Nos últimos
dois anos a imprensa acompanhou de perto
a doença do governador Mário
Covas. Ele mesmo tratou sua doença
como assunto de estado, portanto de interesse
público. Não escondeu o mal
que o acometia, não mentiu sobre os
prognósticos médicos, não
se entregou, continuou trabalhando até o
fim e não teve vergonha de chorar
em público ou de constranger os repórteres
bradando: " Podem escrever aí, estou
morrendo".
Pelo
horário em que faleceu, às
5:30h da última terça-feira,
dia 6, o governador não facilitou
em nada o trabalho de qualquer jornal empenhado
em dar a notícia em primeira mão.
Pelo contrário, mesmo os jornalões
saíram com o noticiário normal
do dia anterior, dando conta do seu grave
estado de saúdo no Incor.
Naturalmente,
só a Internet conseguiu sair de pronto
com a matéria porque, como é comum
nesses casos, o obituário já estava
pronto. Houve até o caso de um dos
mais destacados portais da Internet que deixou
vazar a "informação" mais de
um mês antes do falecimento do governador.
Este
artigo trata exatamente dessa preocupação
que os jornais têm para saíram
com material o mais completo possível
em caso de morte de personalidades do mundo
político, artístico, cultural,
religioso etc. Ninguém duvida, por
exemplo, que a maioria dos jornais já tem
pronto o obituário do Papa João
Paulo II, com todos os detalhes de sua vida
e até com depoimentos de terceiros
sobre o pontífice. O mesmo ocorre
no caso de determinados caciques da vida
pública nacional...
O
leitor comum não tem idéia
de como se desenvolve esse "zelo" noticioso
da imprensa. Afinal, isto não é um
assunto agradável de se discutir.
O jornal tem a obrigação de
manter seus leitores bem informados e não
teria sentido privá-los de qualquer
informação quando morre uma
pessoa ilustre. Daí a preocupação
com o planejamento da "reportagem de gaveta",
guardada a sete chaves para evitar constrangimentos,
embora nos arquivos da Internet as "sete
chaves" possam cair como "véus árabes" ao
clicar de um botão errado...coisas
da tecnologia!
A
preocupação com o necrológio
antecipado não é recente.
Um
dos fundadores do Novo Jornalismo Americano
da década de 60, Gay Talese, traça,
com a característica riqueza de detalhes
do seu texto, o perfil do redator do "New
York Times" encarregado de redigir o necrológio
antecipado das pessoas famosas, resultando
na excelente crônica "O Sr. Agourento",
considerada uma pequena obra-prima do Novo
Jornalismo, publicada no final dos anos 60.
Talese
conta que seu personagem, Alden Whitman,
quando vai a concertos "não resiste
a olhar a platéia, observando personalidades
presentes sobre quem talvez se torne particularmente
curioso em breve". E descreve o ambiente
da redação do "Times" concluindo
o detalhado parágrafo com a impassível
postura do "Sr. Agourento" no fundo da sala,
bem ao estilo desse jornalismo que Igor Fuser
( "A Arte da Reportagem". São Paulo:
Scritta, 1996) registra como lugar de "histórias
reais, narradas dentro de um estilo dramático,
marcadamente literário", com imagens
e alusões que facilitam o entendimento
do leitor:
A
sala tem o comprimento de um campo de futebol
e talvez o dobro da largura e é riscada
por fileiras de mesas metálicas,
todas da mesma cor, cada qual com um telefone
empunhado por um repórter falando
com suas fontes de informação
sobre os últimos rumores, relatórios,
alegações, ameaças,
roubos, estupros, acidentes, crises, problemas – é a
Sala dos Problemas e do mundo inteiro,
via cabos,telex,telégrafo ou telefone,
as notícias sobre os problemas mundiais
para ali convergem, hora após hora:
desastre no Danúbio, agitações
na Tanzânia, perigo no Paquistão,
estremecimentos em Trieste, boatos no Rio,
o cenário de Saigon, golpes de Estado,
fontes bem informadas disseram, problemas
africanos, OTAN, SEATO, Sukarno, Shianouk – e
Whitman sentado, tomando seu chá no
fundo da sala, prestando pouca atenção
a tudo isto; só lhe interessa o
fato "derradeiro". Está escolhendo
as palavras que usará quando aqueles
homens finalmente morrerem..."
O
personagem de Talese sabe que "a morte pega
o homem de surpresa", como escreveu La Fontaine,
por isto ele mantém seus arquivos
em dia, embora jamais permita que pessoa
alguma leia seu próprio obituário".
"Aquele
que lê seu próprio obituário
jamais voltará a ser o mesmo", diz
um personagem citado pelo cronista.
Mas
ele mesmo conta a história de constrangedores "vazamentos" de
obituários que ao invés de
aborrecerem os "homenageados", apenas os
divertiram:
"Ernest
Hemingway adorou ler as notícias dos
jornais referentes a sua morte num desastre
de avião na África...alguns
jornalistas, não confiando talvez
nos colegas, escreveram seus próprios
obituários antecipados. Um desses
necrológios antecipados, escrito por
um repórter do "Daily News", de Nova
York, chamado Lowell Limpus, foi publicado
com o seu próprio nome naquele jornal,
em 1957, e começava assim: "Esta é a última
das oito mil e setecentas reportagens que
escrevi para o "News". É a derradeira
porque morri ontem...Escrevi meu próprio
obituário porque conheço melhor
o assunto que qualquer outra pessoa e prefiro
vê-lo sincero do que floreado..."
Embora
este artigo não tenha o objetivo de
tratar da morte do governador Covas, já que
nos referimos ao estilo literário
de Gay Talese, não custa imaginar
o que diria o personagem de Machado de Assis,
em "Memórias Póstumas de Brás
Cubas", ouvindo a lenga-lenga de Paulo Maluf
sobre Covas nas ante-salas do Incor...
No
jornalismo e na literatura, assim como entre
o céu e a terra, há muito mais
que os aviões de carreira!
*
Pedro Celso Campos é professor de
Jornalismo na Unesp de Bauru-SP.