Trabalho
de aproveitamento do curso de Jornalismo Literário
Avançado do Programa de Pós-Graduação
(Doutorado-Aluno Especial) em Jornalismo da
Escola de Comunicação e Artes-ECA,
da Universidade de São Paulo
USP.
São
Paulo - 2003
Sumário
Este trabalho destina-se a estudar
as características da entrevista no jornalismo,
com foco especial no Jornalismo Literário
Avançado. A construção de perfis,
as histórias de vida, as longas entrevistas
para os livros-reportagem ou as matérias
especiais que utilizam as técnicas narrativas
do JLA exigem cuidados específicos no trato
com a fonte de informação. Na verdade
trata-se de estabelecer um contato mais profundo
para o necessário trabalho de imersão,
na prospecção do material desejado.
É diferente do rápido telefonema ou
bate-papo com a fonte apenas para complementar uma
informação ou mesmo para uma ligeira
abordagem de assunto em voga. Tratar da entrevista
em profundidade é o que pretendemos nesta
reflexão, tendo em vista o amplo espaço
que se abre para o Jornalismo Literário Avançado
em nosso país.
Résumé
Ce
travail soccupe d´étudier les
caractéristiques de l´enterview dans
le journalisme, en particulier le Journalisme Littéraire
Avancé (JLA). La construction des profils,
les histoires de vie, les longues enterviews pour
le livre-reportage ou les matières spécialles
qui utilisent les tecniques narratives du JLA exigent
le sousi avec les sources d´information. Vraiment,
il sagit d´établir un contact
plus profond avec les sources pour en avoir un travail
d´immersion dans la prospection du matériel
desiré. Différemment d´un coupt
de téléphone rapide ou dun bavardage
où lenvie nest que celui de completer
une information ou doffrir des apports à
un théme en vogue, lenterview qui sera
traitée ici envisage une saisie en profondeur.
Une enterview en profondeur, voilà le bût
de notre reflexion, daprès le large
espace qui souvre en Journalisme Littéraire
Avancé dans notre pays.
1. Introdução......................................................................................04
2. Conceituação.................................................................................07
3. Definição.......................................................................................16
4. Estratégias....................................................................................20
5. A Entrevista no JLA........................................................................25
6. Cuidados.......................................................................................39
7. Gravar ou anotar.............................................................................42
8. Direitos do entrevistado...................................................................44
9. Recomendações finais....................................................................46
10. Conclusão....................................................................................49
11. Bibliografia....................................................................................50
1. Introdução
Moyers:
Quem interpreta a divindade inerente à
natureza, para nós, hoje? Quem são
nossos xamãs? Quem interpreta as coisas
que não são vistas?
Campbell: Essa é a função
do artista. O artista é aquele que
transmite os mitos, hoje. Mas ele precisa
ser um artista que compreenda a mitologia
e a humanidade, e não simplesmente
um sociólogo com um programa.
Entrevista
de Joseph Campbell a
Bill Moyers em 1985 e 1986
Entre
as definições possíveis do
termo entrevista, a explicação
que mais se destaca é que se trata de um
diálogo. No jornalismo, é
um diálogo voltado à produção
de informação a ser publicada ou não.
Pessoalmente ou por outros meios, duas pessoas se
comunicam com a finalidade de produzir informação
destinada a uma terceira entidade, o receptor. Do
mesmo modo que são muitas as definições
de entrevista, também são
inúmeras as formas de entrevistar. No entanto,
é preciso levar em conta a finalidade da
entrevista, mesmo no âmbito do próprio
jornalismo. Fala-se do jornalismo convencional,
representado pela imprensa quotidiana, e do jornalismo
literário, que trabalha os fatos reais com
as técnicas da literatura.
Como é próprio dos países periféricos
seja na cultura, seja na economia, seja nos
costumes o jornalismo literário foi
importado dos EUA, onde surgiu nos anos 1920, chegando
com bastante atraso ao Brasil, na verdade só
depois da Segunda Guerra Mundial. O novo modo de
fazer jornalismo começou a se instalar no
país, através do gênero interpretativo,
em meados do século XX, e, na década
de 1960, tivemos, então, bons exemplos de
um jornalismo voltado para a literatura sem fugir
do real, como foi o caso da revista Realidade.
Na área acadêmica o novo jornalismo
passou a ser estudado com mais empenho. Afinal,
ele rompia com o padrão da objetividade implantado
no Séc. XVIII, pelos ingleses, abrindo espaço
para a criatividade, a emoção, a presença
do jornalista no texto, mesmo quando ele usa a terceira
pessoa em sua narrativa. A ECA-USP ofereceu uma
contribuição ainda maior, através
do Jornalismo Literário Avançado proposto
pelo professor Edvaldo Pereira Lima, a partir de
sua tese de doutoramento em 1990, ancorada na Teoria
Geral de Sistemas. Levando em conta que tudo está
integrado, compreenderemos que só através
do aprofundamento o jornalismo poderá cumprir
o seu verdadeiro e legítimo papel de colocar-se
a serviço da sociedade. Esta seria a verdadeira
liberdade de imprensa (e não de empresa).
O instrumento de expressão do Jornalismo
Literário Avançado é a Grande
Reportagem. Ela pode se materializar em cadernos
jornalísticos, em revistas periódicas
ou no chamado livro-reportagem. Este último
é o modo mais comum, pelo menos nos EUA e
na Europa, enquanto no Brasil algumas publicações
periódicas já começam a financiar
a produção de livros-reportagem sobre
temas de grande interesse comum, como vem fazendo
a revista Super Interessante.
Neste trabalho não vamos tratar da narrativa
ou das formas de expressão do JLA. Escolhemos,
como tema de reflexão, um elemento essencial
e indispensável ao jornalismo em si: a entrevista.
Vamos discutir as técnicas de entrevista,
as estratégias de ação, as
recomendações práticas de gravar
ou não gravar e também os direitos
dos entrevistados que os jornalistas devem respeitar.
O Brasil ainda não tem um código próprio
a respeito, mas não custa importar
para fins de ética e cidadania, portanto
para o Bem o código já pronto
da imprensa americana, pois trata-se de preservar
o respeito às pessoas, aos seres humanos,
à raça humana que, no final das contas,
é uma só: estamos falando da integração
delineada pela Teoria Geral de Sistemas.
Procuramos, neste trabalho, ir além da entrevista
jornalística em geral, tentando focar as
características específicas da entrevista
voltada para o jornalismo literário. Não
se trata, naturalmente, de esgotar oassunto,
mas a proposta é um olhar geral sobre a entrevista
no jornalismo e um olhar específico no modo
de entrevistar quando se trata de fazer uma biografia,
um perfil, um livro-reportagem, uma abordagem mais
longa, mais demorada, mais profunda. Com este objetivo
estaremos observando as técnicas usadas por
grandes mestres do livro-reportagem como Capote,
Mitchell, Mailer, Fernando Morais, Sérgio
Vilas Boas, Pereira Lima etc.
Esperamos assim contribuir, modestamente, com a
divulgação e o estudo do JLA em nossas
escolas de jornalismo. Quem sabe outros colegas,
tratando da narrativa e demais técnicas do
JLA, ajudassem a compor um roteiro epistemológico
sobre os modos de produzir o JLA, ampliando substancialmente
esta contribuição para o estudo do
jornalismo em nossos dias. É um projeto a
ser, talvez, examinado, sob a coordenação
do Prof. Dr. Edvaldo Pereira Lima.
Enquanto a idéia não se torna real,
aqui vai a menor de todas as contribuições,
fruto de intensa pesquisa a partir das apaixonantes
aulas de JLA na ECA, neste segundo semestre de 2003,
ao lado de colegas igualmente sensíveis,
amigos e inesquecíveis.
2. Conceituação
O objeto de estudo, neste trabalho, é a entrevista
jornalística. Mas a entrevista destinada
a subsidiar a narrativa do Jornalismo Literário
Avançado. Portanto, antes de definir entrevista,
devemos conceituar o JLA. Sabendo em que consiste
essa modalidade de jornalismo, seus objetivos, seu
referencial teórico, sua história,
poderemos fazer um mapa mental bem mais
claro a respeito das técnicas da entrevista
voltada ao JLA. Então sim veremos os diversos
tipos de entrevista e suascaracterísticas.
Inicialmente é bom esclarecer que não
estamos tratando, aqui, de produzir matérias
sobre literatura, como se faz no jornal convencional
para os segundos cadernos. O Jornalismo Literário
a que nos referimos é disciplina acadêmica
reconhecida nos melhores centros de estudos universitários
dos EUA e da Europa. Mais ainda, estamos tratando
do Jornalismo Literário Avançado,
uma teoria genuinamente brasileira como veremos
neste trabalho. Iniciemos com a gênese do
jornalismo interpretativo para compreender melhor
o fenômeno.
A grande-reportagem, elaborada com recursos literários,
muitas vezes na forma de livro-reportagem, surgiu
nos EUA, no início dos anos 20 do século
passado. Com o início da Primeira Guerra
Mundial, em 1919, surge entre os imigrantes que
tinham ido fazer a América uma
forte demanda por notícias mais explicativas
e esclarecedoras sobre o envolvimento dos países
europeus no conflito. Utilizando os recursos do
telégrafo, as agências de notícia,
já em plena atividade, tratam de produzir
matérias mais interpretativas,
mais contextualizadas, mais detalhadas, através
de seus correspondentes na Europa. Toda a imprensa
norte-americana passa a observar esses critérios
de aprofundamento. Surge, nesse contexto, em 1923,
a revista Time, toda ela voltada para o novo modo
de fazer jornalismo, sempre buscando uma compreensão
mais profunda da realidade. Não só
da guerra, mas também dos problemas norte-americanos
e do mundo. Mais tarde surgiriam publicações
semelhantes (The New Yorker, nos EUA) em vários
países, como Der Spiegel, na Alemanha; Cambio
16, na Espanha; L´Express, na França;
L´Europeo, na Itália; Veja, no Brasil
(Cf.Pereira Lima, 1995, p.25).
