ENTREVISTA com PEDRO CAMPOS
Jornal interior - Penápolis- Abril 2003
01) Como surgiu o projeto de implantar um
novo jornal diário em Penápolis?
A cidade precisava de uma renovação
em matéria de jornalismo. Foi isto que
o jornal interior representou 22 anos atrás.
O projeto surgiu porque três jovens formados
fora (Paulo Sérgio Muçouçah,
Mário Sérgio Wanderley e eu)
mais dois que se formaram depois, Joel Pereira
Gomes e João Carlos Vilas Boas, estavam
querendo fazer alguma coisa diferente pela
cidade. Mas quem fundou o jornal e o manteve
no primeiro ano foi minha sogra, D. Yvonne
Castilho. É a ela que Penápolis
deve esse investimento.
02) Como surgiu o nome interior (o nome era
assim mesmo, em caixa baixa)?
A idéia do nome com iniciais minúsculas
era a seguinte: Apesar de ser um jornal do
interior ele deveria ser conhecido e respeitado
na capital, no palácio do governo, junto às
secretarias de estado. A coleção
completa do jornal, em meu poder, comprova
vários momentos em que isto aconteceu,
em que o jornal marcou presença em São
Paulo. Quando me aposentar, vou escrever um
livro com a história do jornal que é a
história recente de Penápolis.
A inicial minúscula era um protesto
contra o desinteresse do governo pelos assuntos
da nossa região, aqui no interior.
03) Quais foram as dificuldades iniciais de
se levar o projeto adiante?
Como o maquinário era antigo, com impressão
a quente, usando as barulhentas e complicadas
linotipadoras, o maior problema era mão
de obra especializada e o alto preço
das peças de reposição,
a maioria importadas. Um empresário
de jornal daquela época ficava literalmente "imprensado" entre
os mecânicos que exigiam as peças
de reposição e os "representantes" das
empresas importadoras que as vendiam. Depois
havia o preço do papel, muito caro também.
Mas o faturamento era bom. Cheguei a ter 500
resmas duplas estocadas e totalmente pagas,
papel suficiente para meio ano de trabalho.
Com a chegada do computador e da Internet as
coisas se simplificaram, embora o papel continue
caro e o custo tenha sido acrescido, na impressão
em off-set, da não menos cara chapa
de alumínio.
04) Qual era a linha editorial adotada pelo
jornal?
Apesar das dificuldades, era gratificante
fazer o jornal para contribuir com a melhoria
da cidade. Nossa linha básica era fazer
um jornal inteiramente voltado aos interesses
da comunidade, que polemizasse e debatesse
os assuntos relacionados com o povo penapolense,
suas reivindicações, suas aspirações,
suas crenças etc. Daí o empenho
com que cobríamos a Festa do Padroeiro,
São Francisco de Assis. Também
publicávamos diariamente o Evangelho
com o mesmo propósito e nos preocupávamos
em saber o que estava faltando na Santa Casa
e nas entidades assistenciais para que o jornal
pudesse ajudar na divulgação.
O jornal não pensava só em dinheiro,
apesar de muita gente não acreditar.
O dinheiro vinha na mão do jornal porque
não medíamos esforços
para servir com amor e carinho ao nosso povo:
tenho orgulho de ter sido homenageado pela
Câmara Municipal, em 1983, por requerimento
do vereador Juvenal Rodrigues de Brito (o Sonho)
com o título de Cidadão Penapolense,
assinado pela então presidente do Legislativo
Maria José de Macedo. Apesar de desgastado
pelo tempo, meu título está em
lugar visível na minha sala de trabalho,
na Unesp de Bauru, e não perco a oportunidade
de ensinar aos alunos que um jornalista precisa
conquistar o respeito das pessoas com trabalho
sério, ético, digno. Fuji da
pergunta? Acho que não: Nossa linha
era amar Penápolis.
05) O jornal viveu os momentos de três
administrações (João D´Elia,
Sinoel e Bonini) e o início da gestão
Benone e Firmino. Como foi o relacionamento
do Interior com estes prefeitos?
Na verdade passamos por Ricardo Castilho,
João D´Elia, Sinoel Batista, Alidino
Bonini, Benone S. Queiroz e Firmino Sampaio...cada
um dos seis teve seu modo típico de
se relacionar com o jornal e vice-versa. Vale
destacar, entretanto, o relacionamento com
D´Elia. Começou muito tenso pois
logo depois da eleição demos
uma manchete mostrando que Areonthe e Dirceu
Peters - com os votos da legenda - haviam garantido
a eleição do novo prefeito. No
entanto D´Elia parecia não pensar
assim. Depois ele deu aquela declaração
ao Estadão chamando a cidade de reacionária,
fascista sei lá...depois teve a Festa
Brasil-Cuba que não contou com ninguém
do Consulado, também teve a viagem à Alemanha
Oriental divulgada, na volta, como algo maravilhoso
e a queda do Muro de Berlim, em seguida, mostrou
o contrário...o prefeito levou muitos
universitários para a prefeitura e realmente
mudou o modo de governar, mas alguns eram do
tipo "lua-preta" - como se dizia
no Governo Montoro - como alguns intelectuais
para os quais só as suas verdades é que
valem a pena serem vividas...no final das contas
o jornal estava no confronto total com o prefeito
e o número de assinantes crescia como
nunca porque o povo quer um jornal assim, que
não tenha medo. Depois passei a viajar
com D´Elia para visitar as Secretarias
de Estado, brigando pelos interesses de Penápolis.
