Muito
antes de ser informativo ou interpretativo,
o jornalismo foi opinativo,
como se vê no panfletismo ideológico
da Revolução Francesa. Na segunda
metade do Séc. XIX e nas primeiras décadas
do Séc. XX, o atual jornalismo empresarial
dos EUA não destoava de escolas jornalísticas
da época, como a francesa e a inglesa:
praticava-se um jornalismo muito mais opinativo
e tendencioso que informativo. O veículo
era usado apenas para manipular os fatos de acordo
com os interesses do grupo ou da família
proprietária do jornal, como ainda ocorre,
em pleno alvorecer do Terceiro Milênio,
em muitas cidades do interior do Brasil.
Estudantes
de jornalismo escandalizam-se, às
vezes, com o vexame diário ou semanal
de jornais de suas cidades que se agridem abertamente
porque um é do partido do prefeito e outro é da
oposição. O leitor é usado
apenas como massa de manobra enquanto lê xingamentos
de um lado e elogios do outro. É um vale
tudo à moda antiga.
Nos
anos 30, com o bom êxito
do jornalismo interpretativo nascente, os dirigentes
de jornais observaram que tinham em mãos
um negócio de futuro. Assim os jornais
foram se profissionalizando e se organizando
em empresas bem estruturadas.
Cada
gênero passou a ter
sua valorização específica.
A notícia ganhou formato de indagação
imparcial sobre os fatos, condensando no lead tudo
o que era preciso para prender a atenção
do leitor interessado na informação.
A
reportagem mais profunda procurava interpretar
a realidade consultando especialistas
nos assuntos tratados e esclarecendo as origens,
as circunstâncias e as conseqüências
do fato.
Mesmo
o gênero recreativo,
voltado para o lazer do leitor, ganhou espaço
destacado e colorido nos cadernos especializados
ou mesmo nas crônicas do primeiro caderno,
ou ainda no próprio estilo de escrever
com graça e humor.
O
opinativo ganhou a página
dois para o editorial da empresa, além
de artigos assinados. Colunas e demais textos
assinados, em todo o jornal, revelam a característica
de um texto voltado para a persuasão opinativa.
As próprias agências passaram a
enviar despachos devidamente assinados pelos
seus melhores repórteres. Os jornais distribuíram
correspondentes que passaram a enviar matérias
opinativas.
A
opinião, no sentido
ideológico, perpassa, na verdade, todo
o processo jornalístico. A seleção
do que publicar a cada edição envolve
opções assim descritas por Schramm
e Porter ("Men, Women and Media: Understanding
Human Communication", em R. S.Wurman, "Ansiedade
de informação". São Paulo:
Cultura, 1991): "A mídia de massa
seleciona e processa informação
para torná-la disponível o mais
depressa possível. Essa seleção
lhe dá o controle do fluxo de informação
que circula pela sociedade. Os pontos de controle
estão em todos os níveis, indo
do repórter que seleciona os fatos, ao
editor que decide o que eliminar, ao cameraman que
escolhe para onde apontar a câmara, ao
editor de vídeo que deixa uma parte desse
material no chão da sala de corte. [...]
Em nenhuma outra parte esse processo de seleção é tão
dramático como na atividade jornalística.
Um jornal que receba notícias da Associated
Press tem perto de 1 milhão de palavras
para escolher apenas dessa fonte".
O
processo de edição – permeado
de opinião, como se vê – tem o objetivo
de "apresentar um cardápio de notícias
ocorridas em tempo recente, permitindo ao leitor
compreender o que ocorre em seu mundo" (SERVA,
Leão. "Jornalismo e Desinformação".
São Paulo: Senac, 2001).