Esse New Journalism norte-americano revelaria grandes
nomes na primeira metade do século XX como
John Reed, Trumam Capote, Tom Wolfe, Gay Talese,
Joseph Mitchell, Norman Mailer, Ernest Hemingaw
etc. Na América Latina destacaram-se Gabriel
Garcia Marques, na Colômbia, e José
Martí, em Cuba.
O Brasil só conseguiu experimentar o Novo
Jornalismo ou Jornalismo de Autor, após a
Segunda Guerra Mundial. Entretanto, a partir de
1928 o país já contava com a revista
de reportagens ilustradas O Cruzeiro, dos Diários
Associados (de Assis Chateaubriand), que teve seu
auge nos anos 50 e início da década
seguinte, projetando nomes como David Nasser, Joel
Silveira, Edmar Morel entre outros. Na verdade a
modernização da imprensa brasileira
começou em 1951, quando Pompeu de Souza,
voltando dos EUA, implantou o lead no Diário
Carioca, onde surgiu, também, o primeiro
Manual de Redação. Logo a Tribuna
da Imprensa fez sua reforma. Em 1956 Alberto Dines
iniciou ampla reestruturação no Jornal
do Brasil que só terminaria nos anos 60,
com a introdução de duas novidades:
o Caderno Especial aos domingos, com matérias
arredondadas, e o Departamento de Pesquisa
e Documentação, seguindo o modelo
norte-americano e originando os atuais Institutos
de Pesquisa ligados aos grandes jornais. Essas duas
iniciativas contribuíram significativamente
com o início do jornalismo interpretativo
em nosso país. (Cf.Pereira Lima, 1995,p.
51).
As inovações de Pompeu de Souza, Alberto
Dines e outros foram bem recebidas e acabaram influenciando,
nos anos 60, experiências editorias de vulto
como a revista Realidade (1966) e o Jornal da Tarde
(1966) que exibiram o verdadeiro potencial do jornalismo
literário onde a qualidade do texto, a partir
de intensa apuração de campo, com
entrevistas em profundidade, era devidamente suficiente
para manter o interesse do leitor. Nomes como José
Hamilton Ribeiro, Luiz Fernando Mercadante, Domingos
Meirelles, Joel Silveira, Mauro Santayana etc honraram
a imprensa brasileira com textos inesquecíveis
onde a criatividade e a capacidade de percepção
da realidade revelam o traço da genialidade
a serviço do melhor jornalismo. Não
se tratava, como se imagina hoje, de ilustrar fartamente
as matérias sob a alegação
de que as pessoas gostam de ver figura
como se a obrigação do jornalismo
fosse competir com os recursos imagéticos
da TV ou com a rapidez da Internet. A técnica
desse novo jornalismo era observar bem a realidade
e saber escrever com emoção e criatividade,
tarefa restrita apenas aos melhores repórteres,
daí o nome de Jornalismo de Autor...aquele
texto capaz de prender o leitor do começo
ao fim não por estar fartamente ilustrado
(nada contra as ilustrações), mas
por estar muito bem escrito.
Também na área editorial a segunda
metade do século revelou nomes de destaque
no livro-reportagem, como Fernando Morais, Zuenir
Ventura, Caco Barcellos, Ruy Castro etc.
A demora da imprensa nacional para introduzir o
Novo Jornalismo certamente pode ser explicada pelas
condições sócio-econômicas
do Brasil. Estamos falando de um país que,
na primeira década do século, tinha
a maior parte da sua população concentrada
na área rural, com elevado índice
de analfabetos. É com a industrialização,
no final dos anos 50, que o país inicia um
acelerado e descontrolado processo de urbanização,
passando a investir mais seriamente na alfabetização
até chegarmos, no final do século,
à obrigatoriedade legal de manter as crianças
na escola básica. Naturalmente não
se pode pensar o jornalismo, em suas várias
manifestações e gêneros, sem
pensar as condições de recepção
do produto. A capacidade de evolução
dos meios impressos está intimamente imbricada
com o nível educacional, vale dizer, com
a modernização do país. Conforme
Renato Ortiz, (Cf. Ortiz,1994,p.185) o analfabetismo
atrasou o ingresso do Brasil na modernidade. O esforço
dos modernistas de 1922 só alcançou
resultados práticos um quarto de século
depois, com a industrialização, enquanto
na Europa o modernismo da década de 20 era
apoiado pela expansão da sociedade industrial
com efetivo progresso material e a mobilidade da
vida urbana, o mesmo ocorrendo nos Estados Unidos
após a quebra da bolsa em 1929. Embora esnobado
inicialmente pelos intelectuais, o cinema americano
foi o braço forte que projetou a cultura
daquele país para todo o mundo, fazendo deslanchar
a chamada indústria cultural,
fortemente apoiada na publicidade.
Enquanto isto, no Brasil, os índices de analfabetismo
eram muito elevados, desde a virada do século,
segundo dados oficiais. Em 1890, 84% da população
era analfabeta; em 1920: 75%; em 1940: 57% e hoje,
com tanta renda concentrada, com o país fabricando
aviões na China, ainda temos cerca de 30%
de analfabetos. É preciso ter isto em mente
quando falamos em novas formas de narrativa jornalística.
Caberia até discutir porque a Universidade
não se envolve mais diretamente no combate
sem tréguas ao analfabetismo. Existem, no
mundo, muitas sugestões a respeito. Uma delas
é do professor Domenico de Masi, cujos alunos,
na Universidade de Bolonha, além de um Trabalho
de Conclusão de Curso também têm
de comprovar a alfabetização de pelo
menos 10 pessoas.
Na área acadêmica, em nosso país,
o Jornalismo Literário recebeu boa acolhida
junto ao Núcleo de Epistemologia da Escola
de Comunicação e Artes-ECA, da Universidade
de São Paulo, sob o comando da pesquisadora
Cremilda Medina.
Mas foi um antigo leitor de Realidade, que também
havia morado e estudado nos EUA, que não
só discutiu epistemologicamente o jornalismo
literário em tese de doutoramento, orientada
pelo professor Gaudêncio Torquato, na ECA,
em 1990, mas introduziu uma interface
genuinamente brasileira na matéria, adaptando
o conceito de Histórias de Vida e aplicando
um tratamento teórico específico,
através da Teoria Geral de Sistemas (formulada
nos anos 20 pelo austríaco Ludwig Von Bertalanffy).
Estamos falando do Prof. Dr. Edvaldo Pereira Lima,
criador do Jornalismo Literário Avançado.
Enquanto o Jornalismo Literário trata o fato
real com recursos literários, o Jornalismo
Literário Avançado emprega recursos
inovadores como a Escrita Total e a História
de Vida, aproveitando os pressupostos míticos
da Jornada do Herói, numa abordagem transdisciplinar,
complexa, integral e sistêmica da realidade.
Segundo Pereira Lima, um dos diferenciais desta
metodologia é trazer à tona, além
dos contextos sociais e históricos, os elementos
da trajetória humana que muitas vezes não
estão visíveis, o que ajuda a elucidar
os jogos de força que constroem cada história
em particular. (Cf.Martinez, 2002).
Com vários livros publicados destacando-se
o clássico Páginas Ampliadas que acaba
de ser relançado, agora pela Editora Manole,
baseado em sua tese de doutoramento Edvaldo
Pereira Lima é professor da ECA e diretor
do Curso de Jornalismo da Universidade de Uberaba,
tendo feito pós-doutoramento, recentemente,
na Universidade de Toronto, no Canadá. Está
fortemente envolvido não só com a
divulgação do JLA através do
livro-reportagem, mas também com Organizações
Não Governamentais de todo o mundo que cultivam
a paz como corolário da própria Teoria
Geral de Sistemas.
Basicamente a TGS defende que tudo está integrado.
Homem e Natureza fazem parte de um círculo
que abrange todos os elementos da vida, incluindo
os reinos animal, vegetal e mineral. A sociedade
não subsiste sem essa interdependência,
essa integração dos indivíduos,
quer eles queiram ou não. Entretanto, nos
últimos 300 anos, a política do desenvolvimento
a qualquer preço, voltada apenas para a acumulação
de riquezas, tem dilapidado perigosamente a natureza
além de introduzir no convívio humano
uma brutal segregação social devido
ao processo de acumulação de capital,
a tal ponto que nunca se viu tão poucas pessoas
riquíssimas e tantos milhões de seres
humanos que não têm o necessário
para comer, para morar, para vestir, vivendo como
bárbaros. Dados da ONU revelam que aproximadamente
três bilhões de pessoas (metade da
população mundial), sobrevivem com
menos de dois dólares por dia. Desse modo,
a realidade crua e nua mostra-nos que não
existem apenas os três mundos filosóficos
de Marx Weber (o mundo da vida, o meu mundo, o mundo
do outro). Existem vários estamentos
de mundo, várias gradações
de mundo, várias situações
de mundo não apenas entre países desenvolvidos
e países sub-desenvolvidos. As diferenças
já não estão entre as nações,
estão escandalosamente presentes em nosso
país, em nossa cidade, em nosso bairro, em
nossa rua, dentro de nossas casas. Os vários
mundos (do trabalho, da cultura, da família,
do lazer, da saúde etc) representados pelas
máscaras sociais que usamos,
como no mito de Kaspar Hauser que descreve a fabricação
da realidade, se sobrepõem, se relacionam,
se intercomunicam, interagem entre si porque estão
todos imbricados com o mundo em si, com a própria
existência do homem sobre a terra. Com a realidade
virtual, o próprio conceito de distância
perdeu sentido. O homem já não está
mais separado pelo espaço rural
e pelo espaço urbano, já
não faz diferença estar caminhando
numa rua de São Paulo ou de Nova York, Paris,
Londres...a comunicação instantânea
encolheu o mundo, eliminou os espaços, liquidou
o tempo. A idéia de espaço-tempo
perde a referencialidade quando comparamos a viagem
na diligência e o deslocamento no avião
a jato. Todos esses conceitos de modernidade precisam
estar em exame quando estudamos a própria
modernização do jornalismo no contexto
do mundo atual. Precisamos saber que mundo é
este e onde nós nos encaixamos nele.
