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O CASO DAS "COLUNAS DE CONSULTA"

Prof. MS Pedro Celso Campos

É redundante afirmar que o jornalismo é uma atividade social voltada para o serviço coletivo. Jornal que não vive para servir, não serve para viver. Apesar da polêmica diante das demandas corporativas e empresariais que envolve essa caríssima atividade industrial e competitiva do mercado, não se pode ignorar o largo espaço de serviço que muitos veículos de comunicação ocupam com seriedade e dedicação, sempre pensando, naturalmente, em conquistar novos leitores ou novos ouvintes. Por isto os jornais apresentam um variado leque de opções na forma de cadernos especializados de modo a atingir um público diversificado nos mais diferentes segmentos.

Muitas pessoas encontram no jornalismo sério a sua única opção de se expressar e de se afirmar como cidadãs. Naturalmente é justo esperar que o jornalista não traia jamais essa confiança. Quando ele faz uma entrevista, por exemplo, tem sobre seus ombros a responsabilidade de representar - através do mandato conferido pela assinatura ou pela preferência do leitor – milhares de pessoas que gostariam de estar diante daquele entrevistado para fazer perguntas que interessam diretamente ao seu dia-a-dia.

Se é isto que se espera do bom repórter, não menos é o que se espera de editores, redatores, colunistas e demais profissionais que ficam na redação. Neste texto, queremos tratar, especificamente, dos colunistas que respondem às indagações dos leitores sobre questões tão pessoais e tão delicadas como saúde, sexo, relacionamentos, doenças graves etc. Na maioria são jovens que encaminham tais dúvidas servindo-se do anonimato. Por razões financeiras, por incompatibilidade com seus responsáveis, por compreensível constrangimento ou por tantos outros motivos, esses adolescentes, embora recorrendo ao anonimato, não teriam outro meio de se informarem e aguardam aflitos e ansiosos a resposta que o colunista dará às suas perguntas.

Infelizmente, porém, ainda existem profissionais irresponsáveis que confundem o desesperado recurso ao anonimato com a falta de seriedade dos missivistas, acabando por dar respostas evasivas ou até irônicas na certeza de que não poderão ser questionados ou cobrados por sua falta de ética. Outros até falsificam cartas de adolescentes para fazerem sensacionalismo e aumentarem as vendas.

Esta reflexão dirige-se aos estudantes de Jornalismo que pretendem respeitar seus futuros leitores, acolhendo com seriedade não só os interesses dos poderosos de plantão, mas também a humilde súplica do excluído, do marginalizado, do adolescente socialmente constrangido. É com essa parcela de futuros profissionais que se fará um jornalismo decente e útil para o país. O resto...é o resto.

Vamos à aula.

Com apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef, a Agência de Notícias dos Direitos da Infância-ANDI, sob a coordenação do Ministério da Saúde, realizou, entre 2001 e 2002, o projeto "A Mídia como Consultório? – Uma análise técnica e jornalística das perguntas e respostas sobre saúde e comportamento veiculadas pela mídia impressa e eletrônica". Conforme os pesquisadores, "a cada dez minutos um leitor, ouvinte ou telespectador procura a mídia para esclarecer suas dúvidas e abrir seus problemas íntimos. São, ao todo, quatro mil perguntas enviadas por mês às principais seções de consulta do país. Das questões com idade identificada, 47% são formuladas por adolescentes de 13 a 17 anos. Destas, a maioria trata de dúvidas relativas a questões psicológicas e de relacionamento".

Daí a importância de estudar as chamadas "Colunas de Consulta", onde o bom profissional pode prestar relevantes serviços de orientação à cidadania se estiver atento aos pressupostos éticos e à melhor técnica de atender à indagação dos jovens.

A pesquisa analisou uma amostra de 59 Colunas de Consulta de 33 veículos, tanto da Grande Mídia como da Mídia Jovem, veiculadas entre os meses de setembro de 2001 e março de 2002. Dessas edições foram extraídas 1326 perguntas e respostas sobre os temas DST/Aids; Drogas; Família; Gravidez; Saúde em geral; Saúde reprodutiva e sexual; Sexualidade; Questões psicológicas e de relacionamento; Educação sexual; Orientação afetivo-sexual e Violência.

