Quanto mais os meios eletrônicos
se modernizam tornando-se os canais naturais
do velho "furo jornalístico"-
mais os meios impressos precisam recorrer à imaginação
e à criatividade para usar a tecnologia
disponível a seu favor. É por isto,
certamente, que a mídia convencional aprendeu
rápido a fazer da Internet uma poderosa
aliada ao invés de tê-la como perigosa
concorrente. Não acontece, agora, o que
aconteceu com o surgimento do rádio na
década de 20 e da TV na década
de 50. Naquela época a interface entre
o eletrônico e o impresso restringia-se à pauta
mútua, às chamadas do eletrônico
com "mais detalhes nos jornais de amanha", às
vezes na leitura de pequenas notas de jornais
por locutores de emissoras de rádio do
interior...
Com a Internet a interação é total.
Nela não cabem apenas algumas notas do
jornal do dia. Cabe a edição inteira,
acompanhada do banco de dados que antes era o
arquivo do jornal. Mais: Não se trata
de veicular as notícias do dia anterior,
mas o que está acontecendo hoje mesmo,
conforme fazem os portais eletrônicos dos
grandes jornais, contando com equipes próprias
para não apenas transpor o impresso para
a rede, mas recriando o jornal com uma nova equipe
de profissionais, onde o talento de webdesigners
compete com a agilidade dos jornalistas na apuração
e redação das matérias.
E não só os meios impressos, mas
também os meios eletrônicos tradicionais,
como o rádio e a TV, encaminham diariamente
seu público fiel para os sites da rede
que assim acaba englobando toda a mídia
disponível...toda mesmo, se levarmos em
conta que também as antigas cartinhas
dos Correios viraram e-mails...
Entretanto, num mercado tão
competitivo, com um leitor cada vez mais exigindo
qualidade e compromisso ético da imprensa,
num cenário já não tão
distante em que os anúncios publicitários
cobrirão as despesas da Internet tornando-a
gratuita, 24 horas por dia,como a TV aberta,
os jornais impressos sabem que é preciso
estar vigilante para não perder mercado.
Antes os grandes jornais passavam
por grandes mudanças a cada cinco ou 10
anos. Agora, esse é um tempo longo demais.
As reformas devem ser mais freqüentes. Alguém
já lembrou que se os automóveis
ganham novos modelos todos os anos, porque os
jornais precisam demorar tanto para mudarem?
Antes bastava apostar na própria logomarca
para manter o público cativo. Agora, mudar
ou não mudar significa continuar disputando
ou mercado ou fechar as portas.
Feita esta reflexão,
vale a pena levar em conta as observações
do jornalista Ricardo Noblat sobre as sucessivas
reformas do "Correio Braziliense" entre
1994 e 2000, sob sua direção, conforme
narrado em seu mais recente livro "A Arte
de Fazer um Jornal Diário (São
Paulo: Contexto, 2002).
Embora saibamos que cada caso é um
caso e que em cada região do país
as relações entre os jornais e
seus leitores têm suas próprias
características, é sempre oportuno
estudar o que foi feito em Brasília. Afinal,
as vicissitudes que o CB apresentava em 1994
ainda estão muito presentes em muitos
jornais brasileiros que acham desnecessário
pensar em mudança.Segundo Noblat, naquela
ocasião o CB funcionava assim:
- a maioria dos jornalistas
tinha mais de um emprego;
- os repórteres trabalhavam
para a edição dominical;
-os editores chegavam à redação
no fim da tarde e fechavam suas páginas
com releases e material de agências nacionais
e internacionais de notícias;
-fatos que pudessem desagradar
ao governo local e ao federal, anunciantes importantes
e amigos da direção do jornal eram
desconsiderados ou mereciam pouco destaque;
-havia colunas para todos os
gostos, entre elas, duas diárias de notas
sociais; uma publicada três vezes por semana
sobre atos administrativos das Forças
Armadas; uma semanal sobre a vida nas embaixadas;
outra aos domingos sobre marketing assinada pelo
diretor de marketing do jornal; e mais uma às
quartas-feiras sobre negócios do setor
de aviação escrita pelo despachante
encarregado de liberar na alfândega do
Rio de Janeiro tudo o que o jornal comprasse
no exterior.
-traficava-se influência
em quase todas as áreas do jornal e muitos
diretores, jornalistas e até diagramadores
ganhavam dinheiro com isso.