Passei a conhecer melhor o médico João
D´Elia. Acho que tanto ele quanto o jornal
cometeram exageros na época, mas ambos
foram importantes no contexto histórico.
Hoje eu votaria em D´Elia para prefeito,
pois não transferi meu título
de eleitor para Bauru.
06) O jornal se envolveu de alguma forma nas
campanhas eleitorais ou teve alguma influência
na indicação dos nomes e na condução
do processo de eleição dos prefeitos
de Penápolis?
Acredito que por trabalhar sempre com muita
seriedade, eu era respeitado na cidade e recebia
muitas informações de bastidores.
As fontes confiavam em mim porque jamais as
traí. Isto também ensino aos
meus alunos, jornalista sem boas fontes é como
peixe fora d´água. Minha experiência
nesses 18 anos à frente do jornal em
Penápolis mostrou que muitas práticas
do jornalismo dos grandes centros podem e devem
ser imitadas no interior, no pequeno jornal,
como ter boas fontes, agir com ética,
separar o comercial do editorial, respeitar
o leitor etc, embora nem todo jornal grande
proceda assim...Muitas vezes participei de
reuniões de bastidores - uma delas foi
na casa do saudoso Benone, um homem que amava
Penápolis com todo o coração
- para tratar da sucessão municipal.
Também estive em outros locais, sempre
tendo o cuidado de divulgar as informações
sem trair a confiança dos meus anfitriões.
Com meus artigos, e através da coluna
Radar, acaba passando alguma influência.
Muitas vezes eu tinha só um pedaço
da informação e, na falta de
meios para confirmar com outras fontes, divulgava
o que tinha e logo alguém me ligava
confirmando o resto da matéria, permitindo
uma informação completa na edição
seguinte. Muitos não entendiam como
eu fazia para saber o que se passava nos bastidores
da sucessão municipal, mas eu não
contava. O detalhe é que às vezes,
mesmo dentro de um grupo político, existem
divergências, existem facções,
sub-grupos que precisam de um apoio externo
para impor uma dissidência. Assim, fornecendo
informações para o jornal ajudavam-me
a sair na frente com a notícia e, ao
mesmo tempo, ganhavam apoio da opinião
pública para tentarem viabilizar-se
dentro do grupo. Com isto o jornal sempre saia
na frente com o nome do futuro candidato a
prefeito. É só pegar as edições
e verificar. Acho que ser bem informado e passar
informações atualizadas aos leitores é uma
missão básica do jornalismo,
em qualquer lugar.
07) Durante os 18 anos em que você esteve à frente
do jornal, teve
algum fato jornalístico marcante que
pode ser relembrado?
São muitos fatos marcantes, mas eu
vou tratar deles futuramente, no meu livro.
08) Você acabou criando inimizades pelo
fato de cumprir seu compromisso jornalístico,
tendo que divulgar nomes e fatos envolvendo
grupos ou pessoas que não queriam que
fossem revelados pelo jornal?
Como disse Bento da Cruz ao morrer num hospital
de São Paulo, "se deixei inimigos
em Penápolis ou em qualquer outro lugar,
não os conheço". É claro
que no jornalismo muitas vezes a gente acaba
publicando informações que agradam
a uns e desagradam a outros. Mas com Jesus
Cristo também aconteceu isto, porque,
como dizia o ex-prefeito e hoje deputado (finalmente
Penápolis chegou lá!) Ricardo
Castilho, "ninguém dá chute
em cachorro morto". Para que jogar pedras
em árvores que não dão
frutos? Então é melhor errar
fazendo que acertar sem fazer nada, pois só quem
faz erra. Trabalhei duro naqueles 18 anos à frente
do jornal e não me arrependo por nenhum
daqueles dias de luta para fazer um jornal
sério e digno. Tenho muito orgulho do
trabalho que fiz pelo jornalismo penapolense
e pela história de Penápolis.
Agradeço à minha esposa, Maria
Lúcia de Castilho Muçouçah
Campos, que sempre esteve do meu lado, inclusive
nas madrugadas que varamos trabalhando, dezenas
de vezes, para que o jornal chegasse a tempo
e à hora para os nossos leitores. Muitas
vezes ela diagramou o jornal no computador
pela falta de algum funcionário e um
dia de domingo, bem cedo, fomos entregar o
jornal nós dois, sozinhos, de carro,
porque os entregadores tinham faltado. Então,
foi muito trabalho. Só deixamos amigos,
nenhum inimigo, graças a Deus. Só estou
em Bauru porque preciso do meu emprego na Universidade,
mas Penápolis é a cidade do meu
coração.
09) Você tem saudades de estar no comando
do Jornal Interior?
