Novos
paradigmas de Produção, Emissão
e Recepção do Discurso
Pedro
Celso Campos
Palavras-chave:
Discurso Digital Jornalismo Internet
Resumo:
Este
trabalho pretende estudar as mudanças
que estão surgindo na produção,
emissão e recepção do discurso
jornalístico veiculado através
da Internet. Com o jornalismo digital surgem
novos paradigmas tanto no fazer jornalístico
como no modo de consumir a informação.
Habitado especialmente por jovens nas duas pontas,
o webjornalismo proporciona ao internauta condições
especiais de interagir com o emissor da mensagem
e com as fontes, podendo redirecionar a informação
segundo seus interesses, além de acessar
ampla base de dados para ficar bem informado.
Fazendo uma síntese das demais mídias,
o HTML é a nova linguagem do jornalismo.
Torna-se necessário e urgente, portanto,
estudar os novos rumos da comunicação,
inclusive a nível de ensino acadêmico.
Durante
os últimos cinco séculos o homem
testemunhou a evolução e a crescente
importância da comunicação,
desde que Gutenberg imprimiu, em 1455, a famosa
Bíblia de 42 linhas por coluna, aperfeiçoando,
assim, a tipografia que fundidores europeus já conheciam
desde 1260. Livros impressos, com caracteres
móveis, datando das primeiras décadas
do século XV, foram descobertos na Coréia.
Mas é a partir da segunda metade do século
XVI que o livro impresso corta, definitivamente,
suas ligações com o livro manuscrito.
Com o livro impresso, o alvorecer do século
XVI também registra o surgimento da imprensa.
Nos primeiros anos desse século, mais
de 50 cidades alemãs já tinham
jornais.
O
que possibilitou o rápido crescimento
da imprensa, naqueles primeiros anos, foi a ação
dos chamados "impressores ambulantes" que
levaram a "invenção de Gutenberg",
isto é, a arte de imprimir com tipos móveis
( tipografia ), para 247 cidades européias,
das quais 78 italianas. É em Roma que
surge a imprensa latina, tal qual conhecemos,
porque ali os impressores abandonam a influência
gótica dos escritos medievais e adotam
os caracteres romanos.
Por
400 anos a arte de imprimir livros e jornais
conheceu poucos aperfeiçoamentos, mas
no final do século XIX surgiu um sistema
automático de produção de
tipos gráficos para acelerar a montagem
do texto a ser impresso: era a Linotipo, inventada
por Ottmar Mergenthaller em 1884, em Baltimore,
EUA. A partir daí, ao invés dos
tipos individuais, montados à mão,
era possível compor a linha inteira que
era fundida em chumbo depois de "digitada" no
teclado da própria máquina.
Paralelamente
foram sendo introduzidas novas tecnologias também
no sistema de impressão. As máquinas
planas, que imprimiam o jornal folha por folha,
foram sendo substituídas pelas rotativas
que usavam bobinas de papel e já finalizavam
a encadernação e o empacotamento
do jornal impresso.
Entretanto,
foi a substituição da linotipia
pela computação eletrônica
e, por outro lado, a substituição
da impressão tipográfica pela impressão
em off-set que permitiram, no século XX,
a transformação dos jornais em
grandes empresas de comunicação.
As
demais mudanças ocorridas no jornalismo
foram provocadas, também no início
do século XX, pela concorrência
com os meios eletrônicos: o rádio,
a televisão e, mais recentemente, a internet.
Dos "tipos
romanos" que os fundidores alemães
disseminaram pela Itália no século
XV, ao "Times New Roman" deste texto
eletrônico, composto em corpo 12, no computador,
de forma instantânea, com possibilidade
de reprodução a cores, também
de forma instantânea mesmo que a impressora
esteja situada do outro lado do planeta, a evolução
foi notável.
Mas
os aperfeiçoamentos não cessam
porque é próprio da inteligência
humana buscar novas formas de melhorar ainda
mais o que faz. Uma tecnologia acaba influenciando
a outra, num processo contínuo e interminável.
Se
no século XX os sistemas de produção
e impressão de textos atingiram grande
avanço do ponto de vista mecânico,
foi também nessa época que os conhecimentos
da linguística, da semiótica e
da própria ética passaram a ser
levados em conta no que se refere à produção
jornalística, ao mesmo tempo em que os
veículos de comunicação,
inicialmente tímidos e personalistas,
foram sendo transformados em grandes empresas
comerciais, com lucratividade garantida e com
enorme poder de comunicação.
A
produção de massa crítica
nos meios acadêmicos sobre o papel dos
meios de comunicação, no Século
XX, levaram estudiosos como os frankfurtianos
de 1923 Adorno, Benjamim, Marcuse, Horkheimer
e, mais recentemente, Habermas, a discutir a
influência social dos meios que acabaram
se orquestrando num conjunto de atividades que
regulam e impõem padrões de comportamento
sobre a sociedade, o que eles chamam de "indústria
cultural". Assim, o receptor da mensagem
ficaria à mercê da manipulação
política e ideológica dos meios,
sem condições de interagir com
eles para expor o que pensa, para discordar,
para contestar, para propor. Náufrago
indefeso num "mar de notícias" emitidas
por meia dúzia de agências em torno
do mundo, o ser humano do século XX viveria,
permanentemente, como o personagem do "Show
de Truman", o filme dialético de
Peter Weir que denuncia a manipulação
social pela mídia.
Também
nos meios acadêmicos debate-se o papel
do produtor de notícias dentro do contexto
empresarial dos meios de comunicação.
Num mundo eletronicamente globalizado, onde textos
e imagens digitalizadas viajam vertiginosamente
em torno do planeta através dos satélites
e das fibras óticas, sendo "decodificadas" na
outra ponta através das mais variáveis
interfaces que tanto podem ser um minúsculo
telefone celular, como uma enorme impressora
de jornal comandada à distância,
ou ainda um monitor de TV ou de computador, ou
um aparelho de rádio, pergunta-se qual
o espaço que sobra, afinal, para o jornalista,
para o profissional encarregado de produzir,
processar e emitir o discurso. Um discurso que
já não pode ser meramente informativo
porque também precisa ser interpretativo.
