É redundante afirmar que
o jornalismo é uma atividade social voltada
para o serviço coletivo. Jornal que não
vive para servir, não serve para viver.
Apesar da polêmica diante das demandas corporativas
e empresariais que envolvem essa caríssima
atividade industrial e competitiva do mercado,
não se pode ignorar o largo espaço
de serviço que muitos veículos de
comunicação ocupam com seriedade
e dedicação, sempre pensando, naturalmente,
em conquistar novos leitores ou novos ouvintes.
Por isto os jornais apresentam um variado leque
de opções na forma de cadernos especializados
de modo a atingir um público diversificado
nos mais diferentes segmentos.
Muitas
pessoas encontram no jornalismo sério a sua única opção
de se expressar e de se afirmar como cidadãs.
Naturalmente é justo esperar que o jornalista
não traia jamais essa confiança.
Quando ele faz uma entrevista, por exemplo, tem
sobre seus ombros a responsabilidade de representar
- através do mandato conferido pela assinatura
ou pela preferência do leitor milhares
de pessoas que gostariam de estar diante daquele
entrevistado para fazer perguntas que interessam
diretamente ao seu dia-a-dia.
Se é isto que se espera
do bom repórter, não menos é o
que se espera de editores, redatores, colunistas
e demais profissionais que ficam na redação.
Neste texto, queremos tratar, especificamente,
dos colunistas que respondem às indagações
dos leitores sobre questões tão pessoais
e tão delicadas como saúde, sexo,
relacionamentos, doenças graves etc. Na
maioria são jovens que encaminham tais dúvidas
servindo-se do anonimato. Por razões financeiras,
por incompatibilidade com seus responsáveis,
por compreensível constrangimento ou por
tantos outros motivos, esses adolescentes, embora
recorrendo ao anonimato, não teriam outro
meio de se informarem e aguardam aflitos e ansiosos
a resposta que o colunista dará às
suas perguntas.
Infelizmente,
porém, ainda
existem profissionais irresponsáveis que
confundem o desesperado recurso ao anonimato com
a falta de seriedade dos missivistas, acabando
por dar respostas evasivas ou até irônicas
na certeza de que não poderão ser
questionados ou cobrados por sua falta de ética.
Outros até falsificam cartas de adolescentes
para fazerem sensacionalismo e aumentarem as vendas.
Esta
reflexão dirige-se
aos estudantes de Jornalismo que pretendem respeitar
seus futuros leitores, acolhendo com seriedade
não só os interesses dos poderosos
de plantão, mas também a humilde
súplica do excluído, do marginalizado,
do adolescente socialmente constrangido. É com
essa parcela de futuros profissionais que se fará um
jornalismo decente e útil para o país.
O resto...é o resto.
01 - A PESQUISA
Com
apoio do Fundo das Nações
Unidas para a Infância Unicef, a Agência
de Notícias dos Direitos da Infância-ANDI,
sob a coordenação do Ministério
da Saúde, realizou, entre 2001 e 2002, o
projeto "A Mídia como Consultório? Uma
análise técnica e jornalística
das perguntas e respostas sobre saúde e
comportamento veiculadas pela mídia impressa
e eletrônica". Conforme os pesquisadores, "a
cada dez minutos um leitor, ouvinte ou telespectador
procura a mídia para esclarecer suas dúvidas
e abrir seus problemas íntimos. São,
ao todo, quatro mil perguntas enviadas por mês às
principais seções de consulta do
país. Das questões com idade identificada,
47% são formuladas por adolescentes de 13
a 17 anos. Destas, a maioria trata de dúvidas
relativas a questões psicológicas
e de relacionamento".
Daí a importância
de estudar as chamadas "Colunas de Consulta", onde
o bom profissional pode prestar relevantes serviços
de orientação à cidadania
se estiver atento aos pressupostos éticos
e à melhor técnica de atender à indagação
dos jovens.
A
pesquisa analisou uma amostra de 59 Colunas de
Consulta de 33 veículos,
tanto da Grande Mídia como da Mídia
Jovem, veiculadas entre os meses de setembro de
2001 e março de 2002. Dessas edições
foram extraídas 1326 perguntas e respostas
sobre os temas DST/Aids; Drogas; Família;
Gravidez; Saúde em geral; Saúde reprodutiva
e sexual; Sexualidade; Questões psicológicas
e de relacionamento; Educação sexual;
Orientação afetivo-sexual e Violência.