A decisão de nos afastarmos do jornal
foi amadurecida ao longo de pelo menos quatro
anos, a partir de 1994, período em que
eu saia de madrugada de Penápolis e
vinha para Bauru fazer o mestrado com a Rondon
totalmente em obras de duplicação,
com pelos menos 20 desvios na estrada. Percebemos
que não poderíamos mais fazer
o jornal totalmente livre que fazíamos
no início, não queríamos
fazer um jornal oficialista, isto nos desagradava
profundamente. Por isto não tenho saudades
de comandar o jornal. Cumprimos uma etapa de
nossa vida e agora estamos cumprindo outra
que é a formação escolar
dos filhos, enquanto divido minha experiência
com meus alunos. Para alegria minha, quase
todo semestre há algum aluno de Penápolis
em minha sala, fico muito feliz. O jornalismo
de Penápolis ainda vai crescer muito.
No ano passado era o Lino, da Marmoraria, e
o Alexandre Passafaro, agora é o Frederico
Di Giácomo. E são meninos estudiosos,
que escrevem bem e sabem o que querem.
10) Com o advento da internet, você acha
que os jornais impressos estão com os
dias contados?
Não. Ninguém está com
os dias contados. Quando apareceu o livro impresso,
no Séc.XV, muitos achavam que o teatro
ia acabar porque as pessoas poderiam ler as
peças nos livros. Com o surgimento da
Televisão em 1950, alguns falavam no
fim do Rádio que fazia sucesso desde
1920...agora, com a Internet, a partir de 1995,
dizem que os jornais vão acabar. É tudo
bobagem. A Internet não divide a mídia,
ela a somatiza, porém exige uma linguagem
própria. É sobre isto que estou
trabalhando no meu projeto de Doutorado. O
papel é insubstituível como suporte
para armazenamento de conteúdos, mas
a Internet, com a agilidade da cobertura instantânea
e o aprofundamento possibilitado pelo hipertexto,
obriga os jornais a se modernizarem, a correrem
atrás da notícia, contextualizando
o fato e explicando-o ao leitor de modo claro,
objetivo, preciso. A Internet só faz
bem aos jornais. Por outro lado, os estudantes
de jornalismo precisam ter habilidades multimídias
porque ninguém mais trabalha só para
jornal, só para rádio, só para
televisão, só para Internet.
Os grandes grupos estão se fundindo,
por razões econômicas, e o profissional
do jornalismo precisa estar equipado para ter
essa versatilidade de escrever na linguagem
adequada a qualquer um desses meios. Com o
novo currículo, a partir do próximo
ano, estamos tentando dar este salto de qualidade
no ensino de jornalismo aqui na Unesp/Bauru.
Minha atual dissciplina, por exemplo ("Técnica
de Reportagem, Entrevista e Pesquisa Jornalística")
vai se chamar "Introdução
ao Jornalismo no Rádio, na Televisão,
na Internet e no Impresso".
11) Na sua opinião, qual deveria ser
a linha editorial adotada pelo Interior?
É preciso ser um jornal totalmente
comunitário, onde os moradores dos bairros,
os dirigentes populares possam até mesmo
sugerir as pautas de interesse local para a
cobertura do jornal; um jornal que levante
os assuntos e não os abandone enquanto
não forem solucionados; um jornal que
cubra também os poderes municipais,
mas não com a ênfase de um diário
oficial municipal, procurando sempre repercutir
as notícias oficiais com a população.
O ideal seria contar com equipe para reescrever
os releases, a fim de que os jornais não
saiam todos iguais, com as mesmas informações
sobre o noticiário oficial, isto cansa
o leitor que acaba não vendo nenhuma
diferença ou vantagem entre um veículo
e outro. É preciso conquistar uma identidade
própria, ter uma cara, ter uma interface
com a população, sobretudo é preciso
fazer jornal não só para bajular
os poderosos mas também para os excluídos,
os pobres que não podem pagar, as entidades
assistenciais que não têm anúncios
nem editais etc. Também é preciso
ter fé e trabalhar muito, mesmo com
a certeza de que, muitas vezes, seu esforço
não será compreendido nem reconhecido.
Mas vale a pena.
12) Qual seria sua mensagem final aos amigos
que continuam cuidando do "seu filho",
agora com 22 anos de existência?
É como eu disse, que vocês continuem
tratando essa criança com muito amor
e carinho. Esta é a melhor receita.
Fico feliz por ver que, agora, à frente
do jornal, está uma pessoa comprometida
com Penápolis, que conhece bem a cidade
e melhor ainda a profissão e que está tendo
a sabedoria de, embora com muito esforço,
cursar uma universidade para se especializar
no Jornalismo, como é o caso do Gilson
Ramos, a quem parabenizo - bem como a toda
a sua equipe - neste auspicioso 22º aniversário
do querido interior. O padroeiro São
Francisco de Assis estará sempre abençoando
o trabalho de vocês. Tenho certeza que
o progresso será visível já na
edição especial do 23º aniversário
do jornal. Forte abraço a todos, inclusive
aos queridos leitores de nossa Penápolis.
Escrevam-me pedrocelsocampos@terra.com.br que terei prazer em responder.