" A encíclica
Redemptoris missio fala de modernos areópagos
que são, hoje, o mundo da ciência,
da cultura, dos meios de comunicação;
onde se criam as elites intelectuais, os ambientes
dos escritores e dos artistas".
João Paulo
II
("Cruzando
o Limiar da Esperança" - Roma -
1994)
1. Introdução
Este trabalho pretende
estudar basicamente, três aspectos: 1-
O ensino da comunicação nos seminários
que preparam os futuros sacerdotes; 2- A utilização
plena dos recursos técnicos e humanos à disposição
da Igreja; 3- A expectativa dos leigos em relação
ao discurso religioso.
A Igreja Católica é a
maior Organização Não
Governamental do mundo. É, também,
a mais antiga. Talvez, por isto mesmo, a instituição
reage com lentidão diante das transformações
tecnológicas que têm se acelerado
de forma impressionante no século XX.
Não se pode negar que há preocupação,
visível dentro da Igreja, com a necessidade
de se buscar uma comunicação
de melhor qualidade com o "auditório
universal" (Perelman) representado por
diferentes povos e diferentes culturas em todo
o mundo.
1.1 O Decreto Inter-Mirífica
O Decreto "Inter-Mirífica",
de 4/12/1963, emanado do Concílio Vaticano
II, dirigido aos meios de comunicação
social, é um dos tantos exemplos de empenho
da Igreja nessa área.
Depois de alertar para o uso dos meios de comunicação
a favor dos desígnios de Deus e não
para desinformar e corromper o povo, o Decreto
destaca que "compete à Igreja o direito
nativo de empregar e possuir toda sorte destes
instrumentos enquanto necessários e úteis à educação
cristã e a toda a sua obra de salvação
das almas".
Está claro que o papa e os padres conciliares
estão recomendando o pleno uso dos meios
de comunicação, na certeza de que
boa parte desse espaço será ocupada
a favor do mal se não for plenamente usada
para o bem.
Mas, como usar os meios sem conhecer suas técnicas,
seu alcance, suas características e o
potencial de cada um?
Não se pode mais descuidar do ensino
da comunicação na vã esperança
de que "com o tempo" o novo sacerdote
vá "adquirindo prática" no
relacionamento com os meios.
O ensino da comunicação é tarefa
a ser levada com extrema seriedade nos centros
de formação religiosa porque o
instrumento da pregação do Evangelho é a
comunicação. A essência mesma
desse anúncio está centrada na
capacidade de transmitir, com clareza e objetividade,
os ensinamentos de Cristo.
"Que a comunicação seja sempre
verdadeira, íntegra, honesta e equilibrada,
observando as leis morais, a dignidade e os legítimos
direitos do homem, tanto na busca das notícias,
quanto na sua divulgação",
recomenda o Decreto Inter-Mirífica, apresentando
um programa ético para os comunicadores
do mundo inteiro.
O documento também orienta os comunicadores
a tratarem com o devido respeito os assuntos
religiosos e estimula pastores e leigos a se
apressarem na tarefa de conhecer melhor as técnicas
usadas nos meios de comunicação: "...Os
Sagrados Pastores apressem-se em cumprir seu
dever, intimamente conexo com seu ofício
ordinário de pregar; também os
leigos, que participam no emprego destes meios,
animem-se em dar testemunho de Cristo, particularmente
desempenhando com competência e espírito
apostólico as tarefas próprias
a cada um, e até, naquilo que lhes toca,
com as possibilidades da técnica, da economia,
da cultura e da arte, prestem ajuda direta à ação
pastoral da Igreja".
Naturalmente não se pode esperar essa competência no
uso dos meios se o ensino da comunicação
não for planejado e cientificamente aplicado
já no seminário, onde os futuros
comunicadores devem ter a oportunidade de conhecer
a teoria da comunicação, as técnicas
pertinentes a cada gênero do jornalismo,
as características do rádio, da
televisão e da Internet; o funcionamento
de uma redação de jornal, rádio
ou televisão.
Nada "descomunica" mais que o uso
incorreto dos meios. São chamadas "ruídos
de comunicação" as tentativas
de "quebrar o galho" diante de um microfone
ou perante o teclado do computador na hora de
conduzir uma reflexão pelo rádio
ou de preparar um texto para publicação.
Não se trata do mero ruído físico
dos alto-falantes da igreja que começam
a chiar nas missas de domingo irritando a assembléia
enquanto o Conselho Paroquial não aprova
a aquisição de som mais moderno.
Trata-se de dificultar e até impedir a
comunicação ao se colocar nessa
tarefa a pessoa com a voz errada (para o rádio),
com a imagem "fraca" (para a televisão)
ou com o texto sem conteúdo (nos meios
impressos).
O próprio decreto papal alerta para a
necessidade de se evitar esses "ruídos" de
comunicação ao sugerir que "onde
for necessário, estabeleçam-se
também as estações católicas;
cuide-se, contudo, que suas transmissões
primem pela perfeição e eficácia".
O decreto insiste na necessidade de preparar
os jovens para o uso correto dos meios de comunicação,
ressaltando que isto "requer uma instrução
e um exercício... orientados de acordo
com os princípios da moral cristã,
nas escolas católicas de qualquer grau,
nos seminários e nas reuniões do
apostolado leigo".
1.2 A preparação dos seminaristas
A grade curricular dos seminários católicos,
no Brasil, especialmente na região sudeste,
tem o propósito de preparar o futuro sacerdote "para
ser um educador da fé a serviço
da Igreja, através do estudo sério
e sistemático e da atenção
constantemente voltada para as necessidades dos
outros e para a realidade do mundo em que vivemos",
como defende, por exemplo, o Instituto Teológico
Pio XI, de São Paulo (Alto da Lapa), filiado à Faculdade
de Teologia da Universidade Pontifícia
Salesiana de Roma, fundada em 1931.
Ali o ensino está organizado em torno
de um núcleo central que prevê para
o primeiro ano "a busca de Deus"; para
o segundo, "O mistério de Deus que
se dá às pessoas"; para o
terceiro ano, "O mistério da Igreja
cuja via é o ser humano" e, para
o quarto ano, "O mistério de Deus
e da Igreja prolongado na história do
ser humano".
