Este
artigo pretende ser uma indagação
sobre a linguagem mais adequada para o jornalismo
online. Sendo a Internet uma mídia tão
recente entre nós, é natural que
muitos pesquisadores estejam se debruçando
sobre essa importante tarefa de localizar modos
de expressão mais coerentes com um meio
caracterizado pela rapidez na produção,
emissão e recepção do texto
informativo. São muitas as perguntas sobre
as especificidades da nova mídia e sobre
a interatividade que ela proporciona aos seus usuários.
Embora as respostas não sejam ainda conhecidas,
em sua maior parte, pelo menos, sabe-se, de antemão,
que a solução do problema da linguagem
requerida pela Internet não pode se basear
na mera transposição de conteúdos
do jornal, do rádio ou da TV para a tela
do internauta. Temos consciência, naturalmente,
que o jornalismo digital não pode ser uma
simples soma das demais mídias, senão
uma recriação de cada uma delas,
levando-se em conta as características do
novo meio.
É clássico que toda
e qualquer elaboração noticiosa destinada
a qualquer auditório deve partir dos pressupostos
contemplados pelo próprio auditório.
Não seria preciso relembrar o Sermão
da Sexagésima, do Pe. Antonio Vieira, nem
as lições de Hans Robert Jauss, para
termos sempre diante de nós, comunicadores,
o paradigma da recepção a nos orientar
e nos guiar para um jornalismo de bom êxito.
Bastaria lembrar que o termo IBOPE, em nossos dias,
não guarda já qualquer relação
com o significado da sigla. A expressão "dar
ibope" não quer dizer outra coisa senão
levar muito a sério a opinião das
pessoas para as quais produzimos qualquer tipo
de texto.
No
mundo mágico da Internet
não poderia ser diferente.
Para
chegar ao conteúdo
e ao formato ideal de cada gênero e aqui
cabe lembrar com Alberto Dines que jornalismo digital é,
antes de tudo, jornalismo é necessário
estudar o perfil do novo público que está diante
da tela do computador. É necessário
conhecer seu modo de vida, seus gostos, seu comportamento,
sua idade, sua formação, seu nível
de renda, seu modo de ver o mundo e até o
modo como ele acessa o noticiário online
ou o que faz com a notícia recebida: apenas
a lê? Ou também a arquiva? Ou também
imprime a informação de sua preferência?
Ou também dá retorno imediato ao
autor da matéria e às fontes citadas?
Ou reenvia o texto para um amigo? E como ele faz
a leitura do texto digital? Apenas lê ou
ao mesmo tempo que lê vai pesquisando através
do hipertexto, percorrendo inúmeros sites
relacionados?
Se
a própria Internet não
chega a mais que 10 milhões de brasileiros
por enquanto ( e somos 170 milhões de almas
), sendo portanto um meio nascente entre nós,
este é um motivo a mais para adiantarmos
a pesquisa sobre as preferências do novo
público, com a certeza absoluta de que a
rede está crescendo expressivamente em nosso
país como já ocorreu no primeiro
mundo. Tudo o que se fizer na área acadêmica
a respeito notadamente no plano curricular onde
se dá o preparo dos futuros jornalistas será de
grande utilidade para um jornalismo mais eficiente,
mais atualizado, mais rápido.
Quando
olhamos para a Internet apenas como possibilidade
de ter acesso a informações
rápidas, isto é, ao antigo "furo
de reportagem" que já não existe
mais no impresso, acabamos incorrendo no engano
de achar que é possível haver um
conteúdo mais amplo e mais completo na mídia
impressa. Afinal, ocorre exatamente o contrário.
Além de dar a informação em
cima do acontecimento atualizando-a em questão
de minutos a Internet permite o acesso a inúmeras
fontes de pesquisa para não dizer ao conhecimento
humano inteiro sobre o assunto noticiado.
Por
enquanto, entretanto, a Interrnet é um
meio incipiente. As pessoas estão aprendendo
a navegar, a baixar arquivos, a utilizar o potencial
da nova mídia, a conhecer o jargão
técnico do meio, a se relacionar com o fantástico
e desconhecido mundo novo da informação
digital. Em nosso caso, também há os
inúmeros problemas técnicos representados
pela própria infra-estrutura do país,
como linhas telefônicas deficientes, conexões
que não se sustentam, sites que apresentam
dificuldades de navegação por serem
mal estruturados ou muito pesados etc Muitas vezes
a dificuldade de acesso acaba desanimando o internauta.
Também há o problema dos custos (sem
falar na própria exclusão digital
que é mais um gritante reflexo da criminosa
injustiça social deste país) para
manter o computador atualizado, para pagar o uso
da linha e os serviços do provedor de acesso.
