Imagens
do Dia foi
o primeiro telejornal brasileiro. Nasceu
com a TV Tupi de Assis Chateaubriand (Diários
Associados) na primavera de 1950, exatamente
no dia 19 de setembro. Durou um ano. Tinha
um formato simples: o locutor Rui Resende
produzia e redigia as notícias.
Algumas notas tinham imagens feitas em
filme preto e branco, sem som.
Mas
o primeiro jornal de sucesso da televisão
brasileira foi o Repórter Esso,
também da Tupi. Ficou no ar de 17.06.53
até 1970, com sua inolvidável
vinheta de abertura ("Aqui fala o seu
Repórter Esso, testemunha ocular da
História"), apresentado por dois
destacados locutores de rádio: Kalil
Filho e, depois, Gontijo Teodoro.
Entretanto,
no final da década de 60, as inovações
tecnológicas importadas dos EUA, entraram
no telejornalismo brasileiro e o Jornal
Nacional, da Rede Globo de Televisão,
criado por Armando Nogueira, estreou em 1º de
Setembro de 1969, tornando-se líder
de audiência e referência da imprensa
nacional. Foi o primeiro a apresentar reportagens
em cores, o primeiro a apresentar reportagens
internacionais via satélite no instante
em que os fatos ocorriam. O estilo de linguagem,
a narrativa, a figura do repórter, o
formato... tinham os telejornais americanos
como modelo.
Em
1977 a Globo São Paulo colocou no ar
um jornal de serviço: Bom Dia São
Paulo, que até hoje vai ao ar de
segunda a sexta, às 7h da manhã.
Também incorporou novas tecnologias:
foi o primeiro a usar a UPJ (Unidade Portátil
de Jornalismo) com repórteres entrando
ao vivo de vários pontos da cidade,
transmitindo informações de serviço
como tempo, trânsito, movimentação
da cidade, aeroporto etc. São características
que permanecem até hoje. O sucesso deu
origem ao Bom Dia Brasil, em 1983, que
vai ao ar logo após o "Bom Dia" de
cada praça, com o noticiário
político gerado em Brasília.
A
história do telejornalismo brasileiro
destaca, também, o TJ Brasil,
lançado em 04.09.1988, no Sistema Brasileiro
de Televisão-SBT (de Silvio Santos).
Também se inspirou no formato americano
ao inovar com a emblemática figura do âncora
Boris Casoy, que saiu do jornal impresso e
logo se acertou com a TV, conquistando seu
espaço e seu público. Em meados
de 1997 Casoy foi para a TV Record.
Também
em 1997 a televisão brasileira ganhou
outro jornal importante, o Jornal da Band,
igualmente influenciado pelos costumes americanos,
apresentado por Paulo Henrique Amorim, com
um estilo forte e opinativo, com informações
exclusivas e ao vivo.
02.
Texto e Imagem
Porque
alguns produtos jornalísticos fazem
sucesso e outros ficam pouco tempo no ar? Naturalmente
isto tem a ver com a qualidade. Mas não
uma qualidade que contempla apenas o aporte
tecnológico e sim que envolva a própria
produção dos conteúdos,
o que tem a ver, naturalmente, com o trabalho
dos repórteres, apresentadores e equipes
de reportagem. A exemplo do que ocorre no jornalismo
impresso, não se pode esperar que um
manual ou alguma fórmula pronta dê conta
de resolver todas as dificuldades do profissional
envolvido com o telejornalismo, uma vez que
a capacidade de perceber e produzir a notícia
tem muito a ver com o potencial intrínseco
do jornalista e das equipes. Mas algumas regras
sempre ajudam os iniciantes a encontrarem,
com o tempo, o próprio caminho, aquele
que os diferenciará dos demais, que
dará uma marca própria, uma característica
inconfundível.
Vamos,
estudar, inicialmente, as características
do texto em televisão, com base, entre
outros autores, em Vera Íris Paternostro
("O Texto na TV". Rio: Campus, 1999).