Ao longo dos quatro anos de preparação
dos seminaristas do Pio XI o núcleo unitário
dos cursos é a fé, entendida como
práxis. Há ênfase na interdisciplinariedade
da grade curricular com o objetivo de tornar
a teologia uma expressão de vida para
todos, conforme dados colhidos no Diretório
de Estudos válido para o ano acadêmico
do Pio XI em 1998.
O manual indica que a reflexão teológica
dos seminaristas, naquela escola, concentra-se
em quatro grandes áreas de estudo: sagrada
escritura, teologia sistemática, vida
cristã e vida pastoral. É nesta última área
que está "comunicação
e catequese", onde se exige monografia de
cunho científico com orientação
do professor e estágio no final do curso.
Por sinal trata-se de um curso aberto a catequistas
e agentes comunitários e não apenas
aos seminaristas do Pio XI.
A grade específica dos seminaristas estabelece,
para o primeiro ano, as seguintes disciplinas:
Introdução à Sagrada Escritura
I (3 créditos), Introdução à Sagrada
Escritura II (2+2 créditos), Livros Históricos
(2), Línguas Bíblicas (4+4), Fenômeno
Religioso (2+2), Teologia Fundamental I - II
(2+2), Moral Fundamental I - II (2+2), História
da Igreja I: Antiga (3), História da Igreja
II: Média (3), Catequese Fundamental (2)
e Teologia Pastoral (2).
Também no primeiro ano o seminarista
do Pio XI tem a opção de cursar
Sociologia da Religião (2) e Psicologia
da Religião (2), participando de exercitações
em pró-seminário (2) e Língua
Portuguesa (3+3), totalizando 25 créditos
no primeiro semestre e 24 créditos no
segundo semestre.
Nos outros três anos do curso de Teologia
os seminaristas continuam se aprofundando em
estudos bíblicos, teologia, vida cristã e
vida pastoral.
Das 50 disciplinas obrigatórias, das
sete opcionais e das quatro exercitações,
a única que tem a ver com os meios de
comunicação é "Pastoral
da Comunicação", no terceiro
ano, valendo 2 créditos (aplicada apenas
no 2º semestre).
A ementa da disciplina trata de Teoria da Comunicação
e Semiótica, Linguagem e suas Funções,
Comunicação Não-verbal,
Problemas Psico-sociológicos da Comunicação
Social, Várias Formas de Comunicação,
Comunicação Social - Caminho de
Educação Integral: Capacidade de
leitura e escuta crítica, Comunicação
Social na Catequese, Comunicação
Social na Liturgia, Análise de Filmes,
Pregação: Teologia da Palavra.
Apesar de única no currículo,
a disciplina apresenta um programa amplo, mas
de difícil aplicação em
apenas um semestre.
Vale ressaltar que em muitos outros seminários
do país a preocupação com
os meios de comunicação é ainda
menor.
Para obter parâmetros de comparação,
após estudar a grade do seminário
da capital do estado, pesquisamos um seminário
do interior, o "Instituto Teológico
Rainha dos Apóstolos", de Marília
- SP, pertencente à Província Eclesiástica
de Botucatu. Ali estudam jovens de todo o interior
de São Paulo: Marília, Botucatu,
Presidente Prudente, Araçatuba, Bauru,
Lins etc.
Dados colhidos no Guia Acadêmico de 1999
revelam que os seminaristas dessa escola contam
com seis professores-doutores, sete professores-mestres,
oito professores licenciados ou especializados
e três professores convidados, os três
com mestrado.
Trata-se, portanto, de uma escola integrada
por um corpo docente de excelente nível
didático.
No primeiro ano os seminaristas estudam Pastoral
Fundamental I e II (2+2 créditos), Grego
Bíblico (2), Introdução à Teologia
(2), Moral Fundamental I e II (4+4), História
de Israel (4), Revelação (4), Introdução
Geral aos Sacramentos (2), Hermenêutica
(3), História da Igreja Antiga (4), Antropologia
Teológica I e II (2+2), Latim (2), Evangelho
de Marcos (2), Liturgia I (2), Teologia Espiritualidade
(3).
Nos outros três anos os alunos continuam
se aprofundando em Patrística, Direito
Canônico, Virtudes Teologais, Pentateuco,
Profetismo, Igreja Medieval, Cartas Paulinas,
Cristologia, Doutrina Social da Igreja, Hebraico,
Eclesiologia, Moral Social, Mariologia, Escatologia,
Ecumenismo, Bioética, Apocalipse etc.
Só na penúltima disciplina, entre
as relacionadas do Seminário de Marília,
aparece "Pastoral e Comunicação",
ministrada nos dois últimos semestres,
com dois créditos.
Cumpridos todo os créditos, o aluno recebe
o título de Bacharel em Teologia.
Infelizmente o Guia Acadêmico do Seminário
de Marília não traz a ementa das
disciplinas. Pelo alto nível do corpo
docente, entretanto, caberia sugerir maior destaque
para a comunicação, entre tantas
disciplinas de aprofundamento teológico.
No anexo deste capítulo incluímos
entrevista com o pesquisador e escritor Frei
Mauro Strabeli, que tem mestrado em Teologia
Bíblica pela Pontifícia Universidade
Gregoriana de Roma e que leciona no Instituto
Teológico "Rainha dos Apóstolos".
Ele reconhece que é preciso preparar melhor
os seminaristas no que se refere ao pleno domínio
dos multimeios de comunicação para
que a Igreja possa levar a mensagem evangélica
a todos os povos com a eficiência, a rapidez
e a qualidade que os novos tempos exigem.
1.3 Proposta
Não se pode esperar que os estudos de
Teologia dos Seminaristas sejam conduzidos de
tal forma que, ao final do curso, recebam dois
diplomas: um de Teólogo e outro de Bacharel
em Comunicação Social.
Mas é louvável esperar que os
seminaristas tenham um preparo mais sólido
na área de comunicação para
que possam usar com bons resultados o potencial
dos meios de comunicação e o potencial
de comunicação existente na própria
Igreja (com seus dogmas, ritos litúrgicos,
festas populares etc.) e na mesma pessoa do sacerdote.