O mundo real tornou-se um lugar de concorrência
feroz. Com ou sem Internet, celular, conhecimentos
de física quântica, transporte a jato,
o homem moderno sai de casa tal qual seu
ancestral das cavernas para caçar
um lugar ao sol. A qualquer preço. Quer voltar
para casa no final do dia com a caça sobre
os ombros para alimentar, fortalecer e perpetuar
a prole. No início do século o velho
Freud já nos alertava que o próximo
não é, na verdade, aquela pessoa afável,
cooperadora, solidária, amiga que parece
ser. É também o concorrente, aquele
que na primeira esquina pode nos assaltar, que quer
ter o nosso trabalho sem pagar o salário
justo, que rouba o sexo da mulher sem permissão,
que arranca o couro do próximo com juros
escorchantes, que faz a guerra apenas para se enriquecer,
que banaliza a morte, que espalha a calúnia,
a mentira, que usa a força para humilhar
e subjugar o mais fraco....embora rezando piamente
nos encontros dominicais.
Pois bem, pregar e defender uma teoria que fala
de paz, como a Teoria Geral de Sistemas, num mundo
assim, é ressuscitar a ousadia dos profetas.
Mais difícil ainda é agir assim no
terreno minado da vida acadêmica onde sobram
os preconceitos e crepita, vivazmente, a fogueira
das vaidades.
É um desafio, pois, defender a Teoria Geral
de Sistemas. Hoje muito mais que nos anos 20, quando
foi criada.
Aplicá-la ao jornalismo, então, parece
quase uma temeridade quando vemos um mercado muito
mais preocupado com interesses econômicos,
políticos e financeiros que com o legítimo
destino do jornalismo que é servir ao público,
levar o melhor ao público, com apuração
correta, com honestidade de princípios, sem
preguiça de descer fundo nas questões
de interesse público. Infelizmente não
é o que vemos. Acabamos nos iludindo com
a idéia de liberdade de imprensa
quando, como bem observou Cláudio Abramo,
o que temos, hoje, é, meramente, liberdade
de empresa. O jornalista é treinado
a jogar conforme as regras do jogo, isto é,
conforme a política da casa onde trabalha.
Ele acaba compreendendo que o jornal é do
dono, não do jornalista. Entretanto, Abramo
adverte: Antes de ser jornalista, sou um ser
político. O que me interessa é mudar
a realidade. (Cf. Abramo, 1988,p.120).
A dificuldade do jornal convencional para aprofundar-se
no jornalismo de autor, seja por sua dinamicidade
operacional, custo do espaço, custo das equipes
ou mesmo interesses inconfessáveis, acaba
abrindo amplo espaço para o livro-reportagem,
onde o autor não tem que prestar contas ao
patrão, mas à sua própria consciência
e ao interesse do leitor.
É para abastecer o livro-reportagem que queremos
estudar a entrevista em profundidade. A diferença
em relação ao jornal convencional
já começa na pauta. Desta vez a angulação
não virá eivada de segundas intenções,
permeada de viés autoritário, recheada
de preconceitos de toda ordem, ideologicamente orientada.
Será uma pauta mais livre, mais humana, mais
leve, mais solta. Jamais será uma camisa-de-força
a engessar a criatividade do profissional.
A partir de uma pauta assim, é possível
fazer um trabalho igualmente mais livre e mais humano
onde o que conta não é o número
de perguntas nem o tempo contado no relógio,
mas a disponibilidade para uma boa e longa conversa
no próprio ambiente do entrevistado. De preferência
não apenas uma conversa, mas uma convivência
de alguns dias, meses ou anos conforme o
caso - para que desse mergulho possam
emergir não meras respostas a um questionário
frio, mas uma história de vida, uma escrita
total, uma jornada heróica que estabelece,
de pronto, uma interface com o leitor que se verá
potencialmente retratado na situação
reportada.
Isto explica o sucesso dos flash books americanos
que abastecem o leitor com reportagens de aprofundamento,
feitas em poucas semanas ou meses, sobre assuntos
de impacto, como foi, por sinal, o caso dos atentados
de 11 de setembro nos EUA.
3.
Definição
Como deverá ser a entrevista ideal para o
livro-reportagem, tendo-se em conta que não
é possível fazer jornalismo, velho
ou novo, sem entrevista?
De início, podemos estabelecer termos de
comparação entre os vários
tipos possíveis de entrevista. Estamos falando
da técnica de obter matérias de interesse
jornalístico por meio de perguntas e respostas.
A entrevista é um dos principais instrumentos
de pesquisa do repórter. Com os dados nela
obtidos ele pode montar uma reportagem de texto
corrido em que as declarações são
citadas entre aspas ou pode montar um texto tipo
perguntas e respostas, também chamado pingue-pongue.
Segundo Luiz Amaral podem-se distinguir dois tipos
de entrevista: a de informação ou
opinião, quando entrevistamos uma autoridade,
um líder ou um especialista, e a de perfil
(na verdade o autor refere-se a personalidade,
sendo o termo perfil uma característica
do jornalismo literário),quando entrevistamos
uma personalidade para mostrar como ela vive e não
apenas para revelar opiniões ou para dar
informações. Em ambos os casos existe
o interesse do leitor e o jornalista será
sempre um intermediário representando o seu
leitor (ou receptor) diante do entrevistado. Na
primeira situação, quando se trata
de divulgar informações e opiniões,
mesmo para produzir uma simples nota, é conveniente
e necessário o jornalista repercutir o material
com outras fontes envolvidas com o fato, checando
a informação. Na segunda situação,
ele aconselha o jornalista a conduzir o interlocutor
a revelar-se tal qual é: Ao invés
de enfatizar apenas idéias e opiniões,
o que interessa é o retrato de corpo inteiro
do entrevistado. Deve-se descrever o ambiente em
que a pessoa vive, os gostos, preferências,
aversões, atividades atuais, planos, sonhos...como
se vestem, quais seus pequenos prazeres cotidianos...O
entrevistador necessita ser bom observador e ter,
entre outras coisas, excelente memória visual(Cf.Amaral,1987,p.81).
Fábio Altman diz que a entrevista é
a essência do jornalismo...ela transforma
o cidadão comum em líder, dono da
palavra, professor, uma pessoa incomum(Cf.
Altman,1995,p.1).
Em Técnicas de Codificação
em Jornalismo-Redação, Captação
e Edição do Jornal Diário,
o professor da PUC-Campinas, Mário Erbolato,
conta que as origens da entrevista remontam a 1836,
quando James Gordon Bennet fez perguntas a Rosina
Townsend, proprietária de um prostíbulo
de Nova York no qual ocorrera um assassinato classificado,
então, como sensacional(Cf.Erbolato,1991,p.157).
Um dos requisitos mais importantes, na entrevista,
é a autenticidade, isto é, que as
declarações atribuídas ao entrevistado
possam ser facilmente provadas (Cf. Bahia, 1990).
Carlos Tramontina lembra que todo entrevistador
faz a mesma coisa: perguntas. Mas cada um desenvolve
um estilo próprio, prepara-se de maneira
diferente e usa de variadas estratégias para
conseguir boas respostas. Afinal, não há
boa entrevista sem bom entrevistador(Cf.Tramontina,1996,p.15).
Perguntas frouxas e equivocadas pressupõem
respostas do mesmo teor. A inteligência das
questões e a descoberta do mote correto podem
transformar conversas aparentemente inócuas
em grandes depoimentos(Cf.Altman,1995.p.1). Pode-se
dar como exemplo a série de encontros informais
entre o ex-presidente Figueiredo e o repórter
Orlando Brito em caminhadas pela praia de Copacabana
ou a fita de vídeo que ele concordou em gravar
num fim de festa, em 1997, onde fez revelações
sobre as entranhas do poder militar. Em agosto de
1994, com o microfone aberto e a imagem fora do
ar, Carlos Monforte, da TV Globo, transmitiu para
o país confidências escabrosas do então
ministro Rubens Ricupero. (Todos se lembram: O
que é bom a gente mostra, o que é
ruim a gente esconde).
Edgard Morin define a entrevista como uma comunicação
pessoal, realizada com objetivo de informação.
O professor Mário Erbolato (obra citada,p.157)
lembra que a entrevista é um gênero
jornalístico que requer técnica e
capacidade profissional. Se não for bem conduzida,
redundará em fracasso.
Segundo Alexandre Garcia, citado no livro de Tramontina,
(obra citada, p.28) quem mais perde com o fracasso
de uma entrevista é o entrevistador porque
no dia seguinte ele vai fazer a mesma coisa, enquanto
o entrevistado sai de cena.
Entrevistar não é somente fazer uma
pergunta, esperar uma resposta e juntar à
resposta outra pergunta. É um exercício
profissional trabalhoso e ingrato. Quase sempre
quanto maior é o interesse do jornal em conseguir
a entrevista, menor o do entrevistado em concedê-la,
e vice-versa. Na medida que cresce o interesse do
jornal, crescem também os problemas do entrevistador.(Cf.
