Não
estamos alegres, é certo, mas também
por que
razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é
agitado. As ameaças e as guerras haveremos de
atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como
uma quilha corta as ondas.
Maiakovski ( 1927)
Do grego dia ( troca ) e lekticós ( apto à palavra
) o termo dialética tem a mesma raiz de
diálogo: troca de palavras. Enquanto método
e enquanto filosofia, "a dialética é a
ciência das leis gerais do movimento, tanto
no mundo externo quanto do pensamento humano",
segundo Engels. Ela é a estrutura contraditória
do real. Através dela compreendemos que
as coisas estão sempre em relação
recíproca, nada acontece por acaso, tanto
nos fenômenos da natureza como nas relações
entre os homens. Nada pode ser entendido isoladamente,
fora da realidade à sua volta. Tudo e
todos pertencem a uma "totalidade dialética",
isto é, fazem parte de uma estrutura.
Já em Heráclito ( 544-484 AC)
há esse conceito do "mundo dialético",
da multiplicidade do real, das contradições
que levam às mudanças, do novo
que já começa a envelhecer ao nascer
para dar lugar ao mais novo, dentro da dinâmica
universal onde tudo muda, tudo se transforma
o tempo todo. Heráclito reconhece, dialeticamente,
que o ser é múltiplo por estar
constituído de oposições
internas. E dessa luta interna é que brota,
incessantemente, o novo: novo homem, novas abordagens,
novas idéias, novas realidades...num imenso
e contínuo processo de expansão
que envolve tanto o átomo como todo o
universo cósmico. E isto é assim
há 12 bilhões de anos, desde o
big-bang, sabemos hoje.
Heráclito foi precursor de Hegel e de
Marx ( Séc XX ) na formulação
da lógica dialética.
No plano social, a dialética marxista
estuda as transformações do mundo
material em função das contradições
surgidas com a oposição das classes
no processo de produção. É da
contradição entre senhor e servo,
no Feudalismo, que o homem chega ao Capitalismo. É da
contradição entre capitalista e
operário que se chega ao Socialismo ou
algum outro regime onde o individualismo não
seja a filosofia norteadora da vida entre os
homens ao ponto de levá-los "de volta" à barbárie.
Estudiosos como os frankfurtianos questionam
um sistema que nega ( no exato momento que o
afirma ideologicamente ) ao homem o direito à própria
vida: biológica, social, intelectual,
política, econômica etc. Conscientes
do poder mistificador da ideologia, eles se revelam
melancólicos na busca por um mundo melhor
e mais justo, criticando, inclusive, a indústria
cultural que é usada para manipulação
das massas e para matar, na raiz, as legítimas
manifestações culturais dos seres
sociais. A melancolia decorre do poder de alienação
do sistema que anestesia as consciências
reificando o ser humano que se torna uma peça
sem importância na engrenagem da máquina
devoradora descrita por Kafka ( A Colônia
Penal-1919).
Superar a alienação significa
acordar para a realidade em volta, compreendendo
que toda realidade é fruto de uma realidade
anterior que lhe deu causa, compreender que há um
processo histórico na formulação
de todas as realidades, de todas as políticas,
de todas as atividades humanas. Discutir o processo,
negar suas premissas para buscar a verdade legítima é a
tarefa a que se propõe a "dialética
negativa" em oposição à Teoria
Positivista que confirma e legitima o sistema
através da ideologia.
O texto a seguir ( Origen de la Dialectica
Negativa – Theodor
W. Adorno, Walter Benjamin y el Instituto de
Frankfurt. Susan Buck-Morss. Madrid: Siglo Veintiuno
Editores, 1981) discute os modelos adotados pelos
frankfurtianos em seus estudos filosóficos
sobre a sociedade humana.