O Padre Antonio Vieira já nos aponta
essa convergência de comunicação
ao nos explicar, no Sermão da Sexagésima,
o funcionamento do discurso religioso que será tanto
mais convincente quanto maior for a coerência
entre o que a pessoa é e o que a pessoa
prega. Não serão os bispos e o
Papa, em si mesmos, verdadeiros ícones
de comunicação? Por ventura o Vigário,
o padre que anima pastorais (na Saúde,
no Trabalho, nos Bairros, na Família,
nas CFBS) não estará sempre denotando
idealismo, Fé, Caridade, Amor ao próximo?...
Não estará pregando o tempo todo
só com sua presença física
nos ambientes, na comunidade?
Alguém muito especial, e muito antes,
já nos alertava para a importância
dessa comunicação não-verbal:
Comportai-vos de tal modo que vendo-vos, saberão
quem Sou!
Então, se não podemos formar teólogos
e jornalistas ao mesmo tempo, certamente poderemos
levar seminaristas para algumas disciplinas dos
cursos universitários de comunicação
social, do mesmo modo que professores católicos
de comunicação devem ser convidados
a dar aulas nos seminários. E ainda é necessário
que os seminaristas possam visitar redações
de jornal, rádio e TV, além de
terem páginas na Internet.
Essa integração entre cursos será duplamente
salutar por aprofundar conhecimentos específicos
numa área que o comunicador católico
precisa - por absoluta exigência do ofício
- dominar com tranqüilidade e por estimular
a socialização do jovem que se
prepara para o sacerdócio.
Do mesmo modo - uma vez que aqui se pretende
sugerir modos e meios de ampliar o poder de comunicação
da Igreja em geral - é interessante que
os párocos e dirigentes paroquiais tenham
a sensibilidade de convocar os especialistas
católicos de sua paróquia a ministrarem
cursos, gratuitamente, de preparação
para os jovens através da Pastoral de
Comunicação, de tal modo que todos
possam perceber a importância de fazer
um programa inteligente e criativo para a Hora
da Ave Maria na emissora da cidade ou de elaborar
pequenos jornais e revistas sobre assuntos da
paróquia, ou escrever colunas nos jornais
sobre temas evangélicos, sobre a visão
social da Igreja a propósito de temas
que estão em debate na comunidade como
desemprego, violência, corrupção
política, poluição ambiental,
excluídos etc.
Tanto os seminários podem melhorar a
qualidade do ensino de comunicação,
como os bispos e párocos podem contar
com profissionais católicos que mais não
fazem simplesmente porque não são
convidados.
2 A utilização dos recursos
"Pregai este Evangelho por cima dos telhados",
pediu Jesus, como que antevendo, dois mil anos à frente,
a paisagem urbana da civilização
tomada por antenas convencionais, antenas parabólicas
e o próprio mundo, hoje conhecido, cercado
por satélites geo-estacionários
que transmitem de tudo, inclusive a palavra de
Deus enunciada por pregadores cristãos,
entre eles leigos, sacerdotes, bispos, o Papa.
O espaço da mídia está aberto à Igreja.
Todos sabem que há um desejo universal
de ouvir - ainda mais neste conturbado final
de milênio - a palavra que orienta, conforta,
tranqüiliza.
E à medida que a Igreja faz desabrochar
os seus talentos na área da comunicação
- certamente movida pelo Espírito Santo
de Deus - ela se surpreende com o retumbante
sucesso da mensagem evangélica.
2.1 Comunicar com alegria
Basta ver as mudanças que os carismáticos
estão provocando dentro da Igreja ao investirem
no poder da comunicação para levar
de forma nova os antigos e eternos mistérios
da Fé Cristã, como faz, por exemplo,
Pe. Marcelo Rossi.
A missa e a música sacra não existiam
antes de Pe. Marcelo? Não existiam os
cantos de louvor, os templos repletos? Não
havia a homilia, os instrumentos de som? Não
havia a meditação, a gestualidade?
Mas esse jovem sacerdote teve a inspiração
de usar seus conhecimentos de Ginástica
Aeróbica para tirar as assembléias,
que lotam os templos, da letargia própria
das celebrações litúrgicas.
As missas de Pe. Marcelo são uma grande
festa em homenagem a um Cristo que prega a alegria
e não a dor; a ressurreição
e não a cruz; a coragem de lutar e não
a mania de se lamentar. É um Cristo que
ouve o pedido da mãe, transformando a água
em vinho para que as bodas tenham a alegria do
bom vinho e não a decepção
dos convidados.
Os anjos sempre existiram, mas foi Pe. Marcelo
que os convocou - com sua música - para
que venham ficar bem perto de nós. São
os Anjos da Fé, os enviados de Deus, que
chegam com a espada desembainhada para dar combate
aos inimigos, às doenças, às
tristezas, às nossas dores.
Pe. Marcelo poderia ter sido apenas mais um
seminarista que se aprofundou nos estudos teológicos,
tendo a fé por pressuposto de sua vida
religiosa. Poderia ter sido apenas um seminarista
que se destacou nos exercícios de aeróbica.
No entanto, da humildade desses exercícios,
tirou a inspiração para fazer como
o salmista: tocai cítaras, alegrai-vos,
cantai hinos em louvor ao senhor, porque ele é o
nosso Deus.
Pe. Marcelo impregna a Igreja do Terceiro Milênio
com a mesma alegria que Francisco de Assis imprimiu à sua
pregação em plena Idade Média.
Embora criticado por seu modo de buscar a espiritualidade,
conduzindo o povo a se mexer enquanto louva a
Deus, Pe. Marcelo cumpre a importante missão
de dar esperança, alegria e paz interior
ao povo. Não a paz do dinheiro, dos bens
materiais, mas a paz da Fé, da confiança
num Deus todo poderoso, capaz de mudar os rumos
da história com a participação
do povo.
Alienação?
E quantos não julgaram alienado o "poverello" de
Assis que levantava a Igreja insubordinando-a
contra a pompa eclesial, a ostentação,
o desprezo aos pobres, o apego ao poder político, à corrupção
e ao dinheiro?
O próprio Cristo não foi desprezado
pelos doutores da lei ao reescrever os ensinamentos
do Antigo Testamento contestando os fundamentos
da lei antiga, pregando já não
o poder de retribuir às injúrias
na base do "olho por olho, dente por dente",
mas, com o perdão, dando a outra face?
Não ensina que todo aquele que for humilhado
será exaltado?
Os especialistas em comunicação
estão estudando e analisando o fenômeno
Marcelo Rossi que se expressa com o corpo interior
nas celebrações litúrgicas.