Amaral, 1997,p.125). Amaral cita, em seguida, Joseph
Folliet: Esse gênero exige muita intuição,
delicadeza, perfeito conhecimento do assunto, do
entrevistado, de sua vida e de sua obra, uma grande
probidade - um exterior, enfim, que inspire confiança
e incite à confidência.1
Na opinião do professor de jornalismo da
Universidade Federal de Santa Catarina, Nilson Lage
(Cf.Lage,2001,p.73), a palavra entrevista é
ambígua. Ela tanto significa o diálogo
com a fonte, como a matéria publicada.
São muitas as definições possíveis
para o termo entrevista. Entretanto,
qual o melhor modo de entrevistar? Quais os procedimentos
adequados? Que estratégias usar para obter
um bom depoimento? Vejamos a seguir.
4.
Estratégias
Grandes entrevistadores adquirem técnicas
que transformam o jogo de perguntas e respostas
numa espécie de xadrez, conseguindo arrancar
declarações sem ferir a ética
- que o entrevistado não pretendia fazer.
Mas não basta ter experiência. É
preciso trabalhar duro antes da entrevista, pesquisando
tudo sobre os temas a serem tratados e sobre o entrevistado.
Depois de bem preparado (de preferência um
ou mais dias antes) o entrevistador deve fazer um
roteiro com começo, meio e fim. O objetivo
não é bitolar e restringir o desempenho
do entrevistador, mas ser uma base referencial para
evitar brancos e atropelos.
É importante que o entrevistador seja o condutor
da entrevista. Mas só estará no comando
se estiver bem informado e bem preparado. É
estimulante para o entrevistado, nos momentos em
que a fala se interrompe, perceber que o entrevistador
está compreendendo o enunciado...se o entrevistado
declarou que a economia vai bem, uma observação
óbvia, tal como o senhor é então
otimista quanto aos acontecimentos do futuro próximo
vale não por seu conteúdo, mas pela
demonstração de interesse e entendimento.
Dependendo, no entanto, das circunstâncias,
pode ser conveniente apresentar um dado de contestação,
no momento adequado, para obter maior espontaneidade,
expansão ou aprofundamento, ensina
o professor Lage. (Cf.Lage,2001,p.82).
O ideal é que a entrevista flua espontaneamente,
cada resposta permitindo o encaixe da
pergunta seguinte.
Afirma Carlos Tramontina que a estratégia
mais produtiva é aquela baseada na informação:
jamais um entrevistado experiente conseguirá
fugir das perguntas ou esconder os fatos se diante
dele estiver sentado um entrevistador cheio de informações
(obra citada, p.215).
O exemplo a seguir confirma a correta estratégia
do bom nível de informação:
Em fevereiro de 1969, ao entrevistar o temível
General Vo Nguyen Giap, em Hanói, sobre a
guerra que ele comandava, no Vietnã do Norte,
contra os americanos e os sul-vietnamitas, entre
o final dos anos 60 e início dos anos 70,
a jornalista italiana Oriana Falacci, trabalhando
para LEuropeo, levou o líder
vietnamita a revelar, com franqueza inédita,
tudo o que pensava sobre seus inimigos americanos,
conforme conta Fábio Altman (obra citada,
p.305).
Bem preparada para a entrevista, Oriana teve o cuidado
de levar para o tenso ambiente do seu interlocutor
duas companheiras que faziam as anotações
enquanto ela enfrentava o olhar fixo do General.
Nesses casos é impossível ao repórter
anotar e dialogar ao mesmo tempo.
Foi nesse clima que a jornalista italiana ousou
contradizer o entrevistado classificando de derrota
do Vietnã do Norte a ofensiva do Tet.
Segundo ela contou depois, o General se levantou
nervoso, caminhou ao redor da mesa e, com braços
estendidos, exclamou: Diga isto à Frente
de Libertação.
Oriana respondeu: Primeiro estou perguntando
ao senhor, General.
É prática usual entre entrevistadores
mais experientes usar a estratégia de começar
a entrevista com atitudes ou comentários
bem humorados para deixar o interlocutor à
vontade, referindo-se a um jogo importante ou a
algo curioso e de conhecimento comum.
Em 27 de junho de 1989, ao entrevistar o Deputado
Ulisses Guimarães, Jô Soares pediu
ao garçom que lhe servisse uma dose de poire
(licor de pêra), bebida preferida do Sr. Diretas
e de seus colaboradores mais próximos.
No dia seguinte, ao entrevistar outro candidato
à Presidência da República,
Jô chamou a atenção para o sapato
Vulcabrás 752 que Paulo Maluf usava e do
qual era garoto-propaganda.
Para Alexandre Garcia, constrangimentos entre quem
pergunta e quem responde fazem parte da atividade
da imprensa. Geralmente os homens públicos,
que têm mais experiência no contato
com a mídia, não se surpreendem. Esse
tipo de entrevista é definida como confronto
por Nilson Lage: É a entrevista em
que o repórter assume o papel de inquisidor,
despejando sobre o entrevistado acusações
e contra-argumentando, eventualmente com veemência,
com base em algum dossiê ou conjunto acusatório.
O repórter atua, então, como promotor
em um julgamento informal. A tática é
comum em jornalismo panfletário, quando se
pretende ouvir o outro lado sem lhe
dar, na verdade, condições razoáveis
de expor seus pontos de vista. O autor reconhece
que muitas vezes esse tipo de entrevista pode transformar-se
num espetáculo de constrangimento, principalmente
quando transmitida ao vivo, no rádio ou na
televisão.(Cf. obra citada, p.76).
Garcia considera que a pergunta embaraçosa
pode ter duas conseqüências: desmontar
o entrevistado a ponto dele contar tudo o que sabe,
ou irritá-lo a ponto de passar a responder
tudo com monossílabos, matando a entrevista
(Cf. Tramontina, 1996,p.21).
Alexandre recomenda que o repórter estude
o perfil psicológico do entrevistado para
saber se deve conduzir a entrevista batendo
ou assoprando. Mas é contra as perguntas
gratuitas e provocativas. Ele ensina os iniciantes
a prepararem emboscadas, no bom sentido,
claro, para o entrevistado: Você faz uma pergunta
sabendo de antemão qual será a resposta,
porque ela é óbvia, previsível,
ou porque já foi dada antes. Logo em seguida
faz a pergunta-chave da entrevista. (Tramontina,
1996, p.23).
É uma estratégia que se aplica melhor
às entrevistas longas.
Às vezes é o caso de entrar direto
no assunto, como fizeram os repórteres de
Veja ao entrevistar Pedro Collor a quem a mãe,
Leda, vivia pedindo que fosse ao médico examinar
a cabeça. Naquela entrevista, segundo os
repórteres, a primeira pergunta foi: O
Senhor se considera louco?. É um modo
de balizar o terreno para que o leitor saiba com
quem o repórter está falando. Se Pedro
Collor admitisse problemas mentais suas declarações
não teriam a mesma força. Morreu tempos
depois com um tumor na cabeça...
Em determinados casos, o experiente Alexandre Garcia
usa outra estratégia que exige muito domínio
da situação:
- Eu me finjo de bobo, que não sei das coisas,
para que o entrevistado sinta-se mais forte, superior
a mim e seguro de si. Nessa situação
ele fica mais à vontade, revela mais coisas
e abre a guarda. É aí que eu entro....
o entrevistado tem medo do jornalista, pois uma
entrevista publicada pode gerar muitas conseqüências
(Cf.Tramontina, 1996,p.24).
A história está cheia de exemplos
sobre a força que uma entrevista tem em certas
circunstâncias. A entrevista de Getúlio
Vargas a Samuel Wainer na estância gaúcha
do ex-presidente, publicada por O Jornal, do Rio
de Janeiro, em 03/03/1949, abriu caminho para a
volta do ditador ao poder. A já citada entrevista
de Pedro Collor provocou o impeachment de Fernando
Collor e o desbaratamento do Esquema PC. As entrevistas
em off conseguidas por Carl Bernstein e Bob Woodward,
no caso Watergate, levaram à renúncia
o homem mais poderoso do mundo, o Presidente dos
Estados Unidos da América, Richard Nixon.
Costuma-se datar o início da revolução
sexual feminina, no Brasil, a partir da entrevista
que Leila Diniz deu ao Pasquim em 21-26.11.1969,
ao chegar dos EUA.(Cf. Altman,1995,p.2)
5.
A Entrevista no JLA
Quando a entrevista destina-se ao livro-reportagem,
muitas destas técnicas aqui citadas podem
ser úteis. Mas algumas são essenciais,
destacando-se, como já foi dito, o aspecto
da imersão. Nas histórias
de vida, antes de mais nada, é preciso conquistar
a simpatia do entrevistado. E isto não se
faz com meias-verdades, com mentiras, com falsa
identidade, com câmeras ocultas ou com qualquer
outro expediente escuso. Pelo contrário,
para estabelecer uma boa interação
com a fonte, o jornalista deve ser honesto, transparente,
amigo, companheiro. Ninguém abre a caixa
preta da vida, na sua intimidade mais crua e mais
exposta, a uma pessoa não confiável,
estranha, maquiavélica. Por outro lado, o
próprio jornalista deve se precaver para
não se envolver em situações
ilegais. Em depoimento à imprensa, no início
deste ano, sobre seu mais recente livro a respeito
do traficante Uê, Caco Barcelos contou que
estabeleceu algumas normas, segundo as quais não
tomaria conhecimento durante as entrevistas
- de fatos criminosos em andamento ou futuros, apenas
de fatos passados. Já o cineasta Moreira
Salles teve problemas com a lei porque sabia onde
sua fonte se refugiara e continuou entrevistando-a
para a produção de um filme sem avisar
às autoridades. Também é necessário
obter, logo de início, um documento assinado
em que o entrevistado autoriza a divulgação
de texto e imagem a seu respeito, o que poderá
livrar o profissional de futuros e caros processos
por uso indevido de imagem.
