"...és
livre em não pensares como eu. A tua
vida, os teus bens, tudo te será deixado.
Mas, a partir deste instante, és um
intruso entre nós" ( Tocqueville )
Pedro
Celso Campos
Resumo
Este
trabalho pretende estudar o fenômeno
da "indústria cultural" no que se refere
ao jornalismo ( impresso e eletrônico
), relacionando o posicionamento de Apocalípticos
( que criticam tal fenômeno ) e Integrados
( que o defendem entusiasticamente ), a partir
dos pressupostos enunciados pela Escola de
Frankfurt que define os meios de comunicação
de massa como uma orquestra afinada e hegemonicamente
voltada para o controle e a reprodução
da sociedade dominante. Sendo o moderno jornalismo
um produto da economia capitalista, visando,
portanto, o lucro acima de tudo, o receptor
da informação torna-se um consumidor
como outro qualquer, ainda que a mídia
se apresente perante ele como um simulacro
de democracia, de difusão cultural,
de oportunidades iguais etc. Discutiremos,
também, as críticas ao pensamento
de Adorno e Horkheimer, concluindo com o legado ético
da civilização, embora questionando
a "civilização bárbara" de
nosso tempo que comporta exatamente essa noção
de "indústria cultural" e de manipulação.
Projeções
da ONU indicam que o mundo terá entre
7,3 bilhões a 10,7 bilhões de pessoas
em 2.050, significando um crescimento entre 21,3%
e 77,7% em relação aos atuais 6
bilhões de habitantes do planeta. Parece
estranho abrir um artigo sobre a conceituação
de "indústria cultural" apresentando dados
demográficos. Mas é curioso notar
que há cerca de 50 anos atrás,
em 1947, a população mundial era
de 2,3 bilhões de pessoas, segundo a mesma
fonte. Há 2.000 anos, no alvorecer da
Era Cristã, o mundo contava apenas 170
milhões de moradores. Percebe-se que as
grandes invenções e a tecnologia
não só ajudaram a alongar a vida
do homem sobre a terra, envelhecendo a população
neste novo século, mas contribuíram,
também, com o surgimento dessa coisa chamada "mercado".
Nele insere-se a vida moderna em todas as suas
nuances, em todos os seus aspectos. Nele se movem
as pessoas do mundo, com suas histórias,
seus costumes, suas experiências de vida.
Naturalmente o processo de comunicação
está intimamente relacionado com esse
macro-mercado de seres humanos que precisam de
informação e comunicação
todos os dias, da mesma maneira que precisam
do ar que respiram, embora pelo menos um terço
da humanidade viva completamente à margem
do consumo. Falta saber se os meios de comunicação
relacionam-se com esse universo de pessoas para
ajudá-las a conquistar um mundo melhor
ou apenas para que se limitem a consumir, mecanicamente,
o que for recomendado – principalmente idéias – sem "dar
muito trabalho" à ordem estabelecida.
Cabe até mesmo discutir o conceito de "eficiência" da
comunicação tal qual a conhecemos.
Com tal avalanche de informações
estamos sendo bem informados? Ou assistimos passivamente
a esse desfilar monumental de notícias
disponibilizadas 24 horas por dia, todo o tempo,
o tempo todo, em todo lugar, a qualquer hora?
Em 1954, McLuhan escreveu na revista canadense "Commonweal",Vol.
60: "Antes da imprensa, um leitor era alguém
que discernia e sondava enigmas. Após
a imprensa, passou a significar alguém
que corria os olhos, que escapulia ao longo das
superfícies macadamizadas do texto impresso...à imprensa, à mecanização
da escrita, sucedeu, no Séc. XIX, a fotografia
e, em seguida, a mecanização da
fala ao telefone, no fonógrafo e no rádio.
Com o cinema e a televisão sobreveio a
mecanização da totalidade da expressão
humana, da voz, do gesto e da figura humana em
ação...cada um desses estágios
da mecanização da expressão
humana comparou-se, no seu âmbito, à revolução
deflagrada pela própria mecanização
da escrita".
O
filósofo acha que chegamos a um tempo
em que a habilidade de ler velozmente está relacionada
com distração e não com
saber, com conhecimento, com reflexão.
Seria
ingênuo imaginar que os meios de comunicação
de massa destinam-se apenas à diversão
popular. Desde a primeira linha de montagem comunicacional
baseada nos tipos móveis (1455 ), a imprensa
escrita, depois também eletrônica,
não fez outra coisa senão desenvolver
seu aparato tecnológico para influenciar
psicologicamente seus leitores, ouvintes, espectadores
e, agora, também os internautas. Bem antes
da Internet, McLuhan já se admirava com
o poder que o rádio, o cinema e a TV tinham
no sentido de influenciar as pessoas: " [ esses
meios] situam certas personalidades num novo
plano de existência. Elas existem não
tanto em si mesmas, mas como tipos da vida coletiva
sentidos e percebidos através de um meio
de massa. Bob Hope, o Pato Donald e Marilyn Monroe
tornam-se pontos de consciência coletiva
e comunicação para uma sociedade
inteira".
O
filósofo canadense alerta para a necessidade
de estudar, aguda e extensivamente, o processo
inteiro da transformação mágica
que a intermediação tecnológica
produz na sociedade através da comunicação
dirigida a bilhões de seres humanos. É notável
que a transmissão de eventos mundialmente
importantes, como partidas de futebol ou ataques
terroristas ao vivo como os de 11 de setembro
deste ano nos EUA, sejam vistos, ao mesmo tempo,
no mundo todo, por 1, 2 ou 3 bilhões de
seres humanos. São números impressionantes
que parecem solenizar a importância de
estudar a fundo os processos de comunicação.
Por sua natureza polêmica, todavia, tais
estudos têm levado aos mais diferentes
pontos de vista sobre o mesmo tema.
É polêmica,
por exemplo, a visão dos chamados "apocalípticos",
de um lado, e "integrados", de outro. Estes defendem
a "indústria cultural", alegando que ela
democratiza o acesso à cultura e à informação.
Para os integrados, conforme Umberto Eco (1993), "a
massa, superadas as diferenças de classe, é,
agora, a protagonista da história. Portanto,
sua cultura, a cultura produzida para ela, e
por ela consumida, é um fato positivo".
Entretanto
essa ideologia otimista dos tem finalidade utilitária
e é denunciada como profundamente falsa
e de má fé pelos "apocalípticos".
Se realmente as massas estivessem no controle
da história, se fossem sujeito do tempo
presente, provavelmente já se teria realizado
a ante-visão de Marx: "As massas, tão
logo adquiram consciência de classe, poderão
tomar a direção da história
e colocar-se como única e real alternativa".
Mas, a partir da "Dialética do Iluminismo",
livro de Theodor Adorno e Max Horkheimer, publicado
em 1947, em Amsterdam, deixou-se de ver o proletariado
como o sujeito revolucionário da história.
Segundo observa Bonner (1999), "a possibilidade
de transformação revolucionária
foi vista como evanescente diante de uma ordem
burocrática aparentemente sem brechas,
reforçada pela "indústria cultural" e
dedicada a eliminar a subjetividade e as fontes
reflexivas de oposição às
condições reinantes. Um certo elitismo
cultural tomou forma".
Se
a "indústria cultural" não abre
espaço para a conscientização
das massas e se "a emancipação é uma
função direta apenas das lutas
em que as massas participam", como defendiam
os radicais de 1968, já que o socialismo,
como alternativa emancipatória, não
pode ser imposto por decreto, que esperanças
restam num futuro onde o povo venha a ser sujeito
da história? A Dialética Negativa
dos frankfurtianos está fundada nessa
angustiosa impotência diante do racionalismo
objetivo: "No trajeto da mitologia à logística,
o pensamento perdeu o elemento da reflexão
sobre si mesmo, e hoje a maquinaria mutila os
homens mesmo quando os alimenta", afirma a "Dialética
do Iluminismo", numa imagem que bem se poderia
aplicar, em termos práticos, ao que os
americanos e ingleses chamam de "ajuda humanitária",
neste momento da história, ao jogarem
mísseis e alimentos, ao mesmo tempo, sobre
um dos países mais pobres do mundo, o
Afganistão.
Mas
a "dialética negativa", por sua ausência
de compromisso político, seu descolamento
da práxis, torna-se uma atitude intelectual
de recusa abstrata, assumida por um observador
individual e privilegiado. Ela percebe apenas
o aspecto divergente entre o movimento da razão,
de um lado, e o movimento da realidade objetiva,
de outro. Não reconhece a instituição
progressiva, no curso da própria objetivação,
de uma possibilidade superior da razão,
na crítica adorniana de Adelmo Genro Filho
(1987). Segundo ele, o limite teórico
e político da "dialética negativa" de
Adorno está em que "por mais profunda
que seja, a crítica torna-se diletante
e não revolucionária, se não
contém o momento concretamente afirmativo".
No
que se refere ao jornalismo, o pessimismo de
Frankfurt e seus seguidores não veria
outra saída senão a volta à fase
literária do século XIX, único
modo de extirpar a característica de "indústria
cultural" acentuadamente presente na fase moderna
do jornalismo de mercado.Em seus estudos sobre
o conceito de esfera pública, Habermas,
um dos últimos teóricos da Escola
de Frankfurt, vê contradição
entre um "jornalismo crítico" e a "publicidade
jornalística", esta exercida com finalidades
meramente manipulatórias (Adelmo 1987).
O primeiro estaria identificado com a fase literária
do jornalismo "de opinião" ( Séc
XIX), enquanto o segundo está ligado à forma
moderna do jornalismo enquanto estrutura empresarial,
cujo único sujeito efetivo é o
capital, portanto totalmente subordinado à lógica
do mercado. Para Habermas este tipo de jornalismo é dispensável
e não merece ser preservado, se queremos
um mundo em que a massa se torne sujeito da história. "Aceitas
as premissas teóricas da Escola de Frankfurt
sobre a "indústria cultural", não
há como propor um futuro melhor para o
jornalismo: ou ele permanece na mesquinharia
que o caracteriza atualmente, enquanto instrumento
de mercado, ou será extinto", pondera
Adelmo Genro Filho.