Um discurso que envolve a necessidade de opinar porque
este é um dever do comunicador que deseja
prestar serviço ao receptor. Um discurso
que não pode descuidar, ainda, da sua
finalidade lúdica, enquanto texto "recreativo" para
amenizar o stress desse náufrago cercado
de informação por todos os lados
que é o homem do século XXI.
Ao
mesmo tempo, os estudiosos discutem o futuro
de todo esse processo, questionando se a invenção
de Gutenberg terá lugar nesse futuro,
agora que os pesados tipos móveis se converteram
em fluidas letrinhas que piscam no vídeo
enquanto escrevemos, parecendo "sombras
luminosas" de um passado longínquo.
Perguntam-se para onde vai o jornal depois da
Internet e até para onde vai o próprio
computador enquanto "objeto de mesa".
Outros querem saber se a Internet um dia vai
chegar a todos os habitantes da terra, se todos
poderão mandar e-mails com o mesmo custo
de uma simples carta de correio ou até de
graça...Também se pergunta qual
o papel dos meios impressos depois que os meios
eletrônicos se aperfeiçoaram tanto.
Os
pesquisadores da linguagem buscam novas formas
de tornar o discurso jornalístico mais
leve e, ao mesmo tempo, mais informativo, mesmo
diante da rapidez com que precisa ser produzido
e da "objetividade" com que precisa
ser apresentado para ser consumido pelo receptor
apressado que já é "disputado" por
tantos canais de comunicação.
Na
verdade, muitos querem saber o que se entende,
afinal, por "objetividade" ou por "imparcialidade".
Será que os dias de hoje ainda comportam
os mesmos critérios de quando a moderna
imprensa foi criada? Ainda se pode falar em "lead", "sub-lead", "pirâmide
invertida" etc?
E
quanto à Ética? Num mundo em que
os meios têm tanta influência, será que
o respeito às minorias, aos direitos inalienáveis
do cidadão, à verdade, à transparência, à dignidade
humana...são respeitados? Ou ainda achamos
que o "furo" vale qualquer sacrifício?
Diante do menor baleado na rua, queremos a foto
dele ou levá-lo para o hospital mais próximo?
O que vale mais: A notícia ou a vida?
Será que os jornalistas não estão
tão confusos como os próprios consumidores
de notícias neste estonteante início
de novo milênio?
Também
se discute se o objetivo das corporações
jornalísticas é fazer o marketing
de resultados para ter lucro ou fazer jornalismo
para servir. É um debate relevante porque
se a primeira hipótese for a verdadeira,
então é possível que o Departamento
de Marketing terá todos os recursos e
toda a atenção da empresa, sobrando
para a redação o mesmo status de
qualquer outra repartição do jornal,
como o quartinho de guardar vassouras, por exemplo,
apenas em tamanho maior, isto é, sem qualquer
poder de decisão.
Com
os novos meios, o modo de produção
da notícia já não é o
mesmo. Trabalha-se muito mais, por muito menos.
O que têm a dizer os sindicatos? A pressa
de produzir a informação leva a
erros, muitas vezes graves. Na conta de quem
o erro é debitado?
Do
ponto de vista do receptor muita coisa também
mudou. O avanço tecnológico da
mídia acabou gerando um receptor mais
informado, mais seletivo, mais exigente, mais
participativo, mais conhecedor dos seus direitos,
mais preparado para exercer de corpo inteiro
a cidadania. A qualidade técnica dos produtos,
tanto quanto os seus conteúdos, são
cotejados, são comparados, são
avaliados o tempo todo por esse receptor do novo
século que já não se deixa
enganar. Ele muda de canal quando o programa
de rádio ou de TV está excessivamente
chato, verborrágico, desagradável,
agressivo, falso etc Este é o seu modo
de punir a informação de má qualidade.
Os
semioticistas analisam, inclusive, os novos modos
de leitura que o receptor atual emprega para
consumir informação. Ele já não
faz a leitura tradicional da esquerda para a
direita, como aprendemos no mundo ocidental.
No texto verbal, ele primeiro busca os elementos
visuais que o "aproximam" da leitura,
tais como retrancas, títulos, linhas finas,
janelas, legendas, infográficos, fotos
etc. Só depois começa a leitura,
muitas vezes lendo pedaços alternados
da notícia, nem sempre pelo parágrafo
inicial, em busca da essência informativa,
na pressa de apenas checar o que já viu
em outro veículo, para confirmar a informação
ou para ter algum detalhe adicional, num tipo
de "leitura complementar".
A
análise semiótica de imagens já constatou,
também, que o olhar do receptor já não
penetra a imagem de forma linear, mas através
de "linhas de força" que conduzem
a leitura através do contraste de cores
e luzes, ora puxando o olhar para dentro da foto,
ora empurrando-o para fora.
Como
se pode perceber nesta introdução
sobre os novos paradigmas que regem o jornalismo
na era digital, os contextos de produção,
emissão e recepção do discurso
informativo já não são os
mesmos. As novas tecnologias exigem dos profissionais
a atualização constante do modo
de ver, captar, codificar e transmitir a notícia.
Resta
saber se nossas Faculdades de Comunicação
estão preparadas para produzir o novo
profissional do verdadeiro Mundo Novo e Digital.
CONTEXTO
DE PRODUÇÃO
Tradicionalmente,
no jornal-empresa, as rotinas do jornalista obedecem
a uma hierarquização de funções
de modo a permitir a cobertura eficiente de todos
os fatos, tanto os previsíveis como
na cobertura de "setores", palavra
do jargão jornalístico que tem
a ver com o trabalho especializado do profissional
na mesma repartição como palácios
governamentais, ministérios, autarquias
etc como os imprevisíveis.
Quem planeja a
estratégia de cobertura diária
e também a produção de matérias "frias",
isto é, que não "envelhecem" quando
publicadas em outra data ou em data pré-determinada
como na celebração de eventos históricos, é o
pauteiro. Lendo todos os jornais do dia, mantendo-se
ligado na mídia, conversando com os "setoristas",
com os editores e com os repórteres de
rua, o pauteiro é capaz de armar diariamente
a captação de notícias que
vai definir a edição do dia seguinte,
no caso do impresso.
Outra parte substancial
do material noticioso chega, durante todo o dia,
dos mais variados lugares, filtrado pelas agências
de notícia.