Uma vez conquistada a simpatia do entrevistado,
é necessário passar a conviver com
ele em seu próprio ambiente. Foi assim que
Joseph Mitchell escreveu uma das mais bonitas reportagens,
em meados do século XX, contando a história
de um boêmio do Greenwich Village, em Nova
York, o popular Joe Gould, que estaria escrevendo
uma História Oral maior que a Bíblia.
Mitchell sempre evitava os lugares-comuns do jornalismo:
celebridades, poderosos, olimpianos
(na expressão de Cremilda Medina). Seus personagens
viviam à sombra, anônimos. Suas reportagens
eram buriladas anos a fio e foram elas que melhor
capturaram o espírito de Nova York entre
as décadas de 30 e 60. O primeiro perfil
de Joe Gould foi publicado na revista The New Yorker
no final de 1942. Em 1964 Joseph Mitchell completaria
o perfil de Joe Gould, sete anos após a morte
de seu personagem, com o qual conviveu longamente
nos bares da cidade até percebê-lo
nos mínimos detalhes.
Não agiu diferente outro destacado jornalista-literário
norte-americano, Norman Mailer, ao descrever a
luta do século entre Cassius Clay (Muhamed
Ali) e George Foreman, realizada em 1974, no Zaire.
O autor entrou em comunhão com
seu personagem, interagindo com ele, sentindo suas
dores, experimentando suas alegrias, participando
de corridas com ele, convivendo em sua casa, no
Zaire, tornando-se quase uma extensão
da pessoa. Afinal, essa luta tinha algo de ideológico
entre o americanismo escancarado de Foreman e o
muçulmanismo combativo de Clay, aquela coisa
de Bem contra o Mal tão própria do
judaísmo-cristão e tão cara
aos que continuam se achando no direito de mapear
o eixo do mal sobre a terra.
O polêmico Truman Capote passou seis anos
fazendo entrevistas, coletando dados, lendo documentos,
pesquisando, até publicar, em 1965, o clássico
A Sangue Frio, por ele considerado o primeiro livro-reportagem
com recursos literários, baseado em fato
real, narrando um crime ocorrido em 1959 no interior
do Kansas, no meio-oeste americano. Para uma verdadeira
imersão no contexto dos fatos,
o autor mudou-se por um ano - para a cidadezinha
de Holcomb onde um casal e seus dois filhos foram
assassinados friamente, numa tragédia que
causou comoção nacional.
Ao posfaciar o relançamento de A Sangue Frio,
pela Editora Companhia das Letras, este ano, o jornalista
Matinas Suzuki Jr. baseou-se em longa entrevista
concedida pelo próprio Capote a George Plimpton,
publicada em 16 de janeiro de 1966, no The New York
Times, para expor o método de apuração
que o autor utilizou até chegar ao que batizou
de romance de não ficção.
As informações que Matinas Suzuki
Jr. coletou no referido depoimento revelam que Capote
entrevistou por longo tempo um grande número
de pessoas sem fazer anotações ou
gravá-las. Segundo ele, a anotação
e a gravação prejudicam o tempo dedicado
à observação dos personagens
e do ambiente, e intimidam os entrevistados, que
perdem a naturalidade e deixam de fazer revelações
importantes. Gay Talese, outro expoente do jornalismo
literário, também condena o uso de
gravador e das anotações na frente
do entrevistado. Capote dizia ter treinado com um
amigo uma técnica de prestar atenção
absoluta ao que ouvia (o amigo lia longos trechos
de um livro em voz alta, e depois Capote, qual um
fotógrafo literário, tentava
reproduzir literalmente o trecho lido). Ele gabava-se
de conseguir cerca de 95% de total precisão.
(Voltaremos ao gravador).
A citação literal do texto tem o objetivo
de lançar luz sobre a já referida
dúvida que muitos profissionais têm
na hora de registrar a apuração. Entretanto,
mais do que a expressão mecânica do
método (gravar ou anotar ou um dos dois ou
nem um nem outro), o que resulta bastante relativo
conforme as situações profissionais
que se apresentam ou conforme as capacidades e limitações
de cada entrevistador, o mais importante é
reter o conceito do método. Trata-se, com
efeito, de exigir do entrevistador uma concentração
especialíssima sobre o que está ouvindo,
uma capacidade de percepção do real
muito superior ao que normalmente chamamos de prestar
atenção. Não basta prestar
atenção, é preciso entrar
na história, pensar junto com o entrevistado,
copiar o seu vôo como se diz no
jargão da aviação quando o
piloto precisa repetir, em vôo, as manobras
do colega ou da equipe, como faz a Esquadrilha da
Fumaça. A segurança da manobra depende
literalmente dessa capacidade de interação
do piloto com o grupo, numa fusão quase perfeita
entre homem e máquina, tal como poderíamos
dizer de Ayrton Senna ao conquistar suas melhores
marcas com pneus de chuva, exatamente quando os
concorrentes não conseguiam a concentração
suficiente para evitar as fatídicas derrapagens.
Muitos fazem entrevistas, muitos se põem
a fazer perguntas durante dias a fio a um personagem
determinado para escrever uma história
de vida. Mas poucos se perguntam porque Mitchell,
Capote e todos os ases do jornalismo literário
eram tão cuidadosos na apuração
e levavam tanto tempo para produzir o relato. Tudo
bem que contavam com o apoio (inclusive, ou principalmente,
financeiro, coisa que falta hoje em dia) do fundador
da revista The New Yorker, Harold Ross, e do editor
Willian Shawn, que financiaram os dois autores e
publicaram seus livros, inicialmente, em capítulos.
Na verdade, resolvido o problema financeiro, não
se pode ter pressa para produzir o jornalismo literário.
Este é um gênero onde não basta
registrar os fatos, é preciso pensar a narrativa
(outro elemento fundamental do JLA que, entretanto,
não cabe tratar aqui neste trabalho focado
na entrevista), rechecar informações,
conferir dados, ficar atento ao andamento da situação.
No caso de A Sangue Frio, por exemplo, a obra pareceria
incompleta ou menos importante sem a solução
final representada pela execução dos
criminosos. Seria transformar uma tragédia
de grande repercussão em conto da carochinha,
parodiando os clássicos dos irmãos
Grimm: E ficaram presos para sempre...
Também J. Mitchell só revelou o segredo
do seu personagem depois que Joe Gould morreu.
Vejamos outro exemplo.
O professor da ECA, Sergio Vilas Boas, acaba de
publicar novo livro (perfis e como escrevê-los.
São Paulo: Summus, 2003) contendo perfis
de dez escritores brasileiros. Para isto ele agendou
entrevistas nos quatro cantos do país,
indo até o ambiente dos entrevistados para
conversar longamente com eles em seus próprios
locais de atuação. Assim ficamos sabendo
o que pensam e como vivem Chico Dantas (um
cabra caladão) em Sergipe; Luiz Antônio
de Assis Brasil (culto e cosmopolita)
em Porto Alegre; João Ubaldo (sua paciência
estava por um fio) no Rio; Cristóvão
Tezza (ex-hippie) em Curitiba; Ferreira
Gullar (o poeta perseguido pela ditadura)
em Copacabana; Lya Luft (a tradutora)
novamente em Porto Alegre; Manoel de Barros (e
seu pequeno avião transpantaneiro)
no Mato Grosso, Sérgio Sant´Ana, outra
vez no Rio (o terror está superando
a poesia) etc.
Na aula de 21.10.03, na ECA, os alunos de Jornalismo
Literário Avançado tiveram o
privilégio de conversar com o autor Sergio
Vilas Boas. Ele respondeu a algumas perguntas, inclusive
do autor desta monografia, sobre seu método
de apuração. Confira as anotações
a seguir:
O perfil é uma história de vida,
como a biografia. A diferença é que
esta é duradoura, mais detalhada; tanto que,
geralmente, os biógrafos preferem contar
a história de pessoas que já morreram
há dez anos ou mais. Já o perfil é
uma história mais rápida embora
possa ter até 150 páginas que
capta, basicamente, duas coisas: o momento e o ser
da pessoa. Devemos interpretar pessoas como interpretamos
a arte, pois tanto a vida ilumina a obra como a
obra ilumina a vida. Tudo está imbricado
na mesma árvore: a pessoa, em si, já
é uma obra.
A explicação acima respondeu a uma
indagação sobre o novo livro de Vilas-Boas
que trata de autores nacional ou regionalmente consagrados.
Entretanto outros autores, como Mitchell, encontraram
em pessoas anônimas seus personagens preferidos.
Isto seria possível no Brasil? Sérgio
respondeu que isto seria perfeitamente possível,
daí sua explicação sobre o
conteúdo divino de cada ser humano,
o que ele vê como uma obra de arte.
Em recente ensaio sobre Metabiografia e Arte:
um problema de aproximação (parte
de seus estudos de doutoramento na ECA, em andamento),
Sérgio Vilas Boas comenta que o biógrafo,
da mesma maneira que o crítico de arte, busca
desvendar as ordens vital, humana e psíquica
do seu sujeito, pois não se trata de ficar
inerte na contemplação da obra, mas
de ir muito além dela, até a oficina
do artista, onde (aqui ele cita Pareyson2) é
necessário associar-se à sua criação,
escutar com ele as exigências da obra, ver
a obra no ato de regular a sua própria formação.
(Pareyson, 2001, p. 223).
Esse diálogo do leitor com a obra é
feito de perguntas e respostas, no processo de interpretação
estética. Assim, a contemplação
tanto premia quanto recompensa o esforço
do espectador, segundo explica Vilas Boas. Para
ele essas perguntas e respostas são perceptíveis
num texto biográfico profundo, múltiplo.
Estas reflexões dão a perceber, claramente,
que o jornalismo literário não é
coisa pequena. O profissional que optar por este
caminho, deverá ser um estudioso da epistemologia
do jornalismo e da fenomenologia do mundo. Ele aprenderá
muito com a nova psicologia que concebe o mundo
e as pessoas de modo menos sombrio, menos determinista,
onde a jornada do herói é possível.