Entretanto
essa ideologia otimista dos tem finalidade utilitária
e é denunciada como profundamente falsa
e de má fé pelos "apocalípticos".
Se realmente as massas estivessem no controle
da história, se fossem sujeito do tempo
presente, provavelmente já se teria realizado
a ante-visão de Marx: "As massas, tão
logo adquiram consciência de classe, poderão
tomar a direção da história
e colocar-se como única e real alternativa".
Mas, a partir da "Dialética do Iluminismo",
livro de Theodor Adorno e Max Horkheimer, publicado
em 1947, em Amsterdam, deixou-se de ver o proletariado
como o sujeito revolucionário da história.
Segundo observa Bonner (1999), "a possibilidade
de transformação revolucionária
foi vista como evanescente diante de uma ordem
burocrática aparentemente sem brechas,
reforçada pela "indústria cultural" e
dedicada a eliminar a subjetividade e as fontes
reflexivas de oposição às
condições reinantes. Um certo elitismo
cultural tomou forma".
Se
a "indústria cultural" não abre
espaço para a conscientização
das massas e se "a emancipação é uma
função direta apenas das lutas
em que as massas participam", como defendiam
os radicais de 1968, já que o socialismo,
como alternativa emancipatória, não
pode ser imposto por decreto, que esperanças
restam num futuro onde o povo venha a ser sujeito
da história? A Dialética Negativa
dos frankfurtianos está fundada nessa
angustiosa impotência diante do racionalismo
objetivo: "No trajeto da mitologia à logística,
o pensamento perdeu o elemento da reflexão
sobre si mesmo, e hoje a maquinaria mutila os
homens mesmo quando os alimenta", afirma a "Dialética
do Iluminismo", numa imagem que bem se poderia
aplicar, em termos práticos, ao que os
americanos e ingleses chamam de "ajuda humanitária",
neste momento da história, ao jogarem
mísseis e alimentos, ao mesmo tempo, sobre
um dos países mais pobres do mundo, o
Afganistão.
Mas
a "dialética negativa", por sua ausência
de compromisso político, seu descolamento
da práxis, torna-se uma atitude intelectual
de recusa abstrata, assumida por um observador
individual e privilegiado. Ela percebe apenas
o aspecto divergente entre o movimento da razão,
de um lado, e o movimento da realidade objetiva,
de outro. Não reconhece a instituição
progressiva, no curso da própria objetivação,
de uma possibilidade superior da razão,
na crítica adorniana de Adelmo Genro Filho
(1987). Segundo ele, o limite teórico
e político da "dialética negativa" de
Adorno está em que "por mais profunda
que seja, a crítica torna-se diletante
e não revolucionária, se não
contém o momento concretamente afirmativo".
No
que se refere ao jornalismo, o pessimismo de
Frankfurt e seus seguidores não veria
outra saída senão a volta à fase
literária do século XIX, único
modo de extirpar a característica de "indústria
cultural" acentuadamente presente na fase moderna
do jornalismo de mercado.Em seus estudos sobre
o conceito de esfera pública, Habermas,
um dos últimos teóricos da Escola
de Frankfurt, vê contradição
entre um "jornalismo crítico" e a "publicidade
jornalística", esta exercida com finalidades
meramente manipulatórias (Adelmo 1987).
O primeiro estaria identificado com a fase literária
do jornalismo "de opinião" ( Séc
XIX), enquanto o segundo está ligado à forma
moderna do jornalismo enquanto estrutura empresarial,
cujo único sujeito efetivo é o
capital, portanto totalmente subordinado à lógica
do mercado. Para Habermas este tipo de jornalismo é dispensável
e não merece ser preservado, se queremos
um mundo em que a massa se torne sujeito da história. "Aceitas
as premissas teóricas da Escola de Frankfurt
sobre a "indústria cultural", não
há como propor um futuro melhor para o
jornalismo: ou ele permanece na mesquinharia
que o caracteriza atualmente, enquanto instrumento
de mercado, ou será extinto", pondera
Adelmo Genro Filho.
Os que defendem a "indústria cultural" acham
que a própria história (e não
apenas o jornalismo) chegou ao fim, pelo menos nos
moldes imaginados pela teoria crítica. Acreditam
que os antigos ideais de progresso, conforto e bem-estar
foram todos realizados, por isto não há mais
motivos para se preocupar nesta era pós-moderna
(Tofler-1980). Esse pensamento de dominação,
que a "indústria cultural" se encarrega de
esteriotipar, é vivamente condenado por educadores
como Paulo Freire (1994). Ele considera artimanha
do capitalismo neo-liberal a estratégia de
dizer que as utopias morreram, que não adianta
mais sonhar, que a pobreza é um determinismo
histórico, que as pessoas devem se conformar
com a vida que levam. Pelo contrário, diz,
o educador/formador, vale dizer, o comunicador, deve
resgatar a esperança das pessoas num mundo
melhor e mais justo, denunciando a manipulação
e a mentira.
O
resgate da cidadania proposto na pedagogia de
Paulo Freire poderia contribuir enormemente com
toda essa polêmica sobre as finalidades
dos meios de comunicação. Entretanto,
considerando-se a motivação capitalista
dos próprios meios e o fato de que existem
em função do mercado e não
da sociedade, como já foi dito, talvez
o resgate da cidadania e dos pressupostos éticos
devessem situar-se primeiramente entre os próprios
comunicadores. Melhor, entre os futuros jornalistas,
quando ainda estão nos bancos da faculdade.
Despertar no jovem essa visão crítica
em relação ao mundo e ao mercado,
talvez possa contribuir, de algum modo, com um
jornalismo – se não meramente literário
como quer Habermas – pelo menos mais voltado
para a conscientização do ser humano
e para a humanização das estruturas
em que todos estão inseridos. Marx disse: "Se
o homem é fruto das estruturas, humanizemos
as estruturas". Não humanizaremos as estruturas
transformando os meios de comunicação
num picadeiro de circo, distribuindo "panem et
circenses" ao invés de reflexão
crítica. "O sistema inflado pela indústria
dos divertimentos não torna, de fato,
mais humana a vida para os homens", declaram
Adorno e Horkheimer na "Dialética do Iluminismo".
O
debate sobre "indústria cultural" está sempre
na ordem do dia porque, como afirma Eco (1993), "...o
problema da cultura de massa nos envolve profundamente
e é sinal de contradição
para a nossa civilização". Afinal,
ele está no centro da vida moderna.
NEM
APOCALIPTICOS, NEM INTEGRADOS
Nem
os que se maravilham com o poder da mídia
tal qual ela é, nem os que a odeiam por
sua capacidade de manipular e iludir, parecem
ter esgotado os argumentos a favor ou contra
a "indústria cultural". O que sobra do
debate, entretanto, é uma grande confusão
porque enquanto uns vêem na mídia
a diabólica planificação
da sociedade, outros alardeiam que a sociedade
se tornou transparente e democrática em
virtude da economia informacional. Há os
que apostam nas novas tecnologias da informação
e da comunicação ( a "telemática" )
para superar a "crise de civilização" instalada
na economia e na política. A idéia
seria um novo modo global de regulação
da sociedade – o sistema nervoso das organizações
e da sociedade como um todo – recriando uma "ágora" informacional,
ampliada para as dimensões da nação
moderna e deixar desabrochar a abundância
da sociedade civil, conforme analisam Simon Nora
e Alain Minc em "A Informatização
da Sociedade", de 1978, citados por Mattelart
(1999).
Seria
como que "devolver a voz ao povo", se levarmos
em conta que os cidadãos tinham direito
a voz e voto nas reuniões cívicas
da "ágora" grega. Os integrados acham
que os modernos meios de comunicação
já permitem ampla voz ao povo. Mas isto
se dá episodicamente através de
cartas, e-mails, telefonemas, entrevistas etc.
Sendo a mídia um espaço de "mercado",
todos sabemos que o acesso das pessoas é limitado
aos interesses da empresa de comunicação.
Só quem tem acesso pleno nessa área
da "esfera pública" de que fala Benjamim,
são os donos dos meios. No Brasil eles
podem ser contados nos dedos: São sete
as famílias que comandam os principais
veículos de comunicação
do país. No exterior, pelo menos no ocidente,
não muda muito: Um número ainda
menor de agências de notícia decidem
o que é notícia e entopem as redações
do mundo todo com a visão do seu próprio
mundo. Certamente é um mundo democrático,
desde que se entenda por democracia "o direito
pleno de uns" e não o pleno direito de
todos. Por isto o Sr. Bush ou o Sr. Blair podem
falar em "inimigos da democracia" e apontá-los
com o dedo, pois são considerados inimigos
todos aqueles que dificultam, de alguma maneira,
o culto ao deus Moloc dos negócios.
Os
críticos da "indústria cultural",
os apocalípticos, acham que não
se trata de "devolver a voz ao povo", pelo fato
elementar de que ela nunca esteve com o povo.
Quando eram meramente literários, culturais
e opinativos, os jornais eram produzidos para
uma elite intelectualizada. Depois, com a fase
mercadológica, os jornais tornaram-se
um negócio de poucos. Com o rádio,
na década de 20, não foi diferente.
No Brasil, por exemplo, onde o governo Vargas
proibiu, nos primeiros anos, a veiculação
de publicidade, só as grandes famílias
podiam investir na instalação de
emissoras de rádio. Na década de
50 a televisão surgiu da mesma forma,
atraindo o pessoal do rádio e beneficiando-se
dos favores oficiais. Só na última
década do Séc. XX surgiram as Rádio
Comunitárias, mas a falta de regulamentação
as impede de funcionar. E falta regulamentação
porque se trata de pequenas emissoras, com alcance
de 1 km, destinadas a pequenas comunidades, portanto
de pouco retorno político ou econômico
para os interesses do governo e dos empresários.
