Que
chato, ele não conhecia São Paulo.
Mas vibrou de emoção quando seu
nome piscou na tela do computador entre os aprovados
na seleção do doutorado em Jornalismo
oferecido pela Escola de Comunicação
e Artes da USP.
Morava em Bauru, a 350 Km de São Paulo,
cerca de 4,30h de ônibus e mais uma de metrô
e coletivo urbano até chegar à ECA.
Lutara muito pela vaga e agora faria com gosto
o percurso de 20 horas semanais entre sair de
casa bem cedo, toda terça-feira, e voltar
na quarta de madrugada. Fez as contas rápidamente
e concluiu que o custo mensal não seria
inferior a R$ 500,00, fora despesas com livros
e ítens afins.
Mas era necessário.
Principalmente porque fora aceito na disciplina
que mais desejava cursar, Jornalismo Literário
Avançado e Histórias de Vida,
com o Prof. Dr. Edvaldo Pereira Lima, nome obrigatório
na bibliografia de qualquer Plano de Ensino sobre
Jornalismo nas melhores universidades do país.
Assim, não importava se conhecia São
Paulo ou não (na verdade estivera algumas
vezes na cidade, rapidamente, muitos anos atrás...mas
tudo muda tanto...). Não importava se a
bolsa-deslocamento da Unesp é só
para aluno regular, ou o exagero dos programas
vespertinos de showrnalismo sempre
focados no pior da cidade como o trânsito,
os furtos na Sé, na República; a
pancadaria entre fiscais e camelôs na 25
de Março; o desespero de dois milhões
de desempregados; a violência nas favelas;
a corrupção na polícia...
a galinhada na USP contra a prefeita...tinha que
ir a São Paulo toda terça-feira
e ponto final.
Tudo isto, e apesar dos 54 anos de idade, sempre
causava alguma emoção. Afinal, quem
disse que emoção é só
para adolescentes?
Por isto foi dormir mais cedo na primeira segunda-feira
anterior ao início das aulas, em um dia
qualquer daquele mês de agosto. Antes consultou
a Internet pela última vez, temeroso que
a greve dos professores da USP contra a Reforma
da Previdência pudesse adiar o início
do semestre.
Ao lado da cama deixou a roupa arrumada porque
não queria incomodar ninguém ao
sair, logo cedo. Decidiu levar só os documentos
principais...vai que perdesse algum...A indumentária
incluía um sapato novo em homenagem ao
momento de alegria pessoal...não pensou
o que poderia significar um sapato novo em viagem
longa, mesmo sendo um bom sapato...
Traído pela ansiedade, chegou cedo ao ponto
de ônibus da Av. Nações Unidas,
em Bauru. O sapato já começava a
incomodar após a caminhada de 15 minutos
até ali. Esperou mais de meia hora. Foi
um alívio tirar os sapatos e recostar-se
na poltrona macia rumo a São Paulo. Ao
seu lado uma senhora estudava lições
de inglês...imaginou que seria uma professora...De
fato saltou no meio do caminho e estava sendo
aguardada na zona rural por uma van escolar.
Aproveitou a viagem de pouco mais de quatro horas
para reler O Velho e o Mar, de Hemingway...afinal,
estava a caminho de uma aula de doutorado sobre
Jornalismo Literário Avançado e
o repórter Ernest Hemingway estimulado
por Scott Fitzgerald na primeira metade do Séc.
XX e admirado por Gabriel Garcia Márquez,
na segunda metade do mesmo século, foi
um fenômeno de narrativa agradável
e simples.
Não desgrudou do livro um só momento
e terminou a leitura já nas proximidades
do Terminal da Barra Funda. Aí começou
a correria para achar o rumo no metrô...sabia
como fazer. Tinha que pegar o trem para a Sé,
depois para a Estação Paraíso,
depois para a Consolação e aí
esperaria o ônibus da Cidade Universitária....assim
conseguiu chegar à USP uma hora antes da
aula. Dava tempo de almoçar. O sapato novo
já fazia calos e foi uma boa caminhada
para acabar de chegar à ECA...
