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Igreja e Comunicação

O que os leigos esperam do comunicador católico

Pedro Celso Campos

" A encíclica Redemptoris missio fala de modernos areópagos que são, hoje, o mundo da ciência, da cultura, dos meios de comunicação; onde se criam as elites intelectuais, os ambientes dos escritores e dos artistas".

João Paulo II

("Cruzando o Limiar da Esperança" - Roma - 1994)

1. Introdução

Este trabalho pretende estudar basicamente, três aspectos: 1- O ensino da comunicação nos seminários que preparam os futuros sacerdotes; 2- A utilização plena dos recursos técnicos e humanos à disposição da Igreja; 3- A expectativa dos leigos em relação ao discurso religioso.

A Igreja Católica é a maior Organização Não Governamental do mundo. É, também, a mais antiga. Talvez, por isto mesmo, a instituição reage com lentidão diante das transformações tecnológicas que têm se acelerado de forma impressionante no século XX. Não se pode negar que há preocupação, visível dentro da Igreja, com a necessidade de se buscar uma comunicação de melhor qualidade com o "auditório universal" (Perelman) representado por diferentes povos e diferentes culturas em todo o mundo.

1.1 O Decreto Inter-Mirífica

O Decreto "Inter-Mirífica", de 4/12/1963, emanado do Concílio Vaticano II, dirigido aos meios de comunicação social, é um dos tantos exemplos de empenho da Igreja nessa área.

Depois de alertar para o uso dos meios de comunicação a favor dos desígnios de Deus e não para desinformar e corromper o povo, o Decreto destaca que "compete à Igreja o direito nativo de empregar e possuir toda sorte destes instrumentos enquanto necessários e úteis à educação cristã e a toda a sua obra de salvação das almas".

Está claro que o papa e os padres conciliares estão recomendando o pleno uso dos meios de comunicação, na certeza de que boa parte desse espaço será ocupada a favor do mal se não for plenamente usada para o bem.

Mas, como usar os meios sem conhecer suas técnicas, seu alcance, suas características e o potencial de cada um?

Não se pode mais descuidar do ensino da comunicação na vã esperança de que "com o tempo" o novo sacerdote vá "adquirindo prática" no relacionamento com os meios.

O ensino da comunicação é tarefa a ser levada com extrema seriedade nos centros de formação religiosa porque o instrumento da pregação do Evangelho é a comunicação. A essência mesma desse anúncio está centrada na capacidade de transmitir, com clareza e objetividade, os ensinamentos de Cristo.

"Que a comunicação seja sempre verdadeira, íntegra, honesta e equilibrada, observando as leis morais, a dignidade e os legítimos direitos do homem, tanto na busca das notícias, quanto na sua divulgação", recomenda o Decreto Inter-Mirífica, apresentando um programa ético para os comunicadores do mundo inteiro.

O documento também orienta os comunicadores a tratarem com o devido respeito os assuntos religiosos e estimula pastores e leigos a se apressarem na tarefa de conhecer melhor as técnicas usadas nos meios de comunicação: "...Os Sagrados Pastores apressem-se em cumprir seu dever, intimamente conexo com seu ofício ordinário de pregar; também os leigos, que participam no emprego destes meios, animem-se em dar testemunho de Cristo, particularmente desempenhando com competência e espírito apostólico as tarefas próprias a cada um, e até, naquilo que lhes toca, com as possibilidades da técnica, da economia, da cultura e da arte, prestem ajuda direta à ação pastoral da Igreja".

Naturalmente não se pode esperar essa competência no uso dos meios se o ensino da comunicação não for planejado e cientificamente aplicado já no seminário, onde os futuros comunicadores devem ter a oportunidade de conhecer a teoria da comunicação, as técnicas pertinentes a cada gênero do jornalismo, as características do rádio, da televisão e da Internet; o funcionamento de uma redação de jornal, rádio ou televisão.

Nada "descomunica" mais que o uso incorreto dos meios. São chamadas "ruídos de comunicação" as tentativas de "quebrar o galho" diante de um microfone ou perante o teclado do computador na hora de conduzir uma reflexão pelo rádio ou de preparar um texto para publicação. Não se trata do mero ruído físico dos alto-falantes da igreja que começam a chiar nas missas de domingo irritando a assembléia enquanto o Conselho Paroquial não aprova a aquisição de som mais moderno. Trata-se de dificultar e até impedir a comunicação ao se colocar nessa tarefa a pessoa com a voz errada (para o rádio), com a imagem "fraca" (para a televisão) ou com o texto sem conteúdo (nos meios impressos).

O próprio decreto papal alerta para a necessidade de se evitar esses "ruídos" de comunicação ao sugerir que "onde for necessário, estabeleçam-se também as estações católicas; cuide-se, contudo, que suas transmissões primem pela perfeição e eficácia".

O decreto insiste na necessidade de preparar os jovens para o uso correto dos meios de comunicação, ressaltando que isto "requer uma instrução e um exercício... orientados de acordo com os princípios da moral cristã, nas escolas católicas de qualquer grau, nos seminários e nas reuniões do apostolado leigo".

1.2 A preparação dos seminaristas

A grade curricular dos seminários católicos, no Brasil, especialmente na região sudeste, tem o propósito de preparar o futuro sacerdote "para ser um educador da fé a serviço da Igreja, através do estudo sério e sistemático e da atenção constantemente voltada para as necessidades dos outros e para a realidade do mundo em que vivemos", como defende, por exemplo, o Instituto Teológico Pio XI, de São Paulo (Alto da Lapa), filiado à Faculdade de Teologia da Universidade Pontifícia Salesiana de Roma, fundada em 1931.

Ali o ensino está organizado em torno de um núcleo central que prevê para o primeiro ano "a busca de Deus"; para o segundo, "O mistério de Deus que se dá às pessoas"; para o terceiro ano, "O mistério da Igreja cuja via é o ser humano" e, para o quarto ano, "O mistério de Deus e da Igreja prolongado na história do ser humano".

