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DE GUTENBERG A BILL GATES

Prof. MS Pedro Celso Campos

Durante os últimos cinco séculos o homem testemunhou a evolução e a crescente importância da comunicação, desde que Guttemberg imprimiu, em 1455, a famosa Bíblia de 42 linhas por coluna, aperfeiçoando, assim, a tipografia que fundidores europeus já conheciam desde 1260. Livros impressos, com caracteres móveis, datando das primeiras décadas do século XV, foram descobertos na Coréia. Mas é a partir da segunda metade do século XVI que o livro impresso corta, definitivamente, suas ligações com o livro manuscrito. Com o livro impresso, o alvorecer do século XVI também registra o surgimento da imprensa. Nos primeiros anos desse século, mais de 50 cidades alemãs já tinham jornais.

O que possibilitou o rápido crescimento da imprensa, naqueles primeiros anos, foi a ação dos chamados "impressores ambulantes" que levaram a "invenção de Guttemberg", isto é, a arte de imprimir com tipos móveis ( tipografia ), para 247 cidades européias, das quais 78 italianas. É em Roma que surge a imprensa latina, tal qual conhecemos, porque ali os impressores abandonam a influência gótica dos escritos medievais e adotam os caracteres romanos.

Por 400 anos a arte de imprimir livros e jornais conheceu poucos aperfeiçoamentos, mas no final do século XIX surgiu um sistema automático de produção de tipos gráficos para acelerar a montagem do texto a ser impresso: era a Linotipo, inventada por Ottmar Mergenthaller em 1884, em Baltimore, EUA. A partir daí, ao invés dos tipos individuais, montados à mão, era possível compor a linha inteira que era fundida em chumbo depois de "digitada" no teclado da própria máquina.

Paralelamente foram sendo introduzidas novas tecnologias também no sistema de impressão. As máquinas planas, que imprimiam o jornal folha por folha, foram sendo substituídas pelas rotativas que usavam bobinas de papel e já finalizavam a encadernação e o empacotamento do jornal impresso.

Entretanto, foi a substituição da linotipia pela computação eletrônica e, por outro lado, a substituição da impressão tipográfica pela impressão em off-set que permitiram, no século XX, a transformação dos jornais em grandes empresas de comunicação.

As demais mudanças ocorridas no jornalismo foram provocadas, também no início do século XX, pela concorrência com os meios eletrônicos: o rádio, a televisão e, mais recentemente, a internet.

Dos "tipos romanos" que os fundidores alemães disseminaram pela Itália no século XV, ao "Times New Roman" deste texto eletrônico, composto em corpo 12, no computador, de forma instantânea, com possibilidade de reprodução a cores, também de forma instantânea mesmo que a impressora esteja situada do outro lado do planeta, a evolução foi notável.

Mas os aperfeiçoamentos não cessam porque é próprio da inteligência humana buscar novas formas de melhorar ainda mais o que faz. Uma tecnologia acaba influenciando a outra, num processo contínuo e interminável.

Se no século XX os sistemas de produção e impressão de textos atingiram grande avanço do ponto de vista mecânico, foi também nessa época que os conhecimentos da linguística, da semiótica e da própria ética passaram a ser levados em conta no que se refere à produção jornalística, ao mesmo tempo em que os veículos de comunicação, inicialmente tímidos e personalistas, foram sendo transformados em grandes empresas comerciais, com lucratividade garantida e com enorme poder de comunicação.

A produção de massa crítica nos meios acadêmicos sobre o papel dos meios de comunicação, no Século XX, levaram estudiosos como os frankfurtianos de 1923 Adorno, Benjamim, Marcuse, Horkheimer e, mais recentemente, Habermas, a discutir a influência social dos meios que acabaram se orquestrando num conjunto de atividades que regulam e impõem padrões de comportamento sobre a sociedade, o que eles chamam de "indústria cultural". Assim, o receptor da mensagem ficaria à mercê da manipulação política e ideológica dos meios, sem condições de interagir com eles para expor o que pensa, para discordar, para contestar, para propor. Náufrago indefeso num "mar de notícias" emitidas por meia dúzia de agências em torno do mundo, o ser humano do século XX viveria, permanentemente, como o personagem do "Show de Truman", o filme dialético de Peter Weir que denuncia a manipulação social pela mídia.

Debate-se, no meio acadêmico, o papel do produtor de notícias dentro do contexto mercadológico dos meios de comunicação. Num mundo eletronicamente globalizado, onde textos e imagens digitalizadas viajam vertiginosamente em torno do planeta através dos satélites e das fibras óticas, sendo "decodificadas" na outra ponta através das mais variáveis interfaces que tanto podem ser um minúsculo telefone celular, como uma enorme impressora de jornal comandada à distância, ou ainda um monitor de TV ou de computador, ou um aparelho de rádio, indaga-se qual o espaço que sobra, afinal, para o jornalista, para o profissional encarregado de produzir, processar e emitir o discurso. Um discurso que já não pode ser meramente informativo porque também precisa ser interpretativo. Um discurso que envolve a necessidade de opinar – porque este é um dever do comunicador que deseja prestar serviço ao receptor. Um discurso que não pode descuidar, ainda, da sua finalidade lúdica, enquanto texto "recreativo" para amenizar o stress desse náufrago cercado de informação por todos os lados que é o homem do século XXI.