Enquanto Benjamin (1892-1940) inicia suas
pesquisas com base nos primeiros românticos (Friedrich
Schlegel-1772-1829 e Friedrich Novalis-1772-1801
e outros), realizando, mais tarde, experiências
com narcóticos e com o esoterismo, aderindo,
afinal, ao surrealismo de Louis Aragon e André Breton,
Adorno prefere acolher com mais entusiasmo o
teatro épico de Brecht (1898-1956) que
defendia a reformulação do surrealismo
de modo que a arte não fosse apenas um
artigo decorativo mas um instrumento de luta
e de conscientização política
dos povos.
Entretanto, observando melhor o surrealismo,
Adorno concluiu que ele não era nada dialético
porque não contemplava as relações
e os contrastes a serem estudados na própria
relação sujeito-objeto. Com profunda
formação musical, Adorno encontrou
na música de seu mestre Arnold Schönberg
(1874-1951) o modelo ideal para o estudo da sociedade
ao pesquisar o sistema dodecafônico que
revolucionou a história da música
do séc. XX. Na técnica dodecafônica,
Adorno antevia, utopicamente, a sociedade de
homens livres sonhada por Marx (1818-1883)
No final, a autora conclui que nem a obra
de arte surrealista, nem a música dodecafônica
podem dar conta da interpretação
filosófica sem os preceitos da sociologia
marxista e da psicologia freudiana.
Antes de passar a uma tradução
livre do texto ( situando cronologicamente os
autores citados para efeito de contexto histórico) é pertinente
conhecer alguns detalhes sobre a obra de Schönberg,
já que ela foi tão determinante
no pensamento filosófico de Adorno (1903-1969).
A
música de Schönberg
Schonberg
foi um pesquisador da obra do alemão
Wilhelm Richard Wagner(1813-1883) , o mais influente
músico do século XIX, criador do
drama musical que destacava a ação
teatral sobre a música. Vivendo em plena
idade de industrialização e burguesia
como se caracteriza a segunda metade do seu século,
Wagner era um tradicionalista e empregou todos
os recursos musicais do passado para realizar
o ideal musical do Romantismo, daí ter
sido amplamente aceito pela burguesia e ferrenhamente
combatido pela ideologia liberal da época.
Levando o cromatismo típico da música
romântica às últimas conseqüências,
Wagner chegou, em Tristão e Isolda, às
fronteiras do sistema tonal.
Shönberg partiu do cromatismo de Tristão
e Isolda para chegar ao Atonalismo e, depois,
ao Dodecafonismo, sendo considerado legítimo
representante do Modernismo na música.
Sua pesquisa levou à abolição
das fronteiras entre as tonalidades, até que
não existissem mais tonalidades diferentes
e sim uma única escala de 12 tons: o Atonalismo.
Mas o Atonalismo poderia degenerar em caos. Era
necessário estabelecer novas regras de
composição sem tonalidades, da
mesma maneira que se necessitou de novas regras
quando a música evoluiu do sistema monofônico
( como o cantochão ou canto gregoriano,
a una voce, do séc. VI ) para o sistema
polifônico, com
arquiteturas de 30 e mais vozes ( séc. XV). As novas regras configuraram
o Sistema Dodecafônico, ou música
serial, que é a arte de tratar séries
de 12 tons, cada uma das quais inspirando uma
obra musical inteira. As obras mais significativas
dessa fase de Schönberg são os concertos
e a ópera Moisés e Abrão.
O
Dodecafonismo veio a ser o mais forte movimento
musical do mundo, com adeptos devotados em todos
os países, apesar de, no seu tempo, Schönberg
ter sido aceito mais como teórico do que
como criador. Deixou inúmeros escritos.
Refugiou-se nos EUA quando a Alemanha nazista
anexou a Áustria em 1938.
Agora sim vamos ao texto de Susan Buck-Morss:
A
Experiência Estética
Os
escritos de Adorno assemelham-se a uma obra
musical por sua densidade de textura, complexidade
na composição, inversão
e variação do motivo temático.
Ele rejeitava a dicotomia entre ciência
e arte surgida com a revolução
newtoniana no séc. XVII, quando os campos
da arte e do conhecimento, da mera ficção
e da verdade fática haviam se dividido
em campos opostos, ficando os iluministas do
séc. XVIII com o partido da ciência.