"Escrever é cortar
palavras", dizia o poeta Carlos Drumond
de Andrade. Para ele, "um texto enxuto é um
bom texto". Na TV, principalmente, o texto
precisa ser coloquial, claro, preciso. Pela
própria característica do veículo – a
instantaneidade, como no Rádio - o receptor
deve "pegar a informação" de
uma vez. Se isto não acontecer, o emissor
terá fracassado no objetivo de comunicar. É aconselhável
ler o próprio texto em voz alta, sem
inibição, para verificar as falhas.
Frases curtas e pontuação correta
(a vírgula, o ponto final e os dois
pontos) dão ritmo ao texto destinado à mídia
eletrônica. As frases curtas facilitam
a compreensão.Uma só frase, de
seis a sete linhas, no script padrão
de telejornalismo, é considerada longa,
tanto para a leitura do locutor como para o
ouvido do receptor.
Entretanto, é preciso
variar o tamanho das frases para evitar o estilo
telegráfico. O objetivo é que
o receptor acompanhe, compreenda e retenha
a informação. Na relação
com o impresso, devemos lembrar que o leitor
pode ler de novo, mas o ouvinte não
pode voltar atrás para ouvir novamente.
Por
outro lado, é a pontuação
que dá o "embalo" no texto,
permitindo que o locutor/apresentador respire
enquanto fala. Observe os exemplos:
Errado:
A
elevação brusca no preço
dos aluguéis está preocupando
as administradoras que há mais de três
meses não encontram locatários
que possam pagar mil e duzentos reais mensais
por imóveis de dois quartos. Por isso,
muitos proprietários preferem manter
seus imóveis fechados aguardando que
a situação mude a curto prazo
e então possam encontrar inquilinos
confiáveis.
Correto:
As
administradoras estão preocupadas com
a elevação brusca no preço
dos aluguéis. Há três meses,
não encontram quem possa pagar mil e
duzentos reais por um imóvel de dois
quartos. Os proprietários preferem manter
seus imóveis fechados até que
a situação mude.
É necessário
lembrar, ainda, que no telejornalismo o papel
da palavra é dar apoio à imagem.
O texto só tem sentido quando está casado
com a imagem, quando se relaciona com ela,
quando não entra em conflito com ela.
Ambos precisam se completar, ao invés
de caminharem em paralelo, pois neste caso
um não faria falta ao outro. Um erro
muito comum é a redundância do
texto que ao invés de falar sobre as
imagens, limita-se a descrevê-las como
se o telespectador não as estivesse
vendo. Nesses casos desperdiçam-se enormes
recursos para fazer jornal falado ou rádio
na TV. Fica monótono, chato, cansativo.
Não vale a pena.
Para
evitar esses equívocos, o melhor é o
repórter ver as imagens antes, fazer
a minutagem delas para facilitar a edição
e, então sim, escrever sobre elas. Nunca
fazer o contrário, isto é, produzir
um texto e depois tentar cobri-lo com imagens.
Telejornal não é filme de longa
metragem. Nas situações de emergência,
quando não dá tempo de ver e
rever as imagens, o repórter poderá se
sair bem se tiver a seqüência delas "na
cabeça" e contar com as anotações
feitas no local.
A
boa reportagem, que casa texto e imagem, é aquela
que também leva em conta o desempenho
do jornalista, porque não basta ter
boas imagens e boas informações
(pesquisadas no local). Também é preciso
passar emoção, para que a matéria
tenha vida e dê conta de informar ao
receptor o que aconteceu, quando aconteceu,
onde aconteceu, porque aconteceu, quem protagonizou,
como aconteceu. Para tanto é preciso
que o texto identifique os elementos fundamentais
da notícia deixando que a imagem cumpra
seu importante papel na tela. Visualize os
exemplos a partir das seguintes informações:
Um grupo de sem-terra invade uma fazenda. O
proprietário chama a polícia
para que sejam retiradas. Mas já montaram
barracas de lona e pretendem lutar pela posse
da terra. A equipe volta do local e o repórter
lembra-se da seqüência de imagens
(barracas, homens, mulheres e crianças,
policiais investindo sobre o acampamento e
as conseqüências dessa ação.