Durante o 4º Encontro Nacional de Marketing Católico,
em Salvador, em maio deste ano (1999), o publicitário
Mauro Salles, da Agência Salles DMB&B,
disse que o padre Marcelo se mostrou inconformado
com os que pregavam uma religião triste,
os que só falavam em sofrimento. Segundo
ele, este é o mesmo caminho trilhado pelo
Papa João Paulo II há 20 anos.
Mauro Salles atribui a Pe. Marcelo "o encantamento
e o prazer espiritual da prática religiosa",
conforme reportagem de Roldão Arruda,
no Estadão de 20.05.99.
O publicitário apóia até mesmo
o costume que Pe. Marcelo tem de se vestir sempre
com o clergyman (terno preto, marrom ou cinza
e camisa com colarinho especial, redondo). Segundo
ele, os padres devem ter caracterização
própria, diferenciando-se como "produtos" a
exemplo do que fazem os pastores americanos,
sempre vestidos com terno e gravata.
Foi com o Concílio Vaticano II que os
padres "largaram a batina". Acreditava-se
que o uso da batina era tão segregador
quanto rezar a missa em Latim, de costas para
o povo.
Mas alguns exageros do Vaticano II na tese da "inculturação",
isto é, da adaptação do
discurso litúrgico às características
culturais de cada região, estão
sendo revistos. O próprio Papa João
Paulo II mostra o poder de comunicação
de sua imagem, um poder que transcende a fragilidade
física do pontífice porque une
o visual dos paramentos e dos gestos da Igreja
Antiga, a um discurso de alcance social em que
o Sumo Pontífice "puxa a orelha" dos
governantes contra a injusta distribuição
da riqueza global, fonte de todos os males neste
alvorecer do terceiro milênio.
Ainda estudando o fenômeno de comunicação
em Pe. Marcelo Rossi, deve-se levar em conta
sua capacidade de adaptar o seu discurso às
necessidades de seu auditório, valorizando
o papel do receptor da mensagem, conforme ensinado
na Teoria Estética da Recepção
(Jauss) e variando o discurso conforme as características
regionais.
Por isto ao se apresentar em Portugal, para
divulgar seu último CD, Pe. Marcelo introduziu
o "Vira de Jesus" criando uma empatia
com o público português ao adotar
esse ritmo típico da música portuguesa.
Esse recurso de argumentação ilustra
a Teoria da Argumentação de Perelman
no que concerne à caracterização
dos "auditórios" (particular
e universal).
Assim o clip de Pe. Marcelo no Castelo de Óbidos,
gravado pela Rede Globo e exibido em Portugal,
chegou ao pico de 51 pontos de audiência
por estabelecer essa relação de
identificação cultural com o povo
português, assegurando estrondoso sucesso
nas vendas do CD.
E como a Igreja Antiga apropriou-se das festas
pagãs - entre elas a festa do nascimento
do sol invicto - para introduzir as celebrações
cristãs com o Natal de Jesus - luz do
mundo - assim Pe. Marcelo convida ícones
da música brasileira - como Roberto Carlos,
Sérgio Reis, Chitãozinho e Xororó -
para as suas missas, além de não
se recusar a participar de programas populares
de TV como o do próprio "Ratinho",
além de Xuxa, Gugu etc.
O chamado "popstar" da Igreja vendeu
cinco milhões do CD "O Mensageiro
da Solidariedade" já nos primeiros
dias de lançamento em setembro último.
No carnaval, Pe. Marcelo Rossi escandaliza os
tímidos ao tentar "invadir a praia
do profano" com seu Trio Elétrico
de Jesus que arrasta multidões em Santo
Amaro - SP, onde fica o Santuário do Terço
Bizantino.
É um escândalo que não se
justifica se lembrarmos que o carnaval foi introduzido
como período de três dias que precedem
a quaresma. Antigamente era conhecido como entrudo
(de intróito, introdução à quaresma),
período de 45 dias de penitência
em que era proibido comer carne, daí a
palavra latina "carnem levare", isto é,
deixar a carne, italianizada para "carnevale".
A celebração se paganizou e hoje
o que Pe. Marcelo faz é procurar re-cristianizá-la,
usando a alegria dos gestos e da música
não para exaltar o obsceno mas para louvar
o Senhor.
Em Aparecida do Norte, dia 12 de outubro último,
rezando e cantando com Roberto Carlos na Basílica
Nacional, Pe. Marcelo reuniu quase 200 mil fiéis.
Nada menos que 600 mil pessoas assistiram à Missa
de Finados celebrada por Pe. Marcelo - também
com a presença de cantores - no último
dia 2 de novembro, em Santo Amaro.
Como ignorar, então, um fenômeno
assim?
Principalmente, como abrir mão desse
potencial de comunicação - que
são os padres cantores - se a hierarquia
da Igreja contabiliza uma evasão anual
de 600 mil fiéis nas décadas finais
do século XX?
Segundo o sociólogo Ricardo Mariano,
estudioso de religião, hoje 80% da população
brasileira (128 milhões) se diz católica,
mas apenas 20% desse total (25 milhões) é praticante.
(Revista Isto É - 20/10/99).
"Hoje, não basta para os católicos
fazer lobby em Brasília. É preciso
ter capacidade de mobilizar os fiéis",
diz o sociólogo. A revista completa o
pensamento dele: "É isto que Rossi
e Companhia estão fazendo".
2.2 Novos tempos
Pe. Marcelo, Pe. Zezinho, Pe. Zeca, Pe. Jonas
Abib, Pe. Antonio Maria etc., são comunicadores
que a Igreja deve imitar e não criticar
ou combater, porque comunicação
competente é sinônimo de conversão.
O sucesso deles prova a importância da
comunicação profissional na Igreja.
Já não se pode esperar nada de
uma Igreja Medieval que tranca a cultura nos
conventos e se isola nas cortes e no poder temporal.
Os comunicadores cristãos estão
revolucionando o modo de anunciar o Evangelho
partilhando com os jovens a sua mensagem ao invés
de impô-la como nas antigas missões
indígenas.