Adorno não aceitava a idéia de
transformar a filosofia, de investigação
científica, em uma forma artística.
Os
filósofos iluministas hostilizavam
a arte por não considerá-la uma
forma de verdade em si mesma, mas apenas uma
ferramenta pedagógica, um meio de persuasão
moral. A arte vista assim pelos iluministas era
uma arte secularizada, portanto desprovida de
sua aura como símbolo teológico.
Essa
arte transformou-se em plataforma para a propaganda
política nas revoluções
burguesas, como se vê na estética
marxista de Lukács (1885-1971) e Brecht,
quando usam a arte como meio de instrução
política, portanto como conhecimento.
Ao
desafiar o princípio dualista, Adorno
escreveu em 1939: "Toda arte que merece
consideração séria aproxima-se
do objetivo da racionalidade por sua própria
estrutura e tende cada vez mais para o conhecimento".
No
sistema hegeliano reconhecia-se na arte uma
função cognitiva racional, mas
ela (a arte) era relegada a uma esfera inferior
em comparação com a filosofia.
Kierkegaard (1813-1855) já havia condenado
o modo estético de experiência vivida
a um nível menor em comparação
com a espiritualidade.
Opondo-se
ao idealismo racionalista e ao existencialismo,
Adorno sustentava que a experiência estética
era, na realidade, a forma mais adequada de conhecimento
porque nela sujeito e objeto, idéia e
natureza, razão e experiência dos
sentidos estavam intercalados, sem que nenhum
dos pólos predominasse, proporcionando,
afinal, um modelo estrutural para o conhecimento
dialético, materialista. Kant (1724-1804)
já havia antecipado essa posição
mediadora da arte entre o pensamento e a prática.
Adorno
foi buscar na composição
e na execução musicais sua apreciação
sobre o valor cognoscitivo da experiência
estética. Seu orientador, Schönberg,
era, até certo ponto, um romântico
e rechaçava a noção do artista-gênio,
vendo no artista um artesão.Ele via na
música não a expressão da
subjetividade, mas uma busca do conhecimento
que se erigia fora do artista, como um potencial
do objeto, o material musical. Para ele, compor
era descobrimento e invenção através
da prática do fazer musical. Seu objetivo
era o conhecimento da verdade.
Ao
sustentar que a produção estética
não era expressão ( nem racional,
nem irracional) da subjetividade, o procedimento
de Schönberg, na verdade, assemelha-se à ciência.
Ao
mesmo tempo, os cientistas contemporâneos
de Schönberg, teóricos da nova revolução
científica, reconheciam que sua própria
atividade tinha poucas afinidades com o racionalismo
atual do positivismo científico e do formalismo
lógico, e que, ao contrário, como "construção" objetiva
e verdadeira da racionalidade, convergia para
a arte.
O
positivismo científico havia se transformado
no selo distintivo do marxismo oficial. Mas até 1931
Adorno havia tido acesso aos recentemente descobertos
manuscritos econômico-filosóficos
de Marx e deve ter-se impressionado com a semelhança
entre a concepção da dialética
do trabalho como experiência cognoscitiva
no jovem Marx e a concepção da
experiência estética da composição
de Schönberg. Nas duas, os processos de
criatividade e de conhecimento, de produção
e de reflexão, eram iguais.
Portanto,
quando Adorno baseava sua filosofia marxista
na experiência estética,
seu objetivo não era "estetizar" a
filosofia ou a política, mas reconstituir
a relação dialética entre
sujeito e objeto que acreditava a base estrutural
correta de todas as atividades humanas: conhecimento,
práxis política e arte. Neste sentido,
tanto a filosofia como a arte tinham uma função
moral-pedagógica, a serviço da
política e não como propaganda
manipuladora, mas ensinando com o exemplo.
O Surrealismo
Walter
Benjamin também estava convencido
de que a experiência estética era
fundamental para a compreensão filosófica
correta. Mas seu desenvolvimento intelectual
e o lugar a que chegou não eram iguais
ao caso de Adorno.
