Durante
os últimos cinco séculos
o homem testemunhou a evolução
e a crescente importância da comunicação,
desde que Guttemberg imprimiu, em 1455,
a famosa Bíblia de 42 linhas por
coluna, aperfeiçoando, assim, a
tipografia que fundidores europeus já conheciam
desde 1260. Livros impressos, com caracteres
móveis, datando das primeiras décadas
do século XV, foram descobertos
na Coréia. Mas é a partir
da segunda metade do século XVI
que o livro impresso corta, definitivamente,
suas ligações com o livro
manuscrito. Com o livro impresso, o alvorecer
do século XVI também registra
o surgimento da imprensa. Nos primeiros
anos desse século, mais de 50 cidades
alemãs já tinham jornais.
O
que possibilitou o rápido crescimento
da imprensa, naqueles primeiros anos, foi
a ação dos chamados "impressores
ambulantes" que levaram a "invenção
de Guttemberg", isto é, a arte
de imprimir com tipos móveis ( tipografia
), para 247 cidades européias, das
quais 78 italianas. É em Roma que
surge a imprensa latina, tal qual conhecemos,
porque ali os impressores abandonam a influência
gótica dos escritos medievais e
adotam os caracteres romanos.
Por
400 anos a arte de imprimir livros e jornais
conheceu poucos aperfeiçoamentos,
mas no final do século XIX surgiu
um sistema automático de produção
de tipos gráficos para acelerar
a montagem do texto a ser impresso: era
a Linotipo, inventada por Ottmar Mergenthaller
em 1884, em Baltimore, EUA. A partir daí,
ao invés dos tipos individuais,
montados à mão, era possível
compor a linha inteira que era fundida
em chumbo depois de "digitada" no
teclado da própria máquina.
Paralelamente
foram sendo introduzidas novas tecnologias
também no sistema de impressão.
As máquinas planas, que imprimiam
o jornal folha por folha, foram sendo substituídas
pelas rotativas que usavam bobinas de papel
e já finalizavam a encadernação
e o empacotamento do jornal impresso.
Entretanto,
foi a substituição da linotipia
pela computação eletrônica
e, por outro lado, a substituição
da impressão tipográfica
pela impressão em off-set que permitiram,
no século XX, a transformação
dos jornais em grandes empresas de comunicação.
As
demais mudanças ocorridas no jornalismo
foram provocadas, também no início
do século XX, pela concorrência
com os meios eletrônicos: o rádio,
a televisão e, mais recentemente,
a internet.
Dos "tipos
romanos" que os fundidores alemães
disseminaram pela Itália no século
XV, ao "Times New Roman" deste
texto eletrônico, composto em corpo
12, no computador, de forma instantânea,
com possibilidade de reprodução
a cores, também de forma instantânea
mesmo que a impressora esteja situada do
outro lado do planeta, a evolução
foi notável.
Mas
os aperfeiçoamentos não cessam
porque é próprio da inteligência
humana buscar novas formas de melhorar
ainda mais o que faz. Uma tecnologia acaba
influenciando a outra, num processo contínuo
e interminável.
Se
no século XX os sistemas de produção
e impressão de textos atingiram
grande avanço do ponto de vista
mecânico, foi também nessa época
que os conhecimentos da linguística,
da semiótica e da própria ética
passaram a ser levados em conta no que
se refere à produção
jornalística, ao mesmo tempo em
que os veículos de comunicação,
inicialmente tímidos e personalistas,
foram sendo transformados em grandes empresas
comerciais, com lucratividade garantida
e com enorme poder de comunicação.
A
produção de massa crítica
nos meios acadêmicos sobre o papel
dos meios de comunicação,
no Século XX, levaram estudiosos
como os frankfurtianos de 1923 Adorno,
Benjamim, Marcuse, Horkheimer e, mais recentemente,
Habermas, a discutir a influência
social dos meios que acabaram se orquestrando
num conjunto de atividades que regulam
e impõem padrões de comportamento
sobre a sociedade, o que eles chamam de "indústria
cultural". Assim, o receptor da mensagem
ficaria à mercê da manipulação
política e ideológica dos
meios, sem condições de interagir
com eles para expor o que pensa, para discordar,
para contestar, para propor. Náufrago
indefeso num "mar de notícias" emitidas
por meia dúzia de agências
em torno do mundo, o ser humano do século
XX viveria, permanentemente, como o personagem
do "Show de Truman", o filme
dialético de Peter Weir que denuncia
a manipulação social pela
mídia.
Debate-se,
no meio acadêmico, o papel do produtor
de notícias dentro do contexto mercadológico
dos meios de comunicação.
Num mundo eletronicamente globalizado,
onde textos e imagens digitalizadas viajam
vertiginosamente em torno do planeta através
dos satélites e das fibras óticas,
sendo "decodificadas" na outra
ponta através das mais variáveis
interfaces que tanto podem ser um minúsculo
telefone celular, como uma enorme impressora
de jornal comandada à distância,
ou ainda um monitor de TV ou de computador,
ou um aparelho de rádio, indaga-se
qual o espaço que sobra, afinal,
para o jornalista, para o profissional
encarregado de produzir, processar e emitir
o discurso. Um discurso que já não
pode ser meramente informativo porque também
precisa ser interpretativo. Um discurso
que envolve a necessidade de opinar – porque
este é um dever do comunicador que
deseja prestar serviço ao receptor.
