e Rádio e TV, devendo o
trabalho estar concluído até março
de 2.002 para entrar em vigor no ano letivo de
2.003.
Para
cada habilitação foi nomeado
um Coordenador que dirigirá os trabalhos
de reformulação com os professores
da área e a participação dos
alunos. No caso de Jornalismo, o coordenador é o
Prof. Dr. Murilo César Soares. As sugestões
e contribuições serão apresentadas
por escrito, conforme decidido na primeira reunião
com o coordenador.
Respondendo
há sete anos pela disciplina
de "Técnicas de Reportagem, Entrevista
e Pesquisa Jornalística" TREPJ, no
Departamento de Comunicação, alinho,
abaixo, algumas observações para
contribuir, modestamente, com o debate.
TREPJ é uma disciplina obrigatória,
de 4 créditos, oferecida no primeiro semestre
aos alunos do 3Ί Termo de Jornalismo. É a
primeira disciplina prática com que se deparam
os alunos após o primeiro ano de formação
geral. Entre seus objetivos, avulta o de "produzir
matérias jornalísticas em seus quatro
gêneros: Informativo, Opinativo, Interpretativo
e Recreativo".
Ao
final de cada semestre letivo tenho colhido avaliações, por escrito, dos alunos,
com sugestões para melhorias da qualidade
do ensino desta disciplina, numa iniciativa que
visa dar voz ao aluno, sem constrangimentos ou
obrigatoriedades já que as manifestações
não precisam ser assinadas. No final do
semestre passado passei a encaminhar ao Conselho
de Curso as manifestações dos alunos.
De
um modo geral, eles se mostram entusiasmados
pela oportunidade de, finalmente, poderem escrever
matérias de cunho jornalístico. Sentem-se
ainda mais realizados quando se consegue fazer
um jornal ou mais durante o semestre, aliando
teoria e prática. No contato com os entrevistados,
relatam que muitos reclamam da falta de continuidade
dos produtos da UNESP. As publicações
são eventuais, esporádicas, não
têm seqüência. No primeiro semestre
deste ano, por exemplo, quando conseguimos produzir,
pela primeira vez, o jornal "À Vista" a
cores, uma reportagem dos alunos denunciou o esquema
de propinas cobrado pelo Sindicato da Economia
Informal dos camelôs do Calçadão
da Av. Baptista de Carvalho, assunto que se tornou
denúncia e escândalo na Câmara
Municipal de Bauru no início do segundo
semestre. Foi um "furo" dos estudantes
do terceiro termo, conforme reconheceu a rádio
94,5 FM quando o assunto finalmente chegou à mídia
convencional da cidade. Entretanto os alunos reclamaram
da falta de recursos para dar continuidade ao jornal,
para dar sequência à investigação.
Na verdade, estavam programados quatro edições
do jornal para aquele semestre, duas para o diurno
e duas para o noturno, mas os alunos do diurno
se frustraram porque o dinheiro não foi
suficiente para imprimir o jornal deles.
Nos
seus relatos sobre a disciplina, os alunos avaliam
positivamente a experiência de fazer
jornalismo de verdade junto a comunidades externas
ao campus, de modo a travarem contato profissional
com a comunidade e a perderem a timidez de fazer
entrevistas para repercutir informações,
checar fontes, planejar pautas...afinal, fazer
jornalismo.
Além da necessidade imperiosa do Departamento
de Comunicação ter um Jornal Laboratório
regular, que veicule matérias de interesse
para o leitor e não apenas manifestações
artísticas e culturais que, apesar de serem
de grande valia, nem sempre ajudam o aluno a experienciar
o "time" de feitura do jornal, já que
são matérias "frias", é preciso
atentar para o principal objetivo da disciplina
que é o trabalho com os gêneros do
Jornalismo.