Influenciado
por experiências místicas
e religiosas, Benjamin sentiu-se atraído
pela estética de Friedrich Schlegel, de
Novalis e outros românticos alemães.
Sustentava que as duas operações
da filosofia crítica, pensamento ( consciência
) e pensamento sobre o pensamento ( reflexão
crítica ou autoconsciência) tinham
seu paralelo na estética de Schlegel através
da criação da obra de arte, por
um lado, e de sua interpretação
crítica por outro.
Isto
significava que o ato de interpretação
era necessário para completar a obra de
arte, porque só nesta segunda operação
se fazia manifesta a verdade da obra de arte,
sua idéia. A crítica literária
era, então, em si mesma, revelação
cognoscitiva. Para os primeiros românticos,
apontava Benjamin, a crítica era "um
conceito totalmente esotérico", algo "que
descansava sobre premissas místicas em
relação ao conhecimento. Novalis
considerava os textos como "hieróglifos" e "códigos",
cuja interpretação dependia de
uma linguagem sagrada que só uns poucos
podiam ler. A arte, que alcançava sua
concretude com a crítica, convergia para
a filosofia e para a religião, enquanto
revelação da verdade, segundo os
primeiros românticos que influenciaram
Benjamin.
Mas,
a partir de 1926, após ler o texto
surrealista de Louis Aragon "Le paysan de
Paris", Benjamin ficou vivamente impressionado.
O livro utilizava uma linguagem sagrada para
retratar o amor sensual e glorificava o profano
como origem da verdade revelada, combinando elementos
dos extremos do misticismo e do materialismo,
que formavam, agora, os pólos do pensamento
de Benjamin.
Enquanto
elemento estético, o surrealismo
parecia muito mais compatível com os propósitos
do filósofo frankfurtiano que o Romantismo
do período burguês anterior. O livro
de Aragon se transformou na inspiração
de seu estudo sobre a Paris do séc. XX,
sobre o qual Benjamin trabalhou pelo resto de
sua vida. Em 1927 começou a passar certo
tempo em Paris, o centro do movimento surrealista.
Em 1929, escreveu que o surrealismo demonstrava
a verdadeira superação criadora
da iluminação religiosa, agora
transformada em "uma iluminação
profana de inspiração materialista,
antropológica..."
O
próprio fundador do surrealismo, André Breton,
proclamou, em 1926, a solidariedade do movimento
com o partido comunista, ainda que, a exemplo
de Adorno e seus amigos, tenha continuado independente,
sem uma filiação real.
Influenciado – como Benjamin – pela
cabala, subscrevendo entusiasticamente a teoria
freudiana ao mesmo tempo que abraçava
o marxismo ao fundar o movimento surrealista
em 1924, Breton via na arte um conhecimento crítico
que implicava um pedido de ação. "Transformar
o mundo, disse Marx, ´transformar a vida´,
disse Rimbaud (1854-1891). Ambos os objetivos
são um só para nós",
proclamou Breton.
Anarquista
inconformado e estrategista cujo objetivo era
fazer explodir a arte para mudar
o mundo antigo pelo novo, Breton defendia a reconciliação
do sonho com a realidade "em um tipo de
realidade absoluta, uma surrealidade". Acreditava
na transformação da sociedade de
acordo com os desejos humanos, levando ao pé da
letra a frase de Marx: "Então se
verá que o mundo possui há muito
tempo o sonho de uma coisa, da qual basta tomar
consciência para possuí-la realmente".
Era
a técnica artística do surrealismo
que fascinava Benjamin. A arte surrealista retratava
os objetos cotidianos em sua forma material,
existente ( sendo "exata" neste sentido
literal ), mas, ao mesmo tempo, esses objetos
eram transformados pelo fato mesmo de sua apresentação
como arte através da colagem de extremos
remotos e antitéticos.
