A
notícia usada como
informação, no jornalismo, tem
duas partes muito claras: Entrada e Corpo. A
entrada, ou lead, informa, resumidamente, o que
aconteceu, com técnicas que visam "prender" a
atenção do leitor para conduzi-lo
ao corpo da matéria, onde o fato será explicado
com mais detalhes e contextualização.
Na
pressa do fechamento, ou para simplificar o
trabalho mesmo, a maioria
dos jornalistas começam a matéria
na ordem direta ( "O Presidente da
República disse ontem, em Belo Horizonte,
que o Governador Itamar Franco está blefando.
O motivo do comentário foi a anunciada
intenção do governador mineiro
de mandar a Polícia Militar Mineira ocupar
a Usina de Furnas se o Governo Federal insistir
na idéia de privatizar a empresa").
Com
um pouco mais de tempo e criatividade, o repórter pode abrir a
matéria de forma menos simplista, talvez
com uma declaração interessante
do Presidente ( "Se ele ocupar nós
vamos desocupar", disse ontem o presidente, em
Belo Horizonte, referindo-se..."), com algum
dado que reflita a briga dos dois ( "Preocupado
com a ameaça do governador Itamar Franco
de ocupar a estatal Centrais Elétricas
de Furnas se a empresa for privatizada, o Presidente
da República disse ontem em Belo Horizonte..."), ou
com outra forma indireta ( "Se depender do
Presidente da República, o governador
Itamar Franco já pode mandar a PM mineira
ocupar Furnas porque o processo de privatização
das estatais não vai parar. Foi o que
deixou claro, ontem, em Belo Horizonte, o presidente
FHC ao comentar....")
Na
verdade há mil maneiras
de abrir uma notícia.
O
importante é que a
abertura seja criativa mas não empolada
como o antigo "nariz de cera", pois hoje o leitor
não tem tempo a perder. Ser direto e ser
criativo ao mesmo tempo é o grande desafio
para quem precisa escrever bem e depressa.
Na
notícia acima, o lead
ou entrada responde a perguntas básicas
para prender o leitor:
QUEM?
O Presidente da República
FEZ
O QUE? disse que não
está preocupado com a ameaça de
Itamar Franco
QUANDO? ontem
ONDE? em Belo Horizonte
COMO?
ao comentar informações
de que o governador pretende
ocupar Furnas
POR
QUE? porque o processo de privatização não
pode parar
É recomendável
que as quatro respostas iniciais venham logo
no início da matéria, isto é,
na abertura, conduzindo ( daí a palavra
lead ) a atenção do leitor para
o corpo do texto onde haverá mais espaço
para dar as duas últimas respostas ( Como?
Porque? ) que o leitor cobra numa notícia
completa, por menor que seja.
Um
bom lead não precisa
ter mais de cinco linhas. Se for preciso desdobrá-lo,
pode-se usar um segundo parágrafo como
sub-lead.
O "QUE" indaga
sobre o fato.
"QUEM" refere-se ao protagonista
da ação
"QUANDO" informa
a data correta do evento
"ONDE" esclarece
em que lugar o fato ocorreu
"COMO" descreve
o modo
"PORQUE" esclarece
os motivos que causaram o fato.
A "resposta" de abertura da
matéria pode se referir a qualquer uma
das seis perguntas básicas:
PORQUE? "Sentindo-se traído
pela mulher, Joana da Silva, o pedreiro Joaquim
Santos chegou em casa, no Jardim Alphaville,
ontem à noite, embriagado e disposto a
se vingar. Após violenta discussão,
matou a mulher com três tiros à queima-roupa..."
COMO? "Com três tiros, à queima-roupa,
após uma discussão, o pedreiro
Joaquim Santos.."
ONDE? "Na casa número
130, da Rua Anchieta, no Jardim Alphaville, o
pedreiro Joaquim Santos...
QUANDO? "Ontem, às
duas horas da madrugada...."
QUEM? "Joaquim
Santos, 32 anos, pedreiro, residente na Rua
Tal..."
O
QUE? "Matar a mulher com três
tiros foi a solução que o pedreiro
Joaquim Santos deu a uma suspeita de traição".
Depois
de satisfazer a curiosidade do leitor, o redator
pode partir para explicações
mais detalhadas que vão se situar no vértice
da chamada "pirâmide invertida", de modo
a não comprometer a compreensão
da notícia se for preciso cortar o "pé" da
matéria por falta de espaço. Observação:
Usa-se o termo "pirâmide invertida" em
contraposição ao estilo literário
( pirâmide normal) onde o autor deixa o
mais importante para o final, fechando o livro
em clima de tensão e suspense (Amaral,
1987).
Antigamente
os cortes no final da matéria jornalística eram inevitáveis
por causa da composição das linhas
gráficas em chumbo. Com o off-set e, depois,
com o computador, é possível reduzir
o tamanho da notícia para que ela saia
sem cortes. Mas isto também tem limites,
pois o jornal tem necessidade de publicar o maior
volume possível de notícias para
não ser furado pelos concorrentes ou para
tentar "competir" com os meios eletrônicos,
afinal, para manter o leitor bem informado. De
qualquer forma, a boa técnica manda sintetizar
toda a notícia no lead, garantindo-se
informação plena sobre o assunto.
