Ao
produzir matéria jornalística
em qualquer gênero - Informativo, Interpretativo,
Opinativo ou Recreativo - para servir e atrair
o leitor, o repórter conta com recursos
gráficos que podem valorizar a matéria
ou desprestigiá-la.
Naturalmente
a função de "apresentar" a matéria
ao leitor é da Editoria de Programação
Visual, apoiada pela Editoria de Arte. Mas
são muitos os estudantes de jornalismo
que se interessam pela incorporação
de técnicas de visualização
gráfica na Faculdade - onde há disciplina
específica - tornando-se, futuramente,
repórteres ambivalentes que tanto sabem
produzir o texto da maneira correta, subdividindo-o
em blocos com intertítulos, sub-matérias,
box de apoio, linhas finas, janelas, legendas
criativas etc para que ele fique visualmente
interessante, como também sabem montar
a página inteira no computador.
Com
tais conhecimentos, o repórter pode "brigar" pelo
bom aproveitamento do seu material. Se a matéria
tiver bom conteúdo e for bem editada,
o repórter valoriza-se profissionalmente.
Se nada conhece de programação
visual, ele terá mais dificuldades nessa
corrida em busca do leitor.
2.
IMAGEM
Em
palestra no Guilhermão, aqui na Unesp,
em junho de 1998, o professor-doutor da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré,
autor de livros didáticos sobre jornalismo,
disse que o poder de comunicação
contido na imagem transformou a televisão
em deus do capitalismo: "Para a mídia
o sujeito só existe se tem poder de
compra. Mas ela também se oferece como
boca de Deus que tudo vê, está em
todo lugar, tem ubiqüidade, é simultânea, é global,
afinal, tem poder para-religioso".
A
observação de Muniz Sodré,
nessa palestra para os alunos de Comunicação
Social da Unesp/Bauru, tem o sentido de despertar
o jornal impresso para a necessidade de se
repensar tecnicamente diante das novas tecnologias
que fundem o discurso verbal e o não-verbal,
ao transformar em imagem o próprio texto
impresso, tais os recursos disponibilizados
pela informática, algo impensável
no tempo das linotipos."O texto transmite a
informação semântica através
de seus signos compreensíveis, mas,
ao mesmo tempo, produz uma informação
visual de reforço estético através
de símbolos gráficos que atuam
na sensibilidade do receptor", diz outro professor,
Rafael Souza Silva ("Diagramação
- O Planejamento Visual Gráfico na Comunicação
Impressa". São Paulo: Summus, 1985).
O
professor Muniz Sodré também
criticou, em sua palestra, a clonagem do conteúdo
e do visual dos jornais brasileiros, explicando
porque eles se parecem tanto:
-
Os jornais se padronizaram muito porque os
jornalistas se transformaram em burocratas
das redações. O que faz um jornalista
o dia inteiro a não ser ler outros jornais?
O desafio é fazer um jornalismo mais
crítico, analítico e diferente
da TV. Assuntos que mudam a vida das pessoas
não são levados em conta, mas
a celulite da atriz tal é considerada
de vital importância. O jornal precisa
retornar ao seu lugar.
Outros
autores também defendem a importância
do jornal investir na imagem mas sem distanciar-se
do seu espaço de aprofundamento, de
conteúdo, de interpretação.
Investir na imagem, na estética da página
gráfica não pode significar abrir
mão do jornalismo de profundidade.
3. INFOGRÁFICO
No jornalismo,
a função da imagem, através
de fotos, ilustrações, desenhos
e todos os recursos gráficos, é explicar
melhor a notícia, ajudando o leitor
a entender e a interpretar o sentido dos fatos
como ocorre nas pesquisas de opinião,
quando se usam infográficos para esclarecer
as tendências.
"O infográfico é um
quebra-cabeças, não como um enigma
a ser decifrado, mas algo que se monta para
traduzir um mistério", define Flávio
Diegues, editor da "Superinteressante".