Vivemos um tempo em que o Papa João Paulo
II conduz a Igreja a praticar aquilo que prega:
o perdão. A Igreja pede perdão,
humildemente, pelo modo violento como se impôs
aos índios da América Latina; aos
sarracenos nas Cruzadas; aos que discordavam
na Inquisição chamada de Santa;
ao silêncio do Vaticano diante do Holocausto
Judeu na II Guerra Mundial. O Papa mostra que
não tem autoridade para perdoar quem não
tem humildade para pedir perdão, aceitando
ser o último e não o primeiro,
como ensinou Jesus.
Como se vê, a Igreja é notícia
porque ela traz o tempo todo, uma boa nova: "Eis
que vos anuncio uma boa notícia: Nasceu,
em Belém, o Salvador", disseram os
anjos aos pastores, naquela noite.
O sucesso de comunicadores como Pe. Marcelo
torna isto evidente.
Em que paróquia os meios de comunicação
negariam espaço aos comunicadores da Igreja
se eles se apresentarem aos meios de comunicação
com projetos competentes?
Segundo o Professor Doutor Muniz Sodré,
especialista em Comunicação da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, durante
palestra aos alunos de Jornalismo da Unesp de
Bauru, em maio de 1998, "uma em cada sete
emissoras de rádio do país tem
programação cedida para as igrejas.
Só a Igreja Universal do Reino de Deus
conta com 18 emissoras de TV".
Segundo o professor "o fascínio
da TV está influindo na imprensa. Até o
século XIX a força da imprensa
era dar visibilidade à coisa pública.
Mas ela vem perdendo essa força. A imprensa
vem se pondo a reboque da TV e do mercado. Hoje,
mais do que nunca, ser bom de comunicação é tornar-se
imagem. É como a resposta que um ministro
deu ao projeto da reforma previdenciária: "o
projeto é bom porque foi bem recebido
pela mídia".
2.3 Cristo: Imagem central
A Igreja não tem apenas uma mensagem
a comunicar. Ela é a própria mensagem. É uma
imagem pública que fala por si mesma há dois
mil anos e que tende a ocupar um espaço
muito maior no terceiro milênio.
A principal imagem da Igreja é Cristo
que viveu o drama engendrado por sua figura mítica:
encarnação, morte e ressurreição,
como ensina André Dabezies em "Jesus
Cristo na Literatura". "Encarnação:
Deus identificou-se com um homem para que os
homens possam levar a vida do filho do Pai, essa
vida de que Jesus deu o exemplo. Morte: Ele viveu
até o fim a contradição
humana, o problema do mal. Ressurreição:
Seu fracasso aparente revela, na verdade, que
a vida e o amor são mais fortes do que
a morte e que todo fracasso, todo sofrimento
podem e devem adquirir sentido e engendrar a
vida".
No entanto, mesmo diante de todo o seu potencial
de comunicação, a Igreja parece
não se dar conta de que os meios trabalham
com imagens e por isto perde oportunidade de
ocupar preciosos espaços, ao produzir
programas de rádio ou de TV de má qualidade,
presos ao amadorismo do passado, por falta de
preparo técnico.
Inculturada, "aggiornada", contextualizada
com as nacionalidades diversas onde opera o discurso
religioso no mundo inteiro, a Igreja deste alvorecer
do terceiro milênio prega que a Teologia
não é o estudo de Deus, mas o estudo
das relações do homem com Deus. É reflexão
crítica da Fé iluminada pela Palavra
de Deus e pelo Magistério da Igreja, buscando
perceber como Deus atua na história. Nessa
reflexão o ponto de partida é a
própria Fé em Jesus Cristo que
revela o plano de Deus. Fé que não é conceito, é prática, é vivência, é experiência
histórica, é opção
de vida.
Se domina tão bem os conceitos filosóficos,
por que a Igreja não haveria de se especializar,
também, no domínio das técnicas
de utilização dos meios de comunicação?
Por que não seguir o exemplo do jovem
Pe. Zeca (Luís Jansen de Mello Neto),
da Igreja da Ressurreição, em Copacabana)
que usa o surf e o rock’n roll como meio de comunicação
com os jovens e até fala gírias?
- Tenho muita preocupação em me
comunicar. A palavra Evangelho significa uma
boa notícia e quando você dá uma
boa notícia, tem que falar com o coração,
com ânimo, conforme declaração
de Pe. Zeca à Edição Histórica
da Revista Manchete, 11/10/97, por ocasião
da visita do papa João Paulo II ao Brasil.
Ninguém ignora que o primeiro passo para
definir um projeto de comunicação é a
definição do público. A
Igreja, especialmente no Brasil, tem esse público.
Pesquisa que o Instituto Vox Populi realizou
entre 22 e 23 de março de 1998, entrevistando
1.998 pessoas entre a população
adulta de todas as regiões brasileiras,
mostrou que 72% dos brasileiros declaram-se católicos,
contra 11% de Evangélicos, 9% sem religião,
3% de Espíritas e 1% de umbandistas. Apenas
1% afirma não crer em Deus.
Os 2 milhões de brasileiros que assistiram à missa
de despedida do Papa João Paulo II, no
aterro do Flamengo, Rio, em 5/10/97, atestam
bem que o público existe e está à espera
de uma comunicação eficiente.
2.4 CEBS e Carismáticos
Se tem imagem, se tem público, se tem
especialistas dispostos a colaborar, por que
a Igreja tropeça na arrancada para a conquista
dos meios de comunicação? Enquanto
os Evangélicos já manejam profissionalmente
a Rede Record de Televisão situada em
3º lugar no ranking nacional e adquirem emissoras
de rádio por todo o país, a Igreja
de 72% dos brasileiros patina para levar ao Brasil
as imagens da Rede Vida de Televisão ou
da TV Canção Nova, enquanto se
limita, no interior, a usar reduzidos minutos
de rádio para o programa da "Ave-Maria",
sempre produzidos na base do amadorismo e da
improvisação, apesar da boa vontade
das pessoas que o fazem.
Pelo menos ao nível das Comunidades Eclesiais
de Base, todavia, surge já a preocupação
de se instalar a maior quantidade possível
de rádios comunitárias para democratizar
a informação e pregar a justiça
social, conforme relata o jornalista católico
Roldão Arruda ao cobrir para o Estadão
de 19/07/97 o encontro nacional das CEBs, em
São Luis - MA, com a participação
de 2.500 delegados representantes de cerca de
70 mil comunidades cristãs.
