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JORNALISMO RECREATIVO

Prof. MS Pedro Celso Campos

1. O QUE É

Convencionou-se chamar Gênero Recreativo a informação jornalística, verbal ou não verbal, destinada ao lazer do leitor.

Na análise de Sérgio Vilas Boas ( "O Estilo Magazine - O Texto em Revista". São Paulo: Summus, 1996) "nos cadernos de cultura, os jornais são mais ensaísticos e opinativos. A regra da padronização não é a bíblia desses cadernos. O texto é mais solto, com tendência a absorver coloquialismos e neologismos de todo tipo. O texto de um caderno de cultura tem estilo e público bem definidos".

O autor vê no segundo caderno um estilo que caracteriza e diferencia a chamada Segunda Seção das demais editorias do jornal: "Cativo, o leitor de um caderno cultural é uma espécie de discípulo da linguagem utilizada pelo jornal para determinado assunto que envolva arte, lazer e comportamento. Trata-se de uma apropriação criadora de gosto e opinião que guarda certa diferença em relação a editorias como política, economia, esporte e polícia, ainda que estas também possuam o seu jargão. Enquanto estilo, os cadernos de cultura ou as chamadas segundas seções costumam conciliar a técnica jornalística com a criatividade, analisando ao mesmo tempo a obra e o fato ou acontecimento gerado por ela. "

Vilas Boas compara esse estilo mais leve dos cadernos culturais ao tratamento que as revistas normalmente dão às matérias informativas. Na impossibilidade de concorrerem com os jornais diários, por sua característica semanal, as revistas tratam os mesmos assuntos de forma diferente, procurando interpretar e explicar melhor o contexto. Como exemplo o autor cita a cobertura da visita dos Rolling Stones ao Brasil em janeiro de 1995, constatando a semelhança da cobertura das revistas e dos cadernos culturais.

O Gênero Recreativo ocupa-se de assuntos da vida diária como costumes, comportamento, saúde, literatura, teatro, cinema, descobertas científicas, pesquisas, roteiros e relatos de viagem, shows, horóscopo, palavras cruzadas etc. São textos veiculados em forma de artigos, crônicas, entrevistas, reportagens etc. Também se usa, amplamente, a linguagem não-verbal através de caricaturas, desenhos, traços, fotos, quadrinhos etc.

Para Amaral (1997) "seria difícil apresentar como compartimentos estanques as diversas funções do humorismo e estabelecer até que ponto a graça ligeira, circunstancial, não é crítica de costumes, ou não envolve crítica social ou política ou administrativa".

Amaral define a caricatura como "retrato caricatural de uma pessoa determinada...destinado a ilustrar notícias políticas, páginas de esporte, colaborações literárias e as mais diversas colunas assinadas". A charge ele explica como "caricatura referente a acontecimentos imediatos, geralmente políticos, veiculando necessariamente uma crítica".

Segundo o caricaturista Fortuna "o problema básico do chargista é a liberdade de imprensa...O humor, sendo uma forma de pensamento, não vai se por a serviço exatamente dos que pretendem suprimir a sua livre manifestação".

O caricaturista Ziraldo define assim o trabalho do chargista político: "A preocupação dos jornais em sobreviverem como empresas, com papel subvencionado e vínculos com o Poder, talvez não tenha permitido o aparecimento de novos chargistas que pudessem exercer sua arte em toda a plenitude. Sem real liberdade de expressão, não pode existir o chargista. Contido, este artista não existe, pois o nome de sua arte é preciso: ele tem que estar na frente da batalha, comandando a artilharia, mandando bala. O chargista é, sem dúvida nenhuma, um dos editorialistas do jornal em que trabalha. O mais objetivo, direto, sintético. Se a linha do jornal dança conforme a música, o chargista cai duro. Chargista não sabe dançar". ( In Entrevista pessoal a Luiz Amaral. Rio, 1997).

O humor também é instrumento de luta e surge como "arma de combate "durante os conflitos bélicos, conforme Amaral (1997): "Exorcizando a angústia, dá confiança ao combatente e, esvaziando a ameaça, priva o adversário de sua arma psicológica". Há também o "humor ideológico" que prega estilos de vida, como ocorre com revistas tipo as americanas Pato Donald, Super Homem, Luluzinha ou as brasileiras Sacy-Pererê, Mônica etc.