O infográfico
permite aproveitar melhor o espaço do
impresso condensando e simplificando a informação
com uma linguagem mais acessível. Mas
o infográfico não se basta em
si mesmo. Para funcionar, depende de um texto
enxuto, objetivo, claro, limpo, subdividido
em itens, com linguagem direta, com informações
puras.
Sua função
não é especulativa ou descritiva. É interpretativa.Complementa
o texto. Em alguns casos consegue substituir
o próprio texto diante do poder de comunicação
da mensagem não-verbal. Basta ver como
até as pessoas mais simples entendem
os sinais de trânsito, mesmo quando não
conhecem a língua de um país.
4. TÍTULOS
Outro recurso
gráfico de destaque no visual da página
impressa, o título funciona como vitrine
da notícia, chamando o cliente para
dentro da "loja" ou afastando-o para longe.
O título errado, muito longo, com palavras
herméticas, de tamanho desproporcional
em relação à matéria,
pode levar o leitor a se desinteressar pelo
texto.
Uma das técnicas
que se usa para despertar o interesse do leitor é evitar
que o título se esvazie em si mesmo,
dispensando o prosseguimento da leitura. Para
Rafael Souza Silva, "jornalisticamente o título é a
peça fundamental que deve resumir de
maneira concisa a idéia básica
do texto devendo para isso atrair a atenção
e, analogamente, cumprir a missão de
um vendedor, persuadindo o leitor para que
compre a idéia de ler a mensagem".
Na verdade, titular é uma
verdadeira arte, como afirma Amaral (1987),
acrescentando que "não são
todos os redatores, mesmo com muitos anos de
tarimba, que conseguem fazer um bom título,
embora consigam redigir matérias excelentes.
Por isto muitos jornais costumam ter profissionais
especializados nesse tipo de trabalho: os tituleiros...As
características exigidas do título
são: palavras curtas, usuais, colocadas
em estilo correto. O título deve ser
claro e corresponder exatamente ao conteúdo
do texto que ele resume e interpreta; precisa
atrair o leitor e conquistá-lo".
Sobre a função
visual do título, Amaral também
destaca: "Qualquer observador pode julgar
um jornal por seus títulos. Eles dão
bem o tom da publicação – séria,
escandalosa, equilibrada. Informam, também,
sobre a qualidade de seus redatores e sua capacidade
criadora. Ao escrever poucas palavras o profissional
já mostra quanto é capaz e evidencia
o grau de experiência na profissão.
Um mau título altera, até mesmo
destrói, a qualidade de uma boa matéria".
Outra técnica
importante é dar ação
e atualidade ao título colocando o verbo
no presente sempre que possível. O verbo "esquenta" o
título. O título "frio", sem
verbo, é mais apropriado para o box
de apoio ou de serviço, ou para matérias
igualmente frias, editoriais, artigos assinados,
crônicas etc. Nunca na notícia.
Deve-se escrever "Itamar vai pagar, diz FHC
em Minas", apesar da matéria referir-se
ao dia anterior, naturalmente. Jamais: "Itamar
vai pagar, disse FHC em Minas".
É igualmente
importante que o corpo da matéria repita
a idéia contida no título para
que não se crie uma desvinculação
entre título e texto.
Quanto mais conciso,
isto é, quanto menos palavras tiver,
mais destacado será o título.
O repórter precisa resistir à tentação
dos títulos quilométricos. Para
isto existem as "linhas finas" que estudaremos
a seguir.
5. OUTROS TIPOS
Se entendemos
título como informação
em letras destacadas para atrair a atenção
do leitor, também devemos entender como
títulos de apoio as "linhas finas" que
ajudam a explicar melhor o título principal.
Exemplo: "FHC promete fazer correções
na Lei Fiscal" é o título. Logo
abaixo vem a linha fina explicitando o título: "Presidente
avisa, porém, que sugestões não
devem comprometer o teor da proposta".
Também
os intertítulos e retrancas ajudam a
compor o visual da matéria. As retrancas
ficam sobre o título principal: "CONGRESSO" é a
retranca sobre o título abaixo: "Parlamentares
resistem à idéia de abono a juízes".
