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Jornalismo Renovado

O Caso do "Correio Braziliense"

Pedro Celso Campos

Quanto mais os meios eletrônicos se modernizam – tornando-se os canais naturais do velho "furo jornalístico"- mais os meios impressos precisam recorrer à imaginação e à criatividade para usar a tecnologia disponível a seu favor. É por isto, certamente, que a mídia convencional aprendeu rápido a fazer da Internet uma poderosa aliada ao invés de tê-la como perigosa concorrente. Não acontece, agora, o que aconteceu com o surgimento do rádio na década de 20 e da TV na década de 50. Naquela época a interface entre o eletrônico e o impresso restringia-se à pauta mútua, às chamadas do eletrônico com "mais detalhes nos jornais de amanha", às vezes na leitura de pequenas notas de jornais por locutores de emissoras de rádio do interior...

Com a Internet a interação é total. Nela não cabem apenas algumas notas do jornal do dia. Cabe a edição inteira, acompanhada do banco de dados que antes era o arquivo do jornal. Mais: Não se trata de veicular as notícias do dia anterior, mas o que está acontecendo hoje mesmo, conforme fazem os portais eletrônicos dos grandes jornais, contando com equipes próprias para não apenas transpor o impresso para a rede, mas recriando o jornal com uma nova equipe de profissionais, onde o talento de webdesigners compete com a agilidade dos jornalistas na apuração e redação das matérias. E não só os meios impressos, mas também os meios eletrônicos tradicionais, como o rádio e a TV, encaminham diariamente seu público fiel para os sites da rede que assim acaba englobando toda a mídia disponível...toda mesmo, se levarmos em conta que também as antigas cartinhas dos Correios viraram e-mails...

Entretanto, num mercado tão competitivo, com um leitor cada vez mais exigindo qualidade e compromisso ético da imprensa, num cenário já não tão distante em que os anúncios publicitários cobrirão as despesas da Internet tornando-a gratuita, 24 horas por dia,como a TV aberta, os jornais impressos sabem que é preciso estar vigilante para não perder mercado.

Antes os grandes jornais passavam por grandes mudanças a cada cinco ou 10 anos. Agora, esse é um tempo longo demais. As reformas devem ser mais freqüentes. Alguém já lembrou que se os automóveis ganham novos modelos todos os anos, porque os jornais precisam demorar tanto para mudarem? Antes bastava apostar na própria logomarca para manter o público cativo. Agora, mudar ou não mudar significa continuar disputando ou mercado ou fechar as portas.

Feita esta reflexão, vale a pena levar em conta as observações do jornalista Ricardo Noblat sobre as sucessivas reformas do "Correio Braziliense" entre 1994 e 2000, sob sua direção, conforme narrado em seu mais recente livro "A Arte de Fazer um Jornal Diário (São Paulo: Contexto, 2002).

Embora saibamos que cada caso é um caso e que em cada região do país as relações entre os jornais e seus leitores têm suas próprias características, é sempre oportuno estudar o que foi feito em Brasília. Afinal, as vicissitudes que o CB apresentava em 1994 ainda estão muito presentes em muitos jornais brasileiros que acham desnecessário pensar em mudança.Segundo Noblat, naquela ocasião o CB funcionava assim:

- a maioria dos jornalistas tinha mais de um emprego;

- os repórteres trabalhavam para a edição dominical;

-os editores chegavam à redação no fim da tarde e fechavam suas páginas com releases e material de agências nacionais e internacionais de notícias;

-fatos que pudessem desagradar ao governo local e ao federal, anunciantes importantes e amigos da direção do jornal eram desconsiderados ou mereciam pouco destaque;

-havia colunas para todos os gostos, entre elas, duas diárias de notas sociais; uma publicada três vezes por semana sobre atos administrativos das Forças Armadas; uma semanal sobre a vida nas embaixadas; outra aos domingos sobre marketing assinada pelo diretor de marketing do jornal; e mais uma às quartas-feiras sobre negócios do setor de aviação escrita pelo despachante encarregado de liberar na alfândega do Rio de Janeiro tudo o que o jornal comprasse no exterior.