As
obras de arte surrealistas – protótipos
das imagens dialéticas de Benjamin – iluminavam
a verdade não-intencional através
da justaposição de "duas realidades
distantes", da qual surgia "uma luz
particular...a luz da imagem", como escreveu
Breton no primeiro manifesto surrealista.
Depois
de ler uma novela de Herman Hesse (1877-1962)
em 1927, Benjamin sentiu-se impelido a documentar
não apenas os sonhos em seus escritos,
mas a fazer experiências alucinógenas
registrando, de 1927 até 1934, suas sessões
com uso de haxixe, ópio e mescalina. Em
seu testamento, entretanto, concluiu que "a
verdadeira transcendência criativa da iluminação
religiosa não reside nos narcóticos".
A
experiência com as drogas era especialmente
significativa para a secularizada teoria da "aura" dos
objetos de Benjamin. Emanada da superfície
dos fenômenos e revelando a essência
interna, esta aura se tornava visível,
dentro da "zona de imagens" das drogas,
e podia ser reproduzida na tela do artista como
nos quadros tardios de Van Gogh (1853-1890).
O objetivo das imagens dialéticas de Benjamin
era capturar a aura também no texto escrito.
A
Crítica ao Surrealismo
Em
1930 Adorno criticou a incorreção
do modelo surrealista pela natureza essencialmente
estática das "imagens dialéticas" (
que Benjamin chamava de "dialéticas
em repouso" ), embora não escondesse
seu entusiasmo pela representação
crítica da fragmentação
e decadência da realidade burguesa, elogiando,
por exemplo, no mesmo ano, a primeira ópera
surrealista, de Brecht: Mahagonny.
Porém, dentro das técnicas surrealistas
existiam certos impulsos do movimento e de sua
adoção de Marx e Freud (1856-1939)
que eram diretamente incompatíveis com
a concepção de Adorno. Especificamente,
violando seu compromisso prévio com a
desmitificação, o surrealismo afirmava
o irracional: intencionalmente entrava em cumplicidade
com o encantamento, e isto se manifestava tecnicamente
no imediatismo da representação
em suas obras de arte. As montagens surrealistas
eram conjuntos aleatórios de objetos existentes
em sua forma imediatamente dada, isto é,
reificada. Se sua justaposição
casual era interpretada de alguma maneira, certamente
não o era em termos marxistas, quer dizer,
como manifestações da realidade
sócio-histórica, e sim em termos
do significado projetado pelo sujeito. No entanto
esses mesmos significados eram reproduzidos na
arte surrealista como " uma fotografia do
pensamento".
Seguindo
o princípio freudiano da livre
associação, o projeto surrealista
era "escrever rápido, sem nenhum
tema preconcebido; tão rápido que
não se possa recordar aquilo que se está escrevendo,
nem tentar reler aquilo que já foi escrito".
O
próprio Freud via nisto só a
metade do processo de iluminação
da verdade. Não só a imagem do
sonho e sua associação, mas também
a interpretação dessa configuração
de elementos, conectada com as experiências
conscientes do sujeito, eram necessárias
para revelar uma lógica oculta no interior
do absurdo manifesto. "Nos escombros do
mundo do surrealismo, o em-si do inconsciente
não se revela", criticou Adorno em
1956, registrando que o surrealismo agrupava
os elementos do sonho sem resolvê-los e,
portanto, suas imagens eram "fetiches mercantís" nos
quais se contemplava a libido, sendo seu verdadeiro
modelo a pornografia.
Decididamente,
portanto, o surrealismo não
era dialético. Ele fundia sujeito e objeto
na imagem artística e não revelava,
como queria Adorno, os antagonismos que caracterizavam
sua mediação mútua. No surrealismo,
o papel do artista como sujeito se reduzia à recepção
passiva das imagens. O perigo consistia em que
essa arte não alcançaria a objetividade
materialista desejada, apenas proporcionaria
o reflexo mágico do mundo das aparências.
Brecht
percebeu essa falha do surrealismo e, em seu
teatro épico, insistia na reformulação,
transformando as técnicas surrealistas
em ferramentas dialéticas como meio para
a educação política.