Ora, é totalmente impossível trabalhar
com o Informativo, o Interpretativo, o Opinativo
e o Recreativo em apenas 15 aulas, pois cada um
desses gêneros exige ampla produção
textual com intenso referencial prático
( do "fazer" ) e teórico ( do "como
fazer" ), tendo em vista o avanço da
especialização das mídias
para atender a um público cada vez mais
segmentado em seus interesses. Em nossos dias,
a informação excessiva passou a necessitar
de alguma reelaboração do próprio
receptor para ser absorvida e compreendida. Daí a
importância, por exemplo, do jornalismo Interpretativo
que surgiu na década de 60 ( no Brasil)
com o Novo Jornalismo para dar conta de explicar,
em detalhes o que está acontecendo. Daí a
necessidade de visão crítica do profissional
para não apenas passar a informação
num pacote pronto, como "delivery", sem
maiores comprometimentos, quando se trata, pelo
contrário, de assumir o compromisso e o
dever ético de emitir opinião assinada
e assumida sobre o assunto em questão. Por
isto exige-se que os futuros jornalistas leiam
exaustivamente e escrevam mais ainda. E que leiam
boas obras, inclusive clássicos, para despertarem
a própria sensibilidade no trato com a notícia
e com as pessoas. Nesta disciplina tenho tido oportunidade
de realizar excelentes experiência com a
exposição de grupos de alunos aos
textos de Balzac, Flaubert, Machado de Assis, Fernando
Morais etc e ficaria ainda mais realizado se tivéssemos
oportunidade de aprender alguma coisa sobre música
clássica e teatro porque o jornalista precisa
aprender a se concentrar, a ter percepção
para olhar em torno, a desconfiar da primeira versão
que a fonte lhe passa, a sensibilizar-se com o
drama do ser humano ao invés de ser uma
máquina fria que trabalha maquinalmente
e repete tudo o que ouve sem questionar. No mundo
maquinal e alienado da indústria de bens
simbólicos, cumpre ter sensibilidade para
romper a alienação e despertar a
sociedade.
Este
discurso é para defender uma idéia
imperiosa. Um semestre é insuficiente para
TREPJ. É preciso desdobrar a disciplina
em dois semestres ou torná-la anual de
modo que no primeiro semestre se aplicasse algum
tipo de Introdução ao Jornalismo
e, no segundo, então sim, Técnicas
de Jornalismo.
Por
outro lado o termo "Pesquisa" não
parece bem aplicado à epígrafe da
disciplina, vez que os alunos já têm,
no primeiro ano, aula específica sobre o
tema, quando fazem Metodologia. A palavra adequada
seria "apuração": Técnicas
de Reportagem, Entrevista e Apuração
Jornalística.
Quanto
ao conteúdo, esta é uma disciplina
que precisa contemplar, urgentemente, as técnicas
do Jornalismo Digital produzido em html. Segundo
Alberto Dines, "jornalismo digital é,
antes de tudo, jornalismo", isto é,
tal qual o texto impresso, o texto eletrônico
que rola na tela do computador pressupõe
todas as regras de boa apuração,
de clareza, de conduta ética etc universalmente
previstas para o jornal de papel. É uma
manifestação de desinformação
afirmar que o jornalismo digital não se
aprofunda tanto quanto o jornal de papel. Quem
navega pela hipertexto de um site jornalístico
logo perceberá quantas camadas de informações
estão sobrepostas, à sua disposição,
bastando um leve toque no mouse para se aprofundar
sobre o assunto, recorrendo a banco de dados, matérias
de arquivo, edições anteriores, links
de interesse e tantas outras facilidades. Por trás
de tudo isto está o jornalista, aquela pessoa
que sabe apurar com rigor e transmitir com clareza,
com preocupação ética, com
empenho estético.
As
pesquisas apontam para um futuro grandioso no
jornalismo digital à medida que os anunciantes
da TV aberta vão emigrando para a rede mundial
de computadores permitindo, num futuro próximo,
que tenhamos conexão gratuita 24 horas por
dia, enquanto os fabricantes de equipamentos vão
livrando o computador da tomada na parede tal
qual aconteceu quando o rádio foi transistorizado permitindo
acessar notícias através de celulares,
pagers, visores diversos, etc em qualquer lugar:
na fila do ônibus, no carro, na sala de espera
do escritório. Os sete milhões de
usuários de internet que temos hoje no Brasil,
logo serão 70 milhões como nos EUA.
O mercado está mudando, está se expandindo
e a escola não pode esperar acontecer, da
mesma maneira que não pode esperar a TV
e o Rádio se digitalizarem para começarem
a discutir os efeitos desse processo na profissão.
Outra
questão de grande importância
para a melhoria da qualidade do ensino de TREPJ
seria a possibilidade de, pelo menos uma vez por
mês, os alunos terem contato com um profissional
do mercado, para terem uma visão mais prática
e real do que está acontecendo de novo na área,
para saberem os detalhes sobre a cobertura de uma
reportagem específica etc. Esses convites
poderiam ter um caráter interdisciplinar
na medida que conciliassem não somente os
interesses de TREPJ mas também as necessidades
de Especializado, Comunitário, Impresso,
Planejamento Gráfico etc de modo a se convidar
um profissional de cada área, todo mês,
para um debate com todas as turmas de jornalismo.