Os intertítulos, no corpo da matéria,
de preferência com uma só palavra,
ajudam a dividi-la em "capítulos", separando
as partes do texto para dar mais clareza.
Há ainda
o recurso das "janelas" que são cinco
ou seis palavras em corpo maior que o da matéria,
posicionadas num quadro, entre duas colunas,
chamando a atenção para uma informação
importante do texto que não está no
título, nas linhas-finas, nem nas legendas.
Numa matéria sobre "Títulos Públicos",
as duas palavras serão a retranca. O
título poderá ser: "Procurador
da Fazenda admite que acordo com Pitta é contestável".
A linha fina explicaria melhor: "Rolagem de
precatórios foi estendida de 10 para
30 anos porque governo julgou emissão
regular". A "janela", dentro da matéria
de duas ou mais colunas poderá ser: "Requião
acha ilegal decisão do Governo", porque
no texto há a informação
de que o senador Roberto Requião (PMDB-PR)
condenou a medida.
O detalhe da
legenda parece insignificante mas não é.
Trata-se de uma ou duas linhas sob a foto.
Apesar da pressa em escrevê-la para liberar
a matéria, é bom dar asas à imaginação
para criar um pouco em cima. Fica inútil,
desnecessária, repetitiva, a legenda
que apenas descreve a foto ou que repete o
título. Já vimos que o não-verbal
tem, em si mesmo, seu poder de comunicação.
Acrescentar o discurso verbal apenas para reforçar
esse poder de comunicação é perda
de tempo. É importante, então,
que a legenda "acrescente alguma coisa" que
está no texto da matéria. O que
ela não pode é repetir o que
já está no título, na
linha fina ou na "janela" do texto.
O Estadão
de 08/02/2.000 abriu a primeira página
com uma foto de três colunas e meia em
que a dançarina Alessandra Brasileiro,
com sumário traje, em corpo exuberante,
cumprimenta o ministro Paulo Renato, da Educação,
durante solenidade em Parintins ( AM ), cidade
famosa por sua festa folclórica. Atrás
da moça estão o presidente FHC
e o governador do Amazonas, Amazonino Mendes.
O detalhe é que os dois estão
olhando diretamente para o bumbum da jovem.
Daí que a legenda - que poderia ser
meramente descritiva - é aberta com
uma retranca criativa: "De encher os olhos".
A retranca de
abertura na legenda, recurso usado pelo Estadão
e outros jornais, funciona como uma espécie
de título para o texto da legenda, permitindo
ao redator acrescentar uma segunda idéia
( que na verdade é a primeira, como
no exemplo acima ) à idéia contida
na legenda. A retranca interpreta a legenda,
conduz a leitura, opina sobre o texto a seguir.
Para ficar "redonda", a legenda exige criatividade
em suas duas partes: na retranca e no mini-texto.
6. DIAGRAMAÇÃO
Não bastam
os textos e os títulos para atrair a
atenção do leitor. Esses recursos
precisam dos elementos visuais para completar
o processo de comunicação impressa. "É na
diagramação que vai se concentrar
todo o segredo do discurso gráfico,
em que a tipologia mínima contida harmonicamente
e padronizada, alia-se ao ritmo dado às
mensagens", diz o pesquisador Rafael Silva.
Para ele "as premissas estéticas que
inspiraram o design clássico
continuam a servir de padrão a uma ampla
parcela do design contemporâneo",
porque "está no equilíbrio o
elemento-chave do sucesso de um design".
O autor cita
Celso Kelly ( "Arte & Comunicação".
Rio: Agir, 1972), para explicar que "a arte
gráfica começa pela diagramação,
desdobra-se na escolha dos tipos; complementa-se
na confecção das manchetes".
Segundo ele, "as ilustrações
aquecem o texto; dão visualidade pronta
antes da leitura. Fotos, caricaturas, anúncios
enxertam-se em meio aos textos, quebram-lhe
a monotonia, imprimem movimento ao todo. Eis
o grande arranjo estético, a orquestração
gráfica do jornalismo. As artes gráficas
e plásticas ( não-verbal ) se
põem a serviço da atração
e da sugestão, em complemento da arte
da palavra ( verbal )".