Mas
Adorno achava isto difícil devido
ao grau de contaminação do surrealismo
pelo irracionalismo. Em resposta aos esforços
de Benjamin no sentido de trabalhar com o surrealismo
como modelo para a filosofia materialista, Adorno
publicou um ensaio, em 1934, sobre Schönberg
como "compositor dialético".
Se
o artista surrealista procurava fundir sujeito
e objeto transformando-se em um meio passivo
através do qual o material do inconsciente
se expressava na realidade empírica, se,
como resultado, as imagens surrealistas eram
reificadas e "não-dialéticas",
então, sustentava Adorno, Schönberg,
como compositor, não era somente o meio,
mas o mediador ativo em um processo dialético
entre o artista e seu material.
Enquanto
no surrealismo uma fantasia anárquica,
arbitrária, convergia para a tendência
aparentemente oposta da duplicação
do dado, intensificando a mistificação
mais que desenvolvendo-a, Schönberg desenvolvia
o material até o ponto de sua inversão
dialética: A tonalidade levada a seus
extremos resulta na Atonalidade que desmistificava
a música demonstrando que as "leis" tonais
não eram naturais nem eternas.
Para
Adorno essa reversão permitia a
reapropriação autoconsciente dos
meios de "produção" musical,
precisamente o objeto do projeto marxista. Segundo
ele, esse caráter inerentemente revolucionário
de demolir a tonalidade da música burguesa
implicava também uma reversão da
função externa, social, da música,
transformando-a de uma função ideológica
em uma crítica. A própria estrutura
das composições de Schönberg
proporcionava a "imagem de uma música
liberada" e Adorno chegou a ver nesta imagem
a visão utópica da sociedade, uma
sociedade sem classes, de homens livres, como
queria Marx. Ele se referia à liberação
dos 12 tons da dominação do tom
dominante, que o conduzia, não à anarquia,
mas à construção da fileira
dodecafônica, na qual cada nota tinha um
papel igualmente significativo, embora único,
na totalidade musical, análogo aos cidadãos
iguais, embora não idênticos, na
desejada sociedade sem classes.
O
ensaio de Adorno guarda clara correspondência
com a composição dodecafônica
de Schönberg. Por exemplo:
1.
Afirmação da fileira tonal: "Toda
história é natural" ( e, portanto,
transitória);
2.
Reversão da fileira: "Toda natureza é histórica" (
e, portanto, socialmente produzida);
3.
Inversão da fileira: "A história
real não é história" (
e sim pura reprodução da segunda
natureza);
4.
Inversão retrógrada: "A
segunda natureza não é natural" (
porque renega a transitoriedade histórica
da natureza).
Se
Adorno desenvolvia suas idéias filosóficas
do mesmo modo que Schönberg desenvolvia
suas idéias musicais, e se cada um de
seus ensaios era construído através
de todas as permutações possíveis
entre pólos opostos, mostrando
a identidade das contradições ( a história é natural
) e a contradição das identidades
(a história não é histórica
), então também era certo, até por
sua decisão de não permitir que
qualquer um dos aspectos do paradoxo dominasse
o todo, que a estrutura de seus ensaios pode
ser lida como a mimesis de uma estrutura social,
livre de dominação.
Será este, talvez, o momento positivo
oculto na "dialética negativa" de
Adorno?
Em
cada ensaio, precisamente por sua incessante
negatividade, será, talvez, o emblema
utópico, a secreta afirmação?
Pelo
menos é indiscutível a significação
para Adorno de um procedimento cognoscitivo correto
entendido como uma estrutura ou "modelo" que
pode ser traduzido de modos diferentes e domínios
diferentes do discurso intelectual. Daí que
pudesse ver paralelismos entre a estrutura da
composição em Schönberg e
o procedimento analítico freudiano.
Em
1966, na Negative Dialektik, Adorno escreveu: "Uma
filosofia que imitasse a arte, que aspirasse
a se definir como obra de arte, eliminar-se-ia
a si mesma".