Para cada conjunto de pergunta/resposta, observou-se sistematicamente:

-idade, sexo, cidade e identificação (ou não) do autor da dúvida e a identificação e especialidade dos colunistas (ou consultores)

-foco da pergunta

-tipo de enfoque das respostas

-se havia a indicação de serviços

-se mencionava ações de protagonismo

-se falava em prevenção

-se apresentava conseqüências

-se apresentava mais de um caminho a ser seguido diante da dúvida levantada

-se era normativa

-se discutia gênero.

QUEM PERGUNTA

O levantamento mostrou que é importante preservar a identidade de quem pergunta, mas é necessário saber a idade: "A idade ajuda a imaginar o que vai na cabeça de quem pergunta e, junto com outras informações, sobre a situação, permite compor o contexto da dúvida, captar o não-dito, as entrelinhas. A resposta não será lida apenas por quem perguntou. Os outros leitores precisam saber se aquela resposta também se adequa a eles", advertem os organizadores da pesquisa.

Um sintoma de que muitas respostas acabam sendo genéricas e aleatórias é o fato de que 66% das perguntas não trazem nenhuma identificação sobre a idade do autor. Entre as perguntas que incluíam idade, os analistas observaram que 3% são feitas por quem tem entre 10 e 12 anos; 48% entre 13 e 17 anos; 29,5% entre 18 e 25 anos e 19,5% com mais de 25 anos. Também se observou que a concentração das questões ocorre na faixa etária em que normalmente se dá a iniciação da atividade sexual no país.

Observando o artigo 17 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), 79% dos veículos protegem o anonimato de quem faz a pergunta, recorrendo a iniciais e eliminando toda informação que possa levar à identificação. Muitas vezes é preciso eliminar até o nome das cidades pequenas, o e-mail etc.

As mulheres são as que mais perguntam (65,1%), sendo elas, preferencialmente, o público-alvo das Colunas de Consulta. Os pesquisadores observam que "a escassez de revistas de comportamento voltadas para adolescentes meninos é um dos fatores que faz com que busquem informações sobre sexualidade em revistas masculinas adultas como Playboy e Vip, que tratam o sexo dentro de um viés fortemente erotizado". Eles ainda observam que apesar dos homens também terem suas dúvidas e seus problemas na área de saúde e sexualidade, eles sentem-se socialmente menos encorajados a assumirem suas dúvidas e angústias, resultado de uma cultura machista.

Um aspecto interessante que o levantamento mostrou revela que se a maioria dos que perguntam são mulheres, a maioria dos que respondem são homens: 62,1%. Talvez por isto apenas 0,5% das respostas se refere aos papéis masculinos e femininos. A recomendação é que especialistas, homens ou mulheres, passem a se preocupar com a abordagem de gênero. Por exemplo, parabenizando o rapaz que pergunta sobre anticoncepção (pois este já se preocupa com a responsabilidade de uma gravidez para o casal), lembrando de trazer informações sobre a camisinha feminina, quando possível, além da masculina, fazendo referência ao prazer da mulher – não apenas ao do homem. Além de ser dada mais voz à mulher, é importante aumentar a consistência das informações relativas aos seus papéis e direitos, às negociações e à divisão de responsabilidades.

QUEM RESPONDE

O trabalho apurou que os veículos repassam a especialistas (médicos, psicólogos etc) a tarefa de responder às indagações dos leitores.Isso acontece em 63% dos casos, proporcionando algum tipo de democratização da mídia na medida em que ela abre espaço para especialistas não portadores de diplomas de jornalismo. Cabe a tais profissionais usarem com seriedade tal espaço, ao invés de transformá-lo em mera oportunidade de marketing profissional, pessoal ou corporativo.

O mais preocupante, entretanto, segundo os pesquisadores, é que 33,2% das respostas são dadas pela própria redação, meta das quais sem citar sequer um especialista. "Como estarão sendo construídas essas respostas? Virão elas da cabeça de um jornalista que, com maior ou menor bom senso, lança-se no escuro ao desafio de aconselhar? Terão sido elas apuradas, mas, ao contrário do que recomenda a prática jornalística, não foram indicadas, nem nomeadas as suas fontes?", indagam.