A diagramação
da página impressa passa ao leitor,
portanto, dois tipos de mensagem, uma verbal
e outra não verbal, como explica Abraham
Moles ( "O Cartaz", São Paulo: Perspectiva,
1974): "Toda mensagem entre comunicadores humanos
apresenta-se, de fato, ao analista, como a
superposição de duas mensagens
distintas. A primeira é a mensagem semântica,
integralmente traduzível, não
importando qual seja o sistema linguístico.
A segunda é a chamada mensagem estética
ou conotativa que se baseia num conjunto de
elementos de percepção enumeráveis
e armazenáveis pelo observador".
Ao abrir a página
impressa, o leitor do jornal faz dois tipos
de leitura, uma superficial, outra profunda.
De imediato toma conhecimento dos elementos
gráficos que mais se destacam ( ilustrações,
títulos, sub-títulos, linhas
finas, janelas, infográficos, o texto),
depois penetra mais a fundo para observar os
detalhes.
A diagramação é,
portanto, a arte de coordenar corretamente
o material gráfico com o material jornalístico,
combinando os dois elementos com o objetivo
principal de atrair o leitor. "Enquanto a paginação
quer dizer a montagem de títulos, notícias
e fotos, a diagramação é a
consciência dos elementos gráficos
com a estética, o liame entre a técnica
do jornal e a arte da apresentação",
diz Juarez Bahia ( "Jornal, História
e Técnica". São Paulo: Martins,
1967).
Para Rafael Souza
Silva, "o leitor de hoje habituou-se a ver
o jornal plasticamente bonito onde a funcionalidade
da apresentação e a racionalidade
da leitura são elementos indispensáveis
no sucesso da publicação. O desenho
industrial tornou a funcionalidade uma questão
de estética".
Diante da tela
do computador, o programador visual do jornal
enfrenta o desafio de "dar vida" àquilo
que vai se transformar numa página impressa.
: "O que é esse processo de 'animar'
uma superfície que na realidade é 'inerte'
? É o processo de transformar os dados
espaciais reais, a superfície da tela
ou do papel, num espaço virtual, criando
a ilusão primária da visão
artística", afirma Suzanne Langer ( "Sentimento
e Forma". São Paulo: Perspectiva, 1980).
Animar, portanto,
uma superfície inerte, como faz o pintor, é a
grande arte do programador visual ou diagramador.
Ele sabe que cada lugar na página tem
um valor específico relacionado com
a maior ou menor facilidade com que o leitor chega à matéria,
como ensina Luiz Amaral (1997). A primeira
metade da página é mais importante
do que a segunda, o lado direito mais que o
esquerdo, o lado superior esquerdo mais que
o interior da página. Naturalmente as
agências de publicidade também
têm essas informações e
pagam mais caro para que os anúncios
de seus clientes ocupem as melhores posições
da página impressa, sobrando ao programador
visual o "resto" da página
para trabalhar o noticiário do dia,
muitas vezes. Ele sabe que sua missão é facilitar
a leitura do jornal. Por isto seu trabalho
consiste numa espécie de metalinguagem
do discurso jornalístico, uma busca
de prazer estético por parte do leitor.
Atualmente inúmeros recursos de computador
tornam cada vez mais fácil e produtivo
o trabalho do diagramador. Os alunos já saem
da faculdade conhecendo as regras básicas
da programação visual e vão
se aperfeiçoando na profissão à medida
que podem contar com recursos de última
geração na tecnologia disponível
e permanentemente atualizada.
A criatividade
do programador visual exigirá, entre
outros atributos, que se evite a rotina, a
repetição. "É um
trabalho que exige esforço e concentração.
Manter o estilo é relativamente fácil.
Mas isto não significa, porém,
que se deva estacionar e que se apresente ao
leitor, todos os dias, os mesmos recursos técnicos.
A variação é necessária",
aconselha Ricardo Parpagnoli em entrevista
a Luiz Amaral, no Rio, em 1967.