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Jornalismo com Ética

*Pedro Celso Campos

"O senhor não chamou o meu procedimento de desumano, pelo contrário, de acordo com sua percepção mais profunda, o senhor o considera o mais humano, o mais digno de todos, o senhor também admira este maquinismo", diz o personagem de Franz Kafka ( Na Colônia Penal ), ao visitante encarregado de opinar sobre o cruel sistema de punição ao condenado sem qualquer direito de defesa.

"És, portanto, rei?", indagou Pilatos.

"Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade, ouve a minha voz", respondeu Jesus.

"O que é a verdade?" retrucou Pilatos, mas saiu em seguida sem ouvir a resposta.

Em 1977, em discurso na Associação Brasileira de Imprensa, o diretor-presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, declarou:

"Proclamamos o dever do jornalista de tornar público todo procedimento que lesa o bem comum, não pelo simples alarde do erro mas para exigir dos responsáveis que façam cessar o erro. E o dever de perseverar mesmo quando sofra o peso do arbítrio ou o vazio da indiferença", conforme publicado na "Folha de São Paulo" em 06.06.77 e citado pelo professor de Comunicação da Federal de Santa Catarina, Francisco José Karan.

Quando os militares autorizaram a instalação de empresas de seguro-saúde no Brasil, a Golden Cross montou um setor de atendimento aos jornalistas, de onde partiam denúncias contra os hospitais públicos. Os jornalistas, julgando estar prestando serviço à comunidade e combatendo a ditadura, acabaram ajudando os médicos da Golden Cross naquele início difícil dos "negócios", quando o atendimento público de saúde ainda tinha uma imagem boa, conforme registrou o professor de Jornalismo, também da Federal de Santa Catarina, Nilson Lage, em seu mais novo livro "A Reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística". Rio: Record, 2001.

"No recente episódio do ataque terrorista aos EUA, todas as TVs mostraram palestinos festejando o desastre. Mas só a Globo News não explicou que a celebração se dava numa cidade famosa por ser berço de homens-bomba. Os demais canais a cabo ressaltaram várias vezes essa informação e repetiam que os festejos não eram generalizados", anotou Marinilda Carvalho, dia 23.09.01, no Observatório da Imprensa.

Considerado um dos mais famosos jornalistas dos EUA, com imagem de imparcial, segundo o site, o principal âncora da rede de televisão CBS, Dan Rather, em entrevista no programa de David Letterman, chorou três vezes e disse que Bush podia contar com seu apoio irrestrito: "como americano, ele terá o que quer de mim", registrou o Ponto de Vista do site www.oficinainforma.com.br do último dia 26.09.01. Na seqüência da coluna eletrônica, o lingüista Noam Chomsky, entrevistado sobre os atentados, citou o jornalista Robert Fisk, um dos mais respeitados correspondentes no Oriente Médio: "O mundo será levado a acreditar nos próximos dias que presenciamos uma luta da democracia contra o terrorismo; na verdade, os atentados têm muito a ver também com mísseis americanos caindo sobre lares palestinos; com helicópteros americanos jogando mísseis em uma ambulância libanesa em 1996; e com uma milícia libanesa – paga e uniformizada por Israel, o fiel aliado americano – cortando, estuprando e matando refugiados em seu caminho. E com muito mais".

Comentando para o Observatório da Imprensa de 22 de agosto último o recente Congresso Brasileiro de Jornais realizado no Rio de Janeiro, com 400 participantes, entre editores, diretores e proprietários de jornais, o jornalista Luiz Garcia abordou de modo prático a questão da ética no trabalho diário dos jornalistas:

"Um homem público acusa outro de um delito qualquer. E temos a infantil ingenuidade de achar que o problema se resolve ouvindo o outro lado. Fulano diz que Beltrano é ladrão de galinhas – e Beltrano nega. É uma postura preguiçosa, que contribui para a impressão de que a imprensa brasileira é viciada em denuncismo. Nossa obrigação não é simplesmente ouvir os dois lados, e sim apurar o que há de verdade na história. Inclusive, se for o caso, para concluir que não há história".