Utilizar plenamente os recursos técnicos
dos meios de comunicação é um
imperativo no trabalho de pregação
da Igreja. Não para competir com outras
religiões ou para "disputar" fiéis
porque hoje - ao contrário dos tempos
medievais e milenaristas - as pessoas sentem-se
livres para aderir conscientemente a este ou
aquele credo religioso.
Embora mais identificado com a luta social,
os militantes das CEBs concluíram, no
encontro de São Luis, que os carismáticos
estão fazendo um bom trabalho de comunicação
dentro da Igreja, a partir da própria "comunicação
corporal", antigamente considerada alienante
pela esquerda engajada.
Todos sabem, porém, que as tecnologias
presentes nos meios de comunicação
envolvem custos altíssimos. Isto exige
a conscientização de todos para
que a comunidade se mobilize na reunião
de recursos financeiros para produzir, implantar
e manter os projetos de comunicação.
Também neste particular os carismáticos
têm dado exemplo de fidelidade ao preceito
do Dízimo.
3 A expectativa dos leigos
Qual é a Igreja que nos fala neste início
de terceiro milênio? Qual é o público-alvo
que essa Igreja quer atingir?
Quando o Papa João Paulo II veio ao Brasil
em 1980, o Brasil tinha 4,8 milhões de
evangélicos. Dez anos depois o número
subiu para 13,2 milhões, o que significa
um ingresso de 8,4 milhões de novos adeptos
nas denominações evangélicas,
conforme relato de Roldão Arruda no Estadão
de 27.09.97.
Na mesma reportagem o cardeal arcebispo de São
Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, avalia que a mudança
se deve, entre outras, a causas internas, como
o fato da Igreja não ter mudado o suficiente
para atender à feição urbana
do país.
"Há pouco mais de 40 anos, 65% da
população brasileira vivia na zona
rural. Hoje o número fica em torno de
27%. Mas a Igreja ainda se organiza em torno
de paróquias, com uma estrutura de atendimento
e linguagem que remontam à Idade Média,
quando o mundo era o campo", relata Roldão
Arruda.
E acrescenta:
"Outro problema é a falta de párocos.
Em 1970 existia um padre para cada grupo de 7.114
brasileiros, segundo números da Conferência
Geral dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 1995 havia
um para 10.178. Uma das saídas seria dar
maior poder aos leigos nas atividades religiosas.
Mas isto vem ocorrendo de maneira lenta, uma
vez que dentro da Igreja existem divergências
a respeito".
O comunicador e pesquisador católico
refere-se aos dois grupos nitidamente definidos
na Igreja: de um lado os que se alinham a favor
dos mais pobres, apoiando organizações
sociais mais à esquerda, como o Movimento
dos Trabalhadores Sem Terra (MST), e, de outro,
os que acham não ser tarefa da Igreja
envolver-se em questões políticas
e ideológicas.
3.1 O protagonismo do leigo
No que se refere à comunicação,
todavia, está claro que a Igreja precisa
de uns e de outros. Também é verdade
que, apesar das divergências, a participação
do leigo vem crescendo na Igreja depois do Concílio
Vaticano II.
A projeção do leigo como protagonista
da Igreja foi reconhecida explicitamente e proclamada
pelo episcopado latino-americano reunido em Santo
Domingo em 1992. Hoje, o binômio autoridade-obediência,
da Igreja tradicional, deu lugar ao que o Concílio
Vaticano II indica: comunhão-participação.
Na encíclica Lumen Gentium a Igreja se
autodefine como Povo de Deus, o conjunto dos
cristãos que aderiram ao projeto de Deus,
exercendo funções, ministérios
e serviços, cada qual segundo o seu carisma,
todos igualmente importantes, dotados de igual
dignidade, com responsabilidades próprias
na missão comum de anunciar e fazer presente
o Reino de Deus, assim na terra como no céu.
O leigo sabe que a nova Igreja pós-conciliar
procura o diálogo, a participação,
o ecumenismo, o trabalho pastoral. Ao invés
do dogmatismo impositivo que levava ao extermínio
dos "infiéis", hoje há respeito
a todas as formas de religiosidade porque se
entende que quem salva é o próprio
Cristo, não esta ou aquela denominação
religiosa.
O que importa é a antevisão que
Jesus descreve do Juízo Final: "Tive
fome, e me destes de comer..." (Mt 25,34ss).
A Igreja abandona a tentação de
ser a massa e recupera a imagem de fermento e
sal, elementos que dão consistência
e sabor à massa. Dentre a multidão
que forma o povo de Deus, são os leigos
os que estão imersos nas estruturas do
mundo, capazes de transformá-las para
que o Reino se faça presente na história
humana, tornando-se protagonistas do ser Igreja
- protagonismo entendido como missão no
mundo, conforme avalia o estudioso Hélio
Amorim em artigo publicado na Revista "Vida
Pastoral", da Editora Paulus, de novembro
/ dezembro de 1998, dirigida a sacerdotes, a
agentes de pastoral, págs. 25/26, sob
o título "Protagonismo dos Leigos".
O trabalho do leigo em comunhão com a
hierarquia eclesial - aquele trabalho voltado
para o objetivo comum que é divulgar o
Evangelho, não o trabalho de vaidades
pessoais e de grupos que acabam se antagonizando
e dividindo a Igreja - aliado a um eficiente
processo de comunicação tem dado
excelentes resultados.
Bom exemplo é a Igreja de Minas. Em Belo
Horizonte (2 milhões de habitantes) -
considerada uma das mais avançadas dioceses
do país na área de comunicações,
contando com jornal, emissora de rádio
e canal de TV - o número de católicos
mantém-se estável deste 1991.
Pesquisas revelam que também em Minas
a evasão de fiéis foi forte na
década de 80. Cerca de 30% dos católicos
migraram para outras denominações
religiosas, como revela Roldão Arruda
no Estadão de 28.04.1998.
Mas, com a melhoria dos processos de comunicação,
a partir desta década de 90, apenas 19%
dos que saíram ainda não regressaram,
segundo dados levantados pelo Instituto Lumen,
da Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais, a pedido da arquidiocese de
Belo Horizonte.
Com amostragem de mil entrevistados, a pesquisa,
realizada em abril de 1998, apontou que 90% das
pessoas consultadas consideram que a figura do
Papa João Paulo II tem prestígio
além das fronteiras da Igreja Católica.