Ao longo dos quatro anos de preparação dos seminaristas do Pio XI o núcleo unitário dos cursos é a fé, entendida como práxis. Há ênfase na interdisciplinariedade da grade curricular com o objetivo de tornar a teologia uma expressão de vida para todos, conforme dados colhidos no Diretório de Estudos válido para o ano acadêmico do Pio XI em 1998.

O manual indica que a reflexão teológica dos seminaristas, naquela escola, concentra-se em quatro grandes áreas de estudo: sagrada escritura, teologia sistemática, vida cristã e vida pastoral. É nesta última área que está "comunicação e catequese", onde se exige monografia de cunho científico com orientação do professor e estágio no final do curso. Por sinal trata-se de um curso aberto a catequistas e agentes comunitários e não apenas aos seminaristas do Pio XI.

A grade específica dos seminaristas estabelece, para o primeiro ano, as seguintes disciplinas: Introdução à Sagrada Escritura I (3 créditos), Introdução à Sagrada Escritura II (2+2 créditos), Livros Históricos (2), Línguas Bíblicas (4+4), Fenômeno Religioso (2+2), Teologia Fundamental I - II (2+2), Moral Fundamental I - II (2+2), História da Igreja I: Antiga (3), História da Igreja II: Média (3), Catequese Fundamental (2) e Teologia Pastoral (2).

Também no primeiro ano o seminarista do Pio XI tem a opção de cursar Sociologia da Religião (2) e Psicologia da Religião (2), participando de exercitações em pró-seminário (2) e Língua Portuguesa (3+3), totalizando 25 créditos no primeiro semestre e 24 créditos no segundo semestre.

Nos outros três anos do curso de Teologia os seminaristas continuam se aprofundando em estudos bíblicos, teologia, vida cristã e vida pastoral.

Das 50 disciplinas obrigatórias, das sete opcionais e das quatro exercitações, a única que tem a ver com os meios de comunicação é "Pastoral da Comunicação", no terceiro ano, valendo 2 créditos (aplicada apenas no 2º semestre).

A ementa da disciplina trata de Teoria da Comunicação e Semiótica, Linguagem e suas Funções, Comunicação Não-verbal, Problemas Psico-sociológicos da Comunicação Social, Várias Formas de Comunicação, Comunicação Social - Caminho de Educação Integral: Capacidade de leitura e escuta crítica, Comunicação Social na Catequese, Comunicação Social na Liturgia, Análise de Filmes, Pregação: Teologia da Palavra.

Apesar de única no currículo, a disciplina apresenta um programa amplo, mas de difícil aplicação em apenas um semestre.

Vale ressaltar que em muitos outros seminários do país a preocupação com os meios de comunicação é ainda menor.

Para obter parâmetros de comparação, após estudar a grade do seminário da capital do estado, pesquisamos um seminário do interior, o "Instituto Teológico Rainha dos Apóstolos", de Marília - SP, pertencente à Província Eclesiástica de Botucatu. Ali estudam jovens de todo o interior de São Paulo: Marília, Botucatu, Presidente Prudente, Araçatuba, Bauru, Lins etc.

Dados colhidos no Guia Acadêmico de 1999 revelam que os seminaristas dessa escola contam com seis professores-doutores, sete professores-mestres, oito professores licenciados ou especializados e três professores convidados, os três com mestrado.

Trata-se, portanto, de uma escola integrada por um corpo docente de excelente nível didático.

No primeiro ano os seminaristas estudam Pastoral Fundamental I e II (2+2 créditos), Grego Bíblico (2), Introdução à Teologia (2), Moral Fundamental I e II (4+4), História de Israel (4), Revelação (4), Introdução Geral aos Sacramentos (2), Hermenêutica (3), História da Igreja Antiga (4), Antropologia Teológica I e II (2+2), Latim (2), Evangelho de Marcos (2), Liturgia I (2), Teologia Espiritualidade (3).

Nos outros três anos os alunos continuam se aprofundando em Patrística, Direito Canônico, Virtudes Teologais, Pentateuco, Profetismo, Igreja Medieval, Cartas Paulinas, Cristologia, Doutrina Social da Igreja, Hebraico, Eclesiologia, Moral Social, Mariologia, Escatologia, Ecumenismo, Bioética, Apocalipse etc.

Só na penúltima disciplina, entre as relacionadas do Seminário de Marília, aparece "Pastoral e Comunicação", ministrada nos dois últimos semestres, com dois créditos.

Cumpridos todo os créditos, o aluno recebe o título de Bacharel em Teologia.

Infelizmente o Guia Acadêmico do Seminário de Marília não traz a ementa das disciplinas. Pelo alto nível do corpo docente, entretanto, caberia sugerir maior destaque para a comunicação, entre tantas disciplinas de aprofundamento teológico.

No anexo deste capítulo incluímos entrevista com o pesquisador e escritor Frei Mauro Strabeli, que tem mestrado em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e que leciona no Instituto Teológico "Rainha dos Apóstolos". Ele reconhece que é preciso preparar melhor os seminaristas no que se refere ao pleno domínio dos multimeios de comunicação para que a Igreja possa levar a mensagem evangélica a todos os povos com a eficiência, a rapidez e a qualidade que os novos tempos exigem.

1.3 Proposta

Não se pode esperar que os estudos de Teologia dos Seminaristas sejam conduzidos de tal forma que, ao final do curso, recebam dois diplomas: um de Teólogo e outro de Bacharel em Comunicação Social.

Mas é louvável esperar que os seminaristas tenham um preparo mais sólido na área de comunicação para que possam usar com bons resultados o potencial dos meios de comunicação e o potencial de comunicação existente na própria Igreja (com seus dogmas, ritos litúrgicos, festas populares etc.) e na mesma pessoa do sacerdote.