Conforme o espaço que lhe for destinado,
o repórter poderá detalhar mais.
Esse
detalhamento, respondendo ao "Porque?" ou "Para Que?" vai dar o contexto
social, econômico, cultural, histórico
etc do fato. Quais os antecedentes? O que causou
isto? Como se chegou a isto? O que motivou fulano
de tal a dizer isto ou a fazer aquilo? O que
este acontecimento vai significar? Quais os desdobramentos
possíveis no caso? Que objetivos se buscam
com isto?
Com
essas respostas o repórter
poderá dar um caráter interpretativo
ao fato, talvez ouvindo outras fontes, citando
pessoas que conhecem o assunto, como veremos
ao tratar do gênero Interpretativo. Tudo
vai depender do volume de informações
que o repórter tiver em mãos e
do espaço que lhe for destinado.
Nas
reportagens há espaço
para aberturas mais originais, mas isto veremos
ao tratar exatamente das técnicas de reportagem.
Na notícia é preciso seguir pelo
menos o básico, isto é, dar logo
o fato principal, a essência da informação.
Se a notícia comporta vários fatos
importantes, simultaneamente, é preciso
escolher o mais impactante deles para começar.
Alguns
autores acham desnecessária
essa preocupação com o lead. Entendem
que o mais importante é abrir a matéria
de modo a torná-la interessante para o
leitor e ir revelando aos poucos os detalhes
da história. O que se deseja é que
a noção de lead não se transforme
numa camisa de força que possa prejudicar
a criatividade do jornalista. Mas a resposta às
perguntas clássicas não deve se
afastar muito das linhas iniciais do texto se
queremos passar uma informação
inicial ao leitor mais apressado, àquele
que faz uma "primeira leitura" e depois
decide se entrará nos detalhes.
É fundamental que se
tenha um estilo claro, correto, conciso, sem
nenhum gasto supérfluo de palavras. Muito
elogiado por um repórter iniciante que
depois viria a se tornar o grande Ernest Hemingway,
o manual de estilo do "Star" recomenda que o
primeiro parágrafo da notícia empregue
frases curtas, que seja breve, que tenha uma
linguagem vigorosa sem esquecer a suavidade e
que seja positivo, não negativo.
Para
ser claro, por exemplo, é preciso
algum cuidado na escolha das palavras e das frases.
Palavras muito compridas dificultam a leitura.
O mesmo ocorre com as frases muito longas. As
frases da Associated Press, por exemplo, são
construídas de modo a terem de 23 a 27
palavras. Outros textos dão como limites
ideais 18 a 23 palavras ( Amaral-1987). Mas o
autor observa que não está no lead,
na pirâmide invertida ou nas regras da
estilística, apenas, a garantia de uma
boa matéria. Há que se levar em
consideração o interesse que poderá despertar
no possível leitor. É preciso que
a abertura da notícia fale ao leitor...e
isto vai depender do interesse humano, vale dizer,
do sentimento, da capacidade de sentir. Assim,
ao selecionar os assuntos de abertura da matéria,
o jornalista deve descobrir um ponto de interesse,
de contato, uma brecha capaz de conduzir o leitor
para dentro da matéria.
A
palavra-chave da boa abertura, portanto, é criatividade. E não
há criatividade sem sensibilidade, sem
estar aberto para o que acontece em volta.
Uma
boa técnica para
despertar o interesse humano do leitor é escolher
informações que lhe dizem respeito,
diretamente, de modo que o leitor sinta-se incluído
na matéria, identificado com ela, participante.
Alguns
psicólogos defendem
a seguinte escala de interesses, conforme registra
Luiz Amaral: O próprio leitor (experiência
quotidiana, trabalho, ambiente, ambições,
curiosidades), o próximo (família,
vizinhança, comunidade); pessoas conhecidas
(personalidades,
artistas, heróis, "olimpianos" em
geral); os homens em geral (sentimentos e preocupações
de valor universal, mitos, grandes problemas),
animais (animais domésticos, animais exóticos,
animais pré-históricos) além
de sexo, morte, destino, dinheiro, tempo, piedade,
generosidade, novas tecnologias etc.
2. COMO ENCERRAR
Muitos
iniciantes têm
dificuldade para abrir a matéria. Antigamente
embolava-se a lauda iniciada que era jogada no
lixo. Mas agora não há mais máquinas
de escrever. Apaga-se o texto ruim no computador.
O tempo, porém, é precioso na hora
do fechamento. Por isto o mais recomendável é aproveitar
a viagem de volta no carro da reportagem - entre
o local dos fatos e a redação -
para traçar mentalmente um plano de ação
de modo que ao sentar-se diante do teclado não
seja preciso recomeçar nada, iniciando-se
com o fato principal e seguindo adiante com o
plano já traçado, a menos que surjam
fatos novos durante a redação do
texto.
