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Para onde vai o Jornalismo

Prestes a inaugurar um novo século e um novo milênio, a humanidade faz um balanço dos avanços alcançados pela ciência nos últimos cem anos. No que se refere aos meios de comunicação, os avanços da tecnologia certamente colocaram à disposição do ser humano uma infinidade de vantagens em relação ao início do século XX, quando as primeiras empresas jornalísticas começaram a se estruturar profissionalmente.

De todos esses avanços, talvez o mais expressivo tenha sido a capacidade de transmitir e receber informações com rapidez cada vez mais acelerada. Em cem anos, o homem superou o espaço-tempo da informação distribuída a cada 24 horas, nos jornais, para atingir o jornalismo on-line que disponibiliza a informação quase ao mesmo tempo em que o fato está acontecendo, assegurando níveis de atualização jamais imaginados nos tempos pioneiros do jornalismo.

Pesquisadores e estudiosos, alertados para a vertiginosa escalada de mudanças nos paradigmas da área, indagam-se sobre os resultados que tudo isto terá na relação entre quem produz o texto informativo e quem o recebe. Querem saber como vai ser o jornal do futuro e que papel representará o jornal tal qual conhecemos hoje. Como as novas tecnologias afetarão o processo de aprendizagem nas escolas de jornalismo? Que tipo de ensino será necessário para o novo profissional da informação em tempo real?

Buscando respostas sobre as tendências desse novo jornalismo, as pessoas que se interessam pela área acompanharam com atenção o 53Ί Congresso Mundial de Jornais, realizado no Rio, de 9 a 14 de junho último, com a presença de 1.300 participantes, representando 71 países. Discutiu-se amplamente o tema "A Imprensa do Próximo Século e a Reorganização das Empresas Jornalísticas", com ênfase para o papel da Internet no meio informativo. Paralelamente foi realizado o 7Ί Fórum de Editores.

Tratando-se de um evento empresarial, não houve espaço, naturalmente, para aprofundamentos relacionados com o ensino da comunicação. "Ainda não sabemos qual a melhor formação para o novo profissional", disse o presidente da Associação Mundial de Jornais ( ou World Association of Newspaper, em inglês ), Timothy Balding. Ele sabe, entretanto, que o futuro jornalista deverá estar habilitado a produzir conteúdos que alcançarão o receptor através de multimeios como TV, Rádio, Televisão, Jornal Impresso, Internet...Narrou a experiência do " Orlando Sentinel", da Flórida-EUA, onde os repórteres fazem, num só dia, matérias escritas, trabalham como âncoras na TV, apresentam notícias no Rádio e preparam matérias para a Internet.

Mostrando que os jornais eletrônicos trazem nova audiência para a mídia impressa – ao invés de destruí-la como chegou a imaginar Bill Gates – Balding afirmou que os anunciantes estão perdendo a confiança na TV aberta devido à queda de audiência. Os usuários estão emigrando para a Internet na medida em que o computador vai chegando a um número cada vez maior de casas. "Surgida há cinco anos, ninguém sabe para onde vai a Internet", disse.

Para o jornalista brasileiro Rosenthal Calmon Alves, professor da Universidade de Austim, no Texas, não se deve esperar que o formato atual do computador dificulte o acesso das pessoas ao jornalismo eletrônico porque já existem aparelhos que permitem ler o jornal em qualquer lugar, sem uso de papel. Ele prevê que " logo tais aparelhos estarão tão eficientes e baratos que as pessoas vão carregá-los consigo e as empresas terão que produzir conteúdos, notícias escritas ou imagens para abastecê-los".

A redução das tiragens de papel com a "mudança" dos leitores para o site eletrônico do jornal preferido, vai ser altamente benéfico para as empresas, segundo Rosenthal, porque elas têm no papel 85% de seus custos.

Com nova apropriação dos custos de produção, certamente sobrarão recursos para as empresas pagarem melhor pelo trabalho intelectual de quem produz informação, porque o mercado de trabalho está assegurado para esses profissionais e será cada vez mais exigente quanto à qualidade, à criatividade e à ética, fatores determinantes na credibilidade da publicação, seja qual for o suporte de leitura.Também para o professor Rosenthal, o desafio é preparar adequadamente o profissional do futuro, com este novo perfil.