O Padre Antonio Vieira já nos aponta essa convergência de comunicação ao nos explicar, no Sermão da Sexagésima, o funcionamento do discurso religioso que será tanto mais convincente quanto maior for a coerência entre o que a pessoa é e o que a pessoa prega. Não serão os bispos e o Papa, em si mesmos, verdadeiros ícones de comunicação? Por ventura o Vigário, o padre que anima pastorais (na Saúde, no Trabalho, nos Bairros, na Família, nas CFBS) não estará sempre denotando idealismo, Fé, Caridade, Amor ao próximo?... Não estará pregando o tempo todo só com sua presença física nos ambientes, na comunidade?

Alguém muito especial, e muito antes, já nos alertava para a importância dessa comunicação não-verbal:

Comportai-vos de tal modo que vendo-vos, saberão quem Sou!

Então, se não podemos formar teólogos e jornalistas ao mesmo tempo, certamente poderemos levar seminaristas para algumas disciplinas dos cursos universitários de comunicação social, do mesmo modo que professores católicos de comunicação devem ser convidados a dar aulas nos seminários. E ainda é necessário que os seminaristas possam visitar redações de jornal, rádio e TV, além de terem páginas na Internet.

Essa integração entre cursos será duplamente salutar por aprofundar conhecimentos específicos numa área que o comunicador católico precisa - por absoluta exigência do ofício - dominar com tranqüilidade e por estimular a socialização do jovem que se prepara para o sacerdócio.

Do mesmo modo - uma vez que aqui se pretende sugerir modos e meios de ampliar o poder de comunicação da Igreja em geral - é interessante que os párocos e dirigentes paroquiais tenham a sensibilidade de convocar os especialistas católicos de sua paróquia a ministrarem cursos, gratuitamente, de preparação para os jovens através da Pastoral de Comunicação, de tal modo que todos possam perceber a importância de fazer um programa inteligente e criativo para a Hora da Ave Maria na emissora da cidade ou de elaborar pequenos jornais e revistas sobre assuntos da paróquia, ou escrever colunas nos jornais sobre temas evangélicos, sobre a visão social da Igreja a propósito de temas que estão em debate na comunidade como desemprego, violência, corrupção política, poluição ambiental, excluídos etc.

Tanto os seminários podem melhorar a qualidade do ensino de comunicação, como os bispos e párocos podem contar com profissionais católicos que mais não fazem simplesmente porque não são convidados.

2 A utilização dos recursos

"Pregai este Evangelho por cima dos telhados", pediu Jesus, como que antevendo, dois mil anos à frente, a paisagem urbana da civilização tomada por antenas convencionais, antenas parabólicas e o próprio mundo, hoje conhecido, cercado por satélites geo-estacionários que transmitem de tudo, inclusive a palavra de Deus enunciada por pregadores cristãos, entre eles leigos, sacerdotes, bispos, o Papa.

O espaço da mídia está aberto à Igreja. Todos sabem que há um desejo universal de ouvir - ainda mais neste conturbado final de milênio - a palavra que orienta, conforta, tranqüiliza.

E à medida que a Igreja faz desabrochar os seus talentos na área da comunicação - certamente movida pelo Espírito Santo de Deus - ela se surpreende com o retumbante sucesso da mensagem evangélica.

2.1 Comunicar com alegria

Basta ver as mudanças que os carismáticos estão provocando dentro da Igreja ao investirem no poder da comunicação para levar de forma nova os antigos e eternos mistérios da Fé Cristã, como faz, por exemplo, Pe. Marcelo Rossi.

A missa e a música sacra não existiam antes de Pe. Marcelo? Não existiam os cantos de louvor, os templos repletos? Não havia a homilia, os instrumentos de som? Não havia a meditação, a gestualidade?

Mas esse jovem sacerdote teve a inspiração de usar seus conhecimentos de Ginástica Aeróbica para tirar as assembléias, que lotam os templos, da letargia própria das celebrações litúrgicas.

As missas de Pe. Marcelo são uma grande festa em homenagem a um Cristo que prega a alegria e não a dor; a ressurreição e não a cruz; a coragem de lutar e não a mania de se lamentar. É um Cristo que ouve o pedido da mãe, transformando a água em vinho para que as bodas tenham a alegria do bom vinho e não a decepção dos convidados.

Os anjos sempre existiram, mas foi Pe. Marcelo que os convocou - com sua música - para que venham ficar bem perto de nós. São os Anjos da Fé, os enviados de Deus, que chegam com a espada desembainhada para dar combate aos inimigos, às doenças, às tristezas, às nossas dores.

Pe. Marcelo poderia ter sido apenas mais um seminarista que se aprofundou nos estudos teológicos, tendo a fé por pressuposto de sua vida religiosa. Poderia ter sido apenas um seminarista que se destacou nos exercícios de aeróbica. No entanto, da humildade desses exercícios, tirou a inspiração para fazer como o salmista: tocai cítaras, alegrai-vos, cantai hinos em louvor ao senhor, porque ele é o nosso Deus.

Pe. Marcelo impregna a Igreja do Terceiro Milênio com a mesma alegria que Francisco de Assis imprimiu à sua pregação em plena Idade Média.

Embora criticado por seu modo de buscar a espiritualidade, conduzindo o povo a se mexer enquanto louva a Deus, Pe. Marcelo cumpre a importante missão de dar esperança, alegria e paz interior ao povo. Não a paz do dinheiro, dos bens materiais, mas a paz da Fé, da confiança num Deus todo poderoso, capaz de mudar os rumos da história com a participação do povo.

Alienação?

E quantos não julgaram alienado o "poverello" de Assis que levantava a Igreja insubordinando-a contra a pompa eclesial, a ostentação, o desprezo aos pobres, o apego ao poder político, à corrupção e ao dinheiro?

O próprio Cristo não foi desprezado pelos doutores da lei ao reescrever os ensinamentos do Antigo Testamento contestando os fundamentos da lei antiga, pregando já não o poder de retribuir às injúrias na base do "olho por olho, dente por dente", mas, com o perdão, dando a outra face? Não ensina que todo aquele que for humilhado será exaltado?