Essa
providência ajudaria a reduzir o que
o Prof. Dr. José Marques de Mello chama
de "o maior desafio das faculdades de comunicação" que é,
segundo ele, "superar o divórcio com
a indústria da comunicação".
E aduz: "Sem abandonar sua vocação
crítica, a Universidade deve buscar formas
de interação e de cooperação
com as empresas públicas e privadas".
É paradigmático afirmar que a escola
não deve formar apenas para o mercado e
sim para a sociedade. Isto é, não
deve produzir "apertadores de botões" e
sim pessoas com massa crítica suficiente
para reelaborar a visão dada do mundo real.
A grande pergunta é se os jornalistas estão
a serviço das empresas de comunicação
ou a serviço da sociedade. De qualquer forma, "a
escola não pode ser uma simples ponte para
o mercado", como concluíram os estudantes
de comunicação reunidos em Vitória-ES,
em abril último, para discutir a avaliação
feita pelo Provão do MEC, em encontro organizado
pela ENECOS (Executiva Nacional dos Estudantes
de Comunicação).
No
mesmo encontro, os estudantes defenderam o debate
democrático para a melhoria da qualidade
do ensino: "O projeto só ganhará legitimidade
se for construído a partir de uma perspectiva
democrática em que todos os setores envolvidos
são vistos e tratados como fundamentais".
Também
advogaram a causa da interdisciplinaridade:
"Os cursos não estão soltos
no tempo e no espaço. Sua produção,
os formandos e outras formas de integração
com a comunidade influenciam e são influenciados
pela sociedade que os cerca".
Sobre
a oportunidade de debates como o presente, em
que se propõe a renovação
do curso, os estudantes opinaram, em Vitória,
que "para formar com qualidade a escola precisa
sempre reavaliar seu conjunto".
Porque
incluir nestas sugestões de melhoria
do ensino de jornalismo ministrado pela Unesp de
Bauru as esperanças e reivindicações
dos alunos? Naturalmente porque eles são
o nosso público-alvo, são os sujeitos
do trabalho desenvolvido no Departamento e como
sujeitos devem ser ouvidos e levados muito a sério.
Eles querem discutir, por exemplo, a relação "professor-aluno",
querem quebrar a verticalidade do "quem ensina
a quem", querem repensar essa coisa medieval
de que "o professor sabe tudo/o aluno não
sabe nada, portanto o professor manda e o aluno
obedece".
A
visão dos alunos está inserida
na moderna visão do papel social da universidade
que, a partir do século XIX, deixa de ser
centro de ensino para se tornar centro de investigação
e pesquisa. A missão do mestre é muito
mais fazer progredir a pesquisa que ensinar ou
guiar o discípulo pelos caminhos da ciência
e do saber. Segundo Carl Rogers, "a facilitação
da aprendizagem significativa baseia-se em certas
qualidades de comportamento que ocorrem no relacionamento
pessoal entre o facilitador e o aprendiz".
Para Aristóteles "o ensino é o
ato comum do professor e do aluno". Segundo
Diaz Bordenave, o professor universitário
deve estar ciente de que sua maior responsabilidade "não é produzir
profissionais competentes, embora rotineiros, senão
contribuir no desabrochar de personalidades autônomas
e originais, capazes de repensar a realidade presente
e forjar uma nova realidade". Segundo Maria
Célia de Abreu e Marcos Tarciso Masetto
( "O Professor Universitário em Aula".
São Paulo: MG Ed. Associados, 1990) "o
papel do professor universitário é facilitar
a aprendizagem de seus alunos: Não é ensinar, é ajudar
o aluno a aprender; não é transmitir
informações, mas criar condições
para que o aluno adquira informações;
não é fazer brilhantes preleções
para divulgar a cultura, mas organizar estratégias
para que o aluno conheça a cultura existente
e crie cultura".
Para
Habermas não tem sentido discutir
um processo no qual os sujeitos não estejam
incluídos. Sem aluno não existe escola,
daí a necessidade de construir o novo projeto
do curso com ampla participação dos
alunos.