Então escreve o texto (redundante):
Errado:
Os
policiais chegaram com tudo, pela manhã,
na área da fazenda onde os sem-terra
estão acampados. Eles vieram a cavalo
e trouxeram também vários tratores.
Cada barraca do acampamento foi sendo destruída,
uma a uma, com muita violência. Dezenas
de homens, mulheres e crianças, desesperados,
corriam para todos os lados. Eles levavam nas
mãos o pouco que podiam salvar de suas
coisas.
Correto:
A
polícia chegou cedo para retirar os
sem-terra da área invadida. Em pouco
tempo, o acampamento foi destruído.
(Sobe
som ambiente)
Homens,
mulheres e crianças saíram correndo
e ainda tentaram levar o que sobrou.
(Sobe
som ambiente)
Nesse
exemplo, a imagem é mais forte e mais
emocionante que a palavra. Por isto é preciso
saber medir e equilibrar texto e imagem.
O
texto também pode incluir, em alguns
casos, recursos destinados a chamar a atenção
do telespectador que pode estar distraído
naquele momento, ou afastado da TV. Exemplos:
Atenção
para esta última informação...
Uma
notícia que acaba de chegar...
Urgente:
As agências informam que...
Outra
técnica é usar o texto para valorizar
as imagens. Exemplos:
Vamos
acompanhar as imagens...
Vejam
agora imagens exclusivas...
Os
detalhes nas imagens em câmera lenta
Acontece, às
vezes, que faltam imagens para uma determinada
notícia. Então é preciso
recorrer à "arte" que fornecerá mapas,
selos, desenhos, gráficos, quadros parados,
legendas, fotos, animação, simulação,
reconstituição. Quando a transmissão é por
telefone, coloca-se o "santinho" do
repórter sobre o mapa com a localização
dele e a legenda com crédito e origem.
Os
editores de TV pedem texto simples e coloquial,
mas não vulgar e muito menos literário.
Exemplos:
Errado
Enquanto
a genitora do morto recebia as condolências,
os agentes da lei protegiam o ataúde
do colega, porém a causa mortis ainda
não foi revelada.
Correto:
Os
policiais protegiam o caixão do colega,
e a mãe dele recebia os cumprimentos.
Ainda não se sabe a causa da morte.
O
autor de "Jornalismo diante das Câmeras",
Ivor Yorke (São Paulo: Summus, 1998)
chama atenção para redundâncias
e clichês muito comuns nas aberturas
e nos encerramentos das matérias, quando
o repórter aparece ao vivo ( stand
up). Exemplos:
Aberturas:
Aqui
atrás/ Na minha frente...
Estou
aqui...
Aconteceu...
A
segurança era rígida....
Encerramentos:
....é o
que todos se perguntam
...só o
tempo dirá
...nunca
mais será o mesmo
...agora é tarde
demais.
Essa
falha de texto também ocorre com quem
se inicia no impresso sem ter bons hábitos
de leitura. O jornalista iniciante muitas vezes
não consegue encerrar o texto sem "arrematar" com
alguma conclusão pessoal do tipo "resta
esperar..." ou "resta saber" ou "cabe
perguntar" e outras pérolas de
inutilidade. Parece sentirem que está faltando
alguma coisa, que o texto não está completo
sem o "fecho". Certamente, em matéria
de concisão, ignoram a historinha do
feirante que colocou uma placa em sua banca
com os dizeres "Vende-se peixe fresco" e
chamou um amigo para ver se havia alguma coisa
errada com a frase. O amigo opinou: É possível
tirar o "vende-se" porque o peixe
não é dado aqui na feira; também é bom
abolir o adjetivo "fresco" porque
o amigo não vende produto estragado.
De resto a palavra "peixe" está sobrando
porque o cheiro fala mais forte...
