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IMAGEM NO JORNALISMO

Prof. MS Pedro Celso Campos

1. INTRODUÇÃO

Ao produzir matéria jornalística em qualquer gênero - Informativo, Interpretativo, Opinativo ou Recreativo - para servir e atrair o leitor, o repórter conta com recursos gráficos que podem valorizar a matéria ou desprestigiá-la.

Naturalmente a função de "apresentar" a matéria ao leitor é da Editoria de Programação Visual, apoiada pela Editoria de Arte. Mas são muitos os estudantes de jornalismo que se interessam pela incorporação de técnicas de visualização gráfica na Faculdade - onde há disciplina específica - tornando-se, futuramente, repórteres ambivalentes que tanto sabem produzir o texto da maneira correta, subdividindo-o em blocos com intertítulos, sub-matérias, box de apoio, linhas finas, janelas, legendas criativas etc para que ele fique visualmente interessante, como também sabem montar a página inteira no computador.

Com tais conhecimentos, o repórter pode "brigar" pelo bom aproveitamento do seu material. Se a matéria tiver bom conteúdo e for bem editada, o repórter valoriza-se profissionalmente. Se nada conhece de programação visual, ele terá mais dificuldades nessa corrida em busca do leitor.

2. IMAGEM

Em palestra no Guilhermão, aqui na Unesp, em junho de 1998, o professor-doutor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Muniz Sodré, autor de livros didáticos sobre jornalismo, disse que o poder de comunicação contido na imagem transformou a televisão em deus do capitalismo: "Para a mídia o sujeito só existe se tem poder de compra. Mas ela também se oferece como boca de Deus que tudo vê, está em todo lugar, tem ubiqüidade, é simultânea, é global, afinal, tem poder para-religioso".

A observação de Muniz Sodré, nessa palestra para os alunos de Comunicação Social da Unesp/Bauru, tem o sentido de despertar o jornal impresso para a necessidade de se repensar tecnicamente diante das novas tecnologias que fundem o discurso verbal e o não-verbal, ao transformar em imagem o próprio texto impresso, tais os recursos disponibilizados pela informática, algo impensável no tempo das linotipos."O texto transmite a informação semântica através de seus signos compreensíveis, mas, ao mesmo tempo, produz uma informação visual de reforço estético através de símbolos gráficos que atuam na sensibilidade do receptor", diz outro professor, Rafael Souza Silva ("Diagramação - O Planejamento Visual Gráfico na Comunicação Impressa". São Paulo: Summus, 1985).

O professor Muniz Sodré também criticou, em sua palestra, a clonagem do conteúdo e do visual dos jornais brasileiros, explicando porque eles se parecem tanto:

- Os jornais se padronizaram muito porque os jornalistas se transformaram em burocratas das redações. O que faz um jornalista o dia inteiro a não ser ler outros jornais? O desafio é fazer um jornalismo mais crítico, analítico e diferente da TV. Assuntos que mudam a vida das pessoas não são levados em conta, mas a celulite da atriz tal é considerada de vital importância. O jornal precisa retornar ao seu lugar.

Outros autores também defendem a importância do jornal investir na imagem mas sem distanciar-se do seu espaço de aprofundamento, de conteúdo, de interpretação. Investir na imagem, na estética da página gráfica não pode significar abrir mão do jornalismo de profundidade.

3. INFOGRÁFICO

No jornalismo, a função da imagem, através de fotos, ilustrações, desenhos e todos os recursos gráficos, é explicar melhor a notícia, ajudando o leitor a entender e a interpretar o sentido dos fatos como ocorre nas pesquisas de opinião, quando se usam infográficos para esclarecer as tendências.

"O infográfico é um quebra-cabeças, não como um enigma a ser decifrado, mas algo que se monta para traduzir um mistério", define Flávio Diegues, editor da "Superinteressante".

O infográfico permite aproveitar melhor o espaço do impresso condensando e simplificando a informação com uma linguagem mais acessível. Mas o infográfico não se basta em si mesmo. Para funcionar, depende de um texto enxuto, objetivo, claro, limpo, subdividido em itens, com linguagem direta, com informações puras.

Sua função não é especulativa ou descritiva. É interpretativa.Complementa o texto. Em alguns casos consegue substituir o próprio texto diante do poder de comunicação da mensagem não-verbal. Basta ver como até as pessoas mais simples entendem os sinais de trânsito, mesmo quando não conhecem a língua de um país.

4. TÍTULOS

Outro recurso gráfico de destaque no visual da página impressa, o título funciona como vitrine da notícia, chamando o cliente para dentro da "loja" ou afastando-o para longe. O título errado, muito longo, com palavras herméticas, de tamanho desproporcional em relação à matéria, pode levar o leitor a se desinteressar pelo texto.

Uma das técnicas que se usa para despertar o interesse do leitor é evitar que o título se esvazie em si mesmo, dispensando o prosseguimento da leitura. Para Rafael Souza Silva, "jornalisticamente o título é a peça fundamental que deve resumir de maneira concisa a idéia básica do texto devendo para isso atrair a atenção e, analogamente, cumprir a missão de um vendedor, persuadindo o leitor para que compre a idéia de ler a mensagem".

