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O Desafio de Fazer Jornal na Internet

Prof. MS Pedro Celso Campos

Este artigo pretende ser uma indagação sobre a linguagem mais adequada para o jornalismo online. Sendo a Internet uma mídia tão recente entre nós, é natural que muitos pesquisadores estejam se debruçando sobre essa importante tarefa de localizar modos de expressão mais coerentes com um meio caracterizado pela rapidez na produção, emissão e recepção do texto informativo. São muitas as perguntas sobre as especificidades da nova mídia e sobre a interatividade que ela proporciona aos seus usuários. Embora as respostas não sejam ainda conhecidas, em sua maior parte, pelo menos, sabe-se, de antemão, que a solução do problema da linguagem requerida pela Internet não pode se basear na mera transposição de conteúdos do jornal, do rádio ou da TV para a tela do internauta. Temos consciência, naturalmente, que o jornalismo digital não pode ser uma simples soma das demais mídias, senão uma recriação de cada uma delas, levando-se em conta as características do novo meio.

É clássico que toda e qualquer elaboração noticiosa destinada a qualquer auditório deve partir dos pressupostos contemplados pelo próprio auditório. Não seria preciso relembrar o Sermão da Sexagésima, do Pe. Antonio Vieira, nem as lições de Hans Robert Jauss, para termos sempre diante de nós, comunicadores, o paradigma da recepção a nos orientar e nos guiar para um jornalismo de bom êxito. Bastaria lembrar que o termo IBOPE, em nossos dias, não guarda já qualquer relação com o significado da sigla. A expressão "dar ibope" não quer dizer outra coisa senão levar muito a sério a opinião das pessoas para as quais produzimos qualquer tipo de texto.

No mundo mágico da Internet não poderia ser diferente.

Para chegar ao conteúdo e ao formato ideal de cada gênero – e aqui cabe lembrar com Alberto Dines que jornalismo digital é, antes de tudo, jornalismo – é necessário estudar o perfil do novo público que está diante da tela do computador. É necessário conhecer seu modo de vida, seus gostos, seu comportamento, sua idade, sua formação, seu nível de renda, seu modo de ver o mundo e até o modo como ele acessa o noticiário online ou o que faz com a notícia recebida: apenas a lê? Ou também a arquiva? Ou também imprime a informação de sua preferência? Ou também dá retorno imediato ao autor da matéria e às fontes citadas? Ou reenvia o texto para um amigo? E como ele faz a leitura do texto digital? Apenas lê ou ao mesmo tempo que lê vai pesquisando através do hipertexto, percorrendo inúmeros sites relacionados?

Se a própria Internet não chega a mais que 10 milhões de brasileiros por enquanto ( e somos 170 milhões de almas ), sendo portanto um meio nascente entre nós, este é um motivo a mais para adiantarmos a pesquisa sobre as preferências do novo público, com a certeza absoluta de que a rede está crescendo expressivamente em nosso país como já ocorreu no primeiro mundo. Tudo o que se fizer na área acadêmica a respeito – notadamente no plano curricular onde se dá o preparo dos futuros jornalistas – será de grande utilidade para um jornalismo mais eficiente, mais atualizado, mais rápido.

Quando olhamos para a Internet apenas como possibilidade de ter acesso a informações rápidas, isto é, ao antigo "furo de reportagem" que já não existe mais no impresso, acabamos incorrendo no engano de achar que é possível haver um conteúdo mais amplo e mais completo na mídia impressa. Afinal, ocorre exatamente o contrário. Além de dar a informação em cima do acontecimento – atualizando-a em questão de minutos – a Internet permite o acesso a inúmeras fontes de pesquisa – para não dizer ao conhecimento humano inteiro – sobre o assunto noticiado.

Por enquanto, entretanto, a Interrnet é um meio incipiente. As pessoas estão aprendendo a navegar, a baixar arquivos, a utilizar o potencial da nova mídia, a conhecer o jargão técnico do meio, a se relacionar com o fantástico e desconhecido mundo novo da informação digital. Em nosso caso, também há os inúmeros problemas técnicos representados pela própria infra-estrutura do país, como linhas telefônicas deficientes, conexões que não se sustentam, sites que apresentam dificuldades de navegação por serem mal estruturados ou muito pesados etc Muitas vezes a dificuldade de acesso acaba desanimando o internauta. Também há o problema dos custos (sem falar na própria exclusão digital que é mais um gritante reflexo da criminosa injustiça social deste país) para manter o computador atualizado, para pagar o uso da linha e os serviços do provedor de acesso. Existe ainda o "refluxo" de muitos investidores que apostaram muito na nova mídia e, desencantados com os resultados financeiros, estão fechando sites, encerrando atividades. O jornalista Ricardo Kotscho, por exemplo, tem citado, em entrevistas, o caso de muitos colegas que deixaram o impresso para ganhar "rios de dinheiro" nos portais de notícia e agora estão voltando para os empregos tradicionais.