-traficava-se influência em quase todas as áreas do jornal e muitos diretores, jornalistas e até diagramadores ganhavam dinheiro com isso.

Em fevereiro de 1994 o comando da redação do CB foi trocado, adotando-se um programa de cinco pontos:

- toda notícia que interessar aos leitores será publicada;

- é proibido publicar releases,

-o duplo emprego deve ser abolido a curto prazo;

-é permitido ousar;

-erro existe para ser admitido

A reforma seguinte aconteceu em 1996. No dia 21 de abril o " Correio Braziliense" amanheceu de cara nova. Aa reforma enfatizou seis pontos:

- jornal local;

- jornal de referência nacional;

- rigor na seleção das notícias;

- aposta em grandes reportagens

- maior emprego de recursos visuais;

- prestação de serviços ao leitor ( O jornal reuniu 25 mil pessoas numa passeata pela Paz no Trânsito e passou a ganhar prêmios internacionais com suas reportagens).

Em julho de 2000 o "Correio Braziliense" aprofundou sua reforma estrutural e editorial, rompendo com o modelo de jornal que ainda vigorava por toda parte, segundo Ricardo Noblat. A justificativa para as novas mudanças obedecia aos seguintes quesitos:

a) mudar para atrair novos leitores – especialmente mulheres e jovens;

b) mudar para atrair os não-leitores (pessoas que têm renda e escolaridade suficientes para ler jornais, mas não lêem);

c) mudar para aumentar o grau de fidelidade dos atuais leitores.

A premissa era que se tais objetivos fosse alcançados, o jornal ampliaria sua circulação paga ( assinaturas + venda em banca) e atrairia mais anúncios, fortalecendo a publicação, pois "a independência editorial de um jornal resulta da independência econômica da empresa que o edita e dos valores que a orientam" .

Ricardo Noblat alinha, a seguir, os princípios gerais do Correio 2.000:

"Jornal Planejado- Nada deve ser deixado ao acaso. Nem para ser feito na última hora. Isso significa pensar o jornal como um todo com bastante antecedência. O jornal de amanhã deve surpreender o leitor que ainda não o recebeu, jamais o jornalista que o fez. Jornal concebido e produzido de um dia para o outro tem pouco a ver com jornal de qualidade superior".

No velho jornal, conforme o autor, editor só pensava em fechar, fechar, fechar páginas. Era um "fazedor". Os repórteres esperavam que as notícias caíssem do céu, quase sempre as mesmas que caíam também para repórteres dos demais jornais. Quando elas se recusavam a acontecer, o jornal do dia seguinte era fraco. Invariavelmente, ouvia-se a mesma desculpa: "Não aconteceu nada ontem" .

No novo jornal, editor só pensa em como fazer melhor o seu trabalho. Pilota todas as fases de produção – da discussão da pauta com o repórter e o fotógrafo, às ilustrações gráficas encomendadas à editoria de arte. Está sempre preocupado com a edição de depois de amanhã, de daqui a uma semana, 15 dias, um mês. Forma profissionais. Apura informações. E, sempre que pode, escreve matérias. Chega cedo à redação e vai embora quando as páginas começam a ser fechadas por subeditores e redatores. Quanto aos repórteres, o lugar deles não é na redação. É nas ruas, atrás de notícias desconhecidas. Apuram, escrevem, editam as próprias matérias.

No velho jornal, as editorias tinham um certo número de páginas quer houvesse ou não notícias importantes para preenchê-las. Justo por isso, cada uma dispunha de um número fixo de repórteres. Cada editor e cada grupo de repórteres faziam seu jornalzinho particular. Às vezes, notícia que poderia ser publicada no espaço de uma ou de outra editoria acabava ficando de fora do jornal por falta de entendimento entre os editores. Se um editor precisasse reforçar seu time de repórteres para cobrir determinado assunto, seria difícil contar com repórteres de outras editorias. Porque eles estavam ocupados com outras matérias.

No novo jornal, editores e repórteres produzem matérias para todo o jornal.O espaço de cada editoria é proporcional ao número de boas matérias que ela tenha. O número de repórteres, também. Criam-se editorias para cuidar de assuntos especiais. E logo que eles se esgotam, dissolvem-se as editorias.

