Convencionou-se chamar Gênero Recreativo
a informação jornalística,
verbal ou não verbal, destinada ao lazer
do leitor.
Na análise de Sérgio Vilas Boas
( "O Estilo Magazine - O Texto em Revista". São
Paulo: Summus, 1996) "nos cadernos de cultura,
os jornais são mais ensaísticos
e opinativos. A regra da padronização
não é a bíblia desses cadernos.
O texto é mais solto, com tendência
a absorver coloquialismos e neologismos de todo
tipo. O texto de um caderno de cultura tem estilo
e público bem definidos".
O autor vê no segundo caderno um estilo
que caracteriza e diferencia a chamada Segunda
Seção das demais editorias do jornal: "Cativo,
o leitor de um caderno cultural é uma
espécie de discípulo da linguagem
utilizada pelo jornal para determinado assunto
que envolva arte, lazer e comportamento. Trata-se
de uma apropriação criadora de
gosto e opinião que guarda certa diferença
em relação a editorias como política,
economia, esporte e polícia, ainda que
estas também possuam o seu jargão.
Enquanto estilo, os cadernos de cultura ou as
chamadas segundas seções costumam
conciliar a técnica jornalística
com a criatividade, analisando ao mesmo tempo
a obra e o fato ou acontecimento gerado por ela. "
Vilas Boas compara esse estilo mais leve dos
cadernos culturais ao tratamento que as revistas
normalmente dão às matérias
informativas. Na impossibilidade de concorrerem
com os jornais diários, por sua característica
semanal, as revistas tratam os mesmos assuntos
de forma diferente, procurando interpretar e
explicar melhor o contexto. Como exemplo o autor
cita a cobertura da visita dos Rolling Stones
ao Brasil em janeiro de 1995, constatando a semelhança
da cobertura das revistas e dos cadernos culturais.
O Gênero Recreativo ocupa-se de assuntos
da vida diária como costumes, comportamento,
saúde, literatura, teatro, cinema, descobertas
científicas, pesquisas, roteiros e relatos
de viagem, shows, horóscopo, palavras
cruzadas etc. São textos veiculados em
forma de artigos, crônicas, entrevistas,
reportagens etc. Também se usa, amplamente,
a linguagem não-verbal através
de caricaturas, desenhos, traços, fotos,
quadrinhos etc.
Para Amaral (1997) "seria difícil apresentar
como compartimentos estanques as diversas funções
do humorismo e estabelecer até que ponto
a graça ligeira, circunstancial, não é crítica
de costumes, ou não envolve crítica
social ou política ou administrativa".
Amaral define a caricatura como "retrato
caricatural de uma pessoa determinada...destinado
a ilustrar notícias políticas,
páginas de esporte, colaborações
literárias e as mais diversas colunas
assinadas". A charge ele explica como "caricatura
referente a acontecimentos imediatos, geralmente
políticos, veiculando necessariamente
uma crítica".
Segundo o caricaturista Fortuna "o problema
básico do chargista é a liberdade
de imprensa...O humor, sendo uma forma de pensamento,
não vai se por a serviço exatamente
dos que pretendem suprimir a sua livre manifestação".
O caricaturista Ziraldo define assim o trabalho
do chargista político: "A preocupação
dos jornais em sobreviverem como empresas, com
papel subvencionado e vínculos com o Poder,
talvez não tenha permitido o aparecimento
de novos chargistas que pudessem exercer sua
arte em toda a plenitude. Sem real liberdade
de expressão, não pode existir
o chargista. Contido, este artista não
existe, pois o nome de sua arte é preciso:
ele tem que estar na frente da batalha, comandando
a artilharia, mandando bala. O chargista é,
sem dúvida nenhuma, um dos editorialistas
do jornal em que trabalha. O mais objetivo, direto,
sintético. Se a linha do jornal dança
conforme a música, o chargista cai duro.
Chargista não sabe dançar". ( In
Entrevista pessoal a Luiz Amaral. Rio, 1997).
O humor também é instrumento de
luta e surge como "arma de combate "durante os
conflitos bélicos, conforme Amaral (1997): "Exorcizando
a angústia, dá confiança
ao combatente e, esvaziando a ameaça,
priva o adversário de sua arma psicológica".
Há também o "humor ideológico" que
prega estilos de vida, como ocorre com revistas
tipo as americanas Pato Donald, Super Homem,
Luluzinha ou as brasileiras Sacy-Pererê,
Mônica etc.