Em fevereiro de 1994 o comando
da redação do CB foi trocado, adotando-se
um programa de cinco pontos:
- toda notícia que interessar
aos leitores será publicada;
- é proibido publicar
releases,
-o duplo emprego deve ser abolido
a curto prazo;
-é permitido ousar;
-erro existe para ser admitido
A reforma seguinte aconteceu
em 1996. No dia 21 de abril o " Correio
Braziliense" amanheceu de cara nova. Aa
reforma enfatizou seis pontos:
- jornal local;
- jornal de referência
nacional;
- rigor na seleção
das notícias;
- aposta em grandes reportagens
- maior emprego de recursos
visuais;
- prestação de
serviços ao leitor ( O jornal reuniu 25
mil pessoas numa passeata pela Paz no Trânsito
e passou a ganhar prêmios internacionais
com suas reportagens).
Em julho de 2000 o "Correio
Braziliense" aprofundou sua reforma estrutural
e editorial, rompendo com o modelo de jornal
que ainda vigorava por toda parte, segundo Ricardo
Noblat. A justificativa para as novas mudanças
obedecia aos seguintes quesitos:
a) mudar para atrair novos leitores especialmente
mulheres e jovens;
b) mudar para atrair os não-leitores
(pessoas que têm renda e escolaridade suficientes
para ler jornais, mas não lêem);
c) mudar para aumentar o grau
de fidelidade dos atuais leitores.
A premissa era que se tais objetivos
fosse alcançados, o jornal ampliaria sua
circulação paga ( assinaturas +
venda em banca) e atrairia mais anúncios,
fortalecendo a publicação, pois "a
independência editorial de um jornal resulta
da independência econômica da empresa
que o edita e dos valores que a orientam" .
Ricardo Noblat alinha, a seguir,
os princípios gerais do Correio 2.000:
"Jornal Planejado- Nada
deve ser deixado ao acaso. Nem para ser feito
na última hora. Isso significa pensar
o jornal como um todo com bastante antecedência.
O jornal de amanhã deve surpreender o
leitor que ainda não o recebeu, jamais
o jornalista que o fez. Jornal concebido e produzido
de um dia para o outro tem pouco a ver com jornal
de qualidade superior".
No velho jornal, conforme
o autor, editor só pensava em fechar,
fechar, fechar páginas. Era um "fazedor".
Os repórteres esperavam que as notícias
caíssem do céu, quase sempre as
mesmas que caíam também para repórteres
dos demais jornais. Quando elas se recusavam
a acontecer, o jornal do dia seguinte era fraco.
Invariavelmente, ouvia-se a mesma desculpa: "Não
aconteceu nada ontem" .
No novo jornal, editor
só pensa em como fazer melhor o seu trabalho.
Pilota todas as fases de produção da
discussão da pauta com o repórter
e o fotógrafo, às ilustrações
gráficas encomendadas à editoria
de arte. Está sempre preocupado com a
edição de depois de amanhã,
de daqui a uma semana, 15 dias, um mês.
Forma profissionais. Apura informações.
E, sempre que pode, escreve matérias.
Chega cedo à redação e vai
embora quando as páginas começam
a ser fechadas por subeditores e redatores. Quanto
aos repórteres, o lugar deles não é na
redação. É nas ruas, atrás
de notícias desconhecidas. Apuram, escrevem,
editam as próprias matérias.
No velho jornal, as editorias
tinham um certo número de páginas
quer houvesse ou não notícias importantes
para preenchê-las. Justo por isso, cada
uma dispunha de um número fixo de repórteres.
Cada editor e cada grupo de repórteres
faziam seu jornalzinho particular. Às
vezes, notícia que poderia ser publicada
no espaço de uma ou de outra editoria
acabava ficando de fora do jornal por falta de
entendimento entre os editores. Se um editor
precisasse reforçar seu time de repórteres
para cobrir determinado assunto, seria difícil
contar com repórteres de outras editorias.
Porque eles estavam ocupados com outras matérias.
No novo jornal, editores
e repórteres produzem matérias
para todo o jornal.O espaço de cada editoria é proporcional
ao número de boas matérias que
ela tenha. O número de repórteres,
também. Criam-se editorias para cuidar
de assuntos especiais. E logo que eles se esgotam,
dissolvem-se as editorias.