Segundo esses entrevistados, o Papa deve ser
respeitado pelos esforços que faz a favor
da paz e pela pregação da moral
e ética.
Observa-se, a partir da pesquisa, uma mudança
no comportamento dos fiéis. Eles procuram
conforto espiritual junto aos sacerdotes, diante
das incertezas do final do milênio causadas
pela injustiça social que gera violência,
desemprego, desestruturação da
família, tráfico de drogas, menor
abandonado, subnutrição, fome etc.,
além do individualismo egoísta
que acomete setores mais abastados da população.
Se o próprio Cristo ensinou que não
sobrevive uma casa dividida contra si mesma,
deve-se ressaltar uma característica da
Igreja de Belo Horizonte: Acatado em Roma por
seu trabalho na área da Educação,
o cardeal-arcebispo da capital mineira, D. Serafim
Fernandes de Araújo, é reconhecido,
tanto pelos progressistas da Teologia da Libertação,
quanto pelos conservadores do Movimento Carismático,
por suas posições independentes,
de centro.
Isto mostra que não basta se comunicar
bem. É preciso afinar, unificar o discurso
e haver total cooperação entre
leigos, dirigentes paroquiais sacerdotes e bispos.
3.2 Igreja que se renova
Se o leigo pode ser útil na organização
da contabilidade das paróquias, nas pastorais
da juventude, dos enfermos, da família,
do canto, etc ou nas entidades filantrópicas,
nas CEBs, no Cursilho, no Movimento Carismático
etc certamente será igualmente útil
na Pastoral da Comunicação.
E o primeiro passo da pastoral é buscar
cursos de especialização como os
que a Paulus oferece em S. Paulo para ajudar
os membros dessa pastoral a produzirem projetos
de comunicação em suas comunidades:
pequenos jornais, vídeos populares, rádios
comunitárias, programas de rádio
e TV, páginas na Internet etc.
Esta, portanto, é a Igreja que nos fala:
uma Igreja que está se renovando, que
reconhece suas falhas de comunicação,
mas que parte em busca de soluções,
aproximando-se cada vez mais do povo.
Na Igreja de Santa Terezinha, em Penápolis-SP,
o vigário Pe. Gilberto Moreno, salesiano,
já promove encontros dominicais com os
paroquianos, após a missa, procurando
se inteirar dos problemas das famílias,
tentando ajudar no que for possível, ao
invés de se limitar aos sermões
da missa. Ele também tem feito experiências
bem sucedidas de rezar a missa na rua, no meio
do povo. No último dia 7 de setembro (1999)
ajudou a organizar o Grito dos Excluídos
e chamou os empresários e políticos
da cidade, na Quaresma, para discutir com o Bispo
de Lins, D. Irineu Danelon, o problema do desemprego,
dentro da Campanha da Fraternidade da CNBB, com
o tema "Desempregado por quê?".
Também em Penápolis, cidade fundada
pelos padres franciscanos em 25 de outubro de
1908, o diretor do Seminário local, Frei
Ayrton Grigoleto, galvaniza a assembléia,
nas missas de domingo, com homilias descontraídas,
porém de profunda reflexão sobre
as questões do dia-a-dia. Segundo ele, é importante
que o sacerdote consiga "mexer" com
as pessoas para que, voltando para casa, elas
tenham o que pensar para entender melhor a realidade
e procurar melhorar a vida. Do contrário
a homilia e a missa terão servido apenas
para sair de casa e mostrar roupa bonita, como
se a Igreja fosse um passeio público qualquer.
O vigário de Penápolis, Frei Mauro
Strabelli, é o autor mais editado da Editora
Paulus, com mais de 20 livros publicados, com
programas diários na Rádio Regional
Esperança, da Diocese de Lins, sendo ainda
professor de Teologia em vários seminários
do Estado de S. Paulo. Ele próprio faz
a auto-crítica da Igreja afirmando que
hoje já não basta estudar os recursos
retóricos da oratória sacra. Reconhece,
porém, que é muito penoso para
os velhos sacerdotes mudarem do dia para a noite
seus modos de se comunicarem, pois isto sequer
pareceria autêntico. Entende que cabe aos
jovens a tarefa de se prepararem para os desafios
tecnológicos da comunicação
de massa, tão presentes e atuantes na
vida do homem moderno.
E o que espera o católico dessa Igreja?
Certamente ele espera que ela se comunique melhor,
que não tenha receio de se misturar com
o povo para sentir a sua dor e viver a sua alegria.
O católico conta com uma Igreja presente,
atuante, participante, capaz de liderar o povo
e mostrar uma luz no fim do túnel, neste
vale de lágrimas, que seja uma referência
nas horas difíceis, esclarecendo dúvidas,
orientando, ensinando, tranqüilizando, mostrando
caminhos.
Nas incertezas do novo milênio, o povo
parece procurar uma Igreja - Mãe, protetora,
porto seguro, intercessora, exemplo de fé,
luz da vida. O povo parece querer ver outros
Franciscos de Assis e Santas Claras desabrochando
no meio do povo para reformar e atualizar o discurso
da Igreja.
Naturalmente a interface do povo com a sua Igreja
- qualquer Igreja - passa pela comunicação.
Não sem razão, o arcebispo de
São Paulo, D. Cláudio Hummes, quer
dar maior visibilidade à Igreja Católica.
Convencido de que a estrutura paroquial tornou-se
inadequada para atingir os católicos das
grandes cidades, ele pretende investir mais recursos
em meios de comunicação, como rádio
e TV, e promover manifestações
religiosas com grande participação
popular, conforme entrevista que deu ao Estadão
de 14.08.1998.
- O pluralismo, que é uma característica
da modernidade, exige de nós grande capacidade
de diálogo e esforços para encontrar
novas formas de evangelizar, diz D. Cláudio
na entrevista ao especialista em comunicação
católica, jornalista Roldão Arruda.
Com apenas 84 dias à frente da arquidiocese,
D. Cláudio já se empenhava na reabertura
da Rádio Nove de Julho - AM, de propriedade
da Arquidiocese, lacrada pelo regime militar
em 1973.
Segundo D. Cláudio, "os meios de
comunicação católicos devem
ajudar as pessoas a discutir, compreender e interpretar
a realidade". Porém, ele lembra que
o esforço para dar visibilidade à Igreja
deve ser feito com cuidado: "Nunca devemos
abandonar a doutrina da Igreja e os princípios éticos".