São muitos e inesquecíveis os
autores que se destacam no texto humorístico
ou recreativo, entre eles Sérgio Porto
( Stanislaw Ponte Preta-Última Hora e
Diários Associados ). No início
Sérgio Porto escrevia sua coluna para
exaltar o medíocre - daí o termo "festival
de besteira que assola o país", ou "besteirol".
Essa fase é assim analisada por outro
colunista de destaque, Antonio Maria: "O Stanislaw
era o supercolunista, a se fazer mais importante
do que os cronistas mundanos, então se
julgando uns gênios. (...) O sucesso da
minha coluna está realmente na escolha
dos personagens. Alguns fictícios, como
tia Zulmira ou Altamirando, outros verdadeiros,
como Ibrahim Sued ou Alziro Zarur".
2. LAZER
Porque o jornalismo preocupa-se com textos voltados
para o lazer do leitor?
Foi com o advento do jornal-empresa que se encontrou
espaço para este tipo de serviço
ao leitor. Na era pós-industrial o lazer
passou a ser valorizado como hábito inteligente
e indispensável à reciclagem física
e mental das pessoas. É um comportamento
cada vez mais presente nas sociedades desenvolvidas.
Sentar-se a um canto para saborear uma boa crônica
ou rir com as piadas dos textos caricaturais
ou dos quadrinhos não faz mal a ninguém.
Só faz bem.
O próprio ato de trabalhar vai sendo
revisto de outros modos em nossos dias. Especialistas
orientam as empresas a abrirem cada vez mais
espaço para o convívio prazeroso
entre os operários. Muitas contratam professores
de Fisioterapia que dão exercícios
de relaxamento no local de trabalho, durante
o horário do almoço ou no final
do expediente. Outras já contam com bem
montadas academias de ginástica e musculação
para o lazer dos funcionários em seu próprio
local de trabalho diário. São,
igualmente, cada vez mais habituais as promoções
envolvendo viagens, passeios e todo tipo de convivência
agradável entre pessoas que trabalham
numa mesma empresa.
Com a automação industrial, com
as novas tecnologias, a informática e
a globalização pode-se ganhar o
mesmo ou até mais trabalhando menos e
organizando melhor o tempo. Basta ter preparo
e criatividade para ficar no mercado mesmo quando
os postos de trabalho estão se reduzindo.
Muitos profissionais já conseguem trabalhar
em casa – cercados pelo conforto e pela informalidade
doméstica – mesmo tendo ou não
tendo vínculos trabalhistas com uma empresa,
como na chamada Produção Independente.
Com a Internet esse tipo de situação
vai ficando cada vez mais comum.
O sociólogo italiano Domenico De Masi é um
dos defensores desse tipo de "trabalho prazeroso",
onde a criatividade substitui a jornada muito
longa e excessiva. Trata-se de valorizar a Inteligência
Emocional que equilibra o interior das pessoas
para que elas respondam com serenidade e equilíbrio
diante dos desafios do dia-a-dia.
É uma atitude bem oposta à linha
de montagem da era industrial quando "a razão
era associada à produção
em série, à sincronização
dos movimentos, à hierarquização
e compartimentalização de funções,
conforme observa Marco Antonio de Rezende na
apresentação do livro organizado
por De Masi, "A Emoção e a Regra
- os grupos criativos na Europa de 1850 a 1950",
editado por José Olympio. Rio de Janeiro:
1999.
Em 1925 as linhas de montagem da Ford, em Detroit,
já produziam um 'Ford Bigode' a cada 15
segundos. A diretriz da produção
nas fábricas de Henry Ford era de que
o movimento devia ser contínuo e o trabalho
ir ao homem, não o homem ao trabalho.
Chapplin caricaturou essa situação
de rotina que integrava "homem e máquina" na
impagável cena do apertador de parafuso
que acaba entrando e saindo da máquina
como mais um produto qualquer.
No Gênero Recreativo o que se explora é,
exatamente, esse potencial de criatividade que
os fatos da vida encerram, mesmo os mais comezinhos,
rotineiros e simples. E se faz isto com amplo
sucesso, porque está claro que existe
uma demanda por esse tipo de texto voltado para
o lazer, a caricatura, a crítica social
etc.