Em Young entenderá a diferença do
eu e do eu superior. Para
Campbell é através do estudo da mitologia
que aprendemos a ler o mundo de modo menos egoísta.
Ele acha que o artista é o único capaz
de explicar o mundo e ele o faz através da
Mitologia (Cf. Campbell, 1995,p.105).
Voltando à aula de JLA na ECA:
O profissional que deseja biografar ou traçar
um perfil precisa aguardar um gancho,
como se diz no jargão do jornalismo?
Sérgio:
Não. Geralmente o jornalismo convencional
produz matérias especiais a partir de datas
especiais: o aniversário da pessoa, uma data
marcante, uma comemoração, quando
ela morre, a festa de bodas etc. O perfil independe
de ganchos. Vale pela pessoa mesmo, pelo ser humano
que ela é. Mas não basta colocar a
pessoa diante de um gravador ligado. É preciso
transmitir um significado sobre o sujeito. Por isto
é necessário estar muito atento durante
a entrevista porque o corpo fala, o ambiente fala,
tudo está falando o tempo todo e o bom repórter
é aquele que consegue captar todas essas
falas. Depois é preciso saber narrar porque
sem narrativa não há jornalista.
A exemplo de Capote, Vilas Boas também não
usa gravador. Mas toma notas. Prefere anotar palavras-chave
para reproduzir diálogos a partir delas.
Registro o principal, o resto vem depois,
ensina. Ele também acha que o jornalista
deve ser cético: Não se pode
apenas confiar no que a fonte diz. É preciso
pesquisar, ler tudo sobre a pessoa, tudo o que ela
escreveu, fazer um trabalho de imersão mesmo.
Sérgio avalia que o contato pessoal, a presença
no ambiente do entrevistado é muito importante,
a não ser quando isto é impossível
como em dois exemplos existentes em seu próprio
livro: a história de Gabriel Garcia Marques
e a do escritor americano Paul Auster. Para falar
sobre eles, entretanto, leu tudo a respeito. Para
dar mostras da importância de estar no ambiente
do entrevistado, contou um caso que não está
registrado no livro. Quando foi entrevistar Chico
Dantas, no interior de Sergipe, Sergio notou algum
estranhamento em relação ao paulista
que chegava do sul para entrevistá-lo. Por
isto não titubeou em aceitar o banho
de bica para o qual o anfitrião o convidou...foi
aí que obteve o ambiente de informalidade,
de relaxamento indispensável a uma boa entrevista.
No caso da entrevista com Sérgio Sant´Ana,
Vilas Boas também buscou essa empatia
com o entrevistado, procurando colocar-se no
lugar dele, quase que sentindo as dores e
a depressão de um escritor competente, momentaneamente
sem dinheiro até para trocar o sofá
da sala ou recuperar a pintura do apartamento...
A regra de ouro, segundo Sergio Vilas Boas, é
ser leal e transparente. Ninguém deve tomar
o tempo de uma pessoa apenas com o propósito
de agredi-la, de prejudicá-la, de sacaneá-la,
porque isto não é ético. Por
isto ele acha que é preciso dar acesso às
principais informações do texto. O
entrevistado poderá ajudar a melhorar algumas
informações. O que não se deve
usar, nunca, é a prepotência, é
a imposição.
Um conselho importante para os iniciantes, segundo
Sergio: Não se deve aferrar-se demais
ao método. O perfilador não deve se
patrulhar demais. Cada um tem um modo de agir. Mas
não basta agir, é preciso pensar também.
Eu, por exemplo, começo com um título
criado mentalmente. Depois crio um substantivo que
defina aquela situação, aquele contexto.
Depois tudo isto pode ir mudando, é apenas
um começo.
É necessário que o operador do JLA
seja também uma pessoa com uma visão
de mundo mais ampla, com bom acervo de leitura e
leitura de qualidade, com boa disposição
de fazer contato com as pessoas, de conhecer gente,
de saber como as pessoas pensam. Era assim que Balzac
escrevia seus livros tornando-se um dos fundadores
da Escola Realista na França do Séc.
XIX. Quem olha à sua volta, no mundo de hoje,
sente-se compelido a uma política de inclusão
social. O modelo elitista naufragou. A insatisfação
é crescente, o mal estar é geral.
Também nas redações de jornal
esse mal estar está instalado. Uma grave
crise existencial abate-se sobre as pessoas. Mais
do que seguir métodos preestabelecidos, eu
me incomodo é com vidas, esclarece
Sergio Vilas Boas.
Resumindo, o conceito de Jornalismo Literário
Avançado para o autor de perfis como escrevê-los
é: Pesquisa, Contato Pessoal e Narrativa
Literária.
Mas, como chegar a uma boa narrativa?
Em suas obras e em suas aulas na ECA, o professor
Edvaldo Pereira Lima lembra que não se pode
chegar a uma boa narrativa sem uma adequada apuração,
vale dizer, sem a entrevista cuidadosa. Se temos
em mente o objetivo de traçar um perfil ou
de escrever uma grande reportagem contendo uma história
de vida, devemos levar em conta a Jornada do Herói,
verificar os momentos de ruptura do
entrevistado com o seu estado de vida anterior,
os momentos em que ele rendeu-se humildemente a
um poder maior para cumprir suas tarefas, bem como
sua persistência, sua disciplina em busca
do ideal. Devemos compreender as passagens da vida
em que a pessoa colocou o eu superior
(que trabalha pelo coletivo, pelo próximo,
pela humanidade) acima do ego (que é
mais individualista, que trata das coisas materiais,
dos interesses pessoais, da sobrevivência
etc). Em que fases o entrevistado procurou ouvir
o seu sábio interior? Como ele
buscou a ajuda dos seus mentores? Como o universo
conspirou favoravelmente ao entrevistado através
das inúmeras sincronicidades da vida, que
também chamamos de coincidência
ou oportunidade? É possível
perceber na entrevista que o herói não
caminha sozinho? O campo genérico sutil que
envolve o entrevistado é negativo ou positivo?
Como ele lida com a vida, o ser humano, as diferenças?
Há preconceitos contra as minorias, as etnias,
as religiões? O entrevistado cultiva o seu
cristo interior? Tem uma ação
pró-ativa no mundo?
Conduzindo adequadamente a entrevista, o bom repórter
deixará que o mundo do personagem se revele
em sua narrativa, ao invés dele, repórter,
invadir o mundo do personagem com trombadas
agressivas ou com violência verbal.
Citamos, há pouco, grandes livros-reportagem
que podem servir de exemplo, de guia, para um trabalho
nessa área do JLA. Quem se interessa por
este modo de expressão jornalística
deve ler todos eles (e outros mais) procurando aprender
a técnica dos autores.
Outros livros-reportagem de grande sucesso no país,
como Olga, Chatô - Rei do Brasil e Corações
Sujos, todos de Fernando Morais, apresentam esse
tipo de entrevista mais aprofundada, com ampla documentação
sobre os personagens e recriação dos
ambientes em que viveram. São livros de fôlego
que dão muito trabalho até ficarem
prontos, mas que, uma vez editados, permanecem para
sempre, como leitura imperdível para os estudantes
de jornalismo, os comunicadores e o público
em geral, consagrando definitivamente seus autores.
A professora Cremilda Medina define bem o tipo de
envolvimento que a entrevista em profundidade exige:
...quando entrevistado e entrevistador saem
alterados do encontro, a técnica foi ultrapassada
pela intimidade entre o EU e o TU. Tanto um como
outro se modificaram, alguma coisa aconteceu que
os perturbou, fez-se luz em certo conceito ou comportamento,
elucidou-se determinada autocompreensão ou
compreensão do mundo. Ou seja, realizou-se
o Diálogo Possível (Cf.Medina,1990,
p.7).
Para escrever Chatô Rei do Brasil (Companhia
das Letras, 1994. 732 p.) Fernando Morais entrevistou
184 pessoas. Seu trabalho mais recente, sobre uma
seita japonesa que espalhou o terror entre os imigrantes
japoneses logo após a Segunda Guerra Mundial
ameaçando e matando quem afirmasse que o
Japão havia perdido a guerra, Corações
Sujos (Companhia das Letras, 2000. 349 p.) envolveu
88 entrevistas e grande número de consultas
a jornais do interior de São Paulo onde a
Shindo Renmei realizou atentados de 1946 a 1947,
através de seus matadores (tokkotai) que
levaram à morte 23 imigrantes e deixaram
cerca de 150 feridos.
O mais interessante é que este último
livro resultou de uma característica que
todo bom repórter deve ter: a percepção
para o detalhe, o faro para a notícia. Fernando
estava realizando as últimas entrevistas
para o Chatô, na casa do próprio Chateaubriand,
no Rio, quando, ao comentar com uma enfermeira de
origem nipônica sobre a prolongada doença
do anfitrião, ouviu dela uma outra história
igualmente trágica sobre familiares que tinham
sido aterrorizados e mortos por uma seita japonesa
no interior de São Paulo...alí nasceu
Corações Sujos, outro grande sucesso
de Fernando Morais.
Muitas vezes o repórter está participando
de uma entrevista mas está tão distante,
tão distraído, tão desligado
que não é capaz de perceber o que
significa uma variação de voz, um
gesto nervoso do corpo, uma frase inacabada, uma
pausa inexplicável, uma referência
extemporânea, uma lágrima inesperada
... e pode até passar batido diante de uma
revelação extraordinária...só
porque ela não estava na pauta. Exagerando
na comparação (para provocar reação
mesmo) é como se ele fosse escalado para
cobrir o discurso de John Kennedy, em Dallas, e
voltasse para a redação sem matéria
porque não houve discurso...