Para cada conjunto de pergunta/resposta,
observou-se sistematicamente:
-idade,
sexo, cidade e identificação
(ou não) do autor da dúvida e a identificação
e especialidade dos colunistas (ou consultores)
-foco da pergunta
-tipo de enfoque das respostas
-se
havia a indicação
de serviços
-se
mencionava ações
de protagonismo
-se
falava em prevenção
-se
apresentava conseqüências
-se
apresentava mais de um caminho a ser seguido
diante da dúvida levantada
-se era normativa
-se
discutia gênero.
02 - QUEM PERGUNTA
O
levantamento mostrou que é importante
preservar a identidade de quem pergunta, mas é necessário
saber a idade: "A idade ajuda a imaginar o que
vai na cabeça de quem pergunta e, junto
com outras informações, sobre a situação,
permite compor o contexto da dúvida, captar
o não-dito, as entrelinhas. A resposta não
será lida apenas por quem perguntou. Os
outros leitores precisam saber se aquela resposta
também se adequa a eles", advertem os organizadores
da pesquisa.
Um
sintoma de que muitas respostas acabam sendo
genéricas e aleatórias é o
fato de que 66% das perguntas não trazem
nenhuma identificação sobre a idade
do autor. Entre as perguntas que incluíam
idade, os analistas observaram que 3% são
feitas por quem tem entre 10 e 12 anos; 48% entre
13 e 17 anos; 29,5% entre 18 e 25 anos e 19,5%
com mais de 25 anos. Também se observou
que a concentração das questões
ocorre na faixa etária em que normalmente
se dá a iniciação da atividade
sexual no país.
Observando
o artigo 17 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), 79% dos
veículos protegem o anonimato de quem faz
a pergunta, recorrendo a iniciais e eliminando
toda informação que possa levar à identificação.
Muitas vezes é preciso eliminar até o
nome das cidades pequenas, o e-mail etc.
As
mulheres são as que
mais perguntam (65,1%), sendo elas, preferencialmente,
o público-alvo das Colunas de Consulta.
Os pesquisadores observam que "a escassez de revistas
de comportamento voltadas para adolescentes meninos é um
dos fatores que faz com que busquem informações
sobre sexualidade em revistas masculinas adultas
como Playboy e Vip, que tratam o sexo dentro de
um viés fortemente erotizado". Eles ainda
observam que apesar dos homens também terem
suas dúvidas e seus problemas na área
de saúde e sexualidade, eles sentem-se socialmente
menos encorajados a assumirem suas dúvidas
e angústias, resultado de uma cultura machista.
Um
aspecto interessante que o levantamento mostrou
revela que se a maioria dos
que perguntam são mulheres, a maioria dos
que respondem são homens: 62,1%. Talvez
por isto apenas 0,5% das respostas se refere aos
papéis masculinos e femininos. A recomendação é que
especialistas, homens ou mulheres, passem a se
preocupar com a abordagem de gênero. Por
exemplo, parabenizando o rapaz que pergunta sobre
anticoncepção (pois este já se
preocupa com a responsabilidade de uma gravidez
para o casal), lembrando de trazer informações
sobre a camisinha feminina, quando possível,
além da masculina, fazendo referência
ao prazer da mulher não apenas ao do homem.
Além de ser dada mais voz à mulher, é importante
aumentar a consistência das informações
relativas aos seus papéis e direitos, às
negociações e à divisão
de responsabilidades.
3 - QUEM RESPONDE
O
trabalho apurou que os veículos
repassam a especialistas (médicos, psicólogos
etc) a tarefa de responder às indagações
dos leitores.Isso acontece em 63% dos casos, proporcionando
algum tipo de democratização da mídia
na medida em que ela abre espaço para especialistas
não portadores de diplomas de jornalismo.
Cabe a tais profissionais usarem com seriedade
tal espaço, ao invés de transformá-lo
em mera oportunidade de marketing profissional,
pessoal ou corporativo.
