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A comunicação no espaço do sagrado, hoje

Discurso e Recepção

Resumo

Este estudo analisa a função do mito na esfera do discurso religioso, fazendo um recorte entre o "auditório" dos tempos bíblicos e as condições atuais de recepção. Através de breve análise, tenta-se mostrar que ocorreram variações específicas no modo de anunciar o sagrado, preservando-se a essência da mensagem. Trata-se de refletir com os comunicadores católicos que tipo de mensagem o auditório espera hoje e como ela deve ser transmitida para atingir a persuasão tanto no sentido de evitar a evasão de fiéis, como de conquistar novos adeptos.

Palavras-chave: Discurso – orador – persuasão – mito – rito

Comunicar não é o único objetivo de quem opera o recurso da palavra no espaço do sagrado. Ao anunciar a palavra, aqui tomada como representação da doutrina, o pregador comunica o enunciado da fé e, em seguida, utilizando elementos retóricos, exercita a arte da argumentação para persuadir, converter, mudar a conduta do seu público-alvo.

Em resumo de poucas palavras, esta é a preocupação da Igreja através dos tempos e este será o assunto deste artigo: como comunicar a palavra neste final de milênio para obter um nível maior de persuasão.

É na metalingüística do texto bíblico que vamos encontrar a fonte da qual jorra em abundância o discurso religioso. A catequese é exatamente a adaptação desse texto – na verdade vários textos escritos ao longo de cinco séculos – às circunstâncias históricas onde ele é pregado.

Adaptar ( ou "inculturar", como quer o Concílio Vaticano II – 1961-1964) a pregação a cada povo, a cada religião, a cada época, a cada cultura, é levar em conta a Teoria Estética da Recepção, em que Jauss ( 1994, p.22-3) concebe o texto como objeto histórico, cabendo ao receptor não a simples condição de interpreta-lo com base na sua classe social ( como defendia a escola marxista , nem de enfrentá-lo e desvendá-lo filologicamente como pontificavam os formalistas. Para Jauss, o papel do receptor é muito mais expressivo: ele não é objeto nem sujeito do texto; é co-autor, na medida em que influi, determina, aponta os caminhos do fio condutor lá na contexto de produção.

Os exegetas recorrem à ciência para mostrar que os textos bíblicos foram escritos por homens, porém, sob inspiração divina. São textos que contam a vida dos povos por meio de seus costumes, suas leis, suas conquistas, suas derrotas, suas virtudes e suas depravações.

Não seria diferente se a Bíblia fosse reescrita hoje, com os redatores usando computadores e Internet.

Para Jauss ( 1994,p.22-3), um texto permanece e se eterniza quando o receptor sente-se presente e representado nele.

Neste final de milênio, quem não se emociona com o Sermão da Montanha? Quem não se envolve com a narração da Paixão do Senhor ? Quem não se questiona diante do Mistério da Santa Ceia ( "...tomai e comei, este é o meu corpo..." "....estarei convosco até a consumação dos séculos" ) ou da Ressurreição ( " Ele não está aqui...") ?

Se o texto mantém sintonia com a mente e o coração do homem, onde quer que esse homem esteja, seja qual for o seu código lingüístico, se esse texto é de inspiração divina, como não haveria de comunicar com tanta força, passados vinte séculos?

Se tem forte poder de comunicação, o texto bíblico só precisa ser anunciado. É aí que entra o operador do discurso. Não para dar eficácia ao texto, mas para facilitar o seu entendimento através dos recursos da retórica e da argumentação, adaptando, contextualizando, inculturando.

Para Perelman (1970), autor da Nova Retórica, aquele que argumenta busca obter a adesão do auditório ao qual se dirige, seja o auditório particular ( com número limitado de ouvintes ), seja o auditório universal ( da televisão, da Internet etc ). Também o Pe. Antonio Vieira, lá no seiscentismo barroco, ensinava que não se consegue persuadir nem converter pessoas sem que o próprio pregador "entre com o concurso da pessoa", isto é, do exemplo, para corroborar e reforçar sua argumentação.

"Assim como Deus não é hoje menos onipotente, assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que antes era...porque não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus?" ( Vieira, 1974,p.26).

Ele mesmo ensina que a eficácia da palavra depende do pregador ( persuadindo), do ouvinte ( entendendo ) e de Deus ( alumiando com sua Graça ).

No Sermão da Sexagésima, Vieira nos conduz por um exercício de lógica em que Deus não falta com sua Graça e o ouvinte, bem ou mal, compreende a mensagem, mas é o pregador quem falha quando o ouvinte não entende. E a maior falha está em pregar uma coisa e praticar outra.

Deduz-se, então, que a eficácia da comunicação, no espaço religioso, não é apenas uma questão de argumentação teórica, mas de coerência entre o que se prega e o que se pratica. Corre riscos de confundir o rebanho, mais eu esclarecê-lo e orientá-lo, aquele que prega sem fé, sem estudo, sem profundidade.

Guardadas as devidas proporções, ocorre no alvorecer do Terceiro Milênio um fenômeno que já se deu na passagem dos mil anos da Era Cristã.

A boa-fé do povo é iludida nessas ocasiões por todo tipo de "entendidos" que assumem sem escrúpulos o papel de intermediários entre o céu e a terra, arrogando-se poderes supranaturais que a muitos comove e a tantos arrasta.