No velho jornal, repórter só saía da redação para cumprir uma pauta que o chefe lhe dava. Ele não tinha tempo de descobrir notícias. O jornal era pautado de dentro para fora.

No novo jornal, repórter sai da redação ou de casa atrás de notícias da área que lhe compete cobrir. Ao esbarrar em uma notícia avisa o chefe e combina o que fazer.

No velho jornal, importante era o texto, somente o texto, nada mais do que o texto. Utilizavam-se fotografias – desde que não tomassem o espaço do texto. Se ameaçassem tomar, sumiam ou tinham o tamanho reduzido. Fotógrafo, quando muito, era uma incômoda dama de companhia do repórter.

No novo jornal, o que importa é comunicar bem ao leitor o que se quer comunicar.Se um gráfico, em determinados casos, comunica melhor, publique-se o gráfico, subtraia-se o texto. Se uma infografia conta melhor uma história do que um texto corrido, publique-se a infografia.

No velho jornal, serviam-se ao leitor os fatos em estado bruto. De preferência, em linguagem telegráfica, sem emoção, sem cor, sem vida.

No novo jornal, explica-se ao leitor o significado dos fatos; conta-se o que está por trás deles; destaca-se o que eles têm a ver com a vida das pessoas; e tenta-se projetar os possíveis desdobramentos. Notícias e reportagens falam de pessoas.Não abordam assuntos abstratos. O texto reflete a personalidade e o estilo do seu autor. Trata dos detalhes, porque são os detalhes que conferem credibilidade a um texto, como observa Gabriel García Márquez.

No velho jornal, o espaço reservado para a manifestação dos leitores era a seção de cartas. Os jornalistas viam os leitores como um bando de chatos e faziam jornais para seu próprio deleite e dos leitores que pensavam mais ou menos como eles.

No novo jornal, abrem-se mais espaços para manifestação dos leitores. Cada editoria deve ter seu conselho de leitores, que se reunirá periodicamente para criticar o jornal e sugerir meios e modos de fazê-lo melhor. Acentua-se a prestação de serviços aos leitoresw por meio da criação de novas seções e da orientação dada às matérias. Foco no leitor não basta. É preciso estar de acordo com este foco.

Noblat também insiste na cobertura seletiva do novo jornal: "Se a principal meta é oferecer notícias exclusivas, é preciso ser rigoroso na seleção de assuntos a serem cobertos e que necessariamente também o serão pelos demais jornais. Devem-se apostar todas as fichas na cobertura mais ambiciosa de poucos assuntos. Que os demais assuntos fiquem por conta das agências de notícias. Estes, de preferência, devem ser publicados na seção de notícias curtas de cada editoria". O autor cita, novamente, Gabriel García Márquez: " A melhor notícia não é que se dá primeiro, mas a que se dá melhor". E insiste no valor da reportagem: " Mais valem cinco boas histórias por dia – inéditas, bem apuradas, bem escritas, inteligentemente editadas e capazes de capturar a atenção dos leitores – do que centenas de notícias reunidas às pressas e sem maiores critérios".

Outra característica do novo jornal é inovar no conteúdo:

" Moda, comida, decoração,viagens, comportamento, sexo, novas tecnologias, bem-estar,vida moderna, esportes radicais, entretenimento são exemplos de temas que os jornais costumam oferecer só de vez em quando. Quase sempre, uma vez por semana em cadernos ou páginas específicas. Eles devem estar presentes todos os dias no primeiro bloco do jornal e nos demais cadernos. O jornal só atrairá mais leitores, principalmente mulheres e jovens, se oferecer o que lhes interessa todos os dias. No caso dos jovens, os jornais erram porque escrevem sobre eles,ao invés de escrever para eles".

Para Ricardo Noblat, " jornal é um veículo de comunicação eminentemente local. O noticiário local deve contaminar todo o jornal. Deve-se procurar conferir cor local às notícias oriundas de qualquer parte". É considerado local tudo que diga respeito à vida da comunidade alcançada pelo jornal, além do que possa interessar aos leitores.

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