O professor, muito culto como todos os professores
com pós-doutorado no Canadá, leu
algumas aberturas sensacionais de repórteres
famosos e citou outros como os americanos Gay
Talese, John Reed, Jack London, o próprio
Hemingway, Joseph Mitchell, o cubano José
Marti, o colombiano Gabriel Garcia Márquez,
os brasileiros João do Rio, Euclides da
Cunha, David Nasser, Joel Silveira e nomes atuais
como João Moreira Salles (documentarista),
sem esquecer a criatividade de Steven Spielberg
e George Lucas, fãs da psicologia de Young
e dos estudos mitológicos de Joseph Campbell
na produção onírica de filmes
maravilhosos...citou momentos inesquecíveis
do Novo Jornalismo dos anos 60 no Brasil como
a Revista Realidade e o Jornal da Tarde; também
lembrou O Cruzeiro, dos anos 70...sempre mostrando
que jornalismo literário é emoção
e criatividade sem fugir da realidade...é
uma narrativa capaz de nos levar a sonhar acordado..é
compreender o mundo a partir da Teoria Gaia, segunda
a qual nada existe isoladamente, tudo está
interligado: homem/natureza, concreto/implícito,
parte/todo, feminino/masculino, terra/água...como
nos pares de opostos que formam a
base da criação mítica...ou
como a combinação binária
que possibilita ao homem, desde o Ábaco,
multiplicar ao infinito sua capacidade de pensar,
criar, refletir e tentar buscar uma lógica
para a grande angústia do quem sou,
de onde venho, para onde vou.
Ouvindo o mestre falar com tanto entusiasmo sobre
as possibilidades do Jornalismo Literário
na proposição de um mundo melhor
e mais justo, na mudança da realidade sórdida
que os últimos 300 anos de capitalismo
nos legaram...lembrou-se da entrevista de Bill
Moyers com Campbell no Rancho Skywalker, de George
Lucas, em 1985...a certa altura eles discutiam
a eternidade...e Campbell dissera
...o problema com o Paraíso é
que você vai ter uma vida tão boa
que sequer vai pensar em eternidade. Você
vai simplesmente experimentar o interminável
deleite, na visão beatífica de Deus.
Mas experimentar a eternidade aqui mesmo, agora,
em todas as coisas, não importa se encaradas
como boas ou más, esta é a função
da vida...
Fazia todo sentido o que o professor dizia.
Nós, na área acadêmica, estamos
sempre criticando o jornalismo e achamos que Adorno
e os frankfurtianos se remexeriam na cova se pudessem
ver programas de jornalismo como o
antigo Aqui,Agora, ou Cidade
Alerta...aí sim a Dialética
Negativa contaminaria toda a Escola. Mas não
basta criticar. É preciso propor. E a proposta
do JLA pode ser a saída, tanto assim que
já vem sendo retomada nos EUA, onde se
expressa através de edições
temáticas dos grandes jornais nos finais
de semana, ou de revistas, de livros-reportagem,
onde se pode pelo menos sonhar com outra realidade,
com outro mundo, com outro jornalismo...onde o
ser humano é um todo incluído,
não um objeto destinado a consumir o que
noticiamos burocraticamente...um ser alienado
pela indústria cultural na medida em que
recebe tamanha carga de informação
como bem lembra João Serva em Jornalismo
e Desinformação
que sente-se cada vez mais perdido, inseguro e
desinformado...
No final o professor colocou em prática
sua visão holística seguindo
o ensinamento de Vieira sobre o falar e o fazer
buscando harmonizar os 20 alunos que se
viam pela primeira vez, naquela primeira aula.
Pediu que todos fechassem os olhos, ficassem relaxados,
receptivos, deixando o pensamento rolar enquanto
a classe era tomada pelos agradáveis acordes
de uma música clássica...
Mas o nosso professor universitário do
interior não conseguia curtir a música
por causa do sapato apertado e ficou torcendo
para que o mestre não indagasse o que cada
um havia experimentado naquele instante.
Terminada a aula, já no início da
noite, correu para a biblioteca com outros colegas
para providenciar os livros recomendados. Depois
seguiu de ônibus, por uma hora exata, através
do trânsito engarrafado, até a Praça
da Sé. Daí, em poucos minutos de
metrô, estava de volta ao Terminal da Barra
Funda para tomar o ônibus das 21:15h, que
o deixaria no mesmo ponto da Av. Nações
Unidas, em Bauru, à 1:30h da madrugada...e
caminharia os 15 minutos finais até em
casa, no Jardim Brasil...apesar dos calos.
A viagem de volta era a parte pior, embora estivesse
feliz pela oportunidade do curso na USP. E o pior
de viajar à noite de ônibus não
são as poltronas apertadas, nem o cansaço
natural do dia estressante, nem a impossibilidade
de ler com a fraca luzinha que só incomoda
os vizinhos...a viagem parece mais comprida....