Cabe ao editor
de cada área ( política, economia,
polícia, esporte, segundo-caderno, local,
nacional, internacional etc ) selecionar o material
que interessa à sua editoria, sob supervisão
geral do Secretário de Redação,
que se reportará ao Diretor de Redação
que, por sua vez, fará a ligação
entre a Redação e a Direção
da empresa.
A rapidez com que
milhares de informações precisam
ser editadas, revisadas, completadas, corrigidas,
checadas, resumidas para as chamadas de primeira
página, trabalhadas com infográficos
e demais processos de ilustração
( foto, gráficos, legendas, retrancas,
janelas, linhas finas etc) bem como o universo
de pessoas envolvidas no processo de produção
a tempo de entregar as páginas na hora
determinada para a impressão ( setor onde
se desenvolve outra logística muito complexa
para que o jornal possa "amanhecer" a
milhares de quilômetros de distância,
devidamente atualizado, contextualizado, sem "fazer
feio" perante a concorrência apesar
de se tratar de um produto perecível em
24 horas ) dá bem a idéia daquilo
que Umberto Eco chama de "caixa preta".
Seria de se esperar elevadíssima taxa
de erros. Realmente alguns acontecem, até nas
casas mais conceituadas, porém são
mínimos do ponto de vista técnico diante
do monumental processo que se desencadeia em
cada jornal, todos os dias, a partir do momento
que o pauteiro começa o seu trabalho,
bem cedo, na redação, até o
instante em que a impressora despeja, automaticamente,
sobre os veículos de transporte, o jornal
do dia colorido, empacotado e amarrado, pronto
para ser exibido nas bancas ou para a entrega
domiciliar.
No Jornalismo Digital
essa dinâmica de trabalho se repete, com
exceção dos processos de impressão
e distribuição convencionais. Na
Internet a pressa é ainda maior porque
trata-se de sair na frente com "jatos" de
informação, com pedaços
de notícia, com atualização
constante à medida que o fato está acontecendo.
Munido de celular e câmera digital, o repórter
ou a equipe transforma-se em unidade geradora
de texto e imagem, de modo que o receptor receba
não apenas o cenário dos fatos,
mas o texto com dados, números, detalhes
etc explicando o que se passa. Isto é:
A Internet vai além da TV quando une texto
e imagem, transmissão ao vivo com reportagem
impressa.
É natural
que toda essa "disparada" em busca
da atualização permanente acaba
gerando informações erradas, dados
incorretos, deturpações, interpretações
equivocadas e todo tipo de problema. Entretanto,
manda a ética que os portais não
apenas substituam os arquivos que contém
erros causados pela pressa, mas que veiculem
erratas como se faz no impresso de modo a
ressalvar a credibilidade e a transparência
do portal, além de se precaver, inclusive,
contra processos judiciais por calúnia,
injúria e difamação.
À medida
que a Internet vai se transformando na mais possante
mídia (pesquisas revelam que no dia do
atentado terrorista nos EUA, 11.09.01, os sites
de jornalismo bateram a audiência da TV
e do Rádio), cresce o número de
pesquisadores que procuram estudar, no mercado
e na área acadêmica, as características
do contexto de produção do discurso
jornalístico agora sob o paradigma de
um veículo que sintetiza todas as mídias
veiculando informações praticamente
ao vivo, em suporte eletrônico, com as
vantagens visuais da TV, a mobilidade do rádio
e o poder de documentação ou de
verificação de detalhes proporcionado
pelo impresso. Esta é uma área
de estudos que tende a crescer substancialmente
porque a Internet não significa apenas
uma convergência de mídias, mas
exige a necessidade de profissionais multimídias,
habilitados a lidar com as linguagens do rádio,
da tv e do jornal para dar conta de manter no
ar um site bem informado e atualizado.
Sintetizando as
mídias, o jornalismo digital exige uma
linguagem de fácil entendimento, clara,
eficiente, sem desperdício de palavras,
afinal, um texto capaz de resumir o fato para
prender a atenção do internauta
e conduzí-lo para o "leia mais" e,
no final da noite, para a edição
impressa do dia seguinte. Isto significa não
esgotar o assunto na rede mas, ao mesmo tempo,
manter o receptor interessado no assunto passando-lhe
informações mais urgentes.
Toda essa ginástica
de produção que envolve tantos
profissionais, está mudando radicalmente
o modo de produzir notícia, daí o
interesse dos estudiosos em pesquisá-la.
No XXIV Congresso Brasileiro de Ciências
da Comunicação INTERCOM 2001,
realizado em Campo Grande-MT, no mês de
setembro, a professora e jornalista Zélia
Leal Adghirni, da Universidade de Brasília,
analisou a produção de notícias
disponibilizadas em sites de jornalismo online
pelos jornalistas do Distrito Federal, onde trabalham
6.700 profissionais conforme registros no Ministério
do Trabalho.
Segundo ela, a
primeira experiência brasileira com o webjornalismo
surgiu em 1991 com a criação da
agência de notícias Broadcast, do
jornal O Estado de São Paulo, que hoje
conta com cerca de 10 mil clientes entre empresas
de comunicação de todo o país, às
quais transmite notícias em tempo real.
Por volta de 1995, "com a democratização
da Internet e a criação do sistema
WWW, praticamente todos os jornais do país
passaram a ter edições online de
seus veículos. Aos poucos a versão
online descolou-se do modelo de papel para se
tornar uma mídia independente, com equipes
próprias e autônomas. Este modelo
de jornalismo agitou o mercado profissional.
Repórteres e fontes passaram a ter contato
mais assíduo no intuito de alimentar os
sites com notícias em fluxo contínuo.
A média de atualização dos
sites noticiosos, hoje, é de quatro minutos".
O webjornalismo
atrai cada vez mais os jornalistas e já exerce
influência dentro das próprias escolas
de Comunicação onde, já no
primeiro ano, os futuros comunicadores criam
sites de jornalismo online e, antes do quarto
ano, já estão trabalhando regularmente
para algum portal de Internet, o que, naturalmente,
significa um novo desafio para o próprio
sistema de ensino superior, principalmente na área
pública onde o sucateamento das instalações
nem sempre permite ao professor contar com os
recursos de software disponíveis no mercado.
