No
jargão jornalístico, em definição
do Aurélio, "pauta é o roteiro
dos fatos que devem ser dados pela chefia de
reportagem apresentando um resumo do assunto
e a indicação ou sugestão
sobre como deve o tema ser tratado".
O
encarregado da pauta é a pessoa que
chega mais cedo à redação.
Precisa ler todos os jornais do dia com rapidez
e, ao mesmo tempo, com "olho de lince" para descobrir
indicações de pauta até num
anúncio classificado ou numa nota social,
num edital etc.
Também precisa contar com o apoio dos
repórteres de rua e dos setoristas, além
de contar com uma bem organizada agenda telefônica,
de modo que as indicações de pauta
não sejam genéricas, mas que tenham
dados específicos, citando corretamente
nomes de pessoas, lugares onde podem ser encontradas
e, se possível, adiantando para o repórter
um mini-perfil do cidadão. A pauta também
informa sobre eventos rotineiros ou não
previstos para o dia, citando locais e horários.
Armar
a pauta é uma tarefa trabalhosa
porque trata-se também de indicar a equipe
mais adequada a cada cobertura. Não é raro
que surjam conflitos entre repórteres
e pauteiros, especialmente quando a pauta "fura" e
o repórter volta sem produção.
2.
TIPOS DE CAPTAÇÃO
A
edição de cada dia é abastecida
com três tipos de captação
de notícias:
a)
Primária ( através do trabalho
dos repórteres na rua,
nos
setores ou em telefonemas às suas
fontes)
b)
Secundária ( Internet, agências,
releases etc)
c)
Terciária ( informações
de articulistas, colaboradores, leitores e pesquisas
do próprio pauteiro em jornais, revistas,
rádio-escuta etc)
Na
captação primária é mais
forte a influência da pauta, embora o pauteiro
possa orientar linhas de textos enviados por
agências, colunistas, colaboradores etc.
Mas é através dos repórteres
que a pauta acaba "angulando" a investigação,
antecipando o tom da edição seguinte.
3. QUENTE OU FRIA
A
pauta sobre os eventos do dia é chamada "pauta
quente". Mas enquanto os repórteres estão
na rua e nos setores ( ministérios, autarquias,
palácio do governo, casas legislativas,
Detran etc ) a Editoria de Produção
está providenciando artigos, reportagens,
cadernos especiais etc em comemoração
a datas festivas do calendário. Esta é a "pauta
fria". O objetivo é jamais deixar o jornal
desabastecido de boas matérias, mesmo
em épocas de poucas notícias como
durante o recesso parlamentar, por exemplo.
Com
seu modo especial de observar o que se esconde
atrás da notícia, o pauteiro consegue
extrair "leite de pedra". Mesmo quando seu jornal
leva furo, ele consegue partir para novas abordagens
que o concorrente não percebeu. Há mil
maneiras de noticiar o mesmo fato. No seu próprio
jornal, lendo as matérias do dia, ele
consegue providenciar novas investigações
que vão gerar matérias do tipo "suite".
Ele também programa "suites" para coberturas
continuadas como uma enchente, uma votação
importante, afinal, tudo que exige cobertura
continuada, mantendo o assunto em evidência.