No
entanto, no que se refere ao instante de confecção do texto,
não raro há dúvida se o
texto assinado ou editorial deve refletir a opinião
do autor ou a opinião geralmente aceita
para o caso. São coisas distintas. (Virou
folclore a triste história do jornalista
Alcindo Guanabara, do Jornal do Commércio,
do Rio, que, ao receber a tarefa de escrever
um artigo sobre Cristo na Semana Santa, indagou
ao diretor: "A favor ou contra?"). Quem escreve
a crítica sobre uma nova peça de
teatro ou a reportagem sobre um ator cômico
deve ter compromissos com o teatro, não
com a peça em si ou com aquele ator em
particular, exemplifica Nilson Lage, em "A
reportagem: teoria e técnica de entrevista
e pesquisajornalística". (São
Paulo: Record, 2001). No caso de um comentarista
político, em outro exemplo, "afastando-se
aparentemente da objetividade narrativa, ele
procura, na sua análise, e apesar da impressão
em contrário que possa produzir, uma precisão
maior. Cabe-lhe tentar a captação
de todos os fatores, de todas as circunstâncias
em que se desenrola e se desdobra o acontecimento",
ensina Carlos Castello Branco. Geralmente
o repórter já "tarimbado", já conhecido
do público, sente-se mais seguro e com
melhores credenciais para emitir opiniões
e conceitos (como faz Joelmir Betting na área
econômica), enquanto o iniciante deve ter
a prudência de calçar seus argumentos
com referências a especialistas, praticando
mais a interpretação enquanto vai
ganhando fôlego para a grande responsabilidade
de colocar o nome em jogo num texto opinativo
que é uma espécie de "vôo
solo" no jornalismo. Para os pilotos o "vôo
solo" é o momento do tudo ou nada na profissão
de aviador. É acerto consagrador ou erro
desastroso. Por isto os instrutores só deixam
o aluno "solar" quando está devidamente
preparado. Imaginar que emitir opiniões
assinadas num jornal é menos perigoso
que pilotar um avião como aprendiz, sozinho, é ledo
engano. A palavra publicada é uma arma
poderosa e fatal. Engrandece ou aniquila, eleva
ou derruba, estimula ou desanima. Uma vez publicada,
a palavra não volta mais, por mais que
se retifique. Sem contar que opiniões
desastradas podem bater de frente com a opinião
geral da empresa. Seria acreditar no Coelhinho
da Páscoa ignorar que o jornal é um
negócio destinado a dar lucro e que a
notícia é, realmente, um produto à venda,
como na definição ontológica
de Cremilda Medina.
Luiz Amaral confirma
que "o colunista não pode ser, de forma
alguma, um jornalista inexperiente...ele não
pode ficar, jamais, no subúrbio da notícia".
Significa que opinará com mais segurança – e
assim prestará melhor serviço de
orientação ao leitor - o colunista
que tiver as melhores fontes e que reunir condições
de respeito e confiabilidade para circular nas
salas e ante-salas de ministérios, autarquias,
embaixadas, grandes empresas, sindicatos, reuniões
sociais etc Sobre a importância do colunismo
dentro do gênero Opinativo, embora criticando
a arrogância de alguns que se consideram "o
sal da terra", lembra Luiz Amaral que " homens
de negócio, publicistas, ministros e governadores
não passam sem a leitura de sua coluna preferida,
quando não duas ou três". E explica
porque: "O motivo desse prestígio é que
a coluna não é o resumo
dos principais acontecimentos do dia, mas "a
explicação íntima desses
fatos, o dado que faltou ao grande noticiário
e que não chegou ao conhecimento do público,
o lado pitoresco do acontecimento, o detalhe
curioso, a história particular de cada
decisão. O colunista concorre com o repórter,
o comentarista e o redator. Do primeiro, há que
ter o gosto pelo furo, da notícia
em primeira mão; do segundo, a sagacidade,
a agudeza de espírito, a perspicácia
de dizer o máximo com o mínimo
de palavras. E a tudo isto somar o bom-humor
constante e a originalidade, a fim de tornar
sua coluna um lugar sempre atraente".
2.
TIPOS DE OPINIÃO
Procurando
explicar melhor os gêneros Opinativo
e Interpretativo, Mário
Erbolato registra as seguintes particularidades
no seu clássico "Técnicas de
Codificação em Jornalismo – Redação,
Captação e Edição
no Jornal Diário. São Paulo:Ática,
1991):
1ª) A meta do Jornalismo Interpretativo é aquela
que o termo sugere: clareza e ilustração,
inclusive recorrendo a opiniões de especialistas.
Este gênero tornar-se-á falso e
enganoso se for usado para dirigir ou condicionar
a opinião do público.
2ª) Os editoriais podem, legitimamente,
esclarecer, ilustrar opiniões, induzir
a ações e até entreter.
O editorial é institucional. É o
pensamento oficial do jornal. A notícia
interpretativa é ponto de vista de quem
organiza o texto e de quem decide ouvir este
ou aquele especialista para ilustrar a matéria.
Para Rabaça
e Barbosa,
citados por Elisa Kopplin e Luiz Artur Ferrareto,
em "Assessoria de Imprensa - Teoria e Prática".
Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1993), "interpretar é contextualizar
para tornar a informação mais explícita.
Opinar é fazer juízo do assunto, é emitir
ponto de vista a respeito".
Embora
tênue, a fronteira
entre o Interpretativo e o Opinativo existe.
Essa fronteira deve ser respeitada. Não
importa a opinião do jornalista sobre
determinado fato quando lhe toca interpretá-lo.