Na Mídia Jovem (veículos dirigidos aos adolescentes) é maior o percentual de respostas assinadas por não especialistas: 41,7% contra 33,7% da Grande Mídia. Escrever para um público em fase de formação exige cuidado redobrado, alertam os estudiosos do assunto, remetendo para uma pesquisa do Unicef que escutou 5.280 jovens de todo o Brasil, concluindo que a mídia é a terceira principal fonte de informação quando o assunto é sexualidade. É importante que as revistas e suplementos para adolescentes se conscientizem desse papel e estejam atentos aos conteúdos das Colunas de Consulta.

Utilizar esse espaço de aconselhamento como uma conversa informal, um papo entre amigos, ou mesmo uma brincadeira literária ou sátira, só é lícito se isso ficar muito claro e caracterizado para o leitor/espectador/ouvinte: "Mesmo assim é discutível a forma desrespeitosa com que muitas vezes se tratam os sentimentos do autor da pergunta. É também injustificável o descompromisso com a correção da informação, sobretudo quando se considera a responsabilidade inerente que se tem ao falar com o adolescente.

Quando a resposta será dada pelo jornalista, o resultado para quem pergunta será tanto melhor quanto mais acertada for a escolha do especialista que o jornalista consultar para elaborar seu texto-resposta. O colunista precisa saber a quem deve dar voz em cada caso específico:se ao ginecologista, ao sexólogo, ao hebeatra (médico especialista em adolescência) ou ao oncologista (especialista em câncer).

O que se defende, paras um bom jornalismo nessa área de aconselhamento, é uma parceria entre o profissional da imprensa e o especialista, um com a habilidade do texto adequado ao jornal e ao seu público-alvo, o outro com o conhecimento técnico adquirido na prática específica do consultório.

A BOA TÉCNICA

Para quem deseja prestar bons serviços aos leitores na área de aconselhamento, a ANDI dá as seguintes orientações:

-Escrever como se estivesse falando com a pessoa que fez a pergunta.

-Não se preocupar em usar comparações inusitadas para o meio científico. O compromisso é se fazer entender.

- Responder o que foi perguntado sem se preocupar em esgotar o assunto.Isto é impossível em dez linhas.

-Mesmo ao responder uma pergunta simples, o jornalista deve passar a informação mais atualizada.

- Quando se referir a dados e pesquisa, deve-se identificar claramente as fontes.

- Ter consciência das limitações da consulta genérica e da distância da coluna e, ao mesmo tempo, considerar não apenas o autor da pergunta, mas também todos aqueles que vivem uma situação semelhante.

- Só utilizar gírias quando estiver seguro. Boas respostas não precisam de gírias ou brincadeiras para serem entendidas pelos adolescentes. Pode-se desenvolver uma abordagem lúdica, sem exageros. Lembrar que a credibilidade da sua mensagem está na intenção de ajudar o leitor/ouvinte/telespectador, na coerência e na atualização das informações apresentadas.

- Não encarar a Coluna de Consulta como um trabalho menor.É uma oportunidade de perceber o público e sua interação com a mídia e, por outro lado, uma chance de conhecer uma ampla gama de assuntos.

- Mesmo a mais curta das respostas implica em um trabalho completo de reportagem, que pode envolver apuração com diversas fontes e a realização de mais de uma entrevista. Todo jornalista que já pilotou uma coluna de notas sabe muito bem o trabalho – aparentemente desproporcional – que isso dá.

- Buscar livros de referências e fontes que lhe permitam situar-se rapidamente no panorama de cada novo problema em questão.

- Fazer um roteiro de perguntas a serem esclarecidas para bem responder à questão, sem cometer erros conceituais (por exemplo, confundir um vírus com uma bacteria). Não suponha que você sabe: reveja, consulte, cheque.

- Em assuntos polêmicos, buscar uma segunda opinião de alguém com outra formação ou especialidade.

- Em geral os eventos das categorias de saúde são franqueados aos jornalistas: participe de encontros, simpósios, conferências etc. Ali pode-se obter informação atualizada e fazer contatos.

- Organizar textos, xeroxes e e-mails de forma a ter seu próprio banco de dados.

- Nas entrevistas com especialistas, deve-se usar a técnica da repetição até que os conceitos estejam plenamente compreendidos.

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