Mas toda "corrida do ouro" tem o seu preço. A Internet veio para ficar e quanto mais a rede cresce, maior será o espaço para aqueles que nela pretendem praticar um jornalismo sério, ético, responsável. É tudo uma questão de tempo.

Qualidade online

Jornalismo de qualidade é o que se espera de todo comunicador em qualquer lugar. Seja no jornal comunitário do bairro, seja no especializado das categorias profissionais, seja na grande imprensa ou na Internet. E o primeiro requisito da qualidade é a ética que confere credibilidade. Sabemos quanto lixo trafega pela rede e como é desagradável receber tanta inutilidade via e-mail ou como é cansativo acessar sites que só têm aparência e nenhum conteúdo. Mas os usuários da rede vão percebendo que é preciso selecionar a informação a partir da sua fonte de emissão. Assim, esperam ter informações corretas, éticas e sérias acessando os sites das empresas jornalísticas de nome, que não pretendem ter a imagem pública prejudicada com informações levianas. Este é um cuidado necessário porque a Internet permite que qualquer pessoa possa copiar matérias de outros sites e montar um pseudo jornal online com informações deturpadas e equivocadas.

Entretanto, mesmo os grandes portais, na pressa de dar a informação em primeira mão, não raro divulgam informações erradas que ficam no ar por vários minutos, o que pode acarretar processos por injúria, calúnia e difamação, conforme a Lei 5.250, a Lei de Imprensa. Tais processos podem ocorrer mesmo quando a informação errada é substituída pela correta sem que o jornal identifique o erro, dentro das normas da boa e velha "errata" tão útil no meio impresso: "Ao contrário do que noticiamos minutos atrás..."

Para ter qualidade e garantir a fidelidade do seu público, o jornal digital não pode fugir de algumas normas que fizeram o sucesso do jornal de papel, a começar pelo planejamento. Uma boa pauta é útil em qualquer lugar como método de apuração jornalística criteriosa. Uma apuração que dê oportunidade a todos os lados envolvidos na notícia. Uma apuração que envolva a contextualização do fato, mesmo quando a dinâmica do meio exija que se passe logo para a redação uma "cabeça" da matéria com os elementos principais para ir ao ar enquanto o restante da matéria é produzido. Como vimos, Internet não é só a ponta do iceberg representado pela chamada nas "últimas notícias", é também a possibilidade de acesso ao dossiê completo da matéria com todos os links relacionados. Quem não se lembra do Caso Monica Lewinsky: Enquanto a Suprema Corte decidia se liberava e o que liberava para os jornais, a Internet publicava todo o material para o mundo inteiro. E no episódio do 11 de setembro de 2001? A rede mundial de computadores chegou a ficar mais lenta tal a quantidade de pessoas acessando informações sobre os atentados, com ilimitadas possibilidades de pesquisa sobre os prédios atingidos, muito antes que os jornas publicassem qualquer coisa 24 horas depois.

Outro cuidado dos redatores de texto para a Internet é evitar excesso de adjetivos ou de palavras inúteis. O texto deve ser claro, límpido, objetivo, de leitura fácil, fluente, sem perda de tempo, sem sofisticação, sem pretensões literárias. Deve ser um texto de trabalho, com todos os elementos de informação que atendam às necessidades do internauta. Ele precisa saber, claramente, quem fez o que, onde, quando, como e porque. O internauta não tem tempo a perder com um texto cheio de trocadilhos, de metáforas, de piadas. No mais, o que vai fazer a diferença no texto on-line é um bom banco de imagens (inclusive com animação e som) sobre o fato e o oferecimento de links de interesse para que a pessoa possa se aprofundar na matéria ou em matérias afins, navegando pelo hipertexto. Nem é preciso dizer que tudo isto exige que o site seja de fácil acesso, com ferramentas que facilitam a navegação. É igualmente oportuno que o internauta possa contar com um fórum ou um chat para discutir o assunto noticiado. Afinal, a relação de interatividade nesta nova mídia não é mais de um para muitos, mas de muitos para todos, pois o usuário da informação on line transforma-se, no momento seguinte, em editor, em emissor, na medida em que coloca a informação em discussão ou a envia para outros com seus comentários.

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