O
mais preocupante, entretanto, segundo os pesquisadores, é que 33,2% das
respostas são dadas pela própria
redação, metade das quais sem citar
sequer um especialista. "Como estarão sendo
construídas essas respostas? Virão
elas da cabeça de um jornalista que, com
maior ou menor bom senso, lança-se no escuro
ao desafio de aconselhar? Terão sido elas
apuradas, mas, ao contrário do que recomenda
a prática jornalística, não
foram indicadas, nem nomeadas as suas fontes?",
indagam.
Na
Mídia Jovem (veículos
dirigidos aos adolescentes) é maior o percentual
de respostas assinadas por não especialistas:
41,7% contra 33,7% da Grande Mídia. Escrever
para um público em fase de formação
exige cuidado redobrado, alertam os estudiosos
do assunto, remetendo para uma pesquisa do Unicef
que escutou 5.280 jovens de todo o Brasil, concluindo
que a mídia é a terceira principal
fonte de informação quando o assunto é sexualidade. É importante
que as revistas e suplementos para adolescentes
se conscientizem desse papel e estejam atentos
aos conteúdos das Colunas de Consulta.
Utilizar
esse espaço de
aconselhamento como uma conversa informal, um papo
entre amigos, ou mesmo uma brincadeira literária
ou sátira, só é lícito
se isso ficar muito claro e caracterizado para
o leitor/espectador/ouvinte: "Mesmo assim é discutível
a forma desrespeitosa com que muitas vezes se tratam
os sentimentos do autor da pergunta. É também
injustificável o descompromisso com a correção
da informação, sobretudo quando se
considera a responsabilidade inerente que se tem
ao falar com o adolescente.
Quando
a resposta será dada
pelo jornalista, o resultado para quem pergunta
será tanto melhor quanto mais acertada for
a escolha do especialista que o jornalista consultar
para elaborar seu texto-resposta. O colunista precisa
saber a quem deve dar voz em cada caso específico:
se ao ginecologista, ao sexólogo, ao hebeatra
(médico especialista em adolescência)
ou ao oncologista (especialista em câncer).
O
que se defende, para um bom jornalismo nessa área de aconselhamento, é uma
parceria entre o profissional da imprensa e o especialista,
um com a habilidade do texto adequado ao jornal
e ao seu público-alvo, o outro com o conhecimento
técnico adquirido na prática específica
do consultório.
4
- A BOA TÉCNICA
Para
quem deseja prestar bons serviços aos leitores na área de
aconselhamento, a ANDI dá as seguintes orientações:
-Escrever como se estivesse falando
com a pessoa que fez a pergunta.
-Não se preocupar em usar
comparações inusitadas para o meio
científico. O compromisso é se fazer
entender.
-
Responder o que foi perguntado sem se preocupar
em esgotar o assunto.Isto é impossível
em dez linhas.
-Mesmo
ao responder uma pergunta simples, o jornalista
deve passar a informação
mais atualizada.
- Quando se referir a dados e
pesquisa, deve-se identificar claramente as fontes.
-
Ter consciência das limitações
da consulta genérica e da distância
da coluna e, ao mesmo tempo, considerar não
apenas o autor da pergunta, mas também todos
aqueles que vivem uma situação semelhante.
-
Só utilizar gírias
quando estiver seguro. Boas respostas não
precisam de gírias ou brincadeiras para
serem entendidas pelos adolescentes. Pode-se desenvolver
uma abordagem lúdica, sem exageros. Lembrar
que a credibilidade da sua mensagem está na
intenção de ajudar o leitor/ouvinte/telespectador,
na coerência e na atualização
das informações apresentadas.
-
Não encarar a Coluna
de Consulta como um trabalho menor. É uma
oportunidade de perceber o público e sua
interação com a mídia e, por
outro lado, uma chance de conhecer uma ampla gama
de assuntos.
-
Mesmo a mais curta das respostas implica em um
trabalho completo de reportagem,
que pode envolver apuração com diversas
fontes e a realização de mais de
uma entrevista. Todo jornalista que já pilotou
uma coluna de notas sabe muito bem o trabalho aparentemente
desproporcional que isso dá.
-
Buscar livros de referências
e fontes que lhe permitam situar-se rapidamente
no panorama de cada novo problema em questão.
-
Fazer um roteiro de perguntas a serem esclarecidas
para bem responder à questão,
sem cometer erros conceituais (por exemplo, confundir
um vírus com uma bacteria). Não suponha
que você sabe: reveja, consulte, cheque.