Adorno
criticava a relativização
da diferença entre arte e ciência.
Para ele, a divisão entre ambos era uma
necessidade histórica que não podia
ser suprimida: A ciência não devia
ser "estetizada" nem a arte devia ser
fato científico. Sustentava, dialeticamente,
que enquanto "experiências" subjetivas
do objeto, arte, ciência e filosofia tinham
estrutura dialética similar. Porém,
enquanto processos de conhecimento, cada uma
era diferente.
Para
ele a estética surrealista era ainda
menos adequada que o romantismo de Schlegel e
Novalis – os quais insistiam em que o conteúdo
da verdade da arte não emergia até que
ela fosse criticamente interpretada. A música,
como modelo, não apresentava os mesmos
problemas. Sua modalidade era diferente da imagem
artística. Esta condensava o material,
enquanto aquela o desenvolvia. Enquanto a imagem
artística existia já pronta, a
música devia ser reproduzida, traduzida
do texto escrito ao som, e isto significava que
devia ser pensada, "interpretada" para
poder existir.
Mas
a música era limitada como modelo
de estudo, pois o meio da filosofia era a linguagem
e sua prática "a crítica da
linguagem". A exemplo da linguagem, a música
se compunha da "sucessão temporal
de sons articulados que são algo mais
que meros sons" e "a sucessão
de sons está referenciada na lógica:
pode ser correta ou incorreta. Seu procedimento
interpretativo era diferente: "Interpretar
a linguagem significa entender a linguagem, interpretar
a música significa fazer música".
Na
verdade, os modelos estéticos, música
ou imagem artística, não podiam
carregar todo o peso da prática filosófica.
Todavia, o que a estética proporcionava
era um corretivo para o racionalismo positivista
e pseudo-científico que violentava o objeto
consumindo-o dentro de um esquema conceitual
reificado. Mas a interpretação
filosófica não podia ir além
da aparência imediata da realidade sem
a teoria e os conceitos desenvolvidos pelas ciências,
especialmente pela sociologia marxista e a psicologia
freudiana.
Ciência e arte, conceito e imagem, análise
e expressão formavam os dois pólos
da atividade filosófica. A filosofia não
superava suas diferenças em uma falsa
síntese. Ao contrário, existia
no interior da tensão entre ambos e tornava
frutífera esta tensão para poder
dizer a verdade sobre o mundo.
A
título de Sumário
O
texto de Susan Buck-Morss mostra, claramente,
que tanto Adorno quanto Benjamin tinham a preocupação
de procurar o motivo que impede o homem de ser
feliz. É exatamente este o relevante serviço
que a filosofia presta à humanidade, quando
discute os mais diferentes métodos para
explicar a vida. A própria autora conclui,
entretanto, que nem a música de Schönberg,
por mais revolucionária, nem o onirismo
surrealista ou a fuga para o mundo das drogas
são capazes de estruturar tamanho projeto
sem contar com o amparo de teorias mais consistentes,
citando, por exemplo, o marxismo e a psicanálise.
No
texto "O Mal-Estar da Civilização",
de 1930, Freud também procura encontrar
uma explicação para os problemas
da humanidade, considerando justa e pertinente
tal preocupação: "Quando,
com toda justiça, consideramos falho o
presente estado de nossa civilização,
por atender de forma tão inadequada às
nossas exigências de um plano de vida que
nos torne felizes, e por permitir a existência
de tanto sofrimento, que provavelmente poderia
ser evitado; quando, com crítica impiedosa,
tentamos pôr à mostra as raízes
de sua imperfeição, estamos, indubitavelmente,
exercendo um direito justo, e não nos
mostrando inimigos da civilização".
Ele cita o poeta e filósofo alemão
Schiller (1759-1805), para o qual "são
a fome e o amor que movem o mundo". Para
os comunistas, acrescenta Freud, a culpa seria
da propriedade privada, mas - ele logo completa
- antigamente não havia propriedade privada
nos termos atuais e mesmo assim as pessoas não
pareciam mais felizes. Para a igreja, o problema
estaria no pecado e o que disso resultou foi
um enorme sentimento de culpa coletivo que não
ajuda em nada na busca da felicidade.