Todavia, se quiser opinar a respeito, escreverá um
artigo assinado. Se vai opinar em nome da empresa,
escreverá um Editorial.
Para
esclarecer um pouco melhor essa questão de gêneros,
recorramos ao exemplo citado por Ricardo Noblat em "A
Arte de Fazer um Jornal Diário" (São
Paulo: Contexto, 2002) :
O
Brasil estreou na Copa do Mundo de 2002 vencendo
a Turquia por 2 a 1. Zagallo,
ex-técnico da seleção, escreveu
o seguinte a propósito do jogo:
O
jornal argentino "Olé" tenta
ridicularizar o Brasil de toda maneira.Vai debochar
de novo, dizendo que só vencemos graças
ao juiz. Realmente, não houve pênalti,
mas é melhor ganhar com os pés
do que com as mãos, como naquele gol de
Maradona em 1996.
(...)
O Brasil ainda não
conseguiu se definir por um sistema. Estamos
meio confusos.
(...) Apostei que Ronaldo se
destacaria e acertei. Ele precisava desse gol.
O
que escreveu Zagallo foi um artigo. Ele deu
sua opinião a respeito
do jogo. Valeu-se, para isso, de elementos de
análise e de interpretação.
Mas tais elementos serviram unicamente para sustentar
seus pontos de vista. O jornal espanhol "El País" publicou
extensa matéria sobre o mesmo assunto.
A certa altura, depois de ter descrito os principais
lances do jogo, o repórter escreveu:
O
Brasil sempre joga duas partidas. Uma contra
seu rival do momento; a outra contra
a memória de suas grandes equipes. Por
isso, o nível de exigência é superior
ao de qualquer outra seleção. Olhando-se
bem, frente à Turquia a seleção
brasileira foi protagonista constante no jogo
e teve um bom número de oportunidades
de fazer gols. Mas isso não foi suficiente.
A história cobra dos brasileiros algo
parecido com a perfeição.
Aí não temos opinião.
Temos interpretação. O autor da
matéria não se limitou a descrever o
jogo (como se faz num texto meramente informativo,
grifo do professor). Sublinhou a superioridade
da seleção brasileira "que foi
a protagonista constante (...) e teve um bom
número de oportunidades de fazer gols".
Mas destacou que do Brasil sempre se cobra algo
próximo da perfeição devido à sua
trajetória nas Copas e ao número
de títulos conquistados. Por isso, ele
joga duas partidas quando está em campo:
contra seu eventual adversário e contra
seu passado de glórias.
Interpretar é explicar; é estabelecer
conexões entre fatos presentes e passados",
conclui Noblat, lembrando que, por vezes, a interpretação
adequada pode ajudar na tentativa de antecipar
o futuro, de mostrar a tendência, o rumo
que os acontecimentos poderão tomar. Nisto
o jornalismo impresso poderá se diferenciar,
claramente, da mídia eletrônica.
Enquanto
na matéria interpretativa
o texto leva o crédito do autor, o editorial é anônimo,
embora de responsabilidade do diretor ou redator-chefe.
No
entanto Luiz Amaral (1997) adverte: " Independentemente da posição
assumida pela empresa e da formação
filosófica do comentarista, que, ao menos,
o texto (editorial) seja assentado em princípios
morais, no respeito à pessoa humana e à sua
vida privada. Injúrias, ofensas e agressões
pertencem ao panfleto. O pior defeito do editorial é o
ataque pessoal e se conhece logo o mau editorialista
quando procura esse caminho fácil".
Opina-se,
então, nos
editoriais, nas colunas, nas crônicas,
nos artigos, nas cartas dos leitores e, também,
no modo de apresentar a matéria, no corte
de uma foto, no destaque escolhido para cada
parte da matéria, afinal, emitem-se opiniões
de mil e uma maneiras.
Segundo Luiz
Beltrão
("Jornalismo Opinativo". Porto Alegre: Sulina,
1980) " o jornal tem o dever de
exercitar a opinião: ela é que
valoriza e engrandece a atividade profissional,
pois, quando expressa com honestidade e dignidade,
com a reta intenção de orientar
o leitor, sem tergiversar ou violentar a sacralidade
das ocorrências, se torna fator importante
na opção da comunidade pelo mais
seguro caminho à obtenção
do bem-estar e da harmonia social".
Do
ponto de vista legal, entre outros modos de
ver o impresso, está muito
presente, no jornal, a opinião estética
ou ideológica. Ela é muito mais
forte que a opinião explícita,
porque ninguém dúvida do poder
de comunicação da imagem como ícone
não verbal que atinge até mesmo
os iletrados.