Quem se põe a criar o texto imaginativo,
o texto voltado para o lazer ou a sátira,
acaba partindo do mesmo princípio que
emula qualquer artista, explorando possibilidades
em torno do assunto, indo além daquilo
que tem em mãos. O redator tem um fato,
esse fato comunica uma idéia "x" e ele
pode apenas transmiti-lo assim ao leitor ou pode
se indagar: "Mas, se não fosse assim,
como poderia ser?". No primeiro caso, trata-se
do chamado "pensamento convergente", que
leva a uma só resposta considerada correta:
Quem descobriu o Brasil?. Única resposta
considerada certa: Pedro Álvares Cabral.
Mas o pensamento será "divergente" se
a formulação for: "Se os portugueses
não tivessem descoberto o Brasil, como
estaríamos vivendo hoje?". A primeira
pergunta envolve memória; a segunda, imaginação,
conforme ensinam Maria Lúcia de Arruda
Aranha e Maria Helena Pires Martins em "Filosofando
- Introdução à Filosofia".São
Paulo: Ed. Moderna, 1995.
Contam Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari
( obra citada ) que "um dia o repórter
Joel Silveira não foi a uma festa. Tivesse
ido, teria feito uma reportagem; não estando
lá, escreveu a crônica da reportagem
que não foi escrita".
Tratava-se da festa de casamento da filha do
Conde Francisco Matarazzo com o "pracinha" João
Lage. Como não tinha convite, o repórter
pediu a um amigo que lhe contasse tudo o que
visse na festa. Com base nesse relato oral construiu
uma crônica minuciosa do evento de tal
modo que dificilmente o leitor poderia identificar
no texto a ausência do autor no evento
relatado, porque a crônica abre espaço
para esse tipo de inventividade, de criatividade,
diferenciando-se, por isto mesmo, da reportagem,
que é baseada em documentos, declarações
etc.
3. CRÔNICA
Parente próxima da literatura, a crônica
jornalística reflete situações
da rotina diária, criando uma identificação
entre o cronista e o leitor.
Carlos Drummond de Andrade dizia que o cronista "é uma
pessoa que se permite usar um tratamento mais
coloquial, usar o pronome eu e contar como é que
foi o dia anterior dele,$sempre, naturalmente,
relacionando um dado de vida pessoal dele com
um dado de vida pessoal do leitor, de modo que
aquilo que eu conto como tendo se passado comigo
possa ter se passado com qualquer leitor. Mas às
vezes esse eu é imaginário, falo
de uma coisa que não aconteceu comigo,
mas que poderia ter acontecido. Eu acho que essa
receita de crônica pode interessar ao leitor.
Mas interessar relativamente. Ele não
vai guardar aquilo para ler no dia seguinte:
aquilo é um elemento que ele tem para
achar graça nas coisas, porque, durante
o dia, ele tem outras preocupações".
( in "Entrevista a Gilberto Mansur, Revista Imprensa,
setembro de 1987, incluída no livro "A
Arte da Entrevista", organizado por Fábio
Altman. São Paulo: Scritta, 1995).
Na mesma entrevista, Drummond cita Machado de
Assis como o maior cronista brasileiro. Na apresentação
de "Machado de Assis-Crônicas Escolhidas".
São Paulo: Ática/Folha de São
Paulo, 1994, também Fernando Paixão
comenta que "cada crônica de Machado sucede
como uma boa conversa. Aliás, é o
próprio autor quem, no primeiro texto
desta seleção, define a origem
do gênero como um encontro de vizinhas
a escarafunchar as ocorrências do dia".
A seleção citada apresenta crônicas
machadianas que se relacionam exatamente com
os fatos da rotina diária: "Como comportar-se
no bonde", "Impostos", "Briga de Galo", "Meditações
no Bonde", "Caso de Bigamia", "O Cronista e a
Semana" etc.
"Como se fosse um coquetel, um pot-pourri, Machado
pegava uma notícia internacional, uma
notícia do interior de Minas, uma notícia
literária e fazia uma coisa realmente
muito hábil, mas isto é mais difícil
de fazer. É melhor a gente tocar num assunto
qualquer", avalia Carlos Drummond de Andrade.
Para ele "a crônica não é a
coluna política, não é o
editorial, não é a seção
econômica, não é nada..."
No dicionário a crônica é definida
como artigo de jornal ou revista, assinado, com
reflexões sobre assuntos diversos como
literatura, teatro, política, temas policiais,
acidentes, fatos rotineiros da vida diária
etc.