Surge, então, um hiato entre ensino e
aprendizado que precisa ser preenchido, inclusive
através da requalificação
e atualização profissionais.
No documento apresentado à INTERCOM,
a professora Zélia Leal também
observa que o jornalismo digital está provocando
profundas alterações na regulamentação
do trabalho profissional. Ela registra experiências
bem sucedidas de jornalismo online citando entre
as páginas Web mais bem elaboradas do
DF a agência de notícias do Senado
Federal e a Agência Brasil ( Radiobrás
), através das quais é possível
ter acesso a todas as informações
relativas ao governo, aos serviços de
cidadania, além do internauta poder fazer
link com qualquer site da grande imprensa online.
A agência
do Senado conta com cem jornalistas e divulga
com rapidez e rigor os atos e decisões
dos senadores, buscando eficiência cada
vez maior, a ponto de já ter conseguido "furar" em
três minutos à frente a agência
Broadcasting, conforme Zélia Leal. Na
outra agência oficial, da Radiobrás,
uma equipe de jovens recém formados trabalha
em rodízio de cinco horas, produzindo
300 notícias por dia que são reproduzidas
pelos grandes jornais do país. As 30 notícias
principais de cada dia são veiculadas
em espanhol, inglês e alemão.
No que se refere à regulamentação
do trabalho profissional, entretanto, os webjornalistas
oficiais levam vantagem sobre os colegas que
trabalham em sites privados onde a jornada pode
se estender até 12 ou 14 horas, o que
vem atraindo a atenção do Sindicato
e das associações de jornalistas.
O trabalho revela
que vem crescendo em Brasília como ocorre
em todo o país o número de sites
independentes, o que gera outro problema para
as organizações de classe, pois
qualquer pessoa pode pode fazer um clip de notícias
da Web e colocar um site de jornalismo no ar
sem ser jornalista, auferindo lucros como produtores
de conteúdo, de forma ilegal.
Entre os sites
especializados em jornalismo digital de Brasília,
a pesquisadora cita o do jornal "Correio
Braziliense" www.correioweb.com.br que
tem uma equipe de 27 pessoas, das quais apenas
sete são jornalistas. Também nesse
site os intervalos de atualização
são de três minutos. O material
informativo é fornecido por agências
nacionais e internacionais, por repórteres
da redação-papel e pela própria
equipe de webjornalistas. A equipe tem características
multidisciplinares, contando com web designers,
produtores de Internet, jornalistas, publicitários
e equipe de vendas. O site conta com oito milhões
de acesso/mês.
No webjornalismo, "o
que se privilegia, em matéria de atualização
imediata, são as notícias relacionadas
com os grandes fatos sociais, políticos
e econômicos que podem colocar em risco
a estabilidade das instituições.
Mas o que prevalece no Tempo Real são
notícias econômicas de interesse
do mercado financeiro", diz.
Para dar conta
da atualização permanente desse
fluxo de notícias, é preciso cumprir
jornadas de trabalho "infernais", como
descreve uma profissional do "Valor Econômico" que
trabalha das 9 às 21 horas. Entretanto,
as jornadas plenas são recompensadas com
altos salários e uma imagem plenamente
consolidada antes dos 30 anos, observa a professora,
lembrando que o Sindicato não dispõe
de dados sobre a idade média dos webjornalistas
mas estima-se que a maioria não passa
de 30 anos.
A Federação
Nacional de Jornalistas-Fenaj, órgão
que agrupa todos os Sindicatos de Jornalistas
do país, defende a jornada legal de cinco
horas, bem como o cumprimento das convenções
e acordos coletivos de trabalho ( pisos etc )
para os webjornalistas, tal como se dá no
jornal de papel, prometendo se empenhar, também,
no combate ao exercício ilegal da profissão.
É um desafio
e tanto para a Fenaj, sabendo que o jornalismo
digital vem atraindo um número cada vez
maior dos oito mil jornalistas que as 120 faculdades
de comunicação colocam no mercado
todos os anos.
Em sua pesquisa,
Zélia Leal informa que, segundo o "American
Journalism Review News", os EUA lideram
o número de publicações
online: Dos 4.925 sites de notícias existentes
até setembro de 1998, 3.622 pertencem
a empresas de comunicação. Entretanto,
no Brasil a audiência dos jornais online é maior:
Segundo dados do Ibope, pesquisa realizada em
1999 revela que 50% dos 25 mil internautas entrevistados
afirmaram que navegam na Internet em busca de
informações.
A pesquisadora
conclui que os investimentos no webjornalismo
mostram o interesse da grande imprensa em fazer
da Internet uma aliada ao invés de tê-la
como concorrente. Sobre o acelerado crescimento
da rede, não há o que discutir.
No momento, apesar da Internet estar apenas engatinhando
entre nós, 9% dos brasileiros declaram
que preferem a rede mundial de computadores para
se manterem informados ( o que não é pouco
se levarmos em conta que para 160 milhões
de habitantes nosso país produz menos
de 7 milhões de jornais impressos por
dia), segundo pesquisa do Datafolha, divulgada
no 3Ί Congresso da Associação Nacional
de Jornais-ANJ, em agosto último, no Rio.
Entretanto, do
ponto de vista profissional, com tanta alteração
no modo de produzir notícia, todos se
perguntam sobre o papel do jornalista. Será que
ele vai se tornar um chip de computador passando
a escrever com o automatismo da máquina,
com um texto frio, cibernéticamente distante
do ser humano, da emoção, da vida?
Como serão os futuros profissionais à medida
que o jornalismo digital se desenvolve cada vez
mais? A pressa de informar matará a apuração
no ninho? Pode haver jornalismo sério, ético
e correto sem apuração? Quais os
novos modos de apurar com atenção
e, ao mesmo tempo, passar a informação
no tempo mais curto possível?
Alguém já perguntou
se há vida depois da Internet.
RECEPÇÃO
A
Teoria Estética da Recepção,
em Jauss, mostra-nos a importância do receptor
do discurso em qualquer processo. Todos sabemos
que foi a cobrança dos leitores americanos
a respeito de melhores esclarecimentos sobre
as guerras na Europa que deram origem ao Novo
Jornalismo nos Estados Unidos nas primeiras décadas
do Século XX. Tratava-se de um jornalismo
mais interpretativo, capaz de proporcionar ao
receptor todas as nuances sobre as origens e
as consequências do fato, ao invés
de ficar apenas no meramente informativo.