Existe ainda o "refluxo" de muitos investidores
que apostaram muito na nova mídia e, desencantados
com os resultados financeiros, estão fechando
sites, encerrando atividades. O jornalista Ricardo
Kotscho, por exemplo, tem citado, em entrevistas,
o caso de muitos colegas que deixaram o impresso
para ganhar "rios de dinheiro" nos portais de notícia
e agora estão voltando para os empregos
tradicionais.
Mas
toda "corrida do ouro" tem
o seu preço. A Internet veio para ficar
e quanto mais a rede cresce, maior será o
espaço para aqueles que nela pretendem praticar
um jornalismo sério, ético, responsável. É tudo
uma questão de tempo.
Qualidade online
Jornalismo
de qualidade é o
que se espera de todo comunicador em qualquer lugar.
Seja no jornal comunitário do bairro, seja
no especializado das categorias profissionais,
seja na grande imprensa ou na Internet. E o primeiro
requisito da qualidade é a ética
que confere credibilidade. Sabemos quanto lixo
trafega pela rede e como é desagradável
receber tanta inutilidade via e-mail ou como é cansativo
acessar sites que só têm aparência
e nenhum conteúdo. Mas os usuários
da rede vão percebendo que é preciso
selecionar a informação a partir
da sua fonte de emissão. Assim, esperam
ter informações corretas, éticas
e sérias acessando os sites das empresas
jornalísticas de nome, que não pretendem
ter a imagem pública prejudicada com informações
levianas. Este é um cuidado necessário
porque a Internet permite que qualquer pessoa possa
copiar matérias de outros sites e montar
um pseudo jornal online com informações
deturpadas e equivocadas.
Entretanto,
mesmo os grandes portais, na pressa de dar a
informação em
primeira mão, não raro divulgam informações
erradas que ficam no ar por vários minutos,
o que pode acarretar processos por injúria,
calúnia e difamação, conforme
a Lei 5.250, a Lei de Imprensa. Tais processos
podem ocorrer mesmo quando a informação
errada é substituída pela correta
sem que o jornal identifique o erro, dentro das
normas da boa e velha "errata" tão útil
no meio impresso: "Ao contrário do que noticiamos
minutos atrás..."
Para
ter qualidade e garantir a fidelidade do seu
público, o jornal digital
não pode fugir de algumas normas que fizeram
o sucesso do jornal de papel, a começar
pelo planejamento. Uma boa pauta é útil
em qualquer lugar como método de apuração
jornalística criteriosa. Uma apuração
que dê oportunidade a todos os lados envolvidos
na notícia. Uma apuração que
envolva a contextualização do fato,
mesmo quando a dinâmica do meio exija que
se passe logo para a redação uma "cabeça" da
matéria com os elementos principais para
ir ao ar enquanto o restante da matéria é produzido.
Como vimos, Internet não é só a
ponta do iceberg representado pela chamada nas "últimas
notícias", é também a possibilidade
de acesso ao dossiê completo da matéria
com todos os links relacionados. Quem não
se lembra do Caso Monica Lewinsky: Enquanto a Suprema
Corte decidia se liberava e o que liberava para
os jornais, a Internet publicava todo o material
para o mundo inteiro. E no episódio do 11
de setembro de 2001? A rede mundial de computadores
chegou a ficar mais lenta tal a quantidade de pessoas
acessando informações sobre os atentados,
com ilimitadas possibilidades de pesquisa sobre
os prédios atingidos, muito antes que os
jornas publicassem qualquer coisa 24 horas depois.
Outro
cuidado dos redatores de texto para a Internet é evitar excesso de
adjetivos ou de palavras inúteis. O texto
deve ser claro, límpido, objetivo, de leitura
fácil, fluente, sem perda de tempo, sem
sofisticação, sem pretensões
literárias. Deve ser um texto de trabalho,
com todos os elementos de informação
que atendam às necessidades do internauta.
Ele precisa saber, claramente, quem fez o que,
onde, quando, como e porque. O internauta não
tem tempo a perder com um texto cheio de trocadilhos,
de metáforas, de piadas. No mais, o que
vai fazer a diferença no texto on-line é um
bom banco de imagens (inclusive com animação
e som) sobre o fato e o oferecimento de links de
interesse para que a pessoa possa se aprofundar
na matéria ou em matérias afins,
navegando pelo hipertexto. Nem é preciso
dizer que tudo isto exige que o site seja de fácil
acesso, com ferramentas que facilitam a navegação. É igualmente
oportuno que o internauta possa contar com um fórum
ou um chat para discutir o assunto noticiado. Afinal,
a relação de interatividade nesta
nova mídia não é mais de um
para muitos, mas de muitos para todos, pois o usuário
da informação on line transforma-se,
no momento seguinte, em editor, em emissor, na
medida em que coloca a informação
em discussão ou a envia para outros com
seus comentários.