Por
isto a Lei 5.250 (Lei de Imprensa) consagra,
no Direito de Resposta, a
utilização do mesmo espaço,
da mesma localização na página,
do mesmo corpo e dos mesmos recursos gráficos
usados na matéria considerada ofensiva.
Também por isto os jornais
procuram agir com imparcialidade ouvindo todos
os lados e dando o mesmo espaço nas matérias
mais polêmicas ou potencialmente explosivas
como ocorre, por exemplo, em períodos
eleitorais.
A
posição de uma
matéria na página conota opinião.
O
tamanho da foto ou o conteúdo
dela conota opinião.
O
corpo usado no título é opinião.
A
chamada de primeira página,
em muitos casos, passa opinião. Não
por seu conteúdo, mas por estar ali, valorizando
a matéria lá dentro do jornal.
Era
opinativo (e denotava protesto) o espaço em que o Estadão publicava
receitas de bolo ou versos dos Lusíadas
em substituição a textos proibidos
pela censura durante a ditadura militar.
É opinião reeditar
o debate de Lula e Collor às vésperas
do pleito de modo a valorizar um e ridicularizar
o outro.
É opinião destacar
o celular na cintura dos líderes de oposição
no Protesto dos Cem Mil em Brasília (como
se os líderes da situação
não usassem celular ) ou reduzir o número
dos participantes sem critério justo.
É opinião ignorar
a pressão dos "caras-pintadas" a favor
do impeachment de Collor fingindo que
nada está acontecendo, como fez a Globo.
É opinião embarcar
na arrogância americana de agir como xerife
do mundo na caça aos terroristas, sem
contextualizar, sem ouvir as demais vozes participantes
do processo que resulta em notícia.
São muitos modos de opinar
que o leitor comum muitas vezes não compreende
e não percebe. O leitor - e mesmo os repórteres
iniciantes - não tem como imaginar o que
se passa entre a direção do jornal
e as pessoas influentes dentro do governo, do
mercado etc. Às vezes para salvar o jornal
da falência, às vezes por mera cobiça
ou por jogo de concorrência, negocia-se
a alma em centímetros de coluna nos fechados
gabinetes oficiais ou empresariais, enquanto
cobra-se ética a qualquer preço
dos repórteres. É nos editoriais
do jornal que certos negócios escusos
acabam se revelando, mas o grande público
não lê os editoriais, por isto não
sabe para onde caminha o jornal.
No
caso da cassação
de Collor todos sabemos que o motivo foi a anunciada
abertura de um jornal em Maceió que teria
PC Farias como testa de ferro mas, que, como
revelou Pedro Collor, na verdade era de Fernando
Collor. Se um presidente da República
precisa de um jornal para concorrer com o jornal
de sua própria família, é fácil
deduzir o poder de persuasão do meio impresso
nas campanhas políticas. Nem é preciso
recordar que José Sarney e outros caciques
políticos como Quércia estão
sempre por trás de jornais de grande circulação
ou até mais de um, mesmo que o leitor
comum não perceba.
3.
CARACTERÍSTICAS
Deve-se
levar em conta a avaliação
de David Deitch, do Globe, de Boston (citado
por Luiz Amaral, em "A Objetividade Jornalística".
Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1996): "A função
do editorial é inerentemente tendenciosa,
os repórteres têm suas próprias
opiniões e os jornais,como qualquer instituição,
são entidades políticas".
O
público ao qual se
dirige é o definidor do estilo do editorial,
mas não do seu conteúdo. Acredita-se
que apenas 5% do universo de leitores de um jornal
lêem o editorial do dia. É um público
pequeno, mas exigente. Por isto o editorial é o
espaço do jornal onde se admite "norma
culta" no trato da linguagem. É onde o
redator brande a espada das palavras e frases
com a maestria do esgrimista, costurando argumentos
lógicos em busca da persuasão final.
O
uso da terceira pessoa é obrigatório.
Em sua tese de mestrado, defendida
em 1994 na Unesp-Bauru, a professora Sônia
deBrito, do Departamento de Comunicação
Social ("A Argumentação e a Perlocução
no Discurso Jornalístico: O Editorial") relata
três características básicas
do editorial:
a) Topicalidade: Trata
de tema bem definido
b) Condensalidade:
Poucas idéias, com ênfase maior nas afirmações
que nas
demonstrações.
c) Plasticidade:
Flexibilidade, maleabilidade, não-dogmatismo.