O
redator do Manual de Relaciones Públicas
( Madrid, Ediciones Martinez Roca S.A. ) Philip
Lesly dá os seguintes conselhos ao pauteiro:
a) mantenha-se a par de todos os acontecimentos
do dia
b)
leia todos os jornais e revistas concorrentes
e ouça o maior número possível
de programas noticiosos de rádio e de
televisão, sem desligar-se da Internet
c) proponha entrevistas com personalidades
d)
idealize matérias sobre assuntos controvertidos,
ouvindo várias pessoas que tenham opiniões
divergentes
e)
mande seus repórteres a todas as conferências,
simpósios e congressos, pedindo-lhes que
anotem não só o que ouvirem, mas
que façam entrevistas sobre temas correlatos
ou paralelos
f)
publique histórias sobre as cidades
e entidades que aniversariam
g)
divulgue notícias sobre estâncias,
roteiros de viagens, excursões etc
h)
coloque seus repórteres permanentemente
em viagem para ouvir pessoas de várias
regiões sobre determinado assunto para
captar a "cor local"
i)
destaque as pessoas que se dedicam à filantropia
( mas denuncie a "pilantropia")
j)
critique construtivamente os poderes públicos
l) leia as cartas dos leitores
m)
repercuta assuntos nacionais e internacionais
( aumento do petróleo, escassez de alimentos,
epidemias etc )
n)
promova debates sobre temas que interessam
aos leitores, convidando técnicos para
falarem em auditórios com a presença
de estudantes, inclusive debates eleitorais
o)
prepare pautas criativas para o Dia das Mães,
Dia dos Pais, Dia dos Namorados, Dia da Criança,
Corpus Christi, Natal, Páscoa, Dia da
Cidade, Semana da Pátria etc
p)
mantenha estatísticas, dados históricos
e imagens sobre os mais variados assuntos que
possam vir a interessar ao jornal
O
pauteiro deve "cercar" o assunto para adiantar
a matéria. A partida iminente de uma nave
a Marte deve provocar amplo material de pesquisa
para referendar a notícia. A anunciada
chegada de um furacão rende muitas matérias
antes que ele chegue: entrevistas com autoridades
e moradores sobre os preparativos, opiniões
de meteorologistas e especialistas etc. O GP
de Fórmula 1 é notícia muito
antes de acontecer.
Nas
páginas 188, 189 e 190 de seu livro
já citado, Mário Erbolato imagina
a movimentação da redação
no caso de um acidente aéreo. Nessas horas
o pauteiro, chefe de reportagem, editor-chefe
e quem mais estiver no comando da redação
precisa ter a agilidade, a firmeza e, ao mesmo
tempo, o equilíbrio de um comandante em
plena batalha, ordenando e dirigindo toda a estratégia
de cobertura, deslocando repórteres de
outras áreas, cancelando pautas anteriores,
pedindo free-lancers ao Departamento de Pessoal,
providenciando recursos materiais e deslocamentos,
acionando o Departamento de Arte e iniciando
o fornecimento do material de pesquisa que vai
orientar e apoiar a cobertura de rua ( como ocorreu
na cobertura do incêndio do Ed. Joelma,
em S. Paulo, por exemplo; na queda do Avião
da TAM; na tragédia dos Mamonas Assassinos;
na morte de Tancredo Neves etc ).
Erbolato
imagina a emergência de um Boeing
da Empresa XYZ, procedente de Nova York, que
cai em Paulínia, a 18Km do Aeroporto de
Viracopos, em Campinas, onde deveria pousar,
causando, na queda, a destruição
de casas e instalações. O professor
imagina, então, a seguinte armação
da pauta:
I.Reportagem Local
1.
Envio de repórteres e fotógrafos
a Paulínia para:
a)
Descrever a situação e ouvir
depoimentos de pessoas que tenham visto a queda
do avião.
b)
Entrevistar o delegado de polícia
e os responsáveis pela indústria tal sobre
os prejuízos e possível tempo de
paralisação de suas atividades.
2. Viracopos:
a)
Saber a conversação mantida
entre a torre de controle e o comandante do Boeing.
b)
Obter informes, no balcão da Empresa
X Y Z, sobre a relação de passageiros
e escalas do avião. ( A reportagem é informada
que, a bordo, se encontrava Mr. Charles, alto
funcionário do departamento de Estado
Norte Americano, e o quadro titular do Clube
Canindé de São Paulo).
c)
Pedir a X Y Z nota oficial sobre o acidente
( que poderia também ser expedida pelos
escritórios da Companhia no Rio, São
Paulo ou Brasília).
d)Entrevistas
com as famílias de Campinas
que tinham parentes no avião. Ouvir também
as autoridades policiais.
II.
Correspondentes, Sucursais e Agências
de Notícia
1.
Pedir informações sobre como
foram as decolagens e pousos do avião,
no mesmo vôo, em Nova Iorque, Miami, Caracas,
Brasília e Rio de Janeiro (Galeão).
2.
Conseguir da Companhia X Y Z, na sua sede (Rio
de Janeiro), biografias do pessoal de bordo
e ouvir os familiares de todos eles, além
dos colegas que haviam sido seus companheiros
de viagens anteriormente.