Ao
longo do século o receptor do discurso
jornalístico foi se tornando tanto mais
seletivo e exigente, quanto maiores as opções
de comunicação à sua disposição.
Estudos revelam que um receptor de TV por assinatura,
por exemplo, tem um nível de exigência
superior ao do receptor de TV aberta. O leitor
de jornais especializados é mais exigente
que o leitor dos demais jornais. O consumidor
de artigos opinativos e de editoriais cobra mais
qualidade quando se vê exposto aos demais
gêneros do jornalismo ou aos demais produtos
da mídia. Isto é uma consequência
natural do que a Teoria da Literatura chama de "horizonte
de expectativa". Um conhecimento maior demanda
um conhecimento maior, que, por sua vez, busca
um conhecimento maior e assim por diante, de
modo que este mesmo é o motor do progresso
humano. A Teoria da Psicanálise vê contrapontos
nessa "formulação binária" do
progresso. Para Freud, é o apelo da Morte(
Tanathos), de um lado, e o apelo da Vida ( Eros),
do outro lado, que impulsionam o homem para a
frente enquanto ser pensante.
No
que se refere ao consumidor de notícias que é o
tema deste tópico sabemos que o perfil
do receptor do discurso jornalístico vem
mudando drasticamente, de modo especial na última
década. Cabe indagar, então, quem é o
receptor-padrão do webjornalismo já que
a Estética da Recepção nos
aconselha a levar em conta o receptor como sujeito
da informação isto é,
como determinante do próprio contexto
produtor do discurso se queremos ter êxito
no processo de comunicação.
Se é verdade
que a busca do conhecimento é um movimento
contínuo no ser humano, também
está correta a observação
de Johnson (2.001) segundo a qual os jovens da
geração do vídeo-game tiveram
maior facilidade em lidar com a Internet, a ponto
de aprenderem a lidar com o computador e com
a Web simplesmente mexendo nos controles e jogando
fora os manuais, enquanto os velhos jornalistas
das máquinas de escrever só a muito
custo conseguiram aderir à nova mídia,
ainda que com bastante insegurança e timidez.
É esse
público constituído de jovens,
os primeiros a se familiarizarem com a parafernália
eletrônica do século XX muitas
vezes ensinando aos pais e aos professores como
operar os sistemas que forma o grande público
receptor de informações no jornalismo
online. Em todos os congressos realizados no
país desde o surgimento da Internet, em
1995, os estudos mostram que os jovens preferem
a Internet para se manterem informados.
A
pesquisa Datafolha divulgada no 3Ί Congresso
de Jornais, no Rio, mostrou que 80% dos consumidores
de notícias via Internet têm menos
de 40 anos de idade e 33% não passam dos
24 anos. Enquanto isto, 43% dos leitores de jornais
de papel têm mais de 41 anos. Em média,
são mais velhos que a população
brasileira.
Nas
cidades pesquisadas ( São Paulo, Rio de
Janeiro, Porto Alegre, Brasília e Recife
) 34% dos entrevistados disseram que acessam
a Internet, o que dá um total de 5,4 milhões
de pessoas. Deles, 30% entram na rede diariamente
e 27% pelo menos uma vez por semana. Sua escolaridade é mais
alta que a dos leitores de jornais de papel:
63% dos usuários da Internet, contra 31%
dos que preferem o papel, têm curso superior.
Sua renda, também: 43% ganham mais de
20 salários mínimos por mês,
contra 20% no caso dos jornais. Segundo o Datafolha, "o
jornal impresso é preferido pelos mais
velhos e menos escolarizados".
Porque
o público jovem prefere a Internet para
se informar? A pesquisa Datafolha também
responde a essa questão: Em média
65% dos internautas lêem notícias
na rede. Talvez porque 33% dos que se converteram
ao jornalismo virtual e mesmo 30% dos que não
largam o papel de cada dia acham que na Internet
o noticiário é mais confiável.
Ao mesmo tempo, 77% dos internautas e 68% dos
leitores de jornais afirmam, na pesquisa, que
encontram mais rapidamente na Internet as notícias
que procuram.
Também
a variedade de assuntos é maior na rede,
segundo 77% dos entrevistados. E 58% dos leitores
de jornais concordam com eles. E quem pensa que é nos
jornais de papel que o receptor consegue se aprofundar
mais nos assuntos está totalmente enganado:
62% dos internautas acham que o hipertexto da
internet é mais completo que as colunas
do jornal. Aliás, 54% dos leitores de
jornais concordam que a Internet tem mais conteúdo,
dando mais informação em menos
tempo. Na verdade os leitores dos jornais de
papel reclamam conforme 57% dos entrevistados que
a mídia impressa dá espaço
demais à economia e à política.
Pode-se
concluir que não se pode comparar a Internet
como uma mídia eletrônica apenas.
Ela não é como o Rádio ou
a TV que precisam resumir o fato para transmití-lo
rapidamente em tempo curto, isto é, usando
pouco espaço para a emissão não
se tornar enfadonha. Na Internet, além
das imagens atualizadas e até do som se
for o caso, o receptor conta com várias "camadas" de
texto que formam o hiperlink, possibilitando
acesso a todo tipo de detalhe, a edições
anteriores, a bancos de dados, a pesquisas de
todo tipo, inclusive em outras línguas,
de modo a poder confrontar a informação
recebida da mesma maneira que o bom jornalista
confronta, isto é, "checa" a
informação recebida de suas fontes.
O
fato da maioria dos webjornalistas serem jovens como
vimos na pesquisa sobre o jornalismo digital
de Brasília e a comprovação
da pesquisa Datafolha indicando que são
igualmente jovens os consumidores de notícias
virtuais, está a mostrar um universo de
Produção ( ou captação
), Emissão ( ou manipulação
) e Recepção ( ou leitura ) do
discurso jornalístico quase que paralelo
ao "mundo real" dos leitores cinquentões
e sessentões que "assiste" ao
show de tecnologia que vai tomando conta dos
processos de comunicação, no exato
instante em que se aguarda o ingresso da tecnologia
digital também nos aparelhos de TV e até no
cinema.