São muitos e inesquecíveis os autores que se destacam no texto humorístico ou recreativo, entre eles Sérgio Porto ( Stanislaw Ponte Preta-Última Hora e Diários Associados ). No início Sérgio Porto escrevia sua coluna para exaltar o medíocre - daí o termo "festival de besteira que assola o país", ou "besteirol". Essa fase é assim analisada por outro colunista de destaque, Antonio Maria: "O Stanislaw era o supercolunista, a se fazer mais importante do que os cronistas mundanos, então se julgando uns gênios. (...) O sucesso da minha coluna está realmente na escolha dos personagens. Alguns fictícios, como tia Zulmira ou Altamirando, outros verdadeiros, como Ibrahim Sued ou Alziro Zarur".

2. LAZER

Porque o jornalismo preocupa-se com textos voltados para o lazer do leitor?

Foi com o advento do jornal-empresa que se encontrou espaço para este tipo de serviço ao leitor. Na era pós-industrial o lazer passou a ser valorizado como hábito inteligente e indispensável à reciclagem física e mental das pessoas. É um comportamento cada vez mais presente nas sociedades desenvolvidas. Sentar-se a um canto para saborear uma boa crônica ou rir com as piadas dos textos caricaturais ou dos quadrinhos não faz mal a ninguém. Só faz bem.

O próprio ato de trabalhar vai sendo revisto de outros modos em nossos dias. Especialistas orientam as empresas a abrirem cada vez mais espaço para o convívio prazeroso entre os operários. Muitas contratam professores de Fisioterapia que dão exercícios de relaxamento no local de trabalho, durante o horário do almoço ou no final do expediente. Outras já contam com bem montadas academias de ginástica e musculação para o lazer dos funcionários em seu próprio local de trabalho diário. São, igualmente, cada vez mais habituais as promoções envolvendo viagens, passeios e todo tipo de convivência agradável entre pessoas que trabalham numa mesma empresa.

Com a automação industrial, com as novas tecnologias, a informática e a globalização pode-se ganhar o mesmo ou até mais trabalhando menos e organizando melhor o tempo. Basta ter preparo e criatividade para ficar no mercado mesmo quando os postos de trabalho estão se reduzindo. Muitos profissionais já conseguem trabalhar em casa – cercados pelo conforto e pela informalidade doméstica – mesmo tendo ou não tendo vínculos trabalhistas com uma empresa, como na chamada Produção Independente. Com a Internet esse tipo de situação vai ficando cada vez mais comum.

O sociólogo italiano Domenico De Masi é um dos defensores desse tipo de "trabalho prazeroso", onde a criatividade substitui a jornada muito longa e excessiva. Trata-se de valorizar a Inteligência Emocional que equilibra o interior das pessoas para que elas respondam com serenidade e equilíbrio diante dos desafios do dia-a-dia.

É uma atitude bem oposta à linha de montagem da era industrial quando "a razão era associada à produção em série, à sincronização dos movimentos, à hierarquização e compartimentalização de funções, conforme observa Marco Antonio de Rezende na apresentação do livro organizado por De Masi, "A Emoção e a Regra - os grupos criativos na Europa de 1850 a 1950", editado por José Olympio. Rio de Janeiro: 1999.

Em 1925 as linhas de montagem da Ford, em Detroit, já produziam um 'Ford Bigode' a cada 15 segundos. A diretriz da produção nas fábricas de Henry Ford era de que o movimento devia ser contínuo e o trabalho ir ao homem, não o homem ao trabalho. Chapplin caricaturou essa situação de rotina que integrava "homem e máquina" na impagável cena do apertador de parafuso que acaba entrando e saindo da máquina como mais um produto qualquer.

No Gênero Recreativo o que se explora é, exatamente, esse potencial de criatividade que os fatos da vida encerram, mesmo os mais comezinhos, rotineiros e simples. E se faz isto com amplo sucesso, porque está claro que existe uma demanda por esse tipo de texto voltado para o lazer, a caricatura, a crítica social etc.

