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O que é Comunidade?

O Jornalismo Comunitário está voltado para os interesses de um grupo de pessoas que vivem em comunidade porque têm algo em comum: o mesmo bairro, o mesmo trabalho, a mesma religião, a mesma escola, o mesmo sindicato etc.

Recorrendo à classificação de Perelman para os auditórios da Retórica, pode-se falar em Comunidade Particular ( fisicamente estabelecida em limites geográficos ou ambientes ) e Comunidade Universal ( unida pelos mesmos ideais, embora disseminada pelo mundo). Classificamos de "comunidade católica" tanto os fiéis que freqüentam a Igreja num bairro da cidade, como o conjunto de milhares de pessoas que confessam a mesma religião no mundo inteiro.

É importante, porém, definir melhor o que se entende por Comunidade.

Os termos latinos communio e communitas são equivalentes para significar comunhão, participação, congregação. Todo grupo que tem alguma coisa em comum forma uma Comunidade de Interesses, seja a Comunidade das Nações congregadas na ONU, seja a comunidade do bairro tal, na cidade tal; seja a comunidade de uma determinada empresa, escola. Todos comungam interesses semelhantes, isto é, "comuns a todos".

Comunidade é qualquer grupo social que habita determinada região, tem o mesmo governo e está irmanado por uma mesma herança cultural e histórica. É qualquer conjunto populacional considerado a partir de aspectos geográficos, econômicos ou culturais comuns: a comunidade latino-americana.

Também se dá o nome de Comunidade a um grupo de pessoas que exercem atividades afins, com características específicas e individualizantes: a comunidade médica, a comunidade dos comerciantes; ou a um grupo de pessoas que praticam a mesma crença ou ideal: a comunidade católica; ou a um grupo de pessoas que vivem submetidas a uma mesma regra religiosa: as Irmãs do Imaculado Coração de Maria.

Do ponto de vista social, comunidade é o agrupamento social que se caracteriza por forte coesão baseada no consenso espontâneo dos indivíduos, conforme definições do Aurélio.

Na Idade Média as Comunidades Religiosas eram conhecidas por comunas, nome que também designava as cidades autônomas da Europa feudal.

O termo comuna tem o sentido de "comunidade cooperativa", geralmente igualitária, formada por motivos econômicos, políticos ou ideológicos. No séc. XIX, com o desenvolvimento do socialismo utópico, criaram-se algumas comunas experimentais como a New Harmony e a Brook Farm, nos EUA, e a Colônia Cecília, no Brasil (Paraná). Atualmente são formas de comuna as unidades rurais chinesas ( fundadas em 1958) e o Kibutz, de Israel.

Para o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1887), " comunidade é o grupamento humano onde predominam a economia doméstica e a organização social fundada nas relações de parentesco e no prestígio", enquanto sociedade é o grupamento onde predominam as relações secundárias, isto é, mediatizadas por contratos.

As igrejas cristãs chamam de "comunidades primitivas" os grupamentos dos primeiros seguidores de Cristo, que, em Roma e no Império Romano, enfrentavam perseguições e martírios por causa da fé. Os apóstolos narram que " eles tinham tudo em comum" .

O regime tribal dos indígenas brasileiros e de grupamentos étnicos semelhantes também recebem essa designação de "comunidade primitiva", pela característica do processo de produção coletivista e distribuição de bens, o que caracteriza o "comunismo primitivo", pela análise social de Marx e Engels.

Viver em Comunidade


Sob o aspecto biológico, também um conjunto de populações vegetais e ou animais, em uma mesma área, formando um todo integrado e uniforme, leva o nome de comunidade.

Como se diferencia a comunidade dos homens da comunidade dos animais ou das plantas?