Ao mesmo tempo, os estudiosos discutem o futuro de todo esse processo, questionando se a invenção de Guttenberg terá lugar nesse futuro, agora que os pesados tipos móveis se converteram em fluidas letrinhas que piscam no vídeo enquanto escrevemos, parecendo "sombras luminosas" de um passado longínquo. Perguntam-se para onde vai o jornal depois da Internet e até para onde vai o próprio computador enquanto "objeto de mesa". Outros querem saber se a Internet um dia vai chegar a todos os habitantes da terra, se todos poderão mandar e-mails com o mesmo custo de uma simples carta de correio ou até de graça...Também se pergunta qual o papel dos meios impressos depois que os meios eletrônicos se aperfeiçoaram tanto.

Os pesquisadores da linguagem buscam novas formas de tornar o discurso jornalístico mais leve e, ao mesmo tempo, mais informativo, mesmo diante da rapidez com que precisa ser produzido e da "objetividade" com que precisa ser apresentado para ser consumido pelo receptor apressado que já é "disputado" por tantos canais de comunicação.

Na verdade, muitos querem saber o que se entende, afinal, por "objetividade" ou por "imparcialidade". Será que os dias de hoje ainda comportam os mesmos critérios de quando a moderna imprensa foi criada? Ainda se pode falar em "lead", "sub-lead", "pirâmide invertida" etc?

E quanto à ética? Num mundo em que os meios têm tanta influência, será que o respeito às minorias, aos direitos inalienáveis do cidadão, à verdade, à transparência, à dignidade humana...é observado? Ou ainda achamos que o "furo" vale qualquer sacrifício? Diante do menor baleado na rua, queremos a foto dele ou levá-lo para o hospital mais próximo? O que vale mais: A notícia ou a vida? Será que os jornalistas não estão tão confusos como os próprios consumidores de notícias neste estonteante início de novo milênio?

Também se discute se o objetivo das corporações jornalísticas é fazer o marketing de resultados para ter lucro ou fazer jornalismo para servir. É um debate relevante porque se a primeira hipótese for a verdadeira, então é possível que o Departamento de Marketing terá todos os recursos e toda a atenção da empresa, sobrando para a redação o mesmo status de qualquer outra repartição do jornal, como o quartinho de guardar vassouras, por exemplo, apenas em tamanho maior, isto é, sem qualquer poder de decisão.

Com os novos meios, o modo de produção da notícia já não é o mesmo. Trabalha-se muito mais, por muito menos. O que têm a dizer os sindicatos? A pressa de produzir a informação leva a erros, muitas vezes graves. Na conta de quem o erro é debitado?

Do ponto de vista do receptor muita coisa também mudou. O avanço tecnológico da mídia acabou gerando um receptor mais informado, mais seletivo, mais exigente, mais participativo, mais conhecedor dos seus direitos, mais preparado para exercer de corpo inteiro a cidadania. A qualidade técnica dos produtos, tanto quanto os seus conteúdos, são cotejados, são comparados, são avaliados o tempo todo por esse receptor do novo século que já não se deixa enganar. Ele muda de canal quando o programa de rádio ou de TV está excessivamente chato, verborrágico, desagradável, agressivo, falso etc Este é o seu modo de punir a informação de má qualidade.

Os estudiosos analisam, inclusive, os novos modos de leitura que o receptor atual emprega para consumir informação. Ele já não faz a leitura tradicional da esquerda para a direita, como aprendemos no mundo ocidental. No texto verbal, ele primeiro busca os elementos visuais que o "aproximam" da leitura, tais como retrancas, títulos, linhas finas, janelas, legendas, infográficos, fotos etc. Só depois começa a leitura, muitas vezes lendo pedaços alternados da notícia, nem sempre pelo parágrafo inicial, em busca da essência informativa, na pressa de apenas checar o que já viu em outro veículo, para confirmar a informação ou para ter algum detalhe adicional, num tipo de "leitura complementar".

A análise semiótica de imagens já constatou, também, que o olhar do receptor já não penetra a imagem de forma linear, mas através de "linhas de força" que conduzem a leitura através do contraste de cores e luzes, ora puxando o olhar para dentro da foto, ora empurrando-o para fora.

Como se pode perceber nesta introdução, os contextos de produção, emissão e recepção do discurso informativo já não são os mesmos. As novas tecnologias exigem dos profissionais a atualização constante do modo de ver, captar, codificar e transmitir a notícia.

Resta saber se nossas Faculdades de Comunicação estão preparadas para produzir o novo profissional do verdadeiro Mundo Novo e Digital.

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