Outros
não conseguem "fechar" a
matéria. Sempre acham que falta alguma
coisa para "arredondar" a notícia. Como
sempre, cada caso é um caso. Há encerramentos
que comportam uma citação que condensa
o conteúdo da informação,
um fato concreto que ajuda a entender melhor
etc. Do contrário, basta encerrar quando
o estoque de dados disponíveis se esgotar.
Todo
gênero jornalístico é informativo.
Não se pode noticiar, interpretar, opinar
ou mesmo redigir um texto recreativo sem partir
de uma informação qualquer. Para
Cremilda Medina ("Notícia, um produto à Venda".
São Paulo: Summus, 1988), "fora alguns
espaços, como o da história em
quadrinhos, por exemplo, onde a mensagem diversional
(ou recreativa) é diretamente vinculada
com o lazer, fica muito difícil separar
informação de distração
no contexto da cultura de massa".
Ela
também observa que "um
grande incêndio ou acidente aéreo
exige uma cobertura extensa, interpretativa;
a queda de um governo ou de um regime cria espaço
repentino em várias páginas; a
morte de uma personalidade célebre pede
um histórico, um perfil amplo. Mas na
cobertura diária normal em que os telegramas
refletem a rotina, a informação
de consumo é o fato imediato de significação
primariamente emocional".
Hoje
os "telegramas" de que
fala a autora são mensagens nacionais
e internacionais via Internet. Mas a idéia é a
mesma.
3.
O CORPO DA MATÉRIA
No
jornalismo "corpo" tem duas
significações: o tamanho das letras
usadas nas páginas do jornal e a parte
da matéria que dá seqüência
ao lead. O tamanho das letras também tem
a ver com o tipo de fonte (ou "família
de tipos") usada e com o espaço reservado
para a matéria. Em geral o texto noticioso
sai em corpo 12. Publicações legais,
como editais, proclamas, classificados etc saem
em corpo 8, 9 ou 10.
Interessa
aqui tratar do corpo da matéria como espaço para detalhamento
das informações contidas no lead. É o
que se chama, também, "desenvolvimento
do texto". O professor Nilson Lage ensina que
os tópicos frasais devem formar parágrafos
pequenos que terminem com expressões de
transição ou com palavras-chave,
de modo que um parágrafo interligue-se
com o seguinte, evitando o texto desconexo que
dificulta o entendimento do leitor.
Palavras
e frases de transição
dão continuidade e coerência à notícia
através dos parágrafos. Indicam
a relação que existe entre uma
idéia e outra. Geralmente vêm no
início da sentença. Servem tanto
para dar continuidade ao parágrafo anterior
como para introduzir uma nova idéia. Exemplos:
Mas, em conseqüência, portanto, no
entanto, além disso, também, ainda,
antes, finalmente, por exemplo, especialmente,
sobretudo etc.
Outro
recurso que o jornalista usa para advertir
o leitor de que, dentro da
notícia, começou outra idéia, é escolher
uma palavra-chave e colocá-la no início
da frase. A palavra-chave está ligada
com a idéia que começa e rompe
a continuidade com a idéia precedente.
Ao mesmo tempo forma parte do contexto geral
da notícia, isto é, serve para
juntar um novo aspecto dentro da idéia
básica.
O
fato é abordado por
partes e uma palavra-chave, que introduz cada
uma das partes, é usada para iniciar cada
parágrafo. Exemplo: Ao falar de uma nova
máquina no mercado, cada parágrafo
poderia começar com os vários aspectos
da notícia: A invenção...O
motor....O consumo de energia....Outra vantagem....O único
problema....A comercialização....
4.
A PRÁTICA DA NOTÍCIA
Na
opinião do professor
Nilson Lage ( "Estrutura da Notícia".
São Paulo: Ática, 1998) "aprende-se
a escrever notícias como se aprende a
andar: tentando e levando tombos. Por isso, quem
quiser ser jornalista deve ler por hábito
e manter-se informado; freqüentar bons autores,
a gramática e o dicionário; contar
por escrito o que se vê e pode ser interessante
para alguém; resumir documentos; interrogar
pessoas; colher e processar informações;
vencer a inibição; cuidar de ser
confiável. Tudo isto até ficar
bom, muito bom, perfeito".
Com
isto Nilson Lage, que é jornalista
e professor da Univ. de Santa Catarina, quer
dizer que é mais fácil fazer notícias
do que explicar como se faz, a exemplo do que
ocorre em todas as práticas.
Quando
era ombudsman da "Folha
de São Paulo", em 1989/1990, em palestras
a estudantes de Jornalismo por todo o Brasil,
Caio Túlio Costa ensinava que para ser
um bom jornalista, captando as informações
corretamente e redigindo a notícia com
o melhor texto, "é recomendável,
antes de tudo, leitura, leitura e leitura, além
de uma sintonia diária com o mundo, com
as ruas, com os problemas do cotidiano, com o
que as pessoas estão vivendo".
Sobre
a objetividade que o lead comporta, Caio Túlio ensina: "Objetividade
jornalística é uma balela, mas
aproximar-se dela é dever do profissional".