São grandes nomes da crônica brasileira:
Machado de Assis, João do Rio ( Paulo
Barreto ), Olavo Bilac, Manuel Bandeira, Rachel
de Queirós, Carlos Drummond de Andrade,
Genolino Amado, Rubem Braga, Sérgio Porto,
Antonio Maria, Fernando Sabino, Paulo Mendes
Campos, José Carlos de Oliveira, João
Ubaldo Ribeiro, Mário Prata, Veríssimo
etc.
Em relação ao conto literário,
a diferença da crônica é que
ela não tem personagens definidos. Retrata
pessoas e fatos da vida real, situações
concretas que são ou podem ser vivenciadas
na rotina diária.
Como em outros textos recreativos, "a crônica
inclui um ponto ótimo de tensão
intelectual. Se for simples demais ou de difícil
entendimento, o prazer de ler será menor",
conforme ensina Sérgio Vilas Boas ( obra
citada ).
Naturalmente vai escrever uma boa crônica
o repórter que tem boa formação
cultural; acentuado hábito de leitura;
texto fluente, fácil e agradável;
sensibilidade para observar os fatos do dia e
transformá-los em saborosas crônicas
com as técnicas do próprio conto
literário: Início ( fato a ser
analisado ou caricaturado ), desenvolvimento
( com observações que mostram pleno
domínio da língua e ampla visão
de mundo ) e fim ( com uma frase engraçada,
uma piada, uma "moral" etc). A recomendação
básica é ler atentamente boas crônicas,
observando-lhes a estrutura, para depois iniciar-se
no gênero com segurança. Nenhuma
disciplina técnica poderá passar
um formato fechado, padrão, quadrado,
hermético sobre como produzir o texto
imaginativo, pois não se trata de uma
receita de bolo, trata-se de criatividade. E
isto vai do potencial de cada um.
4. O PRAZER DE LER
Se é movido pelo lucro, o jornal-empresa
não pode ser o jornal apenas dos assuntos
sisudos, pesados, sérios. Quem lê o
Diário Oficial por puro prazer?. Tem sentido
levar um exemplar do Diário Oficial para
ler na praia se você não é funcionário
público, não está aguardando
uma nomeação ou se não tem
nada a ver com esse universo?
Para atingir a todos os segmentos da sociedade
( da criança ao idoso; do estudante ao
executivo; do braçal ao internauta etc
) o jornal tem que ser plural, precisa ser vários
produtos em um só, tem que ser diversificado, "articulado",
abrangente em relação aos temas
tratados e específico no aprofundamento
de cada assunto, daí as editorias que
produzem cadernos especializados para todos os
gostos. Atualmente, o politicamente correto manda
discutir bastante a ecologia, a biodiversidade,
o efeito-estufa, os direitos humanos, a desigualdade
social... ainda que se trate de temas que jamais
deveriam ter saído da agenda. etc.
Até do ponto de vista prático
esta política dos jornais dá bons
resultados porque as empresas sabem que seu consumidor-padrão é a
família, um pequeno universo que representa
toda a sociedade. Assim, na hora em que o pai
ou o responsável pela família decide
cancelar a assinatura do jornal por medida de
economia ou algo semelhante, há sempre
um ou mais simpatizante de algum caderno defendendo
a permanência do jornal. Assim, o produto
jornal, integrado por vários produtos
paralelos, acaba concorrendo com ele mesmo.
Então, quando o objetivo é conquistar
a preferência do leitor, o texto recreativo
cresce de importância.
Alguns defendem a publicação desse
gênero apenas na Segunda Seção,
nos segundos cadernos, nos cadernos culturais
etc. Outros, como Alberto Dines, acham que o
texto leve, engraçado, bem humorado deve
perpassar todo o jornal. Neste caso é necessário
que o repórter aprenda a desenvolver um
estilo próprio pelo qual consiga escrever
a notícia ou a reportagem, com todos os
dados e sem faltar à ética, mas,
ao mesmo tempo, usando uma linguagem fácil,
agradável, simples, clara, bem-humorada.
Outro espaço de humor no jornalismo é o
texto esportivo, onde se admite uma linguagem
mais descontraída: "Aqui a fantasia é livre,
aqui o vocabulário pode ir além
dos limites dos dicionários", afirma F.
Fraser Bond.
Para Oldemário Toguinhó, do Jornal
do Brasil, embora não de modo absoluto,
os redatores têm mais liberdade para
tratar a matéria - podem destacar o
lado pitoresco da notícia, o lado humano,
e aproveitar até um fato engraçado.
Isto, é claro, desde que não
descambe para a grosseria, a piada gratuita,
o mau-gosto".