Edgard Morin (citado por Medina) e vários
autores consideram que entrevistar é a arte
de ouvir, perguntar e conversar. O repórter
está ali para realizar a mediação
entre a fonte e o receptor através do suporte
da comunicação que, neste caso, é
o livro-reportagem. Por isto deve agir como um observador
participante, atento para a subjetividade do encontro,
para a riqueza informacional daquele momento único,
agindo interativamente como um profissional da área
de humanidades. Naquele instante o repórter
não é cientista, não é
árbitro do Bem e do Mal, não é
dono da verdade: é um investigador da realidade,
uma pessoa que assume postura humilde diante dos
fatos tentando compreendê-los. Cremilda Medina
explica melhor:
- ....entramos numa especulação ilimitada,
um mergulho na Verdade de muitas faces, contradições,
em que a atuação do jornalismo é
sempre relativa, nunca totalmente objetiva, cientificista,
como pretendem os clássicos do mito da objetividade.
Diante de uma realidade cifrada (como Freud diante
do Sonho), inicia-se um processo de decifração.
Trata-se da arte de tecer o presente e não
a garantia científica de atingir a Verdade
Absoluta (Cf. Medina, 1990,p.33).
Ainda no terreno das estratégias e da comparação
entre os vários tipos de entrevista, é
importante reter aqui os ensinamentos do professor
Edvaldo Pereira Lima a respeito do encontro com
a fonte especialmente voltado para o livro-reportagem:
- O perfil humanizado é onde o livro-reportagem
concede à entrevista a máxima possibilidade
de alcançar dimensão superior ao que
raramente seria aceitável nos veículos
periódicos. A exigüidade de espaço,
nestes, é uma condicionante limitadora a
vôos mais elevados. No livro, todo o texto
pode apresentar-se em forma de entrevista, como
é o caso de Conversas com Vargas Llosa, do
jornalista brasileiro Ricardo A. Setti, editado
pela Brasiliense em 1986. Essa opção
reservou ao autor o privilégio de conduzir
um diálogo interativo de qualidade com seu
entrevistado, construindo-lhe um retrato humano
ancorado em cinco eixos básicos: seus amigos
e inimigos, a confecção e os projetos
de seus livros, o ofício de escrever, a vida
particular fama, sexo,família,drogas,dinheiro,lazer
e a política. Há a pauta, mas
também coexiste a flexibilidade de o entrevistador
momentaneamente abandoná-la para entrar numa
variante mais empática com seu entrevistado.
Surge a emoção, surge a pessoa por
detrás do mito. Ascende-se o circuito e não
é mais a corrida atrás desse produto
volúvel, a informação, que
se dá. O que então desponta é,
por parte do entrevistador e do público que
lê seu trabalho, a descoberta compreensiva
do universo, por vezes misterioso, às vezes
exuberante, nem sempre comum, de um ser humano,
sempre sendo um espelho das possibilidades disponíveis
a toda a espécie (Cf.Pereira Lima, 1995,
ps.89/90).
6. Cuidados
Alguns cuidados ajudam o entrevistador a evitar
problemas na hora de transformar a entrevista em
informação final. São indicações
válidas para o aproveitamento do material
nos diferentes meios de comunicação.
Afinal, mesmo quem se dedica ao livro-reportagem
pode deparar-se com outras situações
profissionais onde a psicologia da entrevista é
igualmente fundamental.
Uma precaução é sustentar o
diálogo com o entrevistado tratando-o do
modo mais coloquial, seja pelo primeiro nome ou
pelo cargo, conforme as circunstâncias. Soaria
ridículo tratar um cantor popular ou um ator
de "Senhor": Sr. Chico Buarque, Sr. Caetano
Veloso, Sr. Roberto Carlos, Sra. Carla Peres...Nos
diálogos com um deputado, um ministro, um
senador, usa-se o nome do cargo. Em coletivas ou
locais solenes, chama-se o Presidente da República
de "Sr. Presidente".
É preciso desenvolver, também, uma
técnica pessoal para observar se o entrevistado
está mentindo. A este respeito, conta Luiz
Amaral que depois de entrevistar milhares de homens
e mulheres sobre casos sexológicos, o médico
e pesquisador Alfred Kinsey respondeu, certa vez,
ao lhe indagarem se ele sabia até que ponto
eram verdadeiras, ou não, as confissões
que lhe eram feitas: 'É muito simples. Eu
encaro as pessoas de frente. Inclino-me para diante.
Faço as perguntas rapidamente, uma depois
da outra. Não as perco de vista. Naturalmente,
se vacilam posso saber que estão mentindo".
(Amaral, 1978,p.84)
Em casos de entrevistas ao vivo pode acontecer o
acidente do "dar um branco", mesmo quando
se entrevista pessoas que o país inteiro
conhece. Nunca é demais ter o nome do entrevistado
bem à mostra, além do seu cargo exato.
Conta-se que até o experiente Boris Casoy
já sofreu com isto porque o editor se esqueceu
(ou achou que nem precisava) de colocar no script
do apresentador o nome do entrevistado daquela noite,
no SBT. E na hora de apresentar o entrevistado,
entre uma matéria e outra, Boris começou:
"Estamos aqui com um grande nome da Música
Popular Brasileira, um homem extremamente conhecido
de vocês, que agora está atuando na
política...vereador em Salvador...um compositor
maravilhoso...um compositor de mão-cheia...."
A apresentação não acabava
mais porque Boris não conseguia lembrar-se
do nome de Gilberto Gil sentado à sua frente,
saindo-se com esta: "Ele dispensa apresentações".(Cf.Tramontina,1996,p.76).
"Mais do que em qualquer outro veículo,
a entrevista televisiva devassa a intimidade do
entrevistado, a partir de dados como sua roupa,
seus gestos, seu olhar, a expressão facial
e o ambiente. A produção, nos talk
shows televisivos, é geralmente mais cuidada
e o entrevistador, violando um dos preceitos básicos
da entrevista jornalística, pode tornar-se
a estrela do programa, com todo prejuízo
que isso traz para a informação -
não necessariamente para o espetáculo",
observa Nilson Lage (Cf. obra citada, p.87). Para
o rádio, ele recomenda um tom mais coloquial
É importante, ainda, entender porque as pessoas
geralmente gostam de dar entrevistas. Não
é apenas porque precisam se comunicar, mas
por vaidade, na avaliação de Boris
Casoy. Por isto ele acha que um elogio inicial "lubrifica"
e a pessoa acaba liberando as portas de sua intimidade,
permitindo que o entrevistador chegue à caixa-preta(Cf.
Tramontina,1996,p.78).
Para Joelmir Beting as pessoas dão entrevistas
porque têm informações, idéias
ou propostas importantes. Outros, por interesses
pessoais ou financeiros. Querem mostrar a empresa,
a associação, o sindicato ou o órgão
de governo ao qual pertencem.(Cf.Tramontina, 1996,p.109).
Mas Joelmir também não se esquece
da vaidade: "O pior é que muitos não
estão preparados e acabam falando o que não
devem, vendo publicado o que não gostariam".
Exemplo foi a entrevista do ex-ministro da Aeronáutica,
Tenente-Brigadeiro Walter Werner Brauer, que enviou
carta à Revista Veja de 10.01.2.000 desmentindo
referências elogiosas a Hitler contidas na
entrevista concedida à repórter Sandra
Brasil na edição anterior.
Joelmir conta, com orgulho, que não é
amigo de nenhum ministro ou qualquer outra autoridade
do governo. Faz questão de não dever
favores porque quer se manter livre e independente
em seu trabalho.
7. Gravar ou anotar
Cada repórter desenvolve um método
pessoal de documentar a entrevista, tanto para o
JLA quanto para a mídia convencional. Como
vimos no caso de Capote e de Sérgio Vilas
Boas, alguns preferem confiar na memória,
o que é perigoso quando a declaração
envolve números ou nomes de difícil
entendimento. Outros preferem anotar, porém
em alguns casos é difícil sustentar
um diálogo e anotar ao mesmo tempo, como
já foi visto na técnica usada por
Oriana Fallacci ao entrevistar o General Giap. O
mais garantido é gravar. Mas até isto
pode dar problemas porque o gravador pode falhar
e surpreender o repórter na fatídica
hora do fechamento do jornal. O recomendável
é, além de gravar, reconstituir a
entrevista com base em palavras-chaves que o repórter
anota, indicando os temas principais na seqüência
em que ocorreram. Em Jornalismo Literário
Avançado esse esquema chama-se mapa
mental (grifo do autor). Isso geralmente basta
para, passado um período curto de tempo,
reproduzir com bastante fidelidade, discursos não
muito extensos ou complicados (Cf.Lage,2001,p.79).
Também há entrevistados que se intimidam
com o gravador ligado, temendo falar alguma bobagem
e não poder voltar atrás ou com receio
de que a gravação se torne um documento
de uso futuro.
Cada caso é um caso.
Boris Casoy conta que, quando trabalhava em jornal
impresso, preferia gravar a entrevista com dois
gravadores por via das dúvidas.
Também há diferentes modos de veicular
a entrevista. Ela pode servir apenas como banco
de dados para reforçar uma reportagem; as
citações podem ser colocadas entre
aspas ao longo do texto corrido ou também
se pode usar o já referido formato de perguntas
e respostas, tal como foi gravada a entrevista.
Nos casos de denúncias, a reprodução
fiel da gravação é o melhor
sistema porque não deixa margem a dúvidas
sobre a interpretação do repórter.
Foi o que aconteceu com o "grampo do BNDES"
em 1999. A "Folha de S. Paulo" soltou
o conteúdo das fitas aos poucos, reproduzindo
na íntegra os diálogos que comprometeram
ministros e autoridades do Governo FHC com favorecimentos
na privatização da telefonia no país.