Com a chegada dos canais de TV paga, criou-se
a obrigatoriedade de implantação
de TVs Comunitárias, mas poucas estão
em funcionamento no país.
Como
se pode notar, é difícil dar voz
ao povo. As emissoras comerciais, por exemplo,
ciosas do faturamento publicitário, caluniam
as Rádio Comunitárias de todos
os modos, classificando-as de "piratas" e divulgando
que o sinal transmitido por elas pode derrubar
aviões e até desviar ambulâncias.
Criticando
a tese de Mattelart de que o povo mesmo deve
ser o gerador das mensagens no universo da comunicação,
Adelmo Genro Filho esclarece: "....essa tese é de
uma pobreza teórica evidente. Ela corresponde,
sem dúvida que em nível diferente, à tese
da autogestão sobre a economia, proposta
de índole pequeno-burguesa que toma a
solução da alienação
mercantil de modo absolutamente idealista, ou
seja, como o controle imediato dos indivíduos
sobre as ´suas´ condições de produção,
não percebendo aquilo que o capitalismo
avançado tornou óbvio: que as condições
de produção de quaisquer trabalhadores,
seja onde for, constituem parte de uma rede universal
de relações, uma totalidade que
só pode ser dominada politicamente na
relação com esse todo. E se é verdade
que, em certo sentido, a distância entre
emissor e receptor é a mesma que existe
entre produtor e consumidor – como já afirmava
a Escola de Frankfurt e Mattelart repete – o
proletariado e os setores revolucionários
devem controlar o conjunto das condições
de produção, incluindo aí a
informação e a cultura como uma
totalidade, isto é, politicamente. O que é muito
distinto de ´devolver a palavra ao povo´, uma
idéia ingênua que, entre outras
coisas, não leva em conta que o ´povo´ jamais
teve acesso ao tipo de ´palavra´que agora se
pretende devolver-lhe: os jornais, o rádio,
a televisão e os demais meios eletrônicos
de comunicação".
Apesar
de Adelmo ter escrito esta crítica em
1987, portanto bem antes do surgimento da Internet
no Brasil, em 1995, é preciso lembrar
que a Internet, por si só, também
não assegura a democratização
dos meios, pois as barreiras sociais, econômicas
e culturais impostas pelo sistema, afastam milhões
de pessoas do uso regular da Internet. Ela torna-se
meio de expressão apenas para a minoria
que tem acesso ao computador e à conexão
telefônica.
Os
teóricos não se entendem a respeito
da "indústria cultural". Autor de renomados
títulos sobre comunicação,
especialmente sobre Jornalismo, Ciro Marcondes
Filho escreveu que "somente no momento em que
a imprensa passa a funcionar como instrumento
de classe é que ela assume o seu caráter
rigorosamente jornalístico" e não
escapou da ferina análise de Genro Filho: " Na
verdade ocorre exatamente o contrário:
a imprensa só assume um caráter
rigorosamente jornalístico quando ultrapassa
o seu funcionamento estrito enquanto instrumento
de classe. Para Marcondes Filho, com seu ´marxismo´ diretamente
inspirado em Habermas e sob a grande sombra da árvore
de Frankfurt, o capital é uma categoria
que adquire um poder quase místico: possui
um espelho mágico que faz o jornalismo
aparecer apenas para mirar-se nele e reproduzir
as condições da sua acumulação".
Criticando
outra afirmação de Ciro, segundo
a qual "imprensa e capitalismo são pares
gêmeos", Adelmo reconhece que "o jornalismo é informação
transformada em mercadoria. Mas nem todas as
mercadorias são iguais. Além disso,
será que todo o jornalismo será sempre,
inevitavelmente, mercadoria?"
Além
de mercadoria, o jornalismo capitalista é atravessado
pela ideologia como uma fruta é passada
por uma espada, ou seja, de modo flagrante, evidente,
doloroso, compara Adelmo, citando uma imagem
de João Cabral.
Até mesmo
o "clássico" da professora Cremilda Medina,
que todo estudante de jornalismo carrega na sacola
já nos primeiros anos de faculdade, " Notícia – um
produto à venda", passou pelo rigor crítico
do filósofo gaúcho: "A tradição
da Escola de Frankfurt é um espectro que
ronda as abordagens sobre o jornalismo. Mesmo
entre os autores que se colocam numa perspectiva
ideológica pouco crítica em relação
ao capitalismo, comparecem pressupostos daquela
visão, evidentemente que recombinados
numa salada eclética temperada a gosto.
O livro de Cremilda Medina é um exemplo
desse fenômeno". Em seguida ele transcreve
o trecho a ser comentado:
"Nesse
momento, é preciso examinar o problema
no seu enquadramento geral: informação
jornalística como produto da comunicação
de massa, comunicação de massa
como indústria cultural e indústria
cultural como fenômeno da sociedade urbana
industrializada"
"Cremilda
reconhece o jornalismo, bem como a indústria
cultural no seu conjunto, na qual ele está inserido,
não apenas como instrumento de dominação
ideológica, mas como um aspecto da ´moderna
sociedade industrial´ inaugurada pelo capitalismo.
O jornalismo é entendido como produto
de uma nova dinâmica social, liberando
potenciais democratizantes. No entanto, os limites
ideológicos e teóricos de sua divergência
com o pessimismo da Escola de Frankfurt é que
ela pensa o desenvolvimento de tais potenciais
em termos ´evolucionistas´e não numa perspectiva
revolucionária. Embora recorra a Benjamim
e Enzensberger, sua filiação teórica
está mais próxima do funcionalismo
do que do marxismo. Quando se propõe a
discutir um modelo de análise dos elementos
do processo de codificação da mensagem,
ela o faz adotando uma classificação
tipicamente funcionalista. O problema da ´angulação´ no
jornalismo aparece decomposto em ´nível
grupal´ (empresa jornalística), ´nível
massa´ ( necessidade da grande indústria
levar em conta o consumo de massa das informações)
e o ´nível pessoal´ (originalidade, estilo
e talento pessoais na elaboração
da mensagem)", comenta Adelmo.
Ele
acha que esse "reducionismo" acaba levando o
jornalismo a perder sua especificidade e concreticidade
histórica: "primeiro ele é tratado
como um aspecto da indústria cultural,
depois como uma modalidade de ´linguagem´ e,
finalmente, essa linguagem é considerada
como uma gradação da linguagem
comum".
Sobram
críticas e contra-críticas para
todos os lados. Mas o debate deve durar muito,
especialmente com as novas tecnologias que estão
revolucionando – senão o conteúdo,
como queria Adelmo – o modo de fazer jornalismo
de papel, de Internet, de rádio, de TV
etc. Na verdade, o debate contribui com aquilo
que o homem tem de melhor e que lhe confere superioridade:
o saber. "Nele muitas coisas estão guardadas
que os reis, com todos os seus tesouros, não
podem comprar, sobre as quais sua vontade não
impera, das quais seus espias e informantes nenhuma
notícia trazem, e que provêm de
países que seus navegantes e descobridores
não podem alcançar", declaram Adorno
e Horkheimer na Dialética do Iluminismo.
Até mesmo
a orientação marxista da Escola
de Frankfurt, onde nasceu o próprio conceito
de "indústria cultural", é criticada
quando se analisa a modernidade na qual se inserem
os meios de comunicação de massa.
Essa análise crítica está muito
clara em Sérgio Paulo Rouanet (1987),
quando ele afirma: "Benjamin se enganou, como
tantos outros marxistas, quando considerou que
sua época estava madura para a mudança
das relações sociais, e por isso
julgou que seria possível despertar a
modernidade, para interpretar seu sonho. Ela
continua dormindo, e o sonho pós-moderno,
por mais banal que seja, é o prolongamento
do sonho da modernidade, e essa é a melhor
demonstração de que não
existe ruptura entre as duas épocas".
Todavia,
Rouanet observa que se não há ruptura,
há vontade de ruptura: "Se tantos críticos
e artistas perfeitamente inteligentes acham que
estamos vivendo uma época pós-moderna, é porque
querem distanciar-se de uma modernidade vista
como falida e desumana".
Como
a humanidade pode chegar a um tal nível
de progresso tecnológico e mesmo assim
ser acusada de desumana e cruel? Como os meios
de comunicação, sendo tão
bem estruturados tecnologicamente, podem colocar-se
meramente a favor do mercado, enquanto simulam
estar obsequiosamente voltados para o público?
Rouanet parece acertar na resposta: "A crença
no progresso expôs o homem a todas as regressões.
Seu individualismo estimulou o advento do sujeito
egoísta, preocupado unicamente com o ganho
e a acumulação. A crença
na mudança das relações
sociais como forma de implantar o paraíso
na Terra levou a uma utopia concentracionária,
e resultou na criação de todos
os ´gulags´. Sua cruzada desmistificadora solapou
as bases de todos os valores, deixando o homem
solitário, sob um céu deserto,
num mundo privado de sentido".
Para
o filósofo, "o novo Iluminismo proclama
sua crença no pluralismo e na tolerância
e combate todos os fanatismos, sabendo que eles
não se originam da manipulação
consciente do clero e dos tiranos, como julgava
a Ilustração, e sim da ação
de mecanismos sociais e psíquicos muito
mais profundos. Revive a crença no progresso,
mas o dissocia de toda filosofia da história,
que o concebe como uma tendência linear
e automática, e passa a vê-lo como
algo de contagiante, probabilístico e
dependente da ação consciente do
homem. O único progresso humanamente relevante é o
que contribui de fato para o bem-estar de todos,
e os automatismos do crescimento econômico
não bastam para assegurá-lo. O
progresso, nesse sentido, não é uma
doação espontânea da técnica,
mas uma construção intencional,
pela qual os homens decidem o que deve ser produzido,
como e para quem, evitando ao máximo os
custos sociais e ecológicos de uma industrialização
selvagem. Esse progresso não pode depender
nem de decisões empresariais isoladas
nem das diretrizes burocráticas de um
Estado centralizador, e sim de impulsos emanados
da própria sociedade".