Então o fundador da Psicanálise
estuda outra hipótese: o que prejudica
o homem no seu relacionamento com as pessoas
e consigo mesmo é sua natural agressividade: "Chega
a hora em que cada um de nós tem de abandonar,
como sendo ilusões, as esperanças
que, na juventude, depositou em seus semelhantes,
e aprende quanta dificuldade e sofrimento foram
acrescentados à sua vida pela má vontade
deles". Mas o homem não tem como
se livrar da competição e da agressividade
porque "a inclinação para
a agressão constitui, no homem, uma disposição
instintiva original e auto-subsistente, sendo
ela o maior impedimento à civilização",
esclarece Freud.
Em
seguida ele explica porque a civilização
evolui apesar de tanta "hostilidade de cada
um contra todos e de todos contra cada um: "O
significado da evolução da civilização
não mais nos é obscuro. Ele deve
representar a luta entre Eros e a Morte, entre
o instinto de vida e o instinto de destruição,
tal como ela se elabora na espécie humana.
Nessa luta consiste essencialmente toda a vida,
e, portanto, a evolução da civilização
pode ser simplesmente descrita como a luta da
espécie humana pela vida".
Freud
também observa, na sociedade, que
a busca do prazer é o objetivo principal,
mesmo que para tanto o indivíduo tenha
que se submeter às regras sociais: " No
processo de desenvolvimento do indivíduo,
o programa do princípio do prazer, que
consiste em encontrar a satisfação
da felicidade, é mantido como objetivo
principal. A integração numa comunidade
humana, ou a adaptação a ela, aparece
como uma condição dificilmente
evitável, que tem de ser preenchida antes
que esse objetivo de felicidade possa ser alcançado".
Na
visão de Freud, o homem não
tem como escapar dessa "roda viva" em
busca da felicidade: " Assim como um planeta
gira em torno de um corpo central enquanto roda
em torno de seu próprio eixo, assim também
o indivíduo humano participa do curso
do desenvolvimento da humanidade, ao mesmo tempo
que persegue seu próprio caminho na vida".
E
quando todos – não apenas os
frankfurtianos - estão melancólicos
diante da impossibilidade de chegar à plena
felicidade sobrevivendo num mundo tão
injusto e bárbaro, Freud conclui: "Não
tenho coragem de me erguer diante de meus semelhantes
como um profeta; curvo-me à sua censura
de que não lhes posso oferecer consolo
algum, pois, no fundo, é isso que todos
estão exigindo, e os mais arrebatados
revolucionários não menos apaixonadamente
do que os mais virtuosos crentes".
A
dúvida que Freud tem, mas nem ele mesmo
explica, é:
-
Até que ponto o desenvolvimento cultural
da espécie humana conseguirá dominar
a perturbação de sua vida comunal
causada pelo instinto humano de agressão
e autodestruição? Os homens adquiriram
sobre as forças da natureza um tal controle,
que, com sua ajuda, não teriam dificuldades
em se exterminarem uns aos outros, até o último
homem. Sabem disso, e é daí que
provém grande parte de sua atual inquietação,
de sua infelicidade e de sua ansiedade.
Concluindo,
o método dialético
deve levar-nos à autoconsciência
sobre os fenômenos do mundo para que possamos
rediscuti-los em novas abordagens e propostas,
na luta permanente por um mundo mais justo e,
portanto, melhor. Com tal método perceberemos
que o mundo em que vivemos é muito mais
bárbaro que a Idade das Trevas, quando
os bárbaros dividiram entre si o que restou
do Império Romano.
Adorno
e os frankfurtianos ensinam que é preciso
submeter os questionamentos a provas e contra-provas
em busca da verdade, ao invés de os tomarmos
tal como são ou tal como se nos apresentam à primeira
vista