Gravando ou anotando, Boris Casoy ensina que o entrevistador
não deve ter vergonha de perguntar tudo o
que precisa saber, senão fará um texto
falho, incompleto. "O bom profissional é
aquele que consegue transmitir para o leitor, num
texto sintético e conciso, todos os conceitos,
com precisão", diz, referindo-se ao
jornalismo convencional.
8. Direitos do Entrevistado
Se estamos falando de JLA, sob os auspícios
da Teoria Geral de Sistemas que consagra o princípio
do respeito ao ser humano, portanto o pressuposto
da Ética, além das técnicas
de entrevista, o jornalista também deve levar
em conta os direitos do entrevistado. Segundo Caio
Túlio Costa, nos EUA as vítimas de
entrevistas deturpadas ou fraudadas podem recorrer
ao Centro Nacional das Vitimas, com sede em Forth
Worth, no Texas, que defende os seguintes direitos
dos entrevistados:
. Você tem o direito de dizer não a
um pedido de entrevista.
. Você tem o direito de escolher um porta-voz
ou um advogado da sua preferência.
. Você tem o direito de escolher a hora e
o local para entrevistas aos meios de comunicação.
. Você tem o direito de requisitar um repórter
de sua escolha.
. Você tem o direito de recusar entrevista
a um repórter específico, mesmo que
você tenha prometido entrevistas a outros
repórteres.
. Você tem o direito de dizer não a
uma entrevista mesmo que você tenha dito anteriormente
que daria entrevistas.
. Você tem o direito de excluir crianças
de entrevistas
. Você tem o direito de não responder
questões que julgue inconfortáveis
ou inapropriadas.
. Você tem o direito de saber com antecedência
quais direções a história vai
tomar.
. Você tem o direito de pedir para rever suas
declarações antes da publicação.
. Você tem o direito de recusar coletivas
de imprensa e falar com cada repórter por
vez.
. Você tem o direito de pedir retratação
quando informações imprecisas forem
reportadas.
. Você tem o direito de pedir que fotografias
ofensivas sejam omitidas na publicação
ou que imagens idem não sejam levadas ao
ar.
. Você tem o direito de dar entrevistas na
televisão mostrando apenas a silhueta ou
solicitar que sua foto não seja publicada.
. Você tem o direito de recusar-se a responder
perguntas de repórteres durante julgamento.
. Você tem o direito de processar um jornalista.
. Você tem o direito de sofrer na privacidade.
. Você tem o direito a todo momento de ser
tratado com dignidade e respeito pelos meios de
comunicação.
Caio Túlio comenta que tudo isto tem
muito a ver com o que os americanos chamam de fair
play, o jogo limpo, a transparência do jornalista
para com seu entrevistado e seus leitores(Cf.
Túlio Costa, 1991,os.206/207).
9. Recomendações Finais
Pode-se resumir assim as principais recomendações
dos autores sobre as técnicas de entrevista(são
conselhos sempre úteis tanto no JLA quanto
no jornalismo convencional):
a) Evitar perguntas fechadas, isto é, que
só admitem monossílabos como resposta.
("O Sr. é a favor ou contra a candidatura
de Lula à Presidência?". Uma pergunta
aberta seria: "Porque o Sr. apóia Lula
para Presidente?");
b) O repórter deve responder brevemente se
o entrevistado pedir a opinião dele;
c) Quando o entrevistado foge do assunto, o repórter
deve usar a pergunta seguinte para trazê-lo
de volta ao tema;
d) Procurar ser bem-humorado no diálogo,
porém sem exageros que destoem;
e) Agir com segurança e naturalidade, mostrando
que sabe o que quer;
f) Ao ouvir uma resposta-bomba, o repórter
não deve revelar entusiasmo porque essa reação
pode levar o entrevistado a pedir o cancelamento
da declaração, receoso das conseqüências;
g) Não se deve usar exclamações
para comentar as respostas ("puxa! "..."quem
diria!"..."não me diga!".)
h) as perguntas podem ser de esclarecimento ("quantos
operários foram demitidos?"), de análise
("que motivos a empresa deu para as demissões?"),
de ação ("o que o sindicato pretende
fazer agora?");
I) Perguntas muito longas podem complicar a vida
do repórter se o entrevistador pedir que
ele repita;
J) Não se deve misturar várias perguntas
ao mesmo tempo ("qual seu nome, idade, trabalho
atual e a situação do seu bairro?");
l) Perguntas muito amplas confundem o entrevistado
("como o Sr. vê a situação
da humanidade de Adão até nossos dias?");
m) O repórter deve acompanhar com total atenção
as respostas do entrevistado;
n) O entrevistado deve ser alertado para o fim da
entrevista ("agora uma última pergunta"..."para
terminar"...."o Sr. gostaria de acrescentar
mais alguma coisa?")
Mário Erbolato relaciona, entre outros já
vistos, os seguintes procedimentos na preparação
do repórter para a entrevista:
a) Chegue ao local da entrevista na hora combinada,
se possível com alguma antecedência;
b) Ajude o entrevistado, se necessário, a
expor as suas opiniões. Conduza a entrevista;
c) Não corte as respostas. Espere que cada
uma delas termine para formular a próxima
pergunta;
d) Faça as perguntas no mesmo nível
de quem responde: Às vezes trata-se de pessoa
humilde que tem informações sobre
determinado fato, mas se ficar amedrontada negará
esclarecimentos preciosos para o jornal;
e) Prepare o terreno para cada pergunta. As coisas
mais indiscretas podem ser indagadas se o jornalista
tiver o cuidado de ir-se conduzindo com habilidade.
(Cf. Vigil,1986).
O comportamento de alguns repórteres de vídeo
deixa dúvidas sobre quem deve ser a "estrela"
da entrevista. Todos sabem que a "estrela"
deve ser sempre o entrevistado, "por mais conhecido
e vaidoso que seja o repórter", observa
Nilson Lage. Segundo ele, espera-se que o repórter
seja discreto, como coadjuvante e, ao mesmo tempo,
diretor de cena: "Entrevistados podem ser malcriados
ou tentar intimidar o repórter; este não
deve irritar-se nem deixar-se intimidar".
A exemplo de outros autores, também Nilson
Lage lembra que, durante a entrevista, uma das chaves
é saber perguntar em cima da resposta. Outra
é manter o comando da conversa impedindo
que o entrevistado se desvie do tema. Em algumas
situações, quando isto acontece, a
melhor estratégia, conforme Lage, é
apresentar nova pergunta, mudando o assunto, para
retomar posteriormente ao ponto problemático.
"Não se deve questionar mais do que
o necessário nem insistir em linhas de questionamento
que se constatam improdutivas", ensina.
Há muitos casos em que a entrevista precisa
ser feita por telefone. Lage observa: "O telefone
é um meio muito útil para a apuração
de informações, mas suprime algumas
condições facilitadoras da entrevista,
tais como o ambiente controlado e a presença
do outro.
Outro modo, hoje muito usual, de se entrevistar
à distância, é via e-mail. Aliás,
com a Internet não apenas os jornalistas
encontram inúmeras facilidades em seu trabalho,
mas os próprios estudantes de jornalismo
podem partir para contatos diretos no mercado, colocando
em prática as teorias aqui aprendidas sobre
a arte de entrevistar, por exemplo. No caso de conversas
on-line, o resultado depende, em parte, da destreza
do entrevistado na digitação. Muitas
pessoas perdem a espontaneidade quando escrevem.
E se digitam lentamente, as respostas "tenderão
a ser formais, como as que se obtém em um
questionário escrito"( Cf. Lage, 2001,p.78).
10. Conclusão
A conclusão natural que se pode extrair desta
abordagem da entrevista no Jornalismo Literário
Avançado é que não se pode
separar a prática jornalística em
vários pedaços, isto é,
em jornalismo convencional, em jornalismo literário
etc. A profissão é uma só.
O jornalista precisa estar habilitado a exercê-la
plenamente onde quer que esteja.
Todavia, quando se trata de entrevistar para o JLA,
algumas características devem ser observada
pelo entrevistador. É de se esperar dele
uma maior sagacidade, uma acentuada percepção,
uma disponibilidade de tempo para não fazer
nada correndo e poder checar a informação
quantas vezes for preciso, uma necessária
disposição para o trabalho diuturno
de ler documentos, viajar (nas condições
dadas) e, especialmente, ter capacidade de conviver
com o outro, de aceitar o diferente sem preconceitos,
de abrir-se para a cultura do outro sem viés
de superioridade, de entregar-se humildemente à
apuração como um ser humano que tenta
compreender outro ser humano para repassar a informação
a outros seres humanos, e não com o racionalismo
vitorista de quem parte para a conquista do Eldorado.
A verdade absoluta não está dada porque
ela não existe. Tudo está relativizado
e integrado como ensina a Teoria Geral de Sistemas
e só a postura humilde diante do fato conduzirá
à conquista da maior porção
de verdade possível.
Jornalista não é cientista.
É pessoa. E pessoa mais ainda quando
se põe a comunicar precisa interagir,
estar entre as pessoas. Santo Agostinho pontifica:
- Inter homines esse!
11.
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Nota de identificação do autor Pedro
Celso Campos, 54, é professor de Jornalismo
da Unesp/Bauru, onde concluiu o Mestrado em 1997,
com a dissertação Elementos de Persuasão
no Discurso Religioso A Comunicação
por meio do Mito, pela Faculdade de Arquitetura,
Artes e Comunicação, sob orientação
da Profa. Dra. Nelyse A. Melro Salzedas. Graduado
em Jornalismo pela UnB, em 1975, foi Editor de Cidade
do Jornal de Brasília (1974-6), Editor da
TV Globo Brasília (1977-8) Editor-Chefe da
TV Nacional Radiobrás (1979) e, de
1982 a 1999, fez a experiência de administrar
seu próprio jornal diário (Interior)
em Penápolis -SP.