A
FALSA INTERATIVIDADE
Estudos
antigos examinavam o fenômeno da comunicação
por sua capacidade de reduzir ou derrubar as
barreiras do tempo e do espaço na aproximação
das pessoas ( Rüdiger-1998). Hoje as telecomunicações
provocaram formas de interação
tão intensa que o indivíduo já não
consegue viver normalmente, em sociedade, se
não estiver conectado com o ambiente midiático.
O volume de notícias disponível
na Internet ou na TV a cabo torna-se referência
na conversa diária das pessoas no trabalho,
em casa, na rua, na escola etc. Segundo Mark
Pôster ( "The Mode of Information. Cambridge:
Polity Press, 1990) citado por Rüdiger, "a
aldeia global mcluhiana tornou-se tecnicamente
factível, engendrando importantes conseqüências
que questionam a adequação das
teorias e pontos de vista existentes a respeito
da comunicação". Para McLuhan, "eletricamente
contraído, o globo já não é mais
do que uma vila, uma aldeia global, em que o
meio é a mensagem".
A
tecnologia moderna produziu um êxtase na
comunicação. Com a mediação
tecnológica, a comunicação
criou uma nova realidade em que tudo se faz visível
e imediato. Os indivíduos, os seres e
as coisas digitalizaram-se e os segredos do mundo,
pouco a pouco, tornaram-se transparentes (Rüdiger).
Mas comunicação não é só técnica:
"Perde
sentido a comunicação que tenta
instituir tecnicamente o simbólico. A
comunicação só faz sentido
contra o pano de fundo da práxis vital
imediata, tecida simbolicamente", afirma Rüdiger,
para quem tanto apocalípticos como integrados
acabam participando de um determinismo tecnológico
que tende a fazer-nos cair na confusão
mortal entre expressão (o instituído)
e intenção ( o instituinte ) da
comunicação.
Se
a comunicação é uma mediação
simbólica da práxis social – conforme
Habermas – é natural que a redutibilidade
técnica não pode dar conta de explicar
um processo intrinsecamente relacionado com a
história humana e as instâncias
míticas do coletivo.
"Da
oralidade tribal apoiada nas mitologias – ditando
os parâmetros da conversa cotidiana – à formidável
revolução produzida pelas técnicas
de impressão e a crescente difusão
da mídia impressa a história da
comunicação registra a secularização
fundamental da práxis", insiste Francisco
Rüdiger ( Introdução à Teoria
da Comunicação. São Paulo:
Edicom,1998), completando que a técnica
passou a explicar o caráter terreno e
humano da produção e troca social
das mensagens.
Quem
estuda os efeitos sociais dos meios de comunicação
encontrará pensamento semelhante em Adriano
Rodrigues ( "Estratégias da Comunicação.
Lisboa: Prensa, 1990): "Nas sociedades tradicionais,
as relações intersubjetivas estavam
relativamente confinadas a um lugar concreto
de enraizamento, a uma comunidade de pertença.
Na distinção entre os que partilhavam
conosco idêntico destino, os de dentro
e os outros, assentava o reconhecimento de regras
de convivência e de conivência".
As
tecnologias modernas, ao contrário, desenvolveram-se
ao ponto de superar essas barreiras de espaço
e tempo. Noções de desterritorialização
das pessoas e de desenraizamento das experiências
estão presentes no espaço globalizado
da mídia que transmite em tempo real,
intercomunicando realidades dos lugares mais
distantes e díspares do universo. O homem
está em contato direto com a história.
A animação por computador permite "admirar" como
viviam, em seu próprio habitat, os dinossauros,
tema que antes era intermediado apenas através
das lendas e da narrativa mítica.
Entretanto,
a crítica que se faz hoje ao avanço
tecnológico da mídia - a partir
da mecanização descrita por McLuhan
- por sua planificação da vida
social, é a perda da espontaneidade na
comunicação. Fundada temporalmente
na instantaneidade, a mídia eletrônica
torna-se instrumental, sem margem à reflexão,
ao aprofundamento ( Rüdiger-1998).
A
sublimação da ação
comunitária acabou reduzindo tudo à técnica.
Comunicar tornou-se sinônimo de empregar
máquinas e aparatos tecnológicos.
O sentido da ação comunicativa
como uma "ação em comum" vai desaparecendo
na funcionalidade da linguagem tecnificada, rompendo-se
as ligações simbólicas que
sustentam a interação. Ao invés
de unir, o processo separa e isola as pessoas,
observa o autor.
Observando
o poder que a mídia tem de influenciar
a sociedade, ditando modos de vida e costumes
muitas vezes alheios à cultura de nosso
povo, temos a falsa impressão de interatividade
entre emissor e receptor. Sem uma análise
mais profunda, podemos achar, com os integrados,
que a "indústria cultural" veio ampliar
os horizontes das pessoas. Entretanto, trata-se,
como afirma Rüdiger, de uma interação
que não se dá mais a partir de
pressupostos históricos, de vivências,
experiências e emoções, mas
a partir da informação fria, solta,
descontextualizada que às vezes chega
de um mundo distante cujo contexto social, econômico
e cultural escapa ao nosso repertório.
A mistura de ficção e realidade
acaba confundindo as pessoas porque tudo está baseado
na técnica de transmissão. Imagens
que outrora causavam impacto como cenas violentas
de terrorismo ao vivo ou de corpos tombando em
nossa tela de TV já não nos remetem
mais à lembrança de que alí está morrendo
um cidadão, um trabalhador, um pai de
família, um jovem que tinha um futuro
pela frente, uma criança que não
chegou a experimentar a vida...é apenas
mais uma cena de cinema que se assiste comendo
pipoca. É a desvalorização
da vida, a banalização da morte.
Mesmo
assim existe a falsa interatividade que se dá através
da divulgação de modismos, expressões
pré-fabricadas etc de modo que as pessoas
são consideradas bem informadas quando,
no local de trabalho, declaram ter visto a mesma
cena, a mesma imagem, a mesma entrevista, a mesma
notícia ou o mesmo concurso que lançou
a última moda ou ainda o mesmo avião
entrando com todos os seus ocupantes na mesma
torre do World Trade Center, em Nova York.
Todavia,
esse tipo de "interação" não
leva a nenhuma ação, a nenhuma
reflexão, a nenhuma atitude prática.
As pessoas parecem até mais confusas,
com tanta informação. Se não
reagissem como autômatas, certamente sairiam
em passeatas de protesto exigindo justiça
e paz. Ao contrário, contemplam passivamente
as manifestações das minorias de
sempre contra os problemas da humanidade, contra
a insensibilidade do G-8, contra as exigências
do FMI, contra as estratégias de guerra
tratadas como "Justiça Infinita"...
Voltemos
a Rüdiger: "Aparentemente a comunicação
parou de remeter à mensagem, para voltar-se
apenas à sua própria realimentação.
Entretanto, podemos perguntar se, realmente,
isso é uma novidade do ponto de vista
epistemológico...ou a comunicação
se tornou uma categoria destinada à contaminação
ideológica por parte do dispositivo de
poder/saber que, com esse nome, se estabeleceu
em nossa sociedade?"
É um
questionamento razoável, afinal defende-se
a comunicação como um bem social
que contribuiria para a compreensão mútua
entre os homens e o progresso do indivíduo.
Mas será que ela realmente promove isto?
Em que medida? Quando usada ideologicamente em
busca do puro consenso – através da reiteração
de imagens conceituais – a comunicação
está a serviço do homem ou do sistema?
O volume de informação imediatista
não acaba "emudecendo" o homem? O reconhecimento
de que a política depende cada vez mais
da comunicação ( pois "tudo é comunicação" )
não pode levar a um mecanismo sistêmico
de reprodução da sociedade dominante?
Para
contribuir com o debate de apocalípticos
e integrados podemos tomar de empréstimo
a conclusão de Rüdiger: "A fundamentação
conceitual básica, em última instância,
não deve ser buscada no registro teórico
da comunicação, mas numa teoria
crítica da sociedade".
CONCLUSÃO:
SAÍDA ÉTICA
Se é preciso "humanizar
as estruturas" na tentativa de curar esse "mal
estar da civilização" de que falou
Freud, também é importante compreender,
com Walter Benjamim, citado por Michael Löwy
(2.000) que o processo técnico e industrial
pode ser portador de catástrofes sem precedentes.
E a maior catástrofe que pode ocorrer é acharmos
que nós, perfeitamente integrados com
o mundo pela mídia, somos os povos civilizados
da história e que os outros, aqueles que
fizeram picadinho do Império Romano, é que
eram os bárbaros. Ou, para ficar na agenda
do dia, e repetir o Primeiro Ministro Italiano,
Berluscone, nós, os cristãos ocidentais, é que
somos superiores, os outros, árabes e
muçulmanos, é que são "bárbaros".
É aceitando,
inermes, o discurso da mídia que chegamos
a declarações tão crassas
e preconceituosas. Na verdade, as ações
dos antigos bárbaros podem ser consideradas
monásticas se comparadas à máquina
de matar gente em que se transformou a moderna "civilização".
O século XX descrito por Eric Hobsbawn
foi de brilhantes avanços tecnológicos,
mas também foi o mais bárbaro da
história humana com tantos casos de tortura,
massacres, Auschwitz, Hiroshima, Goulags, Treblinka,
Sobibor, Terceiro Reich, Oriente Médio,
Guerra Fria, bombardeios da Otan, Afganistão,
Tempestade no Deserto, armas biológicas
etc.