Um discurso que não pode descuidar,
ainda, da sua finalidade lúdica,
enquanto texto "recreativo" para
amenizar o stress desse náufrago
cercado de informação por
todos os lados que é o homem do
século XXI.
Ao
mesmo tempo, os estudiosos discutem o futuro
de todo esse processo, questionando se
a invenção de Guttenberg
terá lugar nesse futuro, agora que
os pesados tipos móveis se converteram
em fluidas letrinhas que piscam no vídeo
enquanto escrevemos, parecendo "sombras
luminosas" de um passado longínquo.
Perguntam-se para onde vai o jornal depois
da Internet e até para onde vai
o próprio computador enquanto "objeto
de mesa". Outros querem saber se a
Internet um dia vai chegar a todos os habitantes
da terra, se todos poderão mandar
e-mails com o mesmo custo de uma simples
carta de correio ou até de graça...Também
se pergunta qual o papel dos meios impressos
depois que os meios eletrônicos se
aperfeiçoaram tanto.
Os
pesquisadores da linguagem buscam novas
formas de tornar o discurso jornalístico
mais leve e, ao mesmo tempo, mais informativo,
mesmo diante da rapidez com que precisa
ser produzido e da "objetividade" com
que precisa ser apresentado para ser consumido
pelo receptor apressado que já é "disputado" por
tantos canais de comunicação.
Na
verdade, muitos querem saber o que se entende,
afinal, por "objetividade" ou
por "imparcialidade". Será que
os dias de hoje ainda comportam os mesmos
critérios de quando a moderna imprensa
foi criada? Ainda se pode falar em "lead", "sub-lead", "pirâmide
invertida" etc?
E
quanto à ética? Num mundo
em que os meios têm tanta influência,
será que o respeito às minorias,
aos direitos inalienáveis do cidadão, à verdade, à transparência, à dignidade
humana...é observado? Ou ainda achamos
que o "furo" vale qualquer sacrifício?
Diante do menor baleado na rua, queremos
a foto dele ou levá-lo para o hospital
mais próximo? O que vale mais: A
notícia ou a vida? Será que
os jornalistas não estão
tão confusos como os próprios
consumidores de notícias neste estonteante
início de novo milênio?
Também
se discute se o objetivo das corporações
jornalísticas é fazer o marketing
de resultados para ter lucro ou fazer jornalismo
para servir. É um debate relevante
porque se a primeira hipótese for
a verdadeira, então é possível
que o Departamento de Marketing terá todos
os recursos e toda a atenção
da empresa, sobrando para a redação
o mesmo status de qualquer outra repartição
do jornal, como o quartinho de guardar
vassouras, por exemplo, apenas em tamanho
maior, isto é, sem qualquer poder
de decisão.
Com
os novos meios, o modo de produção
da notícia já não é o
mesmo. Trabalha-se muito mais, por muito
menos. O que têm a dizer os sindicatos?
A pressa de produzir a informação
leva a erros, muitas vezes graves. Na conta
de quem o erro é debitado?
Do
ponto de vista do receptor muita coisa
também mudou. O avanço tecnológico
da mídia acabou gerando um receptor
mais informado, mais seletivo, mais exigente,
mais participativo, mais conhecedor dos
seus direitos, mais preparado para exercer
de corpo inteiro a cidadania. A qualidade
técnica dos produtos, tanto quanto
os seus conteúdos, são cotejados,
são comparados, são avaliados
o tempo todo por esse receptor do novo
século que já não
se deixa enganar. Ele muda de canal quando
o programa de rádio ou de TV está excessivamente
chato, verborrágico, desagradável,
agressivo, falso etc Este é o seu
modo de punir a informação
de má qualidade.
Os
estudiosos analisam, inclusive, os novos
modos de leitura que o receptor atual emprega
para consumir informação.
Ele já não faz a leitura
tradicional da esquerda para a direita,
como aprendemos no mundo ocidental. No
texto verbal, ele primeiro busca os elementos
visuais que o "aproximam" da
leitura, tais como retrancas, títulos,
linhas finas, janelas, legendas, infográficos,
fotos etc. Só depois começa
a leitura, muitas vezes lendo pedaços
alternados da notícia, nem sempre
pelo parágrafo inicial, em busca
da essência informativa, na pressa
de apenas checar o que já viu em
outro veículo, para confirmar a
informação ou para ter algum
detalhe adicional, num tipo de "leitura
complementar".
A
análise semiótica de imagens
já constatou, também, que
o olhar do receptor já não
penetra a imagem de forma linear, mas através
de "linhas de força" que
conduzem a leitura através do contraste
de cores e luzes, ora puxando o olhar para
dentro da foto, ora empurrando-o para fora.
Como
se pode perceber nesta introdução,
os contextos de produção,
emissão e recepção
do discurso informativo já não
são os mesmos. As novas tecnologias
exigem dos profissionais a atualização
constante do modo de ver, captar, codificar
e transmitir a notícia.
Resta
saber se nossas Faculdades de Comunicação
estão preparadas para produzir o
novo profissional do verdadeiro Mundo Novo
e Digital.