Ivor
Yorke acha que o avanço da tecnologia
ajudou muito na evolução da TV
(e vai ajudar muito mais com a transmissão-recepção
digital, com a TV de plasma, com a integração
do televisor com o computador etc), mas a tecnologia
também é um perigo na medida
que permite a qualquer pessoa, com uma câmera
na mão, registrar um fato que vai ao
ar com o rótulo de "exclusivo" ou "ao
vivo", comprometendo todo o esforço
de manter o padrão de qualidade. Ele
também percebe que repórteres
e apresentadores não devidamente preparados
acabam contribuindo com esse rebaixamento técnico
do telejornalismo onde o noticiário
sério muitas vezes acaba substituído
pelo "espetáculo ao vivo",
enquanto o apresentador mantém um olho
no Ibope e outro na concorrência, como
está ocorrendo atualmente entre os apresentadores
Datena (da TV Bandeirantes) e Milton Neves
(da TV Record).
O
bom repórter de TV reúne algumas
características especiais, como: faro
para a notícia; ceticismo nato; sede
de verdade; conhecimentos sobre comunicação;
aparência razoável; voz aceitável;
capacidade de entender que palavra e imagem
andam juntas; capacidade de agir como líder
da equipe.
O
que significa liderar uma equipe de TV?
Ora,
o trabalho em equipe é a razão
da TV. Uma pessoa, só, pode produzir
uma matéria de rádio e até operar
uma emissora num plantão de fim de semana.
Mas um repórter sozinho não faz
a matéria do telejornal nem mantém
no ar uma emissora de televisão.
O
fator tempo e o fator custo são determinantes
na grade de programação da TV.
Por isto não se pode perder tempo nem
desperdiçar recursos. É tudo
muito racional, muito planejado, muito eficiente.
Jornalista preguiçoso bate na porta
errada quando procura emprego na TV.
Quando
sai para uma cobertura, o repórter de
TV vai acompanhado do câmera, do iluminador
e, às vezes, do técnico de som
e do motorista (quando um deles não
acumula esta função). É uma
equipe de bom tamanho. Quem deve liderá-la é o
repórter. Todos esperam que ele saiba
dizer claramente o que quer, o que é para
ser feito, determinando o ritmo do trabalho.
Isto se faz com diálogo e determinação,
tão logo o profissional toma conhecimento
da pauta. É preciso que cada um "compre" a
idéia da reportagem. Nada torna um repórter
tão malvisto aos olhos da equipe do
que a presunção e a irresponsabilidade,
especialmente a incapacidade de chegar ao local
em tempo.
A
capacidade de controlar os problemas logísticos
envolvidos na reportagem é quase tão
valorizada quanto o talento editorial. Com
as novas tecnologias, o repórter precisa
ser mais rápido para se movimentar até o
local dos acontecimentos e voltar para ver
as imagens, fazer a avaliação,
dar forma ao material ou enviá-lo para
ser editado na redação (quando
está à distância). Ao cronometrar
o tempo necessário, é aconselhável
incluir uma margem de segurança.
O
diálogo com o câmera é essencial.
Ele não é jornalista, mas toma
decisões editoriais toda vez que movimenta
as lentes da câmera. Isto também é uma
característica da TV, que não
atinge os jornais e o rádio, onde os
técnicos não têm tanta
influência no produto final do repórter.
Quem se põe a liderar, entretanto, deve
ter cuidado para não ferir suscetibilidades
alheias. É necessário saber dialogar
e ser firme sem bancar o diretor de cinema.
Afinal, o repórter precisa das imagens
como o peixe da água. TV é imagem.
03.
Técnicas de Entrevista
Em "Telejornalismo",
Albertino Aor da Cunha (São Paulo: Atlas,
1990) observa que o repórter nunca deve
completar frases do entrevistado ou falar ao
mesmo tempo que ele, nem estimulá-lo
através de gestos, expressões
faciais etc. Deve deixar o julgamento do mérito
para o telespectador ou para o ouvinte (no
caso do rádio). Deve ser discreto e
simpático, usando sempre a terceira
pessoa. É aconselhável não
partir para temas paralelos que não
domina perfeitamente: o entrevistado poderá levantar
questionamentos que o repórter não
domina e assim não terá meios
de continuar a entrevista.
A
pergunta é influenciada pelo modo como
o entrevistador se comporta e isto envolve
a comunicação silenciosa dos
gestos, a expressão facial, a atenção
concentrada, até o modo como o repórter
está vestido, em determinadas situações.