"Mesmo
Benjamim, o mais pessimista dos filósofos
frankfurtianos, não podia adivinhar a
que ponto chegaria a capacidade maléfica
e destrutiva da modernidade", comenta Löwi.
A
neurose coletiva causada pelos atentados terroristas
e pela reação americana, multiplicada
insistentemente pela mídia, parece encaixar-se
perfeitamente na indagação que
Freud faz no final de seu texto "O Mal-Estar
da Civilização", nos anos 30: "Se
o desenvolvimento da civilização
possui uma semelhança tão grande
com o desenvolvimento do indivíduo, e
se emprega os mesmos métodos, não
temos nós justificativas em diagnosticar
que, sob a influência de premências
culturais, algumas civilizações,
ou algumas épocas da civilização – possivelmente
a totalidade da humanidade – se tornaram neuróticas?"
Contra
a agressividade do ser humano, Freud lembra o
maior de todos os mandamentos: "Ama o teu próximo
como a ti mesmo", mas logo em seguida se revela
céptico na viabilidade prática
do postulado que traria felicidade ao mundo,
diante de tanta injustiça e de tanta violência.
Os
meios de comunicação contribuem
para reduzir a violência ou fazem dela,
com regozijo, a manchete de cada dia argumentando
que "notícia boa não vende"? Se
os meios têm tanto poder de influência,
se eles acabam "agendando" a vida social, quem
deve ser responsabilizado pelo agravamento da
crise no mundo? Será que os pacifistas
do Greenpace gastam mais em anúncios na
mídia que as indústrias fabricantes
de armas? A relação não
será, exatamente e inusitadamente, a imagem
do barquinho frágil, de cor laranja, cavalgando
ondas encapeladas na tentativa de parar o transatlântico
de ferro cheio de lixo nuclear, como na referência
bíblica de Davi contra Golias?
Aprendemos
no catecismo que Davi só derrotou Golias
com "ajuda externa".
Quem
poderá nos defender se a mídia
está tão envolvida com o sistema?
Mas
quem faz a mídia não são
as máquinas, não é apenas
a tecnologia.
São
pessoas.
As
pessoas não têm bits, têm
memória, cultura, coração,
mente, alma, história de vida, visão
de mundo...Elas são as "circunstâncias" de
que fala Marx.
Não
seria o caso de alimentar os comunicadores com
fartas doses de solidariedade humana, respeito
aos excluídos, honestidade na informação,
visão crítica do mundo, sentido
de justiça social, formação
moral e ética?
Ética. É a
palavra.
No
entanto Ética é uma disciplina
que, em muitos cursos de Comunicação
Social, vale exatamente 50% menos que as demais:
apenas dois créditos. É julgada
tão desnecessária que a grade curricular
a situa no último ano, antes do aluno
ingressar no mercado onde chega com os ensinamentos
sobre ética todos muito frescos e bem
lembrados...mas depois de passar o curso inteiro,
4 anos, fazendo tudo errado, solidariamente,
com colegas, professores, funcionários,
chefias etc.
Fala-se
muito em ética, mas ninguém liga.
No
entanto trata-se de um debate tão oportuno
como o dos apocalípticos e integrados
a respeito de indústria cultural. Para
o jornalista francês ( Lê Monde)
Alain Accardo, há uma cooptação
aberta ou dissimulada nas redações
dos grandes grupos de comunicação.
Como os réus de Nuremberg, os jornalistas
não querem tomar conhecimento do estrago
causado pela falta de ética, alegando
apenas que estão "cumprindo ordens". Ele
critica a "docilidade" dos jornalistas perante
as empresas onde trabalham e diante das pautas
mais absurdas e anti-sociais ao declarar: "...com
profissionais ideologicamente confiáveis
nos postos de comando, o mecanismo de cooptação,
aberta ou dissimulada, garante, aí como
em toda parte, um recrutamento destinado a impedir
a entrada de raposas no galinheiro ou de hereges
na missa. Esse mecanismo começa a funcionar
nos cursos de jornalismo e continua permanentemente
em ação nas redações
dos jornais. Portanto, os meios de comunicação
são solidamente dominados por uma rede
na qual basta trabalhar `como se sente´ para
trabalhar ´como se deve´, isto é, em defesa
das normas e valores do modelo dominante – modelo
esse onde se produziu o consenso entre uma direita
em pane de idéias e uma esquerda em crise
de ideais".
Não
se pode obrigar as pessoas a serem honestas senão
por força de lei.Mas é desejável
que sintam a necessidade de serem moralmente
idôneas, eticamente corretas. Na linha
de Maquiavel, os homens são todos egoístas
e ambiciosos e só deixam de praticar o
mal quando são obrigados pela repressão
da lei. "Os desejos e as paixões são
os mesmos em todos os tempos e locais", disse
o mestre florentino. Na Internet, por exemplo,
quando o jornal eletrônico erra, não
basta substituir o arquivo que contém
o erro. É preciso informar que errou durante
o tempo exato em que a matéria esteve
exposta. Afinal, no jornalismo digital trabalhamos
com o velho texto de Gutenberg – agora com tipos
tão móveis quanto eletrônicos – e
com o conceito de tempo que caracteriza o jornal
do rádio ou da TV. Qualquer advogado saberá aplicar
a Lei 5.250 ao portal e ao jornalista que informou
erradamente, pois ele vai correlacionar, naturalmente,
o conteúdo do texto e o tempo de exposição,
podendo aquilatar o total do dano a partir do
tempo de veiculação, prejulgando
a audiência que teve acesso ao erro.
Afinal,
como já disse nosso guru Alberto Dines, "jornalismo
digital é, antes de tudo, jornalismo".
O surgimento da internet pode ser comparado à descoberta
do fogo, mas não é a reinvenção
da roda. Os jornalistas precisam continuar escrevendo,
informando, opinando, interpretando, apurando,
investigando, checando, corrigindo, fazendo jornalismo
de qualidade e com ética.
Existe
a Lei de Imprensa, existem os códigos
próprios para que todos escrevam somente
a verdade, nada mais que a verdade...ainda que
não se saiba a verdade de quem...Afinal,
o que é a Verdade?
Mas,
voltando a Maquiavel, se não se pode esperar "virtú" do
príncipe, isto é, do sistema – e
o exercício da "virtú" consiste
exatamente em ser ético – então
a saída pode ser discutir ética à exaustão
com os futuros comunicadores e não apenas
no final do curso.
É certo
que os jornalistas não são donos
dos meios de comunicação. Mas os
que se destacam chegam a posições
de comando e aí poderão agir para
influenciar as empresas a colocarem seus veículos
a favor da humanidade e não apenas do
mercado.
Só assim
teríamos mais cultura (autêntica)
e menos indústria ( cultura inútil
) nos meios de comunicação, dirimindo-se
a enorme peleja entre apocalípticos e
integrados.
Quem
sabe, porém, tudo isto não passe
de Utopia...
Consola
saber, porém, que são os utópicos
que mudam o mundo, tenha ele seis bilhões
ou 12 bilhões de humanos(PCC).
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que defendem a "indústria cultural" acham que a própria história
(e não apenas o jornalismo) chegou ao fim, pelo menos nos moldes imaginados
pela teoria crítica. Acreditam que os antigos ideais de progresso,
conforto e bem-estar foram todos realizados, por isto não há mais
motivos para se preocupar nesta era pós-moderna (Tofler-1980). Esse
pensamento de dominação, que a "indústria cultural" se
encarrega de esteriotipar, é vivamente condenado por educadores como
Paulo Freire (1994). Ele considera artimanha do capitalismo neo-liberal a
estratégia de dizer que as utopias morreram, que não adianta
mais sonhar, que a pobreza é um determinismo histórico, que
as pessoas devem se conformar com a vida que levam. Pelo contrário,
diz, o educador/formador, vale dizer, o comunicador, deve resgatar a esperança
das pessoas num mundo melhor e mais justo, denunciando a manipulação
e a mentira.
O
resgate da cidadania proposto na pedagogia de
Paulo Freire poderia contribuir enormemente com
toda essa polêmica sobre as finalidades
dos meios de comunicação. Entretanto,
considerando-se a motivação capitalista
dos próprios meios e o fato de que existem
em função do mercado e não
da sociedade, como já foi dito, talvez
o resgate da cidadania e dos pressupostos éticos
devessem situar-se primeiramente entre os próprios
comunicadores. Melhor, entre os futuros jornalistas,
quando ainda estão nos bancos da faculdade.
Despertar no jovem essa visão crítica
em relação ao mundo e ao mercado,
talvez possa contribuir, de algum modo, com um
jornalismo – se não meramente literário
como quer Habermas – pelo menos mais voltado
para a conscientização do ser humano
e para a humanização das estruturas
em que todos estão inseridos. Marx disse: "Se
o homem é fruto das estruturas, humanizemos
as estruturas". Não humanizaremos as estruturas
transformando os meios de comunicação
num picadeiro de circo, distribuindo "panem et
circenses" ao invés de reflexão
crítica. "O sistema inflado pela indústria
dos divertimentos não torna, de fato,
mais humana a vida para os homens", declaram
Adorno e Horkheimer na "Dialética do Iluminismo".
O
debate sobre "indústria cultural" está sempre
na ordem do dia porque, como afirma Eco (1993), "...o
problema da cultura de massa nos envolve profundamente
e é sinal de contradição
para a nossa civilização". Afinal,
ele está no centro da vida moderna.