Os especialistas em comunicação estão estudando e analisando o fenômeno Marcelo Rossi que se expressa com o corpo interior nas celebrações litúrgicas. Durante o 4º Encontro Nacional de Marketing Católico, em Salvador, em maio deste ano (1999), o publicitário Mauro Salles, da Agência Salles DMB&B, disse que o padre Marcelo se mostrou inconformado com os que pregavam uma religião triste, os que só falavam em sofrimento. Segundo ele, este é o mesmo caminho trilhado pelo Papa João Paulo II há 20 anos.

Mauro Salles atribui a Pe. Marcelo "o encantamento e o prazer espiritual da prática religiosa", conforme reportagem de Roldão Arruda, no Estadão de 20.05.99.

O publicitário apóia até mesmo o costume que Pe. Marcelo tem de se vestir sempre com o clergyman (terno preto, marrom ou cinza e camisa com colarinho especial, redondo). Segundo ele, os padres devem ter caracterização própria, diferenciando-se como "produtos" a exemplo do que fazem os pastores americanos, sempre vestidos com terno e gravata.

Foi com o Concílio Vaticano II que os padres "largaram a batina". Acreditava-se que o uso da batina era tão segregador quanto rezar a missa em Latim, de costas para o povo.

Mas alguns exageros do Vaticano II na tese da "inculturação", isto é, da adaptação do discurso litúrgico às características culturais de cada região, estão sendo revistos. O próprio Papa João Paulo II mostra o poder de comunicação de sua imagem, um poder que transcende a fragilidade física do pontífice porque une o visual dos paramentos e dos gestos da Igreja Antiga, a um discurso de alcance social em que o Sumo Pontífice "puxa a orelha" dos governantes contra a injusta distribuição da riqueza global, fonte de todos os males neste alvorecer do terceiro milênio.

Ainda estudando o fenômeno de comunicação em Pe. Marcelo Rossi, deve-se levar em conta sua capacidade de adaptar o seu discurso às necessidades de seu auditório, valorizando o papel do receptor da mensagem, conforme ensinado na Teoria Estética da Recepção (Jauss) e variando o discurso conforme as características regionais.

Por isto ao se apresentar em Portugal, para divulgar seu último CD, Pe. Marcelo introduziu o "Vira de Jesus" criando uma empatia com o público português ao adotar esse ritmo típico da música portuguesa. Esse recurso de argumentação ilustra a Teoria da Argumentação de Perelman no que concerne à caracterização dos "auditórios" (particular e universal).

Assim o clip de Pe. Marcelo no Castelo de Óbidos, gravado pela Rede Globo e exibido em Portugal, chegou ao pico de 51 pontos de audiência por estabelecer essa relação de identificação cultural com o povo português, assegurando estrondoso sucesso nas vendas do CD.

E como a Igreja Antiga apropriou-se das festas pagãs - entre elas a festa do nascimento do sol invicto - para introduzir as celebrações cristãs com o Natal de Jesus - luz do mundo - assim Pe. Marcelo convida ícones da música brasileira - como Roberto Carlos, Sérgio Reis, Chitãozinho e Xororó - para as suas missas, além de não se recusar a participar de programas populares de TV como o do próprio "Ratinho", além de Xuxa, Gugu etc.

O chamado "popstar" da Igreja vendeu cinco milhões do CD "O Mensageiro da Solidariedade" já nos primeiros dias de lançamento em setembro último.

No carnaval, Pe. Marcelo Rossi escandaliza os tímidos ao tentar "invadir a praia do profano" com seu Trio Elétrico de Jesus que arrasta multidões em Santo Amaro - SP, onde fica o Santuário do Terço Bizantino.

É um escândalo que não se justifica se lembrarmos que o carnaval foi introduzido como período de três dias que precedem a quaresma. Antigamente era conhecido como entrudo (de intróito, introdução à quaresma), período de 45 dias de penitência em que era proibido comer carne, daí a palavra latina "carnem levare", isto é, deixar a carne, italianizada para "carnevale". A celebração se paganizou e hoje o que Pe. Marcelo faz é procurar re-cristianizá-la, usando a alegria dos gestos e da música não para exaltar o obsceno mas para louvar o Senhor.

Em Aparecida do Norte, dia 12 de outubro último, rezando e cantando com Roberto Carlos na Basílica Nacional, Pe. Marcelo reuniu quase 200 mil fiéis. Nada menos que 600 mil pessoas assistiram à Missa de Finados celebrada por Pe. Marcelo - também com a presença de cantores - no último dia 2 de novembro, em Santo Amaro.

Como ignorar, então, um fenômeno assim?

Principalmente, como abrir mão desse potencial de comunicação - que são os padres cantores - se a hierarquia da Igreja contabiliza uma evasão anual de 600 mil fiéis nas décadas finais do século XX?

Segundo o sociólogo Ricardo Mariano, estudioso de religião, hoje 80% da população brasileira (128 milhões) se diz católica, mas apenas 20% desse total (25 milhões) é praticante. (Revista Isto É - 20/10/99).

"Hoje, não basta para os católicos fazer lobby em Brasília. É preciso ter capacidade de mobilizar os fiéis", diz o sociólogo. A revista completa o pensamento dele: "É isto que Rossi e Companhia estão fazendo".

2.2 Novos tempos

Pe. Marcelo, Pe. Zezinho, Pe. Zeca, Pe. Jonas Abib, Pe. Antonio Maria etc., são comunicadores que a Igreja deve imitar e não criticar ou combater, porque comunicação competente é sinônimo de conversão. O sucesso deles prova a importância da comunicação profissional na Igreja.

Já não se pode esperar nada de uma Igreja Medieval que tranca a cultura nos conventos e se isola nas cortes e no poder temporal.

Os comunicadores cristãos estão revolucionando o modo de anunciar o Evangelho partilhando com os jovens a sua mensagem ao invés de impô-la como nas antigas missões indígenas.