Na verdade, titular é uma verdadeira arte, como afirma Amaral (1987), acrescentando que "não são todos os redatores, mesmo com muitos anos de tarimba, que conseguem fazer um bom título, embora consigam redigir matérias excelentes. Por isto muitos jornais costumam ter profissionais especializados nesse tipo de trabalho: os tituleiros...As características exigidas do título são: palavras curtas, usuais, colocadas em estilo correto. O título deve ser claro e corresponder exatamente ao conteúdo do texto que ele resume e interpreta; precisa atrair o leitor e conquistá-lo".

Sobre a função visual do título, Amaral também destaca: "Qualquer observador pode julgar um jornal por seus títulos. Eles dão bem o tom da publicação – séria, escandalosa, equilibrada. Informam, também, sobre a qualidade de seus redatores e sua capacidade criadora. Ao escrever poucas palavras o profissional já mostra quanto é capaz e evidencia o grau de experiência na profissão. Um mau título altera, até mesmo destrói, a qualidade de uma boa matéria".

Outra técnica importante é dar ação e atualidade ao título colocando o verbo no presente sempre que possível. O verbo "esquenta" o título. O título "frio", sem verbo, é mais apropriado para o box de apoio ou de serviço, ou para matérias igualmente frias, editoriais, artigos assinados, crônicas etc. Nunca na notícia. Deve-se escrever "Itamar vai pagar, diz FHC em Minas", apesar da matéria referir-se ao dia anterior, naturalmente. Jamais: "Itamar vai pagar, disse FHC em Minas".

É igualmente importante que o corpo da matéria repita a idéia contida no título para que não se crie uma desvinculação entre título e texto.

Quanto mais conciso, isto é, quanto menos palavras tiver, mais destacado será o título. O repórter precisa resistir à tentação dos títulos quilométricos. Para isto existem as "linhas finas" que estudaremos a seguir.

5. OUTROS TIPOS

Se entendemos título como informação em letras destacadas para atrair a atenção do leitor, também devemos entender como títulos de apoio as "linhas finas" que ajudam a explicar melhor o título principal. Exemplo: "FHC promete fazer correções na Lei Fiscal" é o título. Logo abaixo vem a linha fina explicitando o título: "Presidente avisa, porém, que sugestões não devem comprometer o teor da proposta".

Também os intertítulos e retrancas ajudam a compor o visual da matéria. As retrancas ficam sobre o título principal: "CONGRESSO" é a retranca sobre o título abaixo: "Parlamentares resistem à idéia de abono a juízes". Os intertítulos, no corpo da matéria, de preferência com uma só palavra, ajudam a dividi-la em "capítulos", separando as partes do texto para dar mais clareza.

Há ainda o recurso das "janelas" que são cinco ou seis palavras em corpo maior que o da matéria, posicionadas num quadro, entre duas colunas, chamando a atenção para uma informação importante do texto que não está no título, nas linhas-finas, nem nas legendas. Numa matéria sobre "Títulos Públicos", as duas palavras serão a retranca. O título poderá ser: "Procurador da Fazenda admite que acordo com Pitta é contestável". A linha fina explicaria melhor: "Rolagem de precatórios foi estendida de 10 para 30 anos porque governo julgou emissão regular". A "janela", dentro da matéria de duas ou mais colunas poderá ser: "Requião acha ilegal decisão do Governo", porque no texto há a informação de que o senador Roberto Requião (PMDB-PR) condenou a medida.

O detalhe da legenda parece insignificante mas não é. Trata-se de uma ou duas linhas sob a foto. Apesar da pressa em escrevê-la para liberar a matéria, é bom dar asas à imaginação para criar um pouco em cima. Fica inútil, desnecessária, repetitiva, a legenda que apenas descreve a foto ou que repete o título. Já vimos que o não-verbal tem, em si mesmo, seu poder de comunicação. Acrescentar o discurso verbal apenas para reforçar esse poder de comunicação é perda de tempo. É importante, então, que a legenda "acrescente alguma coisa" que está no texto da matéria. O que ela não pode é repetir o que já está no título, na linha fina ou na "janela" do texto.

O Estadão de 08/02/2.000 abriu a primeira página com uma foto de três colunas e meia em que a dançarina Alessandra Brasileiro, com sumário traje, em corpo exuberante, cumprimenta o ministro Paulo Renato, da Educação, durante solenidade em Parintins ( AM ), cidade famosa por sua festa folclórica. Atrás da moça estão o presidente FHC e o governador do Amazonas, Amazonino Mendes. O detalhe é que os dois estão olhando diretamente para o bumbum da jovem. Daí que a legenda - que poderia ser meramente descritiva - é aberta com uma retranca criativa: "De encher os olhos".

A retranca de abertura na legenda, recurso usado pelo Estadão e outros jornais, funciona como uma espécie de título para o texto da legenda, permitindo ao redator acrescentar uma segunda idéia ( que na verdade é a primeira, como no exemplo acima ) à idéia contida na legenda. A retranca interpreta a legenda, conduz a leitura, opina sobre o texto a seguir. Para ficar "redonda", a legenda exige criatividade em suas duas partes: na retranca e no mini-texto.