NEM
APOCALIPTICOS, NEM INTEGRADOS
Nem
os que se maravilham com o poder da mídia
tal qual ela é, nem os que a odeiam por
sua capacidade de manipular e iludir, parecem
ter esgotado os argumentos a favor ou contra
a "indústria cultural". O que sobra do
debate, entretanto, é uma grande confusão
porque enquanto uns vêem na mídia
a diabólica planificação
da sociedade, outros alardeiam que a sociedade
se tornou transparente e democrática em
virtude da economia informacional. Há os
que apostam nas novas tecnologias da informação
e da comunicação ( a "telemática" )
para superar a "crise de civilização" instalada
na economia e na política. A idéia
seria um novo modo global de regulação
da sociedade – o sistema nervoso das organizações
e da sociedade como um todo – recriando uma "ágora" informacional,
ampliada para as dimensões da nação
moderna e deixar desabrochar a abundância
da sociedade civil, conforme analisam Simon Nora
e Alain Minc em "A Informatização
da Sociedade", de 1978, citados por Mattelart
(1999).
Seria
como que "devolver a voz ao povo", se levarmos
em conta que os cidadãos tinham direito
a voz e voto nas reuniões cívicas
da "ágora" grega. Os integrados acham
que os modernos meios de comunicação
já permitem ampla voz ao povo. Mas isto
se dá episodicamente através de
cartas, e-mails, telefonemas, entrevistas etc.
Sendo a mídia um espaço de "mercado",
todos sabemos que o acesso das pessoas é limitado
aos interesses da empresa de comunicação.
Só quem tem acesso pleno nessa área
da "esfera pública" de que fala Benjamim,
são os donos dos meios. No Brasil eles
podem ser contados nos dedos: São sete
as famílias que comandam os principais
veículos de comunicação
do país. No exterior, pelo menos no ocidente,
não muda muito: Um número ainda
menor de agências de notícia decidem
o que é notícia e entopem as redações
do mundo todo com a visão do seu próprio
mundo. Certamente é um mundo democrático,
desde que se entenda por democracia "o direito
pleno de uns" e não o pleno direito de
todos. Por isto o Sr. Bush ou o Sr. Blair podem
falar em "inimigos da democracia" e apontá-los
com o dedo, pois são considerados inimigos
todos aqueles que dificultam, de alguma maneira,
o culto ao deus Moloc dos negócios.
Os
críticos da "indústria cultural",
os apocalípticos, acham que não
se trata de "devolver a voz ao povo", pelo fato
elementar de que ela nunca esteve com o povo.
Quando eram meramente literários, culturais
e opinativos, os jornais eram produzidos para
uma elite intelectualizada. Depois, com a fase
mercadológica, os jornais tornaram-se
um negócio de poucos. Com o rádio,
na década de 20, não foi diferente.
No Brasil, por exemplo, onde o governo Vargas
proibiu, nos primeiros anos, a veiculação
de publicidade, só as grandes famílias
podiam investir na instalação de
emissoras de rádio. Na década de
50 a televisão surgiu da mesma forma,
atraindo o pessoal do rádio e beneficiando-se
dos favores oficiais. Só na última
década do Séc. XX surgiram as Rádio
Comunitárias, mas a falta de regulamentação
as impede de funcionar. E falta regulamentação
porque se trata de pequenas emissoras, com alcance
de 1 km, destinadas a pequenas comunidades, portanto
de pouco retorno político ou econômico
para os interesses do governo e dos empresários.
Com a chegada dos canais de TV paga, criou-se
a obrigatoriedade de implantação
de TVs Comunitárias, mas poucas estão
em funcionamento no país.
Como
se pode notar, é difícil dar voz
ao povo. As emissoras comerciais, por exemplo,
ciosas do faturamento publicitário, caluniam
as Rádio Comunitárias de todos
os modos, classificando-as de "piratas" e divulgando
que o sinal transmitido por elas pode derrubar
aviões e até desviar ambulâncias.
Criticando
a tese de Mattelart de que o povo mesmo deve
ser o gerador das mensagens no universo da comunicação,
Adelmo Genro Filho esclarece: "....essa tese é de
uma pobreza teórica evidente. Ela corresponde,
sem dúvida que em nível diferente, à tese
da autogestão sobre a economia, proposta
de índole pequeno-burguesa que toma a
solução da alienação
mercantil de modo absolutamente idealista, ou
seja, como o controle imediato dos indivíduos
sobre as ´suas´ condições de produção,
não percebendo aquilo que o capitalismo
avançado tornou óbvio: que as condições
de produção de quaisquer trabalhadores,
seja onde for, constituem parte de uma rede universal
de relações, uma totalidade que
só pode ser dominada politicamente na
relação com esse todo. E se é verdade
que, em certo sentido, a distância entre
emissor e receptor é a mesma que existe
entre produtor e consumidor – como já afirmava
a Escola de Frankfurt e Mattelart repete – o
proletariado e os setores revolucionários
devem controlar o conjunto das condições
de produção, incluindo aí a
informação e a cultura como uma
totalidade, isto é, politicamente. O que é muito
distinto de ´devolver a palavra ao povo´, uma
idéia ingênua que, entre outras
coisas, não leva em conta que o ´povo´ jamais
teve acesso ao tipo de ´palavra´que agora se
pretende devolver-lhe: os jornais, o rádio,
a televisão e os demais meios eletrônicos
de comunicação".
Apesar
de Adelmo ter escrito esta crítica em
1987, portanto bem antes do surgimento da Internet
no Brasil, em 1995, é preciso lembrar
que a Internet, por si só, também
não assegura a democratização
dos meios, pois as barreiras sociais, econômicas
e culturais impostas pelo sistema, afastam milhões
de pessoas do uso regular da Internet. Ela torna-se
meio de expressão apenas para a minoria
que tem acesso ao computador e à conexão
telefônica.
Os
teóricos não se entendem a respeito
da "indústria cultural". Autor de renomados
títulos sobre comunicação,
especialmente sobre Jornalismo, Ciro Marcondes
Filho escreveu que "somente no momento em que
a imprensa passa a funcionar como instrumento
de classe é que ela assume o seu caráter
rigorosamente jornalístico" e não
escapou da ferina análise de Genro Filho: " Na
verdade ocorre exatamente o contrário:
a imprensa só assume um caráter
rigorosamente jornalístico quando ultrapassa
o seu funcionamento estrito enquanto instrumento
de classe. Para Marcondes Filho, com seu ´marxismo´ diretamente
inspirado em Habermas e sob a grande sombra da árvore
de Frankfurt, o capital é uma categoria
que adquire um poder quase místico: possui
um espelho mágico que faz o jornalismo
aparecer apenas para mirar-se nele e reproduzir
as condições da sua acumulação".
Criticando
outra afirmação de Ciro, segundo
a qual "imprensa e capitalismo são pares
gêmeos", Adelmo reconhece que "o jornalismo é informação
transformada em mercadoria. Mas nem todas as
mercadorias são iguais. Além disso,
será que todo o jornalismo será sempre,
inevitavelmente, mercadoria?"
Além
de mercadoria, o jornalismo capitalista é atravessado
pela ideologia como uma fruta é passada
por uma espada, ou seja, de modo flagrante, evidente,
doloroso, compara Adelmo, citando uma imagem
de João Cabral.
Até mesmo
o "clássico" da professora Cremilda Medina,
que todo estudante de jornalismo carrega na sacola
já nos primeiros anos de faculdade, " Notícia – um
produto à venda", passou pelo rigor crítico
do filósofo gaúcho: "A tradição
da Escola de Frankfurt é um espectro que
ronda as abordagens sobre o jornalismo. Mesmo
entre os autores que se colocam numa perspectiva
ideológica pouco crítica em relação
ao capitalismo, comparecem pressupostos daquela
visão, evidentemente que recombinados
numa salada eclética temperada a gosto.
O livro de Cremilda Medina é um exemplo
desse fenômeno". Em seguida ele transcreve
o trecho a ser comentado:
"Nesse
momento, é preciso examinar o problema
no seu enquadramento geral: informação
jornalística como produto da comunicação
de massa, comunicação de massa
como indústria cultural e indústria
cultural como fenômeno da sociedade urbana
industrializada"
"Cremilda
reconhece o jornalismo, bem como a indústria
cultural no seu conjunto, na qual ele está inserido,
não apenas como instrumento de dominação
ideológica, mas como um aspecto da ´moderna
sociedade industrial´ inaugurada pelo capitalismo.
O jornalismo é entendido como produto
de uma nova dinâmica social, liberando
potenciais democratizantes. No entanto, os limites
ideológicos e teóricos de sua divergência
com o pessimismo da Escola de Frankfurt é que
ela pensa o desenvolvimento de tais potenciais
em termos ´evolucionistas´e não numa perspectiva
revolucionária. Embora recorra a Benjamim
e Enzensberger, sua filiação teórica
está mais próxima do funcionalismo
do que do marxismo. Quando se propõe a
discutir um modelo de análise dos elementos
do processo de codificação da mensagem,
ela o faz adotando uma classificação
tipicamente funcionalista. O problema da ´angulação´ no
jornalismo aparece decomposto em ´nível
grupal´ (empresa jornalística), ´nível
massa´ ( necessidade da grande indústria
levar em conta o consumo de massa das informações)
e o ´nível pessoal´ (originalidade, estilo
e talento pessoais na elaboração
da mensagem)", comenta Adelmo.
Ele
acha que esse "reducionismo" acaba levando o
jornalismo a perder sua especificidade e concreticidade
histórica: "primeiro ele é tratado
como um aspecto da indústria cultural,
depois como uma modalidade de ´linguagem´ e,
finalmente, essa linguagem é considerada
como uma gradação da linguagem
comum".
Sobram
críticas e contra-críticas para
todos os lados. Mas o debate deve durar muito,
especialmente com as novas tecnologias que estão
revolucionando – senão o conteúdo,
como queria Adelmo – o modo de fazer jornalismo
de papel, de Internet, de rádio, de TV
etc. Na verdade, o debate contribui com aquilo
que o homem tem de melhor e que lhe confere superioridade:
o saber. "Nele muitas coisas estão guardadas
que os reis, com todos os seus tesouros, não
podem comprar, sobre as quais sua vontade não
impera, das quais seus espias e informantes nenhuma
notícia trazem, e que provêm de
países que seus navegantes e descobridores
não podem alcançar", declaram Adorno
e Horkheimer na Dialética do Iluminismo.