Quem se põe a criar o texto imaginativo, o texto voltado para o lazer ou a sátira, acaba partindo do mesmo princípio que emula qualquer artista, explorando possibilidades em torno do assunto, indo além daquilo que tem em mãos. O redator tem um fato, esse fato comunica uma idéia "x" e ele pode apenas transmiti-lo assim ao leitor ou pode se indagar: "Mas, se não fosse assim, como poderia ser?". No primeiro caso, trata-se do chamado "pensamento convergente", que leva a uma só resposta considerada correta: Quem descobriu o Brasil?. Única resposta considerada certa: Pedro Álvares Cabral. Mas o pensamento será "divergente" se a formulação for: "Se os portugueses não tivessem descoberto o Brasil, como estaríamos vivendo hoje?". A primeira pergunta envolve memória; a segunda, imaginação, conforme ensinam Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins em "Filosofando - Introdução à Filosofia".São Paulo: Ed. Moderna, 1995.

Contam Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari ( obra citada ) que "um dia o repórter Joel Silveira não foi a uma festa. Tivesse ido, teria feito uma reportagem; não estando lá, escreveu a crônica da reportagem que não foi escrita".

Tratava-se da festa de casamento da filha do Conde Francisco Matarazzo com o "pracinha" João Lage. Como não tinha convite, o repórter pediu a um amigo que lhe contasse tudo o que visse na festa. Com base nesse relato oral construiu uma crônica minuciosa do evento de tal modo que dificilmente o leitor poderia identificar no texto a ausência do autor no evento relatado, porque a crônica abre espaço para esse tipo de inventividade, de criatividade, diferenciando-se, por isto mesmo, da reportagem, que é baseada em documentos, declarações etc.

3. CRÔNICA

Parente próxima da literatura, a crônica jornalística reflete situações da rotina diária, criando uma identificação entre o cronista e o leitor.

Carlos Drummond de Andrade dizia que o cronista "é uma pessoa que se permite usar um tratamento mais coloquial, usar o pronome eu e contar como é que foi o dia anterior dele,$sempre, naturalmente, relacionando um dado de vida pessoal dele com um dado de vida pessoal do leitor, de modo que aquilo que eu conto como tendo se passado comigo possa ter se passado com qualquer leitor. Mas às vezes esse eu é imaginário, falo de uma coisa que não aconteceu comigo, mas que poderia ter acontecido. Eu acho que essa receita de crônica pode interessar ao leitor. Mas interessar relativamente. Ele não vai guardar aquilo para ler no dia seguinte: aquilo é um elemento que ele tem para achar graça nas coisas, porque, durante o dia, ele tem outras preocupações". ( in "Entrevista a Gilberto Mansur, Revista Imprensa, setembro de 1987, incluída no livro "A Arte da Entrevista", organizado por Fábio Altman. São Paulo: Scritta, 1995).

Na mesma entrevista, Drummond cita Machado de Assis como o maior cronista brasileiro. Na apresentação de "Machado de Assis-Crônicas Escolhidas". São Paulo: Ática/Folha de São Paulo, 1994, também Fernando Paixão comenta que "cada crônica de Machado sucede como uma boa conversa. Aliás, é o próprio autor quem, no primeiro texto desta seleção, define a origem do gênero como um encontro de vizinhas a escarafunchar as ocorrências do dia".

A seleção citada apresenta crônicas machadianas que se relacionam exatamente com os fatos da rotina diária: "Como comportar-se no bonde", "Impostos", "Briga de Galo", "Meditações no Bonde", "Caso de Bigamia", "O Cronista e a Semana" etc.

"Como se fosse um coquetel, um pot-pourri, Machado pegava uma notícia internacional, uma notícia do interior de Minas, uma notícia literária e fazia uma coisa realmente muito hábil, mas isto é mais difícil de fazer. É melhor a gente tocar num assunto qualquer", avalia Carlos Drummond de Andrade. Para ele "a crônica não é a coluna política, não é o editorial, não é a seção econômica, não é nada..."

No dicionário a crônica é definida como artigo de jornal ou revista, assinado, com reflexões sobre assuntos diversos como literatura, teatro, política, temas policiais, acidentes, fatos rotineiros da vida diária etc.