3.
Entrevistar no Rio e Brasília (se
possível também em Caracas e Miami)
pessoas que viajaram no avião e desembarcaram
nessas cidades, para que descrevam o ambiente
a bordo e contem algo a respeito da viagem.
4. Ouvir, nos EUA, diretores da firma fabricante
do Boeing.
5.
Obter a opinião de diretores da Federação
Paulista de Futebol, do Clube Canindé,
de outras agremiações e de jogadores
e torcedores, a respeito dos atletas que morreram
no desastre.
6.Repercussão da morte de Mr. Charles,
ouvindo o Ministro das Relações
Exteriores do Brasil, Presidentes e Reis dos
países por ele visitados, quando em missão
de paz.
III. Ao arquivo seriam solicitadas as pastas
seguintes:
1. Mister Charles - Dados
biográficos,
trabalho que desenvolveu, declarações
recentes e notas do Ministério das Relações
Exteriores do Brasil e de chancelarias de outros
países, quando anunciaram a sua visita à América
do Sul.
2. Clube
Canindé - Objetivos de
sua visita ao exterior. Relação
dos países visitados. Jogos dos quais
participou durante essa última viagem
(vitórias, derrotas e empates). Possíveis
incidentes e relação das taças
conquistadas.
3. Jogadores - Biografia
de cada um e declarações recentes
deles.
4. Desastres
Aéreos - Quantos
acidentes com a Companhia X Y Z? Relembrar o último
ocorrido ( antes do atual). Acidentes aéreos
no Brasil e no mundo nos últimos 6 meses
ou ano.
5. Paulínia -
Histórico
da cidade, posição geográfica,
população, renda, desenvolvimento.
Breve relato das principais indústrias.
Lutas políticas. Obras públicas
etc.
6. Empresa Tal -
Descrição
de suas instalações. Síntese
do último relatório divulgado que
mencione área de construção,
produção , número de empregados,
planos. Outras fábricas da mesma organização
existentes no país e com as quais havia
intercâmbio.
7. Pastas diversas - Biografias de pessoas
proeminentes de Campinas ou cidades vizinhas
que morreram no acidente.
8. Viracopos -
Instalações,
histórico, movimento estatístico,
obras em execução, companhias que
operam no aeroporto etc.
As
reuniões em que as pautas são
discutidas, revistas e distribuídas nem
sempre são conduzidas com a seriedade
necessária. A pauta mal explicada pode
resultar em matérias desastradas, como
um comandante que programa erradamente o computador
de bordo, antes da decolagem, e acaba aterrissando
no meio da floresta, como, de fato aconteceu
tempos atrás porque o piloto estava distraído
com a copa do mundo.
Cremilda
Medina (" Notícia - Um Produto à Venda ".
São Paulo: Summus, l988) tem uma visão
muito crítica sobre as reuniões
de pauta. A opinião dela é citada
por Edvaldo Pereira Lima na pág. 60 do
livro " Páginas Ampliadas " ( Campinas:
Unicamp, l995 ):
" Nas rotinas de redação, momentos
decisivos como as reuniões de pauta pecam
por falta de domínio técnico-profissional.
A opção de assuntos e a forma como
tratá-los raramente é levada no
grau de seriedade e aprofundamento que a situação
exige. Assim, por exemplo, à falta de
imaginação (criação),
uma das fontes mais comuns de pauta é a
seleção de assuntos já publicados
em outros veículos. Uns jornais se pautam
pelos outros num círculo vicioso fechado
e pobre. A criação de pauta não é ficção
- inventar uma meta- realidade, contar histórias
literárias sobre a vida, mas é,
sem dúvida, a descoberta de ângulos,
a busca de problemas imanentes ou subjacentes
dessa mesma realidade. E nesse sentido os pauteiros
e editores que se reúnem para programar
seu dia de amanhã e o de hoje precisam
de preparo técnico ( conjunto de repertório
cultural, aprendizado jornalístico e maturidade
para assumir mudanças das rotinas ) para
desenvolver essas pautas, sugerir reportagens,
relacionar temas, prever edições
especiais. Porém raras vezes nos defrontamos
com reportagens que articulem e aprofundem um
determinado problema social o que reflete uma
deficiência do jornalismo brasileiro. É que
não passamos de um jornalismo noticioso
precário para um jornalismo interpretativo
mais maduro, em grande parte por deficiência
profissional dos que conduzem o processo, por
ausência dos criadores aptos a aproveitar
o espaço de um jornal em todas as suas
possibilidades, a exercer uma dinâmica
atuação que transforme uma notícia
passageira em documento de realidade ".