Vivemos um tempo em que o Papa João Paulo II conduz a Igreja a praticar aquilo que prega: o perdão. A Igreja pede perdão, humildemente, pelo modo violento como se impôs aos índios da América Latina; aos sarracenos nas Cruzadas; aos que discordavam na Inquisição chamada de Santa; ao silêncio do Vaticano diante do Holocausto Judeu na II Guerra Mundial. O Papa mostra que não tem autoridade para perdoar quem não tem humildade para pedir perdão, aceitando ser o último e não o primeiro, como ensinou Jesus.

Como se vê, a Igreja é notícia porque ela traz o tempo todo, uma boa nova: "Eis que vos anuncio uma boa notícia: Nasceu, em Belém, o Salvador", disseram os anjos aos pastores, naquela noite.

O sucesso de comunicadores como Pe. Marcelo torna isto evidente.

Em que paróquia os meios de comunicação negariam espaço aos comunicadores da Igreja se eles se apresentarem aos meios de comunicação com projetos competentes?

Segundo o Professor Doutor Muniz Sodré, especialista em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, durante palestra aos alunos de Jornalismo da Unesp de Bauru, em maio de 1998, "uma em cada sete emissoras de rádio do país tem programação cedida para as igrejas. Só a Igreja Universal do Reino de Deus conta com 18 emissoras de TV".

Segundo o professor "o fascínio da TV está influindo na imprensa. Até o século XIX a força da imprensa era dar visibilidade à coisa pública. Mas ela vem perdendo essa força. A imprensa vem se pondo a reboque da TV e do mercado. Hoje, mais do que nunca, ser bom de comunicação é tornar-se imagem. É como a resposta que um ministro deu ao projeto da reforma previdenciária: "o projeto é bom porque foi bem recebido pela mídia".

2.3 Cristo: Imagem central

A Igreja não tem apenas uma mensagem a comunicar. Ela é a própria mensagem. É uma imagem pública que fala por si mesma há dois mil anos e que tende a ocupar um espaço muito maior no terceiro milênio.

A principal imagem da Igreja é Cristo que viveu o drama engendrado por sua figura mítica: encarnação, morte e ressurreição, como ensina André Dabezies em "Jesus Cristo na Literatura". "Encarnação: Deus identificou-se com um homem para que os homens possam levar a vida do filho do Pai, essa vida de que Jesus deu o exemplo. Morte: Ele viveu até o fim a contradição humana, o problema do mal. Ressurreição: Seu fracasso aparente revela, na verdade, que a vida e o amor são mais fortes do que a morte e que todo fracasso, todo sofrimento podem e devem adquirir sentido e engendrar a vida".

No entanto, mesmo diante de todo o seu potencial de comunicação, a Igreja parece não se dar conta de que os meios trabalham com imagens e por isto perde oportunidade de ocupar preciosos espaços, ao produzir programas de rádio ou de TV de má qualidade, presos ao amadorismo do passado, por falta de preparo técnico.

Inculturada, "aggiornada", contextualizada com as nacionalidades diversas onde opera o discurso religioso no mundo inteiro, a Igreja deste alvorecer do terceiro milênio prega que a Teologia não é o estudo de Deus, mas o estudo das relações do homem com Deus. É reflexão crítica da Fé iluminada pela Palavra de Deus e pelo Magistério da Igreja, buscando perceber como Deus atua na história. Nessa reflexão o ponto de partida é a própria Fé em Jesus Cristo que revela o plano de Deus. Fé que não é conceito, é prática, é vivência, é experiência histórica, é opção de vida.

Se domina tão bem os conceitos filosóficos, por que a Igreja não haveria de se especializar, também, no domínio das técnicas de utilização dos meios de comunicação? Por que não seguir o exemplo do jovem Pe. Zeca (Luís Jansen de Mello Neto), da Igreja da Ressurreição, em Copacabana) que usa o surf e o rock’n roll como meio de comunicação com os jovens e até fala gírias?

- Tenho muita preocupação em me comunicar. A palavra Evangelho significa uma boa notícia e quando você dá uma boa notícia, tem que falar com o coração, com ânimo, conforme declaração de Pe. Zeca à Edição Histórica da Revista Manchete, 11/10/97, por ocasião da visita do papa João Paulo II ao Brasil.

Ninguém ignora que o primeiro passo para definir um projeto de comunicação é a definição do público. A Igreja, especialmente no Brasil, tem esse público. Pesquisa que o Instituto Vox Populi realizou entre 22 e 23 de março de 1998, entrevistando 1.998 pessoas entre a população adulta de todas as regiões brasileiras, mostrou que 72% dos brasileiros declaram-se católicos, contra 11% de Evangélicos, 9% sem religião, 3% de Espíritas e 1% de umbandistas. Apenas 1% afirma não crer em Deus.

Os 2 milhões de brasileiros que assistiram à missa de despedida do Papa João Paulo II, no aterro do Flamengo, Rio, em 5/10/97, atestam bem que o público existe e está à espera de uma comunicação eficiente.

2.4 CEBS e Carismáticos

Se tem imagem, se tem público, se tem especialistas dispostos a colaborar, por que a Igreja tropeça na arrancada para a conquista dos meios de comunicação? Enquanto os Evangélicos já manejam profissionalmente a Rede Record de Televisão situada em 3º lugar no ranking nacional e adquirem emissoras de rádio por todo o país, a Igreja de 72% dos brasileiros patina para levar ao Brasil as imagens da Rede Vida de Televisão ou da TV Canção Nova, enquanto se limita, no interior, a usar reduzidos minutos de rádio para o programa da "Ave-Maria", sempre produzidos na base do amadorismo e da improvisação, apesar da boa vontade das pessoas que o fazem.

Pelo menos ao nível das Comunidades Eclesiais de Base, todavia, surge já a preocupação de se instalar a maior quantidade possível de rádios comunitárias para democratizar a informação e pregar a justiça social, conforme relata o jornalista católico Roldão Arruda ao cobrir para o Estadão de 19/07/97 o encontro nacional das CEBs, em São Luis - MA, com a participação de 2.500 delegados representantes de cerca de 70 mil comunidades cristãs.