Um
mês antes de assumir a disciplina de
TREPJ na Unesp/Bauru, em agosto de 1995, fui a
Brasília participar, como aluno de Mestrado,
do I Seminário sobre Qualidade de Ensino
de Comunicação promovido na Universidade
de Brasília, onde me formei em 1976, pela
ENECOS, de 15 a 22 de julho de 1995. Desse encontro
nasceu o Movimento Nacional pela Qualidade de Ensino
em Comunicação cujo manifesto foi
assinado por representantes da ENECOS Executiva
Nacional dos Estudantes de Comunicação
Social; COMPÓS Coordenação
dos Programas de Pós-Graduação
em Comunicação; INTERCOM Sociedade
Brasileira para Estudos Interdisciplinares em Comunicação;
ABECOM Associação Brasileira das
Escolas de Comunicação; UCBC União
Cristã Brasileira de Comunicação;
FENAJ Federação Nacional dos Jornalistas
e FITERT Federação Interestadual
dos Trabalhadores em Empresas de Rádio e
Televisão. As conclusões do encontro
foram encaminhadas ao MEC e só anos mais
tarde é que surgiu o Provão. A nova
LDB também inclui sugestões tiradas
daquele encontro. Pela atualidade do documento
de 1995, por seu caráter fundante no debate
sobre a qualidade do ensino em comunicação,
convém reproduzir as conclusões principais
da Carta de Lançamento do Movimento Nacional
pela Qualidade de Ensino em Comunicação:
.
As escolas não podem ser meras qualificadoras
de mão-de-obra;
.
Os cursos devem promover uma reflexão ética
sobre a sociedade contemporânea e sobre o
papel estratégico que a comunicação
exerce nela;
.
O projeto pedagógico deve contemplar
uma formação ética e teórica,
interdisciplinar, e capacitação técnica
suficiente para o ingresso no mercado;
.
Tal projeto deve compreender pesquisa e extensão
de modo indissociável e dinâmico;
.
A escola deve estar pronta para introduzir o
estudo de novas tecnologias não somente
sob o ponto de vista técnico, mas ético
e estético;
.
A escola deve interagir com o mercado e com a
sociedade na qual está inserida;
.
A relação da escola com o mercado
não deve ser de subordinação: é preciso
interferir nele investigando e trabalhando com
as novas perspectivas que se apresentam;
.
A escola deve exercer autonomia curricular, elaborando
seus currículos em função
da realidade em que estão inseridos e do
perfil traçado para o curso;
.
Quando possível, as Comissões
de Qualidade de Ensino devem incluir profissionais
do mercado para evitar o isolamento da universidade;
. É importante que o professor pós-graduado
não perca seu vínculo com a graduação;
.
Deve-se viabilizar formas de garantir a presença
de profissionais do mercado em sala de aula oferecendo
visões diferentes para a formação
do aluno, além de se criar outras formas
de contato com o mercado;
.
Sugerem-se debates interdisciplinares com a presença
de profissionais e entidades sindicais;
.
Além de laboratórios, as universidades
devem contar com veículos próprios
como jornais-laboratório, rádios
e TVs universitárias permitindo ao aluno
ir além da simulação de mercado
e experimentar novas linguagens e formatos;
. É chegada a hora de rever a proibição
do estágio em jornalismo.
Como
se pode notar, há grande insistência
na palavra "Ética". Isto parece
recomendar que a disciplina de Ética seja
mais valorizada e que possa situar-se no primeiro
ano do curso e não no último porque
da mesma maneira que "jornalistas não
podem ser éticos sozinhos", como reconhece
o prof. Nilson Lage ("A reportagem teoria
e técnica de entrevista e pesquisa jornalística".
Rio: Record, 2001), vez que também as empresas
jornalísticas devem agir eticamente evitando "usar" o
profissional ao invés de colocá-lo
a serviço da comunidade, também o
professor não pode ser ético sozinho.
Afinal, se cada um criar sua própria ética,
ao final e ao cabo não teremos ética
nenhuma. O estudo do ético e do moral é necessário
exatamente porque, conforme Durkheim, citado por
Lage, "cada consciência vê as
regras morais sob uma luz particular". Ele
toma Karl Marx para explicar que a ética é superestrutura
de relações essencialmente econômicas,
concluindo, então, que "a ética
dominante atual é a do capitalismo extremado,
o que também significa, eventualmente, nenhuma ética".
Essa visão crítica que leva o aluno
e o professor a portarem-se eticamente do começo
ao fim do curso não pode ser passada depois
que o curso acabou, ou quando o aluno está para
entrar no mercado, como se ética fosse um
mero apêndice, um acréscimo, uma matéria
de apenas dois créditos, algo desimportante.
Pelo contrário, seria bom que em toda disciplina
fosse introduzida pelo menos uma aula com abordagem ética
sobre o tema tratado. Assim, seria conveniente
que se falasse de ética ao longo de todo
o curso e não apenas no primeiro ano, como
se defende aqui.
Dito
isto espero ter contribuído, embora
canhestramente, com a abertura desse debate sobre
Qualidade de Ensino de Comunicação
na Unesp de Bauru.(PCC).