6. DIAGRAMAÇÃO

Não bastam os textos e os títulos para atrair a atenção do leitor. Esses recursos precisam dos elementos visuais para completar o processo de comunicação impressa. "É na diagramação que vai se concentrar todo o segredo do discurso gráfico, em que a tipologia mínima contida harmonicamente e padronizada, alia-se ao ritmo dado às mensagens", diz o pesquisador Rafael Silva. Para ele "as premissas estéticas que inspiraram o design clássico continuam a servir de padrão a uma ampla parcela do design contemporâneo", porque "está no equilíbrio o elemento-chave do sucesso de um design".

O autor cita Celso Kelly ( "Arte & Comunicação". Rio: Agir, 1972), para explicar que "a arte gráfica começa pela diagramação, desdobra-se na escolha dos tipos; complementa-se na confecção das manchetes". Segundo ele, "as ilustrações aquecem o texto; dão visualidade pronta antes da leitura. Fotos, caricaturas, anúncios enxertam-se em meio aos textos, quebram-lhe a monotonia, imprimem movimento ao todo. Eis o grande arranjo estético, a orquestração gráfica do jornalismo. As artes gráficas e plásticas ( não-verbal ) se põem a serviço da atração e da sugestão, em complemento da arte da palavra ( verbal )".

A diagramação da página impressa passa ao leitor, portanto, dois tipos de mensagem, uma verbal e outra não verbal, como explica Abraham Moles ( "O Cartaz", São Paulo: Perspectiva, 1974): "Toda mensagem entre comunicadores humanos apresenta-se, de fato, ao analista, como a superposição de duas mensagens distintas. A primeira é a mensagem semântica, integralmente traduzível, não importando qual seja o sistema linguístico. A segunda é a chamada mensagem estética ou conotativa que se baseia num conjunto de elementos de percepção enumeráveis e armazenáveis pelo observador".

Ao abrir a página impressa, o leitor do jornal faz dois tipos de leitura, uma superficial, outra profunda. De imediato toma conhecimento dos elementos gráficos que mais se destacam ( ilustrações, títulos, sub-títulos, linhas finas, janelas, infográficos, o texto), depois penetra mais a fundo para observar os detalhes.

A diagramação é, portanto, a arte de coordenar corretamente o material gráfico com o material jornalístico, combinando os dois elementos com o objetivo principal de atrair o leitor. "Enquanto a paginação quer dizer a montagem de títulos, notícias e fotos, a diagramação é a consciência dos elementos gráficos com a estética, o liame entre a técnica do jornal e a arte da apresentação", diz Juarez Bahia ( "Jornal, História e Técnica". São Paulo: Martins, 1967).

Para Rafael Souza Silva, "o leitor de hoje habituou-se a ver o jornal plasticamente bonito onde a funcionalidade da apresentação e a racionalidade da leitura são elementos indispensáveis no sucesso da publicação. O desenho industrial tornou a funcionalidade uma questão de estética".

Diante da tela do computador, o programador visual do jornal enfrenta o desafio de "dar vida" àquilo que vai se transformar numa página impressa. : "O que é esse processo de 'animar' uma superfície que na realidade é 'inerte' ? É o processo de transformar os dados espaciais reais, a superfície da tela ou do papel, num espaço virtual, criando a ilusão primária da visão artística", afirma Suzanne Langer ( "Sentimento e Forma". São Paulo: Perspectiva, 1980).

Animar, portanto, uma superfície inerte, como faz o pintor, é a grande arte do programador visual ou diagramador. Ele sabe que cada lugar na página tem um valor específico relacionado com a maior ou menor facilidade com que o leitor chega à matéria, como ensina Luiz Amaral (1997). A primeira metade da página é mais importante do que a segunda, o lado direito mais que o esquerdo, o lado superior esquerdo mais que o interior da página. Naturalmente as agências de publicidade também têm essas informações e pagam mais caro para que os anúncios de seus clientes ocupem as melhores posições da página impressa, sobrando ao programador visual o "resto" da página para trabalhar o noticiário do dia, muitas vezes. Ele sabe que sua missão é facilitar a leitura do jornal. Por isto seu trabalho consiste numa espécie de metalinguagem do discurso jornalístico, uma busca de prazer estético por parte do leitor. Atualmente inúmeros recursos de computador tornam cada vez mais fácil e produtivo o trabalho do diagramador. Os alunos já saem da faculdade conhecendo as regras básicas da programação visual e vão se aperfeiçoando na profissão à medida que podem contar com recursos de última geração na tecnologia disponível e permanentemente atualizada.

A criatividade do programador visual exigirá, entre outros atributos, que se evite a rotina, a repetição. "É um trabalho que exige esforço e concentração. Manter o estilo é relativamente fácil. Mas isto não significa, porém, que se deva estacionar e que se apresente ao leitor, todos os dias, os mesmos recursos técnicos. A variação é necessária", aconselha Ricardo Parpagnoli em entrevista a Luiz Amaral, no Rio, em 1967.

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