Utilizar plenamente os recursos técnicos dos meios de comunicação é um imperativo no trabalho de pregação da Igreja. Não para competir com outras religiões ou para "disputar" fiéis porque hoje - ao contrário dos tempos medievais e milenaristas - as pessoas sentem-se livres para aderir conscientemente a este ou aquele credo religioso.

Embora mais identificado com a luta social, os militantes das CEBs concluíram, no encontro de São Luis, que os carismáticos estão fazendo um bom trabalho de comunicação dentro da Igreja, a partir da própria "comunicação corporal", antigamente considerada alienante pela esquerda engajada.

Todos sabem, porém, que as tecnologias presentes nos meios de comunicação envolvem custos altíssimos. Isto exige a conscientização de todos para que a comunidade se mobilize na reunião de recursos financeiros para produzir, implantar e manter os projetos de comunicação. Também neste particular os carismáticos têm dado exemplo de fidelidade ao preceito do Dízimo.

3 A expectativa dos leigos

Qual é a Igreja que nos fala neste início de terceiro milênio? Qual é o público-alvo que essa Igreja quer atingir?

Quando o Papa João Paulo II veio ao Brasil em 1980, o Brasil tinha 4,8 milhões de evangélicos. Dez anos depois o número subiu para 13,2 milhões, o que significa um ingresso de 8,4 milhões de novos adeptos nas denominações evangélicas, conforme relato de Roldão Arruda no Estadão de 27.09.97.

Na mesma reportagem o cardeal arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, avalia que a mudança se deve, entre outras, a causas internas, como o fato da Igreja não ter mudado o suficiente para atender à feição urbana do país.

"Há pouco mais de 40 anos, 65% da população brasileira vivia na zona rural. Hoje o número fica em torno de 27%. Mas a Igreja ainda se organiza em torno de paróquias, com uma estrutura de atendimento e linguagem que remontam à Idade Média, quando o mundo era o campo", relata Roldão Arruda.

E acrescenta:

"Outro problema é a falta de párocos. Em 1970 existia um padre para cada grupo de 7.114 brasileiros, segundo números da Conferência Geral dos Bispos do Brasil (CNBB). Em 1995 havia um para 10.178. Uma das saídas seria dar maior poder aos leigos nas atividades religiosas. Mas isto vem ocorrendo de maneira lenta, uma vez que dentro da Igreja existem divergências a respeito".

O comunicador e pesquisador católico refere-se aos dois grupos nitidamente definidos na Igreja: de um lado os que se alinham a favor dos mais pobres, apoiando organizações sociais mais à esquerda, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), e, de outro, os que acham não ser tarefa da Igreja envolver-se em questões políticas e ideológicas.

3.1 O protagonismo do leigo

No que se refere à comunicação, todavia, está claro que a Igreja precisa de uns e de outros. Também é verdade que, apesar das divergências, a participação do leigo vem crescendo na Igreja depois do Concílio Vaticano II.

A projeção do leigo como protagonista da Igreja foi reconhecida explicitamente e proclamada pelo episcopado latino-americano reunido em Santo Domingo em 1992. Hoje, o binômio autoridade-obediência, da Igreja tradicional, deu lugar ao que o Concílio Vaticano II indica: comunhão-participação.

Na encíclica Lumen Gentium a Igreja se autodefine como Povo de Deus, o conjunto dos cristãos que aderiram ao projeto de Deus, exercendo funções, ministérios e serviços, cada qual segundo o seu carisma, todos igualmente importantes, dotados de igual dignidade, com responsabilidades próprias na missão comum de anunciar e fazer presente o Reino de Deus, assim na terra como no céu.

O leigo sabe que a nova Igreja pós-conciliar procura o diálogo, a participação, o ecumenismo, o trabalho pastoral. Ao invés do dogmatismo impositivo que levava ao extermínio dos "infiéis", hoje há respeito a todas as formas de religiosidade porque se entende que quem salva é o próprio Cristo, não esta ou aquela denominação religiosa.

O que importa é a antevisão que Jesus descreve do Juízo Final: "Tive fome, e me destes de comer..." (Mt 25,34ss). A Igreja abandona a tentação de ser a massa e recupera a imagem de fermento e sal, elementos que dão consistência e sabor à massa. Dentre a multidão que forma o povo de Deus, são os leigos os que estão imersos nas estruturas do mundo, capazes de transformá-las para que o Reino se faça presente na história humana, tornando-se protagonistas do ser Igreja - protagonismo entendido como missão no mundo, conforme avalia o estudioso Hélio Amorim em artigo publicado na Revista "Vida Pastoral", da Editora Paulus, de novembro / dezembro de 1998, dirigida a sacerdotes, a agentes de pastoral, págs. 25/26, sob o título "Protagonismo dos Leigos".

O trabalho do leigo em comunhão com a hierarquia eclesial - aquele trabalho voltado para o objetivo comum que é divulgar o Evangelho, não o trabalho de vaidades pessoais e de grupos que acabam se antagonizando e dividindo a Igreja - aliado a um eficiente processo de comunicação tem dado excelentes resultados.

Bom exemplo é a Igreja de Minas. Em Belo Horizonte (2 milhões de habitantes) - considerada uma das mais avançadas dioceses do país na área de comunicações, contando com jornal, emissora de rádio e canal de TV - o número de católicos mantém-se estável deste 1991.

Pesquisas revelam que também em Minas a evasão de fiéis foi forte na década de 80. Cerca de 30% dos católicos migraram para outras denominações religiosas, como revela Roldão Arruda no Estadão de 28.04.1998.

Mas, com a melhoria dos processos de comunicação, a partir desta década de 90, apenas 19% dos que saíram ainda não regressaram, segundo dados levantados pelo Instituto Lumen, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a pedido da arquidiocese de Belo Horizonte.

Com amostragem de mil entrevistados, a pesquisa, realizada em abril de 1998, apontou que 90% das pessoas consultadas consideram que a figura do Papa João Paulo II tem prestígio além das fronteiras da Igreja Católica. Segundo esses entrevistados, o Papa deve ser respeitado pelos esforços que faz a favor da paz e pela pregação da moral e ética.