A
evolução dos meios é vertiginosa.
Enquanto o Rádio demorou 38 anos para
conquistar 50 milhões de usuários
nos EUA, a TV aberta demorou 13, a TV a cabo
levou 10 e a Internet apenas 5. Especialistas
prevêem que os EUA terão 600 milhões
de webfones em 2.006. No Brasil haverá 58
milhões de webfones até 2.005.
A terceira geração de telefones
celulares, o 3G, foi lançada este ano
no Japão e até 2005 alcançará todo
o planeta, através de 288 satélites,
transmitindo dados digitalizados a uma velocidade
40 vezes superior à Internet atual ( Magnoni
2001).
Segundo
o Ibope, mais de 14 milhões de brasileiros
navegam, hoje, pela Internet. Mas este número
vai crescer muito, à medida que o computador
vai sendo popularizado, com preços mais
baixos e amplas facilidades de pagamento. Com
o tempo a tecnologia prevê que a Internet
será totalmente gratuita, à medida
que vai conquistando os anunciantes que emigram
da TV aberta. Outro fato determinante é a
miniaturização dos equipamentos,
permitindo ao internauta livrar-se do pesado
volume formado pelo monitor de vídeo e
pela CPU sobre a mesa do escritório doméstico
ou comercial, podendo acessar a rede e as notícias
a partir do carro, do ônibus, do avião,
afinal, de onde quiser.
Mas
o mais importante não é que o consumidor
de notícias digitais pode acessar o webjornalismo.
Enquanto na TV seu único instrumento de
manipulação interativa era o controle
remoto para "interferir" na programação,
algo equivalente aos telefonemas e cartas-dos-leitores
no contato com os jornais ( e também com
o rádio e a própria TV), agora
o receptor da informação pode ser,
ele próprio, um gerador de conteúdos,
enviando informações por e-mail,
criando sites especializados, ou até mesmo
imprimindo em casa, a cores, as notícias
que julgar do seu interesse ou do interesse de
pessoas da família ou das suas relações
comerciais, de amizade etc. É uma capacidade
de interação muito mais expressiva,
muito mais significativa, algo que chega a preocupar
as entidades representativas dos jornalistas,
como vimos, algo que pode comprometer a ética,
pois se antes se dizia que "o papel aceita
tudo", é o mesmo que se pode afirmar
hoje, da Internet, onde trafega também
muito lixo, exigindo maturidade do internauta
para que não consuma "gato por lebre".
Uma orientação certa é procurar
sempre os portais mais confiáveis, geralmente
ligados a publicações e autores
sérios, evitando material sem referência
ou mesmo anônimo.
Ainda
no que se refere ao posicionamento do receptor
diante da Internet, parece certo afirmar que
o jornalismo online possibilita ao internauta
exercer de forma plena a sua cidadania diante
das possibilidades que tem de interferir na mensagem
recebida, redirecionando-a por e-mail ou colocando-a
em debate nos chats, ou enviando comentários
a respeito ao próprio emissor do discurso
recebido, bastando clicar no e-mail do emitente.
Essa liberdade de se expressar confere novas
possibilidades no exercício da cidadania
plena.
Na
aula inaugural do programa de pós-graduação
da Faculdade de Artes e Comunicação-FAAC
da Unesp/Bauru, em agosto último, o professor
e consultor da CAPES, Wilson Gomes, discutiu
a liberdade de expressão na Internet,
tratando-a como "uma forma de assegurar,
ao cidadão comum, chances efetivas de
intervenção na esfera da discussão
pública, mais precisamente, uma forma
de fazer com que ele valha como parceiro da disputa
argumentativa sobre os negócios políticos
comuns na esfera em que esses negócios
deveriam ser decididos. Garantir liberdade para
a expressão de cada indivíduo equivale
a assegurar-lhe as possibilidades de sua existência
como sujeito de direitos, como cidadão
pleno".
Mas
o professor também alerta para os deslizes éticos
que se pode cometer através da livre manifestação
do pensamento ou da liberdade de expressão,
seja na Internet ou em qualquer meio, valendo
dizer que a Internet não está imune às
leis e aos imperativos de ordem moral que regem
a convivência entre os homens, podendo
o autor de crimes de imprensa responder perante
a lei:
"Certas
opiniões, livremente expressas, podem
ser imorais, enquanto podem ser lesivas da dignidade
de outros homens ou de qualquer das suas classes.
Atenta-se contra a dignidade dos outros homens
com o discurso ofensivo, a infâmia, a difamação".
Portanto,
quando o receptor da informação
a reutiliza repassando seus conteúdos
para outros destinatários, ele pode incorrer da
mesma forma que o webjornalista nos crimes
previstos na Lei 5.250, a Lei de Imprensa. Afinal,
a Internet possibilita ao receptor da notícia
transformar-se em emissor dela mesma em outras
direções ou devolvendo-a ao autor
com seus comentários especiais, bastando
clicar nos ícones disponíveis no
final do texto eletrônico, num processo
de interação total e instantâneo.
Conclusão
Vimos
neste trabalho que o modo de fazer, veicular
e consumir notícias está mudando
drasticamente na era do jornalismo digital e
que essas mudanças desafiam os pesquisadores
e estudiosos a encontrarem meios de analisar
e discutir as novas linguagens, inclusive para
adequar os centros de ensino superior no estudo
dos novos paradigmas e na preparação
dos futuros comunicadores.
Constata-se,
na verdade, uma situação inusitada:
Ao mesmo tempo que as estatísticas mundiais
apontam para o envelhecimento da população devido
ao controle da natalidade e aos processos modernos
de preservação da vida também
se observa que o webjornalismo é produzido
por jovens com uma linguagem adequada aos tempos
modernos, isto é, de estilo ligeiro e
de fácil entendimento e igualmente consumido
por jovens internautas que são os novos
receptores do discurso jornalístico, jovens
com boa formação intelectual, interessados
em saber tudo sobre tudo do modo mais rápido
e instantâneo possível, jovens que
não concordam em esperar a edição
de papel do dia seguinte para saber o que está acontecendo
no mundo hoje - neste exato momento - jovens
que têm pressa.