Na "Dialética do Esclarecimento", Th. Adorno e M. Horkheimer fazem essa comparação: " O mundo do animal é um mundo sem conceito. Nele nenhuma palavra existe para fixar o idêntico no fluxo dos fenômenos, a mesma espécie na variação dos exemplos, a mesma coisa na diversidade das situações. Mesmo que a recognição seja possível, a identificação está limitada ao que foi predeterminado de maneira vital. No fluxo, nada se acha que se possa determinar como permanente e, no entanto, tudo permanece idêntico, porque não há nenhum saber sólido acerca do passado e nenhum olhar claro mirando o futuro. O animal responde ao nome e não tem um eu, está fechado em si mesmo e, no entanto, abandonado; a cada momento surge uma nova compulsão, nenhuma idéia a transcende. (...) A transformação das pessoas em animais como castigo é um tema constante dos contos infantis de todas as nações. Estar encantado no corpo de um animal equivale a uma condenação. Para as crianças e os diferentes povos, a idéia de semelhantes metamorfoses é imediatamente compreensível e familiar. Também a crença na transmigração das almas, nas mais antigas culturas, considera a figura animal como um castigo e um tormento. A muda ferocidade no olhar do tigre dá testemunho do mesmo horror que as pessoas receavam nessa transformação. Todo animal recorda uma desgraça infinita ocorrida em tempos primitivos. O conto infantil exprime o pressentimento das pessoas".

Ao integrar-se em uma comunidade, o homem busca a aceitação do outro, a identificação do grupo, o fortalecimento da união. Isto leva, de um modo geral, à solidariedade, ao apoio mútuo, ao sentimento de grupo, de unidade. Ações coletivas são desenvolvidas para reavivar esse sentimento de "boa vizinhança" ( como nas festas dos moradores dos bairros ) ou de "coesão do grupo" ( como nos times esportivos, nos grupos étnicos, profissionais etc).

Assim, a comunidade de moradores de um determinado bairro une-se para ter um representante na Câmara que defenda os interesses do lugar; une-se para que o bairro seja asfaltado ou ganhe uma creche, uma linha de ônibus, uma nova empresa, uma escola, um posto de saúde, um posto de polícia.

A vivência do homem em comunidade, onde as experiências individuais e coletivas são trocadas e absorvidas de forma solidária e constante, é explicada, do ponto de vista filosófico, pela Fenomenologia que – em contraposição à filosofia tradicional e racionalista do séc. XVII ( Descartes, por exemplo ), onde se preconizava o estado de consciência pura separada do mundo real, abstratamente – tem como preocupação central a descrição da realidade, colocando como ponto de partida de reflexão o próprio homem, no esforço de encontrar o que realmente é dado na experiência, descrevendo "o que se passa" efetivamente do ponto de vista daquele que vive determinada situação concreta.

Fornecendo os conceitos básicos para a reflexão existencialista, a Fenomenologia procura explicar a vida concreta do homem real e não a vida etérea de seres imaginários. Nessa concretude está a luta do homem, em comunidade, por dias melhores para si, para sua família, para seu grupo.

Essa interação dos grupos sociais se dá através da vivência comum constituída de sensações ( prazer, dor ), sentimento e atitudes (raiva,amor,cortesia) e símbolos (gestos vocais ou outros, linguagem escrita ou falada, que seus agentes trocam mutuamente). São, portanto, três os níveis em que se processa a interação social da comunidade: o nível dos Sentidos, o nível das Emoções e o nível das Idéias.

É neste último que entra o processo de comunicação destinado a reforçar o grau de interação do grupo na medida que exterioriza suas manifestações em cada um dos três níveis, valorizando essas formas de expressão.

O Jornalismo Comunitário que se dirige a esse grupo social congregado em torno de interesses comuns, terá que ser, portanto, um jornalismo real, eticamente estribado na verdade dos fatos, na pesquisa dos dados, na explicação dos fenômenos, na interpretação da realidade. Isto dará "proximidade", dará "identidade" ao grupamento social que se define como Comunidade, ao contrário do que ocorre em relação à chamada Grande Imprensa que está distante daquela comunidade e sequer a conhece, quanto mais aos seus problemas e às suas "pessoas". Por isto é importante chamar as pessoas pelo nome, quando se faz Jornalismo Comunitário. Por isto é necessário respeitar o modo das pessoas se expressarem porque esse modo – ainda que com palavras coloquiais e até erradas – é o traço de união que identifica, que aproxima a comunidade. Se o traço for cortado a comunicação sairá prejudicada e deixará de atingir seus objetivos.

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