Na televisão, no rádio, nas revistas, nos salões da periferia, na Internet, na Literatura, nos correios, no telefone...eles estão por toda parte anunciando-se como porta-vozes da Pedra Filosofal, o Grão Graal da felicidade.

Na última Bienal do Livro, em São Paulo, divulgou-se que os livros mais vendidos, hoje, em todo o Ocidente, são ligados, de alguma forma, à auto-ajuda e ao esoterismo.

Estamos diante de um "auditório" sequioso de explicações para as velhas perguntas da humanidade: Quem sou? De onde venho? Para onde vou?

A velocidade com que a informação trafega na mídia digital parece ter conferido ao homem conhecimento suficiente para acrescentar uma questão que talvez não fosse tão perturbadora no hermetismo dogmático da Idade Média: Porque tem que ser assim?

Num mundo regido pela mecânica da cumulação individual, onde são ignorados os interesses nacionais e até mesmo os laços de família, o homem acabou por se transformar em lobo do próprio homem, como temia Rousseau.

Violência, desemprego, drogas, crimes bárbaros, impiedade, ganância, usura, guerras, massacres, ridicularização da Ética e da Moral...o que falta para o retorno da barbárie depois de tantos anos de " civilização" nos quais se cultuaram, com pompa e circunstância, os valores do capital?

Se a lógica humana está falhando, se as ideologias não conseguem produzir um estado de bem-estar social, se a ciência não consegue responder satisfatoriamente a esse enorme "porquê" da humanidade, então o homem tende a buscar essa resposta em algum lugar que a ciência não alcança, onde reine o Absoluto, o Todo-Poderoso, o Incorruptível, o Onipresente, Aquele-que-É.

Com o "ouvinte-receptor" ansiando por esse tipo de resposta, e se essa resposta já está codificada nos textos bíblicos, o que falta aos operadores do discurso senão aplicarem as técnicas mais adequadas para conquistar a mente, o corpo e a alma de todos esses milhões, bilhões de pessoas?

É grande, pois, a responsabilidade dos que se dedicam a essa tarefa. Seria ilógico não preparar-se adequadamente para exercê-la

Ao longo dos séculos, entre as técnicas mais usuais de comunicação, está a utilização dos símbolos e ritos como elementos de representação do sagrado. Os ícones religiosos funcionam como ponte de ligação entre o texto sagrado e o imaginário popular. Por isto é possível estimular a fé, a piedade e a religiosidade do povo por meio dos ritos, das festas populares, das imagens e dos santos. Por dois mil anos essa técnica triunfou. Hoje vemos pregadores atuando no meio do povo, nas fábricas, nos assentamentos rurais, nas favelas, nos hospitais, nos presídios, na mídia...cada qual usando os mais diferentes meios de expressão para comunicar a palavra sagrada e para persuadir os ouvintes à conversão, à mudança de vida.

Embora seja apressado concluir, parece claro que toda e qualquer técnica de comunicação persuasiva nessa área funciona com resultados mais visíveis quando o discurso busca o impacto da "presença", algum tipo de interação entre um auditório/estúdio ( particular) de TV e o universo dos telespectadores ( auditório universal ), como a força de uma invocação, o gesto de mandar o ouvinte colocar um copo d´ água ao lado do aparelho de TV, um depoimento pessoal que se relacione diretamente com os problemas e anseios do público-alvo etc.

Não por nada tantas seitas e denominações cresceram de forma espetacular a partir dos anos 60, no Brasil, quando foram ao encontro do homem que deixava os campos em busca do conforto e das oportunidades oferecidas pelas cidades,com a industrialização.

Essas instituições perceberam que o homem recém- chegado da zona rural instalava-se na periferia e sentia-se envergonhado de freqüentar bancos de igrejas amplas e decoradas, onde seria apenas objeto de olhares curiosos por não estar, talvez, trajado "adequadamente".

Instalando-se na periferia, essas seitas acolheram esse "irmão" em "salões" simples, onde ele era recebido na porta com um abraço, sendo visitado em casa, durante a semana, pelo missionário que também tentava ajudá-lo a encontrar emprego e até amigos nesse novo e estranho meio.

A técnica da "presença" não poderia ser menos poderosa quando o missionário desfiava diante do povo as angústias e sofrimentos de cada dia que esse povo enfrentava, estabelecendo-se uma empatia perfeita que chegava ao paroxismo quando, em altos brados, como numa catarse coletiva, todos eram incentivados a bradar: " Em nome de Jesus"..."Amém"..."Aleluia"....

É essa técnica que se usa nos presídios: pregadores falando horizontalmente a mesma linguagem de seus irmãos sentenciados operam verdadeiros milagres de conversão que muitas vezes é sincera, se acreditamos que para Deus nada é impossível.

Afinal, como ensinava Vieira, Deus continua tão onipotente como antes. Resta pregar com Fé, com Garra, com amor, com fogo no peito a palavra daquele que foi o maior dos comunicadores e que ensinou:

" Eu vim para atear fogo ao mundo. Que mais posso querer senão que ele se acenda?" ( Lucas, 12-49).

Referências Bibliográficas

JAUSS, H. R. "A História da literatura como provocação à teoria literária". São Paulo:

Ática, 1994

PERELMAN, C. "Traite de L`argumentation: la Nouvelle Rethorique. 2.ed. Bruxelas: CUB,

1970.

VIEIRA, Pe. A. "Sermões". São Paulo: Editora Três, 1974

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