Na verdade o repórter pergunta também
com o corpo, por isto precisa aprender a controlar
o nervosismo, deixando o corpo em posição
descontraída, soltando os braços
e as pernas.
Há repórteres
de vídeo que parecem não saber
onde por as mãos. Outros procuram equilíbrio
apoiando-se num pé ou no outro, prendendo
o eixo postural, comprometendo, assim, a fala. É preciso
patrulhar o comportamento do corpo e instruí-lo
a não refletir os medos do repórter.
A criatura humana é dinâmica, é movimento, é ação.
A segurança, a confiança, o equilíbrio
revelam a personalidade do bom repórter
no vídeo. Daí a necessidade de
estar bem preparado para o que vai falar. Estando
bem preparado, bastará respirar fundo
e transmitir sua empatia, com olhos brilhantes
e firmes, direcionados para a lente da câmera.
Ela substitui a íris do telespectador
em casa. As palavras devem ser pronunciadas
com clareza e decisão: É "levar" e
não "levá"; "trazer" e
não "trazê"; "terceiro" e
não "tercero"; "Brasil" e
não "Brasiu"; "chover" e
não "chuvê"; "nascer" e
não "naiscer"; "poder" e
não "pudê"; "renovar" e
não "renuvar"; "precisa" e
não "pcisa"; "circuito" e
não "cirqüito"...
Quem
vive da voz – na TV e no Rádio – deve
cuidar da impostação (colocação
e projeção), evitando as trocas
de L por R, de R por L e todos os vícios
de linguagens como repetições,
cacófatos, rimas e tudo que revele desconhecimento
da língua.
O
entrevistado sentirá firmeza se a pergunta
tiver conteúdo, se for adequada, inteligente,
se revelar conhecimento do assunto. Por outro
lado, caberá ao repórter conduzir
a entrevista de modo que o entrevistado não
se disperse, nem se alongue demais, especialmente
nas transmissões ao vivo. Mesmo nas
produções gravadas, esse cuidado é necessário
para não atrasar a edição
do material. É complicado ver horas
de gravação para retirar três
ou quatro minutos. Ninguém tem tempo
a perder. É preciso achar o meio termo:
nem imagens de menos, nem imagens demais.
Em
muitas situações, a entrevista
de rádio ou de TV intimida o entrevistado.
O repórter pode perceber que o entrevistado
está com o tórax encolhido, sentindo-se
dominado, às vezes até paralisado,
pela situação, com o "eu" diminuído,
retraído, submisso. Um repórter
experiente sente as vibrações
que o entrevistado emite durante suas respostas.
O aumento da respiração revela
tensão e forte emoção.
Os suspiros indicam ansiedade e angústia.
As sobrancelhas abaixadas indicam forte reflexão
sobre a resposta e a seriedade com que a dará.
As sobrancelhas levantadas indicarão
surpresa, espanto, alegria. O entusiasmo também é revelado
pelos olhos brilhantes. A leitura dos lábios
revelará sua dúvida, sua contrariedade,
até sua raiva. Lábios comprimidos
revelam o propósito firme de defender-se
das perguntas.
Quando
o entrevistado está sentado, o queixo
apoiado nas mãos exprime a espera paciente
e desafiadora pela próxima pergunta,
ou até mesmo sua surpresa e desaprovação.
As pernas cruzadas exprimem desembaraço.
O sorriso seco antes das respostas pode ser
pura educação, não se
harmonizando com a fala a seguir. Os punhos
cerrados indicam agressão. O acanhamento,
o receio, o tom baixo da voz indicam fraqueza
psíquica. Já a franqueza, o interesse
e a coragem revelam vigor psíquico.
As
mãos atrás das costas tentam
esconder o estado de tensão. Se contrariado,
o entrevistado, quando sentado próximo
de uma mesa, poderá começar a
brincar com um objeto qualquer, tentando parecer
natural. Também estará dissimulando
a contrariedade tocando suavemente as pontas
dos dedos de ambas as mãos.
É através
da imagem televisiva que o telespectador sabe
o que o entrevistado está fazendo ou
pensando. O conhecimento dessas reações
amplia o alcance da informação
que o repórter tenta passar com a entrevista.