4.
PLANEJAMENTO E ANGULAÇÃO
A
criação americana da pauta surgiu
no Brasil com a reforma editorial dos jornais Última
Hora ( Samuel Wainer ) e Diário
Carioca ( Danton Jobim e Pompeu de Souza
), na década de 1950. Nessa época
também surgiram as novas técnicas
de escrever para jornal, o lead, os manuais de
redação e o planejamento centralizado
da edição através da instituição
da pauta, de modo que as matérias são
programadas não apenas quanto aos fatos
a serem apurados, mas, principalmente, quanto à linha
de orientação do texto (Lage 2001).
A
pauta se generalizou por toda a imprensa brasileira
com a industrialização plena do
setor na década de 1970. Mas não
basta existir uma boa pauta para que se tenha
um bom jornal. A este respeito observa Nilson
Lage: "O êxito de uma pauta depende
essencialmente de quem a executa. O trabalho
de reportagem não é apenas o de
seguir um roteiro de apuração e
apresentar um texto correto. Como qualquer projeto
de pesquisa, envolve imaginação, insigth:
a partir dos dados e indicações
contidos na pauta, a busca do ângulo ( às
vezes apenas sugerido ou nem isso ) que permita
revelar uma realidade, a descoberta de aspectos
das coisas que poderiam passar despercebidas".
Sobre
a função de planejamento
da pauta, afirma o professor Lage: "O planejamento
da edição – primeiro objetivo da
pauta – garante interpretação menos
imediata, emocional ou intempestiva dos eventos;
diminui a pulverização de esforços
em atividades improdutivas; permite a gestão
adequada dos meios e custos a serem utilizados
numa reportagem ( seja para meios impressos,
televisão, rádio ou Internet )".
Pode-se
observar, claramente, que a pauta tem a ver
com o moderno jornalismo empresarial onde
não se pode desperdiçar tempo e
recursos. Daí que o próprio jornalista
precisa aprender a ser uma pessoa organizada
porque já vai longe o folclórico
tempo do jornalismo boêmio que se comprazia
apenas no beletrismo de escrever bonito. Hoje
o mercado se profissionalizou, tornou-se complexo,
a concorrência é acirrada, o leitor é exigente,
os editores e secretários de redação
cobram qualidade e o Departamento de Recursos
Humanos não pensa duas vezes quando recebe
ordens de "enxugar a folha". Não
se trata de fazer terrorismo, mas de alertar
os jovens profissionais para a seriedade da profissão.
Como
já foi dito, a pauta também
tem o seu componente ideológico, assegurando
a conformidade da matéria jornalística
com os interesses empresariais ou políticos. É aqui
que se estabelece o perigoso terreno da consciência.
Até onde o jornalista deve acatar a pauta
do jeito que ela lhe é passada? O que
ele pode fazer para preservar sua consciência
diante de uma pauta claramente viciada e tendenciosa?
Afinal, sabemos que existe liberdade de empresa,
muito mais que liberdade de imprensa. Como fazer
para manter o emprego e a dignidade ao mesmo
tempo? São perguntas difíceis para
temas tão polêmicos. Talvez o único
caminho que resta ao repórter seja conquistar
o respeito do pauteiro e dos editores através
da sua própria seriedade na apuração
e no relacionamento com as fontes, de modo a
ter postura para discutir "de igual para
igual" quando discordar da pauta. Ser bem
informado é moeda forte dentro de qualquer
redação. Informação
( isto é, boas fontes ) vale respeito.(Leia
o artigo "Diga não ao pauteiro",
em <planeta.terra.com.br/educacao/pedrocampos> a
respeito da cobertura da imprensa sobre o atentado
de 11 de set.2001 nos EUA).