Segundo
Brent Baker, reitor da Universidade de Comunicação
de Boston-EUA, os 40 milhões de jovens
americanos consumidores de notícias passarão
a vida inteira usando a Internet para ler as
notícias. "Esta é a primeira
geração que não precisa
de nós. Eles não lêem jornais
(de papel )" disse Brent. Jovens de 18 a
20 anos concordam com o reitor. Eles reclamam
de vários inconvenientes do jornal de
papel que vão da tinta ao tempo que se
leva para navegar num jornal impresso, comparando
com um site da Web, que contém índices
e é preocupado em orientar a seleção
de leitura. "Internet é parte do
meu estilo de vida, como comer, escovar dentes",
disse um estudante. "Tudo se move tão
rápido agora. Eu não tenho tempo
para dormir, quanto mais para ler o jornal".
Nos EUA um estudo prevê que 10 milhões
de lares americanos terão conexão
de banda larga até o final deste ano.
O
embate das novas tecnologias, na área
da informação, provoca choques
naturais de opinião. Para uns a Internet é a
maior invenção desde a descoberta
do fogo, enquanto outros pranteiam a morte da
consciência mais lenta, mais introspectiva,
da mídia impressa ( Johnson 2.001). Mas
este é um debate que não ajuda
muito quando se trata de utilizar a Internet
como ferramenta essencial tanto para usuários
tarimbados quanto para neófitos. Ela é um
fato dos dias atuais e não há como
ignorá-la como meio de acesso ao conhecimento
e à informação. Mesmo os
mais idosos acabam aprendendo a habitar os espaços-informação
de vanguarda presentes na rede. "Após
alguma aclimatação, a impressão
de desorientação parecerá menos
intimidante, mais um desafio do que um impedimento",
estimula Johnson (2.001), registrando, entretanto,
a vantagem que os jovens levam na exploração
destes mares nunca dantes navegados: "Já é possível
ver essa atitude na meninada que cresceu com
o video-game. Ela exibe certo destemor ao entrar
no novo espaço-informação.
Em vez de ler o manual, aprende os parâmetros
de maneira mais improvisada, prática.
Essas crianças aprendem fazendo, experimentando,
e essa intrepidez vem do fato de terem decifrado
o código de outros espaços digitais
no passado".
A
partir dessa constatação, seria
curioso imaginar o potencial futuro da rede se
hoje as crianças já lidam com o
computador desde a mais tenra idade, substituindo
o próprio video-game por ele, comunicando-se
com os colegas de escola por e-mail, estudando
com o computador, criando seus próprios
sites, partipando de fãs-clubes cibernéticos,
lavrando protestos contra crimes-ambientais,
afinal, interagindo plenamente como cidadãos
desde muito cedo. Os futuros internautas terão
um potencial muito maior para melhorar não
só a própria rede mas para mudar
o mundo.
O
mundo de possibilidades da Internet não
está aí para ser ignorado, mas
para ser conhecido, aprendido, utilizado, dominado.
No caso deste trabalho, trata-se de conhecer
o potencial da rede no que se refere ao jornalismo
digital.
Aprofundar
estudos sobre essa nova realidade significa tentar
compreender os novos paradigmas presentes no
mundo da produção, emissão
e recepção do discurso jornalístico.
Muitas escolas de comunicação já contemplam,
em sua grade curricular, a disciplina de Jornalismo
Digital e não é preciso dar tratos à imaginação
para compreender que muito em breve esse será um
tema legalmente obrigatório em todas as
escolas que queiram estar em dia com as novas
tecnologias de informação. Pesquisando
se verá que, talvez mesmo pelo fato da
linguagem HTML ser tão recente, há vários
problemas a serem discutidos e corrigidos em
busca do aperfeiçoamento e da eficiência
no jornalismo digital.
Para
ilustrar esta conclusão, cabe citar, por
exemplo, a pesquisa que o professor da Universidade
Fernando Pessoa ( Porto-Portugal) Jorge Pedro
Sousa apresentou no recente congresso da INTERCOM
em Campo Grande. Ele organizou uma pesquisa entre
estudantes brasileiros e portugueses, residentes
em Portugal, sobre quatro jornais online do Brasil:
O Estado de São Paulo, Folha de São
Paulo, Jornal do Brasil e O Globo, selecionados
por serem considerados os jornais de informação
de referência do Brasil. Tratava-se de
testar as seguintes hipóteses: 1. Se os
jornais online não aproveitam todas as
potencialidades da Internet, então, provavelmente,
a qualidade percebida desses jornais por usuários
frequentes da Internet será reduzida;
2. Quanto menos os jornais online aproveitarem
as potencialidades da Internet, menos valorizados
serão e, por consequência, menos
vontade haverá, por parte dos usuários,
de acessá-los novamente;3. Se os estudantes
portugueses e brasileiros têm substratos
culturais diferenciados, nomeadamente no campo
mediático, então é provável
que seja diferente a avaliação
que fazem da qualidade dos jornais online.
Considerando
que o jornalismo online na Internet está particularmente
relacionado com conteúdos, design e navegação,
a pesquisa incluía um inquérito
específico sobre Conteúdo ( qualidade
dos conteúdos e sua adaptação à Internet);
Ergonomia ( adaptação do sistema
ao usuário) e Interatividade ( possibilidade
de interação do usuário
com o jornal, os jornalistas e o meio).
Os
resultados da pesquisa mostraram, segundo o professor,
que o jornal Folha de São Paulo apresentou
conteúdos de melhor qualidade, sendo seguido
pelo Estado de São Paulo, Jornal do Brasil
e O Globo, sendo que Folha de São Paulo
era o único que possuía uma base
de imagens. Tanto o grupo de estudantes brasileiros
como o grupo de estudantes portugueses percebeu
os jornais analisados como apresentando conteúdos
de média qualidade, ficando claro que
os dois grupos valorizam, em particular, os fatores
atualidade, interesse, qualidade geral da informação
e expressividade das fotografias. Ficou igualmente
claro que as potencialidades da Internet ainda
são pouco aproveitadas pelos jornais digitais
e que isto os penaliza quanto à percepção
de sua qualidade, uma vez que não são
disponibilizados conteúdos audiovisuais
e sonoros; há pouca informação
de background, acessível, por exemplo,
através de hiperligações;
a redação não foi bem adaptada à Internet.