Muitas vezes o silêncio fala mais alto
que a resposta a uma pergunta bem colocada.
Se
não entender uma resposta, o repórter
deve perguntar novamente, pois é possível
que o telespectador também não
entenderá. As perguntas não devem
ser adiantadas para o entrevistado antes de
começar a gravar. O fator surpresa obrigará o
entrevistado a responder cada uma com naturalidade,
sem ensaiar.
Nas
matérias gravadas, o repórter
faz a primeira pergunta e não retira
mais o microfone da boca do entrevistado. As
perguntas são feitas em off. Depois
elas serão gravadas à parte,
no mesmo ambiente, de preferência sem
a presença do entrevistado. Nessa ocasião é permitido
corrigir algum erro de português ou de
dicção, mas não se pode
mudar a essência da pergunta. Não
seria ético.Em seguida grava-se a "cabeça" (abertura)
da matéria. O melhor é o repórter
memorizar o texto curto da "cabeça",
evitando usar a "dália" (cópia
do texto colocada ao lado da câmera).
Isto modifica o olhar do repórter e
dá ar falso à apresentação.
No estúdio há equipamento próprio,
o tele-prompter, que produz uma cópia
eletrônica do script sobre a câmera,
para os apresentadores lerem olhando diretamente
nos olhos do telespectador.
Ao
gravar sua abertura, passagem ou encerramento,
o repórter deve prestar atenção
no "fundo de tela" que terá atrás
de si. Não é bom surpreender-se,
na correria do fechamento do jornal, já na
emissora, com árvores, postes ou frases
muito estranhas brotando da cabeça do
repórter ou do entrevistado. Quando
o ambiente está muito tumultuado é aconselhável
procurar um lugar mais calmo para gravar, mas
que revele o tom geral do ambiente, pois fechar-se
numa sala para falar sobre uma festa é o
mesmo que fazer isto no estúdio, isto é,
fica monótono, burocrático, sem
vida. O ruído ambiente faz parte da
matéria, desde que não cubra
a fala do repórter ou do entrevistado,
tanto para o Rádio como para a TV.
Algumas
orientações básicas para
Rádio e TV:
· Não
usar gírias
· Não
usar expressões vulgares
· Não
usar palavras muito técnicas
· Não
usar a forma indireta
· Não
intercalar frases
· Não
florear o texto com adjetivos e palavras supérfluas
· Não
começar a frase com algarismos
· Não
fazer rodeio: ir direto ao assunto
· Não
usar palavras estrangeiras
· Não
repetir palavra na mesma frase
· Não
usar siglas sem explicar o significado
· Não
fazer texto rimado. Exemplo:
Errado
A
seleção já está na
concentração, em preparação
para o jogo contra o Japão.
Correto
A
seleção já está concentrada
e se prepara para o jogo contra o Japão.
04.
Recomendações Finais
O
experiente repórter da BBC, Ivor Yorke,
deve ser leitura obrigatória para quem
quer estudar teoricamente as técnicas
de entrevista e de reportagem para televisão.
Vamos encerrar com algumas recomendações úteis
aos iniciantes:
*
Tente sair dos gabinetes oficiais. Busque a
originalidade junto ao povo.
*
Tente romper a agenda padronizada que a TV
copiou dos jornais por comodismo. Mas, lembre-se:
Para romper regras é preciso conhecê-las.
*
Na função de pauteiro, observe
que é preciso planejar a cobertura futura
agendando com exatidão as votações
importantes do Congresso, as viagens presidenciais,
decisões da Justiça, obras em
andamento, encontros etc. Às vezes esse
planejamento exige providências especiais
de viagens, conexões de satélite,
cooperação com outras organizações
etc. Não se faz o Telejornal só com
as notícias do dia, mas com planejamento.
*
A pauta diária pode variar desde indicações
superficiais (título, localização
e nome de um contato) até uma discussão
mais detalhada de tratamento, conteúdo
e perguntas.
*
Repórter experiente constrói
uma boa agenda de fontes e a guarda em lugar
muito seguro.
*
A roupa do repórter de vídeo
não deveria ser importante, mas é.