Observa-se, a partir da pesquisa, uma mudança no comportamento dos fiéis. Eles procuram conforto espiritual junto aos sacerdotes, diante das incertezas do final do milênio causadas pela injustiça social que gera violência, desemprego, desestruturação da família, tráfico de drogas, menor abandonado, subnutrição, fome etc., além do individualismo egoísta que acomete setores mais abastados da população.

Se o próprio Cristo ensinou que não sobrevive uma casa dividida contra si mesma, deve-se ressaltar uma característica da Igreja de Belo Horizonte: Acatado em Roma por seu trabalho na área da Educação, o cardeal-arcebispo da capital mineira, D. Serafim Fernandes de Araújo, é reconhecido, tanto pelos progressistas da Teologia da Libertação, quanto pelos conservadores do Movimento Carismático, por suas posições independentes, de centro.

Isto mostra que não basta se comunicar bem. É preciso afinar, unificar o discurso e haver total cooperação entre leigos, dirigentes paroquiais sacerdotes e bispos.

3.2 Igreja que se renova

Se o leigo pode ser útil na organização da contabilidade das paróquias, nas pastorais da juventude, dos enfermos, da família, do canto, etc ou nas entidades filantrópicas, nas CEBs, no Cursilho, no Movimento Carismático etc certamente será igualmente útil na Pastoral da Comunicação.

E o primeiro passo da pastoral é buscar cursos de especialização como os que a Paulus oferece em S. Paulo para ajudar os membros dessa pastoral a produzirem projetos de comunicação em suas comunidades: pequenos jornais, vídeos populares, rádios comunitárias, programas de rádio e TV, páginas na Internet etc.

Esta, portanto, é a Igreja que nos fala: uma Igreja que está se renovando, que reconhece suas falhas de comunicação, mas que parte em busca de soluções, aproximando-se cada vez mais do povo.

Na Igreja de Santa Terezinha, em Penápolis-SP, o vigário Pe. Gilberto Moreno, salesiano, já promove encontros dominicais com os paroquianos, após a missa, procurando se inteirar dos problemas das famílias, tentando ajudar no que for possível, ao invés de se limitar aos sermões da missa. Ele também tem feito experiências bem sucedidas de rezar a missa na rua, no meio do povo. No último dia 7 de setembro (1999) ajudou a organizar o Grito dos Excluídos e chamou os empresários e políticos da cidade, na Quaresma, para discutir com o Bispo de Lins, D. Irineu Danelon, o problema do desemprego, dentro da Campanha da Fraternidade da CNBB, com o tema "Desempregado por quê?".

Também em Penápolis, cidade fundada pelos padres franciscanos em 25 de outubro de 1908, o diretor do Seminário local, Frei Ayrton Grigoleto, galvaniza a assembléia, nas missas de domingo, com homilias descontraídas, porém de profunda reflexão sobre as questões do dia-a-dia. Segundo ele, é importante que o sacerdote consiga "mexer" com as pessoas para que, voltando para casa, elas tenham o que pensar para entender melhor a realidade e procurar melhorar a vida. Do contrário a homilia e a missa terão servido apenas para sair de casa e mostrar roupa bonita, como se a Igreja fosse um passeio público qualquer.

O vigário de Penápolis, Frei Mauro Strabelli, é o autor mais editado da Editora Paulus, com mais de 20 livros publicados, com programas diários na Rádio Regional Esperança, da Diocese de Lins, sendo ainda professor de Teologia em vários seminários do Estado de S. Paulo. Ele próprio faz a auto-crítica da Igreja afirmando que hoje já não basta estudar os recursos retóricos da oratória sacra. Reconhece, porém, que é muito penoso para os velhos sacerdotes mudarem do dia para a noite seus modos de se comunicarem, pois isto sequer pareceria autêntico. Entende que cabe aos jovens a tarefa de se prepararem para os desafios tecnológicos da comunicação de massa, tão presentes e atuantes na vida do homem moderno.

E o que espera o católico dessa Igreja?

Certamente ele espera que ela se comunique melhor, que não tenha receio de se misturar com o povo para sentir a sua dor e viver a sua alegria.

O católico conta com uma Igreja presente, atuante, participante, capaz de liderar o povo e mostrar uma luz no fim do túnel, neste vale de lágrimas, que seja uma referência nas horas difíceis, esclarecendo dúvidas, orientando, ensinando, tranqüilizando, mostrando caminhos.

Nas incertezas do novo milênio, o povo parece procurar uma Igreja - Mãe, protetora, porto seguro, intercessora, exemplo de fé, luz da vida. O povo parece querer ver outros Franciscos de Assis e Santas Claras desabrochando no meio do povo para reformar e atualizar o discurso da Igreja.

Naturalmente a interface do povo com a sua Igreja - qualquer Igreja - passa pela comunicação.

Não sem razão, o arcebispo de São Paulo, D. Cláudio Hummes, quer dar maior visibilidade à Igreja Católica.

Convencido de que a estrutura paroquial tornou-se inadequada para atingir os católicos das grandes cidades, ele pretende investir mais recursos em meios de comunicação, como rádio e TV, e promover manifestações religiosas com grande participação popular, conforme entrevista que deu ao Estadão de 14.08.1998.

- O pluralismo, que é uma característica da modernidade, exige de nós grande capacidade de diálogo e esforços para encontrar novas formas de evangelizar, diz D. Cláudio na entrevista ao especialista em comunicação católica, jornalista Roldão Arruda.

Com apenas 84 dias à frente da arquidiocese, D. Cláudio já se empenhava na reabertura da Rádio Nove de Julho - AM, de propriedade da Arquidiocese, lacrada pelo regime militar em 1973.

Segundo D. Cláudio, "os meios de comunicação católicos devem ajudar as pessoas a discutir, compreender e interpretar a realidade". Porém, ele lembra que o esforço para dar visibilidade à Igreja deve ser feito com cuidado: "Nunca devemos abandonar a doutrina da Igreja e os princípios éticos".