Rapidamente, porém, as luzes de São
Paulo vão se apagando na janela panorâmica.
Já na escuridão da estrada, o motor
roncando serenamente, o ônibus vai veloz,
parece comer pedaços da noite, sem tempo
de mastigar...mas, eu ia dizendo, o pior da viagem
de volta é o celular...
Ao mesmo tempo que esse aparelhinho veio facilitar
tanto a vida da gente, também virou uma
praga incômoda e um exemplo raro de invasão
de privacidade...não a privacidade de quem
está falando (muitas vezes coisas particulares),
mas a privacidade de quem tem o direito de não
ouvir...é como acontece com o dependente
do cigarro que obriga o fumante passivo a participar
do vício sem tê-lo.
As conversas no celular são dolorosas.
E lhe chegam aos pedaços. Na
frente: ....você viu se ele assinou
corretamente o cheque? Então deixa ele
se ferrar...pode reapresentar, berra um
homem. Do lado: Não, mãe,...se
eu comer alguma coisa na parada do ônibus,
não vai precisar nada...mesmo assim deixa
sobre o fogão, diz a mocinha. Atrás,
entre risinhos: ...isto eu não deixo,
até o Papa já falou que não
é certo...só se você insistir
muito...
Ah! O celular...nada tão moderno e tão
antiquado ao mesmo tempo... ícone de uma
sociedade que mais se perde quanto mais se acha...mesmo
quando a pessoa tenta falar baixinho
como se fosse possível evitar a invasão
sobre o outro.
Tentou se desligar daquela chateação
e, mirando uma estrela fixa no céu, aproveitou
para repassar, na ágora virtual
da mente - lembrando a expressão de Pierre
Lévy no estudo do Hipertexto - a aula do
professor. Devia ter anotado mais... Ele dissera
que não existe história desinteressante.
O que existe é texto mal escrito.
Onde há uma vida humana ou não
há uma história interessante.
Imaginou: Se Hemingway escreveu uma das mais interessantes
histórias do Séc. XX a partir de
um pescador cubano que levou três dias para
pescar um só peixe no mar de Havana e chegou
à praia só com os restos deixados
pelos tubarões, porque não conseguiria
uma boa história também? Mas, trabalhando
em Bauru como professor da Unesp
e estudando em São Paulo, onde arranjaria
tempo para se enfiar sob um viaduto, por três
noites para escrever a História dos Meninos
de Rua? Ou como entraria num presídio para
produzir algo como Estação Carandiru?
E se ouvisse histórias sobre os imigrantes
japoneses que se matavam mutuamente no interior
do Brasil para provar que o Japão não
havia perdido a Guerra e escrevesse Corações
Sujos? Mas tudo isto já tinha sido feito
pelo Dimenstein, pelo Drauzio Varella e por Fernando
Morais. Talvez, na falta de uma melhor história
de vida eu escreva a minha própria história
que já está de bom tamanho com todas
essas viagens semanais, pensou.
Quando chegou em casa estava moído, os
pés doendo, a cabeça rodando, caiu
na cama, dormiu logo, profundamente, e sonhou:
Empurrou a porta devagar. Estranho...onde estavam
os alunos? Tudo estava muito branco...não,
havia uma espécie de bruma...havia uma
luz, uma música clássica...será
que já estava na eternidade, com Campbell?
E como Campbell podia saber como seria a eternidade?
Sentia-se cansado...Já estaria de novo
na ECA? Mas, pensou, como se pode ir de Bauru
à ECA sem todo aquele ritual do ônibus,
do Hemingway, dos celulares, do metrô, do
ônibus da Consolação, dos
calos nos pés...pior, sem ter feito a tarefa
pedida pelo professor? Não, não
é possível... sem o ritual a vida
não tem sentido, fica vazia...o ritual
faz parte....Sentou-se numa cadeira e balbuciou
algumas palavras em direção à
luz: Tem alguém aí? Quem é
você? Para sua surpresa, a voz respondeu
com a serenidade de páginas ampliadas:
- Meu filho, eu sou Edvaldo Pereira Lima e a aula
já vai começar.
O Prof. MS Pedro Celso Campos é aluno
especial do Doutorado em Ciências da Comunicação/Jornalismo,
da ECA-USP