Até mesmo
a orientação marxista da Escola
de Frankfurt, onde nasceu o próprio conceito
de "indústria cultural", é criticada
quando se analisa a modernidade na qual se inserem
os meios de comunicação de massa.
Essa análise crítica está muito
clara em Sérgio Paulo Rouanet (1987),
quando ele afirma: "Benjamin se enganou, como
tantos outros marxistas, quando considerou que
sua época estava madura para a mudança
das relações sociais, e por isso
julgou que seria possível despertar a
modernidade, para interpretar seu sonho. Ela
continua dormindo, e o sonho pós-moderno,
por mais banal que seja, é o prolongamento
do sonho da modernidade, e essa é a melhor
demonstração de que não
existe ruptura entre as duas épocas".
Todavia,
Rouanet observa que se não há ruptura,
há vontade de ruptura: "Se tantos críticos
e artistas perfeitamente inteligentes acham que
estamos vivendo uma época pós-moderna, é porque
querem distanciar-se de uma modernidade vista
como falida e desumana".
Como
a humanidade pode chegar a um tal nível
de progresso tecnológico e mesmo assim
ser acusada de desumana e cruel? Como os meios
de comunicação, sendo tão
bem estruturados tecnologicamente, podem colocar-se
meramente a favor do mercado, enquanto simulam
estar obsequiosamente voltados para o público?
Rouanet parece acertar na resposta: "A crença
no progresso expôs o homem a todas as regressões.
Seu individualismo estimulou o advento do sujeito
egoísta, preocupado unicamente com o ganho
e a acumulação. A crença
na mudança das relações
sociais como forma de implantar o paraíso
na Terra levou a uma utopia concentracionária,
e resultou na criação de todos
os ´gulags´. Sua cruzada desmistificadora solapou
as bases de todos os valores, deixando o homem
solitário, sob um céu deserto,
num mundo privado de sentido".
Para
o filósofo, "o novo Iluminismo proclama
sua crença no pluralismo e na tolerância
e combate todos os fanatismos, sabendo que eles
não se originam da manipulação
consciente do clero e dos tiranos, como julgava
a Ilustração, e sim da ação
de mecanismos sociais e psíquicos muito
mais profundos. Revive a crença no progresso,
mas o dissocia de toda filosofia da história,
que o concebe como uma tendência linear
e automática, e passa a vê-lo como
algo de contagiante, probabilístico e
dependente da ação consciente do
homem. O único progresso humanamente relevante é o
que contribui de fato para o bem-estar de todos,
e os automatismos do crescimento econômico
não bastam para assegurá-lo. O
progresso, nesse sentido, não é uma
doação espontânea da técnica,
mas uma construção intencional,
pela qual os homens decidem o que deve ser produzido,
como e para quem, evitando ao máximo os
custos sociais e ecológicos de uma industrialização
selvagem. Esse progresso não pode depender
nem de decisões empresariais isoladas
nem das diretrizes burocráticas de um
Estado centralizador, e sim de impulsos emanados
da própria sociedade".
A
FALSA INTERATIVIDADE
Estudos
antigos examinavam o fenômeno da comunicação
por sua capacidade de reduzir ou derrubar as
barreiras do tempo e do espaço na aproximação
das pessoas ( Rüdiger-1998). Hoje as telecomunicações
provocaram formas de interação
tão intensa que o indivíduo já não
consegue viver normalmente, em sociedade, se
não estiver conectado com o ambiente midiático.
O volume de notícias disponível
na Internet ou na TV a cabo torna-se referência
na conversa diária das pessoas no trabalho,
em casa, na rua, na escola etc. Segundo Mark
Pôster ( "The Mode of Information. Cambridge:
Polity Press, 1990) citado por Rüdiger, "a
aldeia global mcluhiana tornou-se tecnicamente
factível, engendrando importantes conseqüências
que questionam a adequação das
teorias e pontos de vista existentes a respeito
da comunicação". Para McLuhan, "eletricamente
contraído, o globo já não é mais
do que uma vila, uma aldeia global, em que o
meio é a mensagem".
A
tecnologia moderna produziu um êxtase na
comunicação. Com a mediação
tecnológica, a comunicação
criou uma nova realidade em que tudo se faz visível
e imediato. Os indivíduos, os seres e
as coisas digitalizaram-se e os segredos do mundo,
pouco a pouco, tornaram-se transparentes (Rüdiger).
Mas comunicação não é só técnica:
"Perde
sentido a comunicação que tenta
instituir tecnicamente o simbólico. A
comunicação só faz sentido
contra o pano de fundo da práxis vital
imediata, tecida simbolicamente", afirma Rüdiger,
para quem tanto apocalípticos como integrados
acabam participando de um determinismo tecnológico
que tende a fazer-nos cair na confusão
mortal entre expressão (o instituído)
e intenção ( o instituinte ) da
comunicação.
Se
a comunicação é uma mediação
simbólica da práxis social – conforme
Habermas – é natural que a redutibilidade
técnica não pode dar conta de explicar
um processo intrinsecamente relacionado com a
história humana e as instâncias
míticas do coletivo.
"Da
oralidade tribal apoiada nas mitologias – ditando
os parâmetros da conversa cotidiana – à formidável
revolução produzida pelas técnicas
de impressão e a crescente difusão
da mídia impressa a história da
comunicação registra a secularização
fundamental da práxis", insiste Francisco
Rüdiger ( Introdução à Teoria
da Comunicação. São Paulo:
Edicom,1998), completando que a técnica
passou a explicar o caráter terreno e
humano da produção e troca social
das mensagens.
Quem
estuda os efeitos sociais dos meios de comunicação
encontrará pensamento semelhante em Adriano
Rodrigues ( "Estratégias da Comunicação.
Lisboa: Prensa, 1990): "Nas sociedades tradicionais,
as relações intersubjetivas estavam
relativamente confinadas a um lugar concreto
de enraizamento, a uma comunidade de pertença.
Na distinção entre os que partilhavam
conosco idêntico destino, os de dentro
e os outros, assentava o reconhecimento de regras
de convivência e de conivência".
As
tecnologias modernas, ao contrário, desenvolveram-se
ao ponto de superar essas barreiras de espaço
e tempo. Noções de desterritorialização
das pessoas e de desenraizamento das experiências
estão presentes no espaço globalizado
da mídia que transmite em tempo real,
intercomunicando realidades dos lugares mais
distantes e díspares do universo. O homem
está em contato direto com a história.
A animação por computador permite "admirar" como
viviam, em seu próprio habitat, os dinossauros,
tema que antes era intermediado apenas através
das lendas e da narrativa mítica.
Entretanto,
a crítica que se faz hoje ao avanço
tecnológico da mídia - a partir
da mecanização descrita por McLuhan
- por sua planificação da vida
social, é a perda da espontaneidade na
comunicação. Fundada temporalmente
na instantaneidade, a mídia eletrônica
torna-se instrumental, sem margem à reflexão,
ao aprofundamento ( Rüdiger-1998).
A
sublimação da ação
comunitária acabou reduzindo tudo à técnica.
Comunicar tornou-se sinônimo de empregar
máquinas e aparatos tecnológicos.
O sentido da ação comunicativa
como uma "ação em comum" vai desaparecendo
na funcionalidade da linguagem tecnificada, rompendo-se
as ligações simbólicas que
sustentam a interação. Ao invés
de unir, o processo separa e isola as pessoas,
observa o autor.
Observando
o poder que a mídia tem de influenciar
a sociedade, ditando modos de vida e costumes
muitas vezes alheios à cultura de nosso
povo, temos a falsa impressão de interatividade
entre emissor e receptor. Sem uma análise
mais profunda, podemos achar, com os integrados,
que a "indústria cultural" veio ampliar
os horizontes das pessoas. Entretanto, trata-se,
como afirma Rüdiger, de uma interação
que não se dá mais a partir de
pressupostos históricos, de vivências,
experiências e emoções, mas
a partir da informação fria, solta,
descontextualizada que às vezes chega
de um mundo distante cujo contexto social, econômico
e cultural escapa ao nosso repertório.
A mistura de ficção e realidade
acaba confundindo as pessoas porque tudo está baseado
na técnica de transmissão. Imagens
que outrora causavam impacto como cenas violentas
de terrorismo ao vivo ou de corpos tombando em
nossa tela de TV já não nos remetem
mais à lembrança de que alí está morrendo
um cidadão, um trabalhador, um pai de
família, um jovem que tinha um futuro
pela frente, uma criança que não
chegou a experimentar a vida...é apenas
mais uma cena de cinema que se assiste comendo
pipoca. É a desvalorização
da vida, a banalização da morte.
Mesmo
assim existe a falsa interatividade que se dá através
da divulgação de modismos, expressões
pré-fabricadas etc de modo que as pessoas
são consideradas bem informadas quando,
no local de trabalho, declaram ter visto a mesma
cena, a mesma imagem, a mesma entrevista, a mesma
notícia ou o mesmo concurso que lançou
a última moda ou ainda o mesmo avião
entrando com todos os seus ocupantes na mesma
torre do World Trade Center, em Nova York.
Todavia,
esse tipo de "interação" não
leva a nenhuma ação, a nenhuma
reflexão, a nenhuma atitude prática.
As pessoas parecem até mais confusas,
com tanta informação. Se não
reagissem como autômatas, certamente sairiam
em passeatas de protesto exigindo justiça
e paz. Ao contrário, contemplam passivamente
as manifestações das minorias de
sempre contra os problemas da humanidade, contra
a insensibilidade do G-8, contra as exigências
do FMI, contra as estratégias de guerra
tratadas como "Justiça Infinita"...