A arquidiocese de S. Paulo é marcada por uma enorme diversidade de ações evangelizadoras, como observa Roldão Arruda, entretanto o arcebispo considera que a Igreja deve afastar-se de movimentos sociais que incluam violência ou que tenham conotação partidária: "As pessoas têm o direito de se filiar a partidos, mas a Igreja jamais deve se ligar a qualquer um deles, porque é de todos", diz, desestimulando qualquer iniciativa dentro da Igreja destinada a indicar candidatos para os eleitores católicos nos períodos eleitorais.

Segundo ele, porém, a Igreja pode e deve ajudar os grupos sociais a se organizarem para a defesa de seus direitos contra os abusos do Estado ou de grupos econômicos: "Trata-se de um direito fundamental dos cidadãos", diz, atento às estatísticas da ONU que apontam para as graves injustiças sociais do mundo globalizado em que 1,5 bilhão dos 6 bilhões de habitantes do planeta (portanto 25%) vivem com menos de US$ 1 por dia.

3.3 Cristão consciente e exigente

No mundo atual o homem tem mais privacidade e pode exercer com mais tranqüilidade o livre-arbítrio. O próprio desenvolvimento da ciência e dos meios de comunicação despertou a avaliação crítica do povo, por isto ele quer mais qualidade em tudo o que consome, inclusive na comunicação religiosa.

Já não temos necessidade de contestadores como Karl Marx para quem a religião era o ópio do povo; Sigmund Freud, que considerava a fé uma manifestação de infantilismo; Charles Darwin, que nos ofereceu um macaco como ancestral do homem; Friederich Nietsche, que decretou a morte de Deus.

As pessoas optam pela Fé e pela religião de modo espontâneo, consciente, livre. Essa característica marcante de nossos tempos exige, por si só, uma comunicação mais atraente, mais atualizada, mais competente, dentro da Igreja.

O próprio sermão de domingo não pode ser uma fala "descolada" do povo, do contexto em que o povo vive. Mesmo respeitando os conteúdos bíblicos, a mensagem - como toda a missa - deve ser um processo vivo e dinâmico de comunicação humana. É isto que o povo quer.

A própria Igreja ensina que "quem canta reza duas vezes", mas nem sempre a Pastoral do Canto ensaia as músicas com a assembléia antes da missa.

Nem sempre a Pastoral da Juventude distribui para a assembléia o roteiro de suas celebrações especiais alusivas à Semana Santa, aos mártires ou às demais festas populares.

Muitas vezes os folhetos distribuídos contém erros de português ou têm linhas repetidas, ou estão mal impressos.

Outras vezes os leitores da palavra bíblica são "pegos a laço" à medida que chegam no templo. O resultado é que nem todos estão preparados para ler corretamente e com dicção clara os trechos do Antigo e do Novo Testamento, tropeçando nas palavras de origem hebraica, comendo pontuação, pulando frases, conseguindo assim chamar a atenção dos ouvintes para os erros da leitura e não para o conteúdo da mensagem, da mesma maneira que, em sentido contrário, nas propagandas de certos produtos, presta-se mais atenção na moça bonita que os anuncia que no produto anunciado.

Em outros casos - conforme entrevistas e observações deste pesquisador - a própria seqüência do folheto distribuído nas missa acaba, após muitos anos de repetição, tornando-se monótona e enfadonha, daí que muitos fiéis gostariam de experimentar outros tipos de folheto. A repetição de fórmulas prontas acaba fazendo com que até mesmo orações profundas e belíssimas como o Credo e o Pai Nosso sejam repetidas maquinalmente, sem sentido aparente.

Vai da criatividade do celebrante e dos leigos que organizam a missa introduzir mais seriedade e criatividade no trato das coisas sagradas como recomenda o próprio decreto Inter Mirífica citado no início deste trabalho.

Infelizmente, porém, é preciso reconhecer que na prática a teoria é outra. Muitas vezes o padre dirigente tem a melhor das intenções. Mas acaba enfrentando a má vontade, quando não a fraqueza de caráter de alguns leigos que passam a tentar impor controles em setores da Igreja, buscando tirar proveito, por vaidade, das posições de destaque que alcançam na comunidade a serviço da Igreja, o que caracteriza, certamente, o grave pecado do orgulho. E isto se torna um obstáculo intransponível para uma comunicação dita "redonda", que deve fluir intensamente entre emissor e receptor.

Pesquisadores da comunicação dentro da Igreja, como Frei Mauro Strabeli, lembram que é preciso motivar o povo para uma oração mais comprometida, mais ardente, mais assumida:

- A oração é um ato de fé e de inteligência. Não é um ato irracional ou intuitivo. Quando dizemos que é um ato da inteligência, entendemos que a oração é um ato do ser humano, da pessoa humana. Então, ela deve expressar-se também como ato de um ser inteligente, isto é, deve ser inteligível, compreensível, tem que ter sentido. Se nossa oração não tem sentido, se ela é apenas um amontoado de palavras, suspiros e enlevos espirituais particulares, ela é muito alienada. Falta-lhe vida. Rezar orações melosas e cantar cânticos cheios de emoção mas vazios de conteúdo, é rezar e cantar sem inteligência, como adverte S. Paulo. Não leva a nada, não edifica a ninguém. Só é compreendida a oração que nasce da fé, da vida.

Conclusão

A partir destas constatações podemos tirar algumas conclusões práticas como diagnóstico da situação:

1. A Igreja tem e é uma boa imagem de comunicação

2. A Igreja tem um público amplo e heterogêneo que espera uma comunicação competente

3. Os seminaristas devem ter acesso às técnicas utilizadas nos meios de comunicação

4. As paróquias podem organizar melhor a Pastoral da Comunicação através de cursos de formação

5. Os leigos precisam colaborar mais, porém com espírito fraterno, sem querer "lotear espaços" e criarem, por orgulho, suas próprias "igrejinhas" dentro da paróquia.

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