"A finalidade do Editorial é dirigir
a opinião pública, persuadindo
através de exortação, apelo,
aviso, palavra de ordem ou constatação
dos fatos", diz a pesquisadora. Ela também
ensina que "o editorial moderno não é apenas
opinião. Inclui análise e clarificação:
Expõe, interpreta, esclarece, analisa
padrões e significados da caótica
mistura de acontecimentos diários".
4.
TÉCNICAS
Tecnicamente
o editorial ou o artigo opinativo parte de
um axioma que será demonstrado
em toda a sua evidência, conforme o ponto
de vista do jornal (editorial) ou do articulista
(artigo assinado).
Comparando
a estrutura técnica
dos gêneros, pode-se afirmar que a notícia
informativa precisa conter basicamente as respostas
pertinentes ao Que, Quem, Quando. Mas o Interpretativo
e o Opinativo precisam aprofundar-se no Como
e no Porque, pois trata-se de argumentar para
chegar a uma conclusão lógica.
O
axioma a ser discutido pode ser inspirado numa
notícia ou declaração
do dia. Uma vez exposta a informação,
em curtas linhas, parte-se para a argumentação,
sobrepondo linhas de raciocínio cuja estrutura
vai depender do perfeito domínio do redator
sobre o texto.
Ao
final é preciso que
a argumentação caminhe para uma
conclusão sobre os pontos de vista defendidos
no texto, confirmando ou negando a tese por meio
da antítese. Num gráfico, a estrutura
ficaria assim:
INFORMAÇÃO
ARGUMENTAÇÃO
CONCLUSÃO
O
editorial "Prosperidade e
solidez nos EUA", publicado pelo Estadão
em 04/02/2.000, reflete bem essa estrutura de
persuasão. Baseando-se no noticiário
daqueles dias sobre o crescimento e a estabilidade
da economia americana, o editorialista abre o
texto reafirmando a informação: "Depois
de 107 meses de crescimento ininterrupto, a economia
dos Estados Unidos continua a exibir vigor e
solidez raramente vistos em qualquer outra época".
Em
seguida o autor entra na fase da argumentação, levantando
um debate sobre a situação. Esclarece
que o Banco Central Americano (Fed ) tem tido
o cuidado de administrar a economia mediante
ligeiras elevações das taxas de
juros, enquanto o mercado, através dos
aplicadores, tem aceitado papéis de 30
anos por um valor de face maior, o que significa
que o rendimento será menor. Exposta a
contradição, o editorial indaga: "Quem
está certo?". Ao final de ampla e bem
embasada argumentação, o editorialista
conclui que sua tese (o acerto das medidas do
Fed ) derruba a antítese levantada no
início (de que o mercado é que
estaria certo), ao concluir: "A longa prosperidade
também se deve à sólida
base proporcionada pelo Fed e pelo Tesouro, agentes
principais da política econômica".
5.
RECOMENDAÇÕES
Quem
vai trabalhar na redação
do jornal "O Globo", do Rio, por exemplo, recebe
as seguintes informações sobre
o gênero opinativo contidas no Manual de
Redação e Estilo, organizado por Luiz
Garcia e publicado em 1993 pela Editora Globo:
"Deve-se evitar, mesmo em textos
assinados, com exceção de momentos
muito especiais, o comentário que apenas
registra pasmo, admiração ou indignação.
Esses argumentos - principalmente o interesse
público ofendido - são importantes,
mas não bastam: precisam estar apoiados
em fatos e acompanhando argumentos lógicos
que conduzam a uma conclusão concreta".
E mais:
"As notícias do jornal
são a matéria-prima natural da
opinião, mas não a única.
O artigo ou editorial realmente útil suplementa
a notícia com pesquisa e informação
adicional. Sem isso, será difícil
escapar de observações superficiais
e conclusões padronizadas. A opinião
pode ser manifestada de forma leve, irônica
ou séria, seca; mas lhe é proibido
ser pomposa ou solene. Alguns textos do jornal
parecem usar roupa esporte; outros vestem terno
e gravata. O editorial está quase sempre
no segundo caso - mas não usa fraque,
beca ou toga".
Márcio
Moreira Alves (entrevista
a Luiz Amaral. Rio: 1965) confirma este ponto
de vista ao criticar o estilo editorial da imprensa
da época: "A falta de imaginação,
o desprezo pelo humor, o horror ao achado linguístico
ou argumentativo são características
dos editoriais da imprensa brasileira. As direções
partem do princípio de que só se
influi sobre a opinião pública,
chateando-a. Não se deixa a menor margem
para o sorriso. As opiniões são
lançadas como uma pedra que, do alto do
morro, devesse cair na cabeça do pobre
leitor desprevenido".