O repórter sério, bem informado, que passou os quatro anos da Faculdade "cobrando e praticando" qualidade de ensino, vai ser respeitado quando chegar para o pauteiro e disser: "Apurei e não vou escrever porque isto não é notícia".

É uma atitude firme e corajosa quando constatamos tantas situações em que se pratica muito mais a liberdade de empresa do que a liberdade de imprensa. No entanto as empresas não fazem jornal sem jornalistas, por mais tecnologia de ponta que reúnam. É na escola que os futuros jornalistas devem aprender a exercer de corpo inteiro a profissão, mesmo sabendo que, conforme os exemplos citados no início desta matéria, cada um tenta dar contornos éticos à "sua verdade", pois até Hitler achava estar fazendo o melhor para o seu povo. Bin Laden certamente deve sentir-se ético na função de "martelo do Islã". Outros sequer querem saber o que é a verdade porque a única verdade que acatam é a verdade deles.

Qual era a verdade de Cristo? Pilatos estava, por acaso, interessado em saber? Mas ele sabia que a massa, já de cabeça feita, iria preferir Barrabás na hora do indulto, da mesma maneira que a "ética" em vigor no momento nos remete – através da orquestração da mídia – para a verdade do Lobo e nela a lógica do Cordeiro não tem qualquer chance, seja ou não culpado, tenha sido ou não o causador do "turvamento" da água. Afinal, repetindo Kafka, não se trata de ter processo, é preciso ter réu, porque o show tem de continuar ( quantos bilhões de dólares a guerra não gera?) e esta é a lógica do mercado.

Como se vê, é angustiante a posição do jornalista ético nesse mar global de notícias em que meia dúzia de agências dão para o mundo todo a sua versão dos fatos, "agendando" o nosso modo de pensar e de ver o próprio mundo, enquanto, apesar dos amplos recursos tecnológicos à disposição, ninguém tem interesse ou disposição de checar o que estão dizendo as agências situadas no outro lado do mundo ou do assunto em questão.

Portanto, quando se fala em ética, é preciso concordar que ela deve ser um imperativo moral para todos e não apenas para um ou outro segmento.

É hipocrisia criar uma ética particular para justificar qualquer ato de nosso interesse. Na linha de Maquiavel, é ético o que interessa ao bem comum e não o que interessa meramente ao príncipe.

É no trabalho de cada dia que os jornalistas irão construindo, pedra sobre pedra, o imperativo moral da ética traduzida não apenas em apuração rigorosa e interpretação correta do fato, mas também na capacidade adquirida de discordar quando a empresa de comunicação tenta usá-los para passar adiante o seu "Show de Truman". O jornalista não pode ser um inocente útil, calando-se diante das injustiças das quais toma conhecimento dentro ou fora da redação. Calando, consentirá – como no personagem de Kafka – e é no silêncio dos profissionais omissos que a empresa se apóia quando se trata de ser apenas serviçal do estado, ignorando a sociedade. As empresas podem demitir um jornalista que age honestamente no cumprimento do dever de informar corretamente, ou que se recusa a cumprir uma pauta incompetente ou tendenciosa ( doa a quem doer, como pediu o orador da ABI no distante 1977). Mas elas não podem demitir todos os jornalistas, o tempo todo, em todos os lugares.

Assim, ética, honestidade, trabalho sério não devem ser adjetivos ou penduricalhos gramaticais na vida do profissional. Devem ser a essência da profissão. Na verdade ética não é um assunto para ser discutido ou ensinado. É para ser praticado porque ser honesto consigo mesmo e com o leitor não é favor algum.

* Pedro Celso Campos,52, MTB 186, é professor-mestre de Jornalismo Comunitário na UNESP-BAURU. E-mail: pedrocelsocampos@terra.com.br

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