São grandes nomes da crônica brasileira: Machado de Assis, João do Rio ( Paulo Barreto ), Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Rachel de Queirós, Carlos Drummond de Andrade, Genolino Amado, Rubem Braga, Sérgio Porto, Antonio Maria, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, José Carlos de Oliveira, João Ubaldo Ribeiro, Mário Prata, Veríssimo etc.

Em relação ao conto literário, a diferença da crônica é que ela não tem personagens definidos. Retrata pessoas e fatos da vida real, situações concretas que são ou podem ser vivenciadas na rotina diária.

Como em outros textos recreativos, "a crônica inclui um ponto ótimo de tensão intelectual. Se for simples demais ou de difícil entendimento, o prazer de ler será menor", conforme ensina Sérgio Vilas Boas ( obra citada ).

Naturalmente vai escrever uma boa crônica o repórter que tem boa formação cultural; acentuado hábito de leitura; texto fluente, fácil e agradável; sensibilidade para observar os fatos do dia e transformá-los em saborosas crônicas com as técnicas do próprio conto literário: Início ( fato a ser analisado ou caricaturado ), desenvolvimento ( com observações que mostram pleno domínio da língua e ampla visão de mundo ) e fim ( com uma frase engraçada, uma piada, uma "moral" etc). A recomendação básica é ler atentamente boas crônicas, observando-lhes a estrutura, para depois iniciar-se no gênero com segurança. Nenhuma disciplina técnica poderá passar um formato fechado, padrão, quadrado, hermético sobre como produzir o texto imaginativo, pois não se trata de uma receita de bolo, trata-se de criatividade. E isto vai do potencial de cada um.

4. O PRAZER DE LER

Se é movido pelo lucro, o jornal-empresa não pode ser o jornal apenas dos assuntos sisudos, pesados, sérios. Quem lê o Diário Oficial por puro prazer?. Tem sentido levar um exemplar do Diário Oficial para ler na praia se você não é funcionário público, não está aguardando uma nomeação ou se não tem nada a ver com esse universo?

Para atingir a todos os segmentos da sociedade ( da criança ao idoso; do estudante ao executivo; do braçal ao internauta etc ) o jornal tem que ser plural, precisa ser vários produtos em um só, tem que ser diversificado, "articulado", abrangente em relação aos temas tratados e específico no aprofundamento de cada assunto, daí as editorias que produzem cadernos especializados para todos os gostos. Atualmente, o politicamente correto manda discutir bastante a ecologia, a biodiversidade, o efeito-estufa, os direitos humanos, a desigualdade social... ainda que se trate de temas que jamais deveriam ter saído da agenda. etc.

Até do ponto de vista prático esta política dos jornais dá bons resultados porque as empresas sabem que seu consumidor-padrão é a família, um pequeno universo que representa toda a sociedade. Assim, na hora em que o pai ou o responsável pela família decide cancelar a assinatura do jornal por medida de economia ou algo semelhante, há sempre um ou mais simpatizante de algum caderno defendendo a permanência do jornal. Assim, o produto jornal, integrado por vários produtos paralelos, acaba concorrendo com ele mesmo.

Então, quando o objetivo é conquistar a preferência do leitor, o texto recreativo cresce de importância.

Alguns defendem a publicação desse gênero apenas na Segunda Seção, nos segundos cadernos, nos cadernos culturais etc. Outros, como Alberto Dines, acham que o texto leve, engraçado, bem humorado deve perpassar todo o jornal. Neste caso é necessário que o repórter aprenda a desenvolver um estilo próprio pelo qual consiga escrever a notícia ou a reportagem, com todos os dados e sem faltar à ética, mas, ao mesmo tempo, usando uma linguagem fácil, agradável, simples, clara, bem-humorada.

Outro espaço de humor no jornalismo é o texto esportivo, onde se admite uma linguagem mais descontraída: "Aqui a fantasia é livre, aqui o vocabulário pode ir além dos limites dos dicionários", afirma F. Fraser Bond.

Para Oldemário Toguinhó, do Jornal do Brasil, embora não de modo absoluto, os redatores têm mais liberdade para tratar a matéria - podem destacar o lado pitoresco da notícia, o lado humano, e aproveitar até um fato engraçado. Isto, é claro, desde que não descambe para a grosseria, a piada gratuita, o mau-gosto".

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