De acordo com a diretora de Jornalismo do jornal carioca " O Dia", Ruth de Aquino, presidente do 7Ί Fórum Mundial de Editores, a alternativa dos jornais, hoje, está na "convergência de mídia", ou seja, na possibilidade de um grupo de comunicação produzir sites, jornais, rádios e tevês. Segundo ela os jornais sabem que são uma usina de conteúdo e quanto vale ter uma redação que está produzindo informações para todo tipo de mídia.

Isto exigirá um profissional cada vez mais qualificado e em sintonia com as novas tecnologias.

Conexão gratuita e permanente

A previsão de que o equipamento eletrônico vai se adaptar às necessidades dos usuário de informação foi reafirmada, no Congresso, pelos consultores Fredrick Gren e Luis Ubinãs, da McKinsey & Company. Na visão futurista deles, a Internet sem fio e a banda larga, 20 vezes mais rápida que a atual ( estreita ) acabarão com o problema da conexão. A um preço único, o usuário poderá ficar conectado 24 horas por dia.

Na opinião deles, o segredo para as empresas jornalísticas sobreviverem nesse novo ambiente está no que elas mais sabem fazer: produzir informações. Por isto acreditam que como o rádio não acabou com o jornal, como a TV não acabou com o rádio e o jornal, assim a Internet chega para fortalecer e não para acabar com os jornais.

Antes que a Internet complete sua primeira década, o leitor habitual de jornais terá se transformado em seu próprio editor, selecionando e imprimindo em casa apenas o que lhe interessa, segundo avaliação de Gunther Bottcher, diretor-executivo da Infra, empresa de consultoria tecnológica ligada à Associação Mundial de Jornais. Segundo ele as novas tecnologias conectarão o leitor diretamente com os centros de produção dos jornais, permitindo imprimir em casa ( home printing ) um jornal de 48 páginas, em um a três minutos, antes mesmo que a edição de papel esteja em circulação convencional ( bancas e assinantes ). Isto permitirá aos jornais enfrentar a concorrência da própria Internet.

Na rede, em números

Quem fala na nova economia da Internet fala em grandes números. É assim também no jornalismo on-line que vem conquistando novos usuários o tempo todo, o que significa incorporar, também, fatias cada vez mais expressivas do mercado publicitário. Durante o Congresso Mundial de Jornais, o jornalista John Perriss, presidente da Zenith Media Worldwide, empresa de consultoria em comunicação que atua em 34 países, revelou que em 1998 o mercado on-line movimentou US$ 200 milhões e que a previsão para 2.003 é de US$ 600 milhões. Um dos motivos dessa preferência crescente pelo anúncio on-line é que os anunciantes consideram a mídia impressa muito conservadora.

Segundo o diretor da Media & Entertainment Research, Christopher Charron, "em cinco anos 18% da verba publicitária normalmente destinada à mídia impressa, será desviada para a Internet". O setor de classificados é o que está emigrando mais rapidamente para a rede. Dentro do segmento de classificados, os produtos que despertam mais interesse dos usuários de computador são os empregos, os carros e os imóveis. Charron disse que "até 2.005 haverá uma redução de 25% dos classificados impressos".

Mas, quando se fala em percentuais na Internet, de que dimensões se está falando? Qual o tamanho da rede, hoje?

Apesar do crescimento constante, estudos como o do "Pew Research Center for the People and the Press", de Boston-EUA, revelam que, em 3.142 adultos pesquisados, nos Estados Unidos, 32% das pessoas com grau universitário e menos de 50 anos conectam-se à Internet para informar-se diariamente e apenas 20% vêem o noticiário noturno de TV. O levantamento, relatado no Congresso pelo diretor do Pew Center, Andrew Kohut, revelou que 59% dos lares americanos têm computador, quase o dobro em relação a 1994, e 26% estão ligados na Internet. Na América Latina os usuários de Internet não chegam a 1% da população, ficando em 0,8%, o que aponta para um amplo mercado que se abrirá para o jornalismo on-line nos próximos anos.

Tamanho da Imprensa brasileira

O Congresso Mundial contou com uma palestra do diretor do Grupo Estado, Francisco Mesquita Neto. Ele explicou porque o mercado brasileiro tem espaço para crescimento: " Nossa circulação ainda está em 44 exemplares por mil habitantes, muito abaixo dos países desenvolvidos, sem falar no Japão e na Noruega onde a média passa muito dos 500 por mil".