No
trabalho apresentado à INTERCOM, o pesquisador
destacou as amplas possibilidades que a Internet
oferece aos que produzem e veiculam o jornalismo
online, notadamente quanto ao hipertexto, que "tecnicamente é um
conjunto de nós conectados pelas ligações,
nós esses que podem ser palavras, imagens,
gráficos, sequências sonoras ou
documentos que podem ser eles próprios
hipertexto; funcionalmente, um hipertexto é um
software destinado à organização
de conhecimentos ou de dados, à aquisição
de informações e à comunicação.
Navegar num hipertexto é, portanto, desenhar
um percurso numa rede".
Em
relação à ergonomia de um
sistema hipermédia, segundo o mesmo autor,
trata-se de um conjunto de variáveis que
podem otimizar ou dificultar a recepção
das mensagens: "Os sistemas hipermédia
devem ser pensados como uma sucessão de
estímulos icónicos, textuais e
sonoros orientados para o usuário... a
qualidade do design de um sistema hipermédia
se funda na organização visual,
na facilidade de navegação, na
intuitividade de funcionamento e na uniformidade
visual...que joga ( esta última ) um importante
papel no acesso aos conteúdos. A facilidade
de navegação desenvolve a sensação
de fluir (sensação holística
de felicidade ) pelos conteúdos e a uniformidade
visual dinamiza os comportamentos orientados
e regulares no seio do sistema hipermédia".
Jorge
Pedro Souza ensina ainda que "a ergonomia
do sistema hipermédia também se
prende à capacidade de transmissão
sincronizada de uma mensagem num meio multimédia
e ao grau de economia de tempo do usuário
que se consegue através, por exemplo,
da economia de palavras, imagens e sons. Na Internet
está-se num (ciber)espaço de interatividade,
num (ciber)espaço de liberdade, num modelo
de comunicação que em potência é de
muitos para muitos. Portanto, quando se avalia
a qualidade de jornais on-line é preciso
avaliar também a interatividade e a implicação
do usuário com o sistema hipermédia.
Esta categoria tem um papel decisivo na satisfação
global do usuário, pois nos ambientes
de intensa informação é através
da interação pessoal e da interação
com o meio que podemos criar a percepção
de valor acrescentado".
Fazer
jornalismo online sem explorar todos os recursos
do hiperlink seria como fazer jornal de papel
e remeter o leitor à enciclopédia
sempre que precisasse consultar uma base de dados.
O acesso amplo e facilitado ao hipertexto ( que
inclui links e sites interessantes sobre o assunto
tratado) estimulará a interatividade do
internauta que poderá emitir constante
feedback, enquanto navega, através de
e-mails para os jornalistas, para as fontes citadas,
para outros usuários, inclusive redirecionando
a mensagem ou utilizando chat-room.
Conferencista
do mesmo congresso da INTERCOM, o professor doutor
Adenil Alfeu Domingues, da Unesp/Bauru, lembrou
que "o hipertexto foi criado pelo professor
da Universidade de Keio, Japão, Theodor
Holm Nelson, na década de 60, cujo princípio
era a interligação de textos verbais,
imagens, animações, cenários
tridimensionais, exibidos não de modo
sequencial, mas de acordo com os interesses do
leitor, conforme as possibilidades de caminhos
oferecidos para acesso".
Adenil
esclareceu, porém, que o projeto de Nelson
nunca saiu do papel e que foi Douglas Engelbert
quem materializou o sistema e apresentou ao mundo
o NLS ( On-Line System), conjugando texto, imagem
e vídeo, permitindo ao usuário
acessar dados de maneira não linear.
Assim surgia, por volta de 1990, a World Wide
Web, o mais importante dos sistemas de hipertexto
na Internet, reunindo milhares de páginas
interligadas por hipertexto que utiliza todos
os recursos disponíveis de multimídia.
Tais recursos permitiram o nascimento de um novo
jornal, o jornal digital.
Ninguém
sabe para onde ou até onde vai a Internet
e, consequentemente, o jornalismo digital. Mas,
pode-se concluir com Sven Birkerts, citado por
Johnson (2.001): "Como nossa cultura está se
tornando rapidamente eletrônica, somos
cada vez menos o que éramos, uma sociedade
de indivíduos isolados. Estamos correndo
para entrar na rede, e o corolário natural
disso é que a idéia de individualidade
deverá ficar ameaçada...Com o tempo
vamos todos viver, pelo menos em parte, dentro
de uma espécie de consciência de
rede...Nossos períodos de imersão
subjetiva não perturbada serão
cada vez mais raros, e podem até desaparecer
por completo".
O
espaço-informação é a
grande realização simbólica
de nosso tempo. Passaremos as próximas
décadas nos ajustando a ele ( Johnson
2.001) mas se isto vai ser melhor ou pior para
a humanidade é muito cedo para dizer.
Afinal, já não se trata de uma
tecnologia como a de cinco séculos atrás,
transmitida pelos "impressores ambulantes" que
difundiam pela Europa a invenção
de Gutenberg, mas de uma parafernália
de inovações que se renovam a cada
dia surpreendendo-nos e maravilhando-nos nessa
cultura da interface em que o Sr. Bill Gates é o
Gutenberg dos nossos dias, sempre com ferramentas,
janelas e ícones reluzentes cada vez mais
poderosos para o jornalismo digital e todos os
milhões de usos possíveis da Web.
Em
matéria de tecnologia da informação,
mesmo sabendo que os demais veículos continuarão
tendo seu papel na mídia, considerando
o potencial do jornalismo digital, por sua capacidade
de produzir notícias com rapidez, com
imagens, com acesso a ampla base de dados e mesmo
com sons, podemos "navegar", jubilosos,
com Camões, lembrando a cultura acumulada
pela literatura universal ao longo dos séculos:
"Cessem
do sábio Grego e do Troiano
As
navegações grandes que fizeram;
Cale-se
de Alexandrino e de Trajano
A
fama das vitórias que tiveram;
Que
eu canto o peito ilustre Lusitano,
A
que Netuno e Marte obedeceram,
Cesse
tudo que a Musa antiga canta,
Que
outro valor mais alto se alevanta".
(
Os Lusíadas, Canto I-3)
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