No velho jornal, repórter
só saía da redação
para cumprir uma pauta que o chefe lhe dava.
Ele não tinha tempo de descobrir notícias.
O jornal era pautado de dentro para fora.
No novo jornal, repórter
sai da redação ou de casa atrás
de notícias da área que lhe compete
cobrir. Ao esbarrar em uma notícia avisa
o chefe e combina o que fazer.
No velho jornal, importante
era o texto, somente o texto, nada mais do que
o texto. Utilizavam-se fotografias desde que
não tomassem o espaço do texto.
Se ameaçassem tomar, sumiam ou tinham
o tamanho reduzido. Fotógrafo, quando
muito, era uma incômoda dama de companhia
do repórter.
No novo jornal, o que
importa é comunicar bem ao leitor o que
se quer comunicar.Se um gráfico, em determinados
casos, comunica melhor, publique-se o gráfico,
subtraia-se o texto. Se uma infografia conta
melhor uma história do que um texto corrido,
publique-se a infografia.
No velho jornal, serviam-se
ao leitor os fatos em estado bruto. De preferência,
em linguagem telegráfica, sem emoção,
sem cor, sem vida.
No novo jornal, explica-se
ao leitor o significado dos fatos; conta-se o
que está por trás deles; destaca-se
o que eles têm a ver com a vida das pessoas;
e tenta-se projetar os possíveis desdobramentos.
Notícias e reportagens falam de pessoas.Não
abordam assuntos abstratos. O texto reflete a
personalidade e o estilo do seu autor. Trata
dos detalhes, porque são os detalhes que
conferem credibilidade a um texto, como observa
Gabriel García Márquez.
No velho jornal, o espaço
reservado para a manifestação dos
leitores era a seção de cartas.
Os jornalistas viam os leitores como um bando
de chatos e faziam jornais para seu próprio
deleite e dos leitores que pensavam mais ou menos
como eles.
No novo jornal, abrem-se
mais espaços para manifestação
dos leitores. Cada editoria deve ter seu conselho
de leitores, que se reunirá periodicamente
para criticar o jornal e sugerir meios e modos
de fazê-lo melhor. Acentua-se a prestação
de serviços aos leitoresw por meio da
criação de novas seções
e da orientação dada às
matérias. Foco no leitor não basta. É preciso
estar de acordo com este foco.
Noblat também insiste
na cobertura seletiva do novo jornal: "Se
a principal meta é oferecer notícias
exclusivas, é preciso ser rigoroso na
seleção de assuntos a serem cobertos
e que necessariamente também o serão
pelos demais jornais. Devem-se apostar todas
as fichas na cobertura mais ambiciosa de poucos
assuntos. Que os demais assuntos fiquem por conta
das agências de notícias. Estes,
de preferência, devem ser publicados na
seção de notícias curtas
de cada editoria". O autor cita, novamente,
Gabriel García Márquez: " A
melhor notícia não é que
se dá primeiro, mas a que se dá melhor".
E insiste no valor da reportagem: " Mais
valem cinco boas histórias por dia inéditas,
bem apuradas, bem escritas, inteligentemente
editadas e capazes de capturar a atenção
dos leitores do que centenas de notícias
reunidas às pressas e sem maiores critérios".
Outra característica
do novo jornal é inovar no conteúdo:
" Moda, comida, decoração,viagens,
comportamento, sexo, novas tecnologias, bem-estar,vida
moderna, esportes radicais, entretenimento são
exemplos de temas que os jornais costumam oferecer
só de vez em quando. Quase sempre, uma
vez por semana em cadernos ou páginas
específicas. Eles devem estar presentes
todos os dias no primeiro bloco do jornal e nos
demais cadernos. O jornal só atrairá mais
leitores, principalmente mulheres e jovens, se
oferecer o que lhes interessa todos os dias.
No caso dos jovens, os jornais erram porque escrevem
sobre eles,ao invés de escrever para eles".
Para Ricardo Noblat, " jornal é um
veículo de comunicação eminentemente
local. O noticiário local deve contaminar
todo o jornal. Deve-se procurar conferir cor
local às notícias oriundas de qualquer
parte". É considerado local tudo
que diga respeito à vida da comunidade
alcançada pelo jornal, além do
que possa interessar aos leitores.