Informando que nos últimos 12 meses foram lançados cinco títulos com média de circulação de 100 mil exemplares e que outros seis estão a caminho, Mesquita Neto disse que a tiragem da imprensa brasileira cresceu 69,43% entre 1990 e 1999, passando de 4,2 milhões de exemplares em 1990 para 7,2 milhões em 1999, num aumento anual de 7%.

O número de diários regionais aumentou de 367 títulos em 1998 para 460 em 1999.

Dados da Associação Nacional de Jornais, citado por Mesquita Neto, mostram que o Brasil tem, hoje, 2.245 jornais, sendo 465 diários; 1.500 revistas; 08 redes nacionais de TV com 360 emissoras filiadas ou independentes; 7 milhões de internautas; 38 milhões de residências com TV; 40 milhões de residências com rádio e 3 milhões de residências com TV paga.

As dez maiores tiragens do país, segundo a Associação Nacional de Jornais, são:

Folha de São Paulo – 472 mil; O Estado de S. Paulo – 367 mil; O Globo – 335 mil; O Dia – 295 mil; Extra – 252 mil; Correio do Povo ( tablóide ) - 219 mil; Zero Hora ( tablóide ) – 160 mil; Diário Popular – 144 mil; Agora São Paulo – 138 mil; Gazeta Mercantil – 112 mil.

Conclusão

A conclusão a tirar destas informações sobre os avanços tecnológicos do jornalismo na virada do século e do milênio relaciona-se com as teorias clássicas que estudam a produção e a emissão do discurso, atualizando formas de pensar que preconizam maior interatividade entre aquele que produz e aquele que consome o texto informativo. Bem de acordo com a Teoria da Recepção de Jauss – que concebe o receptor como sujeito ativo do texto, aquele que influencia o processo de produção do discurso ao optar, criticamente, por suas qualidades – ou com a Teoria da Análise do Discurso, de Pêcheux – que se refere ao homem como sujeito, mas não um sujeito ideal e abstrato, e sim um sujeito concreto, histórico, porta-voz de um amplo discurso social – o que se vislumbra no futuro do jornalismo é essa conectividade imediata entre redator e leitor. De algum modo o leitor, no recesso do lar, não será apenas um crítico privilegiado do novo jornalismo, será o seu próprio editor, imprimindo seu próprio jornal, jogando na lata de lixo o que não interessa, deletando informações desatualizadas, navegando por outros sites com mais qualidade e protestando diretamente, por e-mail gratuito, contra o que discordar, além de participar de fóruns de debate, pesquisas interativas, salas de bate-papo, conferências on-line, programas de TV on-line etc. A primeira conclusão que se tira, então, das novas tecnologias é a relação de proximidade, o encurtamento de distâncias entre quem escreve e quem lê. Deve-se levar em conta, por sinal, pesquisas recentes segundo as quais o que mais atrai o leitor, diante da tela do computador, não são as imagens e sim o texto escrito contendo informações de seu interesse imediato como notícias locais e outras sobre crimes, desastres, esporte, condições do tempo etc. "Só depois de passar pelo texto, até por meia hora seguida, o leitor presta atenção às imagens da tela, dedicando a elas apenas um segundo de atenção, suficiente para serem notadas, enquanto gráficos e fotos recebem apenas um quarto de segundo", relatam pesquisadores da Stanford University e do Poynter Institute, dos EUA. A capacidade de escrever, portanto, continuará em alta no jornalismo digital do novo século.

Em segundo lugar pode-se concluir que a característica do jornal do futuro será a velocidade da atualização on-line, mas continuará cabendo ao jornalismo decidir o que é notícia, ficando com o jornal de papel a função de se aprofundar nos editoriais e nas reportagens interpretativas, isto é, no texto mais amplo e detalhado que presta serviço ao leitor ajudando-o a entender melhor o contexto da informação.

Em terceiro lugar cabe lembrar que o ensino terá que ser repensado. A amplitude genérica dos atuais Cursos de Comunicação Social precisa ceder lugar à formação específica do jornalista com habilidades em rádio, jornal, TV e Internet. A especialização do novo jornalista deve nascer dentro da escola através de uma interdisciplinaridade que contemple um mercado de trabalho cada vez mais complexo e exigente do ponto de vista da qualidade ética e profissional. Não bastarão laboratórios abarrotados de computadores ligados na Internet. Será preciso aprender a dominar a linguagem da rede e os seus conteúdos, aprendendo a lidar com eles de forma prática e rápida, tal qual se fazia com as técnicas da notícia no já velho jornal de papel.

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