Uma blusa de babado, um decote mais ousado
ou um desenho diferente na gravata podem desviar
a atenção do telespectador.
*
O mecanismo sensível das câmeras
em cores pode ser perturbado por roupas com
listras finas ou padrões em xadrez,
ativando uma vibração visual
conhecida como "batimento". Alguns
tons, como o azul, criam um "buraco eletrônico".
*
Jóias podem criar clarões irritantes.
*
Para vencer o medo, o iniciante deve começar
gravando off, fazendo pequenas chamadas etc.
*
Evite pensar no público em termos de
milhões. É assustador demais.
Se "homem do povo" é um conceito
muito vago, dirija-se a alguém que v.
conhece: um amigo ou membro da família
sentado em casa, sozinho. Imagine que está contando
uma história para ele.
*
A obsessão do jornalismo impresso em
revelar a idade das pessoas (por motivos explicáveis)
não prevalece na TV, onde a imagem dá conta
de "completar a narrativa".
*
No script, os números são sempre
redondos. Os detalhes vão no gráfico.
*
O objetivo das chamadas ou do início
das matérias é prender a atenção
do telespectador omitindo a informação
central que virá na matéria. Ás
vezes uma ligeira falha de áudio pode
comprometer as primeiras palavras do texto,
mesmo por uma questão de segundos, prejudicando
o entendimento da informação.
Assim, é preciso tomar cuidado com a
abertura, colocando as palavras chaves um pouco
adiante. Exemplos:
1.Naquele
que já é considerado o pior
acidente da história, setecentas
pessoas morreram.
Ao invés de: Setecentas
pessoas morreram naquele que já é considerado
o pior desastre da história.
2. O campeão mundial dos pesos-pesados,
Mike Tyson...
Ao invés de: Mike Tyson, o campeão
mundial dos pesos-pesados...
3. As taxas de juros para as hipotecas
vão ter aumento de doze por cento.
Ao invés de: Será de doze por
cento o aumento das taxas de juros para as
hipotecas.
4. As cifras reveladas esta noite indicam
que o aumento de desempregados subiu para mais
de dois milhões.
Ao invés de: É de dois milhões
o número de desempregados no país,
segundo...
* A regra é usar três palavras
para cada linha de script, equivalente a 1 segundo.
* Por sobre o ombro do repórter a câmera
enquadrará o entrevistado em ½ plano.(Lembre-se:
O plano geral mostra toda a figura humana; o
plano médio mostra da cintura para cima;
o meio plano, do peito para cima; o close-up,
a cabeça e os ombros).
* Nas entrevistas programadas, bastam seis ou
sete perguntas.
* Nas coletivas o ideal é filmar imagens
de cena e tentar fazer entrevistas separadas.
* No "povo-fala" faz-se a mesma pergunta
para várias pessoas. Na edição,
será mantida só a pergunta inicial.
* Edite as sonoras de modo que o repórter
entre com a narração dos fatos
e o entrevistado com as opiniões e comentários.
Ao telespectador interessa mais a resposta do
entrevistado que a pergunta do entrevistador.
* Evite repicar as sonoras a ponto do telespectador
perder o sentido da fala.
* Não use fundo musical em notícias.
* Ao gravar o stand up memorize pelo
menos 30 palavras – o equivalente a 10 segundos.
Acrescente etapas de 15 palavras – 5 segundos.
Assim por diante. Se precisa gravar 40 segundos,
peça ajuda para gravar em duas etapas
com enquadramento diferenciado.
EXERCÍCIO
01.No
laboratório:
cada grupo deve acessar uma reportagem
e tentar memorizar o máximo de detalhes
para escrever, sem consulta, uma abertura
de 10 linhas para a televisão, com
suas palavras, contando uma história
que acabou de "ouvir". Se não
conseguir, tente de novo. Se tiver máquina
disponível, faça o exercício
sozinho.
02.
Em casa:
Grave dois telejornais, depois reúna
o grupo para analisar tecnicamente os dois
programas, observando detalhes que melhoram
a comunicação com o telespectador
ou falhas que poderiam ser evitadas. Escreva
um relatório sobre essa análise
e entregue até o final de maio para
avaliação