A arquidiocese de S. Paulo é marcada
por uma enorme diversidade de ações
evangelizadoras, como observa Roldão Arruda,
entretanto o arcebispo considera que a Igreja
deve afastar-se de movimentos sociais que incluam
violência ou que tenham conotação
partidária: "As pessoas têm
o direito de se filiar a partidos, mas a Igreja
jamais deve se ligar a qualquer um deles, porque é de
todos", diz, desestimulando qualquer iniciativa
dentro da Igreja destinada a indicar candidatos
para os eleitores católicos nos períodos
eleitorais.
Segundo ele, porém, a Igreja pode e deve
ajudar os grupos sociais a se organizarem para
a defesa de seus direitos contra os abusos do
Estado ou de grupos econômicos: "Trata-se
de um direito fundamental dos cidadãos",
diz, atento às estatísticas da
ONU que apontam para as graves injustiças
sociais do mundo globalizado em que 1,5 bilhão
dos 6 bilhões de habitantes do planeta
(portanto 25%) vivem com menos de US$ 1 por dia.
3.3 Cristão consciente e exigente
No mundo atual o homem tem mais privacidade
e pode exercer com mais tranqüilidade o
livre-arbítrio. O próprio desenvolvimento
da ciência e dos meios de comunicação
despertou a avaliação crítica
do povo, por isto ele quer mais qualidade em
tudo o que consome, inclusive na comunicação
religiosa.
Já não temos necessidade de contestadores
como Karl Marx para quem a religião era
o ópio do povo; Sigmund Freud, que considerava
a fé uma manifestação de
infantilismo; Charles Darwin, que nos ofereceu
um macaco como ancestral do homem; Friederich
Nietsche, que decretou a morte de Deus.
As pessoas optam pela Fé e pela religião
de modo espontâneo, consciente, livre.
Essa característica marcante de nossos
tempos exige, por si só, uma comunicação
mais atraente, mais atualizada, mais competente,
dentro da Igreja.
O próprio sermão de domingo não
pode ser uma fala "descolada" do povo,
do contexto em que o povo vive. Mesmo respeitando
os conteúdos bíblicos, a mensagem
- como toda a missa - deve ser um processo vivo
e dinâmico de comunicação
humana. É isto que o povo quer.
A própria Igreja ensina que "quem
canta reza duas vezes", mas nem sempre a
Pastoral do Canto ensaia as músicas com
a assembléia antes da missa.
Nem sempre a Pastoral da Juventude distribui
para a assembléia o roteiro de suas celebrações
especiais alusivas à Semana Santa, aos
mártires ou às demais festas populares.
Muitas vezes os folhetos distribuídos
contém erros de português ou têm
linhas repetidas, ou estão mal impressos.
Outras vezes os leitores da palavra bíblica
são "pegos a laço" à medida
que chegam no templo. O resultado é que
nem todos estão preparados para ler corretamente
e com dicção clara os trechos do
Antigo e do Novo Testamento, tropeçando
nas palavras de origem hebraica, comendo pontuação,
pulando frases, conseguindo assim chamar a atenção
dos ouvintes para os erros da leitura e não
para o conteúdo da mensagem, da mesma
maneira que, em sentido contrário, nas
propagandas de certos produtos, presta-se mais
atenção na moça bonita que
os anuncia que no produto anunciado.
Em outros casos - conforme entrevistas e observações
deste pesquisador - a própria seqüência
do folheto distribuído nas missa acaba,
após muitos anos de repetição,
tornando-se monótona e enfadonha, daí que
muitos fiéis gostariam de experimentar
outros tipos de folheto. A repetição
de fórmulas prontas acaba fazendo com
que até mesmo orações profundas
e belíssimas como o Credo e o Pai Nosso
sejam repetidas maquinalmente, sem sentido aparente.
Vai da criatividade do celebrante e dos leigos
que organizam a missa introduzir mais seriedade
e criatividade no trato das coisas sagradas como
recomenda o próprio decreto Inter Mirífica
citado no início deste trabalho.
Infelizmente, porém, é preciso
reconhecer que na prática a teoria é outra.
Muitas vezes o padre dirigente tem a melhor das
intenções. Mas acaba enfrentando
a má vontade, quando não a fraqueza
de caráter de alguns leigos que passam
a tentar impor controles em setores da Igreja,
buscando tirar proveito, por vaidade, das posições
de destaque que alcançam na comunidade
a serviço da Igreja, o que caracteriza,
certamente, o grave pecado do orgulho. E isto
se torna um obstáculo intransponível
para uma comunicação dita "redonda",
que deve fluir intensamente entre emissor e receptor.
Pesquisadores da comunicação dentro
da Igreja, como Frei Mauro Strabeli, lembram
que é preciso motivar o povo para uma
oração mais comprometida, mais
ardente, mais assumida:
- A oração é um ato de
fé e de inteligência. Não é um
ato irracional ou intuitivo. Quando dizemos que é um
ato da inteligência, entendemos que a oração é um
ato do ser humano, da pessoa humana. Então,
ela deve expressar-se também como ato
de um ser inteligente, isto é, deve ser
inteligível, compreensível, tem
que ter sentido. Se nossa oração
não tem sentido, se ela é apenas
um amontoado de palavras, suspiros e enlevos
espirituais particulares, ela é muito
alienada. Falta-lhe vida. Rezar orações
melosas e cantar cânticos cheios de emoção
mas vazios de conteúdo, é rezar
e cantar sem inteligência, como adverte
S. Paulo. Não leva a nada, não
edifica a ninguém. Só é compreendida
a oração que nasce da fé,
da vida.
Conclusão
A partir destas constatações podemos
tirar algumas conclusões práticas
como diagnóstico da situação:
1. A Igreja tem e é uma boa imagem de
comunicação
2. A Igreja tem um público amplo e heterogêneo
que espera uma comunicação competente
3. Os seminaristas devem ter acesso às
técnicas utilizadas nos meios de comunicação
4. As paróquias podem organizar melhor
a Pastoral da Comunicação através
de cursos de formação
5. Os leigos precisam colaborar mais, porém
com espírito fraterno, sem querer "lotear
espaços" e criarem, por orgulho,
suas próprias "igrejinhas" dentro
da paróquia.