-
Em assuntos polêmicos,
buscar uma segunda opinião de alguém
com outra formação ou especialidade.
-
Em geral os eventos das categorias de saúde são franqueados aos jornalistas:
participe de encontros, simpósios, conferências
etc. Ali pode-se obter informação
atualizada e fazer contatos.
-
Organizar textos, xeroxes e e-mails de forma
a ter seu próprio banco
de dados.
-
Nas entrevistas com especialistas, deve-se usar
a técnica da repetição
até que os conceitos estejam plenamente
compreendidos.
5
- A FORMAÇÃO DO
JORNALISTA
Já na Universidade, o aluno
que se interessa pela cobertura da área
de saúde, pelo jornalismo científico
etc deve buscar leituras especializadas, participação
em simpósios e conferências de saúde,
reunir seu próprio banco de dados ao longo
do curso arquivando informações que
poderão ser úteis num eventual Trabalho
de Conclusão de Curso relacionado com a
Editoria de Saúde. É muito amplo
o trabalho que o jornalista pode desenvolver nesse
setor porque questões como Saúde
e Meio-Ambiente estão na ordem do dia em
qualquer veículo de comunicação
(jornal, rádio, televisão, jornal
Internet etc), até mesmo nos jornais e emissoras
de rádio das pequenas cidades do interior.
No
entanto, muitos jornalistas chegam no mercado
de trabalho sem jamais terem
parado para pensar nessas especialidades profissionais
que envolvem tantas e tão profundas características.
A maioria prepara-se apenas para a "clínica
geral" como se fosse a mesma coisa trabalhar numa
editoria de Economia ou de Esportes; de Polícia
ou de Saúde; de Cultura ou de Cidade.
A
Saúde é uma preocupação
constante do ser humano. Milhões de dólares
são gastos diariamente, em todo o mundo,em
atividades de pesquisa para prevenir as doenças
e melhorar a saúde humana. Nenhum governo é levado
a sério quando abandona os serviços
de saúde à própria sorte.
O Ministério da Saúde, as Secretarias
Estaduais de Saúde, as Assessorias Municipais
de Saúde englobam centenas de organismos
e instituições como agências
reguladoras, o Sistema Único de Saúde,
as fábricas de medicamentos, as farmácias
populares, os serviços destinados ao controle
das endemias, às campanhas de vacinação,
ao controle das fronteiras, bem como dos portos
e aeroportos...afinal, a Saúde está muito
presente como preocupação mundial,
em todos os países.
Basta
ver com que preocupação
o mundo todo está acompanhando a pneumonia
asiática que ameaça a saúde
mundial tal como a AIDS em tempos recentes assustou
os governos a partir da África, ou como
potências imperiais como os EUA revelam temor
frente ao risco de ataques terroristas com armas
biológicas...tudo se inscreve nas preocupações
do ser humano e dos governantes com o bem-estar
das populações.
No
entanto a imprensa não
tem destinado à Saúde o tratamento
sério e minucioso que ela merece, do mesmo
modo que a Universidade, onde sequer se qualificam
os futuros jornalistas para a cobertura especializada
de tão importante setor. Em recente palestra
na Unesp de Bauru, por ocasião do Encontro
sobre Comunicação e Saúde,
no mês passado, a professora Cremilda Medina,
da EC-USP, disse que a imprensa brasileira não
se interessa pelas ações preventivas
de saúde, preferindo discutir a doença
e seus efeitos, como se o receptor estivesse interessado
em doença e não em saúde.
Citou o caso dos medicamentos hormonais indicados
por multinacionais para as mulheres na menopausa,
há cerca de dez anos, assunto que a imprensa
abraçou sem questionar, sem discutir, sem
pesquisar, sem se aprofundar e hoje tais medicamentos
estão sendo proibidos por serem considerados
cancerígenos. Daí a necessidade dos
jornalistas conversarem mais com os cientistas,
participarem mais de eventos especializados da área
de saúde e tratarem essa editoria, no jornal,
com a seriedade que ela merece, conforme ressaltamos
aqui no caso das Colunas de Consulta, cumprindo
assim a principal missão do jornalismo que é prestar
serviços à comunidade.