Voltemos
a Rüdiger: "Aparentemente a comunicação
parou de remeter à mensagem, para voltar-se
apenas à sua própria realimentação.
Entretanto, podemos perguntar se, realmente,
isso é uma novidade do ponto de vista
epistemológico...ou a comunicação
se tornou uma categoria destinada à contaminação
ideológica por parte do dispositivo de
poder/saber que, com esse nome, se estabeleceu
em nossa sociedade?"
É um
questionamento razoável, afinal defende-se
a comunicação como um bem social
que contribuiria para a compreensão mútua
entre os homens e o progresso do indivíduo.
Mas será que ela realmente promove isto?
Em que medida? Quando usada ideologicamente em
busca do puro consenso – através da reiteração
de imagens conceituais – a comunicação
está a serviço do homem ou do sistema?
O volume de informação imediatista
não acaba "emudecendo" o homem? O reconhecimento
de que a política depende cada vez mais
da comunicação ( pois "tudo é comunicação" )
não pode levar a um mecanismo sistêmico
de reprodução da sociedade dominante?
Para
contribuir com o debate de apocalípticos
e integrados podemos tomar de empréstimo
a conclusão de Rüdiger: "A fundamentação
conceitual básica, em última instância,
não deve ser buscada no registro teórico
da comunicação, mas numa teoria
crítica da sociedade".
CONCLUSÃO:
SAÍDA ÉTICA
Se é preciso "humanizar
as estruturas" na tentativa de curar esse "mal
estar da civilização" de que falou
Freud, também é importante compreender,
com Walter Benjamim, citado por Michael Löwy
(2.000) que o processo técnico e industrial
pode ser portador de catástrofes sem precedentes.
E a maior catástrofe que pode ocorrer é acharmos
que nós, perfeitamente integrados com
o mundo pela mídia, somos os povos civilizados
da história e que os outros, aqueles que
fizeram picadinho do Império Romano, é que
eram os bárbaros. Ou, para ficar na agenda
do dia, e repetir o Primeiro Ministro Italiano,
Berluscone, nós, os cristãos ocidentais, é que
somos superiores, os outros, árabes e
muçulmanos, é que são "bárbaros".
É aceitando,
inermes, o discurso da mídia que chegamos
a declarações tão crassas
e preconceituosas. Na verdade, as ações
dos antigos bárbaros podem ser consideradas
monásticas se comparadas à máquina
de matar gente em que se transformou a moderna "civilização".
O século XX descrito por Eric Hobsbawn
foi de brilhantes avanços tecnológicos,
mas também foi o mais bárbaro da
história humana com tantos casos de tortura,
massacres, Auschwitz, Hiroshima, Goulags, Treblinka,
Sobibor, Terceiro Reich, Oriente Médio,
Guerra Fria, bombardeios da Otan, Afganistão,
Tempestade no Deserto, armas biológicas
etc.
"Mesmo
Benjamim, o mais pessimista dos filósofos
frankfurtianos, não podia adivinhar a
que ponto chegaria a capacidade maléfica
e destrutiva da modernidade", comenta Löwi.
A
neurose coletiva causada pelos atentados terroristas
e pela reação americana, multiplicada
insistentemente pela mídia, parece encaixar-se
perfeitamente na indagação que
Freud faz no final de seu texto "O Mal-Estar
da Civilização", nos anos 30: "Se
o desenvolvimento da civilização
possui uma semelhança tão grande
com o desenvolvimento do indivíduo, e
se emprega os mesmos métodos, não
temos nós justificativas em diagnosticar
que, sob a influência de premências
culturais, algumas civilizações,
ou algumas épocas da civilização – possivelmente
a totalidade da humanidade – se tornaram neuróticas?"
Contra
a agressividade do ser humano, Freud lembra o
maior de todos os mandamentos: "Ama o teu próximo
como a ti mesmo", mas logo em seguida se revela
céptico na viabilidade prática
do postulado que traria felicidade ao mundo,
diante de tanta injustiça e de tanta violência.
Os
meios de comunicação contribuem
para reduzir a violência ou fazem dela,
com regozijo, a manchete de cada dia argumentando
que "notícia boa não vende"? Se
os meios têm tanto poder de influência,
se eles acabam "agendando" a vida social, quem
deve ser responsabilizado pelo agravamento da
crise no mundo? Será que os pacifistas
do Greenpace gastam mais em anúncios na
mídia que as indústrias fabricantes
de armas? A relação não
será, exatamente e inusitadamente, a imagem
do barquinho frágil, de cor laranja, cavalgando
ondas encapeladas na tentativa de parar o transatlântico
de ferro cheio de lixo nuclear, como na referência
bíblica de Davi contra Golias?
Aprendemos
no catecismo que Davi só derrotou Golias
com "ajuda externa".
Quem
poderá nos defender se a mídia
está tão envolvida com o sistema?
Mas
quem faz a mídia não são
as máquinas, não é apenas
a tecnologia.
São
pessoas.
As
pessoas não têm bits, têm
memória, cultura, coração,
mente, alma, história de vida, visão
de mundo...Elas são as "circunstâncias" de
que fala Marx.
Não
seria o caso de alimentar os comunicadores com
fartas doses de solidariedade humana, respeito
aos excluídos, honestidade na informação,
visão crítica do mundo, sentido
de justiça social, formação
moral e ética?
Ética. É a
palavra.
No
entanto Ética é uma disciplina
que, em muitos cursos de Comunicação
Social, vale exatamente 50% menos que as demais:
apenas dois créditos. É julgada
tão desnecessária que a grade curricular
a situa no último ano, antes do aluno
ingressar no mercado onde chega com os ensinamentos
sobre ética todos muito frescos e bem
lembrados...mas depois de passar o curso inteiro,
4 anos, fazendo tudo errado, solidariamente,
com colegas, professores, funcionários,
chefias etc.
Fala-se
muito em ética, mas ninguém liga.
No
entanto trata-se de um debate tão oportuno
como o dos apocalípticos e integrados
a respeito de indústria cultural. Para
o jornalista francês ( Lê Monde)
Alain Accardo, há uma cooptação
aberta ou dissimulada nas redações
dos grandes grupos de comunicação.
Como os réus de Nuremberg, os jornalistas
não querem tomar conhecimento do estrago
causado pela falta de ética, alegando
apenas que estão "cumprindo ordens". Ele
critica a "docilidade" dos jornalistas perante
as empresas onde trabalham e diante das pautas
mais absurdas e anti-sociais ao declarar: "...com
profissionais ideologicamente confiáveis
nos postos de comando, o mecanismo de cooptação,
aberta ou dissimulada, garante, aí como
em toda parte, um recrutamento destinado a impedir
a entrada de raposas no galinheiro ou de hereges
na missa. Esse mecanismo começa a funcionar
nos cursos de jornalismo e continua permanentemente
em ação nas redações
dos jornais. Portanto, os meios de comunicação
são solidamente dominados por uma rede
na qual basta trabalhar `como se sente´ para
trabalhar ´como se deve´, isto é, em defesa
das normas e valores do modelo dominante – modelo
esse onde se produziu o consenso entre uma direita
em pane de idéias e uma esquerda em crise
de ideais".
Não
se pode obrigar as pessoas a serem honestas senão
por força de lei.Mas é desejável
que sintam a necessidade de serem moralmente
idôneas, eticamente corretas. Na linha
de Maquiavel, os homens são todos egoístas
e ambiciosos e só deixam de praticar o
mal quando são obrigados pela repressão
da lei. "Os desejos e as paixões são
os mesmos em todos os tempos e locais", disse
o mestre florentino. Na Internet, por exemplo,
quando o jornal eletrônico erra, não
basta substituir o arquivo que contém
o erro. É preciso informar que errou durante
o tempo exato em que a matéria esteve
exposta. Afinal, no jornalismo digital trabalhamos
com o velho texto de Gutenberg – agora com tipos
tão móveis quanto eletrônicos – e
com o conceito de tempo que caracteriza o jornal
do rádio ou da TV. Qualquer advogado saberá aplicar
a Lei 5.250 ao portal e ao jornalista que informou
erradamente, pois ele vai correlacionar, naturalmente,
o conteúdo do texto e o tempo de exposição,
podendo aquilatar o total do dano a partir do
tempo de veiculação, prejulgando
a audiência que teve acesso ao erro.
Afinal,
como já disse nosso guru Alberto Dines, "jornalismo
digital é, antes de tudo, jornalismo".
O surgimento da internet pode ser comparado à descoberta
do fogo, mas não é a reinvenção
da roda. Os jornalistas precisam continuar escrevendo,
informando, opinando, interpretando, apurando,
investigando, checando, corrigindo, fazendo jornalismo
de qualidade e com ética.
Existe
a Lei de Imprensa, existem os códigos
próprios para que todos escrevam somente
a verdade, nada mais que a verdade...ainda que
não se saiba a verdade de quem...Afinal,
o que é a Verdade?
Mas,
voltando a Maquiavel, se não se pode esperar "virtú" do
príncipe, isto é, do sistema – e
o exercício da "virtú" consiste
exatamente em ser ético – então
a saída pode ser discutir ética à exaustão
com os futuros comunicadores e não apenas
no final do curso.
É certo
que os jornalistas não são donos
dos meios de comunicação. Mas os
que se destacam chegam a posições
de comando e aí poderão agir para
influenciar as empresas a colocarem seus veículos
a favor da humanidade e não apenas do
mercado.
Só assim
teríamos mais cultura (autêntica)
e menos indústria ( cultura inútil
) nos meios de comunicação, dirimindo-se
a enorme peleja entre apocalípticos e
integrados.
Quem
sabe, porém, tudo isto não passe
de Utopia...
Consola
saber, porém, que são os utópicos
que mudam o mundo, tenha ele seis bilhões
ou 12 bilhões de humanos(PCC).
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